Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Cadeiras

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.11.18

swimming-pool-lounge-chairs-beautiful-home-lounge-

(http://imgjkw.co/ideas/)

Há os que se sentam numa e nunca mais se levantam. Ficam colados ao fundo, como umas lapas. E só se erguem, com manifesta dificuldade, quando os fundilhos começam a arder. Ou caem da cadeira. Outros há que não se chegam a sentar. Para não perderem tempo e irem acumulando cadeiras.

Em comum têm a mesma coerência, o mesmo amor aos números.

É-lhes incontrolável. Vem da massa do sangue.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Imperdível Porque é Extraordinário

por Francisca Prieto, em 14.01.18

Regresso ao teatro com a comoção de quem regressa a casa. Deixo-me embalar no ritmo de um bom texto, divirto-me com os pormenores de encenação, com a forma como a tela vazia do palco se vai pincelando em jogos de movimento, em marcações, em soluções improvisadas. E penso sempre nos actores, nas pessoas que estão por detrás das histórias, que fazem aquele trabalho porque não lhes faz sentido estar na vida a fazer outra coisa.

ACTORES, em cena no São Luiz, é uma celebração a tudo isto. Uma peça tão bem montada que dá vontade de continuar a ver mesmo depois do pano cair.

A sério. A não perder.

Até 28 de Janeiro, de quarta a domingo.

 

Actores.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vidas dos famosos

por Bandeira, em 13.02.17

A certa altura, Vincent Van Gogh percebeu que não podia continuar a dar ouvidos ao irmão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Tudo isto são conjecturas, claro

por Rui Rocha, em 19.05.16

Mas uma pessoa não pode deixar de pensar que a Bárbara Guimarães e o Carrilho ainda podiam estar juntos se a Catarina Martins se tivesse cruzado com eles num jardim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

A Mardis fechou

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.02.15

i.axd.jpgForam poucos dias. Suficientes para encarar a realidade que deixei para trás. Quando se está fora é sempre mais fácil olhar para dentro. Para trás idem. E imaginar como tudo teria sido se também eu tivesse ficado. Quando se vê o fio dos dias sem se conhecer o dia seguinte, vendo a esperança esvair-se na confrontação do seu reflexo, o que de material se possa ter deixado perde significado. Só o reconhecemos ao mergulhar de novo na piscina de onde se saiu e onde agora tantos tentam manter-se à tona.

Fiz múltiplas tentativas. Fui às páginas brancas e às amarelas. Procurei na Internet. Nada. Havia números que continuavam a chamar, outros com uma gravação que dizia que não estavam atribuídos, e os que restavam nem sequer davam sinal. Seria possível terem alterado todos os números? Decidi-me a passar por lá quando fosse a Lisboa. Conhecia a casa há mais de vinte anos. Desde o momento em que consegui comprar o meu primeiro Alfa Romeo, os meus carros nunca conheceram outras mãos. Primeiro sob a batuta do Sr. Augusto, até este dar uma queda e se reformar. Depois com a atenção do Leonel, que se tornaria no chefe da oficina, e dos seus colegas. As meninas da recepção, senhoras, sempre atenciosas. Ali, eu sabia que aquela gente não perdia tempo, conhecia os pormenores, não confundia o barulho de um amortecedor velho ou danificado com um apoio do motor partido. Sabiam o que faziam e faziam-no bem, de forma competente, razoavelmente económica, não esquecendo que os meus carros eram, para além de uma paixão, uma extensão prática de mim, pelo que tinham pouco tempo para se entregarem aos seus cuidados. De quando em vez lá ficavam mais um dia, para uma revisão mais profunda, mas era raro. Sempre impecáveis, sempre a brilharem, com uma sonoridade única.

Quando lá cheguei dei com as portas fechadas. Os vidros cheios de pó. Estacionei e fui ler o aviso amarelado que estava afixado: Estimados Clientes: Informamos V. Exas. de que esta oficina estará encerrada entre os dias 11 e 30 de Agosto. Percebi logo o filme. Sem saber o que fazer, aventurei-me a entrar pela drogaria do lado e perguntei ao proprietário se sabia o que tinha acontecido aos vizinhos da oficina, se sabia onde parava o pessoal. O homem levantou os olhos, olhou-me fixamente e disse: "Fecharam e nunca mais abriram. Uma casa com mais de quarenta anos. Às vezes ainda passa por aí um dos mais velhos para levantar a correspondência, mas há muito tempo que não vejo ninguém. Isto está uma desgraça. Não sei onde irá parar".

Eu também não sei. Normalmente, quando não cai, a montanha-russa só pára no fim. Não se consegue sair a meio. Logo agora, ao fim deste tempo todo, e com o pouco tempo que tenho, ter de ir à procura de alguém que saiba olhar para os meus carros, que conheça a marca, a história, a tradição. Das últimas vezes já desconfiara da falta de stocks, da necessidade de combinar primeiro o que queria fazer para depois passar por lá. Agora acabou-se. A Mardis fechou. Finou-se.

A Mardis é apenas um caso. Ficava ali na Luciano Cordeiro. E no seu meio era uma casa cujas máquinas eram tão afamadas quanto as do seu não menos conhecido vizinho. Cada um no seu ramo, é certo. Mas embora trabalhando a horas diferentes, penso que não se podia dizer que a qualidade de serviço da Mardis fosse inferior à do Elefante Branco.

Casos como o da Mardis repetem-se por esse país. Muito antes fora assim no Algarve. Faro desertificara. A Rua de Santo António já era em 2013 uma sombra do passado. Até o Constantino, do Baía, fechara portas e abalara. Ficou o António Manuel. Para ir ficando com os espaços que fechavam. Em Cascais fora o mesmo. É só começar a descer a Rua Direita. É porta sim, porta sim. Tudo às moscas. Num restaurante, que em tempos foi uma referência e um ex-libris da vila, há gente com três meses de salários em atraso. E parece que a patroa se amofinou quando a mulher de um dos trabalhadores lá foi tirar satisfações. Queria saber quando é que o marido iria receber. A fidalga.

Penso que nunca comi tão barato como nas últimas semanas. As lojas de roupa sobrevivem com vestuário a preços que quase não deve dar para pagar a matéria-prima. Sapatos quase de borla. As prateleiras cheias. Clientes nem vê-los. Da FNAC à Labrador, da Bulhosa à Bertrand, da Wesley à Boss, da Hélio à Loja das Meias. Nesta última, ali nas Amoreiras, eram mais os empregados que os clientes. Alguém terá de lhes pagar os ordenados.

Andei por aí. Fui ao Lidl, ao Jumbo, ao Continente. Olhei para as pessoas. Sem querer reparava no que levavam enquanto esperava a minha vez nas caixas. Algumas vezes me senti desconfortável com o que levava. Nada de especial. Mas quando se levam duas garrafas de um vinho decente e mais meia-dúzia de coisas que perfazem mais de uma centena de euros e se encontra alguém na caixa, com idade para ser minha avó, a quem falta 1,20 euros para pagar uma conta de 13,00 euros de um pequeno cabaz de iogurtes, leite, pão e duas maçãs, a gente fica sem jeito. Deixe estar, minha senhora, pode levar as compras. Eu pago o que falta. O olhar agradecido, envergonhado, um obrigado recolhido enquanto guardava os poucos cêntimos que restavam.

Ao mesmo tempo, na Urgência do Hospital de Cascais não havia lugares para uma pessoa se sentar. Eu ia para ficar à espera. Não era utente, quero dizer. Na TSF, num desses habituais fóruns onde se bota discurso, discutiam-se as mortes nas urgências, as taxas moderadoras. Alguém falava em cerca de  30,00 pela consulta e pelo exame que lhe mandaram fazer. Na farmácia fiquei a saber que os medicamentos para as hemorróidas não tinham comparticipação. O das unhas também não. Um fulano perguntava se de um outro medicamento não havia genérico. O farmacêutico dizia que sim, havia mas não lhe podia vender porque o médico colocara a cruzinha. E o homem insistia. Queria o genérico. Não tinha dinheiro. Havia um parecido, mais barato, não era bem aquilo mas fazia o mesmo efeito. Não ia voltar à consulta e a médica não saberia de nada. Então levo esse, disse ele.

De caminho passei por duas universidades. Almocei numa delas. Dois estudantes vieram sentar-se ao pé de mim. Tinham vindo colaborar com a organização e assistir à conferência. Afáveis, eu era convidado, sentaram-se ao pé de mim. Fizeram-me companhia. Falei com eles. Eu comi o prato do dia, bebi um refrigerante, no final a sobremesa e um café. Tudo por menos de cinco euros. Eles comeram uma sanduíche de ovo e beberam água. Pão e água. Falei com eles. Senti-me mal, como fosse responsável pela sua situação. Nenhum deles se queixou. Queriam acabar os cursos. Um era músico nas horas vagas. Iria nesse fim-de-semana para um bailarico. No Alentejo. Sempre era uma ajuda para as propinas. Nesse dia jantei em Lisboa. Ali para o Príncipe Real. Quando no final me pediram 16,00 euros pensei que se tinham enganado. Com o que comemos? Sim, está tudo incluído, o vinho também. Fiquei em silêncio. Paguei a minha parte. Como se pertencesse a outro mundo. A outra gente.

Não posso voltar para trás. Ninguém pode. Lá atrás só ficam os que não conseguem escapar. E os que roubaram. Dois milhões é obra. Falo de pobres. A raspadinha não é o BES nem a SLN. Não dá tanto.

Em Portugal, a urze cresce em qualquer lado. A pobreza é uma espécie de urze. Os pobres vivem dentro das suas possibilidades. Quando se vive dentro das possibilidades não se pode voltar para trás. Não há dinheiro para isso. Os pobres vivem dentro das suas possibilidades. Os pobres são como os velhos: também não podem voltar para trás. Pelo menos enquanto respirarem. Depois também não voltam para trás. Já ficaram para trás. Eles e as suas necessidades.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Visto de longe, de muito longe

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.02.15

autumn leaf.jpg"- Se ao menos pudéssemos partir já! - disse ele com um lamento na voz" - D.H. Lawrence, O Raposo

 

Há alguns anos, Maria Filomena Mónica escreveu um pequeno ensaio sobre a morte, que foi editado pela FFMS. Creio que deve ter sido um dos escritos que mais me impressionou sobre esse caminho irreversível que nos conduz até à velhice, esse estado em que já fomos sem ainda termos ido e em que a vida conta para efeitos estatísticos.

Não sei se haverá alguma fórmula feliz para o envelhecimento, para ver esse dealbar dos dias que nalguns casos servirá para lavar a memória dos erros passados, noutros para recordar os momentos em que as forças, a energia, o vigor e a esperança nunca faltaram. Não temo a morte. De igual modo, não receio envelhecer. Mas desconfio do prolongamento seminatural da vida quando olho para o que me rodeia e sou confrontado com a impotência humana, com o desgosto, com o olhar perdido no tempo daqueles que sofrem na velhice o acréscimo da esperança média de vida. Porque a este não se podem opor. Porque a medicina assim o quer, mesmo quando ninguém lhes perguntou em que condições estariam dispostos a viver os anos que a ciência entendeu acrescentar-lhes. Às vezes para deleite dos vivos. Dos que não vegetam. Dos que se movem e levam uma vida nornal.

Quando o vi ali prostrado, depois de um AVC sofrido há mais de uma dezena de anos que o imobilizou numa cadeira de rodas e lhe retirou quase tudo o que lhe dava gosto fazer, tornando-o naquela espécie de gente sofrida que deve estar sempre agradecida pelo que diariamente por ela fazem, pergunto a mim mesmo se valerá a pena viver assim. Desta vez calhou-me a mim. Lá estava ele, deitado no chão, com duas mantas por cima para não arrefecer, esperando que alguém conseguisse levantá-lo, aguardando pacientemente a sua vez, sem saber quando ela chegaria. Se dentro de dez minutos, se de uma hora, ou se só ao fim de uma eternidade. Sem um queixume. Como se a vida se tivesse tornado numa espera permanente e dependente pela qual, quaisquer que sejam as circunstâncias, se deva estar sempre agradecido. Ali estava ele, diante dos meus olhos, perante o último patamar da dignidade humana. Aquele do qual já ninguém pode fugir no momento em que já lhe falta tudo e nada pode para contrariá-lo. Aquele do qual ninguém nos pode retirar. Por muito que se sofra. A não ser Deus, para quem acredite, o que não é o seu caso de ateu praticante.

E logo depois vejo também os outros, os que se amparam em cada dia que passa aviando receitas, contando as horas para as refeições, os comprimidos, a leitura dos valores da pressão arterial, cuidadosamente anotados numa folha de papel. A máxima, a mínima, a frequência cardíaca, enquanto lá fora a vida segue com o debate quinzenal, as agruras do espólio do BES, ou a discussão sobre os efeitos das eleições gregas no tamanho dos ovos das galinhas nacionais. Ali só interessa saber se é preciso tomar o Varfine, o Lasix ou o Tenormin. A vida está toda nas caixinhas, nos comprimidos brancos, azuis, cor-de-rosa, na quantidade de sal na sopa, no açúcar do chá. Também nas horas e no boletim meteorológico, faça chuva ou faça sol, sendo indiferente para o caso se se deixou de pôr o pé na rua há meses ou há anos. Ah, pois é, é por causa da chuva. O teu irmão amanhã vai dar consultas fora. E se estiver de chuva a Natasha vai ter mais dificuldade com os transportes. E depois a que horas é que ela vai chegar? E tu a que horas vens? Passa quando puderes. Primeiro estão as tuas coisas, mas passa quando puderes. Eu passo. Eu passo sempre. E eles à espera. Sempre à espera. Pensando neles, no frio, no corte das reformas - "estão sempre a tirar-nos, o que eles nos estão a fazer é um assalto; só o ano passado, a mim, foram quase duzentos euros por mês, à tua mãe foi menos, porque a reforma dela é mais pequena, mas também lá foram" -, pensando em nós - em todos nós - dias a fio, nas alternativas que nunca são viáveis por isto ou por aquilo. Está sempre frio. Os aquecedores estão ligados mas está sempre frio. Sair de casa? Vamos ter de pensar nisso, isto assim não pode continuar. Mas entretanto continua. Mais um dia, e depois mais um a seguir ao outro. Todos os dias. Até a seguradora cancelou aquele seguro de vida. Querem o recibo assinado para devolver o prémio. Como, se eu não vejo? Já não sei assinar. Cego há quase cinquenta anos e o tipo quer que ele assine o recibo. Ou que vá ao notário fazer uma procuração. Ou que ponha a impressão digital e o notário certifique. Aos noventa e seis anos. Porque não depositam o cheque na conta? Recebo a reforma por lá. A conta é na Caixa. E por que raio ele se há-de sujeitar a isso. Como eu o compreendo sem o compreender. Era só uma assinatura. Não assino, eles que fiquem com isso. O dedo reconhecido pelo notário. Aos noventa e seis anos. Um tipo não faz a barba porque não tem forças e há-de ir ao notário fazer a procuração. Ou pôr o dedo na burocracia. Uns cretinos.

Hoje a mulher não veio. Há greve nos comboios. O miúdo foi internado, teve de ficar com ele. Está toda a gente com gripe. Caiu? Duas vezes? Então e ninguém diz nada? Já tomou os comprimidos? Já, já lhe dei. Mas hoje não é segunda-feira? Então deu-lhe os de terça-feira. Eu? Não. Não, como? Se na caixa faltam os de terça-feira e hoje é segunda é porque se enganou outra vez. E já lhe deu os da noite? Então trocou tudo outra vez. Outra vez?! Está tudo separado, por dias da semana e refeições. Esta coluna está vazia. Amanhã dou-lhe os de hoje. E depois a tensão desce, e andam cheios de sono, e ninguém sabe por que razão, não é? Se não vê ponha os óculos. Não é para isso que eles servem? E agora a perna engessada. O dia todo na cama. Nem para a cadeira pode ir. Mas tem de ficar sentado. Aquela perna era a que já não mexia. Está inchadíssima. E o ortopedista quer vê-lo na quarta-feira. Às 10 horas? Alguém vai ter de levá-lo. Terão de ser os bombeiros. Vai na cadeira de rodas, ele não pode descer as escadas. E quem aguenta com ele? Nesse dia não poderei ir trabalhar. Vou ter de ir com ele. Não percebo nada do que diz. Fale devagar. E agora está a chorar? Está com os óculos todos besuntados, cheios de dedadas. Já viu como está essa camisola? Não está em condições, não pode andar assim. Como é que podes dizer que não está em condições se ainda esta manhã a vesti? O telemóvel não está carregado. Esteve toda a tarde a carregar. Só se faltou a luz. Vou à janela dizer-te adeus. Tens falado com ela? Ela está boa? Dá-lhe um beijo quando falares com ela. Amanhã passas por cá? Não posso, mãe. Amanhã vou-me embora. Tenho avião de manhã. Oxalá não te dêem frango. Que Santo António te acompanhe.

 

E lá ficaram eles. Com eles. Mais as suas preocupações. À espera. Sempre à espera.

 

Não tinha que ser assim. Não podia ser assim. A velhice não pode ser uma pena, uma condenação pré-morte em nome do progresso para expiação dos pecados que não se cometeram. A velhice não pode ser uma fatalidade. Isto está tudo gatado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Runtastic

por Rui Rocha, em 13.08.14

Do sofá ao frigorífico em 11 segundos. Mais 493 kcal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

O Cristianinho pergunta pela mãe, as tias dizem-lhe que foi passear.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

O meu país preferido

por João André, em 28.01.13

Cumpri em Dezembro 9 anos a viver na Holanda já sabendo que não chegaria aos 10. Irei começar em Abril uma nova etapa da minha vida profissional que me levará a viver novamente numa Alemanha onde estive pouco depois de terminar o curso. Ao todo passei 10 anos dos 19 da minha vida adulta a viver fora do país onde nasci.

 

Isto de nascer num determinado país tem que se lhe diga. Os holandeses têm uma peculiaridade curiosa: quando lhes é dito que a Holanda é um bom país para viver mas que se gosta mais do país X ou Y (habitualmente o país de origem, como é natural), eles estranham, como se fosse possível preferir outro país que não os Paraísos Baixos. Esta é uma característica que partilham (tal como muitas outras) com muitos estado-unidenses.

 

Analisando os factos esta perplexidade faz sentido. A Holanda (ou os EUA) tem uma qualidade de vida superior à da esmagadora maioria dos países do mundo, os salários permitem vidas relativamente tranquilas a quase toda a população, é comparativamente fácil obter emprego e, quando se está desempregado, há uma boa rede de suporte social. Os serviços públicos e privados funcionam bem e o país está bem estruturado. Os cuidados de saúde e a educação são de qualidade e o acesso a eles é simples. Porque não preferir este país aos outros?

 

Claro que a resposta é sempre simples: é difícil preferir qualquer país àquele onde crescemos simplesmente porque foi a este que nos habituámos. Conhecemos o temperamento das pessoas, por mais ilógico que seja. Sabemos como manobrar pelas vielas dos favores necessários a obter certos serviços mesmo quando não aprovamos tais atitudes. Aceitamos os ruídos, os cheiros e a desorganização mesmo quando não fazem sentido. Conhecêmo-los. Fazem-nos sentir em casa.

 

Notei-o pela primeira vez quando visitei uma amiga em Bruxelas, após dois anos na Holanda. A comparativa desorganização e sujidade da cidade, que a tornam mais desagradável que a cidade média holandesa, fez-me sentir em casa. Ainda hoje ao chegar ao aeroporto de Lisboa só me sinto de facto em casa quando saio porta fora da zona de chegadas e ouço as buzinas e sinto o cheiro a combustível que estão ausentes das assépticas cidades holandesas.

 

No fim de contas, a maior perplexidade não é tanto a holandesa ao saber que continuarei a preferir Portugal para viver. Antes é a minha, por não ver como é que os holandeses não compreendem (mesmo não partilhando) a minha preferência. E, nessa perplexidade, recebo parte das razões para a minha preferência.

Autoria e outros dados (tags, etc)


O nosso livro





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D