Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Tão perto e já tão longe

por Pedro Correia, em 24.11.17

3597748_A101-3702368-741x486[1].jpg

 Pedro Rolo Duarte (Foto: Leonardo Negrão)

 

Há notícias que nos atingem como murros no estômago. Nunca estaremos preparados para elas.

Acaba de acontecer-me ao saber que o Pedro Rolo Duarte partiu de vez, sem avisar quase ninguém, aos 53 anos. Sabia-o doente, alguém me avisara há uns meses, como sempre sucede nesta cidade-aldeia, mas nunca imaginei que a doença fosse tão grave e tivesse tanta pressa em roubá-lo ao nosso convívio.

Conhecíamo-nos há 20 anos exactos. Estava eu na secção política do Diário de Notícias, como repórter parlamentar, e ele editava aquele que foi o mais inclassificável e fascinante suplemento da imprensa portuguesa, o DNa de boa memória – que viria a ter fim prematuro, às mãos de uma direcção do jornal incapaz de perceber que tinha ali uma pepita de ouro que nunca devia ter sido extinta. Vê-lo desaparecer doeu-me, como já tinha doído o desaparecimento do DN Jovem, espaço do jornal cultivado e editado pelo Manuel Dias em que se revelaram, ainda na adolescência, tantos actuais talentos da literatura portuguesa.

Prefigurava-se já ali, nessas mudanças abruptas, a presente agonia da nossa imprensa – consequência de demasiadas opções erradas de excessivos decisores medíocres.

 

O DNa – de que guardo com devoção quase religiosa os primeiros cem exemplares, novos como se tivessem saído agora da gráfica – foi um tesouro da imprensa portuguesa e talvez o mais precioso fruto do talento do Pedro Rolo Duarte na sua carreira jornalística impressionantemente longa e afinal dolorosamente fugaz. Ele teve o condão de conceber um conceito jornalístico difícil de etiquetar, mesclando o melhor da tradição com o melhor da inovação, dinamizando uma restrita mas brilhante equipa de infatigáveis colaboradores. Por lá passaram – em diferentes fases dessa década – o Francisco José Viegas, o Luís Osório, a Anabela Mota Ribeiro, a Sónia Morais Santos, o João Gobern, o Carlos Oliveira Santos, o Pedro Mexia, o José Mário Silva, o Carlos Vaz Marques, a irmã dele, Fátima Rolo Duarte, entre outros. Poucos mas bons.

 

18312741_2PmQt[1].jpg

 

Na redacção, o Pedro era de poucas falas. Alguns, por lá, confundiam essa timidez natural com arrogância, nada dispostos a quebrar o gelo. Nunca senti essa dificuldade – e foi precisamente lá que ficámos amigos. Colaborei com gosto no DNa, à margem das minhas tarefas na absorvente agenda diária do jornal, e lembro-me de duas capas que assinei no suplemento – elegendo-as ainda hoje entre as peças que mais gostei de produzir em trinta anos de jornalismo: entrevistas com Mário Castrim, o decano dos críticos de televisão portugueses, e João Amaral, deputado do PCP e um dos mais brilhantes parlamentares que passaram pela sala das sessões da Assembleia da República.

 

Já acompanhava desde o início da década de 80, como leitor, o percurso do muito jovem Pedro Rolo Duarte - primeiro no semanário Se7e, depois no irrepetível Independente de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, e pela igualmente inclassificável revista K. Legou-nos largos milhares de textos, de todo o género e sobre todos os temas, espalhados pelas mais diversas publicações – herança que recebeu nos genes: os pais, António Rolo Duarte e Maria João Duarte, também jornalistas de profissão, inculcaram-lhe este saudável vício do qual nunca se libertou.

Chegou a integrar uma direcção do DN – de duração efémera, como aconteceu com quase todas desde a partida do nosso comum amigo Mário Bettencourt Resendes, também demasiado cedo desaparecido, deixando um lugar que nunca foi devidamente preenchido no nosso jornalismo. Depois fez-se à estrada, pedalando em pista própria, como sempre. Colaborou na televisão, publicou livros (guardo um aqui à mão, Noites em Branco, recolha de textos avulsos, com a escrita elegante, a suave mordacidade e a discreta ironia que nos habituou), abriu um blogue em nome próprio e regressou à rádio, paixão antiga e sempre renovada.

 

Encontrávamo-nos por vezes, no nosso bairro de Alvalade, em regra no Mercantina – um dos quatro ou cinco restaurantes que frequento em Lisboa – ou na Livraria Barata. Quando lancei o primeiro livro, em 2013, ele teve a amabilidade de me convidar para uma inesquecível entrevista a três vozes (ele, eu e o João Gobern) no seu programa Hotel Babilónia, da Antena 1: foi de longe a mais estimulante conversa jornalística que tive desde sempre, não como entrevistador mas enquanto entrevistado.

Ao contrário do que é mau costume entre nós, nunca lhe faltou capacidade de admiração. Lançou e promoveu vários jornalistas, com uma generosidade rara, e não se deixava contaminar pelo vírus da inveja: nisto, e se calhar só mesmo nisto, parecia pouco português.

 

Trocávamos uma correspondência esporádica e mantínhamos alguma cumplicidade blogosférica. Publiquei aqui no DELITO dois textos dele: o primeiro em Novembro de 2010, fez ontem sete anos; o segundo, no mês passado. Tão longe de imaginar que seria o último.

Ignorava a que ponto estava já debilitado quando dele recebi, a 27 de Setembro, uma calorosa mensagem em que dizia ter superado um sério problema de saúde que não especificou (nem eu o questionei sobre isso, nesta nossa contenção tão masculina que nos leva a contornar detalhes do reduto íntimo de cada qual) e aceitando o meu convite para escrever um texto neste blogue, aqui publicado a 5 de Outubro.

 

Tão perto - e já tão longe. Nunca estamos preparados para dizer adeus a quem parte demasiado cedo. Deixando tantos livros por ler, tantas viagens por fazer, tantos petiscos por partilhar com gente amiga de todas as idades e todos os quadrantes.

É assim, com um nó no estômago e a voz emudecida, que me despeço dele deixando um beijo terno a sua Mãe, um abraço fraterno à Fátima e uma palavra de alento ao filho, baptizado com o nome do avô. Tu, António, tens todos os motivos para sentires orgulho do teu pai.


44 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 25.11.2017 às 11:26

De: ANTONIO RIBAS 25/11/2017

Não tive o previlégio de conhecer o PEDRO, mas era como se ele fizesse parte
do meu círculo de amigos .No momento que escrevo, estou ouvir o hotel babilónia
que ele fez a 24-12-2016 , programa que ouvi durante anos e era minha companhia aos sábados de manha, por isso o PEDRO era minha companhia todos os sábados . Vou sentir saudades deste convívio.
Um grande abraço amigo.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 25.11.2017 às 23:53

Também já tenho saudades, António. Um abraço.
Sem imagem de perfil

De Maria Ferreira a 25.11.2017 às 17:50

Ouvia todas as emissões do Hotel Babilónia, era mesmo cliente fiel ao ponto de ouvir em podcast quando não podia ouvir em direto e ainda repetir algumas particularmente mais estimulantes; apreciava sobremaneira a troca de ideias e de opiniões com o João Gobern, bem como as entrevistas, não me lembro de nenhuma que não fosse interessante.
Recentemente também ouvia na mesma antena 1, o programa Mais novos do que nunca.
Lembro-me do Pedro Rolo Duarte no Se7e, que comprei durante anos e seguia-o regularmente através das crónicas e do blog.
Vou realmente sentir a falta dele.
Partiu cedo demais.
Maria Ferreira
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 25.11.2017 às 23:57

Eu acompanhei todo o percurso dele - do Se7e ao Hotel Babilónia - passando pelo Indy, pelos programas da RTP, pela Visão. E sobretudo pelo DNa, que vi nascer e crescer, ali bem perto, sempre com admiração pelo talento e pela criatividade do Pedro.
Partiu demasiado cedo, sim. Lamentavelmente cedo.
Sem imagem de perfil

De s o s a 25.11.2017 às 19:38

tenho que dizer algo, também porque sou ouvinte do Hotel, e já tive fases que fui muito critico, e ate reclamei do programa.

no entanto, confesso, nunca sei quem é um e outro, sabendo que um é de lisboa e o outro da povo do varzim. Gosto mais de um, menos do outro.

Mas tenho um quinto (nem chega a sexto ) sentido, que morreu o melhor deles. Ainda por cima, tambérm li o Rolo Duarte algumas vezes aqui no sapo, e no geral apreciei.

Pronto, acho que no sabado passado, o achei com voz rouca.

Pior, esta a minha memoria, e nao me lembro nada de ter ouvido o Pedro Correia no Hotel, e o mais provavel é que nem tivesse ainda conhecido por aqui o PC.

Quanto ao DN, a ambos os Pedro´s ja terei ouvido historias avulsas.

Tambem o Rolo Duarte, mas individuos que morrem nesta idade afectam sempre os individuos ainda vivos.

Mas nao consigo ressuscita-lo !
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 26.11.2017 às 00:00

A melhor homenagem fê-la você em vida dele, sendo ouvinte regular do programa e leitor atento das crónicas no Sapo.
Mesmo discordando uma vez ou outra, como diz.
Quem escreve gosta de ser lido. Quem faz rádio gosta de ser escutado. A melhor homenagem acaba sempre por ser esta.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 25.11.2017 às 21:05

Hotel Babilónia, grande programa que não perco aos sábados de manhã, grandes jornalistas, grandes vozes. Pedro Rolo Duarte estará sempre, que saudades.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 26.11.2017 às 00:01

Um programa feito, com profissionalismo exemplar, mesmo até ao fim.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 25.11.2017 às 21:25

Foi, com efeito, um murro no estômago!
Lia-o e ouvia-o com muito agrado.
Obrigado!
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 26.11.2017 às 00:02

Muitos leitores, muitos ouvintes, muitos telespectadores pensam o mesmo. Tenho a certeza.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 25.11.2017 às 22:12

Belo, emocionante e justo retrato do nosso jovem e comum amigo Pedro Rolo Duarte, que agora tão prematuramente nos deixou. Meu caro Pedro Correia, a vida está a correr tão depressa, diria mesmo, demasiado depressa e a figura (não lhe conheço o sexo) do gadanho está a roubar-nos os nossos familiares e amigos a uma velocidade estonteante. Dizem que a vida é assim, mas não deveria ser.

Forte abraço
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 26.11.2017 às 00:02

Um abraço agradecido por estas palavras que me sensibilizaram.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 25.11.2017 às 22:20

Meu caro Pedro: por precipitação esqueci-me de assinar o comentário que há momentos enviei. Aí vão as iniciais que certamente reconhecerás, com um renovado abraço.

VSM
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 26.11.2017 às 00:06

Amigo Vítor, reconheceria estas iniciais até se estivesse no outro lado do planeta. Um abraço muito forte e com imensas saudades do nosso alegre convívio de vários anos.
Tu estavas lá, no DN, e testemunhaste também uma parte daquilo que eu escrevi neste texto - singela mas sentida homenagem ao nosso camarada agora desaparecido.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 25.11.2017 às 22:37

Desde o jornal 7Sete que lia os seus artigos, sempre tive dele a impressão de um puto porreiro. Viver é muito perogoso, pqp.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 26.11.2017 às 00:07

Gostaria de destacar aqui um texto dele, o penúltimo que escreveu no blogue:
http://pedroroloduarte.blogs.sapo.pt/o-tomaz-485024
Um belíssimo texto, exemplar a vários títulos.
Sem imagem de perfil

De Makiavel a 26.11.2017 às 09:13

O DNa foi uma verdadeira pedrada no charco. Comprava o DN para ler o DNa.
Bons tempos, quando andavam pelo DN pessoas como Pedro Rolo Duarte, Mário Bettencourt Rezendes e António José Teixeira.

Notícia triste inesperada.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 30.11.2017 às 14:32

Bons tempos, diz bem. Só posso acompanhá-lo nessa expressão, por diversos motivos.

Comentar post


Pág. 2/2



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D