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Voluntariado ao frio

por João Pedro Pimenta, em 01.11.18

À porta do cemitério, já perto da hora do fecho, e no alto da escadaria de granito na base da qual estão ainda inúmeras bancas de venda de flores, três ou quatro voluntárias da Liga Portuguesa contra o Cancro cumprem a sua missão, pedindo pequenos donativos em "troca" do autocolantezinho da instituição. Estão claramente enregeladas, porque está um tempo desagradável de quasi-chuva, mas mesmo assim não perdem o sorriso e a modéstia, enquanto conversam e vão mostrando os seus smartphones umas às outras (também é preciso passar o tempo). Já ali estão há umas horas e não recebem nada por isso, excepto gratuitidade nos transportes públicos (só hoje e ontem, desde que devidamente identificadas). E lembra-me quando há muitos anos passei pela mesma experiência, antes de achar que tinha outras coisas que fazer, porventura bem menos importantes.

Ao contrário do que dizia a outra, o voluntariado não é treta nenhuma. Treta é inventarmos muitas vezes desculpas para não o cumprirmos.

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Exemplos de Vida

por Francisca Prieto, em 20.04.16

Hoje a minha sobrinha Matilde foi ao programa do Medina Carreira prestar o seu testemunho enquanto voluntária num campo de refugiados na Grécia. Desde que chegou que tem tido vários convites e eu sigo sempre tudo, muito atenta, de olhos colados ao ecrã. Porque tenho um imenso orgulho na forma como estabeleceu prioridades na sua vida, mas também porque tenho um raio de um defeito de profissão que me faz analisar a pertinência das perguntas e o peso de cada palavra no resultado da comunicação.

Gosto da forma como ela resiste em cair em histórias sensacionalistas, mesmo quando há insistência da parte do entrevistador. E gosto da forma como se ri e oferece uma resposta curta quando quer escapar a um tema sobre o qual prefere não falar.

Gosto desta ética. Da forma como não assume que os episódios hediondos que lhe passarem pela frente são sua propriedade. Que o sofrimento extremo de terceiros, mais do que uma boa história para contar, é matéria para respeitar.

No outro dia perguntavam-lhe em tom afirmativo se após esta experiência se tinha tornado uma pessoa diferente. É preciso não conhecer a Matilde para não perceber que ter estado num campo de refugiados, em situações limite, é apenas mais um degrau no caminho de vida que tem construído na ajuda ao próximo.

Não acontece a uma miúda qualquer acordar um dia e debandar para um campo de refugiados. Há um percurso que já se fez, há uma cabeça que já estabeleceu prioridades, há um coração que cresceu até ficar maduro.

Só está preparado para uma missão destas quem já lidou de perto com a morte, com cenários de pobreza extrema e com pessoas em registo de sobrevivência. Só sabe fazer isto quem desenvolveu o instinto de agir antes de olhar a juízos de valor. Quem aprendeu a ler o sofrimento alheio e a perceber que ferramentas tem para o poder minimizar.

E quem conhece a Matilde sabe que ela já tinha aprendido tudo isto antes de embarcar para a Grécia. É por isso que a experiência, ainda que brutal, não representa mais do que um dos muitos degraus que tem vindo a escalar.

É por isso que ouvi-la falar é comoventemente inspirador.

 

Matilde.jpg

 

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Da Valentia do Trabalho Anónimo

por Francisca Prieto, em 10.02.16

Quando o pai da Matilde, que era amigo cá de casa, foi para o céu, a Matilde tinha catorze anos. Quis o destino, ou a sua própria vontade, que a ela se fosse gradualmente aproximando da nossa família, ao ponto de hoje ter um lugar no nosso coração tão grande como qualquer um dos nossos sobrinhos, e uma intimidade muitas vezes superior.

A Matilde tem um percurso francamente diferente do da maior parte das raparigas da sua idade porque contrabalança na perfeição o seu tom cor de rosa betinho, com uma desarmante capacidade de compaixão para com o próximo.

A Matilde realiza-se no exercício do consolo e, por isso, nos últimos anos tem procurado, por iniciativa própria, diferentes formas de dar colo a quem desespera por um gesto de ternura.

Durante uns anos, integrou-se numa organização de distribuição de alimentos aos sem-abrigo. O que quer dizer que, quando calhava ir com ela jantar para as bandas da avenida da Liberdade, tínhamos sempre de abrandar o passo enquanto ela cumprimentava uma data de gente enfiada em sacos-cama pelas ombreiras das portas, avenida acima. Se íamos para fora e a levávamos connosco, já sabíamos que tínhamos de guardar as embalagens de champô dos hotéis porque ela era perita em convencer os sem-abrigo a irem tomar duche aos banhos públicos. Para confirmar que a operação se realizava, e que não havia margem para desculpas, apresentava-se à hora combinada, em cima da sua Vespa cor de rosa, frente ao edifício dos duches, com o frasco do champô e a imprescindível moeda de cinquenta cêntimos.

Depois, por alturas das férias da Páscoa, começou a ir em missões para o interior do país, oferecer os seus préstimos a lares de terceira idade. Vieram também as procissões e os campos de férias onde, no seu papel de monitora, conseguia enturmar na perfeição miúdos de famílias estruturadas com crianças problemáticas de instituições.

No meio disto tudo, chegou a altura da faculdade. Optou por enfermagem e está algures a meio do curso.

Um dia destes disse-me que queria ir para um campo de refugiados, que não podia olhar para o que se estava a passar e ficar de braços cruzados. Mas que tinha estado a investigar e que os voluntários tinham de pagar a viagem e a estadia do seu próprio bolso. Pediu-me ajuda para arranjar dinheiro, de maneira que coloquei a minha velha expertise pedinchona de angariação de fundos em acção e após uns posts no facebook e uns emails a amigos mais próximos, conseguiu-se em 24 horas ultrapassar a quantia necessária.

Lá embarcou a Matilde para a ilha de Lesbos, na Grécia, onde ficou durante os cerca de vinte dias que as suas férias da faculdade permitiam.

Voltou com as histórias com que tinha de voltar. Com o olhar de quem assistiu ao sofrimento humano na sua forma mais crua.

Perguntámos-lhe o que fazia no campo. Respondeu prontamente que tratava das “pontas soltas”. Isto, para quem a conhece, sabe que quer dizer que andou à procura dos aflitos mais aflitos para consolar. Que fez inúmeras visitas às lojas do chinês da cidade para, com o dinheiro que lhe sobrava, comprar gorros e sapatos para as crianças que se apresentavam de chinelos num lugar onde as temperaturas chegavam abaixo de zero. Que deslindou, das cinco mil pessoas que a rodeavam, quem precisava das luvas que ela própria tinha calçadas, ou quem tinha de seguir imediatamente para o hospital.

E que, apesar de se ocupar prioritariamente das crianças, eram os homens quem lhe fazia mais pena. “Porque para os homens nunca chegava nada. Era quem dormia ao relento quando já não havia espaço, era quem ficava sem comer quando não chegava para todos, era quem ficava sem cobertor quando a pilha acabava”.

E eu ouvi isto calada, primeiro porque não consigo imaginar o que é gerir uma enormidade destas, mas sobretudo porque de alguma maneira tudo parece menos cruel na doce voz da Matilde.

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IPO. Pediatria. Falemos disto (agora já) sem medos

por Marta Spínola, em 04.02.15

Em dia de luta contra, deixo isto. E um abraço a todos, não só a quem luta, a quem tem alguém próximo que luta, não só aos mais pequenos, a todos, porque todos o tememos de uma forma ou outra e devemos luitar contra o cancro.

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Eu - como tanta gente - pensei muitas vezes o que seria a pediatria num sítio como o IPO. Todos queremos distância de tal sítio - do IPO todo, não só da pediatria - por todos os motivos e mais algum, se a pudermos ter. Nunca tinha lá entrado, nunca tive de lá ir. 

Ouvi muitas vezes e provavelmente também o terei dito que a ala pediátrica devia ser dura, que voluntariado sim mas ali não. Falamos muito, nós. 

O ano passado dei comigo a ir ao IPO com uma criança de pouco mais de um ano, a Carlota. Acompanhei dias de análises, consultas e exames e várias horas de espera de resultados, quer no Hospital de Dia quer no piso do Serviço de Pediatria. Vi crianças em tratamento, umas pacientemente à espera do fim, outras mais agitadas. Vi pais mais resistentes que outros, vi pais permitirem-se um desabafo lá fora para aguentar mais um pouco junto dos filhos. 

Testemunhei como o pessoal é dedicado e orientado para as crianças, vi os doutores palhaços acocorados cantar para a Carlota enquanto ela comia e não sabiamos se a sopa ía ficar ou voar no minuto a seguir. Não é um mundo de que se queira fazer parte, mas estando lá as coisas são feitas para que seja o nosso mundinho enquanto for necessário. E bem. E é.

Não, nunca me "fez impressão", no dia em que entrei pela primeira vez no Hospital de Dia o drama da minha cabeça foi-se. Não por não ser dramático o que lá se passa, naturalmente que é, mas o meu drama e o de tanta gente estava deslocado, não era por ali.

Vi muitas crianças, muitas. Uma que fosse já era demais, mas vi várias. E foi ao ver estas crianças que percebi como quando dizemos que não éramos capazes não podíamos estar mais longe da verdade. Eu acredito que muita gente não fosse capaz de ali estar, respeito a resistência de cada um. Mas passa-se a porta e não é sobre nós, passa a ser sobre eles. Comigo foi automático, sem esforço. Entrei e ali contavam só aquelas crianças, eu não, não as impressões, não os dramas de conversas ditas sem saber na pele sobre as coisas. Eu poderia eventualmente ajudar no que pudesse e não atrapalhar. A Carlota e os outros meninos é que importavam ali dentro.

Outra coisa de que as pessoas têm receio é de ver crianças em sofrimento. É claro que haverá níveis e casos para tudo, é claro que em pediatria há pré-adolescentes e é bem diferente com eles, sentem tudo de outra forma e torna-se mais duro nesses casos, admito. Mas muitas das crianças que vi temiam as "picas" - viam um enfermeiro e de beicinho queixavam-se "não... tu dás pica" (e o meu coração desfazia-se mais um bocadinho) ou de tirar adesivos, do repelão na pele. Isto comoveu-me de uma maneira que não sei explicar, problemas tão piores as levavam ali mas os medos delas são muitas vezes estes. A verdadeira e mais pura inocência. A mesmo inocência que as faz pedir aos pais para irem mais cedo e poderem ir brincar no Lions antes das análises, exames e tratamentos. 

O meu fantasma de fazer voluntariado num lugar assim foi-se. Não seria fácil, não tenho essa ilusão, mas hoje sei que teria a força que um dia achei não ter. Eles não choram o que lhes aconteceu, quem sou eu para me sentir fraca perante isso?

 

Originalmente publicado aqui.

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Relaxar com Shangar

por Helena Sacadura Cabral, em 21.06.12

Centenas relaxam com guru Sri Sri Ravi Shankar na relva do Parque Eduardo VII. Quem é este homem?

A Fundação Internacional Arte de Viver (IAOLF) é uma ONG de carácter humanitário com base no voluntariado, dedicada a elevar a humanidade e a criar um mundo sem violência e sem stress. Orientada pelo principio de que a paz global começa num individuo pacífico, a Fundação trabalha no sentido de apoiar a paz ao nível individual. 

Criada em 1981 por Sri Sri Ravi Shankar, as iniciativas da fundação têm vindo a beneficiar pessoas de diferentes áreas, em mais de 150 países. As suas actividades estão classificadas como:
  • Educacionais - cursos de gestão do stress, campanhas de sensibilização
  • Humanitárias - auxílio em situações de catástofre, gestão de conflitos, desenvolvimento socio-económico
A Fundação colabora com uma enorme variedade de agências e parceiros, incluindo governos, organizações com base na fé, escolas, empresas, prisões e organizações de mulheres. O seu principal parceiro é a Associação Internacional para os Valores Humanos. Possui um estatuto especial enquanto consultora do Conselho Económico e Social (ECOSOC) das Nações Unidas, e colabora regularmente com a ONU, no apoio aos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM). 
Devo confessar a minha ignorância. Não conhecia o personagem. Mas na foto reconheço Maitê Proença.

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