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Tão longe e tão perto, Zé Paulo

por Pedro Correia, em 13.04.16

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Sentimos que começamos a envelhecer quando cada vez mais gente à nossa volta nos trata por você em vez de tratar por tu. Na segunda-feira despedi-me de uma pessoa que me tratava por tu há 33 anos - outra pessoa que parte cedo de mais, outra pessoa com quem ficaram tantas conversas por partilhar. Foi o José Paulo Canelas, um grande profissional do jornalismo, um amigo de décadas.

 

Éramos absurdamente novos, absolutamente infatigáveis, ingenuamente crentes de que seríamos capazes de tornar realidade todos os sonhos. Eu editava na altura o segundo caderno do semanário Tempo, um dos jornais com maior tiragem à época, e havia decidido remodelá-lo alterando-lhe o grafismo e até o nome - passou a chamar-se Fim de Semana. Obtive luz verde da direcção para contratar novos colaboradores e colunistas - de uma geração mais jovem e com uma linguagem mais arejada e dinâmica.

Entrou assim em cena o José Paulo, que passou a ter a seu cargo duas páginas de temas desportivos - era já então a área que preferia. Trabalhámos juntos, semana a semana, durante quase três anos: posso garantir que foi um dos raros colaboradores que não falharam um prazo. Oferecia sempre mais do que lhe era pedido em textos que me chegavam irrepreensíveis às mãos - ao contrário de outros, que precisavam de ser profundamente alterados ou mesmo refeitos de alto a baixo após julgamento sumário e condenação à guilhotina.

Finda esta experiência, reencontrámo-nos durante alguns meses na revista Nova Gente, onde fui um fugaz subchefe de Redacção. Trabalhávamos imenso mas divertíamo-nos na mesma proporção naquela indescritível cave em Queluz onde não decorria um dia sem um toque surreal. Com histórias que davam para um bom livro, garanto-vos. Ou para trechos de filmes de um Buñuel ou um Fellini.

 

Depois os nossos destinos separaram-se. Eu saí de Portugal, andei dez anos por fora, cumpri o sonho de dar a volta ao mundo. Ele seguiu a rota do jornalismo desportivo, para a qual tinha genuína vocação: passou pela Gazeta dos Desportos e pelo Record, e chegou a subdirector do diário O Jogo. Como sucede a quase todos nós, sucedeu-lhe então uma inesperada alteração de rota, especializando-se noutra área do jornalismo: chegou a director da revista TV 7 Dias e era agora subdirector da TV Guia, embora em situação de baixa há cerca de um ano.

Foi quando exercia funções directivas n' O Jogo que, estando eu de regresso ao País e sem trabalho, recebi um telefonema dele a convidar-me para editor do jornal em Lisboa. Algo que jamais esqueci, jamais esquecerei. Só quem nunca passou pelo desemprego é incapaz de avaliar a importância destes gestos.

 

Na igreja do Santo Condestável, ao princípio da tarde de segunda-feira, dizia-me o Fernando Sousa, seu primo-irmão, que o José Paulo Canelas, por mais atarefado que andasse, nunca perdia de vista os amigos e tentava sempre ajudá-los. Sou testemunha directa desta generosidade. Sempre discreta, muito à maneira tímida dele, quase como se precisasse de pedir licença para nos mostrar que tinha um coração enorme.

Naquele momento triste, reencontrando após tantos anos parte da "minha" equipa da Nova Gente, foi possível sorrirmos juntos ao lembrarmos episódios irrepetíveis em que fomos protagonistas. O espírito do Zé Paulo permanecia intacto, ali connosco.

Por breves instantes, inspirados por ele, voltámos a ser miúdos outra vez. De uma alegria contagiante, de uma energia inesgotável, com a sensação de que não há metas impossíveis e temos um tempo sem limite pela frente.

Tratamo-nos todos por tu e combinámos jantar. O Zé Paulo vai lá estar também.


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