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O único ponto de vista

por Maria Dulce Fernandes, em 22.05.20

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Por volta dos meus 35 anos, tinha o cabelo mais branco do que a minha mãe e era senhora para “uns quarenta e tal", de acordo com a opinião geral das pessoas que comigo privavam, mesmo que fosse por alguns minutos. Tenho ideia de uma reportagem da BBC que produziu os respectivos agradecimentos, e em que elogiavam a Dulce como “a smashing old girl". Tinha 40 anos. Nesse mesmo ano, a minha filha entrou para a Faculdade de Letras e pediu-me um presente para comemorar o acontecimento. Pediu-me que pintasse o cabelo. Gostei de pintar com madeixas. Ficou bem. Deixou-me mais leve, talvez com menos 5 anos em cada perna, mas também apreensiva por ter sido influenciada por opiniões alheias, porque nunca fez muito o meu género. De um momento passei de parecer dez anos mais velha a parecer 10 anos mais nova. Isto requeria muita atenção, não me fosse tornar na segunda D. Maria Alpalhão, que parou nos 50 anos, de tal modo que o próprio filho chegou ao ponto de lhe ganhar por quase seis anos em idade.
Durante 16 anos fui escrava da tinta. É que não tinha volta a dar à maldita raiz! Ou pintava, ou ficava com uma bandolete branca que ao longe dava a ideia de uma cabeça partida e enfaixada. Era feio, dava a ideia de desmazelo, de relaxo, de enxovalho. Um dia o cabeleireiro ia tendo um chilique quando lhe disse que cortasse até a tinta sair toda. Tinha três dedos de cabelo branco. Esteve meia hora a convencer-me que para ficar com corte ficava à pente 4, o que seguramente iria odiar depois. Talvez tivesse razão, mas ficou a promessa de que o faria quando nascesse a minha neta. Foi doloroso de ver, mas pronto. Acabou-se a tinta. Cabelo curto, bob, sei lá, mas sem outra cor que não a própria.
Sempre fui uma pessoa aberta a ideias, ideais, opiniões, debato mas aceito os pontos de vista dos outros, porque Deus nos livre da mentalidade de carneirada. Mas no que toca a colorações capilares, era finca-pé aquela conversa troca-tintas e manter o único ponto de vista válido, assertivo e exacto, o meu.
Ao fim ao cabo, com tinta ou sem tinta, a idade acaba sempre por nos apanhar.

O Estado vs a Vida, segundo Torga

por Paulo Sousa, em 11.04.20

Lembrei-me de um dos Novos Contos da Montanha de Miguel Torga, que fui reler.

Fala da vida em Fronteira, uma terra que apenas dava à sua gente a água da fonte. Tudo o resto vinha de Fuentes, em Espanha.

Ali a vida era vivida de noite a tentar escapar aos guardas, que, de espingarda em riste, guardavam o ribeiro como podiam. Os contrabandistas, por seu lado, com carga às costas, passavam o ribeiro como conseguiam.

“E se por acaso se juntam na venda do Inácio uns e outros – guardas e contrabandistas –, fala-se honradamente de melhor maneira de ganhar o pão: se por conta do Estado a vigiar o ribeiro, se por conta da Vida a passar o ribeiro.”

O conto não é extenso, fala dos aldeões, dos guardas do Estado, de disparos a matar e também de amor.

Mas foi esta dualidade que me prendeu a atenção. Trabalhar por conta do Estado, neste caso a matar, ou por conta da Vida, a tentar escapar.

Esta pequena história é uma metáfora da relação entre o Estado, que quer controlar a população, e os aldeões, que apenas desejam sobreviver.

O guarda Robalo, atraído para tais funções pela garantia de ordenado certo e a reforma por inteiro, sem disso dar conta vive dentro de uma bolha. E isso aumenta-lhe o empenho. Afirma que dispararia até contra a sua própria mãe, que fosse.

Com o correr da acção a bolha onde vive irá rebentar, mas esta visão maniqueísta de que servir o Estado é atacar os prevaricadores faz por ignorar que do outro lado desenrola-se a Vida, e Vida, escrita por Torga, com V maiúsculo.

Do alto da sua ofuscada visão do mundo, o guarda Robalo, ignora que existe Vida para além do que a sua curta vivência lhe permite enxergar. E essa curta vivência e visão serve ao Estado que o alimenta e veste. Sem disso dar conta, ele é apenas um instrumento, bem instruído, que tem a Vida por adversária. No fim de contas, o Robalo é apenas um intermediário entre os seus donos que lhe tolheram a vontade e a sua bala que em brasa é disparada contra a Vida.

Este confronto é uma parábola cheia de metáforas escrita por um rebelde que viveu, e escreveu, incomodado com a capacidade dos que conseguem reduzir a realidade a um binómio de bons e maus, e de caminho asseguram o conforto próprio. Se sempre existiram desigualdades, para quê mudar isso, especialmente se se está do lado vantajoso?

Ignoram que a Vida já existia antes do Estado e que este lhe é apenas um acrescento, e não o contrário.

No regime actualmente em vigor em Portugal, a liberdade está refém do Estado. A liberdade de Abril não é a efectiva liberdade dos cidadãos, mas apenas a liberdade que o Estado entende dar aos cidadãos. O Estado, e os que por ele falam, decide a amplitude das escolhas possíveis. Os que por ele falam sabem que há opções, que mesmo que funcionem noutras paragens, cá seria uma irresponsabilidade escolhê-las, especialmente porque isso colocaria os cidadãos fora da sua esfera.

Várias décadas depois dos contos de Torga, as fardas e as balas são diferentes, mas o confronto ente o Estado e a Vida mantêm-se e nunca terminará. Cabe a cada um de nós escolher o lado onde se deve viver a Vida.

Da vida animal e da vida humana

por Pedro Correia, em 14.02.20

 

Medida 673 do programa eleitoral do PAN:

«Rever os critérios legalmente estabelecidos para o abate de animais de companhia por parte dos CRO [centros de recolha oficial], clarificando os casos em que é possível a occisão dos animais, nomeadamente, afastando essa possibilidade por motivos de doença infecto-contagiosa que seja tratável, assim como por motivos comportamentais reversíveis, permitindo que, nesses casos, seja possível a recuperação do animal e o seu encaminhamento para adopção ao invés do abate.»

 

Medida 702 do programa eleitoral do PAN:

«Proibir o abate [de pombos] como método de controlo da sobrepopulação.»

 

Medida 871 do programa eleitoral do PAN:

«Despenalizar a morte medicamente assistida, por decisão consciente e reiterada da pessoa, com lesão definitiva ou doença incurável e irreversível e que se encontra em sofrimento duradouro e insuportável.»

Limões

por Maria Dulce Fernandes, em 27.11.19

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Tenho esta cabeça há uma data de tempo e tem-me servido bem.

Fora da garantia e à beira de passar do prazo, tem-me mantido tranquila e ponderada quanto baste para percorrer paulatinamente esta estrada cinzenta de adobos que me levará à terra mágica de Oz(io), onde os passadiços são amenos e cativantes, convidando ao passo leve e fresco como se a infância nos sorrisse em cada raio de sol.
E é isto que está formatado neste disco rígido que me inicia diariamente desde que nasci. É por isso que se impõe sair asinha desta cabeça atrofiada por ideias projectadas em pensamentos socioculturais adquiridos por osmose e empiricamente apenas porque sim.
Se a vida em determinado momento me der limões em vez de prados verdejantes prenhes de leite e mel, faço o quê? Resumo-me ao desespero que esta distopia criou e enterro a cabeça no chão, debulhada em lágrimas de tristeza e em fervorosas preces de esperança, ansiando que cada dia seja o dia, desligada de toda e qualquer realidade e imbuída de um burlesco sofrimento por antecipação.
E que tal aceitar os limões e dizer para comigo “olha, limões!”? Até são bons, têm vitamina C, ajudam a digestão, melhoram o humor e reduzem a ansiedade, ajudam a manter o peso (hum...), fortalecem o sistema imunológico, sei lá, um sem-número de benefícios que provam que o limão está subvalorizado e tem muitos prós naquele báratro de contras que nos cega à primeira impressão.
Transformar fel em ambrósia é possível. Sair da cabeça para ir pensar lá fora e voltar  mais arejado, é meio caminho andado. Pode demorar o seu tempo. Algum. Muito. Mas fazer parte dos Desditosos Anónimos ou dos Profissionais da Queixa só pode ser opção quando o fundo carece verdadeiramente de profundidade.

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Há vida para além das notícias

por Pedro Correia, em 29.10.19

Todos os dias, ao ligar o computador, recebo um "agregador de notícias" que pretende resumir-me o que de mais importante aconteceu nas horas precedentes à escala global.

Vale o que vale como fonte noticiosa: nada. Mas justifica atenção enquanto reflexo do ar do tempo. Como sintoma da espuma de irrelevância que invade o nosso quotidiano.

Esta manhã, foi este o flash noticioso que me chegou: «As saias do assessor de Joacine continuam a dar que falar, a fotografia do cão que Trump publicou e outras notícias.»

Só o anedótico, o irrisório e o descartável parecem importar na ditadura do algoritmo que condiciona os critérios editoriais. E, no entanto, a vida real continua a pulsar, indiferente aos mecanismos mediáticos que a ignoram.

As casas e a vida

por Pedro Correia, em 03.06.19

  

 

«As casas que habitámos ainda nos habitam.»

 José Mário Silva, Luz Indecisa

 

Passo junto à porta da primeira casa onde vivi – um terceiro andar na principal avenida de Almada. Parece-me que nada mudou no prédio onde morei nos primeiros três anos de vida. De lá me vêm as mais remotas recordações que guardo de uma infância feliz. Tenho inúmeras fotos – todas a preto e branco – lá tiradas pelos meus pais.
Ponho-me a pensar em todas as casas onde vivi até hoje em diversas paragens. Santo Tirso, Viana do Castelo, Barreiro, Cova da Piedade, Díli, Fundão, Hereford, Tercena, Corroios, Charneca da Caparica, Macau, Lisboa.
Vinte e duas casas. Uma vez por outra, quando calho, passo por uma delas e miro-a com atenção. Como se procurasse reviver um pedaço de mim que por lá ficou.
Há quem more toda uma vida no mesmo sítio, entre as mesmas quatro paredes. Eu já tive o destino repartido por muitas terras, por muitos tectos – incluindo em casas de familiares e amigos – em Londres, Tóquio e Nova Iorque, no Alentejo e nos Açores.
Fixo o olhar no primeiro prédio onde morei, na Avenida D. Nuno Álvares Pereira, parece que foi ontem. E não cesso de me espantar: ia jurar que está exactamente como quando o deixei.
As pessoas deviam envelhecer ao mesmo ritmo que as casas, com um vagar de muitas décadas, desafiando de pé as inclemências do clima e a traiçoeira erosão do tempo.
 
Texto reeditado

Uma ténue linha

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.12.18

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Estava tudo preparado. Era inadiável e teria de ser nesta altura ainda que tal ocorresse num momento em que estaria desacompanhado.

Ciente do relativo baixo grau de dificuldade da intervenção, confiando nas mãos de quem  há muito conquistara pelo seu mérito a “outorga do direito de mexer no corpo e na alma dos outros”, como há dias dizia numa belíssima entrevista o Prof. José Fragata, encarei o que me estava destinado sem qualquer apreensão.

Quando já depois de preparado para o ritual me vieram medir a pressão arterial e a frequência cardíaca, esta última espantando a simpática enfermeira, desconhecedora da minha condição física e do treino a que disciplinadamente me entrego, quando vislumbrou os 49 que a maquineta registava, estava convicto de que iria correr bem e certo de que dentro em pouco estaria tudo terminado. Pura rotina, portanto.

No bloco operatório, ainda antes de partir durante algumas horas para outras paragens, tive oportunidade de registar a boa disposição dos que me rodeavam e com eles trocar algumas palavras para logo me perder na distância das luzes do tecto.

Tudo terminado, rodeado pela eficiência e profissionalismo com que as coisas haviam começado, voltei a mim, sentindo desde logo o desconfortável despertar da anestesia e a impossibilidade de respirar normalmente, pressentindo aquela desagradável sensação de aperto na bexiga que eu sabia que me iria incomodar ainda durante algumas horas.

Obtida a alta e iniciado um curto período de descanso e recuperação até à primeira consulta, confirmava-se o sucesso da cirurgia e um lento regresso à normalidade, pese embora sentisse ainda a garganta muito dorida.

Recebidas as recomendações para os dias seguintes, até que me voltasse a apresentar numa segunda consulta, regressei a casa e procurei seguir à risca o que me fora dito.

Nessa noite não consegui evitar dois espirros, a que se seguiu um terceiro na manhã seguinte quando fazia as necessárias abluções à zona que fora mexida.

De repente, no meio desse ritual, sinto algo desprender-se do meu nariz. Vindo do seu interior, no que de início pensei ser alguma crosta, coágulo ou qualquer secreção que se libertava no pós-operatório, saiu uma pequena placa com a forma de uma vela, aí com uns seis centímetros por dois na sua parte mais larga.

Confesso que nesse momento fiquei em pânico perante a perspectiva de com os espirros e as lavagens ter dado cabo do trabalho que dias antes tão minuciosamente havia sido feito.

Sozinho, sem saber o que fazer, visto que também era impossível recolocar a placa onde estava, tentei contactar com o meu médico. Nada feito, tinha-se ausentado. Enviei um e-mail . Na volta só recebi silêncio.

Resolvi então pegar no telefone e falei com alguém no hospital onde estivera. Queria contactar o homem que me operara. Passados alguns minutos fui esclarecido de que essa tentativa se revelara igualmente infrutífera. Estava incontactável. A solução seria eu deslocar-me até às urgências do hospital onde estivera internado para que um otorrino pudesse avaliar a situação e aconselhar-me o que necessário fosse.

A proposta era inviável. Eu estava a mais de trezentos quilómetros e não iria fazer de novo esse percurso de regresso ao local de onde saíra dias antes no estado ainda dorido e debilitado em que me encontrava.

Entretanto, falei com a outra metade de mim, que sabendo das minhas preocupações e do, muitas vezes, excesso de previdência com que rejo a minha vida para evitar correr riscos desnecessários, me aconselhou a que não fosse piegas. “Se não te dói nada, se te sentes bem, para que vais tu outra vez para o hospital incomodar as pessoas? Vais à consulta de dia 27 e vais ver que não é nada”, ouvi do outro lado da linha.

Passados alguns minutos recebo uma chamada telefónica. Era do hospital. Aconselhavam-me a ir à urgência mais próxima de minha casa. Agradeci a sugestão, fiquei a matutar.

Vesti-me devagar, desprezando, por cautela e receio do que mais pudesse suceder, movimentos bruscos. Embrulhei a placa num lenço de papel, procurei as chaves do carro e meti-me ao caminho. Pouco convencido, mais por descargo de consciência do que por convicção ou impulso de necessidade.

De facto, nada me doía. E também não me sentia pior do que antes daquele momento em que a placa fora expelida pelo meu organismo. Aparentemente estava tudo bem. Mas eu precisava de alguém que me tranquilizasse, que me garantisse que não teria, inadvertidamente, feito asneira. Sofria só de pensar na perspectiva de ter acabado de estragar um trabalho bem feito. E caro.

Uma médica jovem e interessada recebeu-me prontamente nas urgências. Consciente do melindre da situação logo após o meu relato inicial, disse-me que iria chamar um especialista. Este não estava ali de momento mas havia sempre um preparado para acudir a alguma situação mais grave. Que aguardasse um pouco e já me diria alguma coisa. Momentos volvidos teve o cuidado de vir ter comigo e de me dizer que já tinha falado com quem me iria ver, alguém cujo nome eu sabia ser de um dos melhores, e que bastaria aguardar mais alguns minutos para estar a ser observado.

Enquanto esperava fui pensando em mil e uma coisas. No aborrecido que era estar a incomodar alguém numa altura em que todos, reunidos em família e ansiosos com a hora de abrir os embrulhos, estão mais preocupados com o bacalhau e o peru do que com a sorte dos outros, tanto mais que corria o sério risco daquele episódio ser perfeitamente normal e de estar ali prestes a fazer figura de medroso, servindo como motivo para todos se rirem e gozarem com a minha excessiva preocupação perante situações que à generalidade das pessoas só exigem calma, paciência e pensamentos positivos.

É aquele senhor, esclarecia a médica que antes me recebera enquanto acompanhava o sujeito que acabava de chegar e que eu reconhecera ser, pelas fotografias que vira, o Prof. X. Devia ter menos de sessenta anos. Provavelmente da minha idade, mais coisa menos coisa, embora parecesse mais envelhecido e com os brancos que eu não tenho.

— Então o que é se passa?, perguntou enquanto me cumprimentava. Foi o Y que o operou?

Relatei-lhe a minha inesperada aventura, mostrei-lhe a placa que logo me assegurou ser de silicone. Sem me deixar terminar perguntou-me pela garganta. Não lhe dói nada? Não, está só dorida. Então e a outra? A outra, balbuciei. Não sei de nada, não saiu mais nada. Sente-se aí, ordenou-me, temos de ver onde ela está.

Com o poderoso foco à frente dos meus olhos, enquanto o Prof. X ia mexendo nos instrumentos, percebi que havia ali alguma preocupação. Baixei as pálpebras, passaram mais uns longos segundos; por fim ouvi um “já localizei”. Menos mal. “Vamos ver se consigo lá chegar, mas para isso preciso de um mais comprido, para ir buscá-la”.

Quando me apercebi de que “a outra” também tinha saído fiquei mais aliviado. Respirei fundo. Já está safo, disse o Prof. X. Depois, na quinta-feira, quando for à consulta diga ao Y o que aconteceu. Os pontos cederam. Deve ter feito muita força. Já pode deitar isso fora. Fez bem em ter cá vindo porque logo à noite, quando se deitasse, sufocava. Não lhe doía, não o incomodava, não deu por nada...

Naquele momento percebi a sorte que no meio de tudo me acompanhara. Uma ténue linha separou o sucesso da tragédia. Uma linha invisível, incontrolável, que podia ter transformado uma intervenção bem sucedida numa inacreditável sucessão de azares com todos os ingredientes para terminar da pior forma nas primeiras horas de um Dia de Natal.

Paguei a minha visita e saí. Circulei então pela cidade, até acabar por estacionar junto a um centro comercial. Deambulei por ali olhando para os outros, vendo-os passar apressados com os sacos coloridos das últimas compras de Natal. E pensei na injustiça que seria se tudo tivesse terminado de outra forma. Para quem me operou, para quem contribuiu para que tudo corresse bem e tivesse um final feliz. Como nos filmes habituais da quadra.

Aos poucos revi mentalmente o filme dos acontecimentos. Libertei-me daqueles momentos de incerteza e da forma tão pouco convicta como me fizera à estrada.

Terminados estes dias, cinco anos passados sobre a última vez que estivera em casa pelo Natal, senti que havia sido brindado por uma espécie de taluda invisível. De cujo verdadeiro valor praticamente ninguém se apercebeu. A não ser o Prof. X naquele instante em que segurou a ponta e a puxou. Hoje o meu rosto será igual ao de ontem, conterá os mesmos sulcos e as dúvidas e incertezas de sempre. Condescendo que um dia assumirão outras formas para eventualmente se repetirem noutras circunstâncias. Quem sabe se noutros lugares. Talvez até com outros como eu. Tudo isso é possível.

De uma coisa, porém, fiquei mais seguro. Morrer só se morre uma vez. Nascer pode acontecer repetidas vezes numa única e simples vida. Basta uma ténue linha. Não é preciso sequer vê-la. Há quem lhe chame sorte. O nome é irrelevante. A diferença é que desta vez vi-a. Senti-a. Sem dor, sem aviso prévio. E houve alguém que comigo a viu, e me disse, para que eu pudesse aqui contá-lo. O que não me fazendo mais feliz do que era antes ainda assim pode ser descrito. Como se fora um conto e nunca tivesse acontecido.

A vida é uma ténue linha. Irrepetível. Por isso é tão importante aprender a vivê-la. E reaprendê-lo tantas vezes quantas as necessárias para que continue a fazer sentido percorrê-la. Com sentido. Com a consciência de que ela existe. E de seguir a linha, essa ténue linha, diariamente. Sabendo por onde se vai, por vezes sem apercebê-lo, ao sabor dela.

Seguindo-a, seguindo-a, seguindo-a, silenciosamente, sem pressas, até que desapareça na linha do horizonte. Quando a noite cair. E os nossos olhos se voltarem a fechar. Numa ténue linha.

Um Bom Ano para todos vós.

É isto mesmo

por Pedro Correia, em 29.10.18

«Só não sabe fazer a diferença quem olha à volta e não vê homens e mulheres, mas só etiquetas.»

Ferreira Fernandes, no DN de hoje

O acessório e o essencial

por Pedro Correia, em 20.10.18

Esquecemo-nos com demasiada frequência de que os políticos são gente comum, com qualidades e defeitos como qualquer de nós. E por vezes com dramas íntimos que merecem o nosso respeito e o nosso apoio. Reflicto nisto a propósito de Bernardino Soares, ex-líder parlamenter do PCP e actual presidente da Câmara de Loures: ele e a mulher, Marta, têm um filho que nasceu há três anos com grave insuficiência respiratória devido ao parto prematuro. Acederam agora a partilhar a história do pequeno Francisco com os espectadores da SIC, numa reportagem que merece aplauso. E que nos faz reflectir sobre a urgência da aprovação do Estatuto de Cuidador Informal neste país que tanto se ocupa com o acessório enquanto vai esquecendo o essencial.

Celebração da vida

por Pedro Correia, em 24.05.18

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   Imagens do facebook da editora Manuscrito

 

Gostei muito de passar pela Central Tejo ao fim da tarde de segunda-feira e ver a ampla sala cheia de amigos e admiradores do Pedro Rolo Duarte na sessão de apresentação do seu livro póstumo - e "o melhor", como bem salientou Miguel Esteves Cardoso. Um livro que teve como cuidadoso zelador o António Maria, filho do Pedro.

«Este é um livro da celebração da vida, da amizade. É o livro do Pedro vivo, não é o livro do Pedro morto», disse o MEC. E disse muito bem.

 

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Foi uma bonita homenagem a um jornalista que bem conheci e que o destino roubou depressa de mais ao nosso convívio. Lá estavam políticos e artistas e profissionais da comunicação - gente que se foi cruzando com ele ao longo de 35 anos de vida em redacções e estúdios - o Pedro, filho de jornalistas, começou muito cedo nestas lides, que já transportava nos genes.

Gostei de muito de ouvir o que disseram o Miguel, o João Gobern, a  Sónia Morais Santos e o próprio António neste lançamento de Não Respire. O Pedro, seguramente, também teria gostado deste convívio que congregou pessoas tão diferentes e variadas - muitas das quais só se reuniriam no mesmo espaço numa ocasião irrepetível, como esta foi.

 

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Comecei entretanto a ler Não Respire. E recomendo. Daqui envio um caloroso abraço ao António Maria e à Sofia Monteiro, editora da obra, que tem chancela da Manuscrito.

«Podia ser um livro de adeus. Mas não: é um livro de até já.»

Palavras do António que o pai certamente gostaria de escutar. Entre um sorriso pronto a rasgar-se e uma lágrima teimosa a escorrer-lhe no rosto.

Pintores sem prazo de validade

por Pedro Correia, em 24.05.18

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 Maria da Fonte, quadro de Júlio Pomar (1957)

 

 

«Leva muito tempo tornarmo-nos jovens.»

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Georgia O'Keeffe (que morreu aos 98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Ticiano (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Querubim Lapa (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Robert Indiana (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Júlio Reis Pereira (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).
Ou, entre os vivos, Cruzeiro Seixas (97 anos), Albert Bertelsen (96 anos), Leon Kossoff (91 anos), Manuel Cargaleiro (91 anos), João Abel Manta (89 anos), Arnulf Rainer (88 anos), Jasper Johns (88 anos), Nikias Skapinakis (87 anos) e Frank Auerbach (87 anos).

 

Lembrei-me disto há dois dias, ao saber que o grande Júlio Pomar se despediu de nós, com 92 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

Olá, dia 2!

por Teresa Ribeiro, em 02.01.18

Gosto dos dias despretensiosos, sem agenda. Daqueles que se deixam liderar com a doçura dos humildes.

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Eu gosto e preciso de rir

por Helena Sacadura Cabral, em 11.12.17

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Tive, quando era muito nova, em Audrey Hepburn - essa actriz invulgar -, um dos meus raros ídolos femininos. Hoje, folheando umas coisas que escrevi, encontrei esta frase dela. Precisamos tanto de rir, sem que disso nos demos conta. 
Audrey não teve uma vida muito feliz. Mas soube, sempre, mesmo nos momentos mais difíceis, sorrir. Que sábia ela era e que bem me soube recordar e partilhar esta sua afirmação!

Dos anos terríveis

por Rui Rocha, em 01.12.17

Vamos lá ver, pazinhos. Em 2016 disseram que estava a ser um ano terrível porque morreram o Prince e o Bowie. Agora dizem que 2017 está a ser um ano terrível porque morreu o Zé Pedro. Na verdade, não é bem isso. À medida que o tempo passa, é natural que desapareçam os ícones. Os anos não são nem mais nem menos terríveis. Estamos é a ficar velhos.

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Porque será?!

por Helena Sacadura Cabral, em 24.10.17
Apetecia-me dizer que "estou a ficar velha". Mas seria profundamente ridícula, porque se há alguma coisa que sou, é velha. E, confesso, cada vez gosto mais de o ser...
É que os azares e as desventuras são tantas que, às vezes, tenho dificuldade em acompanhar o dia a dia, embora me considere uma pessoa interessada pelo mundo que me cerca. 
Não, não me estou a referir a Portugal em particular. Estou a referir também a Espanha, o Reino Unido - que de unido vai tendo cada vez menos-, a Alemanha, a Timor, enfim a esta sociedade actual, que parece regredir quando, surpreendentemente, a evolução tecnológica deveria fazê-la progredir.
Porque será que quanto mais evoluímos, menos humanidade revelamos?!

 

Porque não há-de ser assim?

por Helena Sacadura Cabral, em 29.08.17

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Às vezes gosto de me expressar através das palavras dos outros. Acontece quando, pela sua simplicidade, vão directas ao meu coração e não à minha razão, embora esta as não descure.
As questões levantadas pelo quadro que reproduzo acima sintetizam tanto e tão bem o que penso sobre aquilo que vivemos que decidi partilhá-las convosco. 
É uma pagela que tenho à minha frente, na mesa onde trabalho. De vez em quando sabe-me bem olhar para ela! 

welcome to my life

por Patrícia Reis, em 21.07.17

Cheguei de Itália - a belíssima - há uma semana. Já não me lembro de ter ficado de papo para o ar sem fazer nada, mirando vagamente as vinhas da Toscana ou espreitando a gente pelas praias de Roma. Sim, tenho problemas graves de memória, está visto. Acontece que desde que cheguei aconteceu tudo, ou quase tudo, do autoclismo que avariou, ao carro que não tinha gasolina nem óleo (pânico!), a textos que eram para ser mas depois não foram, a sessões de terapia individual, de grupo, no espelho e apenas para mim mesma, idas à província, vários livros à espera, sessões de fotografia, objectos estranhos e alguém à minha frente a dizer: gosto de comer. Há ainda toda a cena bizarra da inscrição do meu filho mais novo na faculdade (inscreveu-se, por esta ordem, em filosofia, ciências da comunicação e sociologia, todos os cursos na universidade Nova), ou dos cães que precisavam de ser vacinados, mas afinal não. O meu filho mais velho acredita que eu não percebi a mensagem (não perguntem, é demasiado), e a minha mãe diz que há pessoas que morrem com menos stress. Hoje é sexta-feira. Dizem-me que há vitaminas fixes, mas não fui à farmácia, fui à dentista que é um fado só meu e permanente. Ah, Itália? Foi maravilhoso.

Cerca de 9 anos e 2753 post´s

por Helena Sacadura Cabral, em 09.07.17
Hoje deu-me para ver "às quantas" ando. Ou melhor, "às quantas andei" neste último quarto de século. Não foi pouco o trabalho desenvolvido, sobretudo quando se olha para grande parte das mulheres da minha geração...

De facto, no Fio de Prumo, em oito anos e meio - 3102 dias -, publiquei 2753 post´s, o significa quer terei escrito quase todos os dias. No último quarto de século, os livros publicados foram 27. Radio e televisão já nem consigo contar, porque foram vários anos. No ensino universitário terão sido perto de uns milhares de aulas a tentar partilhar o que sabia.

E, se a isto juntar mais os 25 anos anteriores, em que apenas fui economista, confesso, creio ter dado à sociedade uma boa parte daquilo que dela recebi.

Além disso fui, cumulativamente, mulher e mãe, ao longo dos últimos sessenta anos. Como fui filha e sou avó, tentando dar o melhor de mim.

Se pensar nas oito décadas que levo de vida, talvez seja chegada a altura de começar a arrumar os equipamentos tecnológicos e passar a uma nova etapa, em que possa aproveitar melhor as companhias que me foram proporcionadas. Começou, acredito, o tempo de "savoir se retirer", como diria Aznavour. Ou seja, é chegada a hora de pensar em sair! Sem tristeza e com a plena sensação de um certo dever cumprido.

Hei-de perguntar à Lisete, amanhã...

por Helena Sacadura Cabral, em 10.05.17

A rotina era sempre a mesma. Saía de casa mal amanhado e ia para o jardim do Principe Real. Agora nem isso, aquilo estava transformado num pandemónio, nem o seu banco lhe deixaram, tão atafulhado aquilo estava. Nem sei porque é que para aqui venho pensava enquanto apertava a banda do casaco, que a manhã estava fria. Era a Lisete que o levava ali. A Lisete quando era viva, pois fora naquele banco de jardim que a conhecera. Ela tinha-lhe sorrido e foi esse sorriso que os havia de juntar. Tanto amor. E o José era a prova, não se lembrava de quando é que o vira, mas sabia que ele estava bem, porque senão alguém havia de lhe dizer que ele estava mal. 

A tosse, esta maldita tosse, que viera com o fim do tabaco, mas ao preço a que ele estava, como não deixar de fumar? Fora isso que o médico do Centro de Saude lhe tinha dito, que não havia dinheiro para vícios. 

Lá estava o banco cheio de embrulhos, paciência, ia-se sentar no da frente. A Lisete havia de gostar de saber que ele continuava a ir ao jardim dela. Mas este banco apanhava sol e ele queria mesmo era sombra. Sombra? Sombra que bastasse tinha ele lá no quartito onde vivia. Apesar disso, não se mexeu. 

Para quê mexer se daqui a bocado o sol vira sombra, era o que lhe diria a Lisete que já explicara isso ao filho. Será que o Zé também terá explicado o mesmo ao filho dele? Como é que o miúdo se chamava? Parece que era Bernardo, mas que nome mais esquisito. Mas ele não conhecia o garoto, por isso não tinha que o chamar. Se a Lisete fosse viva havia de saber chamá-lo, mas talvez esteja enganado. Hei-de perguntar à Lisete, amanhã...

Todas as horas de um homem

por Pedro Correia, em 14.04.17

«Morrer por uma religião é mais simples do que vivê-la com plenitude; lutar em Éfeso contra as feras é menos duro (milhares de mártires obscuros o fizeram) que ser Paulo, servo de Jesus Cristo; um acto é menos que todas as horas de um homem.»

Jorge Luis Borges, O Aleph


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