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19 Ministros e 50 Secretários de Estado

por João Sousa, em 27.10.19

Hacker: Who else is in this department?

Sir Humphrey: Well briefly, sir, I am the Permanent Under Secretary of State, known as the Permanent Secretary. Woolley here is your Principal Private Secretary. I too have a Principal Private Secretary and he is the Principal Private Secretary to the Permanent Secretary. Directly responsible to me are ten Deputy Secretaries, 87 Under Secretaries and 219 Assistant Secretaries. Directly responsible to the Principal Private Secretaries are plain Private Secretaries, and the Prime Minister will be appointing two Parliamentary Under-Secretaries and you will be appointing your own Parliamentary Private Secretary.

Hacker: Can they all type?

Sir Humphrey: None of us can type. Mrs Mackay types: she's the secretary.

Yes Minister, Série 1, Episódio 1

Sim, Senhor Ministro (30)

por Pedro Correia, em 11.04.16

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Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do ministério dos Assuntos Administrativos - [Falando numa reunião de trabalho com os secretários-gerais de outros ministérios] O meu ministro está decidido a abrir os quadros do ministério a 25% de mulheres.

Sir Arnold Robinson, secretário-permanente do gabinete do Primeiro-Ministro - Parece-me correcto que homens e mulheres sejam tratados em pé de igualdade. E julgo que todos concordamos, em princípio, com esse desígnio.

[Vozes de concordância à volta da mesa, onde só há homens]

Secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros - Sou inteiramente a favor. Tem de haver discriminação positiva a favor das mulheres. Mas não resultaria nos Negócios Estrangeiros, obviamente. Não podíamos enviar embaixadoras a países muçulmanos. A maior parte dos países do Terceiro Mundo, ao contrário de nós, não está evoluída na questão dos direitos das mulheres. Mas aprovo o princípio.

Secretário-geral do Ministério da Administração Interna - Também sou favorável. Necessitamos de um toque feminino: as mulheres tratam alguns problemas melhor que os homens. Mas devemos abrir uma excepção no meu ministério: as mulheres não servem para dirigir prisões nem corporações policiais. E provavelmente nem quereriam desempenhar essas tarefas.

Sir Arnold - Mas concorda com o princípio?

Secretário-geral do Ministério da Administração Interna - Sem a menor dúvida.

Secretário-geral do Ministério da Defesa - Na Defesa, o mesmo - com tantos almirantes e generais. Além disso uma mulher não pode chefiar os serviços secretos...

Sir Humphrey - M tornar-se-ia F...

Sir Arnold - A Defesa é coisa para homens. Tal como a Indústria e o Emprego - com tantos dirigentes sindicais. E a Saúde, John?

Secretário-geral do Ministério da Saúde - Temos as mulheres representadas quase ao mais alto nível. Mas, claro, não podem ser secretárias-gerais porque são médicas e não sei se estariam à altura... Sublinho, no entanto, que 80% do nosso pessoal de escritório e 99% da dactilografia é composto por mulheres. Não as tratamos muito mal, pois não? E, em princípio, concedo que cheguem ao topo do ministério.

Sir Arnold - Muito bem. Acho que a opinião global é favorável aos direitos das mulheres.

Sir Humphrey - Quanto à questão das quotas, francamente, sou contra. Na minha perspectiva, devemos promover sempre o homem mais capaz, independentemente do sexo.

Sir Arnold - Em conclusão, compete-vos influenciar os respectivos ministros de modo a que se oponham à inclusão de mulheres nos ministérios. Isto sem prejuízo da adopção genérica do princípio da igualdade de oportunidades.

Sim, Senhor Ministro (29)

por Pedro Correia, em 10.04.16

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Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do ministério - Não devemos retirar dinheiro destinado às artes e investi-lo em coisas como o futebol. Um clube de futebol é uma empresa comercial. Se tiver falta de dinheiro, nada justifica que receba subsídios.

Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Porque não?

Sir Humphrey - Porque não?!

Ministro - Sim, porque não? Não há qualquer diferença entre um subsidio para as artes e um subsídio para o futebol- a não ser que existe muito mais gente interessada no futebol.

Sir Humphrey - A nossa herança cultural deve ser preservada!

Ministro -Para quê? Para pessoas como você.

Sir Humphrey - Para mim?!

Ministro - Para a classe média instruída. Porque há-de o resto do país subsidiar os prazeres minoritários da classe média - o teatro, a ópera ou o bailado? Neste país os subsídios às artes não passam de uma vigarice da classe média.

Sir Humphrey - Como pode dizer uma coisa dessas, senhor ministro? Subsidiar é educar, é preservar o mais importante da nossa civilização. Ainda não reparou nisso?

Ministro - Não venha com superioridades! Não há mal nenhum em subsidiar o desporto. O desporto faz parte da educação.

Sir Humphrey - Também existe educação sexual. Devemos subsidiar o sexo?

Ministro - Devemos escolher aquilo que merece ser subsidiado, de acordo com a vontade popular. Não tem mal nenhum, é democrático.

Sir Humphrey - Isso é perigosíssimo! De acordo com essa lógica, o que aconteceria à Royal Opera House, o ponto mais elevado das nossas conquistas culturais?

Ministro - A Ópera é um bom exemplo. O que é que eles apresentam lá? Mozart, Wagner, Verdi, Puccini... Alemães e italianos! Não tem nada a ver com a nossa cultura. Vamos subsidiar as potências do Eixo?

Sir Humphrey - São nossos parceiros europeus, senhor ministro.

Sim, Senhor Ministro (28)

por Pedro Correia, em 09.04.16

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Bernard Woolley, secretário particular do ministro dos Assuntos Administrativos - Se a nossa missão é aplicar a política do Governo, não devíamos ao menos acreditar nela?

Sir Humphrey Appleby, secretário-geral do ministério - Que ideia extraordinária!

Bernard - Porquê?

Sir Humphrey - Servi 11 governos nos últimos 30 anos, Bernard. Se acreditasse nas políticas definidas por todos eles, ter-me-ia empenhado fervorosamente em não entrar no Mercado Comum e ter-me-ia empenhado fervorosamente em entrar. Estaria absolutamente convicto do mérito da nacionalização da indústria do aço e da sua privatização e da sua renacionalização. Servia um firme defensor da abolição e da manutenção da pena capital. Teria sido keynesiano e friedemanniano. Estaria contra e a favor da reforma do ensino. Seria um adepto fanático da economia estatizada e um defensor maníaco da economia privada. Mas, acima de tudo, estaria com uma esquizofrenia incurável.

Sim, Senhor Ministro (27)

por Pedro Correia, em 05.04.16

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Sir Desmond Glazebrook, banqueiro - Depois de o ministro decidir, está decidido, não está?

Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do Ministério dos Assuntos Administrativos - Quem lhe transmitiu essa ideia?

Sir Desmond - Uma decisão é uma decisão.

Sir Humphrey - Só se for a decisão que queremos. Senão é apenas um revés temporário. Os ministros são como crianças: agem por impulsos. Querem desesperadamente uma coisa e no dia seguinte esquecem-se de que a pediram.

Sir Desmond - Mas ele é um ministro da Coroa...

Sir Humphrey - Não sabe porque é que se chama ministro da Coroa? Porque diz sempre a primeira coisa que lhe vem à cabeça.

Sim, Senhor Ministro (26)

por Pedro Correia, em 01.04.16

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Já pensou alguma vez fazer carreira na política?

Bernard Woolley, secretário particular do ministro - Não, senhor ministro.

Ministro - Porque não?

Bernard - Vi uma vez a definição de política no dicionário.

Ministro - O que dizia?

Bernard - "Manipulação, intriga, manobrismo, evasão, apropriação, sublevação." Prefiro deixar isso aos nossos amos e senhores. Julgo não ter as qualidades necessárias.

Sim, Senhor Ministro (25)

por Pedro Correia, em 31.03.16

 

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Não podemos fechar os olhos perante algo moralmente errado.

Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do ministério - O Governo não deve preocupar-se com questões morais.

Ministro - Então deve preocupar-se com quê?

Sir Humphrey - Deve preocupar-se com a estabilidade, deve manter as coisas em funcionamento, evitar a anarquia, impedir que a sociedade se desmorone, garantir o amanhã.

Ministro - Para quê?

Sir Humphrey - Perdão...?

Ministro - Qual é o objectivo supremo do Governo senão fazer o bem?

Sir Humphrey - Não se trata de uma questão de bem ou mal: é uma questão de ordem ou caos. A mim compete-me apenas aplicar a política do Governo.

Ministro - Mesmo que a considere errada?

Sir Humphrey - Quase toda a política do Governo está errada. E não é por causa disso que deixa de ser impecavelmente aplicada.

Ministro - Humphrey, conhece algum funcionário público que se tivesse demitido por imperativo de consciência?

Sir Humphrey - [admirado] De maneira nenhuma! Que sugestão horrível!

Sim, Senhor Ministro (24)

por Pedro Correia, em 30.03.16

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Você não me percebeu: eu quero mudanças imediatas. Agora.

Sir Humphrey Appleby - Agora...?

Ministro - Percebeu!

Sir Humphrey - Mas, senhor ministro, as coisas levam tempo a fazer de imediato.

Ministro - Ora aí estão as três máximas da função pública: leva mais tempo a fazer as coisas depressa, é mais caro fazê-las baratas e é democrático fazê-las em segredo!

Sir Humphrey - Eu não me refiro ao tempo político, mas ao tempo real. Os funcionários públicos crescem como carvalhos, não como ervas. Florescem e crescem como as estações do ano. Amadurecem como...

Ministro - Como você.

Sir Humphrey - ... Como o Vinho do Porto, ia eu a dizer.

Sim, Senhor Ministro (23)

por Pedro Correia, em 29.03.16

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Sir Humphrey Appleby - Não está hoje com uma cara muito satisfeita, senhor ministro...

Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Suponha que o relatório [ambiental] que encomendámos não é tão conclusivo como você prevê...

Sir Humphrey - Vai ser. Está a ser elaborado pelo professor Henderson, um bioquímico brilhante, de Cambridge.

Ministro - E se ele produzir um relatório inconclusivo?

Sir Humphrey - Nesse caso não o divulgamos.

Ministro - Quer você dizer que o ocultamos?

Sir Humphrey - Não. Quero só dizer que não o divulgamos.

Ministro - Qual é a diferença?

Sir Humphrey - É enorme. A ocultação é um instrumento dos regimes totalitários. Num país livre isso não existe: decidimos democraticamente não o divulgar.

Ministro - E o que digo eu à imprensa e ao parlamento? Vamos fingir que o relatório não existe?

Sir Humphrey - Senhor ministro, existe um procedimento governamental para suprimir... para não divulgar um relatório oficial.

Ministro - A sério?

Sir Humphrey - Sim. Desacredita-se o documento.

Ministro - Como?

Sir Humphrey - Na primeira fase invocam-se questões de interesse público, sugerem-se considerações de segurança...

Ministro -  Importa-se que tome nota? Pode ser útil para desacreditar alguns estudos idiotas elaborados pelo partido.

Sir Humphrey - Diga que o relatório é susceptível de sujeitar o Governo a pressões indesejáveis, por má interpretação.

Ministro - Tudo pode ser mal interpretado. Até o Sermão da Montanha.

Sir Humphrey - Sim. O Sermão da Montanha, se fosse um relatório governamental, nunca seria publicado. Por ser um documento irresponsável: aquilo de os mansos herdarem a terra podia prejudicar irremediavelmente o orçamento da Defesa.

Sim, Senhor Ministro (22)

por Pedro Correia, em 26.03.16

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Sir Humphrey Appleby - A ausência de um ministro é uma dádiva do céu. Por uma vez, podemos fazer o trabalho todo como deve ser. Nada de perguntas tolas, nada de ideias brilhantes, nem preocupações com o que possam dizer os jornais. Às vezes, Bernard, penso que o nosso ministro acredita mesmo que não existe se não ler nada acerca dele na imprensa. Aposto consigo que a primeira coisa que ele vai fazer quando aqui entrar é perguntar-nos se a imprensa mencionou o discurso dele em Washington.

Bernard Woolley - Quanto é que aposta?

Sir Humphrey - Uma libra.

Bernard - Aceito. Ele não pergunta, porque já me perguntou. No carro, quando vinha do aeroporto.

Sir Humphrey - [Surpreendido] Muito bem, Bernard. Você está a aprender [entrega-lhe a nota de uma libra]. Vê como a ausência de um ministro é boa?

Bernard - Sim, mas o trabalho acumula-se.

Sir Humphrey - Com uns dias de preparação antes de seguir viagem e as reuniões de balanço após o regresso, conseguimos afastá-lo da gestão corrente durante uma quinzena. Nos seis meses seguintes, sempre que ele se queixar de que não foi informado sobre alguma coisa, podemos dizer-lhe que aconteceu enquanto ele estava fora.

Bernard - Por isso é que há tantas cimeiras externas?

Sir Humphrey - Com certeza. É a única forma de o país funcionar. Concentra-se o poder todo na estrutura do nº 10 [de Downing Street] e manda-se o primeiro-ministro embora. Para as cimeiras da CEE, da NATO, da Comunidade Britânica... E o secretário-geral do gabinete pode enfim dirigir o país como deve ser.

Sim, Senhor Ministro (21)

por Pedro Correia, em 23.03.16

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Sir Humphrey Appleby - O senhor é bom a baralhar as coisas. Tem grande talento para tornar as coisas ininteligíveis.

Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Como?!

Sir Humphrey - Tome isto como um elogio. Confundir as questões é um dos maiores atributos de um ministro.

Ministro - [com ar lisonjeado] Quais são as outras?

Sir Humphrey - Adiar os problemas, fugir às perguntas, jogar com os números, deturpar factos e ocultar erros.

Sim, Senhor Ministro (20)

por Pedro Correia, em 21.03.16

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Sir Humphrey Appleby - Não leu o Financial Times de hoje?

Sir Desmond Glazebrook - Nunca leio.

Sir Humphrey - Você é banqueiro. Devia ler o Financial Times.

Sir Desmond - Não percebo nada. Está cheio de teorias económicas.

Sir Humphrey - Então porque é que o compra?

Sir Desmond  [com o jornal debaixo do braço] - Faz parte da farda. Levei 30 anos a perceber as teorias do Keynes e logo a seguir começaram a ficar na moda as ideias monetaristas. Conhece-as? Quero Ser Livre, do Milton Shulman.

Sir Humphrey - Milton Friedman.

Sir Desmond - Porque se chamarão todos Milton? Bem, eu ainda não passei do Milton Keynes.

Sir Humphrey - Maynard Keynes.

Sim, Senhor Ministro (19)

por Pedro Correia, em 20.03.16

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Sir Humphrey Appleby - Um bom discurso de um ministro nunca é aquele em que ele fala verdade. É aquele em que ninguém pode provar que mentiu.

Bernard Woolley - O Pete [autor dos discursos do ministro] fez um bom trabalho, mas é possível que tenha aborrecido o auditório.

Sir Humphrey - Claro que aborreceu! Chateou-os mortalmente. Deve ter sido um pavor ter que ouvir aquilo.

Bernard - Mas...

Sir Humphrey - Os discursos dos ministros não se destinam a quem os ouve.

Bernard - Não?

Sir Humphrey - Discursar é só uma formalidade. Para que a imprensa divulgue o que se diz. Não escrevemos textos a pensar num comediante que vai entreter o público... um comediante profissional, pelo menos. O que interessa é que esse discurso diga as coisas certas.

Bernard - Mas tem que ser em público?

Sir Humphrey - Claro que sim. É fundamental. Depois de o discurso ser tornado público, o ministro fica obrigado a defender-nos em todo o lado.

Bernard - Mas ele defende-nos sempre.

Sir Humphrey - Só até certo ponto, Bernard. Quando alguma coisa corre mal, o instinto de um ministro é dizer mal de quem trabalha com ele no ministério. Por isso escrevemos-lhe discursos destinados a prender-lhe as calças ao mastro.

Bernard - Quer dizer que lhe prende a bandeira ao mastro...

Sir Humphrey - Não, prende-lhe as calças. Assim já não pode descer de lá.

 

Sim, Senhor Ministro (18)

por Pedro Correia, em 18.03.16

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Como é que o Times conheceu este relatório governamental antes de mim?

Bernard Woolley, secretário particular do ministro - Houve uma fuga de informação, senhor ministro.

Ministro - Isso sei eu. Mas é matéria confidencial! Eu próprio só tive acesso a uma cópia ontem à noite.

Bernard - Pelo menos não estava classificado como "restrito"...

Ministro - Que quer isso dizer?

Bernard - "Restrito" significa que viria nos jornais de ontem. "Confidencial" significa que só vem na imprensa de hoje.

Sim, Senhor Ministro (17)

por Pedro Correia, em 15.03.16

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - O mal de Bruxelas não é o internacionalismo: é a burocracia.

Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do ministério - A burocracia é consequência do internacionalismo. Porque haveremos de ter um comissário inglês e abaixo dele um director-geral francês e um chefe de divisão italiano? Parece a Torre de Babel. Pior: parece a ONU.

Ministro - Concordo. Bruxelas é uma trapalhada. Sabe o que se diz do funcionário médio do Mercado Comum? Tem a capacidade de organização dos italianos, a flexibilidade dos alemães e a modéstia dos franceses. Com a imaginação dos belgas, a generosidade dos holandeses e a inteligência dos irlandeses. É um grande maná.

Sir Humphrey - Discordo. Bruxelas está cheia de funcionários com grande capacidade de trabalho, sujeitos a esgotantes viagens e distracções muito aborrecidas.

Ministro - Aborrecidíssimas. Têm de comer tanto salmão e beber tanto champanhe....

Sim, Senhor Ministro (16)

por Pedro Correia, em 13.03.16

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Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do ministério - Temos que pagar um preço porque queremos fingir que somos europeus. Compreendo a sua hostilidade em relação à Europa.

Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Não. Eu não sou como você. Sou pró-europeu, só sou anti-Bruxelas. Chego a pensar que, pelo contrário, você é anti-Europa e pró-Bruxelas...

Sir Humphrey - Não sou pró nem contra nada. Sou apenas o humilde receptáculo em que os ministros depositam o fruto das suas deliberações. Mas podemos sempre argumentar que, face ao absurdo do ideal europeu, Bruxelas faz o que pode para defender o indefensável.

Ministro - Não é verdade! Não quero parecer pomposo, mas o ideal europeu é a melhor maneira de combatermos os egoísmos nacionais.

Sir Humphrey - Isso não parece pomposo, é apenas incorrecto.

Ministro - Oiça, "modesto receptáculo": a Europa é uma comunidade de países dedicados a um objectivo comum.

Sir Humphrey - [Ri-se] É um jogo de interesses nacionais, sempre foi assim. Porque pensa que entrámos nisto?

Ministro - Para fortalecer a fraternidade das nações ocidentais.

Sir Humphrey - Não. Entrámos na CEE para tramarmos os franceses, afastando-os dos alemães.

Ministro - E porque é que os franceses entraram?

Sir Humphrey - Para proteger os ineficazes agricultores deles contra a concorrência.

Ministro - Isso não se aplica aos alemães...

Sir Humphrey - Esses entraram para se limparem do Holocausto e serem readmitidos na espécie humana.

Sim, Senhor Ministro (15)

por Pedro Correia, em 10.03.16

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Roy, motorista do ministro  dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - [Durante o trajecto para o ministério] - Vai haver remodelação, senhor ministro?

Ministro - Vai. Suponho que também já leu o Standard.

Roy - Sim.

Ministro - Também eu.

Roy - Mas ouvi falar disso pela primeira vez há umas semanas.

Ministro - Hum... também eu. Onde é que ouviu?

Roy - Todos os motoristas sabiam. Soube pelo motorista do primeiro-ministro e pelo motorista do secretário-geral da Presidência do Conselho de Ministros.

Ministro - Que mais ouviram eles?

Roy - O costume. Parece que o Corbett vai ser promovido. Não há nada a fazer. E o velho Fred... o ministro do Trabalho... vai ser corrido.

Ministro - Como é que sabe?

Roy - O motorista dele foi transferido.

Sim, Senhor Ministro (14)

por Pedro Correia, em 09.03.16

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Diz aqui no jornal: "Remodelação do Governo! Consta que o primeiro-ministro irá anunciar várias alterações no executivo antes de terminar a actual sessão legislativa." Porque é que eu não sei nada disto? Como é que eles sabem? Será verdade?

Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do ministério - Senhor ministro, eu sou apenas um modesto funcionário. Não frequento os selectos círculos políticos onde se movimentam políticos e jornalistas.

Ministro - Mas este boato é verdadeiro?

Sir Humphrey - É.

Ministro - Como é que você sabe que é verdade se não frequenta os tais círculos tão selectos?

Sir Humphrey - Sei que o boato existe.

Ministro - Mas uma remodelação... E eu mal comecei o que queria...

Sir Humphrey - Talvez não lhe toquem e acabe por ficar como está.

Ministro - Hum... então é sinal que a minha carreira não avança!

Sir Humphrey - Pelo menos não anda para trás.

Ministro - Para trás? Não quer dizer que... Santo Deus! Mas eu não... Não me saí mal, pois não, Humphrey? Nós não nos saímos mal.

Sir Humphrey - Saiu-se razoavelmente, senhor ministro.

Ministro - [virando-se para o secretário pessoal] Portámo-nos razoavelmente, não foi, Bernard?

Bernard Woolley - Sim, senhor ministro.

Ministro - Posso não ser o caso de maior sucesso deste Governo, mas não fui propriamente um fracasso.

Bernard - Pois não. Foi razoável.

Ministro - Em certos aspectos até fui bom. (...) Bem, é inútil preocuparmo-nos, não se fala mais nisso.

(...)

Sir Humphrey - [Falando mais tarde com o secretário] - Que tal a ideia de vir a ter um novo ministro?

Bernard - Teria muita pena. O senhor não?

Sir Humphrey - Claro que não.

Bernard - Mas agora o ministro já começa a perceber daquilo.

Sir Humphrey - Exactamente: o problema é esse. Quando os ministros começam a perceber aquilo que fazem há sempre o perigo de poderem ter razão. Dizemos-lhes que uma coisa é impossível e eles acabam por desenterrar um documento antigo destinado a provar que é não apenas possível mas até fácil!

Bernard - Não seria interessante se os ministros fossem sempre os mesmos e passassem os secretários-gerais a ser remodelados?

Sir Humphrey - Claro que não. Isso atingiria mortalmente o sistema que faz da Inglaterra aquilo que é hoje.

Bernard - Mas numa democracia...

Sir Humphrey - Obrigado, Bernard. Estamos conversados.

Sim, Senhor Ministro (13)

por Pedro Correia, em 08.03.16

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Sir Humphrey Appleby - [Falando de si próprio] O lugar de secretário-geral vitalício de um ministério só se alcança com uma vida de responsabilidade, integridade e confiança. Um rigorosíssimo processo de selecção permite escolher apenas os funcionários mais verticais, respeitáveis e discretos.

Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - E em relação aos ministros?

Sir Humphrey - ... Bem, os ministros têm toda uma série de qualidades, incluindo... [longa pausa] uma inegável flexibilidade intelectual e uma indiscutível complexidade moral.

Ministro - O que quer dizer com isso?

Sir Humphrey - Quero dizer que não podemos confiar neles. Não me refiro a si, como é óbvio... Os ministros, ao contrário dos funcionários da Administração Pública, são escolhidos totalmente ao acaso, por capricho dos primeiros-ministros, como prémio por serviços duvidosos ou para evitar a nomeação de alguém competente. Claro que não me refiro a si... O senhor é de confiança! Quase podia ser funcionário público.

Ministro - [Virando-se para o secretário particular] - Isto é um elogio?

Bernard Woolley - Sim, senhor ministro. Asseguro-lhe que é o maior dos elogios.

Sim, Senhor Ministro (12)

por Pedro Correia, em 07.03.16

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - É verdade isto que vem no jornal?

Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do ministério - O quê?

Ministro - Que enquanto fui deputado da oposição estive sob escuta [em casa e nas comunicações telefónicas] e agora, enquanto ministro, sou eu o responsável por esse mesmo equipamento de vigilância!

Sir Humphrey - ... Não vai acreditar no que lê nessa folha miserável.

Ministro - Deixe lá o jornal. É verdade o que lá vem?

Sir Humphrey - Acho que não devemos levar isso muito a sério.

Ministro - Eu levo. Estive sob vigilância. Eu, um deputado, um cidadão livre! A vigilância ilegal atinge o coração da democracia. Sabe que viola a Convenção Europeia dos Direitos do Homem?

Sir Humphrey - A vigilância é uma arma indispensável no combate ao crime organizado.

Ministro - Está a equiparar os políticos ao crime organizado?!

Sir Humphrey - Hum... também é uma arma no combate ao crime desorganizado.


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