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Tentando compreender o Brasil político

por João Pedro Pimenta, em 28.10.18
Nas últimas semanas tenho andado febrilmente a ler e reler coisas sobre a vida política no Brasil. Não somente nos jornais e noticiários actuais, mas também na net (não tanto as redes sociais, embora também sejam importantes para se perceber os humores, mas mais artigos antigos, jornais online, vídeos preciosos que se encontram no Youtube, dados wikipedianos, opiniões), e na biblioteca possível. Voltei aos tempos de Vargas e JK, passei pela ditadura militar, pela redemocratização e pelo percurso efectuado desde então. Para tentar perceber enfim o que o Brasil político, porque é que se prepara para eleger uma personagem tão inquietante como Bolsonaro e porque é que a alternativa que sobra é o agora tão detestado PT (esta última premissa ajuda a perceber a segunda).
 
A primeira ideia que vem à memória, tal como dizem algumas publicações do país, é que estas eleições não são exactamente inéditas e trazem memórias de há uns tempos. A disputa de 1989, primeiras eleições presidenciais em quase trinta anos no novo regime democrático, surgia numa altura negra para a economia brasileira, não tanto o desemprego que se observa hoje, mas uma hiperinflação e a consequente recessão económica, com um presidente impopular (Sarney), tal como agora (Temer), e que só acedera ao Planalto por ser vice do presidente anterior (naquele caso, a morte de Tancredo antes da tomada de posse, agora, a destituição de Dilma pelo Congresso). Nas eleições, disputadas por um grande número de candidatos, surgiu um jovem turco de direita, Collor de Mello, por meio de um pequeno e pouco relevante partido, com uma enorme e eficacíssima rede de propaganda e um discurso alertando para o "perigo vermelho"; a postura agressiva e o discurso pré-ditatorial usado pelo ex-capitão diferenciam-no de Bolsonaro, mas as outras características estão lá; com ele passou à segunda volta o carismático líder de um partido de esquerda "de massas", com base na cintura operária de S. Paulo, mas que ainda atemorizava muitos pelas associações com o comunismo, que naquele tempo fazia a sua espectacular derrocada; sim era Lula da Silva, e não é preciso  mostrar as semelhanças com a actualidade (mesmo que a personalidade seja muito diferente, Lula não é Haddad e vice-versa?). Em terceiro, e fora da segunda volta, ficou o candidato do PDT, de centro-esquerda, um experiente político com uma carreira executiva de respeito, mas desbocado e abrasivo, e então como agora tentou em vão tentou superar o PT; a descrição de Brizola de 1989 aplica-se a Ciro Gomes; Ulysses Guimarães, o "pai" da Constituição brasileira, na altura candidato pelo proeminente PMDB, é comparável a Geraldo Alckmin, do PSDB, pelos apoios que teve e pela fraca votação que recolheu (e que pelo seu passado executivo e pelos partidos que o apoiam tem muito também de Mário Covas e); Marina, a candidata ecológica, teve um antecessor chamado Fernando Gabeira (cuja filha, Maya Gabeira, é uma conhecida surfista que por pouco não desapareceu nas ondas da Nazaré). E assim sucessivamente. Falta saber se Bolsonaro também se envolverá em moscambilhas e verá o movimento que o apoia voltar-se contra ele, como sucedeu a Collor.


A outra conclusão que se retira é que ainda que haja imensos partidos no Brasil - no congresso são uns vinte e tal, com siglas e nomes parecidos - a sua real força é apenas formal. Bolsonaro ganhou dezenas de milhões de votos com o apoio de dois "nanicos" partidários. Por outro lado, Geraldo Alckmin, ex-governador de S. Paulo, o candidato apoiado pelo PSDB (até agora o grande partido de oposição ao PT, e que em tempos esteve no poder), pelo PP  pelo DEM - os dois grandes partidos da direita tradicional - teve menos de 5%. E Henrique Meirelles, apoiado pelo grande partido kingmaker do centrão, o velho PMBD, teve pouco mais de um por cento. Ou seja, a ideia de partidocracia no Brasil não existe, porque são sobretudo votos de ocasião ou barrigas de aluguer para muitas candidaturas, o que se prova pela velocidade com que a maioria dos políticos muda de sigla - Bolsonaro e Ciro, por exemplo, já estiveram em meia dúzia de formações diferentes. Paradoxalmente, e na altura da sua derrota, o PT provou que é o único partido brasileiro com uma máquina estruturada e com um apoio fiel do eleitorado, mesmo sem Lula estar presente, o que poderá ser importante no jogo político dos próximos anos.

Os brasileiros votam sobretudo em caras e em personalidades fortes. Collor, Lula, FHC, como tem tempos votaram em Getúlio e em JK de Oliveira. Agora preparam-se para votar em Bolsonaro. O ex-capitão tem apoios corporativos fortes, dos sectores militares aos grupos de jovens turcos da nova direita, como o Movimento Brasil Livre. E a aposta nas redes sociais e nos meios de comunicação instantânea e de massas, como o WhatsApp, tem-se revelado uma mina num país em que as pessoas lêem poucos jornais e acham que a informação "está na internet". Tudo isso num panorama em que as pessoas se cansaram da corrupção extrema, da violência sem fim, da queda da economia. Claro que o PT não é o único culpado, como se comprova pelo mandato Temer. Mas  está igualmente na origem desses problemas, e obviamente grande parte da população não quer votar em quem não sabe sequer fazer um mea culpa e continua com a tese única do "golpe". além disso,  aquelas manifestações sempre a bater nas mesmas teclas "direitos LGBT" e sei lá que letras mais, a "transfobia", as minorias, etc, pouco dizem à esmagadora maioria dos brasileiros, mais preocupados com problemas gerais do país. Por cada uma dessas manifs, Bolsonaro devia ganhar mais uns milhares de votos. E pouco se ouviu falar de temas ecológicos, como o perigo que ameaça a Amazónia. E também não se subvalorizar deve o factor "desilusão": o partido e o homem que anunciavam uma nova era (e que durante uns anos lá se ia cumprindo) revelaram-se afinal iguais aos outros.

E no meio desse turbilhão, há cento e quarenta milhões de eleitores - 14 vezes a população portuguesa - que podiam colocar do avesso todas as análises feitas sobre as eleições e mostrar que estes escritos são tão válidos como muitos outros. Aguardemos.


12 comentários

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De Vento a 28.10.2018 às 19:57

O Brasil é riquíssimo no marketing. A criatividade brasileira coloca-se também na forma como foi direccionada esta campanha, em tudo semelhante à de Trump e dirigida a um público alvo. Só assim se compreende que nas cidades do nordeste Bolsonaro também tenha dado cartas.

Na minha opinião, se algo pode traduzir estas eleições será o seguinte título: A natureza rebela-se.
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De Pedro a 28.10.2018 às 20:08

" Collor de Mello, por meio de um pequeno e pouco relevante partido, com uma enorme e eficacíssima rede de propaganda e um discurso alertando para o "perigo vermelho"; a postura agressiva e o discurso pré-ditatorial diferenciam-no de Bolsonaro"

O discurso pré ditatorial diferenciam-no de Bolsonaro...hmmmm....cristalino como água.

"Lula não é Haddad e vice-versa?"

La Palice dixit.

"Tudo isso num panorama em que as pessoas se cansaram da corrupção extrema, da violência sem fim"

Claro. As pessoas agora anseiam pela violência boa. Aquela de metralhar a pretalhada eesterilizar os pobres.

"não quer votar em quem não sabe sequer fazer um mea culpa e continua com a tese única do "golpe""

Logo após a aceitação do pedido, o jornal francês Le Figaro declarou que "A decisão de abrir o processo de impeachment arrisca afundar o Brasil em uma gravíssima crise política que pode paralisar por meses o gigante da América Latina (...)".O italiano La Repubblica relatou que o processo era um confronto entre o Presidente da Câmara e a Presidente da República.Da mesma forma, o Le Monde citou que a abertura do processo era um ato de vingança pessoal de Eduardo Cunha.

O El País ridicularizou os argumentos dos deputados que votaram a favor da admissibilidade do impeachment, afirmando que os motivos reais para o impedimento foram esquecidos.

A revista Der Spiegel afirmou que o Congresso mostrou "sua verdadeira cara" e que os oposicionistas cobrariam cargos no governo de Temer e esperavam extinguir a Operação Lava Jato.


"sempre a bater nas mesmas teclas "direitos LGBT" e sei lá que letras mais, a "transfobia", as minorias, etc, pouco dizem à esmagadora maioria dos brasileiros"

Parece ser no Brasil assunto pertinente em virtude de Bolsonaro e por extensão os seus apoiantes considerarem a homossexualidade uma doença

O seu artigo é....como direi.....


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De Pedro a 28.10.2018 às 23:36

João Pedro, peço desculpa pelo emoji. Não tenho que avaliar seja o que for.
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De João Pedro Pimenta a 28.10.2018 às 23:48

Já corrigi aquela parte do discurso de Collor. Quanto a La Palice, envie a conta para o PT, eles é que andaram com o slogan "Haddad é Lula", e até levavam máscaras do ex-presidente.

E veja lá se não lê tudo na diagonal. A tese ÚNICA do golpe, como se só tivessem perdido por uma sinistra conspiração; os votos do impeachment foram legais, mesmo que a legitimidade da maioria fosse duvidosa. E sim, a violência e corrupção são as grandes preocupações dos brasileiros, ou acha que toda a gente tem tempo e pachorra para andar a pensar nos "assuntos de género"?
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De jpt a 30.10.2018 às 06:35

a discussão de género faz género
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De Vento a 28.10.2018 às 21:02

Deixo-lhe esta pérola:
https://www.youtube.com/watch?v=eAJWmxv8kRA
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De Anónimo a 28.10.2018 às 23:36

O povo brasileiro é muito burro.
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De João Pedro Pimenta a 29.10.2018 às 15:49

Em cem milhões de eleitores haverá muitos burros e muitos inteligentes. Não me parece é que sejam todos.
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De Anónimo a 29.10.2018 às 16:09

Todos não são. Mas uns 57 milhões...
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De Anónimo a 29.10.2018 às 19:48

Excelente post.
Revivi a história política brasileira que conheço bem. Vivi no Rio de Janeiro e segui, embora criança, toda a campanha de Getúlio Vargas em 1950 pelo PTB.
Getúlio chefiou a revolução de 1930 que pôs fim à Velha República, criou o Estado Novo e governou de 20 de julho de 1934 a 29 de outubro de 1945. Foi deposto por um golpe militar.
Ganhou as eleições a Dutra e governou de 31 de janeiro de 1951 a 24 de agosto de 1954. Ficou famosa a música popular que se ouvia de hora a hora:
Coloca o retrato do velho outra vez
coloca no mesmo lugar
o retrato do velhinho
faz a gente trabalhar.
No dia 24 de agosto de 1954, estava na escola , o Diretor reuniu toda a escola e disse : meninos vão para casa, aconteceu uma coisa muito triste, o nosso querido presidente morreu.
Getúlio Vargas era uma figura muito popular.

Carioca de coração
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De João Pedro Pimenta a 30.10.2018 às 17:49

Recordações preciosas de uma época fulcral para o Brasil e alguém que sentiu, caro anónimo. É engraçado que Vargas começou por ser uma espécie de Salazar e acabou no centro-esquerda trabalhista (imagine-se Salazar a ser hoje em dia uma referência do PS).
Do período turbulento da sua morte (por acaso no dia dos meus anos, a 24 de Agosto, muito antes de eu cá estar), que começou com o atentado a Lacerda, o que sei sei-o sobretudo pela literatura (Ruben Fonseca e o seu magnífico "Agosto") e do cinema (em que vi um Tony Ramos, que me lembrava mais como "galã de novela", compôr um Getúlio muito convincente).
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De João Pedro Pimenta a 30.10.2018 às 17:49

"Rubem Fonseca", aliás.

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