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TAP

por José António Abreu, em 18.12.14

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A posição de António Costa apenas demonstra como são dúcteis as suas convicções (vai-se a ver e, nele, é qualidade). O debate em torno da interpretação do texto do memorando seria anedótico se não fosse ridículo. Qualquer discussão tem de começar num ponto assente: a TAP não sobreviverá sem uma injecção de capital (500 milhões de euros, segundo leio). Ainda que as regras europeias o permitissem (e fazem bem em não permitir), estão os portugueses (e não me refiro apenas a uma mão-cheia  de situacionistas bem instalados na vida) disponíveis para pagar o custo da manutenção da empresa na esfera pública? Eu não estou. Como portuense, há anos que a TAP não representa para mim qualquer vantagem em relação a outras companhias, obrigando-me invariavelmente a fazer escala em Lisboa. Mas isto é um pormenor (ninguém me obriga a viver no segundo mundo). Podiam existir razões de fundo para manter a TAP na posse do Estado. Não há. Quase todas as companhias aéreas europeias são maioritária ou totalmente privadas. Nada obsta a que o serviço seja prestado por uma empresa privada (a privada Lufthansa até vai pegar em parte dele nos dias da greve). Pode ser (e é) uma exigência do processo de privatização que a base de operações e alguns serviços sejam mantidos em Lisboa. O que resta são interesses individuais e corporativos. Compreensíveis. Quem, na prática, controla uma empresa com recursos aparentemente ilimitados (os bolsos dos contribuintes) não deseja mudanças. É assim na TAP como o é nas restantes empresas públicas de transportes ou na RTP. E que trabalhadores e sindicatos pareçam recear tanto as decisões de um proprietário que, obviamente, desejará obter lucro mostra apenas que entendem bem quão contrárias a esse objectivo foram inúmeras decisões do passado, nascidas de braços de ferro que se habituaram a vencer. A quilométrica (atendendo à empresa, talvez devesse usar milhas) e absurda lista de exigências que apresentam constitui, aliás, um perfeito exemplo disso mesmo.


17 comentários

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De Carlos Duarte a 18.12.2014 às 10:44

Caro José António de Abreu,

Antes de mais, uma declaração de posição: é-me indiferente a TAP ser pública ou privada, sendo que no primeiro caso a mesma deve dar lucro e no segundo deve estar sujeita a um conjunto de obrigações decorrentes da sua posição de companhia de jure de bandeira.

A TAP já há diversos anos que não é deficitária em termos das operações comerciais e desde o ano passado que não o é como grupo (i.e. teve resultados operacionais positivos, incluído a famigerada operação da companhia de manutenção no Brasil). O motivo apontado para a privatização (que não um puramente ideológico - que é perfeitamente legítimo - de que o Estado não tem que ter presença no sector) é o impedimento de investimento por parte do accionista (Estado) na companhia, sendo que esta necessita a curto/médio prazo desse mesmo investimento. Segundo declarações recentes por parte da UE, não é líquido que assim seja.

Tirando um pouco as palas, o problema é outro: o Estado precisa de dinheiro e a estratégia tem sido vender anéis, dedos e tudo o que se mexa (com algumas interessantes e incompreensíveis excepções, como a RTP...). Não discutindo essa opção - que é legítima - é de discutir tanto oportunidade como moldes. E em termos de moldes, e após a tentativa, felizmente falhada, de vender a TAP a um vigarist... "empreendedor" sul-americano, seria conveniente reanalisar o que se passou e pensar se o modelo de venda é o mais adequado.

Pessoalmente, e tendo em conta o peso histórico da TAP, não acho que seja. Um modelo de privatização como o da Lufthansa (com dispersão em bolsa, entre investidores privados) parece-me francamente preferível: permite garantir (melhor) a manutenção estrutural da empresa ou pelo menos do seu "core business" (fornecimento de transportes aéreos a passageiros), recapitaliza a empresa, sendo fácil posteriormente aumentar o capital se necessário, e diminui a possibilidade de jogadas política ou "comissões" na venda. Mais, tem a vantagem de permitir que parte do capital da empresa a privatizar seja oferecido em condições preferenciais aos trabalhadores, o que pode ser do agrado dos sindicatos.
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De Luís Lavoura a 18.12.2014 às 11:03

Excelente comentário!
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De lucklucky a 18.12.2014 às 14:25

"A TAP já há diversos anos que não é deficitária em termos das operações comerciais"

Fantástico, demonstra bem como se pensa a elite em Portugal.
Eu quero uma refinaria e claro vai ter lucro nas "operações comerciais".

As contas do investimento não contam. Ninguém as tem de pagar.

Só gente vinda da Universidade consegue dobrar a realidade assim. Fazer contas sem incluir o investimento necessário.

Explica o Estado do País.

Já o povo sem instrução formal que tem que gerir um café foge a sete pés destas contas.

A elite saída das universidades retribui... só os cafés geridos pelo povo é que podem falir.
No capitalismo socialista tuga o contribuintes está sempre com a mão estendida, para subsidiar as empresas que têm lucro "nas operações comerciais".

-----------------------------------------------
"as decisões de um proprietário que, obviamente, desejará obter lucro"

Está enganado. O proprietário somos nós e não temos poder sobre a nossa propriedade. E o lucro eventual ficará para os políticos comprarem os nossos votos com a nossa propriedade.
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De Carlos Duarte a 18.12.2014 às 17:31

Caro lucklucky,

Não percebi o seu comentário. O que se está a discutir não é se o Estado deve ou não investir na TAP. É se o Estado deve vender e se sim, em que moldes. E tendo em conta que o investimento já foi feito, a questão de manter ou não manter a TAP é a de saber se este é recuperável (ou mais recuperável) vendendo ou por via de futuras mais-valias. Ou seja, a justificação que foi dada no passado ("dá prejuízo") não serve. A justificação actual - que não é, interessantemente, assumida - é outra: precisamos de dinheiro, "cash" AGORA. Não nos interessa a rentabilidade futura. É similar (com as devidas diferenças) ao Estado vender as reservas de ouro ou divisas ou vender outros equipamentos e edíficios públicos.
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De lucklucky a 19.12.2014 às 22:56

Uma empresa não vive sem investimento. Dos aviões às cadeiras dos escritórios da TAP avariam, desactualizam-se. Têm de ser substituídos.
Uma empresa que tenha lucros de funcionamento positivo não é garantia que tenha futuro. Tudo depende da escala do lucro vs escala do investimento.
Um truque habitual da linguagem em Portugal é transformar valores escalares em valores binários.
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De Carlos Duarte a 20.12.2014 às 14:54

Claro que não. É para isso mesmo que servem (ou devem servir) primariamente os lucros - investimento, seja em termos preventivos (manutenção, substituição normal do equipamento) ou expansivos (substituição por melhor equipamento, aumento de capacidade, etc).

Quando não se tem um pé-de-meia suficiente (o que agora é moda, diga-se) investe-se com dinheiro dos outros: ou por empréstimos / emissão de dívida ou por aumentos de capital. A privatização NÃO É investimento. Podem perfeitamente comprar a TAP e não investir um tostão. Da mesma maneira que podem NÃO comprar a TAP e investir dinheiro (ex. aumento de capital ou um empréstimo bilateral). A ideia que para haver investimento tem de haver uma venda é falsa.
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De Emigrante reformado a 18.12.2014 às 10:44

A TAP e as Caravelas de Costa, não são nada sem o Vera Cruz, o Santa Maria, o Principe Perfeito e a frota do Bacalhau.

Mas sem Salazar, sem Tenreiro e sem colónias?

Já antigamente o Botas de Santa Comba preparou sapadores para pegar nos comboios, quando os ferroviários se armassem em parvos, como agora fazem todos os meses.

Mas isso era só com tau-tau!
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De Luís Lavoura a 18.12.2014 às 10:56

obrigando-me invariavelmente a fazer escala em Lisboa

Eu recentemente tive que me deslocar a Zurique por duas vezes (mais os retornos) e aquilo que verifiquei foi que era muito mais fácil e barato partir do Porto do que de Lisboa. Os vôos Lisboa-Zurique estavam muito ocupados e eram portanto caros, os Porto-Zurique (que é só um diário) eram muito mais fáceis e baratos de reservar.
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De Luís Lavoura a 18.12.2014 às 11:34

a TAP não sobreviverá sem uma injecção de capital

Isso é falso.

A TAP tem dívidas da ordem dos 600 milhões de euros. Essas dívidas não necessitam de ser pagas na totalidade nem já: podem ser refinanciadas através de novos empréstimos. Ou seja, podem ser constraídos novos empréstimos para se pagar as dívidas que vão vencendo.

É isso que a TAP vem fazendo já há bastantes anos, e não há razão para que não possa continuar a fazê-lo.

A TAP é hoje em dia uma empresa rentável (ou, enfim, pelo menos não é sistematicamente deficitária), pelo que não há razão para que não se possa refinanciar.
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De jo a 18.12.2014 às 11:38

A Lufthansa tem feito mais greves que a TAP. Não anda tudo assim tão bem no reino dos provados.
Estou um bocado cansado que me tentem impingir que se vende uma empresa a operadores privados e que é possível controlar o que elas fazem após a venda, nada impede os compradores da TAP de fazerem o que está a fazer a ANA e aumentar os preços até ao limite prejudicando a economia, ou como fez a PT e vender a empresa a terceiros para desmantelar. Rezemos para que os donos da REN ou da EDP não cheguem à conclusão que um país de terceiro mundo não merece eletricidade de primeiro mundo e comecem a desinvestir na rede.
Claro que podemos depois andar a pescar quais são as culpas deste governo e quais são as dos próximos no desastre. Mas talvez fosse melhor prevenir os desastres.
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De Vento a 18.12.2014 às 11:38

José,

espero que esteja a recuperar da gripe. Imagino que para quem viva no segundo mundo tenha mais dificuldades no acesso a medicamentos preventivos. Mas confie na capacidade imunológica apesar dos dois a zero infligidos por uma equipa do primeiro mundo.

A ANA também foi privatizada com base nos elevadíssimos argumentos que hoje se usa para justificar a venda da TAP; e aconteceu que os custos aumentaram também desfavoravelmente para a TAP:
http://economico.sapo.pt/noticias/ana-aumenta-taxas-pela-setima-vez-desde-a-privatizacao_200376.html

O que se tem observado com as privatizações de determinadas empresas é que são precisamente aquelas que geram resultados operacionais positivos, que é também o caso da TAP, que estes doutos politicozitos de bolso ou de cabeceira, que nunca demonstraram nada na vida em termos de gestão, pois são ou funcionários com salários garantidos pelos contribuintes ao final do mês ou assalariados em empresas que necessitam de gerir lóbis e influências cujo esforço mental exigido resume-se ao consumo de calorias num qualquer restaurante e a bitaites num qualquer gabinete de uma qualquer empresa, tanto se esforçam por delapidar com base num qualquer memorando que deu provas de estar aí para reduzir meninos vaidosos e convencidos ao estatuto de mordomos de um não sei quem.

Por outro lado, é muito fácil ser empresário com empresas cujos resultados estão garantidos.

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De JS a 18.12.2014 às 11:56

JAA . Mt . bom. Não se podia ser mais claro.
Serão estas greves apenas o último estertor de certos grupos corporativos ... num Estado dito democrático?.
Haverá (mais uma?) réstia de firmeza no poder Executivo?.

Quanto ao candidato a candidato e á ductilidade das convicções "é qualidade" e, dir-se-ia, feitio. Terá origem, certamente, numa imersão prolongada nos meios literatos e políticos. Nem é defeito. É apenas feitio.
Mas será bom para um PM , neste sistema político português?.

O que para uns é uma (luxuosa ou nem por isso) forma de vida, para outros uma necessidade de se deslocar a preço módico e para outros um corte (à força) nos seus parcos proventos e nível de vida ... para A. Costa, em orador, é um delicioso exercício de semântica, mais uma vez a ser desmentido pelo próprio ou pela ansiosa corte. Lirísmo (isento, bem intencionado?) no poder.
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De Anónimo a 18.12.2014 às 17:51

Apurem-se os culpados da má gestão, tanto cá, como na belíssima empresa feita no Brasil e os gestores que arquem com as consequências, pelos danos provocados, na TAP. Pagam-se balúrdios a esses gestores, eles rebentam as empresas e no fim, ainda são condecorados. Isto é que não pode acontecer, mas acontece, até rebentarem com o país. Privatiza-se para quê? Até hoje, tudo o que foi privatizado, não beneficiou os portugueses, em nada e enquanto se vai privatizando tudo, resta-nos o ar que respiramos. Afinal para que servem os governos que vendem tudo, deixam o país sem nada?
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De Vuvuzelo a 18.12.2014 às 18:29

Eu já estou a estranhar é que a D. Manuela Ferreira Leite e o dr. Bagão Félix ainda não se tenham juntado a Tony Carreira, Pedro Abrunhosa, Jorge Palma, Sérgio Godinho, Mário Soares, Manuel Alegre, e outros conhecidos cantores, na assinatura do manifesto "Não TAP os olhos".
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De Anónimo a 18.12.2014 às 21:26

Fazem eles muito bem em se manifestarem contra aqueles que destroem o que ainda resta do país. Se pensarmos um bocadinho e não custa nada pensar, é só olhar para a Ibéria e ver o que foi e o que é. A TAP será uma nova Ibéria....... Já agora quando venderem a TAP, vendem as Águas e a seguir porque não as ilhas? Somos uns pobres de espírito e uns parvos alegres que vamos na onda, de quem nos quer vender tudo e deixar um país sem nada. Se ainda não pagámos um cêntimo da dívida, como já nada temos, como vamos pagar? Com o dinheiro dos cidadãos? Pois é, só pode e no fim, passamos a ser mais um país do terceiro mundo. Espectacular, pagamos a governantes para vender o país............
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De cristof a 18.12.2014 às 20:41

Todas as opiniões devem ser ponderadas: Porque será que a maioria dos países da UE se desfez das suas companhias de "bandeira"?
Acham normal, sem nada por trás, ter trabalhadores tão generosos que só lutam pelo bem da companhia? Já nas diversas comemorações de Lisboa sem metro ouvimos a mesma estoria. E ninguem acha estranho? E nas escolas e ... Serei eu tão desconfiado que invento conspirações? olho para uma lista de dez pontos a defender a não privatização e sem razão nenhuma(um ponto diz que é proibido despedir nos proximos dez anos) começo logo a ver maldade na defesa que os trabalhadores fazem da TAP nossa. Eu só desconfio é da esmola ser tão generosa =somos nós que vamos pagar as contas!!
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De Anónimo a 20.12.2014 às 15:19

É por essas e por outras que temos a Europa, tão bem de saúde. Vende-se tudo e com essas vendas os países ficam mais pobres. Era bom que olhássemos para países de bom comportamento como o Canadá, Finlândia, países gelados e que mesmo em pleno Inverno, os aviões ao aterrarem não encontram um pingo neve na pista. Esqueci-me que nestes países, os seus governantes governam para o seus povos e não para a acumulação de grandes fortunas.

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