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As mulheres e a igreja católica é uma história longa, dura, tenebrosa até. Existem pesadelos mais suaves. Não depende do tempo, do contexto histórico, porque a sociedade evolui, mas o papel da mulher mantém-se: serve para servir, para ser perseguida ou discriminada ou viver dentro da instituição com a clareza das coisas invisíveis.

São o elo mais fraco. Leituras da Bíblia, de diversos estudiosos desta coisa da ciência das religiões, fazem interpretações várias do papel das mulheres nos evangelhos; alguns até se atrevem a questionar se Madalena seria considerada como uma discípula. Afinal, a quem aparece Jesus quando ressuscita? Pois. Para a instituição que é a igreja católica faz pouca diferença, é o mundo de homens, sempre foi. E continua a ser.

Li no Observador há dias um artigo de João Francisco Gomes – porventura um dos jornalistas da nova geração mais interessantes e ligado a estas coisas da igreja – que no Sínodo deste ano, dedicado à juventude, as resoluções contaram com votos de frades, mas não de freiras, apesar do estatuto eclesial ser o mesmo. Há sempre um certo desprezo, ou aquilo a que eu entendo como desprezo, no que toca às mulheres no centro da decisão. O Sínodo é o conselho consultivo do Papa, talvez se possa dizer que é um dos órgãos mais importantes. As sete freiras que participaram no Sínodo deste ano podem ter tido ideias, podem ter explicado cenários relevantes, podem ser possuidoras de um conhecimento elevadíssimo. Não faz diferença. Menina não vota.

Existem muitas frentes que procuram lutar por um protagonismo feminino dentro da Igreja, não são vozes de hoje, são vozes que se ouvem há muito. Não têm tido muito sucesso, apesar de 80% das pessoas, dentro da igreja católica, que consagram a sua vida à instituição serem mulheres. O superior dos frades dominicanos, o Padre Bruno Cadoré, é quem o afirma no citado artigo do Observador. Ora, 80% é uma percentagem altíssima, até para quem não aprecia a função dos números e da estatística. E o que é consagrar a vida à igreja? É, muitas vezes, abdicar de tudo em função da fé, a mesma fé que se faz representar por uma igreja que, tendo sempre sido activa no papel castrador face às mulheres, não pode continuar cega e surda no que diz respeito à luta das mulheres por mais protagonismo.

O papa Francisco, que padece do mal que afecta os governos, instituiu uma “comissão” no vaticano, coisa ambígua no meu entender, para analisar as questões do diaconado das mulheres. (Nota: O feminino de diácono diz-se diaconisa. A igreja católica não concede o Sacramento da Ordem para mulheres, apenas para homens).  A dita comissão foi composta em 2015. Até agora não encontro nenhum documento da autoria dos membros da comissão. Talvez tenham começado a analisar os séculos para trás e, como tudo na igreja, lentamente lá chegarão ao século XXI.

Historicamente, a igreja trata as mulheres como mães e santas, como servidoras ou demoníacas, neste caso acusando-as da responsabilidade do pecado original. Diria que já chega, é tempo de mudar a agulha e de entender que a igreja beneficia do feminino, sempre beneficiou, e que as mulheres são uma mais-valia que precisa de ser visível. Mulheres só nos bastidores? Freiras a carregar chapéus de senhores bispos? Administrativas? Para a limpeza? Imaginam o que aconteceria se estas mulheres decidissem fazer greve? Pois, quer-me parecer que os senhores bispos e afins também não se deitam a imaginar essas coisas.


12 comentários

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De Luís Lavoura a 26.10.2018 às 17:42

as mulheres são uma mais-valia que precisa de ser visível. Mulheres só nos bastidores?

Isto não é bem assim, as mulheres (da Igreja) estão bem visíveis e são claramente uma mais-valia em instituições, como hospitais ou escolas ou hospícios, geridos por freiras. A Patrícia vai a uma dessas instituições (por exemplo a Clínica Psiquiátrica de São José, em Telheiras em Lisboa) e vê freiras a trabalhar ou a gerir, e não duvida de que elas são uma mais-valia (e que são visíveis).
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De IO a 26.10.2018 às 19:48

Claro que são visíveis, e muito bem o disse "a trabalhar e a gerir" mas... a decidir a protagonizar nos organismos tutelados pela igreja SÓ HOMENS,
no centros de decisão da Igreja quer nos bispados para não falar em concílios e afins as mulheres não contam!
Mas não e só a Igreja católica, as evangélicas têm avançado um bocadinho. muito de vagarinho..já ordenam "Pastoras" mas...é mais quem manda ainda ELES!
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De Filipe Figueiredo a 26.10.2018 às 21:42

Se as mulheres fizessem greve, era o fim da igreja. Concordo com o comentário do LV - as mulheres tëm um papel positivo e relevante (e visível). Há freiras espalhadas pelos 4 cantos do mundo a ajudar o próximo, às vezes em condiçoes bastante difíceis.
Em Portugal a figura mais importante de devoção é (de longe) a Virgem Maria (e de longe a q tem mais visibilidade). Mais em tom de brincadeira, toda a gente sabe q quem mandou no país foramas católicas mulheres dos presidentes: a ´Cavaca´, a ´Barroso´ e a nao menos famosa Dona Maria!!
Voltando *a questao, nada a opor ao sacerdocio por parte das mulheres (pelo contrário).
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De marta a 26.10.2018 às 18:16

Patricia, procure uma página de fb chamada "voices of faith".

Se há coisa que têm feito, e bem, é uma campanha gigantesca para que as mulheres tenham voto no sínodo. Não será neste, será no próximo. Ou no a seguir, mas será.
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De Sarin a 26.10.2018 às 19:18

Não sou católica, embora me tenham baptizado quando bebé - o que fará de mim católica perante alguns crentes mas que garantidamente não me tornou católica.
Reconheço à religião um papel fundamental na estruturação de muitas sociedades e de muitos indivíduos, e especialmente à Igreja Romana no mundo a que convencionámos chamar ocidental.
Vejo muita abertura com Francisco, desconhecia tal paragem no Tempo no que à Comissão diz respeito - da qual esperava resultados concretos em tempo útil. Francisco representa apenas uma parte da Igreja, fracturada também ela por estes dias - e espero que represente, também nesta matéria, aquela parte que consegue a mudança. É esta esperança numa Igreja mais humana que leva esta ateia agnóstica a seguir com alguma atenção as movimentações religiosas.

Obrigada pela partilha.

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De xico a 28.10.2018 às 15:53

Que raio é ser ateu agnóstico, senão uma contradição nos termos?
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De Sarin a 28.10.2018 às 20:22

Poderia dizer-lhe para ler Bertrand Russel ou, para a perspectiva teísta agnóstica, Soren Kierkegaard, mas simplifiquemos ao nível da afirmação em forma de pergunta:

Um ateu rejeita divindades.
Um agnóstico não acredita que racionalmente se possa conhecer ou provar a sua existência ou a sua não existência.

Espero que o raio lhe não queime a crença mas lhe ilumine as ideias, ou que raio terá sido a minha resposta senão perda de tempo?
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De Sarin a 28.10.2018 às 21:53

Russell, faltou um l.
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De António a 26.10.2018 às 20:11

Há aspectos da religião que me escapam. Não sei se Patrícia Reis é religiosa, mas caso seja, e admitindo os fiéis que a religião é a única verdade, como pode mudar? Se eu fosse senhor duma crença, diria “é assim porque é, e com o tempo vocês compreenderão que porque é assim não vamos cá em modas”.
Fico sempre desconfiado quando querem fazer upgrades às religiões - às que toleram a menção. Ou bem que têm uma Verdade, e não é passível de ser mudada - ou não seria Verdade - ou então não fazem falta.
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De Sarin a 28.10.2018 às 20:35

A Religião e a Igreja que a professa distinguem-se pela forma como estas encaram e traduzem aquela... como se adaptam àquela e aos tempos, no final de contas - a Igreja Católica, que é a que está em causa no postal, sofreu muitas alterações ao longo da história, por exemplo quanto ao papel da mulher na religião, ao celibato dos padres, à relação com as outras igrejas, aos próprios ritos.

Não é na religião que se fazem alterações - é nas igrejas.
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De Anónimo a 27.10.2018 às 14:16

Louvemos as freirinhas:

Pelo legado da mais saborosa doçaria.

AM
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De xico a 28.10.2018 às 15:49

Sentem-se no adro de uma igreja. Depois sentem-se no pátio de uma mesquita. E verão que aquela é marcadamente feminina e esta marcadamente masculina. Os padres e os bispos feminizaram-se e, por alguma razão, no catolicismo, ao contrário do que acontece no islamismo, os homens são mais anticlericais que as mulheres. Quanto ao poder, a Igreja continua tão misógina como misógina é a sociedade.

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