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"Ter terra" é isto

por Pedro Correia, em 15.09.18

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Volto a Castelo Branco, cinco anos depois. Está um Verão dos antigos: 32 graus neste meio de Setembro. Calha bem: venho em busca de raízes neste regresso esporádico a um dos lugares que transporto nos genes. Terra onde viveram os meus avós (e cuja casa, nas traseiras do Liceu, ficou praticamente destruída pelo tornado de 1954), onde nasceu uma das minhas tias, onde a minha mãe fez o ensino secundário. Viemos com ela em 2013, sabendo todos - ela, melhor que ninguém, com os dotes de presciência que sempre evidenciou - que era uma viagem única. Por ser a última.

Talvez por isso, absorveu-a intensamente. Levámo-la lá acima, ao castelo. Em tantos anos, nunca tinha visitado tal paragem, de onde se disfruta um panorama incomparável: «No meu tempo, nenhuma rapariga vinha aqui, nem sequer acompanhada.»

É um mundo diferente daquele onde ela ia de burro, dar aulas a garotos da aldeia, no Rosmaninhal. A cidade expandiu-se imenso, em todas as direcções. Das ameias do castelo, já mal distingo o quartel onde o meu avô foi comandante antes de rumar à última comissão em África: é um ponto quase remoto, diluído na malha urbana. 

 

O hotel na colina, onde me hospedei pela primeira vez em 2006, continua a proporcionar-nos uma visão deslumbrante das vastas planícies em redor - tendo agora a novidade de alojar turistas de diversas nacionalidades. A cidade exibe enfim um terminal rodoviário que não a envergonha, colado à estação ferroviária. Mas o centro parece-me mais despovoado: nunca consegui entender a "intervenção" do chamado Programa Polis, que o desfigurou por completo. Coincidência ou não, o Praça Velha - outrora o meu restaurante favorito aqui na terra - fechou as portas, na emblemática Praça Luís de Camões: outra excelência gastronómica que elimino da minha lista.

Mas gostei de saber que foi recuperado o Cine-Teatro Avenida, após décadas de abandono, e que o Jardim do Paço mantém o viço de sempre. Incluo-o, sem favor, entre os dez mais belos de Portugal.

Venho em visita demasiado apressada, não chego a contactar o meu ex-professor Manuel Costa Alves, que tanto me marcou nas suas aulas de Geografia, nem os filhos dum quase-irmão do meu pai, que na minha infância sempre tratei como primos.

 

À porta da Sé, gente toda aperaltada neste sábado estival: é um casamento. Miro os noivos com um sorriso largo: foi aqui mesmo que os meus pais casaram, conheço este local de dezenas de fotografias dos álbuns de família.

Reparo numa árvore ampla, de folhas largas e escuras, ignoro como se chama. Alguém me esclarece: é um abacateiro. Símbolo de novidade por estas bandas. 

Velho e novo, tudo se conjuga. Nas vilas como nas vidas. Miro a cidade cá de cima, do hotel, e logo me vêm à memória aquelas estrofes da cantiga de Arlindo de Carvalho que aprendi na infância mais remota: «E quem nasceu lá, em Castelo Branco, / não é feliz noutra terra.»

"Ter terra" é isto. Esta necessidade de um cíclico banho lustral capaz de nos lavar por dentro, em resposta a um apelo que soa no mais fundo de nós.

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26 comentários

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De Rão Arques a 15.09.2018 às 22:18

Gostei deste hino "Ter terra é isto"
Não se trata tanto de saudades mas do reconhecimento de um passado que nos molda deixando marcas.
E que continua a sustentar por sólida fundação aquilo que somos e com que firmes nos vamos erguendo.
Laços apertados que ligam mas não prendem.
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De Pedro Correia a 17.09.2018 às 14:20

Excelente definição: "laços apertados que ligam mas não prendem."
É isso mesmo.
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De Maria Antonieta a 15.09.2018 às 22:47

Um texto que me comoveu bastante.
Não que Castelo Branco seja a "minha terra", mas porque a esta cidade estão ligadas recordações que já me foram especialmente gratas. Não são mais, pelo contrário, quem me dera nunca lá ter estado...

«No meu tempo, nenhuma rapariga vinha aqui, nem sequer acompanhada.»
Grande verdade saiu da boca da senhora sua Mãe, Pedro!

Vivi, menina e moça, dois anos na rua Vaz Preto, uma rua transversal à rua que conduzia ao castelo, pois nunca a subi. Sequer visitei o castelo. Diziam-na mal-afamada!
Quanto preconceito havia nesse tempo!

Obrigada por tudo o que escreveu. Ainda tenho lá uma grande amiga.

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De Pedro Correia a 17.09.2018 às 14:22

Gostei que se revisse nas linhas que escrevi, Maria Antonieta. Todos temos lugares que nos ficam para sempre. Eu fui tendo vários, durante a infância e a adolescência: na altura, pensei que tanta dispersão me diminuía. Hoje sei, afinal, que me enriqueceu.
Por dentro - e só mesmo por dentro enriquecemos. Tudo o resto é ilusório.
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De Pedro a 15.09.2018 às 23:38

Tenho família aí e numa aldeia perto chamada, Rodeios
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De Anónimo a 16.09.2018 às 12:22

Não nasci em Castelo Branco mas sou beirão. Cá mais de baixo, do pinhal. em 1968 criamos em Lisboa, com gentes das beiras, um rancho que atuava nas tardes de domingo no salão dos Bombeiros Lisbonenses. uma das modas era essa mesma: "Ó Castelo Branco... o´ Castelo Branco... mirando o cimo da serra..."
"Eu nas ci na serra, sou homem pequeno, sou como o granito, bem rijo e moreno" https://novoaerograma.blogs.sapo.pt/tag/castelo+branco
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De Pedro Correia a 17.09.2018 às 14:23

Essa cantiga é das mais antigas que memorizei. Posso dizer mesmo que a escutei no berço.
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De Pedro Correia a 17.09.2018 às 14:22

Rodeios, julgo ser para as bandas de Vila Velha. Não conheço.
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De Anónimo a 16.09.2018 às 10:11

Como gostei de ler este texto, sensível e comovente (como só o Pedro sabe) acerca de uma cidade que também faz parte da minha vida.
Eu sou de Lisboa, ou seja, não tenho terra. Quando vinha cá passar férias, vinha à terra da minha mãe e costumava ser divertido.
Há vinte e tal anos vim para cá viver e foi difícil adaptar-me ao clima, à falta do mar, de boas livrarias, de cinema - às vezes ia a Lisboa ou a Coimbra só para ir ao cinema, mas era muito cansativo e dispendioso.
Resignei-me e dediquei-me a descobrir vilas e aldeias, castelos, igrejas, pelourinhos, rios e barragens. Foi bom, muito bom.
Também tive o privilégio de assistir a concertos memoráveis em Belgais - ainda hoje não compreendo como deixaram a Maria João Pires ir-se embora.
A cidade está maior, tem mais museus, mas aquele centro é uma desgraça...
Eu moro nos arredores, saio muito pouco (a vida às vezes prega-nos cada partida) e confesso que ultimamente não tenho sido feliz em Castelo Branco.
É a vida, como diria um beirão muito famoso.
Maria
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De Pedro Correia a 17.09.2018 às 14:31

Maria, eu sou lá mais de cima, do Fundão. E tenho uma predilecção especial pela Cova da Beira.
Mas parte das minhas raízes maternas são de Castelo Branco, que para mim foi sempre mais terra de passar do que de ficar. O meu pai era de Alcains, mas saiu muito cedo de lá. Sinto um apelo especial pela Idanha, concelho natal do meu avô. E jamais esquecerei Monfortinho, onde passei longos períodos de férias na infância.
Castelo Branco cresceu muito. Tenho dúvidas de que tenha crescido bem. Mas não sei se haveria alternativa. Há que criar empregos, assegurar a renovação de gerações, atrair novos segmentos populacionais. Isso só se consegue com esta urbanização que por vezes nos choca mas que talvez seja a única garantia de que também por cá haverá futuro.
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De Anónimo a 16.09.2018 às 10:11

..."Venho em visita demasiado apressada"....
Bom dia Pedro Correia.
A nossa vida tem destas coisas, algumas vezes acabamos por não conseguir fazer o que desejávamos concretizar.
Sabendo agora da sua ligação, permita uma atrevida recomendação.
Arranje maneira de ir à zona de CBranco a seguir ao almoço de uma sexta-feira, e regresse depois de jantar de Domingo.
O distrito é um daqueles em que vale a pena permanecer uns dias para, adicionalmente a fruir espaço e cultura, cotejar a coisa com os discursos políticos sobre desenvolvimento, desigualdades, oportunidades, interioridade, despovoamento, transportes públicos, SNS /hospital de CB, unidade de saúde por exemplo em Idanha-a-Nova, etc.
Como sabe, cada cabeça cada sentença.
Ainda assim, para além de ser bom e importante palmilhar algumas ruas de CB, a parte velha/ casco da cidade, e pensar no que foi delineado na parte nova e observar a zona industrial, vale a pena no meu entender passar por exemplo, por Idanha-a-Velha, Idanha-a-Nova, Lousa junto a Escalos de Cima, Medelim, Penamacor, Segura, Aldeia de Sta Margarida, termas de Monfortinho, Salvaterra do Extremo, Monsanto e os seus arredores, Pedrogão e Bemposta perto de Medelim.
Creio que vale a pena, matutar neste Portugal dentro de Portugal, e lembrar a questão do tecido industrial e comercial, os serviços, o ensino local, o ordenamento territorial, a organização de freguesias e câmaras, quando algumas delas se calhar já não têm 5000 almas a lá viver!
Bom Domingo
António Cabral
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De Pedro Correia a 17.09.2018 às 14:50

Conheço muito bem o distrito, meu caro António Cabral. Ou 3/4 das minhas raízes não estivessem por cá. Desde pequenino, com os meus pais, percorri-o por inteiro. Mais tarde, profissionalmente, voltei a percorrê-lo. E sempre que posso estou cá.
É algo que faço sempre com muito gosto. Se pudesse, viria muito mais vezes.
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De CAL a 16.09.2018 às 12:29

:)

Muito obrigada...! Que maravilha de texto. Abençoados olhos e mãos.

:)
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De Pedro Correia a 17.09.2018 às 14:31

Muito lhe agradeço tão generosas palavras, caríssima CAL.
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De Manuel a 16.09.2018 às 15:50

Pois a sua descrição fez-me lembrar uma que também tinha escrito para mim, quando em, 2012, regressei à casa dos meus avós, falecidos em 2000. depois de a ler decidi partilhar também as minhas sensações no meu blog.
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De Pedro Correia a 17.09.2018 às 14:34

Fez muito bem, caro Manuel. Devemos partilhar estas experiências que mais nos tocam e que afinal coincidem com as de tantas pessoas que mal conhecemos mas que se encontram muito perto de nós.
É uma forma de tornarmos o mundo um pouco mais aconchegado.
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De Anónimo a 16.09.2018 às 18:27

Caríssimo, recordar é confortante e desconfortante. Há visitas que são despedidas, quer de terras quer de pessoas. Há o sentimento que a estrada se aproxima do fim.
Fiquei um pouco aéreo com seu texto.
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De Pedro Correia a 17.09.2018 às 14:35

Ignoro a identidade de quem me escreve, mas há muito que sei isto: devemos estar sempre preparados para todas as viagens. Incluindo para a maior de todas.
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De José da Xã a 16.09.2018 às 19:41

Pedro.
Como sabes a origem da família da minha mulher é do concelho de Castelo Branco.
Portanto conheço bem a cidade e concordo que aquelae centro... podia estar bem melhor.
Curioso é que na rua ao lado da Sé há um restaurante onde o nosso Sporting é vedeta.
A fobia dos Centros Comerciais também chegou à cidade. O que é pena pois retirou as pessoas do centro da cidade.
Bem hajas por este belo naco de prosa.
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De Pedro Correia a 17.09.2018 às 14:37

Sei muito bem que és quase albicastrense honorário, meu caro. Eu tenho esta terra nos genes de há pelo menos quatro gerações.
Nunca cá morei. Mas, no fundo, nunca de cá saí.
Há coisas difíceis de explicar, mas nós sabemos do que se trata.

Abraço amigo.
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De jpt a 17.09.2018 às 06:43

Que belo postal
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De Pedro Correia a 17.09.2018 às 14:38

Era para ser uma coisa, mas saiu outra. As palavras, às vezes, levam-nos para bem longe. Como tu bem sabes.
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De jpt a 17.09.2018 às 17:26

Este foi um belo desvio

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