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Burquíni: o fim da polémica

por Diogo Noivo, em 07.09.16

Publiquei ontem um texto sobre o burquíni e sobre a controvérsia gerada pela proibição do seu uso nas praias de alguns municípios franceses. Tivesse eu esperado umas horas e tinha-me poupado ao esforço: a polémica morreu. Esta minha afirmação não é semelhante à de Augusto Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros, a propósito do galpgate. Neste caso, a afirmação baseia-se em factos.

Hoje tudo ficou esclarecido. Pouco importa se o burquíni é, ou não, um símbolo de um Islão radical. Da mesma forma, é despropositado analisar se o uso desta peça de vestuário constitui um exercício de liberdade de expressão. Estes e outros debates são inúteis para o caso em apreço. A proibição teve na sua base algo muito mais simples (e revelador): ser francês é ser branco e católico. E pronto. Nada como falar claro para acabar com as dúvidas.

Os suíços decidiram que querem ser os primeiros a colonizar Marte.

Nova xenofobia

por José Maria Gui Pimentel, em 02.09.12

 

Durante muitos anos, Portugal, um país habituado a receber bem (bem demais) os europeus que via como superiores, desdenhou os emigrantes das ex-colónias africanas (os pretos). Não que isso tenha acabado, longe disso, mas novas vagas de imigração vêm trazer novos tipos de xenofobia.

A mais recente diz respeito aos imigrantes chineses. Não sei – honestamente, gostaria de saber – se a impressão é só minha, mas noto uma crescente má vontade generalizada em relação aos imigrantes chineses.

Confesso que tenho dificuldade em enquadrá-la completamente. Ao contrário de outros grupos de imigrantes, os chineses são ordeiros (porventura demasiadamente) e não estão associados a crimes de qualquer tipo (ou, por outra, estão, mas injustificadamente. Mas já lá vamos).

Uma explicação parcial para esta má vontade está relacionada com o espaço que as lojas de chineses vão tirando ao tão malogrado comércio tradicional. O português, avesso à mudança, estranha ver chegar hordas de chineses para montar lojas nos locais anteriormente habitados pelos ditos comerciantes tradicionais – tão pouco acarinhados no activo (daí falirem) mas tão amparados na desgraça. Ainda recentemente, numa edição das Conversas Improváveis, um programa da SIC, José Cid (que, quanto a mim, já tinha bebido uns copos…mas ainda assim) começou por gracejar que “os chineses são pequeninos e amarelos, não têm interesse nenhum”, para depois afirmar aquilo que muitos portugueses pensam: “eu acho que a invasão dos supermercados de chineses (…) veio destruir a vida de muitas famílias portuguesas que viviam na loja da esquina”.

A isto soma-se a enorme diferença civilizacional que nos separa, que faz com que os chineses mantenham um quase afastamento da sociedade em que, para todos os efeitos, estão inseridos. Além disso, revelam um trato, hábitos e até uma alimentação que impressionam pela diferença, causando estranheza e, não poucas vezes, desconfiança. Compreendo que isso aconteça, mas é preciso perceber que esta diferença é igualmente sentida por um ocidental na china, e que a nossa reacção ao isolamento deles cá é a mesma que eles mostram ao isolamento dos ocidentais em cidades como Shanghai.

A última explicação que encontro é a mais intrigante, pois baseia-se num mito antigo. Ainda um destes dias recebi um email, destes cujo conteúdo se adivinha logo pelo prefixo “Fwd” e pelo título em capitais (“CUIDADO - Lojas Chinesas-URGENTE LER”). Resumindo, era uma destas correntes de emails especialmente direccionadas a pessoas que conheceram a informática enquanto adultas e que, incautas e bem-intencionadas, reencaminham aquilo que lhes parece ser um aviso legítimo. Mas, como muitas vezes, não o era. O dito email relatava dois casos de rapto por parte funcionários (chineses) de lojas de chineses. A polícia era chamada por pais em pânico e salvava in extremis a jovem que “já tinha o corpo marcado perto de alguns órgãos vitais e o destino dela seria ser MORTA PARA TRÁFICO DE ÓRGÃOS”. Claro que, a ser verdade, um caso destes abriria os telejornais, por isso (e por outras razões) é fácil comprovar a falsidade deste relato. Desde e de outros semelhantes, que todos já ouvimos. Não obstante, numa leitura rápida e desatenta facilmente o leitor acredita na história e a faz passar, com mais um fwd e, quem sabe, no dia seguinte com os colegas de trabalho ao café.

Mais recentemente ainda contaram-me algo inacreditável que se passou na caixa do supermercado. Um chinês provavelmente recém-chegado tentou apresentar, num português macarrónico, um qualquer talão de desconto para comprar carne. A caixa não reconheceu a promoção e o dito chinês, perdido na tradução, decidiu desistir e pagar o total. Nisto, numa mistura entre falta de profissionalismo e racismo, a caixa atira cumplicemente a uma colega: “estes também… só sabem comprar carne”.

Era provavelmente um preconceito semelhante que inspirava uma imagem que vi partilhada recentemente no Facebook. Nesta, em letras grandes, perguntava-se ao ministro das finanças se também iria pedir facturas aos ciganos, às prostitutas, aos traficantes de droga e…aos chineses“ (note-se que pretos não figuravam na lista, sinal, bom, dos tempos). “Ou esses [todos] vão continuar a ser beneficiados?”, terminava o repto. Não é que os ciganos e as prostitutas mereçam ser ostracizados, todavia é verdade que são grupos associados a criminalidade. Já os chineses, malgrado os mitos que se vão espalhando, não têm esse proveito.

 

Concluindo, a má vontade em relação aos chineses que vai grassando é completamente infundada (para mais exemplos ver, por exemplo, este artigo). É verdade que os hábitos deles ainda nos são muito estranhos, porventura se-lo-ão sempre. Mas os nossos também lhes são. Por outro lado, é preciso perceber que não são os chineses que expulsam os portugueses do comércio tradicional, é o mercado que o faz, ou seja, são os comerciantes que se deixam ultrapassar. Se são os chineses que aproveitam, é apenas por falta de competência dos portugueses. Sobretudo – como dizem os sociólogos – é preciso calçarmos sapatos dos outros, perceber como seria se fôssemos ganhar a vida para um país estranho, com uma língua difícil (que, não obstante, lográvamos aprender), e em que nos olhavam de lado, como invasores a remexer numa decadência acarinhada. 


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