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Terapia

por Francisca Prieto, em 15.02.16

Apesar de não costumar assistir a ficção portuguesa, comecei a ver na diagonal a Terapia, na RTP1, por ser amiga de uma das actrizes. Três episódios mais tarde, ainda nem se vislumbrava no ecrã um cabelo da tal amiga, e já estava rendida à série. Ao invés do registo noveleiro a que a televisão portuguesa nos tem habituado, em Terapia assistimos a um registo muito próximo do universo cinematográfico. Com a particularidade de ser um formato que exige excelência do trabalho dos actores, porque é disso que se trata: de dissecar a alma humana até ao seu fio mais descarnado. E ninguém aguentaria assistir a minutos sem fim de texto, em grande plano, se este não fosse muito bem interpretado.

No primeiro episódio, a Soraia Chaves aguenta-se bem, mas num papel ingrato: o de mulher destrambelhada que se faz valer pela sedução (já a tínhamos visto fazer isto, e bem, pelo que não nos caem os queixos).

É no segundo episódio que nos rendemos com um Alex interpretado pelo Nuno Lopes, que nos diverte, ao mesmo tempo que nos esmurra o estômago. E ao longo de todas as terças feiras, a personagem vai ganhando cada vez mais corpo, ao ponto de a dissociarmos do actor. Tão bom, mas tão bom, que é imperdível.

Depois, quando liguei a televisão na primeira quarta feira da série, dei com uma adolescente chamada Catarina Rebelo que me fez entregar os pontos. O raio da miúda é tão bem malcriada que estamos sempre à espera de ver quando é que o Virgílio Castelo perde a paciência.

A minha amiga aparece mais à frente, como mulher do Virgílio Castelo, o psiquiatra de serviço. Primeiro de mansinho, em cenas curtas, mas depois, às sextas feiras, com mais protagonismo, durante as sessões de terapia de casal com a Ana Zannati (impecavelmente igual a si própria, num desempenho tranquilíssimo).

Ora eu estava habituada a ver esta minha amiga noutro tipo de registo. Concretamente no de Manoel de Oliveira, onde fazia de senhora do Douro, ou descia dos céus feita ninfa no meio da guerra colonial, ou então era uma freira, ou até uma rapariga pobre do Raul Brandão, a falar francês pelo filme fora. Sempre tudo muito devagarinho e com olhares enigmáticos.

Sempre bem, sempre em obras de eleição, mas num universo etéreo, como se fosse fora do mundo.

Era-me muito difícil avaliar o seu trabalho de actriz porque ficava invariavelmente desconcertada. Tinha sempre a sensação de que aquela senhora era uma espécie de sósia da minha amiga a quem digo montes de disparates sem qualquer cerimónia, e isto, de alguma maneira, não fazia sentido.
Na sexta feira passada quando a vi, na Terapia, fiquei banzada. Provavelmente porque a personagem se move num universo que me é mais próximo, pela primeira vez consegui olhar para a Leonor actriz sem que fosse através de uma cortina de organza. Deparei-me com uma força extraordinária, que se movimenta pelo texto fora (e que difícil que era o raio do texto e que violenta era a tensão do momento cénico) e que derruba tudo, com uma fluidez irrepreensível e uma linguagem corporal de se lhe tirar o chapéu.

Parabéns à direcção de actores, parabéns aos actores e, se me permitem, uma grande salva de palmas à minha amiga de quem tanto me orgulho.

 

Leonor.jpg


6 comentários

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De Teresa Ribeiro a 16.02.2016 às 14:49

O Nuno Lopes é mesmo extraordinário. Só para vê-lo já vale seguir esta série, surpreendente para quem a vê, arriscadíssima para quem a faz. Como dizes, se os actores não estivessem à altura do desafio seria intragável. Felizmente dão-nos um show de competência.
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De cristof a 16.02.2016 às 18:21

há anos que aposto no N.Melo como um actor a homenagear a sério quando morrer. Se fosse dos EUA iria ter tantos oscares como Meril Streep
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De Francisca Prieto a 16.02.2016 às 19:01

A primeira vez que vi o Nuno Lopes foi numa novela brasileira de época em que ele fazia de portuga.
Pela primeira vez, vi um actor português numa novela brasileira a falar português sem parecer um canastrão.
Depois ouvi uma entrevista em que ele contava como fez: lia o texto em brasileirês, reescrevia para português de Portugal e depois, juntamente com a equipa da novela, alterava as frases ou palavras que os brasileiros não iam compreender. Se isto não é um trabalho de um actor brilhante, macacos me mordam.
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De Francisca Prieto a 16.02.2016 às 19:02

Confesso que adoro o Alex, com todos os seus pequenos tiques e nuances. é brilhante mesmo.
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De Ana Lima a 17.02.2016 às 12:22

Comecei a ver por acaso mas tenho acompanhado a versão portuguesa desta série. É de facto, como dizes, um registo diferente com diálogos muito bem estruturados. Se bem que, à medida que os episódios vão acontecendo (situação comum à maioria das séries), me parece que os vários argumentos começam a querer integrar mais e mais novas situações afastando-se de um lado de verosimilhança com a realidade que me agradou nos episódios iniciais.
Quanto aos actores, na verdade, não me consegui render à tua amiga. Achei que ela não estava à vontade neste registo mais "terra a terra". Admiro o Virgílio Castelo pela presença em 100% do tempo da série. Mas, como parece ser unânime, é o grande Nuno Lopes, óptimo em todas as áreas de trabalho em que participa, que está em destaque. Também gosto muito da Maria João Pinho. No entanto, para mim, a grande surpresa foi mesmo a Catarina Rebelo, um papel muito difícil mas uma interpretação extraordinária.

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