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Quase que chorou

por Patrícia Reis, em 10.05.17

A minha avó ligou ao meu filho para saber coisas sobre o real e o atlético, não percebi nada da conversa. Depois ele mandou beijos, despediram-se e continuou a falar do Salvador Sobral e eu pensei: há meses e meses que temos o disco, tem de o ouvir. E ele disse: "Quando o vi hoje quase que chorei, é o novo Éder". Não preciso de sugerir que vá ouvir o disco, parece-me.

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A minha loucura

por Patrícia Reis, em 16.05.16

A mulher foi categórica: a tua vida é de loucos. E eu pensei que nem por isso, houve tempos, agora até consigo dormir oito horas. A mulher insistiu e pediu-me para relatar o meu dia e eu lá disse que tive reunião de planeamento na 004, a empresa que vou gerindo; a seguir ponto de situação relativo ao próximo número da revista Egoísta; verificar se estava tudo bem explicado no dossier de apresentação do conceito e logotipo que irá constar em todos os documentos da candidatura de Lisboa a Capital Europeia do Desporto 2021; reunião sobre estratégia de comunicação; pesquisa sobre um autor famoso para uma putativa exposição; treino da cadela; fazer lasanha de soja e ver uma série qualquer ou terminar o livro de Javier Marías "Assim começa o mal". A mulher riu-se e perguntou se não estava cansada. Respondi que foi um dia calmo. Não me queixo. Ela, gentil, perguntou-me: sabes o que me disseste quando estoirei e tive um ataque cardíaco? Tu disseste que eu ia morrer e não sabia quando exactamente, o avc tinha sido um aviso, e era preciso fazer apenas o essencial.

A mulher afastou-se com uma calma olímpica, ela que se limitou a fazer consultas no Instituto de Oncologia todo o santo dia. O verbo limitar é dela. E eu pensei, ok, tens razão, mas eu prefiro a minha loucura. Depois senti-me cansada.

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Rentrée

por Teresa Ribeiro, em 10.09.14

Chove e há greve do metro.

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O casamento em anos de cão

por Patrícia Reis, em 30.03.14

O amor não é o dos romances, as senhoras não têm veias azuis e desmaiam, caem à cama com doenças do foro pulmonar.

Os homens não andam de chapéu, não frequentam uma tertúlia, não se levantam quando uma senhora entra na sala.

Alguns mantêm amantes. As mulheres também os têm.

Dito tudo isto, na verdade um pouco banal, podemos concluir que nos dias correm, um ano de casamento equivale a um ano de vida de cão.

Isto quer dizer que, apesar dos meus 43, tenho quase 70 de casada. Uma raridade? Sim.

Há dias, um miúdo dizia, no recreio, que o fulano X era bestial, "já foi meu pai". O outro miúdo pareceu aliviado.As segundas e terceiras famílias são outra banalidade.

A crise financeira implica connosco, com o tudo que existe nas suas vidas. A crise emocional é provocada por nós e por esta permanente vertigem em que vivemos: ligados ao telemóvel, ao site, ao blogue, ao facebook, ao twitter.

Um casal jantava, há uns dias, sozinho, num restaurante dito "da moda". Ambos de telemóvel na mão.

Pensei: bom, devem estar à espera da comida. O repasto chegou. A animação com os telemóveis continuou.

Lembrei-me então do livro de Luísa Costa Gomes, Ilusão ou o que lhe queiram chamar (D. Quixote). O protagonista tem duas famílias, sendo que uma é avatar, ou seja, vive num jogo chamado Second Life. Triste?

Não sei se a maioria das pessoas o sente com tristeza, tenho a certeza de que é um belo livro, isso tenho.

Estar casado e manter um casamento é exigente e mais difícil do que conseguir um emprego ou promoção (isto se quisermos entender por emprego qualquer tipo de emprego, claro está). Todos os dias temos de escolher amar aquela pessoa, mesmo que já não a possamos nem ver? Não, nada de tão dramático. O casamento que dura é aquele em que as duas pessoas não se abandonam. Virar costas é simples. Ficar é que é mais implicado.

Tem dias, se quiserem.

Dizia-me uma poetisa que tudo isto é uma consequência evidente da libertação das mulheres e ainda bem. Que os casamentos arranjados, que os casamentos de 50 anos com manadas de sapos por engolir já não existem. Não respondi. Os casamentos brancos, com manadas de sapos e outras espécies, ainda existem. A taxa de divórcio diiminuiu. Por causa da crise. Há mais queixas de abusos.

Há mais silêncios. Silêncios maus.

O bom silêncio? É para aqueles que não se esquecem de dizer tudo.

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Sexta-feira 13

por Teresa Ribeiro, em 13.12.13

Vou ao site e marco o número de telefone geral: 217805000. Atende a máquina: "Bem-vindo ao Hospital de Santa Maria, para informações relacionadas com urgência central, prima 1", segundos depois oiço o apito de um fax. Ligo novamente. Desta vez escolho a opção 9, que me permite falar directamente com a telefonista. Explico o assunto, diz que vai passar para a urgência, só que o telefone toca, toca até se desligar automaticamente. Consulto melhor o site do hospital, em busca de número alternativo. Encontro o 21 780 5333, identificado como o de informações gerais. Talvez resulte, quem sabe. Mas ao fim de poucos minutos uma gravação informa-me que "lamentamos mas de momento não é possível atender a sua chamada, por favor tente mais tarde".

Confirma-se. O azar às vezes nem é tanto o que de desagradável nos acontece, mas as dependências em que logo nos vemos enredados. E que parecem sempre organizadas por forma a provocar o máximo desgaste possível.

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a vidinha

por Patrícia Reis, em 27.11.13

Todos sabemos que isto está mau. Até os miúdos mais pequenos sabem que isto está mau. Pior fica quando ouvimos barbariedades.

Eu ouvi: "a cultura não interessa para a promoção do país, o que importa são as empresas, promover as empresas lá fora e, já agora, não me fale de escritores." Posto isto, fiquei calada, como é bom de ver.

Temos as fronteiras mais antigas da Europa. Temos escritores e escritoras maravilhosos, poetas e poetisas. Como temos músicos, actores, etc e tal. E temos empresas e um mercado que está como está. A identidade nacional é feita pela cultura, nos vários âmbitos, ou estou enganada?

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a mala

por Patrícia Reis, em 24.02.13

A mulher desfez a mala com gestos de cansaço que, à partida, por serem de cansaço, a irritam ainda mais. O corpo mantém o nível de doer, mas ela insiste: é apanhar a roupa, dobrar o corpo, voltar ao cesto da roupa suja. Na memória tem ainda as palavras trocadas antes, a inutilidade das palavras quando se quer fazer o melhor e se faz o pior. Um ser humano deveria ser um jogo de computador e passar apenas de nível de acordo com as suas competências. As dela não servem sequer para fazer roupas de máquina. Acresce que odeia a mala. Tudo o que a mala pode significar, passado ou futuro e, lembrando Yeats, diz o poema para dentro como uma oração, the years to come, the years behind..., qualquer coisa assim e tenta sorrir quando se sabe incapaz de um sorriso. Não é momento. O momento chegará. A mala vazia, a máquina a rodar, o detergente a limpar e tudo arrumado. Depois será a vez do cão. Da água do cão. A seguir o despotismo esclarecido do filho mais novo, a história da música do afilhado e ainda o piano do mais velho. Tudo junto podia ser um filme. É apenas a vidinha.

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Sarajevo, 1350-333 Portugal

por José Navarro de Andrade, em 04.12.12

Tom Stoddard, "Sarajevo"

 

Descuidei-me e li o texto da Gui. Já ia a meio quando quis voltar para trás, mas foi como os desastres de automóvel, a partir de um determinado ponto não há como não ir até ao fim. Creio que durante essas fracções de segundo, menos do que a vida a desfilar na nossa mente, é a vida que tivemos e estamos a instantes de perder que recordamos já com nostalgia. Isto de uma pessoa ver-se ao espelho de outra é deixar de ser dona de si, é olhar demasiado para a frente em vez de ir vendo onde põe os pés, este aqui, o outro a seguir, a única maneira de caminhar pelo mato, onde desapareceram os rastos – está aí alguém?

Daqui a um ano contaremos as cabeças e logo se verá quantas almas escaparam do inferno. Há cinco anos esperava outra coisa disto, o vento enchia as velas e a prudência serviu-me de pouco. Pode ser pior? Espera pelo dia de amanhã e logo verás quanto pode.

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perguntas complicadas?

por Patrícia Reis, em 14.10.12

- mãe, não podemos ter um primeiro-ministro chamado Tozé, ou podemos?

- e quem é que escreve os discursos do 5 de Outubro?

- e este é o último 5 de Outubro? Para o ano passamos do 4 para o 6 directamente?

- e, uma última coisa, se eu fizer uma licenciatura vou para um call center como a minha prima?

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Jacarandás

por Ana Vidal, em 17.05.12

 

Contrariando olimpicamente a ancestral aversão nacional à alegria, os presságios de pestes negras, misérias pardas e um sortido rico de desgraças a bater-nos à porta (para não falar das que já se instalaram, abusadoras, nos nossos descoloridos sofás, pagos a prestações em tempos de vacas anafadas), as estatísticas e previsões de arrepiar os cabelos a quem ainda os tem, a troika, a crise do euro, as escandaleiras para todos os gostos, a falência da segurança social, a lamúria das salas de espera dos centros de saúde, o galope do desemprego, o tédio da conversa de políticos e economistas, as trapaças dos chicos-espertos, a miséria dos programas televisivos, as íntimas misérias de condes de papelão e estrelas (de)cadentes, o fado choradinho de faca e alguidar, o copo-de-três mal medido, o cheirinho, o mata-bicho, a bica pingada, a fome envergonhada, a fome sem-vergonha de poder e lucro, o crédito mal parado, a justiça parada de vez, o imparável apertar do cinto... ah, eles aí estão, indiferentes a tudo, vestindo as ruas de um azul descarado e eufórico. Azul-alfazema, azul-Quénia, azul-violeta, azul-lavanda, azul-anil, azul-lilás. Eu chamo-lhe azul-Leonor, como me ensinou a minha avó. A minha cor favorita.

 

Texto já publicado aqui (actualizado)

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