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O ideal era ser nas Spratly

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.05.16

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 Harry, um grande senhor do cartoon, sobre a visita de Obama a Tran Dai Quang. Esta manhã, no South China Morning Post.

Regresso a Danang (5)

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.04.15

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Não há guerras justas. Nunca houve. O lastro de destruição que qualquer guerra deixa jamais encontrará justificação nos êxitos alcançados pelas gerações sobreviventes. Se quando andei por Hanói e fui a Ha Long Bay, no antigo Vietname do Norte, encontrei gente de idade bastante avançada e alguns ainda falando francês, em Danang praticamente não há velhos. Os octogenários e nonagenários que vemos em qualquer local da China, de Taiwan ou do Japão não existem por estes lados. De quando em vez vê-se uma idosa, mas a maioria dos mais velhos não deve ultrapassar os setenta anos. Creio que por essa razão, no que será uma consequência das guerras, primeiro contra os franceses, depois contra os norte-americanos e os sulistas, por aqui vê-se imensa gente nova. Gente entre os vinte e os quarenta, gente bem disposta, simpática, afável. E muitas crianças percorrendo as ruas, saindo das escolas aos magotes nas suas fardas típicas de escolas chinesas e colégios católicos, cumprimentando os estrangeiros, aguardando que os pais os venham buscar nas suas motoretas, e também escuteiros. O facto de haver muita gente nova é aliás perceptível no número elevado de casais enamorados que merenda e se passeia ao final da tarde, trocando carícias, olhares e sorrisos, incluindo com quem passa e inadvertidamente foi espectador de um beijo mais prolongado ou de uma ternura mais efusiva.

A explosão demográfica ajudou a reconstrução do país e o seu desenvolvimento. A beleza daquele e as suas riquezas naturais contribuem para este, levando inclusive à manutenção de conflitos territoriais com a vizinhança, mas a juventude da nação, a sua capacidade de trabalho e a pujança de que dá mostras são seguramente os seus valores mais seguros.

 

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Os avanços da engenharia e da arquitectura reflectem-se na construção de túneis, edifícios modernos, novas fábricas, novas vias de comunicação, modernas pontes e até viadutos, que aos poucos surgem por todo o lado. Um dos melhores exemplos da aplicação vietnamita é dado pelas moderníssimas bicicletas Mekong. Fazendo uso da lendária resistência do bambu e recorrendo a acrescentos japoneses da Shimano, os vietnamitas foram capazes de produzir um veículo que faz as delícias de qualquer amante das bicicletas de montanha e de todo-o-terreno. Qualidade de construção, acabamentos impecáveis, resistência do material e design inovador. Nada de inventar rodas elípticas ou quadradas que não servem para nada.

O parque de motociclos que já era grande há vinte anos modernizou-se. Motociclos italianos da gama alta, japoneses, coreanos e taiwaneses fazem concorrência aos chineses. Os carros são quase todos novos, também estes na sua maioria japoneses e coreanos, embora já se vejam carros da Porsche (do modelo “Panamera”), da Volkswagen e eu próprio tenha sido transportado do aeroporto até ao hotel num moderno BMW 520i porque não havia nenhum shuttle disponível para me ir buscar (não me cobraram nada por esse upgrade). E em vez dos velhos veículos herdados do tempo da guerra vemos actualmente jipes novos, pintados com as cores militares de antigamente, e sidecars prontos para serem alugados aos turistas.

Por falar em veículos e estradas há um ponto, pelo menos, em que muito haverá a fazer. As passadeiras, isto é, as zebras para peões, é como se não existissem. Atravessá-las é uma aventura porque os táxis, camiões e motas buzinam a quem vai na passadeira, sem abrandarem, apenas para os peões saberem que correm o risco de ser atropelados a qualquer momento e que se devem desviar ou imobilizar. Convém por isso ter muita atenção e gesticular decididamente pois será a única forma de perceberem que queremos mesmo atravessar a rua e que alguém terá de parar para que o possamos fazer em segurança. Pode-se pensar que onde há semáforos, e eles são novíssimos e com contagem do tempo, seria mais fácil atravessar a rua. Pura ilusão. Não será por acaso que gozando com o caos que a esse nível se vive os vietnamitas dizem que o verde é para avançar, o amarelo também é para avançar e com o vermelho “ainda se pode avançar”. Há inclusive t-shirts alusivas ao fenómeno. A isso e aos iphones.

 

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Este é outro sinal da modernização. A Internet, os ipads, os iphones e as redes Wi-Fi estão disseminadas e existem em praticamente todo o lado. Em Hoi An e Danang vi salas e barracões cheios de gente, ao final da tarde, que acedia à Internet pagando à hora.

Também o número de instituições bancárias e de cambistas é notável. Dos bancos estatais recordo o VietinBank, Agribank, Vietcombank, Bank for Investment and Development of Vietnam, Housing Bank of Mekong Delta, e dos privados mais três dezenas, sem esquecer as filiais e sucursais do Citibank, do Bangkok Bank, do BOA, do BNP Paribas, do Deutsche Bank, do Mizuho, entre outros. Deve haver mercados livres onde não há tantos bancos e tanta concorrência. Se outrora o câmbio era privilégio do Banco Central do Vietname, onde se entrava com dólares na carteira e se saía de lá com sacos de supermercado atafulhados de dongs, isso desapareceu. E não só não são precisos sacos – há notas com o valor facial de 500.000 – como em hotéis e agentes de viagem se fazem câmbios de porta aberta a qualquer hora. É só uma questão de escolher o que mais convém. O dólar continua a ser a moeda de referência e a mais valorizada, havendo restaurantes que apresentam a conta em dólares e em dongs. Se pagar em dólares recebe o troco em dólares e se não houver os suficientes em caixa terá o remanescente em dongs. E também pode pagar com cartão de crédito ou ir levantar dinheiro à ATM (caixa multibanco) mais próxima.

 

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A terminar, gostaria de deixar duas referências fundamentais. A um museu que merece ser visitado pelo que lá se guarda – o Cham Museum – e a Lady Buddha. Quando em meados dos anos noventa estive no Cham, por lá não havia ar-condicionado, as instalações estavam impregnadas de humidade e as janelas ficavam abertas por causa do calor. O museu era numa zona pouco movimentada. Agora as janelas para o exterior estão fechadas, o jardim arranjado, está no meio do corrupio citadino, entalado entre as novas avenidas, a moderna marginal e a Dragon Bridge. Lady Buddha é um santuário que fica na península de Son Tra. Trata-se de uma figura que está para Danang como o Cristo-Rei para Lisboa ou o Corcovado para o Rio de Janeiro. Possui vários templos, estátuas, bonsais espectaculares e dali é possível ter uma vista magnífica para a cidade e todo o extenso areal da China Beach, avistando-se ao fundo o recorte das Marble Mountains

 

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Esta foi a imagem com que fiquei das minhas últimas horas. Será com ela que me farei acompanhar até poder voltar, com redobrada curiosidade, para rever Ho Chi Minh, o Rex e o Intercontinental, ir a Vung Tau e Nha Trang e voltar a descer as margens do Mekong.

Oxalá não passem outros vinte anos. Por mim digo, pelos vietnamitas também. Gente como esta é cada vez mais raro encontrar-se. Quem passou pelo que eles passaram e está como está, de sorriso largo nos olhos e doce nas palavras, como se tivesse vivido sempre assim, só pode merecer a nossa admiração, o nosso respeito e a nossa visita. Sempre que possível.

 

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Regresso a Danang (4)

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.04.15

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Com os anos tornei-me mais comodista. Se aos 17 anos podia dormir num saco-cama em Bruxelas ou Milão e comer latas de ravioli em Amesterdão, de tal forma que enjoei e durante dezenas de anos nunca mais comi essa coisa, hoje em dia não dispenso um pequeno-almoço capaz e um jantar reconfortante. Em muitos sítios isso não é possível obter e por vezes é necessário escolher entre o “sacrifício” de fazer uma deslocação ou o comodismo de ficar pelas redondezas. No Nepal posso bem dispensar um bom bife, se que é se pode dispensar aquilo que raramente ou nunca há, para ir a Nagakort ver nascer o dia no ponto mais alto do mundo, ou procurar as melhores vistas dos Annapurna, em Pokhara, porque um tipo normal perante aquilo que vê, esmagado pela criação do mundo, até do ar e da luz se alimenta. O ideal, porém, será conciliar a viagem com o prazer de uma boa refeição. Ou de várias.

Se há sítio onde é possível saborear boas e requintadas refeições é no Vietname. E neste ponto tanto faz estar em Hanói, em Danang ou em Ho Chi Minh. Há sempre um local onde se pode descansar, comer óptimos crepes frios de farinha de arroz, recheados com camarão ou com carne, perfumados com muitos coentros e com o permanente aroma a lima, ou então “devorar” uns pequenos bocados de carne de vaca grelhada embrulhada em finas folhas de lótus.

O coco, o gengibre, o estragão, a salsa, o cebolinho, os pimentos, verdes, amarelos e vermelhos, o tomate, de todas as variedades, são parte integrante da dieta local. Os filetes de peixe, o peixe no vapor, as vieiras cozinhadas de mil e uma formas (eu gostei particularmente das grelhadas enroladas em bacon), as saladas de peixe, são outras iguarias inesquecíveis. Em Danang existe um prato típico, muito saboroso pela profusão de ervas, que é o Cao Lau. Trata-se de uma espécie de sopa, composto por um caldo transparente muito saboroso, que contém uma massa muito fina de noodles feita de farinha de arroz, croutons fritos, finas fatias de carne de porco assada e mil e um aromas. Com um pouco de piripíri fica divinal. Como adoro o sabor da lima, da hortelã e dos coentros estou sempre bem. Há muita lula, confeccionada de diversos modos, em salada, com lima, manga verde, cebola roxa e piripíri, em espetadas, muitas vezes vendidas nas cozinhas ambulantes junto ao mar onde os namorados se vão abastecer, excelentes amêijoas, por vezes apresentadas num magnífico caldo com espinafres, de tomatada ou numa espécie de Bulhão Pato, mexilhões, ostras, lavagante, e por aí fora. Também famosos na região de Danang e Hoi An são os White Rose, pequenos dumplings de camarão feitos no vapor com uma receita que, segundo rezam os livros, terá mais de 120 anos. E é claro que para quem tem sempre saudades das origens ou queira aproveitar para conhecer outros sabores há comida das mais diversas proveniências: chinesa, malaia, tailandesa, italiana, francesa e até bife na pedra e steak houses australianas e irlandesas. 

 

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Na marginal interior, junto ao rio, na Bach Dang Street, n.º 150, recomendo o Waterfront (Bén cang, em vietnamita, com site na Internet), bar e restaurante, propriedade e frequentado por expatriados e locais, que à sexta e ao sábado costuma ter programas de música ao vivo. Mesmo ao lado, aí a uns 15 metros, também há um restaurante japonês, cujo nome não recordo. No Pulman fica o Epice, com cozinha de fusão urbana e a classe de um hotel de cinco estrelas, com cozinha aberta e vista para Lady Buddha. Do lado oposto da rua, uns metros mais à frente, ficam o irlandês Murphys Steak House, o Babylon, este último para bolsas mais leves mas onde se come bastante bem para o preço diversos tipos de comida asiática e não apenas vietnamita, e o Lam Vien, já ao dobrar da esquina, no 88 da Tran Van Du, no bairro de Ngu Hanh Son. Se ficarem no interior terão dificuldade em acomodar as pernas nas lindíssimas e pouco funcionais mesas de pesada madeira. Quem for para o primeiro andar terá de se descalçar e deixar os sapatos junto à escada, embora o ideal seja ficar no jardim, entre o verde e a água que cai da fonte, com os pés na relva enquanto os sapos e rãs manifestam a sua satisfação. As sobremesas e os doces, de tradição francesa, não fazem as minhas delícias. Têm pouco açúcar. Sou mais do tipo arroz doce, abade de Priscos ou barrigas de freira. Não se pode ter tudo, apesar de haver sempre a opção por um gelado, local ou importado. Também fiz uma refeição no Tranquilos, nas cercanias do Holiday Beach Hotel, que tem uma simpática esplanada onde se pode jantar qualquer coisa menos elaborada e ouvir velhos clássicos ao saxofone e ao piano, acompanhando um vinho de copo largo e final longo.

Actualmente, há bom vinho em Danang. Carote, como todo o álcool importado, menos mal nas happy hours de alguns bares, por vezes entre as 21 e as 22 horas. Uma garrafa de vinho chileno ou italiano não custa menos de 400.000 dongs, cerca de USD 20. Tive a sorte de poder beber um APEC 2006, que é um razoável cabernet sauvignon local, da região de Dalat, que não deslustra a herança francesa. O nome decorre do facto de ter sido um vinho especialmente produzido e oferecido pelo Presidente do Vietname aos seus convidados estrangeiros durante a cimeira da APEC que nesse ano teve lugar. Se não for de beber água e sumos naturais, e aqui há em abundância, o ideal é optar pela cerveja. Importada ou local, também esta de excelente qualidade, geralmente com um teor alcoólico inferior ao que os europeus estão habituados mas capaz de pedir meças às Sagres, Stella, Budweiser, Heineken, Fosters ou Kronenbourg. Em Danang há mesmo uma cervejaria checa, podendo-se ver as cubas da rua.

Os apreciadores de chá também não se poderão queixar porque há de tudo. Diria mesmo mais “do que na farmácia”. De jasmim, de crisântemo, de gengibre, de lima e mel, verde, preto, vermelho, é o que se quiser. Quem preferir cacau ou chocolate (o Vietname exporta chocolate para a Bélgica!) também tem por onde escolher. E bom.

 

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Deixei para o fim uma das minhas bebidas de eleição. E de perdição. Ali produz-se, tal como em Bali, Java, Sumatra ou Timor, o famoso kopi luwak, o melhor café do mundo, cujo quilograma pode ascender facilmente aos 500 ou 600 USD. Só o aroma do acabado de fazer é uma bênção, um desvario para os sentidos. A cor, o cheiro, o sabor, o charme de quem serve...; enfim, em todo o caso não será preciso beber deste para saborear excelentes variedades de arábica e robusta e ser bem servido. Depois do corte da produção, durante a guerra, o país voltou à normalidade e é hoje o segundo produtor mundial de café. Como seria de esperar bebe-se muito e bom, seja o tradicional feito em chávenas individuais com um filtro de alumínio ou o expresso das mais modernas máquinas italianas. Beber café é um costume nacional de Hanói a Ho Chi Minh. A qualquer hora do dia ou da noite. Há muitos produtores, vários privados, incluindo multinacionais que se instalaram por volta da década de 90, mas a maioria da produção é estatal.

 

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Regresso a Danang (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.04.15

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A rapidez com que o país se desenvolveu no espaço de uma geração é deveras impressiva. Quando há vinte anos me desloquei pela primeira vez à Marble Mountain - Thuy Son -  e à famosa China Beach (a original ficava no local onde actualmente se ergue o Furama), uma extensa linha de areia que se prolonga ao longo de cerca de 30 km, as estradas eram más, o caminho que conduzia até à praia era de terra batida e não havia um único alojamento disponível ao longo da linha de costa. As moscas e mosquitos abundavam. Havia apenas barracões, pequenos casebres com ar de habitações clandestinas, e uma ou outra espécie de esplanada com mesas e cadeiras de plástico e quase nada para oferecer. Duas décadas depois as estradas são novas, há passeios a acompanhá-las, há uma marginal com um passeio marítimo na zona mais a norte, próximo das cercanias da cidade, dezenas de restaurantes, a maior parte dos quais virados para o mar e servindo peixe e marisco, estacionamentos públicos, parques para os milhares de motociclos (até a Ducati tem um stand em Danang), bares de praia com música ao vivo que fazem recordar os chiringuitos das praias andaluzas, alguns com karaoke para os mais afoitos, vestiários e duches públicos, bancos de pedra onde se namora e petisca ao final da tarde.

Depois, à medida que se caminha mais para sul, em direcção a Hoi An, sucedem-se os hotéis para todas as bolsas e, junto à linha de água, os resorts de 5 estrelas das grandes cadeias internacionais: Hyatt, Crown Plaza, Fusion Maya, Pulman; mais longe, na península de Son Tra, paredes-meias com Lady Buddha, fica o inconfundível Intercontinental. Também o golfe já faz parte do seu cardápio, trazendo japoneses, malaios, chineses, norte-americanos e coreanos. Para além do Danang Golf Club, o Montgomerie Links, que foi buscar o nome a Colin Montgomerie, golfista que venceu 8 vezes a Ordem de Mérito Europeia, que em 2010 foi capitão na Ryder Cup e desenhou o percurso, faz as delícias dos amantes da modalidade. Em Março passado foi aí que teve lugar uma das etapas do “Mercedes Benz Trophy 2015”. Para quem gosta de mergulhar, próximo de Danang e Hoi An, há sempre a hipótese de ir até Cham. 

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Acessos fáceis, qualidade das infra-estruturas, conforto dos alojamentos, beleza da paisagem, tranquilidade, preços acessíveis, tanto ao cidadão médio como aos reformados de países decentes e a estudantes pouco abonados que não andem à procura de discotecas estupidificantes, tudo isto pode fazer muito por uma região ou um país. Mas isso será sempre pouco se não se souber receber, se o serviço for recorrentemente mau, se os empregados dos restaurantes e dos hotéis se apresentarem mal encarados, desleixados ou com ar que quem está sempre cansado, continuando sentados e a ler o jornal quando chega alguém, enquanto fazem gestos vagos, ao mesmo tempo que olham para o relógio, para indicarem com a manápula besuntada uma mesa vaga. Neste momento deve haver muito poucos locais que ofereçam uma relação qualidade/preço para se gozar de uns dias de sossego como o Vietname. Se aliarmos a isso a segurança a qualquer hora do dia ou da noite, comprovável nas portas abertas das casas numa cidade com mais de 900.000 habitantes, e a simpatia e hospitalidade de quem recebe, estarão reunidos os ingredientes para momentos de puro deleite.

Nos restaurantes são as toalhas e guardanapos de excelente algodão, estupendamente limpos, perfumados e bem passados, que chamam a atenção. E não constituem uma raridade. Refiro-me a estabelecimentos normais, acessíveis a qualquer cidadão, numa zona balnear sem grandes luxos. Apesar de tudo muito distante das descrições que Somerset Maugham fez dos locais por onde passou e pernoitou em Saigão e Hué.

 

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A nota máxima, contudo, vai para o asseio das suas casas de banho, a começar pelas públicas, junto às praias, ou em qualquer tasca, por mais humilde que seja, algumas com cartazes contendo desenhos e frases explicativas, em especial para "turistas" vindo de outras paragens, elucidando-os de que não é necessário colocarem-se de cócoras com os pés apoiados no rebordo das sanitas quando destas fazem uso, e onde não faltam o sabonete, o papel e as toalhas, estas muitas vezes pequenas, turcas e enroladas, imitando as dos hotéis mais elegantes, para uma pessoa se poder refrescar da canícula e da humidade.

A ANA, que gere os nossos aeroportos, a CP, algumas concessionárias de áreas de serviço em auto-estradas e de cantinas urbanas com pretensões ao estrelato, por exemplo, podiam aproveitar para mandar alguém até estas paragens para verem como se mantém a qualidade desses espaços, desde sempre fundamentais para se avaliar o grau de civilidade de uma nação e do seu povo. Para quem está em Portugal, para quem vive na Europa, viajar - não me refiro a excursionar em bando - por estas paragens devia ser obrigatório. Devia dar direito a um abatimento qualquer no IRS mediante a apresentação dos comprovativos da deslocação. Não seria nada de mais.

Recordo-me de ter lido há uns anos, creio que em Theroux (A Arte da Viagem, editado pela Quetzal), aliás citando Mark Twain, ser a viagem fatal para o preconceito e a estreiteza de espírito. E muitos de nós, digo eu, precisam dela como de pão para a boca. Porque é a viagem que nos abre horizontes e que, como também ensinou Flaubert, nos torna mais modestos porque nos permite ver melhor o lugar que ocupamos no mundo. O nosso, sim, mas também o dos outros. 

Regresso a Danang (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.04.15

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As impressões com que cada um de nós fica dos locais por onde passa não é feita de quadros estatísticos. Impressões não são tratados, quadros complexos, gráficos. Registar percursos, recordar pequenos apontamentos, tomar nota do que numa fracção de segundo nos marcou é muitas vezes tudo o que fica de uma viagem. Como uma frase de um livro que se leu. Partilhar o que se viu ou o que se sentiu com quem não estava lá não é um tratado estatístico. Menos ainda quando se viaja sem manada, chegando para o pequeno-almoço à hora em que os impacientes guias das excursões organizadas entram pelos hotéis à procura dos retardatários refractários. É nessa altura que se torna possível começar a sentir a luz do dia. Sem pressas, como convém a quem observa.

Lembrava-me de ter visto ali o rio alguns anos antes, de ter circulado por ruas desertas, percorrendo becos solitários onde de quando em vez se vislumbrava um gato pachorrento, estendido ao sol, ou uma vendedora de frutos secos. A pequena ponte coberta construída no final do século XVI pelos japoneses tinha ficado gravada na minha memória. Tal como a arquitectura do seu mercado ou a marginal junto ao movimentado rio. Outrora um importante entreposto comercial, capital do Império Chan, actualmente protegida pela UNESCO, Hoi An continua a ser um local cuja arquitectura única e a profusão de aprazíveis restaurantes e cafés, galerias de arte, lojas de artesanato e de estilistas locais e estrangeiros se misturam com a herança histórica chinesa e japonesa.

O cuidado que foi colocado na recuperação dos edifícios antigos, a preservação das características originais das construções, incluindo o restauro das cores naturais, sem modernices pirosas nem o novo-riquismo dos horríveis vidros azuis espelhados de construções frias, desmesuradamente amplas e incaracterísticas que tomou conta de muitas vilas e cidades noutros sítios, não se verificou aqui. Mesmo nos casos em que a finalidade originária da construção se alterou foi possível manter a traça, o pátio interior, os materiais de sempre.

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Quando me coloco na posição de quem nunca esteve, ou de quem não conheceu antes a cidade, imagino que o choque seja grande. Aquilo não é a Itália renascentista, mas a riqueza do que ali se encontra, a harmonia perfeita das cores e das formas é capaz de nos dar a dimensão do que nos é oferecido, da opulência de outros tempos e de outros senhores. Casas senhoriais, templos, um pequeno museu de história e cultura, esculturas em granito, trabalhos em madeira, passeios pelo rio, e os incontornáveis alfaiates e sapateiros, agora ocupados por executivos australianos e irlandeses que pretendem tirar partido do "feito por medida em 24 horas" ao preço da uva mijona, e largam o cartão de visita nas mesas e cinzeiros de todos os sítios por onde passam, fizeram de Hoi An um local de peregrinação.

O número de bicicletas que se acotovelam nos cruzamentos com chapéus barbudos de alças e matulonas louras de tranças e calções rechonchudos a fazerem a ligação entre o selim e as chinelas, o chinfrim das campainhas e constantes buzinadelas, misturado com os inconfundíveis chapéus e bandeirinhas das excursões de japoneses e coreanos, começa a ser desagradável para quem gosta de viajar e se deslocar sem levar consigo atrelado o novo turismo das selfies e dos iphones. Mas será no justo equilíbrio entre a democratização do turismo, que trouxe consigo a possibilidade de muitos terem acesso e poderem conhecer aquilo que de outra forma lhes estaria vedado, e a preservação dos espaços, do conforto de quem se desloca e da qualidade de vida dos residentes que deverá ser encontrada a medida. Em Hoi An ou em qualquer outro local.

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Regresso a Danang (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.04.15

P1060617.JPGNão há regressos perfeitos. Alguns, apesar das circunstâncias, podem ser agradáveis, retemperadores, reconfortantes para a alma. Passaram pouco mais de vinte anos. Há vinte anos, dias depois de ter sido anunciado o levantamento parcial do embargo norte-americano ao Vietname, viajei de Hanói para Danang a bordo de um velho Tupolev que tremia por todos os lados e pingava água no interior da cabina. Nessa altura ainda eram muitos os vestígios da guerra. O aeroporto era um barracão e havia velhos aviões de combate e tanques abandonados e destruídos. Danang tinha um velho hotel junto ao rio que acolhia ocidentais e que com algum favor podia ser considerado um 3 estrelas sofrível, mas já se sentia o movimento de fim de tarde junto ao rio. Para ir a Hué fi-lo de comboio, percorrendo a sinuosa e espectacular linha que atravessa o Hai Van Pass, num ritmo lento e compassado, com inúmeras paragens, em carruagens com assentos de madeira, enquanto os miúdos vendiam mangas e amendoins. E o regresso para fazer os pouco mais de 100 km que separavam os dois locais foi feito por estrada, durante longas e intermináveis horas. Nessa altura ouvi histórias da revolução, da guerra com os americanos, lendas do tempo da ocupação francesa. E vi gente que renascia, gente com esperança, gente que sabia das dificuldades de um quotidiano que aos poucos deixava a destruição para trás, gente que apesar de tudo sorria. E ia à escola.

P1060614.JPGViajar, para quem o faz por gosto, é sempre um prazer desde que saibamos ser capazes de nos transportarmos no tempo até ao nosso destino. E procurar compreendê-lo. Esse ainda é para muitos um privilégio. Poder fazê-lo regressando vinte anos depois para avaliar as diferenças é um duplo privilégio.

Desta vez o voo foi nocturno, a bordo de um confortável Airbus. A aterragem foi suave, não choveu dentro do avião nem as portas dos compartimentos destinados à bagagem de mão se abriu sob as nossas cabeças quando o avião tocou a pista. Não foi preciso, depois, caminhar por esta com chuva até ao terminal quando a aeronave se imobilizou. O velho barracão com ventoinhas e muitas fardas verdes foi substituído por um edifício novo, com mangas que recebem os passageiros e os encaminham para escadas rolantes. Há aparelhos de ar-condicionado e emitem-se vistos a troco de dólares. O apeadeiro interno tornou-se num aeroporto internacional onde hordas de americanos, australianos, japoneses e coreanos são recebidos com um formal "good evening" por quem carimba os passaportes. O ritmo é outro.

Nos táxis também. Bem mais lentos a circular devido às pesadas limitações de velocidade, agora multiplicam-se. Têm todos taxímetro, dão recibo se se pedir, alguns aceitam cartões de crédito e ninguém perde tempo a regatear preços. E os motoristas esforçam-se todos por falar inglês e meter conversa. Há verdes, brancos, azuis, amarelos, mais pequenos, maiores, familiares. Milhares de bicicletas e scooters para alugar, com ou sem pilotagem. E há sempre um sorriso para quem chega, para quem entra ou para quem sai.

Quarenta anos depois do fim da guerra, vinte anos depois do levantamento do embargo, há militares norte-americanos fardados no meu hotel. São oficiais da marinha. Vejo que muitos estão "altamente" condecorados. Não sei se vieram para as comemorações dos 40 anos da libertação ou se residem cá, pois tão depressa os vejo fardados à espera de um carro como de havaianas num dos bares do hotel bebendo uma Larue ou uma Tiger ao final da tarde, quando a brisa húmida que vem dos lados de Son Tra se começa a fazer sentir. A postura é bem diferente daquela que o cinema durante décadas nos transmitiu e de que ainda há poucos anos alguns continuavam a dar mostras na infame Manila. Talhado hoje em modos cordiais e educados, o trato reflecte também a mudança, o novo modo de encarar e de se relacionar com o outro.

A Catedral de Danang, construída pelos franceses em 1923, engalanou-se para a Páscoa. As celebrações começaram logo na quinta-feira à tarde, 2 de Abril, como é norma nos países católicos. Foi necessário realizar as cerimónias no exterior, no terreiro fronteiro, colocar colunas de som e acomodar toda a gente que ordeiramente chegava nas suas camisas brancas impecavelmente limpas e engomadas. Os mais velhos nos lugares da frente, os outros mais para trás. Famílias inteiras com as crianças pela mão, asseadas, penteadas, bem cheirosas. O coro estrategicamente colocado e ensaiado. Elas sempre elegantes nos seus vestidos claros tradicionais, no seu chapéu, substituindo o capacete que ficara na mota, pendurado, sem cadeados. Como os de todos os outros. Do outro lado da Tran Phu os megafones estavam silenciosos. A catedral convive bem com os cartazes, com as fotografias de Ho Chi Minh e os festejos dos 40 anos da libertação. O culto pacífico, livre, aberto e respeitado, acompanhado das tradicionais canções da época, talvez seja hoje um dos sinais mais fulgurantes da mudança. Desta vez não dei com igrejas encerradas, com portões fechados a cadeado.

Não sei se foi isto que em 1975 os americanos pensaram que ia acontecer. O país é o mesmo. A república ainda se intitula de socialista. Desconheço se alguma vez imaginaram ver a fotografia do Che substituída nas t-shirts vermelhas pela caricatura de um símio barbudo em que o "Viva La Revolución" deu lugar a um "Viva la Evolución". O "r" da revolução caiu. O dos sorrisos, a dobrar, permanece.

 

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