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Sim, Guillermo, ganhaste mesmo - desta vez não houve engano no envelope 

 

Apesar de dar alguma atenção aos prémios norte-americanos do cinema, não costumo esforçar-me para ver todos, ou sequer a maioria, dos filmes nomeados ao Óscar para Melhor Filme. Boa parte dos filmes nomeados, sendo (regra geral) pelo menos bons filmes, ou não me despertam interesse ou não me despertam interesse suficiente para pagar o bilhete de cinema (ou não estrearam ainda por cá, como aconteceu neste ano com Lady Bird, que só chegará às salas portuguesas nos próximos dias). Por norma, acabo por ver um ou dois - os nomeados de ficção científica ou fantasia, quando os há, e um ou outro filme que me chame a atenção. Inevitavelmente, é bastante raro ganhar um filme que eu tenha visto e pelo qual estivesse a torcer. Aconteceu nos prémios de 2004, que finalmente distinguiram a extraordinária adaptação cinematográfica de Peter Jackson a The Lord of the Rings com 11 Óscares para The Return of the King. Aconteceu em 2015, com o  Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) de Alejandro Iñárritu, que não sendo exactamente um filme de género aproxima-se um pouco daqueles territórios temáticos e tem um carácter referencial intrigante (para além de um Michael Keaton inspiradíssimo). E aconteceu em 2018, com o único filme nomeado que vi a conquistar a estatueda dourada: o belíssimo The Shape of Water de Guillermo Del Toro. 

 

É uma combinação curiosa: uma fábula fantástica enquadrada numa trama de espionagem do tempo da Guerra Fria, onde Del Toro actualiza inúmeras referências do cinema que o maravilhou noutros tempos (Creature of the Black Lagoon) e de contos intemporais (A Bela e o Monstro, e as suas múltiplas variações) numa história sobre uma mulher muda e para todos os efeitos invisível e o monstro proverbial, profundamente alienígena e ainda assim mais humano do que os homens que o mantém cativo e o torturam. Mais do que uma história de amor improvável, The Shape of Water é um filme sobre o carácter decisivo dos pequenos gestos, sobre a irrelevância das diferenças, sobre a coragem, sobre a empatia - algo tão em falta nos dias que correm. Juntamos a isto uma grande banda sonora, interpretações notáveis de um grande elenco (o prémio para Melhor Actriz Principal também teria sido bem entregue a Sally Hawkins, e chegará o dia em que se dará o devido valor às interpretações de actores como Doug Jones, eterno colaborador de Del Toro), e o virtuosismo técnico a que os filmes do realizador mexicano já nos habituaram, e temos um digno vencedor do Óscar. 

 

Não será, é certo, o melhor filme da sua carreira - essa distinção caberá sem dúvida ao extraordinário El Laberinto Del Fauno, que nunca chegou à categoria principal dos Óscares por ser falado... em espanhol. Mas nem por isso The Shape of Water deixa de ser um excelente representante tanto de géneros habitualmente desprezados pela crítica como da filmografia e da iconografia inconfundíveis de Del Toro, onde o banal se encontra em constante diálogo com a estranheza. Será sem dúvida um dos realizadores contemporâneos que mais aprecio. Dele recordo HellboyHellboy 2: The Golden Army, duas transposições notáveis e visionárias da banda desenhada de Mike Mignola numa época onde alguns fracassos ruidosos nas adaptações de banda desenhada não deixavam antever o frenesim que se instalaria no género alguns anos mais tarde. E recordo o som e a fúria de Pacific Rim, talvez o mais divertido blockbuster dos últimos anos, que me fez sentir como um miúdo na sala de cinema. É pena que Del Toro nunca chegue a concretizar o derradeiro capítulo da trilogia Hellboy que planeou, e que Ron Perlman tanto queria fazer. Como é pena que tenha acabado por não realizar a adaptação de The Hobbit, como esteve previsto; é provável que tivesse dado uma interpretação muito própria à história clássica de Tolkien, algo que Peter Jackson, amarrado aos espartilhos dos estúdios e ao seu próprio legado na Terra Média, já não conseguiu fazer.

 

Mas ainda ouviremos falar muito dele; oportunidades decerto não faltarão para que Guillermo Del Toro nos encante de novo com as suas fábulas e os seus monstros. E para que volte a demonstrar, como demonstrou em The Shape of Water e como fez questão de sublinhar no seu discurso de Domingo à noite, que a grande ficção de género não tem de se resumir ao escapismo a que muitos a condenam sem a conhecer - ela olha antes para o presente a partir do ponto de vista da imaginação. 

the shape of water (1).jpg

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8 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 06.03.2018 às 22:16

Creio que fui comentando algumas publicações no Delito sobre os Oscars, em que expressava identica opinião acerca da Forma da Agua, um filme delicioso e encantador. Desde o Labirinto do Fauno, a uma das melhores transposições cinematográficas de um dos meus comics favoritos de todos os tempos, o Hellboy, que me fascina a arte de contar encantos de Del Toro.
Como é obvio, não sou mestra na arte da escrita, por isso subscrevo na integra este excelente texto.
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De João Campos a 06.03.2018 às 22:49

É engraçado reparar que "Hellboy 2: The Golden Army" estreou no mesmo ano que "The Dark Knight" e "Iron Man", os dois filmes que, para o bem e para o mal, relançaram as adaptações cinematográficas dos super-heróis norte-americanos e deram origem às franchises multimilionárias do presente. No entanto, o filme do Del Toro ficou quase esquecido. Injustamente, diga-se de passagem: é um óptimo filme, com uma estética que não encontramos em nenhuma outra adaptação de banda desenhada, e com um Ron Perlman que faz valer a pena revê-lo sempre que o apanhamos na televisão. Prefiro os dois "Hellboy" a praticamente tudo o que a Marvel e a DC têm produzido nos últimos anos.

Foi o primeiro filme do Del Toro que vi, praticamente arrastado por um amigo que já conhecia a personagem do Mike Mignola - na altura eu não conhecia "Hellboy", e não tinha grande fé neste tipo de adaptações. Acho que nunca agradeci o suficiente ao meu amigo por me ter convencido a ir àquela sessão no Alvaláxia.

E fico mesmo muito contente por Del Toro ter finalmente ganho o Óscar de Melhor Realizador, já conquistado pelos amigos Iñárritu e Cuarón.
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De Octávio dos Santos a 07.03.2018 às 14:10

«"El Laberinto Del Fauno", que nunca chegou à categoria principal dos Óscares por ser falado... em espanhol.»

Se não chegou à categoria principal não foi, de certeza, por ser falado em Espanhol: até agora (em 90 anos) não foram muitos, mas vários filmes estrangeiros e/ou maioritariamente falados numa língua que não o Inglês já foram nomeados para o Óscar de melhor filme. Exemplos: «A Grande Ilusão», «Z», «O Carteiro», «A Vida é Bela» - estes quando só cinco películas eram nomeadas, o que torna o «feito» mais notável - e «Amor» - este já depois do «alargamento».
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De João Campos a 07.03.2018 às 20:28

Tem razão, e devia ter-me lembrado do "A Vida É Bela". Mas isso só torna esta ausência mais absurda. Enfim, ficou na sombra como "Children of Men".
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De Octávio dos Santos a 07.03.2018 às 21:28

Creio que é um exagero dizer-se que «ficou na sombra»: recebeu seis nomeações e ganhou três Óscares. Isto no mesmo ano - 2007 - em que filmes de Alfonso Cuáron e de Alejandro Iñárritu, respectivamente (precisamente) «Children of Men» e «Babel», também foram reconhecidos pela Academia - o primeiro com três nomeações (nenhum Óscar) e o segundo com sete (um).
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De João Campos a 07.03.2018 às 23:28

Um filme de fantasia ou de ficção científica ganhar categorias ditas "técnicas" nos Óscares não é exactamente novidade. Muitos fizeram-no, e decerto continuarão a fazê-lo. Noutras categorias mais "populares" os géneros costumam ter menos nomeações e ainda menos resultados. Esporadicamente lá vemos um realizador levar o caneco; uma vez por outra levamos um Melhor Argumento, mas só se forem filmes que o público mais geral possa ver sem perceber que são ficção científica (como "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" ou "Her", para recordar dois dos melhores e mais recentes).

Sim, o "Labirinto do Fauno" teve algum reconhecimento nos prémios, mas tal como o "Children of Men", merecia um pouco mais.
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De Octávio dos Santos a 08.03.2018 às 12:58

No fundo, em última instância, em última análise, o que é mais importante? Reconhecer, premiar, a obra ou o seu autor? Guillermo del Toro não ganhou o Óscar de melhor realizador com «El Laberinto del Fauno» mas ganhou agora com «The Shape of Water» (e outro enquanto produtor). Alfonso Cuarón não o obteve com «Children of Men» mas sim, depois, com «Gravity» (e outro pela montagem do mesmo filme). Alejandro Iñárritu não o conquistou com «Babel» mas sim, depois, com «Birdman» e «The Revenant» (aliás, conquistou outros dois enquanto produtor e argumentista). Entretanto, Christopher Nolan, que na minha opinião é mais talentoso do que os três mexicanos, ainda não ganhou um único Óscar, tendo só agora recebido a primeira nomeação como realizador por «Dunquerque».
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De João Campos a 08.03.2018 às 20:10

Depende, mas julgo que tanto a obra como o criador merecem reconhecimento, mesmo que esse reconhecimento seja feito por motivos diferentes. Pessoalmente, diria que o Nolan já mereceu várias vezes o prémio de Melhor Realizador, mas dos filmes dele que vi só talvez Interstellar merecesse o prémio de Melhor Filme.

Por outro lado, diria que Children of Men e O Labirinto do Fauno são filmes globalmente mais completos.

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