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Sim, Senhor Ministro (30)

por Pedro Correia, em 11.04.16

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Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do ministério dos Assuntos Administrativos - [Falando numa reunião de trabalho com os secretários-gerais de outros ministérios] O meu ministro está decidido a abrir os quadros do ministério a 25% de mulheres.

Sir Arnold Robinson, secretário-permanente do gabinete do Primeiro-Ministro - Parece-me correcto que homens e mulheres sejam tratados em pé de igualdade. E julgo que todos concordamos, em princípio, com esse desígnio.

[Vozes de concordância à volta da mesa, onde só há homens]

Secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros - Sou inteiramente a favor. Tem de haver discriminação positiva a favor das mulheres. Mas não resultaria nos Negócios Estrangeiros, obviamente. Não podíamos enviar embaixadoras a países muçulmanos. A maior parte dos países do Terceiro Mundo, ao contrário de nós, não está evoluída na questão dos direitos das mulheres. Mas aprovo o princípio.

Secretário-geral do Ministério da Administração Interna - Também sou favorável. Necessitamos de um toque feminino: as mulheres tratam alguns problemas melhor que os homens. Mas devemos abrir uma excepção no meu ministério: as mulheres não servem para dirigir prisões nem corporações policiais. E provavelmente nem quereriam desempenhar essas tarefas.

Sir Arnold - Mas concorda com o princípio?

Secretário-geral do Ministério da Administração Interna - Sem a menor dúvida.

Secretário-geral do Ministério da Defesa - Na Defesa, o mesmo - com tantos almirantes e generais. Além disso uma mulher não pode chefiar os serviços secretos...

Sir Humphrey - M tornar-se-ia F...

Sir Arnold - A Defesa é coisa para homens. Tal como a Indústria e o Emprego - com tantos dirigentes sindicais. E a Saúde, John?

Secretário-geral do Ministério da Saúde - Temos as mulheres representadas quase ao mais alto nível. Mas, claro, não podem ser secretárias-gerais porque são médicas e não sei se estariam à altura... Sublinho, no entanto, que 80% do nosso pessoal de escritório e 99% da dactilografia é composto por mulheres. Não as tratamos muito mal, pois não? E, em princípio, concedo que cheguem ao topo do ministério.

Sir Arnold - Muito bem. Acho que a opinião global é favorável aos direitos das mulheres.

Sir Humphrey - Quanto à questão das quotas, francamente, sou contra. Na minha perspectiva, devemos promover sempre o homem mais capaz, independentemente do sexo.

Sir Arnold - Em conclusão, compete-vos influenciar os respectivos ministros de modo a que se oponham à inclusão de mulheres nos ministérios. Isto sem prejuízo da adopção genérica do princípio da igualdade de oportunidades.

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Sim, Senhor Ministro (29)

por Pedro Correia, em 10.04.16

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Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do ministério - Não devemos retirar dinheiro destinado às artes e investi-lo em coisas como o futebol. Um clube de futebol é uma empresa comercial. Se tiver falta de dinheiro, nada justifica que receba subsídios.

Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Porque não?

Sir Humphrey - Porque não?!

Ministro - Sim, porque não? Não há qualquer diferença entre um subsidio para as artes e um subsídio para o futebol- a não ser que existe muito mais gente interessada no futebol.

Sir Humphrey - A nossa herança cultural deve ser preservada!

Ministro -Para quê? Para pessoas como você.

Sir Humphrey - Para mim?!

Ministro - Para a classe média instruída. Porque há-de o resto do país subsidiar os prazeres minoritários da classe média - o teatro, a ópera ou o bailado? Neste país os subsídios às artes não passam de uma vigarice da classe média.

Sir Humphrey - Como pode dizer uma coisa dessas, senhor ministro? Subsidiar é educar, é preservar o mais importante da nossa civilização. Ainda não reparou nisso?

Ministro - Não venha com superioridades! Não há mal nenhum em subsidiar o desporto. O desporto faz parte da educação.

Sir Humphrey - Também existe educação sexual. Devemos subsidiar o sexo?

Ministro - Devemos escolher aquilo que merece ser subsidiado, de acordo com a vontade popular. Não tem mal nenhum, é democrático.

Sir Humphrey - Isso é perigosíssimo! De acordo com essa lógica, o que aconteceria à Royal Opera House, o ponto mais elevado das nossas conquistas culturais?

Ministro - A Ópera é um bom exemplo. O que é que eles apresentam lá? Mozart, Wagner, Verdi, Puccini... Alemães e italianos! Não tem nada a ver com a nossa cultura. Vamos subsidiar as potências do Eixo?

Sir Humphrey - São nossos parceiros europeus, senhor ministro.

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Sim, Senhor Ministro (28)

por Pedro Correia, em 09.04.16

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Bernard Woolley, secretário particular do ministro dos Assuntos Administrativos - Se a nossa missão é aplicar a política do Governo, não devíamos ao menos acreditar nela?

Sir Humphrey Appleby, secretário-geral do ministério - Que ideia extraordinária!

Bernard - Porquê?

Sir Humphrey - Servi 11 governos nos últimos 30 anos, Bernard. Se acreditasse nas políticas definidas por todos eles, ter-me-ia empenhado fervorosamente em não entrar no Mercado Comum e ter-me-ia empenhado fervorosamente em entrar. Estaria absolutamente convicto do mérito da nacionalização da indústria do aço e da sua privatização e da sua renacionalização. Servia um firme defensor da abolição e da manutenção da pena capital. Teria sido keynesiano e friedemanniano. Estaria contra e a favor da reforma do ensino. Seria um adepto fanático da economia estatizada e um defensor maníaco da economia privada. Mas, acima de tudo, estaria com uma esquizofrenia incurável.

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Sim, Senhor Ministro (27)

por Pedro Correia, em 05.04.16

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Sir Desmond Glazebrook, banqueiro - Depois de o ministro decidir, está decidido, não está?

Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do Ministério dos Assuntos Administrativos - Quem lhe transmitiu essa ideia?

Sir Desmond - Uma decisão é uma decisão.

Sir Humphrey - Só se for a decisão que queremos. Senão é apenas um revés temporário. Os ministros são como crianças: agem por impulsos. Querem desesperadamente uma coisa e no dia seguinte esquecem-se de que a pediram.

Sir Desmond - Mas ele é um ministro da Coroa...

Sir Humphrey - Não sabe porque é que se chama ministro da Coroa? Porque diz sempre a primeira coisa que lhe vem à cabeça.

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Sim, Senhor Ministro (26)

por Pedro Correia, em 01.04.16

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Já pensou alguma vez fazer carreira na política?

Bernard Woolley, secretário particular do ministro - Não, senhor ministro.

Ministro - Porque não?

Bernard - Vi uma vez a definição de política no dicionário.

Ministro - O que dizia?

Bernard - "Manipulação, intriga, manobrismo, evasão, apropriação, sublevação." Prefiro deixar isso aos nossos amos e senhores. Julgo não ter as qualidades necessárias.

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Sim, Senhor Ministro (25)

por Pedro Correia, em 31.03.16

 

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Não podemos fechar os olhos perante algo moralmente errado.

Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do ministério - O Governo não deve preocupar-se com questões morais.

Ministro - Então deve preocupar-se com quê?

Sir Humphrey - Deve preocupar-se com a estabilidade, deve manter as coisas em funcionamento, evitar a anarquia, impedir que a sociedade se desmorone, garantir o amanhã.

Ministro - Para quê?

Sir Humphrey - Perdão...?

Ministro - Qual é o objectivo supremo do Governo senão fazer o bem?

Sir Humphrey - Não se trata de uma questão de bem ou mal: é uma questão de ordem ou caos. A mim compete-me apenas aplicar a política do Governo.

Ministro - Mesmo que a considere errada?

Sir Humphrey - Quase toda a política do Governo está errada. E não é por causa disso que deixa de ser impecavelmente aplicada.

Ministro - Humphrey, conhece algum funcionário público que se tivesse demitido por imperativo de consciência?

Sir Humphrey - [admirado] De maneira nenhuma! Que sugestão horrível!

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Sim, Senhor Ministro (24)

por Pedro Correia, em 30.03.16

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Você não me percebeu: eu quero mudanças imediatas. Agora.

Sir Humphrey Appleby - Agora...?

Ministro - Percebeu!

Sir Humphrey - Mas, senhor ministro, as coisas levam tempo a fazer de imediato.

Ministro - Ora aí estão as três máximas da função pública: leva mais tempo a fazer as coisas depressa, é mais caro fazê-las baratas e é democrático fazê-las em segredo!

Sir Humphrey - Eu não me refiro ao tempo político, mas ao tempo real. Os funcionários públicos crescem como carvalhos, não como ervas. Florescem e crescem como as estações do ano. Amadurecem como...

Ministro - Como você.

Sir Humphrey - ... Como o Vinho do Porto, ia eu a dizer.

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Sim, Senhor Ministro (23)

por Pedro Correia, em 29.03.16

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Sir Humphrey Appleby - Não está hoje com uma cara muito satisfeita, senhor ministro...

Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Suponha que o relatório [ambiental] que encomendámos não é tão conclusivo como você prevê...

Sir Humphrey - Vai ser. Está a ser elaborado pelo professor Henderson, um bioquímico brilhante, de Cambridge.

Ministro - E se ele produzir um relatório inconclusivo?

Sir Humphrey - Nesse caso não o divulgamos.

Ministro - Quer você dizer que o ocultamos?

Sir Humphrey - Não. Quero só dizer que não o divulgamos.

Ministro - Qual é a diferença?

Sir Humphrey - É enorme. A ocultação é um instrumento dos regimes totalitários. Num país livre isso não existe: decidimos democraticamente não o divulgar.

Ministro - E o que digo eu à imprensa e ao parlamento? Vamos fingir que o relatório não existe?

Sir Humphrey - Senhor ministro, existe um procedimento governamental para suprimir... para não divulgar um relatório oficial.

Ministro - A sério?

Sir Humphrey - Sim. Desacredita-se o documento.

Ministro - Como?

Sir Humphrey - Na primeira fase invocam-se questões de interesse público, sugerem-se considerações de segurança...

Ministro -  Importa-se que tome nota? Pode ser útil para desacreditar alguns estudos idiotas elaborados pelo partido.

Sir Humphrey - Diga que o relatório é susceptível de sujeitar o Governo a pressões indesejáveis, por má interpretação.

Ministro - Tudo pode ser mal interpretado. Até o Sermão da Montanha.

Sir Humphrey - Sim. O Sermão da Montanha, se fosse um relatório governamental, nunca seria publicado. Por ser um documento irresponsável: aquilo de os mansos herdarem a terra podia prejudicar irremediavelmente o orçamento da Defesa.

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Sim, Senhor Ministro (22)

por Pedro Correia, em 26.03.16

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Sir Humphrey Appleby - A ausência de um ministro é uma dádiva do céu. Por uma vez, podemos fazer o trabalho todo como deve ser. Nada de perguntas tolas, nada de ideias brilhantes, nem preocupações com o que possam dizer os jornais. Às vezes, Bernard, penso que o nosso ministro acredita mesmo que não existe se não ler nada acerca dele na imprensa. Aposto consigo que a primeira coisa que ele vai fazer quando aqui entrar é perguntar-nos se a imprensa mencionou o discurso dele em Washington.

Bernard Woolley - Quanto é que aposta?

Sir Humphrey - Uma libra.

Bernard - Aceito. Ele não pergunta, porque já me perguntou. No carro, quando vinha do aeroporto.

Sir Humphrey - [Surpreendido] Muito bem, Bernard. Você está a aprender [entrega-lhe a nota de uma libra]. Vê como a ausência de um ministro é boa?

Bernard - Sim, mas o trabalho acumula-se.

Sir Humphrey - Com uns dias de preparação antes de seguir viagem e as reuniões de balanço após o regresso, conseguimos afastá-lo da gestão corrente durante uma quinzena. Nos seis meses seguintes, sempre que ele se queixar de que não foi informado sobre alguma coisa, podemos dizer-lhe que aconteceu enquanto ele estava fora.

Bernard - Por isso é que há tantas cimeiras externas?

Sir Humphrey - Com certeza. É a única forma de o país funcionar. Concentra-se o poder todo na estrutura do nº 10 [de Downing Street] e manda-se o primeiro-ministro embora. Para as cimeiras da CEE, da NATO, da Comunidade Britânica... E o secretário-geral do gabinete pode enfim dirigir o país como deve ser.

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Sim, Senhor Ministro (21)

por Pedro Correia, em 23.03.16

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Sir Humphrey Appleby - O senhor é bom a baralhar as coisas. Tem grande talento para tornar as coisas ininteligíveis.

Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Como?!

Sir Humphrey - Tome isto como um elogio. Confundir as questões é um dos maiores atributos de um ministro.

Ministro - [com ar lisonjeado] Quais são as outras?

Sir Humphrey - Adiar os problemas, fugir às perguntas, jogar com os números, deturpar factos e ocultar erros.

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Sim, Senhor Ministro (20)

por Pedro Correia, em 21.03.16

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Sir Humphrey Appleby - Não leu o Financial Times de hoje?

Sir Desmond Glazebrook - Nunca leio.

Sir Humphrey - Você é banqueiro. Devia ler o Financial Times.

Sir Desmond - Não percebo nada. Está cheio de teorias económicas.

Sir Humphrey - Então porque é que o compra?

Sir Desmond  [com o jornal debaixo do braço] - Faz parte da farda. Levei 30 anos a perceber as teorias do Keynes e logo a seguir começaram a ficar na moda as ideias monetaristas. Conhece-as? Quero Ser Livre, do Milton Shulman.

Sir Humphrey - Milton Friedman.

Sir Desmond - Porque se chamarão todos Milton? Bem, eu ainda não passei do Milton Keynes.

Sir Humphrey - Maynard Keynes.

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Sim, Senhor Ministro (19)

por Pedro Correia, em 20.03.16

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Sir Humphrey Appleby - Um bom discurso de um ministro nunca é aquele em que ele fala verdade. É aquele em que ninguém pode provar que mentiu.

Bernard Woolley - O Pete [autor dos discursos do ministro] fez um bom trabalho, mas é possível que tenha aborrecido o auditório.

Sir Humphrey - Claro que aborreceu! Chateou-os mortalmente. Deve ter sido um pavor ter que ouvir aquilo.

Bernard - Mas...

Sir Humphrey - Os discursos dos ministros não se destinam a quem os ouve.

Bernard - Não?

Sir Humphrey - Discursar é só uma formalidade. Para que a imprensa divulgue o que se diz. Não escrevemos textos a pensar num comediante que vai entreter o público... um comediante profissional, pelo menos. O que interessa é que esse discurso diga as coisas certas.

Bernard - Mas tem que ser em público?

Sir Humphrey - Claro que sim. É fundamental. Depois de o discurso ser tornado público, o ministro fica obrigado a defender-nos em todo o lado.

Bernard - Mas ele defende-nos sempre.

Sir Humphrey - Só até certo ponto, Bernard. Quando alguma coisa corre mal, o instinto de um ministro é dizer mal de quem trabalha com ele no ministério. Por isso escrevemos-lhe discursos destinados a prender-lhe as calças ao mastro.

Bernard - Quer dizer que lhe prende a bandeira ao mastro...

Sir Humphrey - Não, prende-lhe as calças. Assim já não pode descer de lá.

 

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Sim, Senhor Ministro (18)

por Pedro Correia, em 18.03.16

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Como é que o Times conheceu este relatório governamental antes de mim?

Bernard Woolley, secretário particular do ministro - Houve uma fuga de informação, senhor ministro.

Ministro - Isso sei eu. Mas é matéria confidencial! Eu próprio só tive acesso a uma cópia ontem à noite.

Bernard - Pelo menos não estava classificado como "restrito"...

Ministro - Que quer isso dizer?

Bernard - "Restrito" significa que viria nos jornais de ontem. "Confidencial" significa que só vem na imprensa de hoje.

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Sim, Senhor Ministro (17)

por Pedro Correia, em 15.03.16

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - O mal de Bruxelas não é o internacionalismo: é a burocracia.

Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do ministério - A burocracia é consequência do internacionalismo. Porque haveremos de ter um comissário inglês e abaixo dele um director-geral francês e um chefe de divisão italiano? Parece a Torre de Babel. Pior: parece a ONU.

Ministro - Concordo. Bruxelas é uma trapalhada. Sabe o que se diz do funcionário médio do Mercado Comum? Tem a capacidade de organização dos italianos, a flexibilidade dos alemães e a modéstia dos franceses. Com a imaginação dos belgas, a generosidade dos holandeses e a inteligência dos irlandeses. É um grande maná.

Sir Humphrey - Discordo. Bruxelas está cheia de funcionários com grande capacidade de trabalho, sujeitos a esgotantes viagens e distracções muito aborrecidas.

Ministro - Aborrecidíssimas. Têm de comer tanto salmão e beber tanto champanhe....

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Sim, Senhor Ministro (16)

por Pedro Correia, em 13.03.16

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Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do ministério - Temos que pagar um preço porque queremos fingir que somos europeus. Compreendo a sua hostilidade em relação à Europa.

Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Não. Eu não sou como você. Sou pró-europeu, só sou anti-Bruxelas. Chego a pensar que, pelo contrário, você é anti-Europa e pró-Bruxelas...

Sir Humphrey - Não sou pró nem contra nada. Sou apenas o humilde receptáculo em que os ministros depositam o fruto das suas deliberações. Mas podemos sempre argumentar que, face ao absurdo do ideal europeu, Bruxelas faz o que pode para defender o indefensável.

Ministro - Não é verdade! Não quero parecer pomposo, mas o ideal europeu é a melhor maneira de combatermos os egoísmos nacionais.

Sir Humphrey - Isso não parece pomposo, é apenas incorrecto.

Ministro - Oiça, "modesto receptáculo": a Europa é uma comunidade de países dedicados a um objectivo comum.

Sir Humphrey - [Ri-se] É um jogo de interesses nacionais, sempre foi assim. Porque pensa que entrámos nisto?

Ministro - Para fortalecer a fraternidade das nações ocidentais.

Sir Humphrey - Não. Entrámos na CEE para tramarmos os franceses, afastando-os dos alemães.

Ministro - E porque é que os franceses entraram?

Sir Humphrey - Para proteger os ineficazes agricultores deles contra a concorrência.

Ministro - Isso não se aplica aos alemães...

Sir Humphrey - Esses entraram para se limparem do Holocausto e serem readmitidos na espécie humana.

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Sim, Senhor Ministro (15)

por Pedro Correia, em 10.03.16

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Roy, motorista do ministro  dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - [Durante o trajecto para o ministério] - Vai haver remodelação, senhor ministro?

Ministro - Vai. Suponho que também já leu o Standard.

Roy - Sim.

Ministro - Também eu.

Roy - Mas ouvi falar disso pela primeira vez há umas semanas.

Ministro - Hum... também eu. Onde é que ouviu?

Roy - Todos os motoristas sabiam. Soube pelo motorista do primeiro-ministro e pelo motorista do secretário-geral da Presidência do Conselho de Ministros.

Ministro - Que mais ouviram eles?

Roy - O costume. Parece que o Corbett vai ser promovido. Não há nada a fazer. E o velho Fred... o ministro do Trabalho... vai ser corrido.

Ministro - Como é que sabe?

Roy - O motorista dele foi transferido.

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Sim, Senhor Ministro (14)

por Pedro Correia, em 09.03.16

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Diz aqui no jornal: "Remodelação do Governo! Consta que o primeiro-ministro irá anunciar várias alterações no executivo antes de terminar a actual sessão legislativa." Porque é que eu não sei nada disto? Como é que eles sabem? Será verdade?

Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do ministério - Senhor ministro, eu sou apenas um modesto funcionário. Não frequento os selectos círculos políticos onde se movimentam políticos e jornalistas.

Ministro - Mas este boato é verdadeiro?

Sir Humphrey - É.

Ministro - Como é que você sabe que é verdade se não frequenta os tais círculos tão selectos?

Sir Humphrey - Sei que o boato existe.

Ministro - Mas uma remodelação... E eu mal comecei o que queria...

Sir Humphrey - Talvez não lhe toquem e acabe por ficar como está.

Ministro - Hum... então é sinal que a minha carreira não avança!

Sir Humphrey - Pelo menos não anda para trás.

Ministro - Para trás? Não quer dizer que... Santo Deus! Mas eu não... Não me saí mal, pois não, Humphrey? Nós não nos saímos mal.

Sir Humphrey - Saiu-se razoavelmente, senhor ministro.

Ministro - [virando-se para o secretário pessoal] Portámo-nos razoavelmente, não foi, Bernard?

Bernard Woolley - Sim, senhor ministro.

Ministro - Posso não ser o caso de maior sucesso deste Governo, mas não fui propriamente um fracasso.

Bernard - Pois não. Foi razoável.

Ministro - Em certos aspectos até fui bom. (...) Bem, é inútil preocuparmo-nos, não se fala mais nisso.

(...)

Sir Humphrey - [Falando mais tarde com o secretário] - Que tal a ideia de vir a ter um novo ministro?

Bernard - Teria muita pena. O senhor não?

Sir Humphrey - Claro que não.

Bernard - Mas agora o ministro já começa a perceber daquilo.

Sir Humphrey - Exactamente: o problema é esse. Quando os ministros começam a perceber aquilo que fazem há sempre o perigo de poderem ter razão. Dizemos-lhes que uma coisa é impossível e eles acabam por desenterrar um documento antigo destinado a provar que é não apenas possível mas até fácil!

Bernard - Não seria interessante se os ministros fossem sempre os mesmos e passassem os secretários-gerais a ser remodelados?

Sir Humphrey - Claro que não. Isso atingiria mortalmente o sistema que faz da Inglaterra aquilo que é hoje.

Bernard - Mas numa democracia...

Sir Humphrey - Obrigado, Bernard. Estamos conversados.

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Sim, Senhor Ministro (13)

por Pedro Correia, em 08.03.16

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Sir Humphrey Appleby - [Falando de si próprio] O lugar de secretário-geral vitalício de um ministério só se alcança com uma vida de responsabilidade, integridade e confiança. Um rigorosíssimo processo de selecção permite escolher apenas os funcionários mais verticais, respeitáveis e discretos.

Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - E em relação aos ministros?

Sir Humphrey - ... Bem, os ministros têm toda uma série de qualidades, incluindo... [longa pausa] uma inegável flexibilidade intelectual e uma indiscutível complexidade moral.

Ministro - O que quer dizer com isso?

Sir Humphrey - Quero dizer que não podemos confiar neles. Não me refiro a si, como é óbvio... Os ministros, ao contrário dos funcionários da Administração Pública, são escolhidos totalmente ao acaso, por capricho dos primeiros-ministros, como prémio por serviços duvidosos ou para evitar a nomeação de alguém competente. Claro que não me refiro a si... O senhor é de confiança! Quase podia ser funcionário público.

Ministro - [Virando-se para o secretário particular] - Isto é um elogio?

Bernard Woolley - Sim, senhor ministro. Asseguro-lhe que é o maior dos elogios.

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Sim, Senhor Ministro (12)

por Pedro Correia, em 07.03.16

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - É verdade isto que vem no jornal?

Sir Humphrey Appleby, secretário-geral vitalício do ministério - O quê?

Ministro - Que enquanto fui deputado da oposição estive sob escuta [em casa e nas comunicações telefónicas] e agora, enquanto ministro, sou eu o responsável por esse mesmo equipamento de vigilância!

Sir Humphrey - ... Não vai acreditar no que lê nessa folha miserável.

Ministro - Deixe lá o jornal. É verdade o que lá vem?

Sir Humphrey - Acho que não devemos levar isso muito a sério.

Ministro - Eu levo. Estive sob vigilância. Eu, um deputado, um cidadão livre! A vigilância ilegal atinge o coração da democracia. Sabe que viola a Convenção Europeia dos Direitos do Homem?

Sir Humphrey - A vigilância é uma arma indispensável no combate ao crime organizado.

Ministro - Está a equiparar os políticos ao crime organizado?!

Sir Humphrey - Hum... também é uma arma no combate ao crime desorganizado.

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Sim, Senhor Ministro (11)

por Pedro Correia, em 05.03.16

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Ministro dos Assuntos Administrativos, Jim Hacker - Em dez anos, o pessoal administrativo na saúde aumentou em 40 mil pessoas enquanto passou a haver menos 60 mil camas nos hospitais. O custo anual do Serviço Nacional de Saúde aumentou 1,5 mil milhões de libras!

Sir Humphrey Appleby - Ah, se a indústria inglesa conseguisse crescer assim...

Ministro - Acha que gastar cada vez mais dinheiro em cada vez menos doentes para contratarmos cada vez mais funcionários é uma boa maneira de gastarmos o dinheiro dos contribuintes?

Sir Humphrey - Certamente.

Ministro - O orçamento da saúde existe para tratar os doentes.

Sir Humphrey - Não, de maneira nenhuma! O orçamento serve para toda a gente exibir sensibilidade social. Quando é atribuída mais verba aos serviços sociais ou à saúde, o parlamento e o país sentem-se limpos, purificados, absolvidos. É um sacrifício.

Ministro - Conversa fiada.

Sir Humphrey - Quando se faz um sacrifício, ninguém pergunta ao sacerdote o que aconteceu à oferenda ritual depois da cerimónia.

Ministro - Engana-se. As pessoas preocupam-se se a verba for mal gasta.

Sir Humphrey - Senhor ministro, elas só querem que a verba não pareça mal gasta.

Ministro - Isso é cinismo! Concorda ou não que é um desperdício haver um hospital aberto só para lá ter funcionários, como acontece no hospital St. Edward?

Sir Humphrey - Eu não poria a questão nesses termos...

Ministro - Então como a poria?

Sir Humphrey - O senhor ministro fala como se não houvesse mais nada para fazer num hospital.

Ministro - Que mais se faz neste hospital sem doentes?!

Sir Humphrey - Em St. Edward há secções ocupadíssimas. Por exemplo, a secção de Planeamento de Emergências - em caso de incêndios, guerras, ataques aéreos, bombardeamentos nucleares, epidemias, envenenamento de alimentos ou águas: numa crise dessas o hospital é vital para a sobrevivência. Depois há a Secção de Dados e Investigação, que organiza estudos demográficos de toda a zona: temos de prever as futuras exigências de maternidade, geriatria, pediatria... Há também as Finanças, com previsão de contas, balancetes... E a Secção de Compras, para aquisição de equipamento médico e avaliação de catálogos...

Ministro - O que é que compram?

Sir Humphrey - Compram tudo, senhor ministro. Desde encefalógrafos a detergentes. Posso continuar?

Ministro - Seja breve.

Sir Humphrey - Quem me dera, mas o senhor precisa de perceber. Há a Secção Técnica, para o equipamento. Há a Secção de Construções. Há as secções de Manutenção, Limpeza, Abastecimentos, Pessoal... E há funcionários da Assistência, para olharem pelos outros 500 funcionários do hospital. E, finalmente, há os serviços administrativos.

Ministro - ?!!

Sir Humphrey - É um trabalho importante, senhor ministro: asseguram a dactilografia, escalas de armazém, a ligação entre os diversos departamentos...

Ministro - Não consigo perceber se você está a falar a sério ou não...

Sir Humphrey - Como assim?

Ministro - Não há doentes! É para isso que um hospital existe. Pacientes. Gente doente. Curar os enfermos.

Sir Humphrey - Todas as funções vitais de que lhe falei têm de ser asseguradas. Com ou sem doentes.

Ministro - Porquê?!

Sir Humphrey - O senhor acabava com o Exército só por não haver guerra?

Ministro - Isso é completamente diferente. Um hospital tem de produzir resultados.

Sir Humphrey - Não avaliamos o êxito pelos resultados, mas pela actividade. E a actividade ali é considerável. Aqueles 500 funcionários hospitalares estão sobrecarregados de trabalho, senhor ministro. Aliás o quadro completo do hospital devia ser de 650 e não apenas de 500.

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