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Tiranias: as grelhas excel e os powerpoint

por Isabel Mouzinho, em 20.10.15

Quem, como eu, lida de perto com a escola de hoje sabe como ela é um universo cada vez mais complexo, e como podem ser verdadeiramente aberrantes as modas que se vão impondo, regra geral disfarçadas de "inovação pedagógica".

Vejamos o caso das grelhas Excel: instalou-se há uns anos e aos poucos foi ganhando contornos de quase ditadura, a ponto de se considerar que não há outra forma de avaliar alunos. Argumenta-se com a objectividade e a fiabilidade do método, que parte do pressuposto de que tudo é quantificável.

Valerá a pena, neste contexto, perder algum tempo a observar com atenção os critérios de avaliação das diferentes disciplinas, em diferentes escolas. Não são todos iguais, têm pequenas variações que vão das mais complexas fórmulas matemáticas às coisas mais hilariantes como, por exemplo, atribuir cinco ou dez por cento, ou outra percentagem qualquer, a coisas como "interesse" e "empenho", incluídas num item mais vasto que, quase sempre, se intitula "Atitudes". Gostava de saber como se pode quantificar o interesse e que instrumentos são utilizados para o "medir". Depois de obtidas as percentagens, introduzem-se todos os valores numa grelha Excel e, como diria Guterres, "é fazer as contas". E assim chega-se ao despropósito de a avaliação de um aluno, numa determinada disciplina, poder ser isto: P3=0,85.14,6+17,0+2x17,8+2x12,4+2x14,9+2x19,0/10 +0,1.0+16+14,5+14,5/4+0,05x10=15,208 - 15 valores. 

Quem o contesta é imediatamente olhado de lado. A máxima inerente é "toda a gente faz assim". De resto, hoje a ideia é cada vez mais fazermos todos tudo igual, para "não termos problemas" e perdendo-se aquilo que a vida toda fez de cada professor uma individualidade com nome e características próprias, que se esquece ou recorda para sempre, por boas ou más razões.Uns e outros não avaliavam os alunos desta maneira, nem sequer em nome de uma objectividade comprovadamente duvidosa. Como é possível reduzir a uma fórmula matemática o percurso de aprendizagem de um aluno? Onde fica, na frieza dos números, aquela margem de esforço e de sonho que os fez crescer como pessoas e não se pode quantificar? Porque há na escola um lado humano que tem que se ter em conta. Em tudo; e na avaliação também.

O rigor e a exigência não são, acho eu, nada disto. E qualquer professor minimamente sério e consciente do que faz é capaz de explicar detalhadamente a razão pela qual atribui determinada nota a un aluno, sem precisar de uma grelha Excel, ou de uma fórmula matemática. E depois, convenhamos, há na avaliação uma margem de subjectividade, que é incontornável e que deve ser assumida, sem qualquer peso na consciência ou sentimento de culpa.

Há também, além desta, a mania do "powerpoint", que se utiliza a torto e a direito, a propósito de tudo e mais alguma coisa, ou até sem propósito nenhum.

Hoje, não há aluno que, tendo que apresentar um trabalho oral, não venha acompanhado do inevitável "powerpoint", convencido que isso enriquece muito a sua apresentação e limitando-se até, em casos limite, a ler o que lá está escrito, ou a repeti-lo de cor. Muitos professores utilizam-nos também nas aulas - são em geral os mesmos que, em teoria, são contra as "aulas expositivas". E até as editoras, atingidas pela febre do "powerpoint" (ou as principais responsáveis pela sua generalização) oferecem-nos aos professores a propósito de mais diversas matérias de cada disciplina, chamando-lhes, pomposamente, "recursos."

É como se as palavras já não fossem suficientes. Ainda há menos de um mês vi, durante cinco quintas-feiras seguidas,uma sala do CCB encher-se para ouvir silenciosa e atentamente Maria Alzira Seixo falar de literatura. Sem PowerPoint. Apenas com sabedoria e com paixão.

Tenho a certeza que enquanto foi professora também não precisava das grelhas Excel para fazer a avaliação. E foi a melhor professora que tive na vida...


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