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Cheira a pólvora

por Paulo Sousa, em 18.03.20

Além de outras coisas, faço parte da gerência de um negócio familiar que se encaixa no que se costuma designar comércio local.

Teoricamente, o comércio é a intermediação de mercadorias realizada para suprir necessidades. Mas para além disso permite uma relação com o público que, sempre foi e sempre será, uma permanente escola sobre a natureza humana. Estes dias têm acrescentado novos capítulos ao extenso compêndio de um negócio que tem as portas abertas desde 1973.

Desde sábado, dia 14 de março, que alterámos o normal funcionamento. Os clientes são atendidos na rua através do gradeamento, o estacionamento no nosso parque não é permitido e toda a nossa equipa atende de máscara e luvas. De forma a salvaguardar a integridade dos nossos clientes, muitos dos quais pertencem ao chamado grupo de risco, assumimos os custos das entregas ao domicílio. Certamente que esta semana voltarei a ultrapassar a fasquia das 60 horas.

Do lado de dentro do balcão todos partilhamos a responsabilidade para com o público. Estamos conscientes de que vivemos dias realmente especiais e que alguns dos artigos que transaccionamos não podem faltar a quem os procura. Refiro-me especificamente ao gás engarrafado e a rações para animais, domésticos e de companhia.

Como o gás nas cidades é canalizado e os animais das marquises comem do supermercado, este tipo de artigos nunca são incluídos nos serviços mínimos referidos pelos media o que, considerando o seu limitado ângulo de observação da realidade, não surpreende.

A campanha “militar” contra o vírus ainda está a começar. A guerra vai ser longa, e a estatística avisa-nos que alguns de nós não celebrarão o dia da vitória. Por isso, tal como numa maratona, a solução resume-se a colocar um pé à frente do outro. E não parar.

Amanhã continuamos.

PS: Só hoje, à hora de almoço, é que consegui colocar a bandeira em cima do letreiro.

Sobre os pesticidas

por Paulo Sousa, em 08.02.20

Já ouvimos aqui e ali que as autoridades monitorizam o consumo de cocaína a partir dos efluentes urbanos. Quer isso dizer - surpresa!! - que as substâncias que ingerimos depois de circularem dentro do nosso organismo acabam por ser devolvidas ao meio ambiente.

É fácil entender que também os banais paracetamóis, ibuprofenos e demais medicamentos para gripes, digestões difíceis, irritações da garganta, depressões, ou até quimioterapia ingerida ou injectada, levam a que ocorra a libertação de parte destes compostos químicos nos efluentes urbanos e por aí regressam à natureza.

Os puristas dos alimentos bio, macrobióticos e outras variantes e tendências, que já deixei de me esforçar por memorizar, ainda não se lembraram de se manifestaram contra esta forma de “poluição”.

A conservação da natureza é determinante e deve ser permanentemente considerada em toda a actividade humana. Apesar disso, qualquer posição equilibrada sobre este assuntos tem de partir de uma base de que a poluição óptima não é nula.

É claro que cada um de nós poderá defender um ponto de equilíbrio diferente para o binómio sustentabilidade/bem estar. Até que as dores ou doenças nos aflijam, ou aos nossos, é muito mais fácil ser purista.

Toda esta introdução para fazer um paralelismo com a produção agrícola.

No tempo em que o meu pai era criança os anos de míldio eram anos de dificuldades. Outra forma de relatar este facto era como sendo anos em que havia pouca fartura, mas no fundo isto não são mais que metáforas para dizer que eram anos de fome.

Quando se plantava uma saca de batata e no dia da colheita se colhiam apenas três ou quatro, em vez das trinta ou quarenta potenciais, o regresso a casa era triste e cinzento.

As famílias eram numerosas e as mais de setecentas refeições previstas num ano exigiam colheitas generosas. Ratear poucos ingredientes para muitas refeições a servir a muitas bocas de crianças e jovens em crescimento, que não passavam o dia imóveis agarrados a écrans, era um exercício difícil e ingrato.

Olhando a partir de hoje, com as prateleiras dos supermercados cheias, pode parecer estranho mas a introdução da cultura do milho, cereal muito mais produtivo que o centeio, teve como consequência um aumento da população. A história do vinho verde também está ligada a esta revolução agrícola, mas isso são contas de outro rosário.

Os pesticidas, agora designados tecnicamente como produtos fitofármacos, foram e são os medicamentos que se administram às plantas e que previnem este exercício ingrato de ouvir os filhos a pedir comida e não a ter para lhe dar.

A nossa geografia, exposta à humidade atlântica, é excepcionalmente propícia ao aparecimento de míldio e de outros fungos que apreciam humidade e temperaturas amenas. Os fungicidas, introduzidos há muitas décadas, foram a solução para travar fomes como a Grande Fome na Irlanda, que deixou atrás de si um país arrasado.

Numa economia aberta como a nossa, os anos de míldio deixaram há muito de serem anos de fome. Nos anos de fraca produção nacional as batatas aparecem igualmente cruas, empacotadas já fritas ou processadas em puré instantâneo no supermercado, ou cozidas sob um fio de azeite no restaurante da esquina. A globalização anulou o binómio míldio/carência alimentar.

Para quem nunca soube, ou já esqueceu, da realidade que aqui descrevo é fácil concordar com o mantra de que os pesticidas são a origem de todos os males. As doenças que não conseguimos controlar (que são apenas um ínfimo número das com que já lidamos na história) são o resultado dos pesticidas com que envenenamos os alimentos e o ambiente.

Como referi acima, a poluição óptima não é nula, assim como o uso de medicamentos óptimo não é nulo e também o uso de pesticidas óptimo não é nulo.

É natural que o crescimento exponencial da população humana em curso leve a uma maior procura de alimentos. A forma de travar a conquista de mais áreas, agora selvagens e não cultivadas, passa por aumentar a produtividade dos solos actualmente dedicados à agricultura. Só maximizando a produção de cada parcela permitirá que o natural aumento da procura global de alimentos não tenha como consequência um aumento das áreas dedicadas à agricultura.

Podemos por isso dizer que a conservação dos espaços naturais depende da produtividade agrícola com base cientifica, e por isso do uso dos pesticidas.

As vindimas acabaram há poucos dias. Os cestos já foram lavados e o vinho já está na curtimenta. Basta agora esperar pelo dia de São Martinho para as provas oficiais.

A quantidade foi mediana e as medições do álcool estimado foram generosas, ultrapassando em diversos lotes, nomeadamente de Touriga Nacional, os 14 graus. Estes valores fazem repetir a frase que descreve as uvas de bom grau e que só se ouve em alguns anos: Até se colam aos dedos!

Além da solenidade que é colher o resultado de mais um ciclo das plantas, a vindima tem também uma importância cultural, social e familiar.

Nos tempos em que beber vinho era dar o pão a mais de um milhão de portugueses, a vindima era um acontecimento vivido com muita intensidade no mundo rural.

Havia trabalho para todos até para as crianças. Cortar os cachos para dentro de um balde era tarefa para as mulheres e para os mais novos. Os adolescentes e jovens adultos recolhiam o conteúdo de vários baldes para os poceiros que acartavam ao ombro para as tinas de madeira colocadas em cima dos carros de bois. Os poceiros eram feitos em madeira e com aduelas metálicas, o que fazia deles tão pesados como o conteúdo, especialmente quando ficavam molhados. A aduela do fundo deixava profundas marcas nos ombros mal protegidos por um saco de serapilheira colocado a tiracolo.

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O meu avô materno era tanoeiro e isso duplicava a importância da vindima. Além da produção do vinho recebia as encomendas de pipos, tinas, celhas, poceiros e baldes. O trabalho começava vários meses antes da vindima.

Quando chovia no inicio de Outono os caminhos ficavam muito difíceis.  Segundo alguns relatos o clima no tempo do Estado Novo era incrivelmente pontual. As parelhas de bois lutavam com o peso das tinas em cima dos rodados de madeira, que rodavam num eixo do mesmo material. Para reduzir a fricção entre a roda e eixo usavam-se borras de azeite que eram transportadas dentro do corno oco de um bovino morto há muito. A lama espessa parecia não querer deixar que as uvas chegassem ao lagar e ninguém sabia se eram mais difíceis as subidas ou as descidas. Guiar uma parelha de bois era uma tarefa exigente. Uma lesão numa pata de um animal equivalia ao seu abate com o respectivo prejuízo patrimonial. Em compensação pelo esforço, os bichos recebiam um pequeno alento. Nestes dias exigentes eram alimentados com a melhor ração disponível e que consistia nos crutos de milho. As extremidades desta planta eram consideradas as mais nutritivas e por isso eram separadas, secas nas eiras e guardadas para a vindima. Quando a repetida passagem das rodas afundava os buracos ao ponto de poder assentar o eixo do carro ou partir um rodado, enchiam-se as covas com molhos de vides, que mais não eram que sobras das podas.

Chegar ao lagar era um alívio para os bois, mas não para os agricultores. Estava na hora despejar as tinas à forquilhada para as rampas que desciam até ao lagar. A nossa arquitetura rural era determinada por este processo. No piso térreo, ao lado da porta onde deve caber um carro de bois, existe sempre uma janela em frente ao lagar. Era construída na altura certa para permitir descarregar as uvas da grande tina de madeira, rampa abaixo, até ao esmagador que se encontra já dentro do lagar.

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Tina após tina o lagar vai enchendo até chegar o momento em que as uvas, já esmagadas, vão ser pisadas.

Tenho uma memória muito antiga de participar neste processo com o meu avô paterno e outros senhores já velhotes como ele. Lembro-me da solenidade com que as coisas eram feitas. Nos dias anteriores tudo era cuidadosamente lavado. As ferramentas, as tinas, o lagar, os depósitos e os restantes recipientes. Tudo tinha de estar imaculado para o grande dia.

Já com o lagar cheio de uvas esmagadas, arregaçavam as calças, lavavam os pés e benziam-se. Um ano de trabalho e esforço seria agora materializado, o que não era coisa pouca. Se alguma coisa corresse mal tudo poderia ser perdido e isso justificava fazer o sinal da cruz. Se durante a Eucaristia, na consagração, o sacerdote levanta o cálice com vinho e apresenta a oferenda dizendo “Fruto da terra e do trabalho do homem”, e se depois disso o transforma no sangue de Cristo, então Cristo pode ser invocado quando o vinho está a ser feito. Se fazer vinho não é uma coisa solene, então o que é que é solene?

Lembro-me também do doce cheiro das uvas esmagadas que invadia todos os recantos da adega e da cor tinta que corava as pernas dos agricultores, pálidas de nunca verem o sol. Lembro-me também de provar o doce sumo de uva ainda não fermentado e por isso ainda não alcoólico. Algum era logo retirado na bica do lagar para mais tarde se misturar com aguardente vínica e fazer vinho abafado, a panaceia das constipações.

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Quando o vinho era abundante tinha pouco valor comercial. A oferta e procura assim o determinava, e nem a socialista Constituição de 76 se atreveu a revogar essa lei.

Muito vinho barato equivalia a mais consumo e mais consumo equivalia a mais bebedeiras. Todas as terras tinham meia dúzia de bêbados crónicos e mais uns quantos mal disfarçados. O alcoolismo nestes meios sempre andou de mão dada com a pobreza e com a miséria. Tal como o ovo e a galinha não se sabe qual deles iniciou o ciclo.

O ónus social existia mas desde que o bêbado não fosse mal educado nunca seria proscrito. Eram dignos de dó, lamentava-se a falta de sorte dos desvalidos filhos que por caridade eram alimentados pelos vizinhos e às vezes vestidos com os raros restos das outras crianças.

Nesses anos de especial abundância, os consumidores mais compulsivos desculpavam-se com o pecado que seria desperdiçar a dádiva divina que é o vinho. E quem é que se atrevia a argumentar contra tal elaboração teológica?

Algumas destas figuras, assim como as suas frases características, são ainda hoje recordadas. É curioso como tem uma presença muito mais efectiva na memória colectiva do que a dos homens sóbrios, que são apenas lembrados pelos seus familiares directos. Será que isso acontece porque os bêbados quando etilizados exerciam a liberdade de mostrar na rua o que lhes ia na alma? Será que os outros, os que bebiam com moderação, quando morreram, a memória pública do que eram diluíu-se com a de todos os outros que bebiam responsavelmente?

Apesar de a tradição vitivinícola remontar por aqui aos tempos romanos a região nunca teve identidade que lhe permitisse ser uma região demarcada. Nos primeiros anos da PAC, após a adesão à CEE, esta estreita faixa de terreno entre a costa e a Serra dos Candeeiros foi destinada à fruticultura. A Maçã de Alcobaça é a marca de referência e reúne a produção de pequenos e médios produtores dos concelhos a sul de Alcobaça até aqui ao de Porto de Mós. Em resultado desta especialização na maçã e na pêra rocha, a vinha perdeu importância comercial. Apesar disso, as pequenas vinhas continuam a existir. Alguma produção é ainda entregue às adegas cooperativas da Batalha e de Alcobaça. O valor comercial deste vinho, classificado como corrente, é reduzido e insuficiente para remunerar condignamente o esforço e empenho necessário à sua produção. As cooperativas apelam à substituição de castas como forma de valorizar o produto final mas o investimento não é aliciante até pela elevada idade dos produtores.

Além desta trajectória descendente junta-se o cerco fiscal. A Autoridade Tributária exige que cada sócio da cooperativa declare esta actividade junto da Repartição de Finanças.

Num universo maioritariamente constituído por reformados com pensões de baixo valor, o receio de ter de começar a pagar IRS leva a que se abandone este magro complemento de rendimento. As cooperativas terão dados rigorosos sobre os valores desta realidade mas baseado-me em algumas conversas posso avançar que estamos a falar de rendimentos máximos de 600€ por ano, entregues mais de um ano após a colheita. É em casos destes que percebemos quão forte um governo consegue ser perante os fracos. Noutros palcos encolhe-se respeitosamente.

Apesar disso existem algumas vinhas novas com castas de renome e algumas até importadas. A produção continua destinada a consumo próprio e pontualmente é vendido a conhecidos. Há dias comprei um garrafão de tinto daqueles que mesmo com o rótulo rasgado deu para reconhecer que era de água do supermercado. Cinco litros por 5,50€. Nunca poderia passar por vinho de enólogo mas sabe àquilo que é, a vinho corrente, razoavelmente honesto, feito com teimosia, com um forte aroma a homenagem aos tempos em que as uvas viajavam nos carros de bois e com ligeiras notas de desafio ao Ministro das Finanças. Uma combinação perfeita.

 

As quatro últimas fotos apresentadas foram tiradas por mim na vindima de 2008. Todos os intervenientes directos dessa vindima já faleceram.

Hoje vou falar-vos de oliveiras. As galinhas podem esperar.

As oliveiras aqui do sopé da Serra dos Candeeiros são maioritariamente da variedade galega. Tradicionalmente estas árvores eram de grande porte, com cinco ou seis metros de altura e oito ou dez de diâmetro. Noutros tempos, em que a mão de obra era jovem e abundante, subir a essas alturas não era um problema, mas com o passar dos anos, e com a mudança etária que o mundo rural sofreu, os acidentes na apanha da azeitona começaram a ser um tema incontornável. Todos os anos pelo menos uma pessoa conhecida sofria um acidente grave ao cair de uma oliveira e, pouco a pouco, as árvores foram sendo 'derrotadas' com podas mais curtas tornando-se mais baixas e, por vezes, até desproporcionalmente largas.

Além da questão da segurança, a oliveira tem de ser podada para não ficar com o seu interior muito cerrado. A planta esforça-se muito mais para manter toda aquela vegetação e isso reduz a sua produção. Além disso, uma oliveira muito fechada complica muito a apanha da azeitona. O ano que se segue a uma destas podas é sempre menos produtivo, mas a prazo é uma boa opção.

As ovelhas entregam-se com afinco às sobras destas podas e rapidamente fazem desaparecer todas as folhas. É um ciclo perfeito. O excesso aparentemente inútil das oliveiras transforma-se em alimento. Sobram ainda os ramos que, agora despidos de folhas, servem para atear o forno, e até que esse dia chegue são um poiso muito apreciado pelas galinhas para pernoita.

A apanha da azeitona é naturalmente um momento especial para os olivicultores. É o inicio da última fase de vários meses de trabalho, e que só termina quando se vai buscar o azeite ao lagar.

O minifúndio, que aqui é maioritário, permite que em poucos dias se resolva o assunto e, mesmo para os menos idosos que ainda trabalham, é vulgar guardarem-se uns dias de férias para esta altura do ano.

Não conheço por aqui quem subsista exclusivamente da produção de azeite. Esporadicamente poderá ser um complemento de rendimento, mas na maioria das vezes é apenas uma forma de ter azeite caseiro suficiente para gastar todo o ano e para dar à família e amigos. É também uma forma de pagamento a quem, que não sendo da família, tenha ajudado na apanha.

Normalmente a colheita é também o motivo, não menos importante, para reunir a família. Existe uma forte vertente pessoal e familiar em tudo isto. A relação com o olival é alimentada por uma mistura de posse do território com homenagem a quem o planeou e concretizou. Manter um olival é manter um espaço, as suas plantas e o propósito que foi concretizado há muitas décadas atrás pelos pais ou avós.

Mesmo que não conscientemente, quando se planta um olival, se cuida dele com a ajuda dos filhos, irmãos e outros familiares está-se também a passar uma mensagem e a consubstanciar uma intenção.

O azeite produzido desta forma tradicional e tão pessoal fica muito mais dispendioso do que o que se consegue com métodos intensivos e muito mais profissionais. Tem havido diversas mudanças no enquadramento legal de toda esta actividade e no geral todas têm reforçado as vantagens do efeito de escala conseguido pelas explorações intensivas.

Em abstracto os subsídios agrícolas irritam-me, mas o maior subsídio que se poderia dar a este tipo de agricultura era não lhe complicar mais a vida. Um olival tradicional pode durar muitos mais anos que a idade do actual regime político somada à do anterior. Mas mesmo assim há sempre mais uma norma emanada pelo ministro de turno, porque agora é que se vão resolver os problemas e enriquecer os agricultores. Nisto sinto-me especialmente liberal. Não mudem mais regras porque isso é, demasiadas vezes, o melhor que um governo pode dar ao seu país.

Apesar de tudo isto ainda vai havendo quem insista em manter esta tradição, e este ano adivinha-se mais produção que no ano passado.

Cá em casa, na janela da cozinha, temos um frasco com papelinhos dobrados onde registamos as coisas boas que nos vão acontecendo ao longo do ano. Fazer parte do Delito de Opinião já lá está, dobrado em quatro, para ler no fim do ano.
Fico grato pelo convite do Pedro.
Já estou a adorar fazer parte da casa.
 
- - -
 
Aos olhos de demasiados dos nossos governantes, existe uma estreita faixa do território português que fica localizado a norte do Ralis, a oeste da ponte Vasco da Gama e a sul do Cristo-Rei. Por vezes de lá chegam algumas notícias de acidentes e outras tragédias variadas. O espaço público é, na sua esmagadora maioria, preenchido por eventos, pessoas e sítios, sempre ligados à capital.
 
Li algures que os franceses, nas suas repetidas e mal-sucedidas tentativas de invasão do nosso rectângulo, terão afirmado que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. Esta ideia não é nova e dão-se alvíssaras a quem encontrar excepções dignas de relevo.
 
Observar o mundo sempre a partir do mesmo miradouro é limitador. Existem muitas realidades que nunca terão a visibilidade merecida, e sendo ignoradas é como se não existissem.
 
Julgo que foi num periódico espanhol que surgiu o termo urbanitas. Este neologismo serve para descrever pessoas que, por habitarem nas cidades, acabam por não ter em consideração variáveis que não fazem parte do seu quotidiano. E isso leva-as a julgamentos baseados num mais limitado conjunto de valores. Não me arrisco a afirmar que a visão correcta e completa do mundo é a oposta à dos urbanitas. Apenas acho que a ausência de uma parte da realidade limita qualquer análise. O mesmo raciocínio é válido no sentido contrário, sendo que a limitação de fundo será a falta de equilíbrio entre os dois ângulos de observação.
 
É com este pensamento na minha bagagem que irei tentar aqui escrever sobre esta estreita faixa de terreno. Se correr bem até pode vir a ser uma rubrica tão regular como a regularidade com que eu tropece em histórias, ou estórias, deste lado do Ralis.
 
- - - 
 
Em minha casa, no exterior - para que fique claro - vivem diversas espécies. Neste momento eu poderia contribuir para a Arca de Noé e, por ordem de tamanho, com um carneiro, duas ovelhas, quatro patos mudos brancos, duas galinhas pretas, uma castanha e ainda oito frangos castanhos, dos quais um é de pescoço pelado.
 
Adquiri as ovelhas há quase dois anos, principalmente para limparem um bocado de terreno anexo à casa, o que faz delas umas sapadoras especialistas não subsidiadas. Quando as comprei já vinham prenhes e por isso foram mais caras.
 
Além da impecável limpeza do terreno e da compostagem das cascas de frutas e legumes da casa, já nos deram quatro belos borregos, três machos e uma fêmea. Apareceram quase de repente. Uma pariu dois machos num sábado de fevereiro e a outra pariu um casal no dia seguinte. Os partos foram fáceis e os borregos começaram logo a andar e a mamar. O terreno, que era mais que suficiente para duas bocas ruminantes, rapidamente ficou pequeno para seis que, poucas semanas depois já comiam erva.
 
Cresceram juntamente com as galinhas e sempre coexistiram pacificamente dando até por vezes mostra de algum companheirismo.
 
A borrega fêmea foi vítima de um dramático acidente. Um dia após o nosso jantar começamos a ouvir um grande alvoroço e quando lá cheguei já ela estava deitada no chão. Estava com espasmos que rapidamente acabaram, anunciando o pior. Após ter sido observada, já cadáver, por um entendido, reparámos que tinha engolido uma casca de banana e que esta lhe bloqueou a traqueia.
 
Durante vários dias, humanos e ovinos, todos andámos tristes.
 
Dos restantes três borregos, um foi para consumo da casa já no início do verão. Os outros dois foram trocados por um macho adulto, que por acaso é o pai deles. Com estas trocas quis evitar a consanguinidade que acabaria por acontecer caso crescessem junto das respectivas mães. Além disso, com três machos juntos a caminho da adolescência já dava para antever uma acesa luta por território e por fêmeas.
 
Se a jovem fêmea tivesse sobrevivido provavelmente teria sido ela a escolhida a dar continuidade à próxima geração e, nesse caso, as duas mais velhas já nos teriam feito companhia num almoço familiar de domingo. Sim, porque cozinhar carne criada em casa é sempre motivo para reunir aquelas pessoas que nos são queridas e é sempre um evento especial. Foi isso que fizemos com o borrego.
 
Um destes dias vou falar-vos sobre as galinhas.


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