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Delito de Opinião

Tempestades e Eleições

jpt, 08.02.26

Tempestades e Eleições

 

(Fotografia de António Pedro Santos/LUSA, feita nas cercanias do Lis, que ficará simbólica das ocorrências neste Inverno)

Sempre me irritou o hábito de se atribuírem nomes próprios às tempestades, dizendo-as Joseph, Kristin, Leonardo, etc. De facto, é um resquício do pensamento “animista” - como antes se lhe chamava. Nisso de se atribuirem características humanas à Natureza circundante, assim entendendo-a - mesmo que só de modo inconsciente - como determinável pelas nossas acções. As de nós próprios e as dos nossos ancestrais, quantas vezes temidos como guardiões da ordem, atentos censores até vingativos, as tais “almas” que os “animistas” presumiam activas mundo afora.

Alguns dirão que hoje em dia ninguém crê que a “Kristin” que agora nos devastou seja a emanação de defuntos “cristãos” irados pelo nosso (aparente) racionalismo, ou uma avoenga despeitada por não a invocarmos em missas e com desperdícios nas campas. Ou mesmo uma bruxa viking saudosa das razias costeiras. Ou um “castigo divino” exarado pelo Omnipotente, Omnisciente e Omnipresente Uno.

Mas trato de algo diferente. De um modo de pensamento que restringe as intempéries a cadeias de causas-efeitos de estrito âmbito humano. É a tal irreflexão feiticista (isso do “animismo”), sempre obrigada a encontrar os bodes expiatórios, cuja imolação permita acalmar o futuro. É certo que, ao invés do que vigorava no passado, agora não se procura determinar o vizinho responsável, esse que invocou a ventania, a desgraça. Mas sim o vizinho responsável, o que não vedou a tal ventania. E nisso não se atentam nas condições materiais (“estruturais”, se se quiser) dos fenómenos, nos feixes multicausais a exigirem actuações complexas. E assim tantos (quase todos?) se satisfazem na demanda dos culpados a lapidar nos rossios, televisivos que sejam estes.

Nestes já longos dias parece que a administração pública titubeou - numa ineficiência similar à acontecida em outros recentes desastres. Porventura por falta de planificação central, decerto que por deficiente organização. E, quero crer, devido à má influência do (constante) clientelismo no preenchimento das chefias intermédias.

Também é evidente que o nosso governo meteu os pés pelas mãos ao enfrentar esta crise. Demonstrando um remanso prévio e um desnorte no momento, patente na atrapalhação executiva e comunicacional de vários ministros, até pungente em alguns casos. Com a evidente excepção de Maria de Graça Carvalho, a ministra do Ambiente, uma mulher desde há muito reconhecida como tendo grande gabarito, e que aparece assim como imerecendo estar acantonada nesta verdadeira “turma de repetentes”, agregada por Montenegro.

Ainda assim, e porque sem qualquer vontade de assistir a autos-de-fé, parece-me descabido o rumo do presidente da república. Já várias vezes resmunguei - e aqui me sumarizei - com o real populismo de Marcelo Rebelo de Sousa. E é óbvio que a histriónica personagem acolheu esta crise para fazer o seu “grand finale” presidencial, nisso não se coibindo de invectivar algumas instituições, num registo descabido. Para o momento e para o futuro. Sobre isso, o facilitismo (populista) do nosso PR, recomendo a leitura deste texto de Henrique Pereira dos Santos, tão apropriadamente chamado “Marcelo Ventura”.

(E, a latere, a imprensa não segue muito melhor: caso extremo, até inaceitável foi a actuação das estações televisivas CNN e TVI, a deturparem conscientemente a acção das Forças Armadas.)

Finalmente há dois pontos políticos que me surgem face a estas ocorrências e à atrapalhação estatal:

1) é-me evidente que se estas tempestades e cheias tivessem ocorrido umas semanas antes o Almirante Gouveia e Melo, devido ao seu prestígio, teria sido votado o suficiente para chegar à segunda volta e, depois, a presidente da República;

2) não me parece que estes acontecimentos reforcem a votação em André Ventura - porventura reforçarão a sua percentagem final, ao contribuirem para um aumento da abstenção, a qual será mais fácil aos apoiantes de um Seguro que aparece como “já eleito”. Mas decerto que a atrapalhação estatal e ministerial sedimentarão os queixumes contra a “bandalheira”, o grande mote do movimento do agora candidato presidencial.

Ou seja, para enfrentar este venturismo o necessário não é gritar “vêm aí os fascistas”. É só preciso… uma melhor organização estatal! Não será impossível. Mas para isso muito será necessário que os políticos saiam das suas bolhas… de interesses.

(Este é um dos dez textos que incluí na "Gazeta Semanal" do meu "O Pimentel")

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