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Delito de Opinião

No Rio também há dias sem sol

Ana CB, 16.10.25

Quatro da tarde, e parecia hora de ponta na entrada do Parque Bondinho, ao pé da Praia Vermelha. É verdade que era domingo, e para os brasileiros o bilhete é mais barato do que para os estrangeiros (que eram nitidamente poucos). Só que… o sol ia desaparecer por volta das cinco e meia, e na minha cabeça rodava uma interrogação: o que é que tanta gente vai fazer ao Pão de Açúcar a esta hora? Resposta óbvia: o mesmo que tu – ou seja, ver o pôr-do-sol num dos lugares mais icónicos do Brasil e do mundo. Mas seria “só” isso?

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Não, não era.

Para mim, o Pão de Açúcar foi sempre o conjunto dos dois monólitos, um mais alto do que o outro, eternizados nas milhentas imagens do Rio difundidas por todo o lado. Só que não é. O Pão de Açúcar é o mais alto dos dois. O mais baixo é o Morro da Urca. E se para chegar ao cimo deste morro existe um trilho pedestre – muito íngreme, é certo, mas devidamente marcado e mantido – para subir ao Pão de Açúcar só em modo escalada na rocha. Portanto, a solução é mesmo usar os dois teleféricos que ligam a cidade aos miradouros instalados no topo dos morros.

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Turismo e rentabilidade oblige, o conceito de miradouro neste caso está bastante expandido. Três minutos de ascensão no teleférico deixaram-nos 220 metros acima do nível do mar, num espaço alargado ao ar livre em que o ambiente era de festa. A animação maior era ditada por um DJ aos comandos do equipamento que debitava música de dança, rodeado de um mar balançante de gente, bebida na mão ou telemóvel no ar para gravar o momento. O Morro da Urca é lugar de entretenimento. Há restaurantes, barzinhos de espécies várias e lojas de marca. Há o Museu do Teleférico e uma Árvore dos Desejos, espelhos deformadores no Beco das Ilusões, e malabaristas que distraem os visitantes durante os longos minutos de espera nas filas para subir ou descer nos bondinhos. Há até um heliporto, de onde saem helicópteros que levam quem pode em voo panorâmico sobre o Rio de Janeiro.

E há – claro! – vistas sem fim sobre a beleza, feita de mar e serra, da Baía de Guanabara e o seu entorno. Por trás da praia de Botafogo, com a água pintada de um laranja pálido, já descia um sol envergonhado, a sua luz filtrada pelas nuvens acasteladas sobre a Serra da Carioca. No topo do Corcovado, que mais parece um irmão gémeo do Pão de Açúcar, o Cristo Redentor era só uma cruz escura contra o céu cinza claro. A superfície glauca e imóvel da baía estava mosqueada com dezenas de embarcações, quase todas tão imóveis como a água por baixo delas. Ali do alto, os inúmeros arranha-céus que ocupam a maior parte do Rio perdem importância, e a cidade justifica que a adjectivem de maravilhosa.

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Outro trajecto de bondinho, tão curto quanto o primeiro, e chegámos ao Pão de Açúcar. A atmosfera aqui estava mais calma, condizente com o lusco-fusco que se instalava em modo acelerado. O espaço disponível é bem mais reduzido que o do Morro da Urca, mas aquele que a vista alcança, a quase 400 metros de altitude, é muito superior: abrange de Niterói a Copacabana, oferecendo-nos uma paisagem em que a água se impõe a tudo o resto.

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A oferta de restauração e lojas no Pão de Açúcar é menor do que na paragem anterior, e isso também ajuda à tranquilidade do lugar. Em compensação, há um percurso entre o arvoredo, a que chamam Bosque das Artes, aproveitado agora para expor alguns trabalhos do artista plástico Carlos Vergara, um dos mais representativos do movimento da Nova Figuração no Brasil (inspirado na pop art americana dos anos 60). O projecto inclui três esculturas do artista, colocadas em pontos estratégicos, e é complementado com uma sugestão de jornada digital interactiva, em que vamos encontrando informações sobre a Mata Atlântica e a sua biodiversidade.

A escuridão chegou quase de repente, como é habitual nestas latitudes. As descidas foram intercaladas por tempos alargados de espera – a maior parte dos visitantes não fica por ali até ao encerramento do parque, que tem horário variável – pois cada bondinho só transporta um máximo de 65 pessoas por viagem. A demora teve, ainda assim, um lado positivo: a possibilidade de ver o Rio sob outra luz, e ficar a saber que nem a noite lhe diminui a sedução.

 

Lugares com história

O condutor do Uber como que materializou os meus pensamentos em palavras: “Sem sol, nem parece o Rio”. Pelos vistos, estávamos em sintonia. A cidade que eu imaginava e aquela onde ele vive são um Rio onde o sol brilha a maior parte do tempo – só que não desta vez. A excepção certamente confirmará a regra, mas o clima está a mudar. E a verdade é que nos dias em que estive no Rio de Janeiro, o sol nunca se mostrou completamente, substituído por nuvens grossas que de vez em quando decidiam aliviar a sua carga em forma de chuva.

Não seria isso que iria estragar a nossa estadia. Trocam-se as sandálias por ténis, veste-se uma gabardina (fininha, que a temperatura não baixa assim tanto), e vamos lá à descoberta da cidade. O Rio conhece-se ao ar livre. Quando a chuva aparece, aproveita-se para entrar numa loja, num café ou numa igreja. Quando ela vai embora, voltamos à rua e seguimos caminho. Há muito para ver, e não é uma chuvinha que vai arruinar-nos os planos.

O Rio dos nossos dias é uma cidade imensa, espalhada por bairros de carácter muito distinto. Numa primeira visita, por onde começar? Para nós, depois de a vermos do alto, fez sentido começar a descobri-la por alguns dos lugares ligados à sua história. Porque a verdade é que nós, portugueses, só conhecemos a história do Brasil que nos é contada nos bancos da escola, e que quase se resume a dois momentos: a chegada de Pedro Álvares Cabral em 1500, e a independência proclamada por D. Pedro em 1822.

O Rio é de Janeiro porque foi esse o mês em que no ano de 1502, uma frota portuguesa enviada por D. Manuel I e comandada por Gaspar de Lemos entrou na imensa enseada hoje conhecida como Baía de Guanabara. Na altura, a região era habitada por povos indígenas provenientes da Amazónia, conhecidos como tamoios ou tupinambás. Durante algumas décadas, a baía tornou-se palco de encontros e tensões. Franceses e portugueses disputaram o comércio do pau-brasil e a amizade dos autóctones, que conheciam a fundo aquelas águas e manguezais. Em 1555, os franceses, sob o comando de Villegaignon, tentaram fixar-se, erguendo a chamada França Antártica. A resposta portuguesa não tardou: após anos de confrontos, em 1565, Estácio de Sá fundava oficialmente a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, ao pé do Morro Cara de Cão, selando o domínio luso sobre uma das paisagens mais cobiçadas do Atlântico.

Em 1567, a jovem cidade foi transferida para o Morro do Castelo, onde se ergueram igrejas, colégios e fortalezas, tornando-se o verdadeiro berço urbano do Rio de Janeiro até ao século XVIII. Hoje o morro já não existe (foi demolido nas reformas urbanísticas do início do século XX), mas a sua memória corresponde grosso modo ao actual centro da cidade, onde se encontram alguns dos lugares importantes para compreender a evolução do Rio de Janeiro.

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Por estarmos num alojamento ali bem perto, começámos pelo bairro da Saúde, um dos cinco bairros que abrigam o porto da cidade. Num dos seus extremos, bem de frente para a Baía de Guanabara, a Praça Mauá foi desde sempre um palco privilegiado da história carioca. No século XIX, era a porta de entrada do porto, espaço de comércio intenso, marcado pelo vaivém de mercadorias e pelo peso silencioso do tráfico atlântico de escravizados, que ali deixou cicatrizes. Durante muito tempo, porém, a praça foi esquecida, sufocada pelo tráfego pesado e pela sombra de armazéns que a separavam do mar.

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Com o projecto Porto Maravilha, iniciado em 2009, o espaço renasceu. As avenidas foram abertas à luz, os armazéns deram lugar a esplanadas amplas e o mar voltou a estar em contacto com a cidade. Hoje, a Praça Mauá é o coração de um novo eixo cultural: de um lado o Museu de Arte do Rio (MAR), instalado em dois edifícios díspares (o palacete Dom João VI e um antigo terminal rodoviário modernizado) e que guarda e narra a pluralidade da vida urbana; do outro, sobre um cais antigo, o audacioso Museu do Amanhã, cuja arquitectura futurista se projecta como uma nave sobre as águas – e basta um olhar para se intuir que o edifício foi concebido por Santiago Calatrava, pese embora o arquitecto não se tenha socorrido, para esta obra, das suas habituais linhas arredondadas.

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Ao percorrer esta área, não há como ignorar uma das páginas mais duras da História: a do tráfico atlântico de escravizados, que fez do Rio um dos maiores portos negreiros do mundo. Em quase 400 anos de esclavagismo, a cidade recebeu cerca de 20% de todos os africanos escravizados que chegaram vivos às Américas – a maior transferência forçada de população na história da humanidade. Esta herança pode ser sentida em lugares de memória hoje recuperados, como é o caso do Cais do Valongo. Situado na zona portuária da cidade, não muito longe da Praça Mauá, é um dos lugares mais marcantes da história da escravatura no mundo atlântico. Construído em 1811, o Cais do Valongo foi pensado para afastar do centro urbano o desembarque dos africanos escravizados, que até então ocorria em áreas mais visíveis da cidade. Durante décadas, tornou-se a principal porta de entrada de homens, mulheres e crianças trazidos à força de África: calcula-se que mais de um milhão, vindos na sua maioria do Congo e de Angola, tenham pisado aquelas pedras.

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Redescoberto em 2011, aquando das obras de revitalização da zona portuária (o projecto Porto Maravilha, iniciado em 2009), a Prefeitura do Rio acolheu a proposta do Movimento em Defesa do Direito do Negro e devolveu ao Cais do Valongo o lugar que lhe pertence na memória colectiva: um espaço preservado, onde as lajes de pedra e estruturas expostas permitem hoje um contacto directo com um passado que é difícil, mas incontornável. Desde então, o cais integra o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, um percurso que convida a visitar as marcas deixadas pela diáspora africana na região portuária, e que inclui o Jardim Suspenso do Valongo, a Largo do Depósito, a Pedra do Sal, o Centro Cultural José Bonifácio e o Cemitério dos Pretos Novos. Em 2017 foi classificado como Património Mundial da UNESCO.

 

 

Cultura e arte a céu aberto - parte 2

Ana CB, 18.09.25

 

Arte e jardins: uma convivência feliz

 

A arte não se exprime apenas em telas, esculturas ou edifícios. Também os jardins podem ser entendidos como criações artísticas, concebidos com a mesma intenção de provocar emoção, contemplação ou surpresa. Um canteiro desenhado com rigor geométrico, um lago artificial que reflecte a luz de determinada maneira, ou a escolha de espécies que florescem em sequência ao longo das estações: tudo isto revela um gesto criativo tão intencional como o de qualquer pintor ou escultor.

Neste ponto de encontro entre a natureza e a imaginação humana surgem espaços singulares. Uns transformam vastas áreas em museus ao ar livre, onde esculturas convivem com árvores centenárias e caminhos errantes. Outros têm o próprio jardim como obra central, seja pela exuberância das cores, pela harmonia das formas ou pela maneira como nos transportam para universos culturais distintos.

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O que une todos estes lugares é a ideia de que um jardim pode não ser apenas lugar de relaxamento, brincadeira ou passeio, mas também uma experiência estética. A cada passo, há uma narrativa que se desenrola – umas vezes explícita, outras sugerida pelo ritmo das plantas, pela disposição dos espaços ou pela relação com a história do lugar.

Gosto particularmente de jardins que se afirmam como obras vivas em constante transformação. É esta vitalidade, feita da combinação entre concepção artística e natureza em mutação, que torna cada experiência única. Porque aqui não estamos apenas a contemplar arte ou a admirar paisagens, mas a caminhar dentro de criações que respiram e se renovam com a passagem do tempo.

 

Onde arte e natureza se reinventam

Brumadinho, Brasil

Entre todos os lugares que demonstram como a natureza pode ser palco para a criação artística, o Inhotim ocupa uma posição singular. Situado em Brumadinho, no estado brasileiro de Minas Gerais, é considerado o maior museu a céu aberto da América Latina e um dos mais notáveis exemplos de como arte e natureza podem conviver em equilíbrio dinâmico. Ali, não sabemos ao certo se são as obras que embelezam a paisagem ou se é a exuberância tropical que dá vida às obras. O resultado é uma experiência imersiva, uma verdadeira viagem sensorial entre galerias, trilhos, lagos e jardins botânicos.

A origem do espaço está ligada à colecção do (controverso) empresário Bernardo Paz, que começou a reunir obras de arte contemporânea a partir dos anos 80. Em 2004, decidiu criar um instituto que permitisse reunir esse acervo num lugar onde a arte dialogasse directamente com a paisagem. Aberto ao público em 2006, o Inhotim passou a acolher instalações de artistas brasileiros e internacionais em edifícios de arquitectura singular e em áreas abertas que se fundem com o entorno. O nome fora do comum deste instituto terá uma explicação curiosa: parece derivar de uma forma popular de dizer “Senhor Tim” – o local foi em tempos propriedade de um fazendeiro inglês de nome Timothy (na linguagem local, “Senhor Tim” derivou para “Inhô Tim”).

O espaço cresceu até atingir uma escala impressionante: são mais de 140 hectares visitáveis, com dezenas de galerias, esculturas monumentais e um parque botânico que reúne espécies raras de vários cantos do planeta. As plantas não são apenas pano de fundo; fazem parte da proposta curatorial. Uma alameda de palmeiras pode ser tão marcante quanto um pavilhão de arte, e uma colecção de cactos do deserto pode rivalizar com a intensidade de uma instalação.

A diversidade das obras expostas confirma a ambição do projecto. Entre as esculturas ao ar livre destaca-se a Beam Drop Inhotim, de Chris Burden: dezenas de enormes vigas de metal cravadas verticalmente no solo, lançadas de grande altura sobre cimento fresco, num gesto radical que se tornou escultura monumental e memória do impacto da gravidade e do acaso. Outras obras convidam à experiência sensorial ou lúdica. A Viewing Machine, de Olafur Eliasson, é um caleidoscópio gigante que fragmenta e multiplica o jardim à sua volta em padrões geométricos infinitos. Troca-Troca, de Jarbas Lopes, usa carros coloridos desmontáveis que podem ser combinados em novas formas, transformando a lógica utilitária do automóvel em jogo artístico. A dimensão política e histórica também encontra espaço no Inhotim. O Barco, de Grada Kilomba, é uma instalação poderosa composta por estruturas de ferro, com palavras gravadas, que evocam o porão de um navio negreiro. Caminhar entre estas peças é um confronto com a memória da escravatura, com a dor e a resistência de milhões de vidas silenciadas e apagadas.

O Inhotim distingue-se também pelas galerias dedicadas a criadores específicos. A Galeria Adriana Varejão, que integra obras da artista plástica que foi casada com Bernardo Paz, é uma das mais emblemáticas, até mesmo pela sua arquitectura. Já a Galeria Psicoativa, de Tunga, oferece um mergulho no universo enigmático do artista: esculturas e instalações que exploram alquimia, metamorfose e inconsciente, num espaço onde razão e mistério se confundem. Na galeria Cildo Meireles, gostei especialmente do Desvio para o Vermelho, um ambiente monocromático que nos envolve num universo inteiro dominado por aquela cor. O quotidiano – uma mesa, uma sala, objectos banais – transforma-se em cenário inquietante, onde o trivial esconde algo de perturbador. Entre as experiências imersivas, a galeria dedicada a Yayoi Kusama é a minha favorita, com duas obras que nos transportam para um universo de repetições e reflexos infinitos, característicos da artista japonesa. A sensação de estar dentro de um espaço que se multiplica infindavelmente é uma das mais intensas da visita ao Inhotim. E há ainda lugar para homenagens à comunidade local nos murais Abre a Porta e Rodoviária de Brumadinho, de John Ahearn & Rigoberto Torres, criações cheias de realismo e cor.

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A soma destas (e de muitas outras) experiências confirma a singularidade do Inhotim: um lugar onde arte e paisagem são inseparáveis, e onde cada obra ganha novos significados ao ser vivida num espaço aberto, tropical e vivo. Mais do que um museu, é um organismo que desafia a ideia de que a arte só pertence a paredes brancas ou corredores fechados.

Visitar o Inhotim exige tempo e entrega. Dois dias serão o mínimo necessário para os vários percursos expositivos, em trilhos que contornam lagos e jardins temáticos, com galerias e instalações escondidas entre a exuberância vegetal, descobrindo obras que surpreendem a cada volta do caminho. Não sei dizer se me marcou mais o acervo artístico, a riqueza botânica, ou a forma como tudo se conjuga. Talvez o maior mérito do Instituto seja exactamente este: mostrar que arte e natureza não são esferas separadas, mas domínios que, em conjunto, podem reinventar a forma como olhamos o mundo.

 

A arte em diálogo com a natureza

Porto, Portugal

Longe da escala monumental do Inhotim, o ponto forte de Serralves está no equilíbrio entre várias dimensões: a arquitectura, o jardim histórico e a arte contemporânea. É um dos meus sítios preferidos no Porto. Reúne três pólos que se complementam: o Museu de Arte Contemporânea, a Casa de Serralves e o Parque. Nenhum destes espaços se entende isoladamente, pois é na articulação entre eles que reside o impacto do lugar.

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O parque, com mais de 18 hectares, foi concebido entre as décadas de 30 e 40 do século passado sob a orientação do arquitecto francês Jacques Gréber. Inspirado em modelos de jardins clássicos europeus, combina áreas formais – com avenidas, escadarias e lagos geométricos – com zonas mais orgânicas, bosques e clareiras. Caminhar no parque é absorver diferentes linguagens paisagísticas, desde o rigor geométrico ao romantismo naturalista, numa diversidade que nunca soa forçada. A vegetação é cuidadosamente pensada: magnólias, camélias, cedros e espécies raras convivem em cenários que mudam consoante os humores de cada estação do ano.

Mas Serralves não é apenas jardim. É também palco de um dos museus mais activos de Portugal no domínio da arte contemporânea. O edifício, assinado por Álvaro Siza Vieira, é um exemplo de como a arquitectura pode ser discreta e ao mesmo tempo marcante. As linhas sóbrias e a integração na paisagem criam uma continuidade natural: do interior para o exterior, das salas brancas para o verde que se vê pelas janelas, nunca perdemos a noção de que estamos imersos num espaço mais extenso.

É precisamente nesta convivência entre museu e parque que Serralves se distingue. As exposições não se limitam às galerias; transbordam para o ar livre, ocupando clareiras, prados ou estruturas do jardim. Aqui, a arte contemporânea, tantas vezes associada a ambientes urbanos ou industriais, respira de outra maneira. Vários artistas de renome internacional têm em Serralves marcas permanentes, mas as surpresas fazem parte do percurso. Nunca sabemos exactamente o que vamos encontrar, e é esta incerteza que torna cada visita única. No campo da inovação, o projecto “Serralves em luz” está entre as experiências artísticas mais memoráveis que já tive a felicidade de visitar.

Para além da arte e da paisagem, Serralves tem também uma vertente patrimonial e arquitectónica importante. A Casa de Serralves, construída entre 1925 e 1944, é um dos exemplos mais notáveis de Art Déco em Portugal. O edifício, com as suas linhas elegantes, interiores sofisticados e ligação directa ao jardim, acrescenta uma dimensão histórica que enriquece a experiência. Não é apenas cenário: é parte do diálogo que o espaço estabelece entre passado e presente, tradição e contemporaneidade.

Há alguns anos, o parque ganhou uma nova atracção, na linha de outros jardins estrangeiros famosos: a Treetop Walk, um passadiço elevado que permite caminhar entre as copas das árvores. Para além da perspectiva inusitada sobre o parque, esta estrutura simboliza bem a filosofia de Serralves: olhar de outro ângulo, experimentar uma ligação à natureza de forma diferente.

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Há algo em Serralves que sempre me faz pensar sobre a noção de escala. A grandiosidade aqui não está no tamanho absoluto, mas na subtileza com que elementos distintos se entrelaçam. Um jardim que é também museu, um museu que é também parque, uma casa histórica que é também espaço de arte. Nada funciona solitariamente, e é essa teia de relações que dá sentido ao conjunto. Fica na memória o modo como tudo se conjuga num ambiente coerente, em que cultura e paisagem não são mundos de costas voltadas, mas antes partes de um mesmo organismo. Vivo.

 

Arte, Oriente e tropicalidade: um trio equilibrado

Funchal, Portugal

O Monte Palace, situado na encosta sobre o Funchal, é um dos lugares que melhor demostram que um espaço a céu aberto pode ser concebido como obra de arte total. Uma antiga quinta, transformada em hotel de luxo no início do século XX, é hoje uma área de 70 mil metros quadrados onde a vegetação tropical, a arte e a memória histórica vivem em harmonia. A casa principal, pintada em tons pastel que contrastam com as madeiras e os ferros forjados escuros, continua a ser um dos ícones visuais do conjunto. Da sua esplanada-miradouro desfruta-se de uma das vistas mais belas sobre a baía do Funchal, recorte azul entre o verde tropical da montanha.

O percurso pelos jardins é feito de espantos sucessivos. Caminhos em declive revelam clareiras, lagos, painéis de azulejos e esculturas escondidas entre a vegetação. Esta dimensão cenográfica é intencional: tudo parece estar pensado para surpreender. Durante o passeio encontramos obras decorativas de várias origens, esculturas contemporâneas e instalações artísticas que foram sendo acrescentadas ao longo dos anos, tornando os jardins num espaço activo de coexistência da natureza com a cultura.

Entre os elementos que mais marcam a identidade do Monte Palace estão as colecções de azulejos, que relatam episódios históricos de diferentes épocas, desde narrativas religiosas até representações da expansão marítima. O mais impressionante é o conjunto “Aventura dos Portugueses no Japão”, formado por mais de uma centena de azulejos que narram, em sequência, o encontro entre duas culturas distantes. Mais do que simples decoração, estes painéis são uma forma de inscrever a história na paisagem, mostrando que um jardim também pode ser um repositório de memórias.

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Os Jardins Orientais merecem um destaque especial. Com pagodes, portais vermelhos, esculturas de inspiração asiática e lagos que reflectem pontes de madeira, criam uma atmosfera distinta dentro do complexo. A conjugação de bambus, fetos arbóreos e lanternas de pedra com a arquitectura vermelha dos pavilhões compõe uma paisagem que parece transportar-nos para outro continente. É uma das áreas mais fotogénicas do Monte Palace (e a minha preferida) e também das que mais puxam à contemplação: a simetria dos elementos e o contraste das cores têm um efeito quase hipnótico. Já para não falar dos lagos povoados por carpas koi de várias cores, que oferecem entretenimento garantido.

No coração do jardim encontra-se o lago central, alimentado por uma muito “instagramável” cascata em modo cortina de água. Habitado por cisnes nórdicos, alvíssimos, funciona como espelho para a vegetação envolvente e para as esculturas posicionadas estrategicamente à sua volta. Toda a concepção estética do local e o jogo entre reflexo, movimento e som da água transformam esta área num dos pontos mais atractivos da visita.

O museu, edifício colorido engenhosamente integrado no declive do terreno, é um espaço de contraste: no interior, a cor e o brilho de uma notável exposição de minerais de todo o mundo e das obras de arte contemporânea ali expostas; no exterior, o verde omnipresente e a diversidade botânica. Uma opulenta colecção de esculturas africanas deu origem à criação do Jardim de Escultura Contemporânea do Zimbabué, onde convivem com a vegetação tropical que evoca o continente mais próximo da ilha da Madeira. No Monte Palace, a arte prefere não estar encarcerada entre paredes.

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Mais do que um aglomerado de jardins exóticos, mais do que um espaço para mostrar ao público obras de arte coleccionadas, o Monte Palace é um exercício de harmonização e equilíbrio, de comunhão entre a criatividade dos mundos humano e natural, criado para saciar os nossos sentidos. Um objectivo conseguido com sucesso.

 

Um museu como complemento

Marraquexe, Marrocos

Nos anos 30 do século passado, o pintor francês Jacques Majorelle deixou-se seduzir pelo exotismo de Marraquexe e decidiu construir, na periferia da cidade, um refúgio que fosse simultaneamente casa, atelier e jardim. Durante décadas, coleccionou plantas raras, sobretudo espécies tropicais e cactos, criando um espaço que, pela diversidade botânica e pela cenografia pensada em cada recanto, se tornou indissociável não só da casa que rodeia, como da própria obra do artista. No lugar que permanece com o seu nome, o elemento mais marcante é cromático: o célebre “azul Majorelle”, tom profundo e luminoso que o pintor adoptou como marca própria e que passou a revestir muros, fontes e estruturas arquitectónicas do jardim, transformando-o numa tela habitável.

Após a morte do pintor, o espaço entrou num período de abandono até ser resgatado, nos anos 80, por Yves Saint Laurent e Pierre Bergé, que reconheceram o valor único do conjunto. Foi sob o seu patrocínio que o Jardim Majorelle se revitalizou, mantendo a herança do seu criador, mas acrescentando uma nova camada de significado: abriu-se ao público, e tornou-se ícone cultural e museu.

Passear pelo jardim é atravessar um percurso de contrastes calculados. Sob os nossos pés, os caminhos de cor ocre que remetem para a tradição marroquina; à volta, o choque vibrante entre o azul, o amarelo intenso e o branco que marcam portas, vasos e elementos decorativos. Entre estes planos de cor erguem-se mais de trezentas espécies de plantas, vindas de cinco continentes: palmeiras imponentes, bambus ondulantes, buganvílias, lótus, nenúfares. Uma diversidade vegetal não caótica, antes coreografada para criar um equilíbrio subtil entre sombra e luz, densidade e abertura. O jardim desdobra-se numa sucessão de quadros vivos: a vegetação enquadra a cor dos caminhos e das paredes, o reflexo da água intensifica o contraste dos elementos arquitectónicos.

A presença da água é essencial na experiência do lugar. Fontes geométricas, tanques ornamentais e o lago maior, coberto de nenúfares, introduzem movimento e som, ao mesmo tempo que reforçam a sensação de frescura. São pontos de pausa bem-vinda, onde simplesmente apetece existir.

Do jardim passamos com naturalidade para o Museu Pierre Bergé, instalado no antigo atelier de Majorelle: um espaço intimista que reúne peças de joalharia, trajes, tecidos e objectos do quotidiano que sublinham a riqueza da herança amazigh no território marroquino. A inclusão deste museu acrescenta profundidade ao complexo – para além da experiência estética e sensorial, mergulhamos no património cultural da região, reforçando o conceito de que a arte não vive apenas da cor ou da forma, mas também da identidade.

 

O local ganhou ainda maior notoriedade após a morte de Yves Saint Laurent, cujas cinzas foram depositadas no jardim, perpetuando a ligação íntima entre o estilista e o lugar que elegeu para o acolher. Esta dimensão memorial confere-lhe uma aura particular, entretanto complementada pela abertura, paredes-meias com a Villa Majorelle, de um museu dedicado ao costureiro.

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O Jardim Majorelle é um lugar onde a simbiose quase orgânica entre arte, moda e paisagem resulta numa forte identidade visual e numa atmosfera única. Visitá-lo é como entrar num universo onde a cor se torna emoção, e onde a vegetação não é apenas ornamento, mas sim matéria plástica ao serviço da visão artística partilhada pelos seus criadores.

 

Arte com flores

Lisse, Países Baixos

Situado em plena região dos campos de tulipas, o parque Keukenhof nasceu em meados do século XX com um propósito claro: mostrar ao mundo a excelência da floricultura holandesa. O nome remete para o século XV, quando as terras eram usadas para a horta da cozinha (“keuken”) do castelo da condessa Jacoba van Beieren. O passado agrícola cedeu entretanto lugar a um projecto que viria a assumir proporções monumentais: um jardim concebido como vitrina artística da produção floral, e também como cenário de sonho para os mais de um milhão de visitantes que o procuram todos os anos, durante as escassas oito semanas de Primavera em que o Keukenhof permanece aberto.

O que distingue este parque não é apenas a quantidade impressionante de flores plantadas – mais de sete milhões de bolbos a cada temporada – mas sobretudo a forma como estas são organizadas. Paisagistas e jardineiros concebem todos os anos novos desenhos, inspirados em temas que mudam a cada edição, criando tapetes cromáticos de enorme impacto visual. Cada canteiro é pensado como se fosse uma pincelada, e o resultado são cenários exuberantes de cores mutáveis, que se transformam de semana para semana entre Março e Maio. É esta dimensão efémera que confere ao Keukenhof um fascínio especial: quando o visitamos sabemos que aquilo que os nossos olhos vêem existe apenas naquele momento, e desaparecerá em breve para dar lugar a algo diferente no ano seguinte.

As tulipas, claro, são as protagonistas absolutas, celebradas em toda a sua variedade de formas e cores. Mas o Keukenhof não se limita a esta flor que é um dos símbolos da Holanda. Jacintos, narcisos, lírios e orquídeas complementam o espectáculo, ampliando a diversidade e acrescentando fragrâncias ao deleite visual. Percorremos alamedas arborizadas que se abrem sobre grandes manchas coloridas, cruzamos pontes e descobrimos recessos mais intimistas, onde a escala se reduz para permitir uma contemplação mais pausada. O desenho do parque procura esse equilíbrio entre grandiosidade e detalhe, garantindo que, para lá da imponência, exista também proximidade.

Os elementos arquitectónicos reforçam esta dualidade. Há esculturas que emprestam um toque de nobreza a certos ambientes, mas é nos pavilhões modernos que o parque mostra maior ousadia. Abrigam exposições temporárias, recantos temáticos e mostras dedicadas a espécies específicas. São espaços que ligam o jardim à tradição floral holandesa, mas também à ideia do jardim como trabalho artístico – onde a mão humana organiza a natureza segundo linhas de composição e experimentação estética.

Visitar Keukenhof é, por tudo isto, uma experiência de contemplação e de aprendizagem, com muita felicidade à mistura. Não é sem razão que há imensas crianças entre os visitantes. Enquanto passeamos entre lagos, esculturas contemporâneas e cenários quase teatrais, descobrimos o rigor técnico por trás de cada flor, de cada combinação cromática ou de espécies botânicas. O jardim é, simultaneamente, espectáculo e laboratório, vitrina comercial e obra de arte temporária.

Em Keukenhof, a natureza também é moldada pela visão criativa humana, mas o foco não está na integração da arte plástica com a paisagem e sim na própria concepção do jardim como obra artística. A paleta não é de tintas, mas de flores; o material de trabalho não é metal, pedra ou linho, mas sim terra e água. É esta singularidade que faz dele não apenas o maior jardim de flores do mundo, mas também uma das mais expressivas demonstrações de como o design paisagístico pode elevar-se à categoria de arte.

 

Cultura sem paredes

Depois de percorrer estes lugares, é inevitável reconhecer que a cultura não se esgota em museus fechados nem em salas de exposição. Tanto nos espaços etnográficos como nos jardins artísticos, a experiência ganha outra intensidade quando se vive ao ar livre, em contacto directo com a paisagem, com o clima, com os sons e até com os cheiros. É este cruzamento entre arte e natureza que lhes confere uma vitalidade singular: não são só locais para contemplar, mas também palcos para memórias, tradições e visões criativas contemporâneas.

No fundo, estes espaços convidam a uma forma de visita mais atenta e mais sensitiva. Não se trata apenas de ver, mas de estar, de caminhar, de deixar que a envolvência acrescente camadas de significado ao que ali se mostra. E talvez seja isso que os torna tão inesquecíveis: ao sair de cada um deles, trouxe comigo não só imagens de beleza, mas sobretudo a sensação de ter experimentado, ainda que só por umas horas, uma forma mais rica e sensorial de estar em contacto com a cultura.

Cultura e arte a céu aberto - parte 1

Ana CB, 11.09.25

Há lugares onde a criatividade não cabe entre quatro paredes. Espaços ao ar livre onde a história, a memória e o talento humano se encontram em feliz coabitação. Alguns recriam modos de vida que já não existem ou estão a desaparecer; outros transformam jardins e campos em plataformas de arte. Têm em comum o facto de proporcionarem uma forma diferente de contacto com a cultura – não em vitrinas ou corredores fechados, mas em cenários onde a natureza e a intervenção humana se misturam. Tenho visitado alguns destes lugares, de que sou particularmente apreciadora, e nunca saio de lá defraudada.

 

O mundo contado pela vida quotidiana

Incluo neste conjunto os museus etnográficos a céu aberto. Neles, a curiosidade não se alimenta apenas de objectos expostos, mas de ambientes inteiros, pensados para mostrar como se vivia, trabalhava e organizava a vida em tempos passados. São recriações que nos permitem mergulhar na atmosfera quotidiana de outras épocas, sentir os ritmos de uma comunidade e reconhecer o engenho que moldou ferramentas, casas ou formas de trabalho. Lugares que nos desafiam a olhar para o passado não como algo distante e abstracto, mas como uma herança palpável, feita de gestos ligados à sobrevivência, práticas comunitárias e ligações profundas com o meio envolvente – uma herança que é preciso acarinhar e preservar, mesmo que por vezes possa parecer obsoleta aos olhos da sociedade moderna.

 

O berço dos museus ao ar livre

Estocolmo, Suécia

Ao falar destes museus, é quase inevitável começar pelo Skansen. Criado em 1891, foi o primeiro museu a céu aberto do mundo, pioneiro na ideia de preservar modos de vida tradicionais fora das paredes de um edifício. Nasceu com uma ideia muito concreta: fixar a memória de um país que estava a mudar depressa. O mundo rural perdia importância, as cidades cresciam, a era industrial avançava. Era necessário guardar, de forma organizada, aquilo que definia o dia-a-dia das comunidades que viviam da terra, do trabalho manual e da relação próxima com a natureza: reunir casas, oficinas e estruturas de diferentes regiões num só local, para mostrar como viviam as comunidades rurais antes da industrialização.

O resultado é um museu vivo, que não se limita a exibir objectos soltos, mas recria ambientes inteiros. Mais de um século depois, continua a ser uma referência mundial, visitado tanto por quem procura aprender mais sobre história cultural como por famílias em passeio. É possível entrar numa casa onde as tarefas diárias ainda são feitas como no início do século passado, ou descansar dentro de uma igreja de madeira que transmite a sobriedade do quotidiano religioso. Há uma mercearia antiga, uma tipografia numa casa do século XVIII, lojas que funcionam como noutros tempos, e oficinas onde artesãos trabalham o metal ou o vidro, ou produzem peças de cerâmica ou joalharia, entre outros ofícios. O Skansen dá-nos a noção de um país inteiro resumido em parcos quilómetros – é um pouco como se estivéssemos dentro d’ A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson, o delicioso livro de Selma Lagerlöf em que a paisagem da Suécia também é uma personagem.

Tem ainda outra faceta que o torna especialmente popular: a vertente zoológica. Para quem tem crianças pequenas, esta será a principal atracção – vi muitos pais, tanto sozinhos como em casal ou em grupo, empurrando carrinhos de bebé ou com filhos pela mão. O espaço inclui um pequeno jardim zoológico com espécies típicas da Escandinávia, como alces, ursos, linces ou renas, bem como animais domésticos tradicionais das quintas suecas: coelhos, porcos, ovelhas, cavalos, e afins. Tem também um aquário, e lagos onde vivem focas e lontras. Durante a visita, passamos das ruas de uma aldeia histórica para cercados onde vacas ou cabras pastam tranquilamente. Esta combinação entre cultura e natureza faz com que a experiência seja mais variada, mais completa e, de certa forma, mais acessível para diferentes públicos.

O Skansen tem um calendário diversificado de actividades para miúdos e graúdos, sejam elas de pura diversão, como as celebrações festivas anuais, ou de educação, como as palestras sobre animais e a protecção da biodiversidade. Nota-se que procuram um equilíbrio entre aprendizagem e entretenimento, sem que uma dimensão anule a outra.

Apesar de o ter visitado numa época do ano mais tranquila, não tive dificuldade em perceber porque é que Skansen é um local tão popular entre os locais e atractivo para quem vem de fora. Não é apenas um museu etnográfico: é também um espaço de lazer, um lugar onde se pode passar um dia inteiro sem que a experiência se torne pesada ou demasiado académica. A mistura de casas históricas, demonstrações de ofícios e componente zoológica tornam-no num espaço em constante movimento.

O modelo de Skansen acabou por influenciar muitos outros museus etnográficos pelo mundo fora. A ideia de desmontar casas, igrejas ou oficinas de várias partes de um país e reconstruí-las num mesmo local mostrou-se eficaz para contar uma história colectiva. Hoje, visitar o Skansen é perceber como um projecto museológico pode ser igualmente uma declaração de identidade: aquilo que se decide preservar é aquilo que se considera essencial para compreender um povo.

 

A alma rural de um país

Sibiu, Roménia

O Muzeul Astra, leva a uma escala impressionante o conceito de contar a vida de um país a céu aberto. Situado numa vasta área arborizada (96 hectares na floresta protegida de Dumbrava Sibiului), reúne centenas de casas, igrejas, moinhos e oficinas que representam diferentes regiões e tradições da Roménia. Mais do que um conjunto de edifícios, é uma espécie de pequena Roménia condensada num único espaço, onde podemos atravessar séculos de história caminhando entre vegetação, água e trilhos de terra.

O Astra demonstra, de forma exemplar, a diferença entre ver um objecto isolado numa vitrina e ver esse mesmo objecto no seu contexto natural. Uma enxada exposta num museu tradicional é apenas uma ferramenta. Colocada ao lado de um celeiro ou usada numa demonstração prática, passa a ser testemunho vivo de uma forma de subsistência. Essa diferença ajuda a entender porque é que estes museus têm tanto impacto: transformam peças inertes em histórias completas. No Astra, esse princípio está bem patente.

A Roménia é um mosaico de regiões com influências diversas – latinas, saxónicas, otomanas, húngaras – e o Astra reflecte esta diversidade cultural, sobretudo em termos de arquitectura e utilidades. O espólio do museu conta com mais de 400 estruturas edificadas e mais de 200 mil objectos variados, todos preservados com cuidado. Visitar o Astra é também perceber como a identidade romena se construiu a partir da coexistência de tradições distintas. Esta pluralidade é, ainda hoje, a verdadeira riqueza de um país que mais parece uma manta de retalhos.

O espaço natural em que o Astra está inserido contribui para um efeito de imersão. As casas não estão dispostas como numa exposição em linha, mas sim espalhadas no meio das árvores, à beira de lagos, ou em clareiras. Esta organização faz com que a visita se pareça mais com uma caminhada por aldeias reais do que com uma visita museológica. A natureza funciona como cenário e, ao mesmo tempo, como parte integrante da experiência.

Entre os edifícios mais marcantes está uma igreja de madeira, que data de 1672 e é o monumento mais antigo da colecção do museu. Depois, há os moinhos – uma colecção única que inclui 33 moinhos de todos os tipos energéticos conhecidos na área euro-asiática (com excepção dos moinhos de maré), e que espelham a importância da moagem nas economias locais. E há casas de todos os tipos, algumas muito antigas ou únicas, como por exemplo a maior casa de carvalho do sudeste da Europa, construída há três séculos.

O Astra não se limita a exibir edifícios estáticos. Muitos dos espaços estão equipados com objectos do quotidiano: cozinhas com potes de barro, camas cobertas por colchas bordadas, utensílios agrícolas de uso corrente. Há até demonstrações de ofícios: oleiros, ferreiros, carpinteiros ou tecelões mostram como as mãos davam forma a quase tudo o que era necessário para viver.

Faz também parte da missão do Muzeul Astra contribuir para o desenvolvimento e promoção das comunidades rurais, tendo já divulgado ao público visitante várias minorias étnicas nacionais e mais de 200 comunidades rurais. Os eventos que organiza incluem festivais tradicionais e celebrações diversas envolvendo música, dança, gastronomia e artesanato, com a presença de artesãos oriundos de cada comunidade representada.

Não sendo uma das atracções mais divulgadas a nível turístico (pelo menos para fora do país), posso dizer com sinceridade que, em Sibiu, foi o local que mais gostei de visitar. Foi um mergulho, durante as várias horas que demorei a percorrê-lo, numa forma de pensar e organizar o mundo que já desapareceu em grande medida, mas que continua a ser fundamental para compreender a história e o carácter de um país. Não é um espaço de nostalgia, mas sim de reconhecimento. Com a minha viagem pela Roménia ainda no início, deu-me uma base importante para compreender e destrinçar tudo o que vi do país daí para a frente.

 

Casas de turfa e a vida nos confins do Atlântico

Skagafjörður, Islândia

À beira de um fiorde no norte da Islândia, Glaumbær é um daqueles lugares que nos obriga a repensar a relação entre ser humano e ambiente: um conjunto de casas de turfa que testemunham como comunidades inteiras conseguiram sobreviver em condições climáticas extremas, usando engenho e recursos locais. Nestas construções, a terra não é apenas chão, mas também parede e tecto.

Esta quinta histórica preservada (que inclui também alguns edifícios de madeira, antigos e bem recuperados, com exposições etnográficas várias) oferece-nos um vislumbre de como seria a vida na Islândia rural dos séculos XVIII e XIX. À primeira vista, as casas parecem pequenos montículos cobertos de relva, confundindo-se com a paisagem. Só mais perto é que percebemos que existem fachadas de madeira, com entradas para interiores bem organizados. A turfa, retirada dos campos vizinhos, era usada em blocos compactados que, empilhados em configuração de espinha, formavam paredes espessas capazes de isolar contra o frio e o vento. No tecto, uma camada adicional de terra e vegetação ajudava a reforçar a estrutura. Não era arquitectura de ostentação, mas de sobrevivência, nascida da necessidade e da adaptação.

Por dentro, as divisões são estreitas e pouco iluminadas, mas revelam uma organização funcional surpreendente. Há cozinhas com fogões a carvão, quartos partilhados por várias pessoas, despensas com prateleiras para conservar alimentos e áreas de trabalho onde se fiava lã ou se preparavam utensílios. O mobiliário, em madeira simples, mostra como cada peça tinha de ser prática e duradoura. O museu conserva muitos desses elementos originais, permitindo-nos imaginar o quotidiano das famílias que aqui viveram até ao século XX.

O que mais me chamou a atenção foi a forma como estas casas exprimem uma lógica comunitária, que ainda hoje sobrevive em muitas partes da Islândia. Glaumbær não era apenas uma residência isolada, mas um conjunto de edifícios interligados, uma espécie de aldeia minúscula sob uma mesma cobertura de turfa. Essa proximidade física traduzia também a importância da cooperação: num ambiente hostil, a sobrevivência dependia de esforços partilhados, desde a produção de alimentos até à manutenção das construções.

Há também um lado simbólico nesta arquitectura. As casas de turfa significavam não só abrigo físico, mas igualmente uma extensão da própria terra. A fronteira entre o natural e o humano era ténue: vivia-se dentro daquilo que o solo oferecia. Esta ligação à natureza é uma constante na cultura islandesa, visível tanto nas sagas medievais, que celebram a dureza da vida nos confins do Atlântico, como na literatura mais contemporânea, que continua a retratar a Islândia como um território onde a paisagem molda o carácter das pessoas.

Visitar Glaumbær fez-me, de certo modo, perceber como a chamada “modernidade” mudou (e vai continuar a mudar) tão radicalmente os nossos conceitos de conforto. Hoje em dia, habituados a casas luminosas e bem equipadas, causa-nos estranheza atravessar um corredor estreito ou entrar numa divisão sombria. Mas não há como ignorar a engenhosidade que permitia, em tempos menos tecnológicos, transformar recursos escassos em abrigo eficaz. A turfa pode parecer frágil, mas revelou-se mais resistente e duradoura do que muitos materiais modernos.

Glaumbær não é só um museu sobre casas antigas, mas sim uma lição sobre resiliência e adaptação. Mostra como a arquitectura pode ser profundamente enraizada no ambiente e como, mesmo em condições adversas, as comunidades encontraram formas criativas de viver e prosperar. É um lugar que nos lembra que a cultura não se exprime apenas em palácios ou monumentos grandiosos, mas muitas vezes em soluções simples, engenhosas e silenciosas que garantiram a continuidade da vida em regiões isoladas.

 

A paisagem que se tornou museu

Zaandijk, Países Baixos

Nas margens do rio Zaan, às portas de Amesterdão, Zaanse Schans é uma pequena localidade transformada em museu activo, onde moinhos, armazéns e casas de madeira recriam a atmosfera holandesa dos séculos XVIII e XIX. Aqui, não se trata apenas de conservar edifícios históricos, mas de mostrar como funcionava (e em certa medida ainda funciona, pese embora mais assente no turismo) uma comunidade próspera, sustentada pela engenhosidade técnica e pelo comércio. Se conseguirmos ignorar as centenas de turistas que visitam a aldeia, não é difícil “encaixar” neste cenário a beleza do quotidiano e as personagens retratadas por Vermeer nos seus quadros.

O que distingue Zaanse Schans é a sua ligação ao vento e à água. Os moinhos eram usados para tudo, desde a moagem tradicional destinada à alimentação até à produção de óleo ou de pigmentos, passando pela serração de madeiras. Cada moinho tinha uma função precisa. Juntos, formavam uma rede que, em plena era pré-industrial, colocava a região de Zaan na vanguarda da inovação: nesta que foi a área industrial mais antiga da Europa Ocidental, chegaram a existir, nos séculos XVIII e XIX, cerca de seiscentos moinhos de vento em funcionamento simultâneo. Alguns dos que vemos hoje em Zaanse Schans ainda são usados. Entrar num deles é ter uma aula in loco sobre a transformação de uma energia natural em força produtiva: as engrenagens de madeira rangem, as pás rodopiam, e sente-se no ar o cheiro a madeira serrada ou a sementes esmagadas.

O projecto de Zaanse Schans sensivelmente como o vemos hoje foi concebido em 1946 pelo arquitecto Jaap Schipper. Os edifícios que congrega foram resgatados em locais diversos e transportados, por estrada e por via navegável, para a área onde actualmente se encontram. Alguns já não correspondem exactamente à estrutura original. É o caso do De Kat, o único moinho de vento do mundo ainda em funcionamento que mói pigmentos minerais para a produção artesanal de tintas de acordo com a composição criada por Rembrandt, tal como se fazia há séculos. Desmantelado em 1904 até à altura da cremalheira, em 1960 foi reconstruído com a colocação do corpo de um outro moinho na subestrutura. Quanto ao Het Jonge Schaap, também ainda activo, é uma réplica fiel de um moinho de serração original de 1680, em tempos situado atrás da estação ferroviária de Zaandam e demolido em 1942. Antes da demolição foi cuidadosamente estudado e medido, o que permitiu a sua reconstrução posterior por artesãos locais. Funciona desde 2007 em Zaanse Schans, operado por uma equipa dedicada de moleiros.

Para além dos moinhos, o complexo inclui oficinas e armazéns onde se fabricavam produtos que ainda hoje associamos à identidade neerlandesa. Há queijarias que mostram o processo artesanal de produção, sapatarias dedicadas aos famosos tamancos de madeira e pequenas lojas que exibem artesanato local. Esta componente prática liga a vocação museológica à comercial, onde tradição e consumo se misturam sem conflitos.

O ambiente urbano recriado em Zaanse Schans também tem o seu encanto. As casas pintadas em tons de verde e branco, com telhados inclinados e janelas de guilhotina, evocam a estética típica da região. Várias delas foram transferidas de outras localidades para aqui, de modo a preservar o conjunto arquitectónico, e são habitadas, o que reforça a sensação de que não estamos apenas perante uma reconstrução museológica, mas num lugar que continua a ter vida própria. A etnografia pode não se resumir apenas ao registo de costumes desaparecidos.

Interessante em Zaanse Schans é também a forma como o património cultural e o natural se articulam. O rio, os canais e os prados em redor criam um enquadramento que explica porque é que esta região se tornou um pólo de actividade económica. Não é apenas uma sucessão de edifícios bem conservados, mas uma paisagem cultural em que cada elemento – água, vento, madeira, barro – desempenhou um papel na construção de um modo de vida. É o equilíbrio entre o passado preservado e o presente activo que faz de Zaanse Schans um lugar tão singular dentro do panorama dos museus ao ar livre.

 

Memórias a céu aberto

Estes quatro espaços são diferentes nas geografias, nos climas e nas tradições, mas partilham uma mesma virtude: transformam a história em algo palpável. Cada um deles tem a sua marca própria: Skansen alia a preservação cultural a uma vertente zoológica que aproxima gerações; Astra mostra a diversidade e a riqueza da vida rural romena; Glaumbær ensina-nos como a adaptação à natureza foi, em si mesma, uma forma de cultura; e Zaanse Schans revela a engenhosidade que transformou o vento e a água em motores de prosperidade. No fundo, todos estes lugares nos relembram que a cultura não é feita apenas de grandes monumentos ou obras-primas consagradas, mas também de soluções práticas, de rotinas e de modos de vida que sustentaram comunidades inteiras.

Bolonha: torres, arcadas, e muito charme

Ana CB, 23.05.25

Uma da tarde, 34°C de temperatura do ar – ou, como diria Eça, um “calor de ananases”. Sentei-me na esplanada ainda quase deserta do Cesarina para aquele que iria ser o meu último almoço em Bolonha. Sob a protecção de um enorme chapéu-de-sol e com as árvores do complexo das Sete Igrejas de Santo Stefano a darem uma certa impressão de frescura, soube-me bem descansar enquanto esperava que me servissem um risoto de espargos. À minha frente alongava-se a Praça de Santo Stefano – que na verdade não é propriamente uma praça mas antes um espaço triangular, aberto na Via com o mesmo nome para acomodar vários palácios e as igrejas. Copo de vinho branco da Toscana na mão, dediquei-me ao tão italiano dolce far niente, no meu caso a simples arte de observar calmamente os edifícios de tons alaranjados, batidos pelo sol inclemente, as pessoas que iam e vinham, sacos de compras na mão ou máquinas fotográficas à tiracolo, muitas vezes de olhos postos num smartphone, e um ou outro ciclista de passagem. O risoto chegou e estava divinal, e depois veio também um tortino di cioccolato com cuore fondente, que tentei fazer render porque, a bem da verdade, estava com uma certa relutância em sair dali, e mais ainda de ir embora de Bolonha – a cidade como que me enfeitiçou.

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O meu primeiro almoço em Bolonha tinha sido algo diferente, mas também sossegado. Cheguei à Estação Central vinda de Florença, depois de uma curta viagem de 38 minutos no Frecciarossa, o topo de gama dos comboios de alta velocidade italianos (que pode chegar aos 300 km/hora). Ainda era cedo para dar entrada no alojamento e não me apetecia andar pela cidade de mala atrás, por isso atravessei o Parco della Montagnola, lugar fresco, cheio de árvores altas e vazio de confusões, e parei para almoçar. O parque tem um espaço nitidamente dedicado à população estudantil mais alternativa, com mesas e cadeiras de todas as espécies e feitios espalhadas entre as árvores, ao lado de uma osteria e um barzito, e de um pequeno recinto pavimentado onde decorria na altura uma aula de ioga. Entre um hambúrguer e um café pingado, deixei-me ficar por ali durante mais de uma hora, naquilo que foi para mim uma espécie de reset depois de alguns dias na agitação de Florença.

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Esta minha visita a Bolonha foi um acidente de percurso – e é a prova de que há acidentes felizes. Na história das minhas viagens existe uma boa mão cheia de lugares que se atravessaram no meu caminho sem que fosse propriamente essa a minha intenção, e dos quais acabei por ficar cativa. Bolonha foi uma das mais recentes adições a essa lista. Quando preparei a minha viagem de duas semanas pela Toscana, era suposto o voo de regresso a Portugal ser a partir de Bolonha, e por isso decidi reservar uns dias para conhecer um pouco da cidade. Como não era um destino que fizesse parte dos meus interesses principais, não fiz o “trabalho de casa” e não pesquisei praticamente nada antecipadamente. Cheguei sem saber o que esperar ou o que iria ver, portanto a surpresa foi completa (e boa!). E ser surpreendida é uma das melhores emoções que posso sentir em viagem.

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A cidade das torres

 

A idade dos lugares não se pode aferir pela nossa, que somos meros acidentes de percurso na história da Terra. Ainda assim, Bolonha é uma cidade velha, mesmo pelos padrões de povoamento da Europa. Inserida numa região habitada desde inícios do século IX a.C., foi aqui que os Etruscos fundaram o que se supõe ter sido uma estrutura urbana complexa a que deram o nome de Felsina, no século VII a.C. Sucessivamente ocupada ao longo do tempo por Gauleses, Romanos e várias tribos bárbaras, passou a fazer parte do reino de Itália em finais do século IX. Mas foi a fundação da Universidade em 1088 (o que faz dela a Universidade mais antiga do mundo em funcionamento contínuo) que deu impulso ao período de maior desenvolvimento da cidade, e ao aparecimento daquelas que são as suas duas características mais marcantes em termos arquitectónicos: as arcadas e as torres.

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Os historiadores crêem que nos séculos XII e XIII tenham sido construídas em Bolonha qualquer coisa como entre 80 e 100 torres. Porquê? Não se sabe ao certo. Presume-se que algumas terão funcionado como símbolo de riqueza e estatuto das famílias mais abastadas, e também como estruturas de defesa. As mais pequenas serviriam também de habitação. Certo é que este frenesim de construção em altura não se limitava a Bolonha. San Gimignano, 150 km a sul e em plena Toscana, foi outra das cidades medievais atacadas pela “febre” das torres: chegaram a ser 72, algumas ultrapassando os 50 metros de altura.

Em Bolonha, a loucura das torres acabou mais tarde por passar, e depois do século XIII estas gigantes começaram a desaparecer, fosse por serem demolidas, por colapsarem, ou por serem adaptadas a outas finalidades. Aos dias de hoje chegaram 22, a que se somam quatro torreões que faziam parte das muralhas do século XII, além de muitos vestígios remanescentes das casas-torre – que eram mais baixas, tinham mais aberturas, e cujas paredes eram menos espessas.

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As mais famosas são as duas torres que compõem o símbolo da cidade: a Torre Asinelli e a Torre Garisenda. A primeira é a mais alta de todas as torres de Bolonha: 92 metros, que quase me provocaram um torcicolo quando a olhei a partir do outro lado da Piazza onde estão situadas. A Garisenda é mais modesta, nos seus meros 48 metros de altura, mas bate a vizinha em graus de inclinação. São dois colossos de pedra castanho-avermelhada que se vêem de muitos pontos do centro da cidade, erectos como flechas, sobressaindo numa praça de dimensões modestas mas com um movimento tremendo, onde confluem pessoas e veículos de todas as espécies, constantemente. É possível subir à Torre Asinelli, mas confesso que deixei a tarefa para uma próxima visita. O calor e o cansaço de quase duas semanas de viagem, com muitos quilómetros feitos a pé, de carro e de comboio, esgotaram-me a coragem que é preciso ter para subir os 498 degraus que levam ao topo. Atrás das torres, o verde das cúpulas renascentistas da Basílica dos Santos Bartolomeu e Caetano parece querer competir com elas, mas sem grande sucesso.

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Fugi do sol da Piazza di Porta Ravegnana metendo por uma rua estreitinha e sombria cujo nome me chamou a atenção: Via de’ Giudei. Tenho um certo fascínio por judiarias, por serem geralmente bairros com características peculiares, uma espécie de mundo à parte dentro das localidades onde existiram. O traçado do gueto judeu de Bolonha, estabelecido no século XVI, permanece bem identificável na actualidade, definido por becos e ruelas que se entrelaçam no núcleo medieval da cidade. Também aqui existe uma torre, na entrada do Vicolo Mandria. É a Torre Uguzzoni, mas a sua altura respeitável passa praticamente despercebida neste bairro em que o céu não é mais do que uma nesga azul fininha lá no alto, as varandas se misturam com semi-arcadas, e a pedra alterna com as cores soalheiras das casas renovadas, que têm portadas garridas nas janelas e plantas que se derramam pelas paredes abaixo.

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A história da comunidade judaica em Bolonha remonta à segunda metade do século XIV, quando cerca de 15 famílias se instalaram na cidade. Apesar de verem as suas actividades continuamente controladas e das limitações que lhes foram sendo impostas ao longo dos anos, e envolvida sobretudo no comércio da seda e da joalharia, nos empréstimos bancários e na medicina, esta comunidade prosperou de tal forma que em meados do século XVI as sinagogas já eram em número de 11 – mais do que as existentes em Roma. Foi nesta altura que um decreto papal ordenou a criação do gueto, definido por muros e por portões que eram abertos quando o sol nascia (para que os seus habitantes pudessem ir trabalhar noutras partes da cidade, pois a segregação religiosa tinha o cuidado de ignorar as suas actividades, muito importantes para a cidade), fechados ao anoitecer, e constantemente vigiados. Uma das entradas era precisamente na Via de’ Giudei, outra no cruzamento da Via del Carro com a Via Zamboni, e uma terceira entrada fazia-se pelo arco que liga a Via Guglielmo Oberdan ao Vicolo Mandria. Tendo uma área disponível tão pequena, a comunidade aproveitava todo o espaço o melhor que podia, construindo em altura e até mesmo por cima das ruas, num puzzle tridimensional de que hoje ainda restam muitos vestígios. A espinha dorsal do bairro é a Via dell’Inferno, onde até 1943 existiu uma sinagoga (no actual número 16), que foi destruída pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial. Mas não pensem que o nome da rua era devido a qualquer motivo religioso: resultou de uma mera associação do fogo às chamas do inferno, pois antes da criação do gueto existiam na rua várias oficinas de ferreiro.

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A cidade das arcadas

 

Em vez de desvantagem, a minha ignorância e total ausência de curiosidade prévia sobre Bolonha acabaram por ser uma bênção. Quando finalmente me decidi a sair do ar condicionado do alojamento para o calor da minha primeira tarde na cidade, as ruas que me levavam à Piazza Maggiore desvendaram aos poucos a maior surpresa que me estava reservada: as arcadas. Rua após rua, o piso térreo de cada edifício recua para dar lugar a um passeio coberto, com a fachada dos pisos superiores assente sobre pilares com materiais e formatos diversos. Elas são, na verdade, o elemento arquitectónico mais característico de Bolonha e responsáveis por grande parte do seu encanto. Só no centro histórico existem qualquer coisa como 38 km de arcadas, que se somam aos 53 km das que se encontram fora de portas. É a cidade com mais arcadas em todo o mundo e as suas são, desde 2021, património cultural da UNESCO.

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Mas qual é afinal a razão para esta abundância de arcadas? Falta de imaginação dos arquitectos? Mania cultural? Desenganem-se: o motivo começou por ser de ordem prática (como quase sempre são os motivos para tantos aspectos culturais que encontramos pelo mundo fora) e para o perceber temos de recuar um milénio. Em meados do século XI, Bolonha expandia-se a uma velocidade sem precedentes, tanto pela fama da sua Universidade, que atraía pessoas de todo o mundo, como pela chegada de cada vez mais camponeses em busca de outras condições de vida. Para alojar tanta gente, os habitantes começaram a ampliar as suas casas ao nível do piso superior, prolongando-as sobre a rua – como forma de conseguirem um aumento de espaço sem terem de pagar mais impostos – e apoiando estas estruturas sobre pilares de madeira. Nasceram assim as primeiras arcadas. Com o tempo, os bolonheses aperceberam-se de que elas lhes traziam outras mais-valias: abrigavam os passeantes tanto da chuva como do sol (e eu tive a prova de que tornam bem mais confortável a visita à cidade em dias de muito calor), afastavam os pisos térreos da sujidade das ruas, e favoreciam o comércio e os ofícios, que se desenvolviam muitas vezes no piso inferior das habitações. O sucesso destas arcadas levou a que em 1288 uma decisão municipal estabelecesse que não só as estruturas já existentes teriam de ser mantidas, como também cada edifício construído no futuro seria obrigado a ter a sua própria arcada. No século XVI, uma nova lei proibiu que fossem construídas em madeira, e a partir dessa altura passaram a ostentar colunas feitas de pedra ou tijolo.

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(Já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

O culpado

Ana CB, 21.03.25

Parto do princípio que entre os leitores fiéis deste blogue há quem goste muito de viajar, e não devo andar longe da verdade. E agora eu pergunto: porquê? Porque é que gostam (gostamos) de viajar? Nem toda a gente é como nós. Conheço várias pessoas (até na minha família próxima) que preferem não sair da sua zona de conforto, contentam-se em ver o mundo em fotografias ou na televisão e não têm curiosidade em ir pessoalmente àqueles lugares, por mais maravilhosos que pareçam. Não se trata de terem medo de andar de carro, ou barco ou avião; também não é por não saberem o que é viajar, porque já o fizeram numa ou noutra ocasião, e até nem desgostaram de todo; é simplesmente por falta de vontade, de interesse.

Então porque é que umas pessoas têm o bichinho das viagens e outras não? Será uma questão genética? Terá a ver com a educação? Porque a primeira vez que viajaram foi tão boa que procuram repetir a experiência uma e outra vez? Para colmatar uma carência, uma necessidade?

Bom, lamento dizer-vos que não sei qual é a resposta. Se calhar nem existe uma resposta, provavelmente cada um terá a sua… Mas no meu caso sei, conheço perfeitamente uma das razões pelas quais tenho desde muito nova uma grande paixão por viajar.

Senhoras e senhores, apresento-vos o culpado do meu desassossego:

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Sim, é um livro. Chama-se precisamente “O Grande Livro de Viagens” e foi editado pelas Selecções do Reader’s Digest em 1970.

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Entrou em minha casa pelas mãos do meu pai, a pessoa de quem terei certamente herdado um gene de viajante, se houver alguma influência hereditária no caso (da minha mãe não foi, que ela pertencia mais ao género de viajar no sofá). Eu era miúda, e este livro foi para mim uma revelação.

Antes que comecem a achar que sou um bicho estranho, estou a falar de uma época em que só tínhamos televisão (a preto e branco, claro) durante algumas horas por dia e tudo o que líamos – jornais, revistas, livros – ou víamos em casa ou no cinema era cuidadosamente filtrado e censurado. E obviamente que coisas como vídeos, computadores ou internet não existiam nem nos nossos sonhos. A quantidade de informação que nos chegava era muito reduzida e vinha a conta-gotas, às vezes com grande atraso. Outros tempos.

Não é por isso de admirar (acho eu) que abrir este livro tenha sido para mim um bocado como abrir a caixa de Pandora – mas sem a parte dos males, só a do mundo. Fiquei fascinada pelas fotografias que me mostravam lugares que eu nem sequer imaginava, e à medida que fui lendo os textos mais fascinada ainda fiquei. São cinquenta textos, cada um sobre o seu local ou país, todos escritos por autores diferentes. Textos que vão muito para lá do básico e são verdadeiras histórias de viagens, daquelas que dá gosto ler. É claro que no meu imaginário não sedimentaram todos eles de igual modo – ler sobre o mercado de queijo na Holanda (eu, que detesto queijo…), sobre um casamento marroquino ou sobre os lutadores de Sumo, só para citar alguns exemplos, não despertou em mim qualquer interesse especial. Mas a verdade é que muitos (grande parte) dos lugares que ainda estão na minha lista de desejos, aqueles que eu me lembro de querer visitar desde sempre, se encontram neste livro – e estão nessa lista sobretudo por causa dele.

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Quando há uns anos quis “revisitá-lo”, descobri que na casa dos meus pais terá ido parar a parte incerta, escondido provavelmente atrás ou debaixo de alguns dos muitos livros que eles tinham. Por sorte, consegui descobri-lo (e barato!) num alfarrabista, e agora sou a feliz proprietária de um exemplar. Está meio desbotado, tem as folhas amarelecidas e cheira a mofo, mas ainda está em bastante bom estado. Pode parecer um disparate, mas fiquei felicíssima no dia em que o recebi. “Trauma” de infância, certamente…

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Também é claro que é um livro bastante datado. Muito do que ali está escrito hoje já é diferente, e nos nossos dias qualquer smartphone baratucho tira fotografias melhores do que as que ele tem. Mas esse acaba por ser outro dos seus motivos de interesse, ver como alguns lugares mudaram tanto em cinquenta anos, e outros mudaram tão pouco. Um dos exemplos de maior mudança é precisamente o nosso país. O texto que fala de Portugal, escrito por André Visson e que tem o (óbvio!) título de “Jardim da Europa à beira-mar plantado”, mostra-nos um país de pescadores, varinas e apanhadores de uvas descalços, onde “ninguém terá dúvida de que (…) reina o homem. Nas estradas da província, por exemplo, vêem-se mulheres com toda a espécie de volumes à cabeça (…) enquanto os homens seguem montados em burros, ou as acompanham a pé, com as mãos nos bolsos”. Um país de que já estamos um bocado longe – embora muito do que aqui se diz sobre Portugal e os portugueses continue a ser verdade.

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Passados estes anos todos, ainda só estive em talvez uma dúzia dos locais de que este livro fala. Continuam por cumprir muitos dos meus desejos de viagem, embora já tenha realizado vários outros que surgiram entretanto e foram mais fáceis de concretizar. A alguns deles planeio ir mais ou menos a curto ou médio prazo, outros continuarão mais tempo na lista, e outros ainda surgirão entretanto. Ao contrário dos livros, e sobretudo os de viagens, que são estáticos e congelam os lugares no tempo, nós, as pessoas, estamos sempre a procurar, a descobrir, a aprender, a conhecer novos lugares – e este é, afinal, um dos maiores prazeres da vida.

(Adaptado de um post do blogue Viajar Porque Sim)

Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (7)

Cristina Torrão, 14.02.25

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O atravessar da fronteira (frame)

14 de Novembro de 2024, 68º dia de viagem: partindo de La Alamedilla, Jette atravessou a fronteira, perto de Aldeia da Ribeira, concelho do Sabugal.

Chegava finalmente a Portugal e a paisagem encantou-a, desde o primeiro minuto. Só o tempo não estava agradável, com frio e chuva miudinha. Jette escreveu no seu diário nunca ter pensado passar mais frio em Portugal do que em Espanha. Típico de alemães, têm sempre a ideia de que em Portugal nunca faz frio…

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Continuam as manadas de bovinos

Jette penetrou na Reserva Natural da Serra da Malcata, atravessou um rio e passou por um lago formado por uma barragem. Depois de uma consulta ao Google Maps, presumo ter sido na zona de Alfaiates.

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Mais tarde, ela enviou a sua localização à pessoa que a hospedaria, em Souto. Um homem veio ao seu encontro, igualmente a cavalo (nada devendo, em cortesia, aos espanhóis) e guiando-a até às cavalariças, onde a Pinou ficou instalada.

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Na aldeia, Jette pernoitou numa, como ela escreveu, “casa enorme”. Depois do jantar, foi levada a um bar, onde toda a gente falava inglês (nisto, temos claramente vantagem em relação a nuestros hermanos), proporcionando-lhe bons momentos de conversa.

15 de Novembro de 2024, 69º dia de viagem: de Souto a Vale da Senhora da Póvoa.

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À despedida, o dono da quinta onde Jette pernoitou surpreendeu-a com uma t-shirt da sua propriedade.

Pelo caminho, o mapa mostrava uma ponte, onde poderia atravessar um pequeno rio. Lá chegada, porém, Jette viu apenas uma passagem estreita, sem qualquer tipo de protecção.

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Não vislumbrando alternativa, Jette fez-se à travessia arriscada. E a Pinou passou o teste com bravura.

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Esta foi uma etapa cansativa e demorada, com subidas e descidas íngremes e alguma chuva.

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Começou a escurecer, antes de chegarem ao seu destino, e tiveram de usar uma estrada com trânsito automóvel. Mesmo provida de colete reflector e iluminação no seu capacete (frente e traseira), Jette esteve em permanente alerta, respirando de alívio quando finalmente chegou.

Foi convidada para jantar e passou um serão agradável. Mas, quando se recolheu, lembrou-se dos cães acorrentados, ao longo do caminho, e acabou por escrever no seu diário (tradução minha): “Em Espanha e em Portugal, os animais são frequentemente mantidos de maneira diferente ao que estou habituada: muitos cães estão permanentemente acorrentados, burros e cavalos trancados, ou amarrados no meio do nada. Isto deprimiu-me um pouco.”

16 de Novembro de 2024, 70º dia de viagem: de Vale da Senhora da Póvoa até Pedrógão de São Pedro. 25,8 km, com alguns montes para vencer.

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Como sempre, Jette desmontou nas subidas. Por vezes, até largou a Pinou, para que ela pudesse escolher o próprio ritmo. E a égua acabou por surpreender a moça com a sua agilidade. Era mais rápida, mas esperava por ela, quando a distância entre as duas aumentava. A relação entre a moça e a égua atingira a perfeita harmonia. E Jette, caminhando atrás, constatou que a Pinou estava mais musculosa do que antes da viagem.

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As canseiras eram recompensadas com a beleza da paisagem, embora o tempo continuasse chuvoso.

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Em Pedrógão de São Pedro, ficaram instaladas na quinta de uma senhora que Jette conhecia do Instagram.

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A moça resolveu repousar durante um dia. O cansaço não foi, porém, o único motivo para a pausa. As duas tinham apenas mais uma etapa pela frente e Jette, apesar de se sentir aliviada por as duas terem vencido tantos quilómetros sãs e salvas, receava o momento da despedida.

Aproveitou a pausa para escovar a Pinou e tratar-lhe dos cascos.

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Depois do jantar, tornou a ir ao estábulo, a fim de passar aquele último serão junto com a égua. Pinou deitou-se e Jette sentou-se junto a ela. Não evitou verter lágrimas, mal acreditando que a aventura estava quase a terminar.

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18 de Novembro de 2024, 72º dia de viagem: os últimos 20 km. Sol e 20ºC.

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Jette passou o dia cheia de sentimentos contraditórios, tanto chorava, como se alegrava.

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A chegada ao seu destino foi registada em vídeo pela dona da Pinou. Jette experimentou uma turbulência de emoções. Não aguentou. Levou a mão aos olhos, chorando mais uma vez. O vídeo pode ser visto no Instagram, não penso que exista alguma maneira de eu o trazer para aqui. Mas deixo um frame:

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A aventura durou quase dois meses e meio. Jette e Pinou percorreram sozinhas 1.595,49 km.

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Passados cinco dias, a moça foi apanhar o avião a Lisboa, de regresso à Alemanha.

 

Todas as fotografias e informações aqui divulgadas foram retiradas do diário de viagem de Jette:

https://www.instagram.com/jette.horse.journey/

@jette.horse.journey

 

Nota: três semanas depois da sua chegada à Alemanha, Jette teve a calma e a distância suficientes para fazer um balanço da viagem, concluindo, dessa forma, o seu diário. Penso que ela foca alguns pontos e momentos interessantes. Por isso, na próxima sexta-feira vou postar algumas dessas impressões.

Blogue da semana

Ana CB, 29.09.24

Foi uma viagem que os juntou, e as viagens continuam a ser uma parte importante na sua vida a dois. A Vera e o Marcelo são um dos casais mais simpáticos da blogosfera portuguesa de viagens, e criaram o blogue Ir em Viagem para partilharem as suas aventuras e experiências:

Através da escrita e da fotografia pretendemos inspirar as pessoas a viajar mais e, através de dicas e sugestões, ajudá-las a preparar as suas viagens.”

São caminhantes infatigáveis, e por isso de vez em quando organizam passeios nos trilhos mais bonitos do nosso país. Falam-nos das suas viagens, dentro e fora de Portugal, com muita sensibilidade (de uma forma quase poética) mas sem esquecerem os pormenores práticos, sempre úteis para quem lê. E como se isto não fosse suficiente, todos os artigos são ilustrados com fotografias de mestre.

O Ir em Viagem é a minha escolha para blogue da semana.

Patagónia, terra de contrastes - parte 2

Ana CB, 08.07.24

Em linha recta, o hiperfamoso glaciar Perito Moreno dista apenas cerca de 60 km do Parque Torres del Paine, mas na prática há todo um mundo de montanhas e uma fronteira terrestre a separá-los. Situado no lado argentino dos Andes e inserido no Parque Nacional Los Glaciares, o Perito Moreno tem como cidade mais próxima El Calafate, 80 km a leste.

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Chegar a esta cidade desde Puerto Natales implica, de autocarro, mais uma viagem de quase seis horas para cobrir 350 km de estrada, com a obrigatória demora no posto de fronteira de Dorotea e mais tarde o desvio para uma curta paragem em Esperanza.

 

Uma cidade virada para o turismo

 

Entrando em El Calafate, senti mais uma vez o choque da diferença em relação ao ambiente em que tinha passado os dias anteriores. Muito colorida e europeizada, a sua rusticidade é apenas aparente e disfarça uma sofisticação de lugar claramente devotado ao turismo. E no entanto, gostei da cidade. El Calafate é extensa e substancialmente plana, com o movimento a concentrar-se ao longo e em torno da Avenida del Libertador – um trecho da Ruta 11, que atravessa a cidade de leste para oeste. É aqui que estão os melhores restaurantes, as grandes lojas de artesanato sofisticado, os operadores turísticos, o casino, o Mirador de la Ciudad – estrutura metálica de onde temos uma vista abrangente sobre El Calafate – e a Intendencia do Parque Nacional Los Glaciares: um centro interpretativo num edifício histórico, rodeado por um belo jardim com percursos explicativos sobre a fauna e flora do Parque, máquinas e equipamentos antigos utilizados pelos trabalhadores, e cenas esculpidas em homenagem a exploradores da região, como Charles Darwin e Francisco Moreno.

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A Avenida del Libertador tem um ambiente algo hippie chic, e reflecte bem os dois tipos de visitantes que parecem ser mais habituais na Patagónia: jovens mochileiros, que vêm à procura de aventura antes de serem engolidos pelo mundo do trabalho e das responsabilidades familiares; e viajantes de meia-idade, ou já para lá dela, cujo desafogo económico lhes permite atravessar uma parte do planeta para irem conhecer uma das regiões mais inóspitas do planeta. Embora fazendo parte deste segundo grupo, apreciei muito mais a atmosfera cool do Bar Borges & Alvarez (o meu apelido é só coincidência, mas confesso que o facto de se intitular “Librobar” me agradou sobremaneira) e do La Oveja Negra, do que do classicismo de restaurantes como o La Tablita. No capítulo das compras, e como localidade focada no turismo, o artesanato é de perder a cabeça, seja ele o mais genuíno, vendido em barraquinhas, ou o mais requintado, exibido em enormes estabelecimentos onde apetece comprar tudo. Fui salva pela falta de espaço na bagagem: uma mala de cabine e uma mochila para três semanas não deixam lugar para compras volumosas. Mas não consegui resistir a comprar um livro com um título sugestivo: “Patagonia a Sangre Fría”, de Gerardo Bartolomé, um livrinho de contos à la Edgar Allan Poe, entre o mistério e o terror. Uma boa escolha.

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O nosso alojamento também ficava nesta avenida, mas numa zona mais tranquila, rodeado de árvores e casas com jardins. O Hotel Glaciar é um chalé de madeira que parece saído dos Alpes, despretensioso mas confortável, com quartos virados para um corredor interior ao ar livre e uma sala de pequenos-almoços com tecto e mesas de madeira clara, toalhas aos quadrados vermelhos e brancos, e muitas janelas com vista para o exterior. Um dos meus maiores prazeres em viagem é ter a possibilidade de tomar o pequeno-almoço, com calma, num local agradável – parece-me sempre um bom prenúncio para o resto do dia.

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Colada à margem do Lago Argentino, a Reserva Natural Laguna Nimez é outra das boas surpresas de El Calafate. Criada em 1986 por determinação municipal, é uma zona pantanosa muito rica em biodiversidade, onde estão representados vários ambientes naturais da Patagónia. O trilho interpretativo de 3 km que percorre a Reserva levou-nos à volta das lagoas Nimez e Escondida onde, entre as 137 (!) espécies de aves já ali observadas (acima de 10% da avifauna argentina), os flamingos são incontestáveis vedetas, com os seus tons de rosa-salmão a destacarem-se no prateado imóvel da água. No percurso há observatórios de aves e miradouros sobre o Lago Argentino, sobrevoado pelos omnipresentes gansos-de-magalhães e por cisnes-de-pescoço-preto. Na tarde tépida do nosso passeio, o vento aplainava as ervas típicas da estepe e fazia dançar os arbustos floridos e os canaviais. Ao longe, para oeste, as montanhas andinas mostravam os seus chapéus de neve, em jeito de provocação, atazanando-nos o espírito pela antecipação do que iríamos ver no dia seguinte.

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O deslumbramento dos glaciares

 

O autocarro da Cal-Tur foi buscar-nos ao hotel por volta das 9 da manhã, mas demorámos mais de duas horas até finalmente termos um vislumbre do Perito Moreno: houve paragens para ir buscar outros turistas, e em miradouros estratégicos sobre o Lago Argentino e as montanhas que o rodeiam. A paisagem e as explicações da guia fizeram com que a viagem fosse menos monótona e parecesse mais curta.

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Os glaciares ocupam 10% da superfície do nosso planeta e contêm 90% da água potável disponível em todo o mundo. Os maiores estão na Antártida e na Gronelândia, mas o Campo de Gelo do Sul da Patagónia, com quase 17.000 km2, é a terceira maior extensão de gelo continental da Terra, e é nele que se insere o Perito Moreno. Com cerca de 250 quilómetros quadrados (uma área superior à da cidade de Buenos Aires), é um glaciar notável tanto pela vastidão como pela sua dinâmica única. A maior parte dos glaciares que existem no nosso planeta estão a regredir, mas o Perito Moreno é um dos poucos que mantém um equilíbrio notável: avança cerca de dois metros por dia, mas perde também diariamente uma quantidade de massa proporcional, o que mantém a sua estabilidade.

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Na encosta do Parque Nacional Los Glaciares com vista para o Perito Moreno foi criado um conjunto de passarelas com cinco percursos distintos (um deles acessível a pessoas com mobilidade reduzida) e vários miradouros, de onde podemos observar o glaciar de diferentes ângulos. Qualquer que seja a perspectiva de que o vemos, é um fenómeno geológico magnífico. Tem mais de quatro quilómetros de largura e ergue-se até 78 metros acima do nível das águas do Lago Argentino. Mais impressionante ainda, a massa invisível que fica debaixo de água pode chegar aos 700 metros de profundidade.

O que todos estes números não traduzem é o deslumbramento que senti perante este gigante gelado. Vê-lo em fotografia é fascinante, mas ao vivo é toda uma outra emoção. Sente-se o frio que trepa pela encosta, mesmo não havendo vento, e que faz arder o nariz e as faces. Ouvem-se os gemidos do gelo, que se dilata e contrai, e de vez em quando se despenha ruidosamente no lago, formando círculos leitosos na água parada, opaca, pintada em tons de jade e brilhante mesmo quando o céu ameaça chuva. O vermelho-vivo das flores da árvore de fogo chilena (Embothrium coccineum; “notro”, na linguagem local) destaca-se no fundo verde-escuro e azul da paisagem. Um caracará (Carcara plancus) posa para as fotografias, e depois decide abrir asas e partir para longe das atenções. O Perito Moreno faz parte de um ecossistema vivo, um habitat vital para diversas espécies de fauna e flora adaptadas às condições únicas do ambiente glacial; estar ali, sentir a magnitude daquela maravilha da natureza, foi uma experiência que transcendeu a mera contemplação visual e fez crescer ainda mais o meu respeito pelo planeta em que vivemos.

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Descemos ao lago para um passeio de barco nas águas onde flutuam pequenos blocos de gelo, alguns deles já translúcidos, prestes a derreter. A embarcação não se aproxima a menos de três ou quatro centenas de metros do glaciar, mas mesmo assim o efeito é avassalador. À nossa frente ergue-se uma muralha de gelo irregular e agreste, mais alta do que um edifício de 20 andares, larga a perder de vista, de um azul entre o turquesa profundo e o quase branco, cruzado por veios escuros. De repente, um grande estrondo e um murmúrio de admiração que se alastra pelos ocupantes do barco: uma torre de gelo desprendeu-se do glaciar mesmo à nossa frente – gelo que se formou há cerca de 400 ou 500 anos, um tempo muito superior ao de qualquer vida humana.

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Paraíso do trekking

 

Como cada vez gosto mais de caminhar, a minha viagem à Patagónia tinha obrigatoriamente de incluir El Chaltén – que se autodenomina “capital argentina do trekking”. É com base nesta vocação que a localidade tem crescido, pese embora a sua finalidade inicial tenha sido política. Na verdade, El Chaltén foi fundada em 1985 como parte de um esforço para estabelecer presença humana e reforçar a soberania argentina sobre a região da Patagónia. Mas a sua localização, na base das montanhas andinas Fitz Roy e Cerro Torre e muito perto do Lago Viedma, atraiu aventureiros de todos os pontos do globo, e tornou-se um destino popular para os amantes do montanhismo e do alpinismo. Integrada no Parque Nacional Los Glaciares, nota-se um foco significativo na preservação ambiental e na promoção do turismo sustentável. A localidade mantém uma atmosfera simples e acolhedora, embora ofereça uma variedade de serviços virados para o turismo, e é um ponto de partida estratégico para quem gosta de aventura e de actividades ao ar livre.

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Os 220 km de estrada que separam El Calafate de El Chaltén foram mais uma vez transpostos em autocarro. Três horas de viagem bem instalada no piso superior do veículo, à frente de uma janela panorâmica. Não que houvesse muito para ver: a paisagem entre as duas localidades resume-se a terra deserta, com uma ocasional sugestão de montanhas muito ao longe, e às extensões de água azul dos lagos. Quase no final da viagem, a atmosfera passou de soalheira a enevoada, e quando finalmente parámos no terminal rodoviário de El Chaltén o mau tempo tinha-se instalado, com chuva e vento forte. No quilómetro que tivemos de andar até ao alojamento, a impressão com que fiquei foi a de uma “cidade” com um desolador ar de acampamento pouco mais que provisório, semi-deserta, desenxabida e pouco acolhedora.

 

Com a minha sorte habitual, o tempo mudou passadas umas horas, e os dias seguintes encarregaram-se de também mudar a minha opinião. Por trás do aspecto incipiente das suas casas e ruas, El Chaltén revelou ter um ambiente jovem, simpático e hospitaleiro, onde fomos recebidas com sorrisos e respostas a todas as nossas perguntas. Cafés e restaurantes com ambiente intimista e comida excelente, conversas animadas – o empregado de mesa do “La Esquina”, onde tomámos várias refeições, até falava connosco em português do Brasil – e um interesse genuíno no nosso bem-estar, a par de alguma curiosidade sobre nós e o nosso país. Deu para perceber que não passam por ali muitos portugueses.

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Depois foram dois dias intensos de caminhadas, que tiveram tanto de cansativas quanto de memoráveis. Mesmo os trilhos mais curtos envolvem subidas contínuas durante vários quilómetros, e implicam algum esforço e várias paragens para descansar. Por vezes até tive vontade de desistir. Mas valeu bem a pena todo o “sacrifício”. Há qualquer coisa de mágico naquelas montanhas. De cada vez que olhava para o Fitz Roy – que em El Chaltén é bem visível de qualquer parte – dava por mim a sorrir. Percorrer aqueles trilhos que me mostravam várias perspectivas destes picos foi um privilégio que nunca vou esquecer.

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Dos quatro percursos que fizemos, o mais desafiante foi também o meu preferido, não por ser difícil (que o é bastante, uma ascensão de 350 metros ao longo de 3 km) mas pelo entorno. O trilho que sobe até à Laguna Capri passa pelo miradouro do rio de las Vueltas (aqui quase ia ficando sem gorro, tal era a violência do vento), de onde se avistam muitos quilómetros da Cordilheira Andina e do vale em que o rio vai serpenteando. Depois entramos numa maravilhosa zona de bosque onde predomina a faia-antárctica (Nothofagus antarctica; “ñirre”, em espanhol), e mais ou menos a meio entre o terceiro e o quarto quilómetro começamos a ver o contorno das montanhas por entre as árvores. Até que chegamos finalmente à Laguna Capri, um extenso tapete de água transparente que reflecte as cores do céu e da vegetação que o rodeia, com o Cerro Torre, o Fitz Roy e o glaciar Piedras Blancas lá ao fundo. É a recompensa pelo esforço da subida.

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Para aproveitar ainda mais aquele maravilhoso ambiente, prolongámos o passeio pela vereda que acompanha a margem do lago e depois inflecte até ao ponto a que dão o nome de Miradouro do Fitz Roy, num percurso circular que desemboca no trilho da Laguna de Los Tres e se une mais abaixo ao caminho que nos levou à lagoa.

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No extremo sul de El Chaltén, depois de passarmos uma ponte, fica o Centro de Visitantes do Parque Nacional, que marca também o início de outros trilhos. Os mais curtos levam-nos a dois miradouros com nomes de aves habituais nesta região: o Mirador de los Cóndores e o Mirador de las Águilas. O primeiro é curto mas tirou-me o fôlego, e de duas maneiras: pela subida acentuada, que me deixou os músculos das pernas a reclamar descanso (nesse dia já tinha caminhado 16 km), e por oferecer a melhor vista sobre El Chaltén – que, deste sítio, parece feita de casinhas do Monopólio. O segundo partilha um troço da subida do primeiro, mas depois torna-se misericordiosamente quase plano até chegarmos ao miradouro, um promontório rochoso com um panorama excepcional, que inclui o Lago Viedma e a extensa planície que o acompanha. O regresso, nesta área de vegetação rasteira que exibia os verdes e vermelhos de uma Primavera avançada e com o sol já a descer na direcção das montanhas, foi a parte que mais apreciei e fiz com asas nos pés, por ter sempre no horizonte o perfil do Fitz Roy e outros picos nevados dos Andes. El Chaltén tem uma atmosfera verdadeiramente especial.

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O apelo da natureza

 

No imaginário das minhas viagens sonhadas, a Patagónia era um misto de lugar desértico com paisagens arrebatadoras e pequenos povoados tranquilos varridos pelo vento. A realidade encarregou-se de me mostrar que, em grande parte do território que visitei (sobretudo no lado argentino), há mais aridez e monotonia do que eu imaginava, e os locais habitados são bastante mais movimentados e menos românticos do que estava à espera.

 

Ainda assim, as vastas extensões semi-selvagens, a sua biodiversidade e a imponência das montanhas e dos glaciares fazem da Patagónia uma região particularmente apelativa para quem procura conhecer lugares menos adulterados pelo Homem. Ao longo dos tempos, vários filósofos tentaram explicar esta atracção que a natureza exerce sobre nós, seja como fonte de autenticidade, utilidade ou inspiração espiritual. Para mim, no entanto, a única perspectiva com a qual consigo identificar-me é a do valor intrínseco da natureza, exterior e independente a qualquer potencial utilidade para o ser humano. Nós existimos porque fazemos parte dela, e arrogarmo-nos o direito de usar e abusar dela é pura estupidez.

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A parte final desta viagem implicou o regresso de autocarro a El Calafate, de onde apanhámos depois o avião para Buenos Aires. Para esta estadia de uma única noite escolhemos um alojamento mais modesto, numa rua tranquila perto do centro da cidade. À frente da casa estavam plantados alguns calafates que, a um mês de distância do Verão austral, já tinham substituído as suas típicas flores amarelo-vivo por bagas arroxeadas. O calafate (Berberis microphylla) é um arbusto espinhoso endémico da Patagónia, cujo fruto comestível é aproveitado desde a pré-história como alimento, pelo seu grande valor nutritivo, e também usado para fins medicinais. Sabe-se actualmente que tem uma das mais altas actividades químicas antioxidantes presentes em frutos comestíveis do planeta, sendo considerado um superalimento. As flores são amarelas, mas as bagas são de um azul quase negro, parecidas com os mirtilos. Esta foi a única oportunidade que tive de as ver, ainda verdes, mas já as tinha provado em forma de doce, por sinal delicioso.

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De tão popular que é, existem muitas lendas associadas ao calafate. Mas a mais promissora é a que diz que quem come este fruto, garante o seu regresso à Patagónia. Parece-me um bom presságio.

 

(Também publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Patagónia, terra de contrastes - parte 1

Ana CB, 04.07.24

É longa a viagem até ao fim do mundo. Em linha recta seriam menos de 12 mil quilómetros, mas na vida real o percurso entre o nosso pequeno rectângulo europeu e o extremo sul do continente americano implica três voos e muitas, muitas horas. Quando – finalmente! – o avião que nos trazia de Buenos Aires reduziu a altitude para aterrar em Ushuaia, sobrevoando montanhas coroadas de neve e ilhas que mais pareciam borrões de tinta sobre água azul-chumbo, sentia-me ao mesmo tempo aliviada por chegar, expectante pelo que antevia, e assombrada com o que já estava a ver. Era o início de uma viagem pelo sul da Patagónia, e tinha decidido começá-la na cidade que se autodenomina “fim do mundo”.

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Onde a terra acaba

 

Ushuaia é cidade argentina e fica na Ilha Grande da Terra do Fogo, à beira do Canal Beagle, onde a fronteira com o Chile faz um ângulo abrupto de 90 graus para norte, prolongando-se em linha absolutamente recta até à costa setentrional da ilha. Este limite artificial, estabelecido pelo Tratado de 1881 entre os dois países vizinhos, isolou a Terra do Fogo argentina do resto do país: é impossível lá chegar por via rodoviária sem passar pelo Chile, e é por isso que grande parte dos visitantes da cidade chega e parte de avião. No nosso caso, aplicava-se apenas a primeira parte. A saída ia ser de autocarro, e este iria continuar a ser o nosso modo de locomoção durante o resto da viagem até à hora de regressar a Buenos Aires para depois voltar a casa.

 

Começar em Ushuaia um périplo de quase três semanas pelo sul da Patagónia revelou-se uma boa decisão. Cidade mestiça, cruzamento de aldeia alpina com localidade nórdica, temperada com pitadas de tropicalidade sul-americana, a sua atmosfera meio sonolenta foi ideal para me acostumar à temperatura (baixa, mesmo na Primavera), ao castelhano em que o “ll” soa a “g” ou “ch”, mas nunca a “lh”, ao câmbio de milhares de pesos traduzidos em poucos euros. Percebi que sermos cumprimentadas com um “Hola chicas!” é sinal seguro de simpatia, e que por aqueles lados as tradicionais empanadas foram elevadas à categoria de delícia de comer e chorar por mais. Passeámos com vagar pela avenida marginal e pelas ruas geometricamente desenhadas, onde o kitsch comercial predomina e harmonia arquitectónica é conceito desconhecido: cada edifício tem o seu estilo, muitos a penderem para o vanguardista desinspirado, cada casa parece ter sido propositadamente construída para contrastar com as vizinhas, e grande parte delas têm ar de pré-fabricadas. Visitámos o antigo Presídio, agora transformado em complexo museológico com entradas pagas a preço inflacionado para turistas, e subimos a escadaria-passadiço do Paseo del Centenario, o melhor miradouro sobre a cidade e a baía. Ambientei-me.

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Ushuaia significa também a oportunidade de ver pinguins no seu habitat natural, mas para isso há que fazer um passeio de barco no Canal Beagle até à Isla Martillo, a que informalmente chamam Pingüinera. É aqui que, nos meses do Verão austral, se instalam três espécies diferentes de pinguins com um único propósito: nidificar. Os mais abundantes são os pinguins-gentoo e os pinguins-de-magalhães, mas em anos recentes têm também aparecido pinguins-rei. A ilha está classificada como reserva natural, por isso nos passeios mais comuns, como o que fizemos, a embarcação apenas se aproxima da praia e vemos os pinguins à distância – suficiente para os observarmos em idas e vindas no seu habitual passo oscilante, mais engraçados ainda quando se enchem de pressa e aceleram, com as asas meio abertas em jeito de corcunda. Independentemente disso, qualquer passeio no Canal Beagle é um festim para os olhos, sobretudo se tiverem a sorte que tivemos: depois de um amanhecer cinzento, um dia de sol aberto que fazia brilhar a água e a neve espalhada nos cumes das montanhas.

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Guardámos para o final o Parque Nacional Tierra del Fuego, cuja entrada fica a cerca de 20 km de Ushuaia, com várias ligações diárias em minibus. Nos seus quase 700 km2, este parque conjuga ambientes de montanha, de floresta andino-patagónica e aquáticos, numa variedade de cenários cruzados por trilhos pedestres na sua maioria fáceis de percorrer. Foi aqui que passámos o nosso último dia na Terra do Fogo argentina, caminhando em volta da Baía Lapataia e depois bosque adentro, tendo como banda sonora o rugido suave das árvores e o toc-toc ocasional de algum pica-pau. Frequentemente, uma mancha branca ou castanha com riscas negras mexia-se entre a vegetação ou atravessava-se no nosso caminho: o ganso-de-magalhães é a ave mais abundante por estes lados, tão comum que a sua imagem está no logótipo do parque. Piquenicámos com vista para a Laguna Verde na companhia de um falconídeo guloso, ao longe o fumo dos grelhadores do parque de campismo subia até se juntar à neblina ligeira que teimava em soltar-se das encostas. E foi a descansar à beira do Lago Acigami, água-espelho entre um corredor de montanhas, com o Cerro Cóndor ali ao lado, indiferente ao facto de ter uma fronteira a dividi-lo, que nos despedimos das terras argentinas do fim do mundo.

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Terra de contrastes

 

A Patagónia, região que povoa abstractamente os sonhos de tanta gente, é uma área na América do Sul com cerca de 11 vezes o tamanho de Portugal, convencionalmente limitada a norte por Puerto Montt e o lago Todos Los Santos, no Chile, e pelos rios Colorado e Barrancas, na Argentina, estendendo-se até ao arquipélago da Terra do Fogo, no extremo sul do continente americano. Parte da Cordilheira dos Andes rasga-a de norte a sul, fazendo simultaneamente a divisão entre os dois países, com a Argentina a ocupar a maior fatia do território e só perdendo para o Chile mesmo quase na extremidade meridional, onde apenas conseguiu reclamar para si a ponta leste da Terra do Fogo. Esta separação geográfica resulta num contraste muito nítido no relevo da região patagónica em cada um dos países: o lado chileno é quase completamente composto por ilhas, muito recortadas e com relevo acidentado, tem vegetação abundante e alberga a maior parte do Campo de Gelo do Sul da Patagónia, a terceira maior área de gelo continental no nosso planeta; na sua parte argentina, o território é árido e plano, só variando na faixa junto aos Andes, onde as montanhas e os lagos glaciais modificam a paisagem.

Às seis horas de uma manhã fria, um minibus levou-nos até Rio Grande, 200 quilómetros feitos em quase três horas e meia através de nenhures, com apenas uma breve paragem em Tolhuin, a única localidade que atravessámos durante o percurso. No terminal rodoviário de Rio Grande houve que tratar das formalidades para mais tarde cruzar a fronteira sem sobressaltos: no Chile não é permitido entrar por via terrestre com nenhum tipo de comida que seja perecível a curto prazo. As sete horas e meia seguintes foram passadas num autocarro em nada diferente dos que nos levam pelas estradas portuguesas em trajectos bem menos longos. Não há ligação terrestre contínua, por isso a passagem do Estreito de Magalhães é feita num ferry, e a espera de vez para entrar na embarcação consumiu mais de duas horas. O destino? Punta Arenas, a capital da região mais meridional do Chile.

 

O contraste entre Ushuaia e Punta Arenas é flagrante, e têm apenas um pormenor em comum: ambas ficam junto ao mar. Mas enquanto o Canal Beagle é sereno e rodeado de montanhas, o Estreito de Magalhães é um mar amplo e sem margem oposta à vista, como os oceanos que une. Fundada em meados do século XIX para consolidar a presença chilena no Estreito – que na altura era a única ligação marítima entre os oceanos Atlântico e Pacífico e, portanto, uma via de grande importância para o comércio – Punta Arenas mostra, no seu centro histórico, a monumentalidade clássica da época. Passeando entre os edifícios de pedra decorados com arcos, volutas, motivos florais e ferros forjados, nas avenidas largas e arborizadas, ou no cemitério, onde o kitsch e os jazigos de mármore ornamentado coexistem pacificamente, senti-me como se estivesse numa qualquer localidade europeia, em vez de numa cidade isolada nos confins do continente americano, mais perto da Antártida do que de Santiago do Chile. Bons restaurantes e o melhor alojamento de toda a viagem – gerido com grande simpatia pelo Arturo, um professor apaixonado por Portugal que escolhia Mariza e Cesária Évora como música de fundo ao pequeno-almoço – também influenciaram a decisão de ficar em Punta Arenas mais um dia do que o previsto.

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O arco-íris que nos saudou na tarde da chegada à cidade foi anúncio de bom tempo. Ainda assim, o vento não deu tréguas na viagem de barco que nos levou no dia seguinte à Isla Magdalena que, com a sua irmã menor de nome Marta, forma o Monumento Nacional Los Pinguinos. A ilha é protegida por ser o local no Chile mais importante para a nidificação dos pinguins-de-magalhães, e nela chegam a congregar-se mais de 200 mil indivíduos desta espécie. O desembarque é permitido nesta ilha, onde fizemos uma caminhada de cerca de uma hora com passagem pelo farol construído em inícios do século XX. O percurso está marcado por estacas e cordões, por isso conseguimos ver de perto os pinguins e as tocas em que fazem os ninhos. Como é óbvio, qualquer interacção com os animais é estritamente proibida.

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Punta Arenas não foi o primeiro assentamento nesta região inóspita. Instruídos pelo presidente Manuel Bulnes para tomarem posse do Estreito de Magalhães, os primeiros colonos chilenos instalaram-se 52 km mais a sul e ergueram o Fuerte Bulnes em 1843. No entanto, as terríveis condições climatéricas do lugar levaram a que os seus habitantes resistissem apenas durante seis anos, após os quais decidiram abandonar o povoado e mudar para o local onde hoje se encontra a cidade. Para celebrar o centenário da criação dessa colónia, o forte foi reconstruído e classificado como sítio histórico-museológico, estando actualmente incluído no Parque del Estrecho. Além do Fuerte Bulnes, onde estão recriadas algumas construções que faziam parte do assentamento, a excursão guiada que nos levou nesta visita incluiu uma caminhada pelos dois percursos pedestres do parque, que são de baixa dificuldade e cheios de beleza. Um atravessa o Bosque del Viento, rico em flora endémica e árvores fascinantes. O outro percorre parte da península junto à costa, com vistas encantadoras sobre o Estreito de Magalhães e as ilhas e montanhas em volta.

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Lagos e montanhas

 

A Ruta 9 liga Punta Arenas a Puerto Natales, as duas principais cidades do sul da Patagónia chilena. Nesta extensa fita de asfalto, rodeada de estepe acastanhada, deserta e só ocasionalmente interrompida por algum lago desinteressante, as curvas são tão largas que se tornam imperceptíveis, e a estrada assemelha-se a uma recta sem fim. Nestes percursos de autocarro pelo sul da Patagónia senti-me como se estivesse no faroeste norte-americano. Horas e mais horas de paisagem monótona, onde até os guanacos são raros e mal se adivinham ao longe, silhuetas escuras sob o brilho inclemente do sol. Felizmente, a viagem até Puerto Natales foi bem mais curta e menos cansativa do que a anterior: apenas três horas e meia.

 

A primeira impressão que tive da cidade não foi das melhores, e não se modificou grandemente nos dias seguintes. Aliás, e pese embora tenha mais de 20 mil habitantes, chamar-lhe cidade é quase um eufemismo. Puerto Natales tem ar de aldeia – uma aldeia grande, feita à pressa e largada antes de estar pronta. As ruas são linhas rectas, sobrevoadas por centenas de fios emaranhados entre postes e limitadas por casas baixas, com telhados achatados e na sua maioria de aspecto meio provisório. Vêem-se poucas pessoas, árvores ainda menos, e os carros são inúmeros mas estão, misteriosamente, quase todos parados. À beira do golfo Almirante Montt e com os Andes como cenário, a zona da marginal poderia ter um ambiente menos mortiço, mas não é o caso. Há mais pedra e cimento do que areia, os edifícios novos parecem algo deslocados do entorno, as esculturas espalhadas pela avenida não são particularmente atractivas (com excepção da “Amores de Viento”, que se tornou num dos ex libris da cidade) e nem a água se mexe. Mesmo com sol, tudo parece congelado no tempo. Deste marasmo salvam-se algumas excepções, como o edifício do Espaço Cultural Nataris, na praça principal da cidade, que já foi Câmara Municipal e está desde há alguns anos convertido em centro de exposições e cultura.

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Puerto Natales vive actualmente muito do facto de ser a porta de entrada para o Parque Nacional Torres del Paine – que, ainda assim, fica a mais de 100 km de distância. Os autocarros diários que fazem a ligação com o Parque vão cheios de mochileiros carregados com tendas, sacos-cama e outros apetrechos necessários para passarem vários dias nas montanhas a percorrerem os circuitos W (71 km em 5 dias) ou O (120 km, 8 dias). A nossa ideia inicial tinha sido visitar o Parque durante dois dias, mas os constrangimentos provocados por uma greve de trabalhadores (alguns trilhos e estradas estavam encerrados) e o preço exorbitante do catamarã que liga as margens leste e oeste do Lago Pehoé fizeram-nos mudar de ideias. Decidimos reduzir as nossas ambições a um único dia e ficarmos pela área da Estância Pudeto, para percorrer o trilho que passa pela cascata do Salto Grande e segue até ao Mirador Cuernos. Meio dia é suficiente para esta curta visita, mas vale a pena fazer o percurso com calma e piquenicar à beira do Lago Nordenskjold, que tem o nome do geólogo e explorador sueco que o descobriu em inícios do séc. XX. O local é de uma beleza natural mesmerizante, sobretudo pela cor turquesa das águas do lago, mais brilhante ainda em dia de muito sol. Do Mirador Cuernos avistam-se o Cerro Paine Grande e os Cuernos del Paine, duas montanhas icónicas do Parque – e este ficou, para mim, como um dos lugares mais memoráveis de toda a viagem.

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(Também publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Pensamento da semana

Ana CB, 02.04.23

Viajar é, à partida, um bom antídoto contra a intolerância. Falo, é claro, das viagens mais imersivas, onde se contacta com a cultura e o modo de vida de cada local (e não de uma mera estadia num qualquer resort blindado contra a realidade que o rodeia). Mas viajar também cria por vezes em mim – como mulher, portuguesa, europeia, e produto do século XX – sensações de incompreensão, frequentemente associadas às de impotência.

Incompreensão ao constatar como o mundo parece girar a velocidades diferentes consoante a cultura em que estamos, como a pobreza corta (ou serve de desculpa para cortar) o acesso à educação mas não aos modelos de smartphone mais recentes, como a vaidade exterior consegue coabitar com o desleixo, o lixo, e até mesmo a falta de compaixão. Impotência por perceber que mesmo quando nos exprimimos numa língua comum, o fosso que me separa desses outros é tão grande que sou olhada como se falasse uma língua diferente, talvez alienígena, e não há entendimento possível.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Blogue da semana

Ana CB, 12.06.22

 

Andam sempre na vadiagem e têm um fraquinho por gatos, por isso o blogue que criaram só podia mesmo ter este nome: Gato Vadio · Travel Blog.

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A Ana e o Ricardo gostam sobretudo de nos dar a conhecer Portugal – são apaixonados pelos Açores! – mas no blogue também falam das suas viagens por outros países. Têm imensas sugestões de roteiros e fotografias lindas. Só não esperem ver os seus rostos sorridentes, porque eles fazem questão de se manterem (quase) no anonimato.

Os posts que escrevem são muito completos e cheios de boas ideias – para visitar, comer e dormir – porque eles fazem questão de esmiuçar ao pormenor cada um dos lugares que visitam. É o blogue ideal para quem precisa de sugestões para uma escapadinha, cá dentro ou lá fora.

Maramures, guardada nos Cárpatos

Ana CB, 02.06.22

 

Foi um cemitério que me levou a Maramureș. Chamam-lhe Cemitério Feliz de Săpânța e só o nome já é uma incongruência, mas por mais estranho que pareça este cemitério fez-me atravessar metade da Roménia de propósito para o ir visitar – e descobrir, em jeito de presente inesperado, uma das regiões mais originais da Europa.

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Como país, a Roménia é muito jovem: ainda nem tem 150 anos, e as suas fronteiras só estabilizaram depois da Segunda Guerra Mundial. Uma história secular atribulada, recheada de invasões, lutas, e dependência de múltiplos impérios diferentes, fez da Roménia uma manta de retalhos com várias regiões culturalmente bem diferentes umas das outras. Entre elas, Maramureș é aquele brilhante menos polido, a região em que a ruralidade mais se nota e onde ainda perdura um estilo de vida tradicional. Situada no extremo nordeste do país, paredes-meias com a Ucrânia e resguardada pelos Cárpatos Orientais Interiores, não fica a caminho de nada nem é um curto desvio a partir de algures: visitar Maramureș tem de ser um acto intencional, e este é provavelmente o motivo pelo qual a região é tão pouco apelativa para a maioria dos turistas.

 

 

Uma casa no parque natural

 

Intencional ou não, esta vontade de estar à margem dos circuitos turísticos traz alguns problemas aos visitantes, sobretudo se forem estrangeiros e não falarem romeno. Ou ruteno, uma variante linguística do ucraniano. Saber alemão ou italiano talvez ajude um pouco em certas circunstâncias, mas o inglês não é aqui de grande préstimo. O resultado pode ser quase uma hora à procura de um alojamento mal sinalizado, e que num raio de meros seis quilómetros ninguém parece conhecer. Outro problema é o acesso ao alojamento implicar meter o carro por caminhos de lama e gravilha, que se ramificam de vez em quando e obrigam a andar para a frente e para trás até se encontrar finalmente o atalho certo, enquanto dizemos mal da vida e juramos que só vamos ali ficar uma noite.

 

Mas Maramureș tem sortilégios que a razão desconhece, e de um momento para o outro tudo muda. Na estrada surge uma estrutura de madeira com pilares esculpidos e três pequenos telhados – são assim os portões tradicionais da região – e mais atrás um edifício que parece saído do cenário de um filme. É a Conacul Drahneilor, uma mansão de madeira com vários volumes e pisos, construída segundo a traça e os métodos da arquitectura rural romena: esteios de pedra na base, telhados piramidais revestidos com fasquias de madeira, interrompidos por varandas com sardinheiras e janelas que evocam os famosos “olhos” de Sibiu, reminiscência dos orifícios criados para escoar o fumo nas antigas habitações rurais. E à volta, nada mais do que quilómetros de floresta alpina ondulante, onde predominam carvalhos e abetos. É paixão à primeira vista.

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Nem os desencontros linguísticos matam esta paixão, pois aqui não faltam simpatia e vontade de receber bem. Ser portuguesa também ajuda, porque é a primeira vez que acolhem alguém do nosso país, e não estranho a curiosidade que sempre despertamos – já estou habituada a ser olhada como marciana. Pavel Pop, o proprietário do alojamento, homem enérgico com um farto bigode e uma alegria contagiante, não poupa esforços para mimar os clientes e para se fazer entender. Instala-nos na varanda, com vista para o sol que se afunda atrás das serras, oferece-nos horincă, a típica aguardente caseira feita à base de ameixa que é uma espécie de bebida nacional, e arranja um tradutor, um adolescente de Cluj-Napoca que está ali a passar férias com os pais e fala um inglês impecável. Contente por ter com quem praticar o que aprende em aulas particulares, é ele que vai explicando o funcionamento da casa e o menu do jantar, e ainda sugere alguns pontos de interesse a conhecer na região. No dia seguinte, como o seu ajudante linguístico já viajou para outras paragens, Pavel vai dar-se ao trabalho de conseguir quem lhe traduza uma parte do menu para português, e até o convida para nos vir conhecer: é um amigo de longa data que trabalhou durante vários anos em Portugal e em Espanha, e que mata saudades do nosso país ao conversar connosco. Aquela é a sua terra, mas tem boas memórias dos tempos que passou entre nós.

 

A localização remota de Maramureș fez com que a região tivesse sido pouco afectada pela padronização e colectivização agrícola quase gerais de que a Roménia foi alvo durante o período ditatorial, e por esse motivo conseguiu preservar a maior parte dos seus hábitos e cultura. Nas estradas não é invulgar ver carroças puxadas por cavalos, as rodas de madeira substituídas por pneus em prol da rapidez da deslocação. Algumas casas têm frisos pintados com padrões geométricos, e nos terrenos que as rodeiam há pelo menos uma pilha de feno, amontoada na forma cónica tradicional destas paragens, por vezes com vários metros de altura. Passam mulheres de lenço colorido na cabeça, galochas nos pés, telemóvel no ouvido e ao ombro um ancinho invulgarmente comprido e tosco. Por estes lados as tradições centenárias e a modernidade parecem conviver sem sobressaltos.

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Um comboio na floresta

 

Prova desta modernidade é o facto de a actividade económica que gera mais rendimentos na região ser a extracção mineira – que se desenvolve sobretudo em torno de Baia Mare, a capital administrativa do distrito. Mas Maramureș é terra de florestas, que ocupam quatro quintos do seu total, e é aqui que encontramos a maior zona protegida dos Cárpatos romenos, o Parque Natural das Montanhas de Maramureș, abrangendo uma área de 1500 km2. Não é por isso de estranhar que a madeira seja o material que melhor define culturalmente este território e esteja omnipresente na arquitectura tradicional, nos monumentos religiosos, na expressão artística e nos objectos artesanais. A exploração madeireira faz-se sobretudo junto à fronteira com a Ucrânia, na zona que se alonga entre Sighetu Marmației e Borșa, com um dos seus centros mais importantes em Vișeu de Sus e no adjacente vale do rio Vaser.

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É neste vale que está em funcionamento, desde 1933, uma linha férrea de bitola de via estreita, usada sobretudo para transportar os troncos das árvores cortadas pelos lenhadores até à serração de Vișeu de Sus, onde a economia gira à volta da madeira desde meados do século XVIII. Nas linhas férreas, uma bitola de via mais estreita do que a bitola padrão é geralmente utilizada em terrenos com relevo acidentado, zonas esparsamente povoadas, ou para fins exclusivamente industriais. Com comboios mais pequenos e leves os carris não precisam de ser tão robustos, pelo que levam menos material e tornam-se mais económicos e mais fáceis de instalar e operar. Em 1970 a Roménia tinha uma rede com cerca de 3000 km de mocăniță, vias férreas florestais percorridas por estes pequenos comboios, movidos por locomotivas a vapor, que transportavam carga e pessoas pelas zonas montanhosas de difícil acesso. Actualmente, apenas a linha do Vale do Vaser continua a ser regularmente utilizada, numa extensão de cerca de 60 km floresta adentro, entre Vișeu de Sus e Coman. Apesar das preocupações ambientais, que reduziram o volume de árvores que podem ser abatidas (70% do Parque Natural está abrangido pela rede Natura 2000), a madeira continua a ser o maior negócio desta sub-região, e uma fonte de emprego alternativa à agricultura e à migração. Pelos carris circulam hoje em dia também outros veículos, carrinhas adaptadas com rodas metálicas em vez de pneus, que transportam materiais e pessoas, entre eles os guardas-florestais que patrulham a fronteira do país e vigiam a actividade dos madeireiros, tentando controlar o abate ilegal de árvores. Um artigo publicado no website Recorder.ro em Outubro de 2019 refere que o relatório de uma equipa de investigação, nomeada pelo Estado romeno após pressão da União Europeia, concluiu que entre 2008 e 2018 foram cortados em média 38 milhões de metros cúbicos de madeira por ano no país, dos quais 20 milhões de forma ilegal. Embora a metodologia científica usada para o estudo tenha sido desenvolvida e verificada por especialistas internacionais, este resultado não foi validado pelo Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Florestal (INCDS), que optou por o ignorar alegando falta de validade estatística, e foi fortemente contestado pela Romsilva (a empresa estatal que gere as florestas e as áreas de caça e pesca), que invocou o mesmo argumento. As suspeitas de corrupção no sistema governamental avolumam-se, e o problema do abate ilegal de árvores não parece ter solução à vista.

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Desde 2000, a mocăniță que acompanha o Vaser é também usada, com grande sucesso, para passeios turísticos em composições puxadas por locomotivas alimentadas a lenha. Embora a maior parte dos visitantes de Maramureș sejam romenos, estes passeios tornaram-se muito procurados, e na época alta a procura chega a ser suficiente para encher diariamente três comboios, cada um com várias carruagens, que partem a intervalos de meia hora. Por entre apitos e grandes rolos de vapor, o comboio sai da estação principal e vai seguindo lentamente junto ao rio, trocando de margem de vez em quando. Os primeiros quilómetros fazem-se entre habitações e terrenos cultivados, que depois começam a rarear até desaparecerem por completo e a paisagem se dividir apenas entre a água de um lado e a vegetação abundante do outro – tão abundante que conseguimos tocar nela se estendermos o braço através das janelas sem vidros. Às vezes passamos por pilhas de troncos já cortados, deixados nas margens lamacentas à espera de transporte, outras vezes por uma ponte que mais não é do que um tronco grosso com um corrimão rudimentar, ou ainda por três ou quatro vacas, e só muito raramente por alguma pessoa.

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O percurso para turistas termina a cerca de 20 km do ponto inicial, no apeadeiro de Paltin, onde criaram um parque de merendas junto ao rio. Numa espécie de restaurante aberto, um grupo de rapazes e raparigas vestidos com trajes típicos cozinham e servem meia dúzia de tipos diferentes de grelhados e comidas rápidas, enquanto outros tentam animar os visitantes com uma (não muito imaginativa) exibição de danças tradicionais. O passeio acaba por ocupar quase um dia inteiro, com duas horas de viagem para cada lado em carruagens tremelicantes, que nos chocalham os ossos mal acomodados em bancos estreitos de ripas de madeira, atravessadas pelo ar frio e húmido da floresta, nos ouvidos o barulho constante de metal a ranger contra metal e do arfar ruidoso da locomotiva. Se uma viagem tão curta já provoca desconforto a quem apenas está a passear, nem imagino como será duro o dia-a-dia daqueles que por aqui vivem e trabalham.

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Uma herança religiosa protegida

 

Nas comunidades tradicionais de Maramureș a religião continua a ter grande importância. Tal como no resto do país, a maioria das pessoas é fiel à Igreja Ortodoxa Romena, e as construções religiosas são abundantes. A face mais visível e notável desta herança espiritual secular são as peculiares igrejas de madeira. Numa região onde a construção em altura é despicienda, os campanários descomunais destas igrejas destacam-se acima dos telhados vizinhos como setas apontadas ao infinito – pois quanto mais altas, mais facilmente as preces dos fiéis chegarão aos céus. O seu carácter original é tão forte que oito delas estão inscritas na lista do Património Mundial protegido pela UNESCO. Com um número total que se aproxima da centena, têm várias características em comum: um corpo principal atarracado, que quase desaparece sob um telhado volumoso e por vezes duplo; uma torre sineira esguia, pontiaguda e muito alta, projectando-se a partir da extremidade oeste da construção, por cima da entrada; e pinturas naif nas paredes e tectos interiores, representando cenas bíblicas.

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A maioria destas construções religiosas data dos séculos XVII e XVIII, mas o seu simbolismo é tão forte que desde a democratização do país, várias igrejas têm sido construídas de acordo com os mesmos princípios arquitectónicos. A mais famosa de todas está no complexo do Mosteiro de Săpânţa-Peri e foi terminada em 2013. Os 75 metros entre o solo e o topo do campanário fazem dela a igreja de madeira mais alta do mundo.

 

Este mesmo título pertenceu durante mais de dois séculos à Igreja dos Arcanjos Miguel e Gabriel em Şurdeşti, construída em 1721 e uma obra-prima da engenharia dos mestres-carpinteiros da região: além de totalmente feita de madeira de abeto e carvalho, não tem um único prego de metal. Isolada no topo de uma colina suave e com pouca vegetação à volta, ao vê-la de longe, silhueta escura contra o céu azul brilhante, pareceu-me comoventemente vulnerável – resistindo, sozinha, ao silêncio que a envolve, e ostentando com orgulho os seus 72 metros de altura. Outros pormenores que a distinguem são o alpendre em frente à entrada, com arcos trabalhados e orifícios em forma de coração invertido, e os dois beirais do telhado, com uma outra fileira de arcos ornamentados entre eles. Tanto nas torres como nas paredes exteriores há uma abundância de cruzes, em madeira ou metal, e crê-se que o motivo decorativo da “corda torcida” esculpido em volta do corpo do edifício terá origens muito antigas, na época em que a região era habitada pelos Dácios. Símbolo do infinito, a “corda torcida” faz a ligação entre o céu e a terra, e é um motivo frequentemente usado para invocar a protecção divina, tanto nas construções religiosas como nas casas tradicionais.

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No complexo do Mosteiro de Bârsana, o ambiente é outro. O local é muito popular entre os turistas, tanto nacionais como estrangeiros, e nunca faltam visitantes. O recinto parece mais um jardim do que um mosteiro e inclui uma dezena de edifícios de traça tradicional. É mais um exemplo de como a fé religiosa ortodoxa na região de Maramureș resistiu aos séculos e às perseguições. Na localidade de Bârsana existiu, pelo menos a partir do século XIV, um importante mosteiro, extinto em 1791 quando o território estava sob o domínio do Império Austro-Húngaro, que pugnava pelo catolicismo. Desse mosteiro resta apenas uma igreja – uma das oito classificadas pela UNESCO – que os locais protegeram transportando-a para o coração da aldeia, onde se encontra até hoje.

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A memória do antigo mosteiro permaneceu viva na comunidade, assim como o desejo de o reerguer. O Episcopado Ortodoxo Romeno de Maramureș foi restabelecido em 1937, mas foi preciso esperar até 1993 para que fosse colocada a primeira pedra do actual Mosteiro de Bârsana, consagrado ao Concílio dos Santos Doze Apóstolos. Concebido pelo arquitecto Dorel Cordoș e executado por artesãos locais com os materiais típicos da região – madeira de carvalho e pedras de rio – o conjunto monástico tem florescido em edifícios e popularidade sob a direcção empreendedora da abadessa, Madre Filofteia, secundada por outras nove monjas e um clérigo. O complexo inclui uma igreja, um altar para celebrações ao ar livre, um museu que possui uma notável colecção de livros antigos e ícones, uma torre sineira que acumula as funções de portal de entrada, e várias habitações, tudo inserido num enorme jardim profusamente verde e florido. Um lugar de paz e de comunhão com a natureza, onde a criação humana tem raízes fundas em tradições centenárias perpetuadas por uma comunidade que não dissocia o céu a que aspira da terra que habita.

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Um cemitério singular

 

Numa região tão peculiar como Maramureș, o cemitério que me trouxe aqui não podia ser um cemitério como os outros. Neste lugar não há lápides de pedra tristonha ou cruzes ferrugentas a marcar as sepulturas, nem fotografias sépia dos defuntos ao lado de epitáfios taciturnos. Os sinais que marcam cada campa parecem soldadinhos bem alinhados, cada um deles vestido de cores chamativas para eternizar a memória do finado que homenageia. São cruzes de madeira de carvalho, com os formatos tradicionais das cruzes ortodoxas mas com uma espécie de “telhado” bicudo no topo e uma base alta e larga, pintadas num tom vivo de azul e decoradas com flores e cenas naif relativas ao defunto, tendo por baixo um poema. Estas cenas, reproduzidas com cores primárias simbólicas, ilustram uma característica ou profissão da pessoa, ou a forma como morreu, e as frases que as acompanham são normalmente jocosas, ou até mesmo satíricas. É por isto que lhe chamam o Cemitério Feliz de Săpânța.

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Na pequena comuna de Săpânța (pronuncia-se “sapuntsa”, o som do “u” sendo fechado) nasceu em 1908 Stan Ioan Pătraş, no seio de uma família de artesãos da madeira. Órfão de pai aos 14 anos, foi como marceneiro que passou a sustentar a família. Um dos trabalhos que tinha de executar recorrentemente eram as cruzes funerárias para colocar no cemitério, cuja técnica foi modificando ao longo dos anos: começou por pintá-las de azul – a cor do céu almejado pelos crentes – depois passou a decorá-las com motivos florais e pequenos poemas irónicos, e mais tarde a esculpir na madeira figuras em relevo alusivas à vida da pessoa a quem cada cruz se destinava. A origem desta inspiração permanece ainda hoje um mistério.

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Na Dácia, que na geografia da Antiguidade abrangia territórios a norte do Danúbio e leste do Mar Negro, incluindo os Cárpatos, os cultos pagãos perduraram até tarde, e o cristianismo só fez a sua entrada na região por volta do século V. Os Dácios prestavam culto ao deus Zalmoxis, que prometia a imortalidade da alma, e por isso a morte era para eles não o final da vida, mas apenas a transição para um mundo melhor. Este espírito descontraído em relação à morte ainda permanece de alguma maneira imbuído nas gentes de Maramureș, para quem a ideia de celebrar a vida dos defuntos não é uma noção estranha ou mórbida. As pessoas são recordadas com saudade, mas também com alegria, e o cemitério de Săpânța é disso o maior testemunho.

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Algures nos anos 50, o carácter peculiar deste cemitério chamou a atenção de um grupo de franceses que passou por Săpânța. Foi a partir dessa altura que o local começou a ser referido como Cemitério Feliz, e que a sua fama ultrapassou as fronteiras. Quando Stan Pătraş morreu, em 1977, o fluxo de visitantes estrangeiros já era regular e foi aumentando com os passar dos anos. Actualmente, é sem qualquer dúvida o lugar mais turístico da região. Na estrada de acesso há barraquinhas que vendem as habituais recordações de viagem, à mistura com artigos produzidos artesanalmente. A entrada no cemitério é paga, embora o valor do bilhete seja quase simbólico. Os proventos do turismo e as doações contribuíram para a renovação da Igreja da Natividade da Mãe de Deus (ou Igreja da Assunção), uma igreja insípida erigida em 1886 que agora é uma ode à cor e à arte local, com os seus telhados de cerâmica vidrada com grafismos coloridos e as paredes exteriores preciosamente decoradas com pinturas e mosaicos em que o dourado predomina, cintilante sob o sol.

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Das cerca de mil cruzes que hoje existem no cemitério, à volta de 700 terão sido esculpidas por Pătraş – incluindo a que assinala a sua sepultura, em frente à entrada da igreja. Este é o epitáfio que escreveu para si próprio:

 

Desde muito pequenino

Stan Ion Patrash foi meu nome

Ouçam-me enquanto passam

Pois o que digo é verdade

Todos os dias da vida

Nunca mal eu desejei

Pois apenas fiz o bem

A todos quantos eu pude

Ai que mundo tão ruim

Em que viver foi tão duro

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A casa em que Stan Ioan Pătraş trabalhava, dentro do cemitério, é hoje um museu-oficina. Antes de morrer, o artesão designou como seu sucessor Dumitru Pop Tincu, um dos seus aprendizes. É ele que continua a manter viva a tradição do seu mestre, apoiado por alguns ajudantes, sendo ao mesmo tempo escultor, pintor e poeta. Cada cruz continua a ser feita exclusivamente à mão e demora entre dois a três meses para ficar pronta. Dumitru faz 30 ou 40 por ano, algumas delas para forasteiros nacionais ou estrangeiros, ou até mesmo para museus. Além disso, dá aulas na Escola Popular de Arte, e cria as suas próprias pinturas e esculturas para as exposições em que o convidam recorrentemente a participar em todo o mundo. Defensor da originalidade do trabalho que herdou e perpetua, orgulha-se da identidade singular da região em que vive, dos seus usos e costumes e da sua arte popular, que quer manter a salvo da globalização. E diz que a Roménia é o único país onde as pessoas se riem da morte.

 

Mesmo para quem não perceba nada de romeno e por isso não consiga ler os epitáfios divertidos sobre os defuntos, muitas das cenas ilustradas nas cruzes do cemitério apelam só por si ao sorriso – as imagens são uma linguagem universal. Nas campas, simples rectângulos debruados com pedra, estão plantadas flores e pequenos arbustos, e algumas cruzes têm penduradas coroas de flores artificiais. Todo o cemitério é uma explosão de cor e alegria, duas características que habitualmente estão ausentes dos lugares onde depositamos os nossos mortos. Mas não aqui. No Cemitério Feliz de Săpânța celebra-se a vida em vez da morte, e os sorrisos são mais do que as lágrimas.

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Este local controverso é, afinal, talvez o que melhor ilustra a essência de Maramureș e das suas gentes: a maneira como equilibram a espiritualidade, traduzida nas fortes convicções religiosas e na continuidade de tradições ancestrais, com a matéria, subsistindo na dependência da terra e adoptando a simplicidade de um modo de vida em simbiose com a natureza. Num mundo cada vez mais uniformizado, manter este equilíbrio não será tarefa fácil.

 

(Também publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Estradas

Ana CB, 31.03.22

 

É unânime que a invenção da roda foi um dos acontecimentos mais importantes para a evolução da humanidade, sobretudo quando mentes brilhantes se lembraram de aplicar o conceito na criação de meios para o transporte de cargas pesadas. Mas pouca importância é dada ao facto de que essa invenção acabou por arrastar com ela uma outra: a da estrada.

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As estradas são um paradoxo: entidades estáticas, a sua função principal (quiçá única) é facilitar a movimentação – das pessoas e das “coisas”. Imóveis, levam-nos a quase todo o lado. Podemos percorrê-las a pé ou numa variedade de meios de transporte diferentes, mas impelem-nos sempre a avançar. Ninguém fica simplesmente parado no meio de uma estrada. Se queremos parar, saímos dela. Podemos ficar na berma, a olhar para quem passa, ou sentar-nos a descansar, ou fazer qualquer outra coisa, mas sempre à margem. Uma estrada pede progressão, não imobilidade.

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A estrada pavimentada mais antiga que sobreviveu parcialmente até aos nossos dias ligava um cais nas margens do Lago Moeris à pedreira de Widan el-Faras, de onde era extraída a pedra basáltica para as câmaras mortuárias das Pirâmides de Gizé. Com cerca de dois metros de largura e composta por lajes de arenito e rocha calcária à mistura com madeira petrificada, calcula-se que date de pelo menos 2500 a.C., mais século menos século. Mas sabe-se, por exemplo, que na Mesopotâmia já se pavimentavam ruas desde 4000 a.C.

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Gizé

 

No entanto, é aos Romanos que o nosso imaginário associa a construção em massa de estradas. A calçada romana tinha quatro estratos diferentes de materiais e era feita para durar e facilitar a expansão do império, reduzindo o tempo de deslocação das colunas militares e melhorando a comunicação entre as grandes cidades que se iam criando por todo o território ocupado. Desde cerca do ano 300 a.C. e até ao declínio do império, dizem os livros que foram construídos por todo o território cerca de 80 mil quilómetros de estradas pavimentadas. Muitas delas foram continuadamente usadas e reestruturadas até aos dias de hoje; de outras, há troços que subsistem na sua forma praticamente original. Indiferentes aos recuos e avanços civilizacionais ao longo dos séculos e aos desfasamentos técnicos entre as várias regiões e culturas do nosso mundo, as estradas persistiram e foram ganhando cada vez mais importância e presença no planeta Terra, e hoje já não saberíamos viver sem elas.

Ponte romana de Vila Formosa (Alentejo)

 

As estradas são como as pessoas (ou não fossem elas uma invenção nossa!). Umas adaptam-se a cada sobressalto no relevo do terreno: curva para a esquerda aqui, cotovelo para a direita ali, contornam milimetricamente precipícios, lançam-se às alturas das montanhas, esgueiram-se por desfiladeiros que mais parecem buracos de agulha. Outras são impetuosas e cortam a direito por onde passam, rasgam túneis, esventram colinas, abatem árvores, compactam dunas. Outras ainda comportam-se com moderação, ora limando uma ruga orográfica, ora fazendo a ponte sobre um vale apertado ou sobre um rio que não convém incomodar.

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Para lá da sua utilidade facilitadora de movimentos militares e comerciais, as estradas tornaram-se também um “objecto de culto” para quem viaja em lazer. A literatura está cheia de obras épicas (ou nem tanto!) que contam histórias de viagens sobre rodas em estradas intermináveis e têm tanto de jornada de descoberta exterior como interior. O famosíssimo “Pela Estrada Fora”, de Jack Kerouac, trouxe para a ribalta a não menos famosa (e entretanto parcialmente alterada) Route 66 americana, que tinha sido criada em 1926. Os “Diários de Motocicleta” de Che Guevara descrevem uma viagem de 12 mil quilómetros da Argentina ao Peru. O “Na Patagónia”, independentemente da polémica gerada à volta do facto de Bruce Chatwin ter (segundo parece) inventado algumas das suas personagens, permanece uma belíssima narrativa de aventuras nos confins da geografia sul-americana, desde Rio Negro até Ushuaia. O mais recente “Clanlands”, dos outlanders Sam Heughan e Graham McTavish, passeia-nos pelas Terras Altas escocesas e pela sua cultura, entre histórias e diálogos cheios de humor. E o também relativamente recente “Na Planície das Serpentes”, desse “monstro” da escrita de viagens que se chama Paul Theroux, é um relato sem filtros sobre um México multifacetado, dilacerado entre a realidade dura da violência e a sua fantástica e antiquíssima cultura.

 

As minhas primeiras memórias de viagens são, precisamente, as de viajar de carro com os meus pais e a minha irmã. Naquela altura, mesmo em distâncias que hoje consideramos curtas, viajar em Portugal implicava sempre várias horas para chegar ao destino e uma preparação complicada, que envolvia farnel, almofadas para dormir no banco de trás, e sacos com material para todas as eventualidades – mesmo que fôssemos apenas às Caldas da Rainha para comprar fruta e visitar a família e regressássemos no mesmo dia. Desde então, perdi a conta às viagens que fiz por estrada, e viajar de carro permanece uma das minhas formas favoritas de conhecer mundo.

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Independentemente de nos levarem a lugares mais ou menos desejáveis, há estradas que por si só valem uma deslocação propositada para viver a experiência de as percorrer. Porque têm características únicas, porque são belas, porque nos transmitem uma sensação de encantamento, ou porque estão carregadas de História e de significado. Em Portugal, a mais famosa é certamente a N222, não só pelo seu célebre troço entre Peso da Régua e Pinhão – que lhe valeu o título de “World Best Driving Road” atribuído segundo o estudo de uma famosa empresa de aluguer de carros – mas por unir o país na quase totalidade da sua largura, entre Vila Nova de Gaia e Almendra, e acompanhar o Douro em partes do seu itinerário.

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A N222 em Foz Côa

 

Mas há várias outras estradas que me levam a querer voltar a elas uma e outra vez, e me deixam com saudades assim que as abandono. Na N304, percorrer as curvas e contracurvas do troço entre Mondim de Basto e a Campeã é ver no pára-brisas um filme sobre a grandiosidade do Parque Natural do Alvão. No Maciço da Gralheira, ziguezagueando no gume da montanha pela Estrada do Portal do Inferno, sinto-me uma funambulista em equilíbrio no arame. A M518 dá-me acesso à frescura da Fraga da Pena e depois à Mata da Margaraça, que é “só” uma das matas portuguesas mais antigas e notáveis, onde o ambiente é quase irreal. No Alentejo das estradas sem fim, na N246-1 perto de São Salvador da Aramenha há uma recta de um quilómetro em que freixos com 200 anos formam um túnel que parece dar acesso a uma outra dimensão.

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Portal  do Inferno

 

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Mata da Margaraça

10 N246-1 Alameda dos Freixos.JPGN246-1 Alameda dos Freixos

 

Além-fronteiras, entre uma longa lista de estradas que ainda sonho percorrer, há algumas que guardo na memória em lugar especial. Na Costa Rica, um autocarro levou-me (durante quase duas horas para cobrir apenas 90 km) de La Pita a Libéria, sobre um pequeno fragmento desse colosso de muitos milhares de quilómetros que é a Estrada Pan-Americana. Na Roménia, naquele que foi provavelmente o dia de condução mais cansativo de toda a minha vida até agora, desafiei-me a percorrer a icónica Transfăgărășan, cujo ponto mais alto fica acima dos dois mil metros: 151 km através das montanhas, dos quais 90 são de curvas e contracurvas constantes. Um desafio, sim, mas também uma satisfação, porque esta é realmente uma das estradas mais espectaculares do mundo, a todos os níveis. Mais perto, em terras dos nossos vizinhos, a parte cantábrica da N-621 inclui o desfiladeiro de La Hermida, 21 km acompanhando o rio Deva entre paredes de rocha que parecem tocar o céu, e mais para sul cruza a imensidão azul da barragem de Riaño. Na Camarga francesa, entre Aigues-Mortes e Le-Grau-du-Roi a estrada é apenas uma fita de asfalto, completamente recta e plana, rodeada de pântanos e salinas a perder de vista. Quando estive na Croácia, aconselharam-me a esquecer a auto-estrada no trajecto de Split para Dubrovnik e optar pela número 8, que segue o recorte da costa adriática e é de uma beleza fora de série – e eu segui o conselho. Ao lado, no Montenegro, não me arrependi de ignorar o ferry e continuar pela estrada que contorna a Baía de Kotor: o que se perde em tempo, ganha-se em paisagem que enche a alma. E em Itália, a SR2 entre Torrenieri e Bagno Vignoni, na região do Val d'Orcia, superou em muito tudo o que já tinha visto das paisagens toscanas em fotografia ou filme.

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A Pan-Americana na Costa Rica

A Transfăgărășan na Roménia

 

A N-621 na Cantábria

 

Camarga, sul de França

 

A Baía de Kotor, no Montenegro

 

Val d'Orcia, na Toscana

 

Para quem gosta de viajar, as estradas são dádivas dos deuses. Mais do que uma viagem de comboio ou de barco, e certamente muito mais do que uma viagem de avião, viajar por estrada dá-nos toda uma outra liberdade de movimentos e de tempo, e um contacto muito mais próximo com os lugares por onde passamos, com os seus pormenores, as suas características particulares e as suas pessoas. Permitem-nos o acesso a um mundo feito de tantas gentes e culturas diferentes, tantas obras de arte naturais ou construídas, e tantas idiossincrasias, que vai muito para lá do que julgamos ser possível existir – este mundo cheio de maravilhas, e também de desgraças, que é o nosso.

 

Chinesices

Carlos Barbosa de Oliveira, 17.04.09

Nos anos  80, do século passado, quando um ocidental viajava entre Lisboa e Roma, era-lhe servida uma refeição com entrada, prato, sobremesa e mais alguns apêndices, que podia acompanhar com vinho. Na mesma época, o mesmo ocidental que viajasse na China Airlines entre Cantão e Pequim (viagem aproximadamente com a mesma duração)  escarnecia dos chineses, por servirem uma refeição composta por uma sandocha e um sumo.

Actualmente, numa viagem entre Cantão e Pequim os passageiros têm uma refeição completa que pode ser acompanhada com vinho. No entanto, se o mesmo passageiro fizer a viagem entre Lisboa e Roma, ao final da tarde (hora de jantar) recebe apenas uma sandocha e um sumo. Como reage hoje o ocidental? Critica a opulência do serviço da China Airlines!