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É perturbador o caso da violação e assassinato da Irmã Tona por alguém que tinha acabado de ajudar. O "alegado" assassino e "alegado" violador é um toxicodependente recém saído da prisão.

O retrato escrito da vida da Irmã Tona fala de alguém que, mais do que tudo, era uma pessoa generosa ao ponto de dedicar a sua vida a ajudar com alegria os que mais precisam. Não era assistente social remunerada pela tutela, não seria beneficiária da ADSE, nem viu o seu horário de trabalho reduzido a 35 horas no inicio da legislatura que entretanto terminará.

Não quero aqui elaborar nenhuma teoria sobre os desgraçados dos drogados, nem sobre a reinserção social nem sobre os serviços públicos que lidam com esses casos, mas apenas sublinhar o silêncio que este caso mereceu na nossa imprensa e na boca dos que se advogam defensores das mulheres oprimidas e vitimas de violência.

Comparando o tratamento mediático que mereceu o assassinato de Marielle Franco e a ausência de qualquer reacção sobre este caso macabro, concluo que mesmo para as vítimas de violência sexual há tratamentos diferentes. A irmã Tona era uma irmã religiosa e isso colocou-a do lado errado da história.

Perante tal diferença como podemos avaliar a honestidade intelectual dos donos da nova moral e dos novos costumes?

Começou

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.08.19

Estava esta manhã no The Standard. Depois confirmei-o.

Quando um país de 1400 milhões, com um Partido Comunista de 87 milhões de militantes, que governa com pulso de ferro, sem oposição e apoiado num dos maiores e mais sofisticados aparelhos de repressão à escala mundial, precisa de prender um miúdo de 22 anos que ainda há poucas semanas foi libertado da prisão, isso deve querer dizer alguma coisa.

As manifestações da Frente Cívica programadas para o próximo fim-de-semana foram proibidas, a guarnição do Exército Popular de Libertação mudou, e a ameaça de serem colocadas em vigor as leis de emergência do tempo colonial, que serviram para lidar com a crise de 1967, subsequente aos acontecimentos do Star Ferry do ano anterior, volta a estar na ordem do dia. 

Em 1967 morreram 51, pelo que se o objectivo for o de chegar a 1 de Outubro, quando se celebrarem os 70 anos da RPC, com tudo tingido de vermelho ou na prisão, então a estratégia deverá estar certa

A falta de liderança, de bom senso e de inteligência política pagam-se muito caro. Em qualquer lado. E levam décadas a recuperar.

 

(Actualização: Começou e não vai parar tão cedo)

O meu irmão

por jpt, em 07.02.19

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(Patrícia Reis fala do femicídio.  E lembra-me uma história da minha meninice.)

Eu tenho 4 ou 5 anos, não sei bem, é cerca de 1969 mas não me acordaram ou acordarão para ver Armstrong dar o pequeno passo, e por isso já estou amuado com os meus pais e assim continuarei no próximo meio século. Estou doente, ouvi que tenho uma coisa no rim, pois aparece-me sangue no xixi, acho que há meses que não vou à escola, as minhas avós revezam-se a acompanhar-me, ainda que cá em casa haja várias empregadas (chamar-se-ão assim no futuro, quando eu entrar no liceu, que agora dizemos criadas) e ama. Se calhar não são meses, julgo que pensarei isso no futuro, mas agora tenho a certeza que estou doente há imenso tempo. Hoje é sexta-feira, e, como não posso ir brincar para a rua, estou na varanda deste rés-do-chão a ver os amigos ali mesmo defronte, numa rua como se pátio deste nossos Olivais, a Cabinda. As criadas estão comigo, atraídas pelo barulho, a gritaria. Pois um pouco abaixo, junto à rua, uma porteira está a ser espancada pelo marido, um bêbedo, dizem enquanto entre elas espreito. Ele bate-lhe, ela está no chão e grita. Às portas da mercearia, da farmácia, do café e às dos prédios está gente a ver o que se passa, e também às janelas das casas chegaram curiosos. 

De repente vejo o meu irmão João descer, muito devagar, as escadas do prédio. Ele chegara há pouco a casa, vindo da Escola Naval para o fim-de-semana. Mas, noto-o, já se desfardou. O Artur, o mais-velho, já casou - eles, irmãos, cunhado, primos, casam todos muito cedo, virei a pensar, tudo para poderem levar as mulheres para África -, acho que anda embarcado num petroleiro chamado Sopanata ou coisa assim e o João, que já tem 20 anos também está quase, a casar-se e a ir para a guerra, diz a minha mãe à minha avó. E a minha irmã também se prepara para ir, noiva que já está.

O meu irmão parou no pátio defronte ao prédio. Não percebo se termina o cigarro, mas fica bem crer nisso. Desce a pequena escadaria até mesmo à rua, a tal Cabinda. Chega-se ao casal e, nada dizendo, dá um soco no marido bêbedo. A zanga deles acabou logo ali, a mulher levanta-se e sai não sei para onde, e o homem fica-se apardalado. Mas, até antes disso, o João já está, devagar (vaidoso que é, constatarei quando crescer), costas viradas, a regressar a casa. Sem mais.

Daqui a décadas contarei esta história, várias vezes, aos filhos dele e aos sobrinhos. E depois aos netos, os dele. E aos meus, se os vier a conhecer. Ele sorrirá, com bonomia, dirá que eu invento, que de nada disto se lembra. Mas é verdade, eu não irei imaginar uma lenda dessas. Terei uma filha. Adolescente, resmungará com o tio, que é incisivo e escolhe os programas de TV quando lá em casa  ou outra coisa qualquer, pois nunca perderá os tiques de comandante de navio (que não se pode dizer barco). Ela protestará comigo, "pai, mas tu mudas quando o tio está!...". 

Claro, dir-lhe-ei. É óbvio. Pois o mais-velho é o meu herói. Desde hoje.

 

Post-it

por Fernando Sousa, em 06.02.19

Os juízes dos juízes concluíram que o desembargador do Porto, Neto de Moura, esteve mal nos seus infelizes considerandos de há dois anos. Mas ficaram-se por uma advertência registada. Nada mau, quando se chegou a temer que a coisa fosse arquivada ou assim. Mas nada bom quando a decisão foi tomada com muita dificuldade e o juiz-arguido, condenado por ter usado expressões "ofensivas, desrespeitosas e atentatórias dos princípios constitucionais e supraconstitucionais da dignidade e da igualdade humanas", nas palavras do presidente do Conselho Superior da Magistratura, António Piçarra, anunciou que vai recorrer. E quando a justiça portuguesa é criticada pela brandura com que trata a violência doméstica que neste princípio do ano já matou dez mulheres. 

Estado, violência e racismo

por Diogo Noivo, em 24.01.19

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O sucedido no Bairro da Jamaica suscitou a esperada polémica e abriu caminho ao habitual debate entre visões securitárias e a defesa de justiça social. Como demonstrado por vários estudos empíricos e, no caso português, pelos sucessivos Relatórios Anuais de Segurança Interna, não é possível estabelecer uma relação de causalidade directa entre precariedade económica e violência. De resto, estabelecer essa relação redunda num argumento manifestamente insultuoso segundo o qual onde há um pobre há um potencial criminoso. É verdade que a marginalização social (muito mais do que a económica) favorece a eclosão de episódios de violência e de vandalismo, mas não os causa nem os explica. A ausência do Estado – nos planos político, social e de segurança de pessoas e bens – é muito mais relevante enquanto factor explicativo.

O fim dos bairros degradados onde as condições de vida são muitas vezes infra-humanas justifica-se com o respeito pela dignidade das pessoas e com a promoção de um Estado que ofereça igualdade de oportunidades, mas não com o combate à criminalidade. E a propósito de ordem pública, importa recordar que as Forças de Segurança são instrumentos da autoridade do Estado de Direito Democrático, são fiscalizadas e controladas, estando evidentemente vinculadas à lei. Como tal, qualquer comparação da PSP (ou da GNR) a instituições próprias de outros regimes é estapafúrdia.

Tão ou mais disparatada é a acusação de racismo feita à PSP.  Primeiro, o vídeo que circulou nas redes sociais e na imprensa revela a reacção das Forças de Segurança a um incidente táctico-policial, omitindo o momento que a antecedeu, razão pela qual o bom-senso e o sentido de responsabilidade recomendam prudência nos comentários. Segundo, admitindo que houve excesso de violência por parte da PSP, o que não é evidente, nada indicia que tal excesso tenha um móbil racista. E terceiro, arguir que a polícia enquanto instituição respira uma cultura racista enferma dos mesmos males que as teses que atribuem comportamentos criminais a determinadas etnias ou grupos sociais.

Chegamos, pois, às declarações de Mamadou Ba, dirigente da ONG SOS Racismo e assessor parlamentar do Bloco de Esquerda. Além de incendiárias, as declarações de Ba são infundadas e não se coadunam com as responsabilidades políticas que tem. O Bloco, sempre tão zeloso da decência moral na política, devia ser claro e demonstrar que não alinha com discursos que desgastam a confiança dos cidadãos nas instituições. Isto é, deve fazer precisamente o contrário daquilo que fez.

A pergunta que ainda falta fazer

por Pedro Correia, em 23.01.19

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A propósito dos distúrbios que têm ocorrido nos últimos dois dias em quatro concelhos - Lisboa, Setúbal, Loures e Odivelas - assisto a inúmeras peças jornalísticas que procuram associar a pobreza à delinquência, o que é uma injúria lançada a todos os pobres. Lamentavelmente, em muitas destas peças sobra em propaganda política rasca o que falta em jornalismo. No tal "bairro da Jamaica" pertencente ao município do Seixal, de onde virão alguns destes alegados desordeiros, vivem 600 pessoas em condições miseráveis, ocupando prédios que se encontram inacabados há quase meio século.

Não será esta a ocasião de questionar a Câmara Municipal do Seixal - que desde 1976 tem sido gerida ininterruptamente pela CDU - por que motivo não realoja estas pessoas, atribuindo-lhes habitação condigna? É uma pergunta simples. Mas que, no entanto, continua por fazer. 

Futebol e terrorismo

por Diogo Noivo, em 14.01.19

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Serei o único português que não percebe nem gosta de futebol. Não sei o nome dos jogadores, não percebo as tácticas, e tenho uma reacção de convulsão visceral aos inúmeros e intermináveis programas de comentário desportivo.

Se não me falha a memória, a última vez que entrei num estádio teria uns oito ou nove anos. Foi no Restelo e pela mão do meu querido avô, antigo dirigente de modalidades amadoras no Belenenses, que sofreu até ao último dia pelo clube do seu coração. Recordo-o como um gentleman. Sereno e cortês, de uma amabilidade quase anacrónica. O aprumo era militar, com um bigode branco cuidado ao milímetro e a capacidade paranormal de chegar ao final do dia com a camisa impecavelmente engomada.

Talvez por guardar esta imagem dele tenho tanta aversão ao futebol. A psicanálise explicará. Para mim, o mundo do futebol era o meu avô e o meu avô era radicalmente diferente daquilo que se vê nos relvados, nas bancadas e nos estúdios de televisão onde a bola dá o mote para horas de conversa inenarrável.

Esta digressão ao passado vem a propósito de uma pergunta que me foi feita pelo Diário de Notícias no final da semana passada: o sucedido em Alcochete foi terrorismo? Analisei o sucedido, dissequei os factos, ponderei o que está demonstrado. Cheguei a duas conclusões. Primeiro, tenho razões para execrar o mundo da bola. Segundo, o sucedido dificilmente configura um caso de terrorismo – como é óbvio, apenas esta última conclusão consta da notícia publicada no DN. Defendo quatro argumentos:

 

1 - O terrorismo é, por definição, político. A violência, ou a ameaça do seu uso, destina-se a inocular o medo para, dessa forma, condicionar comportamentos sociais e políticos. Estará por demonstrar que a violência em Alcochete esteve ao serviço de um projecto de poder.

2 - Mais importante para o caso em apreço, os alvos directos do terrorismo nunca são os seus reais destinatários. As vítimas são um símbolo, uma representação daquilo que a organização terrorista entende ser o inimigo (i.e. um agente da polícia enquanto representante da autoridade do Estado, ou um cidadão europeu enquanto símbolo de uma sociedade alegadamente hedonista e "infiel"). Isto dificilmente se verificou em Alcochete, uma vez que os reais destinatários terão sido os jogadores.

3 - Uma das características que distinguem o terrorismo de outras formas de criminalidade organizada é o facto de este precisar de publicidade. Uma organização dedicada ao tráfico de armas não deseja atenção sobre a sua actividade, mas, pelo contrário, o terrorismo precisa de ampla divulgação da sua acção - sob pena de não disseminar o medo, que é o principal objectivo imediato de qualquer terrorismo. Está por demonstrar que os indivíduos envolvidos nas agressões em Alcochete desejassem a ampla divulgação do crime que cometeram.

4 - Por fim, o objectivo último das organizações terroristas não estatais é o Estado e as suas instituições, bem como a sociedade - ou pelo menos uma parte dela. Daí o terrorismo ser tão grave e insidioso. Também este critério dificilmente se verifica no caso de Alcochete.

 

Seja como for, os motivos para não regressar a um estádio permanecem intactos.

Denis Mukwege, Nobel da Paz

por jpt, em 11.12.18

Um discurso absolutamente extraordinário, meia hora iluminadora. (Infelizmente não encontro versão legendada em português. Existirá? Não há um serviço público televisivo?)

Um homicídio "por engano"

por Pedro Correia, em 16.11.17

Um homicídio foi ontem notícia. Mas com uma diferença em relação àquilo que é habitual sabermos: este foi cometido por um elemento de uma corporação policial. A notícia foi divulgada ontem, à hora do almoço, nos telediários de três canais em sinal aberto, cada qual à sua maneira.

Transcrevo aqui as diferentes versões e proponho aos leitores que me indiquem qual entendem ser a mais correcta e porquê. Podendo, naturalmente, comentar outros aspectos relacionados com este crime.

 

SIC, 13.16: «A PSP matou uma mulher por engano durante a madrugada passada em Lisboa. A polícia confundiu o carro da vítima com uma viatura em que fugiam os assaltantes de um multibanco. Este desfecho trágico aconteceu na Segunda Circular.»

 

TVI, 13.18: «Uma mulher foi morta esta manhã durante uma perseguição policial em Lisboa, numa operação destinada a capturar elementos de um gangue que de madrugada tinha assaltado um multibanco em Almada. A vítima mortal não estava relacionada com o crime cometido na Margem Sul do Tejo.»

 

RTP, 13.19: «Uma mulher morreu esta madrugada, em Lisboa, depois de baleada pela polícia. Seguia num carro que não parou numa operação policial que os agentes da PSP tinham montado para deter os assaltantes de um multibanco. Sabe-se agora que a mulher que morreu não tinha nada a ver com o assalto.»

Que violência mostrar?

por Inês Pedrosa, em 17.05.17

Deve ou não um telejornal mostrar actos de violência? A resposta a esta questão é fundamental, e o que sobre ela decidirmos define uma ética. Há uma coerência de base exigível a qualquer sistema valorativo ou legal - valores ou leis arbitrárias representam o terror, a mais tenebrosa e incontrolável das imprevisibilidades. Estaline e Hitler usaram a prerrogativa da excepção contínua para manterem toda a gente - dos seus íntimos à população anónima - imóvel, obediente, submissa, incapaz de reacção, em permanente estado de aterrorização.

Alguns responderão um «não» curto e imediato, argumentando que violência desencadeia violência e que a exibição da violência tem o defeito suplementar de excitar o voyeurismo. Outros responderão um «sim» igualmente célere, enfatizando a necessidade de alertar os cidadãos, de os tornar mais atentos, precavidos e, se possível, interventivos, reduzindo, deste modo, a probabilidade de futuros actos violentos.

O argumento pacifista de que a visão da violência gera um acréscimo de violência depara-se com uma dificuldade essencial e intransponível: a violência que inunda a cultura - popular e erudita - do século XXI. Da mais permissiva televisão ao mais exigente cinema, o culto da violência é uma constante - para permanecermos no registo da imagem e, em particular, da imagem em movimento, mais irresistível e, por conseguinte, mais alienante do que as imagens estáticas ou as imagens mentais, desenhadas a partir da leitura ou da audição. Desde há muitos anos tenho vindo a anotar e a registar que a preocupação dos adultos com a protecção das crianças face ao mundo da pornografia é muito mais forte do que a de as proteger do universo da violência. Como se a violência fosse um dado adquirido - e até como se fosse útil às crianças o contacto com esse mundo, para as tornar mais resistentes e competitivas. A competição, não o esqueçamos, é o pilar universal da cultura contemporânea: do auto-denominado Estado Islâmico até ao mais aprazível dos estados nórdicos, a ideia de «superação» subjaz a tudo. Quando os pais dizem que só querem que os filhos sejam "mais" qualquer coisa do que eles próprios (felizes, ricos, inteligentes, etc) estão a criar neles uma ansiedade competitiva profunda: ninguém vale pelo que é, todos somos chamados a ser «mais» qualquer coisa do que os progenitores ou o vizinho do lado. A cultura da competição é uma cultura de violência.

O argumento belicista de que a visão da violência forma uma camada de protecção em relação a essa violência também não colhe: décadas de estudos têm provado que educação é exemplo, ou seja, que a violência é, de facto, contagiosa. Tudo está impregnado de violência, na nossa cultura de matriz cristã e católica, cujo símbolo icónico é um homem pregado numa cruz. Que muitos pais católicos coloquem esta imagem sobre o berço dos filhos recém-nascidos, eis uma forma de violência que sempre me incomodou. De resto, todas as religiões são férteis em fábulas de violência - porque o medo estimula a dependência, o acatamento e a crença. Acresce que a publicitação da violência provoca directamente o seu crescimento: o culto dos mártires, como o dos heróis, é auto-reprodutivo: cada mártir ou herói, sozinho, se bem propagandeado, gera centenas de outros. 

Não havendo uma forma ideal de lidar com este tema, creio que o mais sensato será adoptar um princípio misto, mas de contornos firmes e claros:os telejornais deverão mostrar os actos violentos, porque não os mostrar seria restringir o direito democrático à informação total. Os cidadãos têm direito a conhecer a fundo as questões sociais do mundo em que vivem, de modo a poderem tomar decisões informadas. Mas esses filmes nunca poderão expor o rosto das vítimas nem dos verdugos (porque a publicitação dos verdugos também os multiplica). Actos de tortura e extrema violência - por exemplo, as decapitações do ISIS, os enforcamentos no Irão ou a morte na cadeira eléctrica nos Estados Unidos - não devem ser mostrados ( mais uma vez, por uma questão de protecção da dignidade individual e também para não incrementar pulsões assassinas, mais comuns do que se imagina)  - mas devem ser narrados. Já tenho escrito várias vezes que deveria criar-se um consenso nos media quanto à não divulgação pública do nome de autores de massacres - para não lhes conceder essa fama póstuma que os engrandece aos olhos de outros. 

Virarmos a cabeça à violência ou apontarmos o dedo a quem a denuncia não me parece a forma correcta de lidar com este problema central do nosso tempo.

Acresce que há formas de violência psicológica praticadas diariamente pela comunicação social - a difamação através da insinuação, por exemplo - sobre as quais ninguém parece disposto a pensar seriamente: atira-se, na melhor das hipóteses, um "alegadamente" sobre o carácter de alguém cuja força e influência se pretende diminuir, e chama-se-lhe tudo, de ladrão a abusador. Com esta forma de violência as pessoas facilmente pactuam, caso a caso, ao sabor dos seus amores e ódios pessoais ou ideológicos, sem quererem entender que a questão de fundo é grave e afecta-nos a todos: trata-se do direito de cada um (vedeta ou não, político ou pastor) ao bom nome, à reserva da vida privada, à auto-determinação individual, à opinião e à liberdade. Seres moralmente moídos tornam-se presas dos poderes - e os poderes, sejam eles o 1º, o 4º ou o 5º, sabem-no bem.    

A carga de porrada de Ponte de Sor já obrigou o Ministro Santos Silva a manifestar-se, conforme os dias e os órgãos de comunicação social, preocupado, disponível para ajudar a investigação, empenhado em ir até onde for possível, capaz de empreender diligências diplomáticas e, o Diabo seja cego, surdo e mudo, até de avaliar um "eventual talvez possível quem sabe sem precipitações" levantantamento da imunidade. Fico consternado por ver o Ministro tão aperreado com este melindroso assunto num momento do ano que devia ser de descanso e descontracção. Houvesse um módico de Justiça no Mundo e a Providência proporcionaria a Santos Silva um daqueles lampejos de inspiração ocorrendo-lhe que, vai-se a ver, um Código de Conduta para filhos de Diplomatas pode bem ser uma bela solução para encerrar definitivamente o assunto.

Violência gratuita

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.07.15

A página 23 do Público de hoje não devia ter existido. Aquela página não devia ter passado para a tipografia. Saber que quase 700 pessoas foram enforcadas no Irão desde o início do ano já de si é uma notícia tristíssima, que não devia ter existido. Não porque existindo não tivesse de ser dada, ou porque devesse ser censurada. Nada disso. Mas porque é uma vergonha para a nossa espécie. É uma vergonha para as Nações Unidas e uma vergonha para a causa dos direitos humanos saber que ainda há tanta gente que é enforcada no século XXI. Lê-la ilustrada com uma fotografia colorida onde estão pendurados pelo pescoço outros seres como nós é ultrajante. A foto do Público é de uma violência inaudita e em nada contribui para melhorar a situação dos direitos humanos ou a informação dos leitores. E acontece no mesmo número do jornal em que se lembra o Prémio Mandela e se entrevista Jorge Sampaio. Eu sou leitor do Público e gosto de ler o Público. Só que a foto do Público que ilustra a notícia não devia ter sido publicada. A foto do Público é um mau serviço ao jornalismo e aos leitores. A foto humilha os próprios desgraçados. A violência existe, é lamentável. Não tem é que ser promovida. Já basta a simples notícia. O Público devia pedir desculpa aos seus leitores pela foto que publicou esta manhã. Aqui não será reproduzida.

 

Esta não era a polícia dele, mas também não é a nossa

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.05.15

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Não é de hoje, nem de ontem. A violência, sempre estúpida e sem sentido, tem vindo a impor-se ao desporto em momentos que deviam de ser de festa e de alegria. E tratando-se de um fenómeno que tem décadas, que tem crescido à sombra da tolerância do Estado democrático, não se percebe por que razão as entidades com responsabilidades continuam a ser tão brandas na erradicação desse fenómeno. 

Fruto do desinvestimento na educação, resultado da cultura do boné e smartphone, de uma cultura de laxismo e irresponsabilidade que perpassa por toda a estrutura do Estado e da sociedade portuguesa, dos mais altos cargos aos estratos mais desfavorecidos, onde a violência e as imagens que lhe estão associadas promovem valores que nada têm a ver com aqueles que se pretendem para uma sociedade civilizada, os comportamentos que se têm visto dentro e fora dos estádios não são apenas o resultado da actuação de grupos organizados, de claques de vândalos que aproveitam o fenómeno desportivo para extravasar toda a sua boçalidade, seja sob a forma de verylights, destruição de bombas de gasolina, assaltos na via pública, danos em veículos, provocação de incêndios em recintos desportivos e bens públicos, mas também de actuações policiais próprias de estados autoritários que fazem da violência sobre os seus cidadãos uma marca de lei.

As condições de vida não explicam, ainda menos justificam, o que se tem visto, porque a violência acontece tanto em alturas de crise como de prosperidade, em nações ricas e em velhas democracias como em países pobres onde grassa o espectro da fome e da miséria. As causas e as razões serão certamente mais profundas.

Se é intolerável que os estádios de futebol e as claques estejam recheadas de bandidos, de marginais, de traficantes, de neo-nazis disfarçados, de pulhas ignorantes, de gente xenófoba e racista, menos ainda se pode tolerar que quem tem a obrigação e a responsabilidade de assegurar a ordem e a paz públicas reincida em comportamentos próprios desse tipo de marginais. Infelizmente, tenho tido conhecimento e sido testemunha de algumas actuações por parte de agentes de autoridade que em nada abonam ao bom nome das corporações que representam e que em vez de induzirem a confiança na sua actuação provocam o medo e o receio, levando muitas vezes a que quem necessita de ajuda e protecção não apresente queixa por receio da forma como será recebido e encarado por quem tem a responsabilidade de acolher as participações. As forças de segurança não podem ser o porto de abrigo de marginais, de verdadeiros delinquentes, que à falta de melhores oportunidades procuram ali encontrar a protecção necessária para darem vazão aos seus instintos mais primários.

O que aconteceu em Lisboa e em Guimarães só é objecto de notícia e censura porque foi testemunhado por muita gente, porque foi filmado e visto de muitos ângulos. Não raro nos tribunais há cidadãos indefesos que são confrontados com queixas de energúmenos que fazem uso da farda e do estatuto para fazerem justiça e obterem indemnizações a que sabem não ter direito, sabendo que à falta de outras testemunhas é sempre a sua palavra que se impõe ao Ministério Público e ao juiz. Recordo-me inclusivamente de um caso ocorrido no Algarve, há uns anos, em que um visado depois de saber por um colega que tinha sido apresentada queixa contra si, devido ao seu comportamento de gangster, foi a correr apresentar queixa contra o desgraçado que tinha sido agredido, humilhado e insultado por não lhe ter dado prioridade num cruzamento. Por não ter tido a prioridade que desejava fez uma ultrapassagem perigosa com a sua viatura de uso pessoal, estancou à frente do outro veículo, atravessando-se na via, numa atitude de tão grande prepotência e abuso que alguns colegas referiram ser típica, embora ninguém denunciasse o fulano para não ser acusado de bufaria.   

Espero que o inquérito que foi mandado instaurar pela ministra da Administração Interna seja célere, que o Ministério Público não vacile, ao contrário do que por vezes acontece, e que os senhores juízes tenham mão pesada. Se não podemos tolerar gangues de vândalos nas claques desportivas, menos ainda se pode aceitar que graduados de uma corporação policial actuem da forma que aqueles homens actuaram, contra gente indefesa, que nada tinha feito que justificasse a brutalidade das agressões. E mesmo que tivesse havido um insulto prévio, ou uma "cuspidela", o que eu não acredito, a um agente ou a um graduado da PSP, que estava armado, sempre seria exigível ao "ofendido" outro tipo de actuação. Nada pode servir de atenuante para a actuação de cavalgaduras, seja para com as que ostentam a tatuagem da claque ou as que usam o estatuto ou a farda como carta de alforria para fazerem a "justiça" que entendem, não se coibindo de mentir e inventar histórias para se defenderem daquilo que está à vista de todos e assim justificarem os desmandos que praticam quando apanhados em flagrante.

A violência gera mais violência. A desconfiança gera mais desconfiança. Os cidadãos têm de confiar na sua polícia. Eu quero confiar na polícia do meu país. E tenho o direito e o dever de exigi-lo. A polícia de um Estado de direito democrático não pode ser confundida com a bandidagem fardada dos estados policiais.

Acabar com a violência

por Helena Sacadura Cabral, em 06.01.15

Há coisas que deviamos copiar. Este vídeo é um bom exemplo. Não por se tratar de uma garota, mas por ensinar que a violência, ao contrário da ternura, não conduz a lado nenhum.

A minha avó dizia "é de pequenino que se torce o pepino". Eu digo que é de pequenino que se ensina a não tratal mal os outros. Pequenos e grandes. Homens e mulheres. E animais!

Bestas humanas

por Pedro Correia, em 04.12.14

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Não se passou entre bosquímanos ou bijagós, como alguns diriam com pseudo-superioridade etnocêntrica se tivesse ocorrido noutra latitude. Passou-se a dois passos de nossa casa, entre galegos e castelhanos. A pretexto de um jogo de futebol, o Atlético de Madrid-Deportivo da Corunha, dois grupos antagónicos de militantes radicais envolveram-se em violenta pancadaria na capital espanhola que terminou com a agressão fatal a um apoiante da equipa galega, atirado já gravemente ferido ao rio Manzanares. Acabou por morrer no hospital.

A polícia assistiu impávida a esta orgia de violência, que envolveu cerca de duzentos indivíduos. A cúpula dirigente do futebol em Espanha mandou que o jogo se realizasse, mesmo em atmosfera de luto e dor. E as redes sociais encheram-se de proclamações de ódio, a que infelizmente nos vamos habituando ao ponto da indiferença. Como se a fúria assassina não começasse precisamente nestas mensagens de quem diaboliza toda a diferença e apela aos instintos mais rasteiros para suprimi-la.

Leio com crescente repulsa a transcrição de alguns destes "tuítes do ódio", como lhes chama o El Mundo. Há um pouco de tudo - desde o sarcástico elogio ao Manzanares como um local óptimo "para nadar" até à expressão da boçal "alegria" pela morte de alguém transformado em inimigo póstumo pelo simples facto de apoiar um clube de futebol rival. Não falta mesmo quem solte este urro: "Oxalá morram mais!"

Que sociedade estamos a criar? Que valores andamos a incutir aos nossos filhos? De que Europa ainda falamos quando aludimos a padrões civilizacionais? Até onde nos conduzirá este caminho que trilhamos de absoluto desprezo por tudo aquilo que ao longo dos milénios foi distinguindo o homo sapiens da primitiva besta humana?

Prioridades

por João André, em 19.11.14

No início de Novembro a contabilidade de mulheres assassinadas este ano pelos parceiros estava em 32. Isto só as mulheres assassinadas, sem contar com crianças e idosos e sem contabilizar as agressões. Uma das macabras personagens andou uns tempos fugido e até passou a herói popular.

 

Um cão morre de fome - maus tratos, portanto - e dá em revolta popular.

 

Faz sentido. Com humanos destes mais vale apoiar os cães.

A propósito de Powell

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.08.14

"The rhetoric of US foreign policy proclaimed the universal values of liberal democracy as the foundation for world peace, but the practice was often quite different. The odd mixture of inclusive civic ideals with exclusive racist and nationalist prejudices, which Wilson’s friendship with Dixon and his contributions to The Birth of a Nation had epitomized, continued to influence American democracy and international relations. Deciding which cultural values to give higher priority after 9/11 during President George W. Bush’s global war on terrorism was still a critical question for Americans in the twenty-first century. Once more, in this new historical context, they needed to decide which aspects of the Wilsonian legacy—its best universal ideals of freedom and democracy or its worst prejudices of racism and religious intolerance—to embrace at home and abroad."

 

A violência inaudita do crime de Powell, cujas imagens podem ser vistas em múltiplos vídeos colocados no You Tube e que aqui me recuso a reproduzir ou encaminhar, fez-me regressar a Lloyd Ambrosius e ao seu texto de 2007, na Diplomacy and Statecraft (vol. 18, 2007, 689-718), sobre o legado do Presidente Wilson e tudo o que nos conduz até ao filme de Griffith (The Birth of a Nation) e à novela de Dickson (The Clansman).

Quando olho para o sistema de justiça norte-americano, quando vejo a forma estúpida como se continua a morrer nos EUA, seja pela acção de loucos ou a simples inacção do Congresso, ou quando leio as macabras descrições da agonia de condenados à pena capital, que devido à incompetência dos carrascos nem sequer têm direito a uma morte digna e sem sofrimento, não posso deixar de reler e reflectir no que Ambrosius escreveu.

O facto de Obama ter chegado à Casa Branca não mudou nada. A mentalidade continua a ser a mesma. E a quantidade de casos em que a violência se repete sem qualquer justificação continuará a fazer dos EUA um país semimedieval, onde a conquista do espaço se confunde com o barbarismo dos seus polícias, onde o último grito em novas tecnologias se confunde com o radicalismo da NRA, a ignorância de uma Palin ou o primarismo de alguns congressistas. Contrastes pelos quais depois pagam os James Fowley que um dia tiveram o azar de nascer norte-americanos.

O que aconteceu em Powell, independentemente do desgraçado ser um malandro, ou continua a passar-se em Gaza, acaba por ser o resultado de uma pesada herança de violência, ignorância, preconceito e atavismo religioso. E se um legado desses é inaceitável na Síria, na Líbia, no Irão ou em Israel, nada havendo que justifique as carnificinas que diariamente nos entram em casa, menos ainda se pode tolerar que num país como os EUA ainda não tenha sido possível ultrapassar os traumas da sua fundação. Como John A. Thompson também já sublinhou, continua a haver uma grande dificuldade em conciliar a realidade externa de um mundo recheado de conflitos e o papel que o país quer assumir em termos mundiais com a pressão da realidade interna e da sua própria opinião pública (International Affairs, 86, I, 2010, 27-48), mas isso não pode servir de desculpa para o que continua a acontecer sem que haja uma tomada de posição por parte dos países europeus.

De qualquer modo, em matéria de direitos humanos, em Powell ou no Iraque, só pode existir um caminho: o do inaceitabilidade da violência quaisquer que sejam as circunstâncias e a roupagem com que se apresente. Venha ela de onde vier. O único compromisso das nações civilizadas só pode ser o da luta contra a barbárie e pela elevação dos padrões de justiça e de vida. A começar pelo respeito por esta.

A triste herança de Wilson, que muitos ainda continuam a adular por desconhecimento histórico e preconceito ideológico, não devia continuar a envergonhar a humanidade e a motivar as acções de loucos. Não pode haver tolerância com as bestas. Menos ainda com que as que juram com uma mão sobre a Bíblia, a Torá ou o Corão, enquanto com a outra primem o gatilho.

A violência só pode aumentar

por Fernando Sousa, em 27.11.13
"É impossível sossegar indefinidamente os cidadãos”, disse esta manhã, em entrevista à Antena 1, o sociólogo Moisés Martins, director do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho. Sem uma mudança das políticas que são contestadas, a violência dos protestos deverá aumentar nos próximos tempos. O investigador argumenta que a classe política em geral – com a condescendência dos média – descolou do país real e dos cidadãos reais, ou seja, do sofrimento da população. Refere ainda que é difícil para os cidadãos terem voz, visto que o espaço público foi tomado de assalto pela classe política, com os profissionais da informação a desistirem de informar e formar os cidadãos cercando-se de analistas comprometidos com os partidos, pelos banqueiros e financeiros. O poder político, que feitas as contas ao pormenor representará uma minoria do eleitorado, espera dos cidadãos um desespero, um sofrimento, um protesto "cordato", isto é, que não incomode. A raíz do problema é o sistema político e económico em que vivemos. E não atacando a raíz do problema, a violência só pode aumentar. Uma entrevista a ouvir aqui


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