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Jornada de "doutrinação patriótica"

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.05.18

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No primeiro fim-de-semana de Maio, correspondendo a um convite do Gabinete de Ligação do Governo Popular Central na RAEM, um grupo de advogados de Macau deslocou-se às cidades de Dongguan e Huizhou. A ocasião foi aproveitada para pequenos encontros com as organizações congéneres e visitas a uma das muitas empresas tecnológicas da "Grande Baía Guangdong/Hong Kong/Macau" e alguns locais de interesse histórico e turístico, completados com momentos de confraternização e convívio entre quem em regra não se encontra regularmente devido aos afazeres quotidianos.

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O Gabinete de Ligação tem aproveitado estes encontros para fazer passar as suas mensagens, "politicamente correctas", aproveitando para melhor conhecer os advogados locais e dar-lhes a oportunidade de se inteirarem de outras realidades da China que lhes são pouco acessíveis. Na linha, aliás, daquela que tem vindo a ser uma chamada de atenção recorrente nos últimos tempos por estas paragens, assim aproveitando a deslocação para levar os convidados, na sua maioria cidadãos chineses jovens, a locais de interesse histórico, dessa forma também sublinhando a necessidade de alargar-lhes o conhecimento da história contemporânea da R.P. da China e dos seus protagonistas como forma de aprofundarem o "amor pela pátria".

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O programa delineado permitiu, igualmente, a quem não tem necessidade, ou dispensa, tais aprofundamentos patrióticos, a oportunidade de visitar locais que não são facilmente acessíveis em jornadas independentes, permitindo ao mesmo tempo acompanhar o desenvolvimento da paisagem urbana, da sua rede de transportes e estradas e das mudanças que a um ritmo impressionante vão ocorrendo. Aquilo que há pouco mais de duas dezenas de anos eram espaços rurais, distantes dos novos mundos tecnológicos e digitais, são hoje cidades modernas, com largas e extensas avenidas, espaços verdes e veículos modernos e muito menos poluentes do que aqueles que constituíam a generalidade dos moventes motorizados. As próprias fábricas são actualmente espaços modernos, organizados e limpos, sem cheiros, robotizados e com tudo o que há de mais avançado, com uma arquitectura agradável à vista e em bairros arborizados. Em Dongguan é produzido um em cada seis dos telemóveis vendidos no mundo. Na fábrica onde estivemos, a Janus Intelligent Group Corporation Limited, empresa cotada na Bolsa de Shenzhen que tem parceiros como a Siemens, a Mitsubishi e a Huawei, há apenas 31 trabalhadores, mas no ano passado obteve, de acordo com os números fornecidos, lucros da ordem dos 600 milhões de yuan.    

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Dongguan é uma cidade com cerca de sete milhões de habitantes, dos quais mais de cinco milhões vieram de outras áreas do interior do país, como aliás aconteceu com muitas outras das novas cidades que se tornaram em portas de ligação ao exterior e focos de captação de investimento estrangeiro, o que explica que seja cada vez maior a predominância do Mandarim na comunicação do dia-a-dia. Com uma moderna rede de metro, subterrânea e de superfície, a cidade apresenta-se bem organizada, com muitos centros comerciais e lojas de cadeias internacionais, com bairros e condomínios esteticamente arrojados que vão substituindo as velhas construções que marcaram toda a segunda metade do século XX, inúmeros restaurantes e zonas de diversão nocturna, exibindo um parque automóvel digno de qualquer cidade europeia economicamente desenvolvida. Até em Huizhou, que é bastante mais pequena do que Dongguan, e onde ficámos a dormir num moderno, confortável e luxuoso hotel, mesmo para os padrões internacionais e pese embora o manifesto mau gosto – os interiores eram uma espécie de Palácio de Versalhes moderno –, foi possível aperceber-me da velocidade do desenvolvimento, da riqueza gerada e da presença de muitos profissionais ocidentais expatriados. A vasta rede de estradas e auto-estradas construída nas últimas duas décadas, e o desenvolvimento ferroviário, com milhares de quilómetros de alta velocidade, permite que viagens de 200 ou 300 km, que antes levavam dias inteiros por estradas poeirentas e esburacadas, se façam agora em não mais do que duas ou três horas, ganho especialmente importante quando as distâncias são muitas vezes proporcionais à dimensão do país e ao número dos seus habitantes. 

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Todavia, também continuam bem presentes os sinais do persistente atraso cultural – continua a haver muito lixo mal acondicionado e largado nas ruas, para além de maus cheiros, nas ruas e vielas menos frequentadas. Pelo que me apercebi, o desenvolvimento irá prosseguir sem grande abertura e sujeito a muito controlo: a censura continua presente sendo impossível aceder a alguns sites de notícias ou a aplicações do tipo "Facebook" ou "WhatsApp", desactivadas assim que cruzamos a fronteira. Uma outra mudança de que dei conta foi com o aumento do controlo fronteiriço em Gongbei. No mês passado, por duas vezes, tive necessidade de me deslocar ao outro lado. Desta vez comprovei a introdução de novas máquinas para recolha de dados biométricos logo no momento da exibição do passaporte, no posto fronteiriço. A comunicação em inglês continua a ser difícil quando não praticamente impossível. No restaurante de um dos hotéis, de cuja ementa só estavam disponíveis um quinto dos pratos oferecidos, a comunicação fez-se com o auxílio de um tradutor de bolso do pessoal. Gente, diga-se de passagem, simpática e que queria a todo o custo ser prestável e atenciosa embora sem saber muito bem como. 

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Tendo viajado a convite de uma entidade oficial e integrado numa delegação, não podia, obviamente, gozar da liberdade de movimentos a que estou normalmente habituado, sujeitando-me a percursos e, em especial, a horários de refeições que estão a anos-luz daqueles que pratico. Isso não impediu, contudo, a sempre salutar troca de impressões entre quem convidou e os convidados. 

Sem um esforço de compreensão do outro, ainda que muito discordemos das suas ideias, preconceitos, crenças ou imposições superiores não é possível dialogar, esperar que nos ouçam ou que sejam sensíveis a outras visões e culturas. Mas este é o único caminho para se poder avançar no entendimento mútuo, diminuir distâncias e construir pontes que se possam revelar mutuamente úteis.

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A campanha do Presidente Xi Jinping, em matéria de asseio e higiene das casas de banho, continua muito distante dos objectivos, sendo notória a falta de sabonetes, líquidos ou sólidos, de papel higiénico, toalhetes ou secadores de mãos em muitos locais de passagem de forasteiros.

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A iniciativa do Gabinete de Ligação incluiu ainda uma jornada de "doutrinação patriótica". No âmbito desta teve lugar uma visita ao Forte de Weyuan, no estreito de Humen, no Rio das Pérolas, que foi uma defesa costeira construída em 1835, utilizada durante as Guerras do Ópio e que apesar de estar em ruínas merece uma visita aos seus canhões, bem como ao Parque Memorial e à casa do general Ye Ting (Huyiang, 1896/Shanxi, 1946), herói nacional de origens camponesas que se formou na Academia Militar de Baoding, membro do PCC a partir de 1924, figura chave no levantamento de Nanjing, em 1927, e comandante do 4.º Exército na Guerra Sino-Japonesa, o que o guindou a herói nacional.

A viagem terminou com uma visita ao Museu e à Montanha de Luofu, uma das montanhas sagradas do Taoísmo. A subida, realizada em teleféricos para duas pessoas e com condições de segurança rudimentares, dura 21 minutos e vai quase até ao cimo da elevação (o resto do percurso é feito a pé). As vistas que do topo se alcançam são soberbas, estando o local cheio de pássaros e coberto por uma densa e luxuriante vegetação que valem bem o esforço e o custo.

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dias laus (5)

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.04.18

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Como tinha planeado regressar a Luang Prabang, deixei vários locais de interesse histórico e cultural para visitar na viagem de volta. Arrumada a pequena maleta e a mochila que nestas ocasiões me segue, pedi para nos arranjarem um transporte para nos levasse ao aeroporto. Estava fora de questão rumar à capital por estrada. Solícito, o rapaz da recepção deu-me conta de que a partir da terceira noite o transporte é gratuito, o que se torna sempre agradável de ouvir apesar de me deixar com a consciência a pensar que será necessário reforçar as gorjetas na hora da partida. Num país em que o salário mínimo deverá ser aumentado em 1 de Maio p.f., para 1.100.000 kips, o equivalente a mais ou menos USD 132, ou seja, € 105,00, apesar de na capital os salários serem em média o dobro, pode-se imaginar a satisfação de quem vê alguns milhares de kips ou meia dúzia de dólares entrarem na caixinha para serem distribuídos no Ano Novo.

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A Lao Airlines tem vários voos diários entre as principais cidades. A empresa foi fundada em 1976, em resultado da fusão da Royal Air Lao e da Lao Air Lines, operando a partir de 1979 como Lao Aviation. Os obsoletos aviões chineses e os russos e assustadores Antonov AN-24 foram entretanto substituídos pelos ATR 42. Actualmente, a Lao Airlines utiliza os ATR-72, dos quais tem 7 aviões, e 4 Airbus A320-214. Foi num destes que fiz dois voos, serenos, não obstante dispensar as alturas.

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Um amigo que esteve algumas vezes no país tinha-me dado o contacto de um colega de profissão que me poderia ser útil e que acabaria por me transmitir algumas indicações sobre restaurantes em Vienciana. Quando há um ano e pouco estive em Phnom Phen tinham-me dito que a cidade tinha pouco interesse, o que se revelaria errado. Daí que, desta vez, depois de consultar algumas fontes tivesse decidido alargar a minha estadia em Vienciana. Um dia parecia-me pouco, dois dias poderiam chegar, mas como não me apetecia andar a correr, a solução de ficar três dias completos na cidade começou a fazer sentido.

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A cidade foi construída nos bancos do Mekong. O rio faz a fronteira com a Tailândia. Fez parte do império Khmer, no século X. Com a queda de Angkor passou por diversas fases submetida ao controlo de vietnamitas, birmaneses e tailandeses, depois tornou-se na capital de Lang Xang. Entretanto, assistiu a vários conflitos até à instalação dos franceses, a partir de 1867. A guerra civil e os golpes de estado da década de 60 do século passado colocaram o país no mapa dos conflitos da Guerra Fria, e Vienciana encheu-se de espiões, mercenários, correspondentes estrangeiros e bares. A deposição da monarquia trouxe consigo a limpeza dos lupanares e a instalação do regime comunista.

Hoje em dia faz-se sentir em larga escala a influência chinesa, em particular na construção civil e na renovação da rede viária. Os traços da presença francesa continuam a ser inúmeros. Nos edifícios oficiais, nas casas privadas que sobreviveram à destruição das guerras, na gastronomia e nas placas dos edifícios públicos está sempre presente.

Ia com a ideia de fazer uma visita ao Museu Nacional, que tinha indicação de estar num edifício colonial e rodeado de magnólias. Apesar de me terem dito que seria uma espécie de museu da revolução fiquei com curiosidade, não satisfeita em virtude de ter mudado de instalações e das novas ainda estarem encerradas.

Em matéria de edifícios oficiais e monumentos públicos continua a ser manifesto o desleixo e desinteresse de quem lá está a vender bilhetes, aliás típico de sociedades em que é predominante o dirigismo “controleiro” de Estado. Até no famoso Arco do Triunfo, os objectos à venda, que dir-se-ia saídos da revolução chinesa de 1949 ou da antiga RDA, a imagem dos funcionários sonolentos dormitando sobre as bancadas de produtos típicos da região, não manifestando qualquer incómodo pela presença de turistas e viajantes e sem manifestarem interesse na promoção e venda dos muitos produtos, são reveladores da paragem no tempo. Reparei, inclusivamente, por mero acaso, no caminho entre o Palácio Presidencial e o referido monumento, ex-libris da cidade, que havia um centro comercial a fazer-me lembrar as lojas do povo e armazéns populares que encontrei na China quando aí estive pela primeira vez há mais de 30 anos e onde raramente conseguia comprar alguma coisa que não fosse fancaria.

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Porém, este estado de coisas convive aparentemente bem com os muitos automóveis das gamas média e alta da Lexus, Toyota, Mazda, BMW, Mercedes e Porsche. Houve mesmo um Rolls Royce de vidros fumados que vi circular por Vienciana, fazendo-me lembrar o que também encontrei há tempos no Camboja. Por comparação com o Vietname, que é o maior e mais poderoso país da região que foi colonizado pelos franceses, há mais excessos e diferenças mais chocantes no Laos e no Camboja, até porque estes países são mais pequenos, mais pobres e estão mais atrasados (pelos nossos padrões).

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Algumas alamedas largas ao estilo francês, uma mão cheia de bons restaurantes, por vezes com preços disparatadamente elevados para o nível de vida local, como os recomendados L´Adresse de Tinay ou o Pimentón, este com óptima carne argentina, excelentes tapas e bom vinho, mas a preços superiores aos de Lisboa ou de steakhouses de Banguecoque, e não obstante cheio de expatriados e visitantes coreanos, japoneses, na maioria mulheres jovens e casais de namorados, e singapurenses, conferem à cidade um ambiente ao mesmo tempo de um cosmopolitismo estranho e acolhedor.

O meu contacto local acabou por não se despachar a tempo de jantar connosco e muita coisa ficou por esclarecer. Fiquei com a impressão de que há muito investimento estrangeiro a chegar. Da Europa e também da América do Sul, que discute a primazia com chineses, franceses, canadianos e empresários de outros países da região, em especial vietnamitas. No sector bancário e nos anúncios de algumas sociedades isso é evidente. O jogo poderá ter alguma influência nisto mas aquela mistura de sósias de Donald Trump com calças aos quadrados, vendedores de torneiras alemãs de primeira linha, tipos com ar de “agentes semi-secretos” franceses e encarregados de obras de bigode farfalhudo do Leste europeu, acompanhados de tailandesas e laocianas minúsculas em restaurantes franceses, fez-me recuar algumas décadas e a momentos vividos há muitos anos em Manila ou Saigão (Ho Chi Min).

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O Wat Si Muang, o Patuxai (Arco do Triunfo) e Pha Tat Luang, o mais importante símbolo do Budismo e da soberania laociana, bem como o That Dam, situado muito próximo da antiga Embaixada dos EUA e cujo ouro da cúpula terá sido pilhado pelos siameses no início do século XIX, ou, ainda, o Buddha Park, mas este com algumas reservas devido aos pouco mais de 30km do centro da cidade e ao facto de ser de construção recente, valem uma visita.

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Os templos mais importantes foram reconstruídos com a ajuda externa; outros são de construção nova e de gosto duvidoso, por isso também com pouca história, interesse cultural praticamente nulo e a que se vai por mera curiosidade. O Night Market, junto ao rio, local onde ao final da tarde muitos se juntam para tomarem uma cerveja, namorarem, observarem o pôr-do-sol ou animadas sessões de ginástica, acompanhadas por uma música de dança estridente, é bastante concorrido. Aí é possível comprar quase tudo o que se imagina. De artesanato local, tecidos e panos típicos de algodão e seda de excelente qualidade, a calças “Elvis Strass” e mochilas “Ferari”, bolos ou material informático, há de tudo. Ultimamente surgiram alguns cafés com design inovador e wifi, bom café, pão de muito boa qualidade, belísimos croissants, doçaria francesa e saborosos gelados. O mais conhecido destes todos todos talvez seja o Joma Bakery Café, popular entre os jovens e residentes estrangeiros e que o meu colega laociano desde logo me recomendou.

O regresso a Luang Prabang permitiu-me, aproveitando o tempo soalheiro, descansar mais alguns dias, passear despreocupadamente pelas suas ruas e becos, visitar pequenas indústrias de artesanto local e passear cedinho pelos templos mais antigos. A cerimónia do Tak Bat, ou Alms Giving Cerimony, que também acontece na Tailândia e noutros países da região, em que os monges caminham pelas ruas e vão recebendo as oferendas dos fiéis e transeuntes, tornou-se obrigatória nos roteiros turísticos e tem lugar por volta das 6h. Apesar dos muitos avisos, há quem continue a não perceber a necessidade de respeito pelo ritual, por esse e outros, confundindo-o com uma vulgar exibição para turistas a quem tudo é permitido numa terra de “cafres”.

Volvidos estes dias, preparando-me para regressar, ao fechar a porta do quarto que nos foi destinado na última noite, com o nome de Paul Néis, o médico da Escola de Medicina Naval de Brest que explorou a Indochina e ajudou a delimitar as fronteiras sino-vietnamitas, recebendo a medalha de ouro da Sociedade de Geografia de Paris e a Legião de Honra, não pude deixar de me sentir imensamente grato pelo que estes dias me proporcionaram. E de recordar aquela frase de Mark Twain que Theroux reproduziu (A Arte da Viagem), e que desde há anos, de tão verdadeira, me vem tantas vezes à cabeça: “a viagem é fatal para o preconceito, a intolerância e a estreiteza de espírito (...). Visões largas, sadias e benevolentes de homens e coisas não se podem adquirir vegetando toda a vida num cantinho da Terra”.

Bendito Laos. Que os deuses e os homens o protejam.

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Dias laus (4)

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.04.18

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Num mundo em que a maior parte de nós vive em urbes descomunais, com o ar altamente poluído, rodeados por gente ruidosa, com pouca paciência e afligida por imensos problemas, uma das poucas escapatórias para alguns momentos de paz e sossego é o contacto com a natureza. A realização de passeios em grandes espaços, respirando um ar tão puro quanto possível, observando a vida de outros seres que connosco partilham este espaço ínfimo do Universo sem interferir no seu quotidiano e respeitando o seu espaço acaba por ser uma actividade profundamente recompensadora e até certo ponto económica pelo relativo baixo custo face aos benefícios proporcionados.

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Creio que a maioria das pessoas que viaja pelo Laos, para além de dedicar atenção à cultura local, à visita de monumentos, alguns (poucos e pobres) museus, e aos múltiplos templos, vai em busca da paz e do silêncio que as montanhas e os seus rios proporcionam. Há, também, quem se dedique a passeios em veículos todo-o-terreno, de jipe, de mota e de bicicleta, também de elefante, que é uma outra espécie de 4x4 e com os quais há quem organize as coisas de maneira a que se tome banho com os paquidermes, ou de caiaque. Mas mas para mim os melhores momentos, em qualquer local, acabam por ser os vividos por cima ou debaixo de água e em longas caminhadas a pé, embrenhado no meio do verde e desfrutando de vistas magníficas, com tempo para parar, sentir que mergulho os meus olhos e todo o meu corpo nessa, por vezes, pacífica e silenciosa imensidão de espaços feitos de dias que de longos se fazem curtos e de onde saímos sempre com saudade e com a esperança de que se repetirão em breve.

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Não podendo ir a Vang Vieng e Savannakhet ou à procura dos tigres no Parque Nacional de Nam Et-Phou, um espaço de 420.000 hectares onde é possível ver os últimos exemplares da espécie, cingi-me a algumas voltas nas proximidades de Luang Prabang e de Vienciana. Os passeios e cruzeiros no Mekong e no Nham Khan, de que já aqui dei conta, são ideais para se ver a vida no rio e nas suas margens, havendo hoje uma oferta relativamente ampla quanto a esta matéria e a preços muito razoáveis. Cerca de 20 USD por um passeio no rio para duas pessoas durante cerca de 3 horas pareceu-me francamente acessível, embora esse valor seja uma fortuna para os padrões locais e eu também veja no que me foi cobrado uma pequena contribuição, que dou com gosto, para o desenvolvimento do país.

Um conselho recorrente e que convém ter sempre presente: o Laos continua a ser um dos países mais minados do mundo e onde o trabalho de limpeza continua muito atrasado devido à escassez de meios. Fora dos centros mais turísticos as pessoas não deverão afastar-se dos caminhos delimitados para evitarem acidentes.

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Nas cercanias de Luang Prabang as deslocações são fáceis, mas para quem chega e tem pouca informação é preferível contactar um dos muitos operadores locais. Os preços variam e nem sempre, ao contrário do que acontece noutros locais, as ofertas dos estabelecimentos hoteleiros são as mais caras. Em duas ocasiões, nos hotéis onde pernoitei, vi preços mais baratos para o aluguer de veículos com motorista do que em agências de rua, embora haja prospectos dos operadores mais importantes que se repetem e surgem em todo o lado. Convém ter em atenção que há períodos do ano em que os preços sobem, como entre Dezembro e Março, melhor altura para se visitar o país, ou agora entre a segunda e a terceira semana de Abril por ocasião das celebrações do Ano Novo. O serviço prestado é em regra sério e profissional, o que é completado pela afabilidade e gentileza do povo.

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Há grutas, muitas com imagens de budas, quintas, algumas dedicadas à recuperação de animais, e num dos locais mais visitados do país, nas famosas cascatas de Kuang Si* – cujas águas ganham diferentes tonalidades, predominantemente turquesa e verde-esmeralda, em razão dos minerais que transportam e onde muitos aproveitam para se banharem –, dei com um centro de recuperação e protecção de ursos. De manhã tive dificuldade em localizá-los, mas à tarde, fazendo eles a sua sesta, deitados em pequenas plataformas, esteiras de baloiço ou brincando entre si, foi possível observá-los.

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Em redor das cascatas existem percursos bem assinalados, havendo a possibilidade de se subir pelo caminho talhado na montanha até um pequeno lago que dá acesso à sua nascente. Convém levar calçado e roupa adequados. Por isso mesmo também existem, logo nas proximidades dos primeiros lagos, uns balneários rudimentares em madeira apenas para que seja possível mudar de indumentária.

 

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O caminho até Kuang Si é feito por estreitas e pouco sinuosas estradas, alcatroadas, o que é uma bênção pois que noutros locais o pó era tanto e tão fino que se entranhava em todo o lado, nas narinas, na garganta, nos olhos e nos equipamentos electrónicos, o que ao fim de algumas horas se pode tornar num verdadeiro pesadelo.

Fui aconselhado a fazer essa jornada depois das 11 horas, visto que o tempo estava fresco e de maneira a apanhar o calor do sol quando chegasse lá acima por volta das 12:30. Essa é única maneira de ver a luz penetrar nalguns troços da floresta onde as árvores crescem desmesuradamente e é possível olhar para os bambus que se erguem para o céu como se fossem sequóias.

  

* Também é possível ir às cascatas de Tad Sae, cujo acesso é feito de barco, mas pelo que me disseram estas são menos espectaculares e na época seca têm pouca água.

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Dias laus (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.04.18

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E por que razão estar em silêncio na companhia do outro haverá de ser sempre um sinal de aridez e de distância?” – Claudio Magris, Instântaneos

 

Ontem, quando abordei o pequeno-almoço, sem nada planeado, que é uma vantagem quando não se depende da programação dos guias, caía uma chuva miudinha que obrigou a que as espreguiçadeiras de madeira junto à piscina fossem todas cobertas com um oleado. Com o avançar da manhã a chuva tornou-se mais intensa. Aproveitei para ler mais alguma coisa, pensar no que iríamos fazer e pedir os jornais do país.20180331_124655.jpg

A leitura diária da imprensa dos países e cidades por onde passo é incontornável. Normalmente procuro obter os dois ou três jornais mais importantes para lhes tomar o pulso. Mesmo em locais onde a liberdade de imprensa é controlada, ainda que de formas veladas, e a influência dos partidos de governo e/ou dos militares é permanente, normalmente encontram-se nichos de informação e opinião livre. Pelo menos até que os encerrem, como aconteceu há tempos com o magnífico Cambodia Daily, cujo lema era “All the news without fear or favour”, e que ao fim de mais de duas décadas de publicação ininterrupta o ex-khmer vermelho de Phnom Penh reciclado para a democracia, mas a quem rapidamente estalou o verniz, mandou encerrar. Na Tailândia não perdoo a leitura do Bangkok Times, um jornal a todos os títulos magnífico e que aquando da alteração das leis eleitorais e dos partidos, em Dezembro passado, quando por lá andei, publicou diariamente notícias e artigos de opinião, esclarecendo em termos claros e objectivos as manobras que estavam a ser preparadas com vista às próximas eleições e qual o alcance das modificações que os militares pretendiam introduzir. Foram peças de jornalismo de antologia, razão pela qual, para desespero da minha mulher, guardei os vários exemplares, juntando a muito mais que vou acumulando de diversos países. O The Nation é outro interessante jornal tailandês. No Laos entregaram-me o Vientiane Times, em língua inglesa, e rapidamente percebi que aquilo não passava de uma folha panfletária de elogio ao Governo e às suas políticas visando a captação de investimento estrangeiro, pelo que a leitura da imprensa ficou arrumada por uns dias.

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Quando a chuva parou resolvemos dar uma volta pela cidade e aproveitámos para visitar o antigo Palácio Real, transformado em museu, e subir ao topo do monte Phu Si.

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O Palácio tem um horário de visita estranhíssimo. Abre às 13:30 para encerrar às 17:00. Os sapatos ficam à porta. E não se permite a recolha de fotografias no seu interior. Vá-se lá saber porquê, mas é coisa que não estranho em países governados por castas para as quais tudo deve ser secreto e constitui segredo de estado. Como se lá houvesse algum tesouro transcendente. Construído em 1904, foi residência do Rei Sisavang Vong, cuja figura surge imponente logo à entrada dos jardins de acesso. Seria deposto em 1975 pelo Pathet Lao, só que nessa altura já ali não residia. Os quartos têm uma decoração austera mas com gosto, tendo eu notado as belas camas de madeiras nobres dos quartos do monarca e da sua mulher, o espaço e as vistas de alguns aposentos para o Mekong. 

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Há vitrines com trajes tradicionais usados pela família real, porcelanas de Limoges, condecorações e ofertas de países estrangeiros. No anexo fica a garagem onde estão os carros usados pelo Rei, mas que também não se podem fotografar (dois Lincoln Continental da década de 60, um Edesel Citation de 1958 e um Citröen igual ao que ficou no texto anterior. Tanto no Palácio como nos muitos templos que visitei a tarifa é normalmente de 10 ou 20 mil Lao kips (1USD equivale a cerca de 8.260 Lao kips), havendo um ou outro local em que são cobrados 5.000.

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O Monte Phu Si fica do lado oposto ao Palácio Real, constituindo um dos pontos de romagem da cidade, depois de subidos os mais de 300 degraus que nos conduzem ao That Chomsi, um stupa com 24 metros e uma cobertura dourada erguido em 1804. Em dias claros a vista que daí se alcança abrange toda a cidade e os diversos braços dos rios (o Mekong a norte, o Khan a sul e a leste), assim como as montanhas circundantes, parecendo que a zona central da cidade forma como que uma península entrando pelos rios e vigiada pela colinas.

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Vaguear sem sentido pelas cidades a que chego, sentindo o seu pulsar, olhando apenas para o movimento e para as pessoas, tomando um café aqui e ali, quando possível entabulando diálogo com um ou outro residente local para melhor me aperceber da realidade onde estou, das suas preocupações e anseios, é uma das actividades a que com gosto me dedico. Tenho conhecido gente interessantíssima, fugindo à informação turística habitual, inteirando-me de outras realidades que não vêm nos roteiros turísticos nem fazem parte das preocupações dos guias profissionais.

thumb_P1080391_1024.jpgLuang Prabang é um óptimo local para passeios no Mekong, visitar quintas e centros de conservação da natureza, fazer passeios a pé, de caiaque, de jipe ou de elefante, mas estes últimos não são da minha predilecção. Os animais são para estar em liberdade, na natureza onde pertencem, tranquilos e fazendo a sua vida, e não para sessões de “selfies” em comícios de megafone com hordas de excursionistas.

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Como o tempo tivesse entretanto melhorado, e sem saber o que os dias seguintes me reservariam, aproveitei para dar um passeio no rio, ao final da tarde. Confesso que esse foi um dos momentos mais fantásticos que me foi proporcionado.

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Numa embarcação pequena foi possível subir e descer os seus meandros, observar a cidade de outros ângulos, bem como a vida nas suas margens, com os pescadores na sua rotina, lançando e recolhendo redes, enfim, desfrutar de um belíssimo final de tarde, vendo o Sol esconder-se entre as montanhas enquanto nós vagarosamente o procurávamos, embalados pelo silêncio e uma música suave que o capitão achou por bem colocar no ar enquanto nos oferecia uns magníficos mojitos. Majestosos, o Mekong e o Khan resolveram associar-se ao momento. Quase parados arrastaram-nos dolentemente por mais uma curva, depois por mais uma reentrância, contornando montanhas, seguindo a passarada, até o dourado das cúpulas dos stupa desaparecer com o cair da noite e nós regressarmos para o jantar no final de mais um dia de silêncio, de paz, de imersão na outra parte de nós.

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Dias laus (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.04.18

thumb_P1080316_1024.jpgA cidade é habitada por 55000 almas das cerca de 400.000, divididas por oito grupos étnicos, que compõem a província de Louangphrabang, na região central do norte do país. As duas maiores etnias são os Khmu (44%) e os Hmong (16%).

Conhecida como "a jóia do Laos", é hoje muito referida pela sua arquitectura urbana, que cruza a tradicional com a colonial dos séculos XIX e XX; também pela arquitectura de alguns dos seus templos e pela belíssima natureza que a rodeia e em que se insere.

 

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As portadas em madeira pintada, os estores de palhinha, os cadeirões de madeira nas varandas fizeram-me lembrar outras latitudes.

A maioria dos hotéis e alojamentos disponibiliza bicicletas que permitem aos viajantes deslocarem-se livremente pelas estreitas ruas da cidade e as estradas marginais junto aos rios, parando onde muito bem entendem para poderem visitar os locais de maior interesse e gozarem da beleza da paisagem. Mas a cidade também se faz bem a pé, desde que não esteja demasiado calor ou a chover. Há, ainda, sempre, a oferta de inúmeros "tuktuks", normalmente muito lentos e barulhentos, e a possibilidade para quem gosta de andar de cabelos ao vento de alugar um motociclo, pois há várias lojas que promovem esse serviço.

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A oferta hoteleira é vasta e independentemente da classificação, ou do número de estrelas do estabelecimento, nos vários locais onde estive pude notar a excelente limpeza. E confesso que fiquei admirado. Complemento esta observação com uma outra decorrente do facto de que durante os vários dias em que andei quer por Luang Prabang, quer, depois, pela sua capital e região circundante, não vi baratas nem ratos. O lixo sempre devidamente depositado nos locais próprios ou à beira das ruas aguardando a recolha em sacos fechados. Na capital, Vienciana (Vientiane), vi as ruas serem varridas e lavadas, o que noutras regiões e cidades bem mais ricas não acontece. Esta realidade não ilude, porém, uma outra, bastante mais grave, que não é exclusiva do Laos, mas que também verifiquei na Cambodja, no Vietname e noutros países asiáticos, que é a poluição de rios, lagos e zonas costeiras, com inúmeras embalagens de plástico, esferovite, madeiras e latas ferrugentas de alumínio, sinal do muito que ainda há a fazer nessa matéria.

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Um elemento marcante da paisagem urbana e rural são as permanentes manifestações de nacionalismo, representadas pela colocação das bandeiras do país na soleira das casas particulares, de estabelecimentos comerciais e de edifícios oficiais, normalmente com a bandeira do Partido Comunista no lado oposto, apesar de quanto a esta última com alguma indiferença quanto à posição da foice e do martelo tantas foram as içadas ao contrário.

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A este propósito referirei que um dado de que rapidamente me apercebi foi o do peso da burocracia de Estado. Da verificação de passaportes e emissão de vistos à entrada, até ao controlo daqueles à saída, o trabalho que podia ser feito por um funcionário é feito por dois. Um abria o passaporte, o outro ao lado carimbava. A quantidade de edifícios, muitas vezes do tipo moradias com um jardim murado, com placas à entrada do tipo “Ministério X, Departamento Y”, em caracteres locais e em francês é inacreditável. O cenário repete-se em quase todo o lado e área da administração pública. Muitos desses edifícios estão vazios, havendo alguns de dimensões consideráveis. Lembro-me de ter visto um destes, talvez a uns 30 quilómetros de Vienciana, próximo da Ponte da Amizade, que é um dos pontos de passagem para a Tailândia através do Mekong, com a indicação de ser uma Faculdade de Ciências Médicas, completamente às moscas. Também em estações de correios, quase todas as que vi, ao estilo e com indicações em francês, e numa biblioteca me pareceu haver gente a mais, desocupada e com pouca alegria no trabalho, contrastando com os rostos sorridentes, ainda que por razões compreensíveis, de outros locais por onde passei.

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Todo o país, o que é comum aos outros países daquela região, tem uma vasta e muito agradável oferta gastronómica qualquer que seja a dimensão da bolsa. Por vezes com preços ridiculamente baixos.

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Para lá do arroz, das sopas e das massas, há imensos vegetais, de excelente qualidade, alguns deles desconhecidos para a maioria dos europeus e para os quais não encontrei traduções. A fruta predominantemente tropical é abundante, extremamente saborosa, em especial quanto a papaias, mangas — dulcíssimas, sem fios —, ananases, mas também as laranjas e suas variantes são óptimas. O peixe é quase todo de rio, mas branco e saboroso sem que se possa comparar com o das nossas águas atlânticas, havendo muitos pratos de galinha e pato, carne de porco, tofu e camarão. A carne de bovídeos em regra é de búfalo, mas também existe de vaca importada. Os caris, onde se regista a influência tailandesa nas suas diversas alternativas, são bons e generosos, assim como as sopas.

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A influência da cozinha francesa encontra-se muito presente, tanto naquelas ementas indefinidas a que alguns chamam de “internacional” e onde se encontra de tudo, como em restaurantes e bistrots cujas denominações muitas vezes revelam a sua herança colonial. Não será por isso de estranhar que haja muita cozinha de fusão e que em matéria de sobremesas se encontre uma grande profusão de crepes, de óptimas mousses de chocolate e de gelados e sorvetes artesanais. Os de coco e lima, com bocadinhos dos ditos, são soberbos. Luang Prabang é, aliás, conhecida pela qualidade da sua doçaria. No mercado nocturno há bancas só de bolos e doces, sempre fresquíssimos e de sabor irrepreensível. Os brownies são dos genuínos, baixinhos, quase prensados porque descem ao sair do forno, de sabor intenso, com um chocolate que se deixa arrastar pela boca, de tal forma que por vezes parece quase caramelizado. Nada dessas imitações que hoje em dia se encontram em muitos restaurantes portugueses com pretensões a finos.

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Mesmo a comida de rua, à qual vi muitos turistas jovens e menos jovens recorrer, se apresenta em bancas e carrinhos limpíssimos, com bom aspecto. Curiosamente, num país onde a primeira recomendação é para não se beber água da rede pública, a higiene das bancas de comida e das cozinhas dos restaurantes não deixa de ser notável. Muitos destes oferecem cursos de culinária tradicional laociana. Nalguns tive dificuldade em perceber qual dos negócios seria o principal, se o restaurante se a escola.

20180331_182330.jpgRegisto, igualmente, os óptimos batidos de fruta, de toda a variedade e diferentes misturas. A cerveja mais conhecida é a Beerlao nas suas três variedades, encontrando-se facilmente cervejas de outras origens. Há mesmo bares que anunciam cervejas artesanais belgas e francesas. Há imensos chás, café para os bons apreciadores não falta, assim como o vinho, cujo preço é bem menos taxado do que nos vizinhos da Tailândia e do Vietname, e bons queijos franceses.

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O preço relativamente económico do álcool, se comparado com outros países, talvez justifique a profusão de cafés, bares e outros espaços de socialização, na sua maioria aprazíveis. Para além do Governor’s Grill and Bar, no Sofitel, um pouco carote (caríssimo para os padrões locais) e afastado do centro da cidade, mas a merecer uma visita, com uma boa biblioteca (para bar), recomendo o Chez Matt, o Dexter (há um em Banguecoque do mesmo dono, com um bom gin tónico) ou as esplanadas da SaSa Cruises, do Apsara e do Tamarind, estas duas do lado do rio Nham Kan, e ainda a do Utopia, com a vista mais fabulosa deste rio, aconselhável para os saudosos do Woodstock, da geração hippie e do Maio de 68. Também me falaram do Bar 525 e do Chez Matt nos quais não estive.

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Restaurantes agradáveis não faltam, muitos com pequenas bibliotecas e esplanadas com vistas magníficas para o Mekong. Todos com wifi. O Tangor, que é explorado por franceses, apresenta comida de fusão e paredes bem decoradas. Um dos proprietários é uma francesa com ligações ao Algarve. A comida é boa, tem uma óptima esplanada, paredes pintadas com mapas da Indochina e desenhos de Corto Maltese, mas se tiver o azar de ficar numa das mesas para o interior do restaurante corre o risco de sair de lá a cheirar a comida. L´Elephant Vert é uma opção vegetariana. Para quem gosta de comida italiana o La Rosa pareceu-me simpático, numa rua tranquila e com esplanada. Há óptimas padarias onde se podem tomar bons “mata-bichos”, com pão de excepcional qualidade, uma delas escandinava, próximo do Hotel 3 Nagas. Quem ficar neste não tem com que se preocupar porque o pequeno-almoço normalmente está incluído e toma-se do outro lado da Shakkalin Road, no anexo, junto a um dos únicos dois Citröen de 1953 ((um pertence ao Hotel, o outro está na garagem do Palácio Real e era pertença do Rei). Há, para além deste, outros clássicos espalhados pela cidade, todos bem restaurados e devidamente conservados, tanto quanto me apercebi constituindo propriedade de hotéis.

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Dias laus* (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.04.18

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Não se tratava de cumprir nenhuma promessa, embora de há muito surgisse de tempos a tempos a hipótese de ir até lá. Estava fora de causa fazê-lo durante a época das chuvas, ou numa altura em que as altas temperaturas tornassem demasiado tormentosa as jornadas. A oportunidade surgiu e havia que agarrá-la antes que se perdesse no ramerrão quotidiano. Em matéria de viagens só lamento as que ainda não fiz. E a perspectiva de encarar uma outra face da Indochina, de cujas viagens guardo as melhores memórias desde há mais de um quartel, levou-me a rapidamente agarrar em meia dúzia de peças de roupa e fazer-me ao caminho.

Sem voo directo vi-me obrigado a pernoitar em Banguecoque, recuperando os cheiros e sabores de há algumas semanas, antes de pela primeira vez começar a vislumbrar a generosa cordilheira que circunda Luang Prabang, pequena cidade do norte do Laos, cujos primeiros habitantes se terão estabelecido por volta de 8 mil anos antes de Cristo, e que atravessou os impérios Nanzhao, Khmer e Mongol, antes de servir entre 1354 e 1560 como capital do primeiro reino do Laos, o Lan Xang.

O seu nome deriva da aceitação por parte do Rei Visoun, que fora anteriormente governador de Vienciana, da oferta por parte da monarquia Khmer da imagem de Pha Bang, o que levou a que a cidade passasse a ser denominada como Grande (Luang) Prabang, do nome do Buda.

Património Mundial da Humanidade desde 1995, a cidade fica na confluência de dois rios, o Mekong e o Khan, sendo profundamente marcada pelas cores açafrão e laranja forte dos trajes dos seus monges.

Mesmo depois da transferência da capital para sul, a cidade continuou a ser considerada fonte do poder monárquico, acabando por aí se estabelecer um reino independente após a morte do Rei Suriya Vongsa em 1695.

Durante o século XIX atravessou vicissitudes várias, sujeita como esteve à influência dos vizinhos do Sião, do Vietname e da Birmânia e aos bandidos e mercenários do chamado Exército da Bandeira Negra, que destruíram inúmeras figuras de Buda, templos e documentos históricos, até se integrar na Indochina francesa, como parte do império colonial francês do Sudeste Asiático, formado quando após a queda de Jules Ferry a China reconhece a tutela sobre as regiões de An Nam (grafado como Annam, em francês) e Tonquim (Tonkin), garantindo um protectorado que englobaria também os actuais Camboja e Laos.

A influência francesa, bem presente na arquitectura e na culinária, misturada com a heranças laociana, birmanesa, chinesa e tailandesa, os múltiplos templos e locais de culto, conferiu ao local uma aura única e historicamente absolutamente inconfundível, capaz de transmitir serenidade e uma extraordinária paz interior da qual já havia recebido testemunho por parte de quem por lá passou antes de mim.

A abordagem ao aeroporto fez-me recordar da minha chegada, há pouco mais de trinta anos, a Catmandu (ou Kathmandu, Nepal), devido à neblina e à proximidade das colinas montanhosas à medida que nos acercávamos da pista.

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A cidade, logo a partir das primeiras imagens obtidas do ar, é uma extensa mancha de casario disperso, cúpulas douradas, fumo de pequenas cozinhas ou de templos que se elevam no ar, rompendo fulgurantes o verde que se perde de vista nos sinuosos meandros do Mekong e do Khan, enquanto estes se passeiam entre montanhas, como que a acompanharem o Sol que se esconde por detrás delas.

Cumpridas as formalidades de obtenção do visto (o Laos ainda não possui um sistema de pré-emissão electrónica, ao contrário do que acontece com o Camboja e o Vietname), mais rápidas do que o estava à espera e a troco de USD 36, apanhámos um táxi, que se revelou a final uma pequena carrinha albergando mais meia dúzia de viajantes, entre os quais jovens estudantes portugueses de Erasmus, que certamente para não serem confundidos, digo eu, com os vulgares turistas nacionais, conversavam entre si em italiano até um deles referir em português que não se lembrava do nome de um verbo (coisas...).

Ao longo do percurso de distribuição dos passageiros, feito já com a luz de fim de tarde a desaparecer, apercebi-me do trânsito feito de motociclos, pequenas carrinhas e bicicletas, da ausência de buzinas e da praticamente inexistente iluminação pública pois que o que marcava a maioria das ruas por onde íamos passando eram os faróis dos veículos que circulavam, os candeeiros e pequenos pontos de luz dos inúmeros restaurantes, albergues (moderna e pretensiosamente ditos hostels) e minúsculos hotéis.

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Foi com uma temperatura amena, sem vento, humidade reduzida e a tradicional saudação feita com uma tímida vénia e as mãos sorrindo em prece ligeiramente abaixo do rosto, que fomos recebidos à chegada, numa recepção ampla, num ambiente perfeitamente colonial, com ventoinhas, cadeiras e sofás baixos, onde pontuavam pequenas estantes com livros lidos de história, viagens e aventuras, alguns quadros com fotografias antigas e caixas militares de granadas e munições fazendo de bases e mesas de apoio, resquícios da violenta guerra civil entre os guerrilheiros comunistas de Pathet Lao e a monarquia deposta em 2 de Dezembro de 1975. Na sequência dos Acordos de Paris nasceria a República Popular Democrática do Laos (deixemos o "popular" e o "democrática" para outra altura). Da guerra ficaram as marcas da violência sem tréguas e os bombardeamentos de 1973, que abriram crateras, destruíram o país, inundando-o de minas e estropiados e ceifando largos milhares de vidas.

Após um jantar tranquilo, embalado pelo correr da água de uma cascata próxima e uma ligeira brisa, numa mesa simples mas confortável, entre o inebriante aroma a lemon grass (capim-limão), a cantilena da bicharada nocturna, os perfumados guardanapos de puro algodão e a limpeza de um serviço tão genuinamente simples, engomado e acolhedor quanto atento, mergulhei no nocturno silêncio da leitura do último livro de Frederic Forsyth e na preparação do dia seguinte. O primeiro de mais uma romagem aos confins do Mékong, ao sorridente calor dos seus povos e às florestas da Indochina.

 

• - Laus, aqui de acordo com a forma monossilábica de Rebelo Gonçalves (Vocabulário da Língua Portuguesa, 1966), também seguida por Manuela Pareira e J. Manuel de Castro Pinho (Prontuário Ortográfico Moderno, Ediçoes ASA, 1988), sem prejuízo de no texto se adoptar a forma dissilábica de Magnus Bergstrom e N. Reis.  

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Por terras khmers (6)

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.12.16

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A minha viagem podia ter terminado esta manhã. O que me levara ao Camboja e há tantos anos me predispunha a fazer a mala e partir constituía um capítulo encerrado. Tratava-se agora de fazer a gestão dos dias. Não iria sair por Phnom Penh. Voltaria a Siem Reap. Não fazia sentido ficar ali.

20161222_173521.jpgNo tempo que me faltava fui então visitar a parte do Palácio Real que se encontra aberta ao público. O Rei Norodom Sihamoni, ex-embaixador da UNESCO, divulgador cultural junto da embaixada em Paris e instrutor de dança clássica, que frequentou a escola primária e secundária na Checoslováquia e depois estudou dança, música e teatro no Conservatório Nacional de Praga e na Academia de Arte Musical desta cidade, subiu ao trono em 2004, depois da abdicação do seu Pai, e continua a nele residir. Vale sempre a pena uma visita à sala do trono, cujo chão é em prata, metal abundante na região; um passeio pelos jardins, apreciando os frescos nas paredes e já à saída as salas com as liteiras reais (tenho dúvidas que o termo liteira seja o mais apropriado) e com a recriação das cerimónias de ascensão ao trono. O Museu Nacional é também interessante, mas quem vem de Siam Reap, esteve antes em Angkor Wat e no Museu D'Angkor, a sensação é a de que se está a passar de um Château Petrus para um honesto Cabernet chileno.  

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Ainda tive oportunidade de deambular pela cidade sem destino, subir a Wat Phnom, o ponto mais alto da cidade, conhecer a história do seu fundador, ir à Biblioteca Nacional, apreciar as belíssimas estações dos correios e fazer uma refeição na varanda do F.C.C. de que vos falei anteriormente. 

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A experiência foi desagradável. O profissionalismo e requinte do F.C.C. em Siem Reap têm muito pouco a ver com aquela espécie de tasca existente em Phnom Penh, com mesas de tampo de pedra para turistas que vão jantar de calções e chinelam pelo estabelecimento fora, em que é preciso solicitar o guardanapo, insistir que não é o de papel, mandar de volta o arroz branco para ser substituído pelas batatas fritas que haviam sido pedidas, enquanto o bife esfria, e dizer que os talheres da entrada que ajudaram a deglutir os camarões e as lulas não são os adequados para a carne. Local de encontro de viajantes e aventureiros, o F.C.C. de Siem Reap é bem mais calmo, tem outra clientela, apesar de praticar os mesmos preços (as ementas são iguais), e também outro requinte, resultando do aproveitamento da antiga mansão do governador francês. Os dois valem bem uma visita, quanto mais não seja pelo simbolismo. 

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Fui igualmente visitar a galeria de Vann Nath, o último sobrevivente da S-21, aberta ao lado de um restaurante da sua família, o Kith Heng, no n.º 169 da Rua 33-B. A história da sua vida dava para vários livros e filmes. Artista plástico, portanto um tipo que pensava pela sua cabeça e por isso persona non grata da canalha, foi um dos que foi mandado para a S-21. Aguardava pela sua hora quando se lembraram que os seus dotes podiam ser úteis ao partido. Mandado chamar obrigaram-no a fazer pinturas. Vann Nath contou depois que sabia que se o que fizesse não agradasse seria enviado para os killing fields, mas teve a sorte do responsável gostar do que ele pintou. Os seus quadros são retratos pungentes da sua história e de tudo aquilo a que assistiu. Entre outros títulos, é Chevalier da L'Ordre des Arts et des Lettres desde 2004 e em 2007 recebeu o Human Rights Award pela sua coragem enquanto artista face à perseguição política. 

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Phonm Penh ficara para trás. Regressado a Siem Reap tratei de organizar um final de férias interiormente mais calmo. A solução foi fazer um passeio em Kompong Pluk, um daqueles lugares que não existe. Trata-se de uma aldeia situada num braço do Grande Lago (Tonle Sap) e com acesso directo a este, toda construída sobre estacas, com escola primária e secundária, uma igreja, templos budistas, construções com uma altura de cerca de oito metros por causa das cheias do Mekong durante a época da chuvas. O percurso é feito a partir de um canal rodeado de pântanos e pejado de pequenas embarcações, que atravessa a aldeia até uma zona de mangal, onde a quem se deixa enganar, depois daquilo que pagou para o transporte e para a viagem de barco (40 USD), ainda lhe pedem para mudar para uma embarcação tradicional, a remos, sem quaisquer condições onde um tipo tem de ir de joelhos ou sentado numa esteira, não se podendo mexer para não desequilibrar aquela espécie de chata estreita e comprida. Há para lá um local de comes e bebes e uma espécie de maioral que fala inglês nessa plataforma onde estão pintados uns símbolos da ONU e da UNESCO, mas que suspeito serem uma aldrabice. Como eu protestasse por me quererem fazer mudar de embarcação e pagar mais qualquer coisa para a "comunidade" e tivesse dito que já tinha pagado tudo o que houvesse a pagar e que não pagava mais nada para ir até ao lago assistir ao famoso pôr-do-sol, rapidamente voltámos a embarcar na embarcação que nos trouxera, com o mesmo rapaz e seguimos o nosso caminho. 

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A calmaria, a paz, a luminosidade reflectida nas águas vastas do lago, com uma superfície de 2.500 km2 que pode multiplicar-se por dez na época das chuvas, vale bem a visita. No local há muitos pássaros e até pequenas gaiolas para criação de crocodilos, uma das poucas indústrias da região. Quem quiser também pode ir visitar as quintas, tal como na Tailândia onde se faz a sua criação, ou dar passeios de elefante. 

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No final da visita a Kompong Pluk reencontrámos o nosso motorista de Siem Reap, um homem de 53 anos precocemente envelhecido, único sobrevivente de uma família de 11 exterminada pelos Khmer Rouge. Falou-me da sua vida durante o tempo de Pol Pot, do seu recrutamento para a organização juvenil da terra e, depois do fim da guerra, da sua reconversão à indústria turística. Primeiro com um tuk-tuk, nos últimos anos com um carrinha Toyota. Mostrou ser um homem conformado com a sua sorte. Casara, tinha dois filhos a estudar na universidade que não acreditavam no que ele lhes contava sobre os tempos de Pol Pot. Explicou-me que os programas escolares omitem esse período e as novas gerações desconhecem a verdade. Sugeri-lhe que levasse os filhos à S-21, ficou de pensar no assunto e na melhor forma de os convencer. Mostrou-se agradecido pela visita que tínhamos feito porque se não fossem os estrangeiros eles não sobreviviam. Referiu conseguir fazer cerca de 100 USD por mês e que partir de meados do mês já era difícil aguentar-se. Nunca teve 1000 USD no banco e disse-me que os jovens querem partir para Singapura, Canadá, EUA. Poucos regressam. A corrupção continua a ser muito grande e descrente virou-se para mim perguntando-me como poderia se diferente se o primeiro-ministro Hun Sen era um ex-Khmer Rouge e as eleições eram chapeladas sistemáticas em que faltava a luz e as urnas contendo os votos eram trocadas durante a noite.

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Os últimos dias serviram para descontraidamente passear por Siem Reap, falar com as pessoas, senti-las e de certo modo agradecer-lhes tudo o que me deram nos dias que por lá passei. Duvido que na vida que me resta lhes consiga pagar o que recebi em afabilidade, calor humano e experiência de vida. Talvez um dia regresse para ir aos locais onde não fui; quem sabe se para passar uns dias tranquilos nas ilhas do golfo, ao largo de Sihanoukville.

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Quando há poucos dias parti em direcção ao Aeroporto Internacional de Siem Reap, para empreender a viagem de regresso, voltei a sentir a emoção. Como se ali sempre tivesse vivido e passado com aquela gente o que eles viveram. Como se fosse um deles.

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Do avião vi a cidade partir. Também ela me deixou partir mais sereno. Inconformado, é certo, seguramente mais adulto. E mais dorido vi o Mekong perder-se nos seus meandros. Lembrei-me então de uma frase de Hemingway, mas que já vi dizerem ter sido apropriada por Ursula K. Le Guin e que diz o seguinte: "It is good to have an end to journey toward; but it is the journey that matters, in the end". 

É isso mesmo. Seja de quem for a autoria da frase. Isso também não é importante. Bom Ano para todos vós.

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(P.S. Se puderem vejam isto: https://www.youtube.com/watch?v=tpaDOkI4VzQ)

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Por terras khmers (5)

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.12.16

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A noite passada, antes de me deitar, aproveitei para ler alguns jornais locais e pôr-me em dia com as notícias. Quando chego a qualquer local, um dos meus primeiros gestos é tentar obter a imprensa. Há hotéis que logo pela manhã deixam os jornais à porta dos quartos e se há coisa que goste de sentir é o seu cheiro a novo e a tintas frescas ao começar o dia. Tem sido assim desde que me conheço.

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O Khmer Times, The Cambodia Daily e o Phnom Penh Post têm edições coloridas em língua inglesa. Fico a saber que oficiais superiores das Reais Forças Armadas do Camboja* intimidaram a Tailândia a cessar os disparos junto à fronteira sobre os cambojanos que pretendem atravessá-la a salto à procura de trabalho e melhores condições de vida. A Assembleia Nacional pode vir a interrogar, a pedido da Comissão Parlamentar de Direitos Humanos, o ministro do Interior, Sar Kheng, pelo assassinato do analista político Kem Ley. O assassino de uma major das Forças Armadas, com 21 anos e estudante da Real Universidade de Phnom Penh, que inicialmente estava sujeito a uma moldura penal máxima de 15 anos, foi condenado a prisão perpétua por homicídio premeditado e o juiz-presidente do Tribunal Municipal de Phnom Penh “reverted the charge (...) and sentenced Mr. Kimmheng to life imprisionment, without explaining his decision” (The Cambodia Daily, 22/12/2016). O Partido Popular do Camboja (PPP), liderado pelo primeiro-ministro Hun Sen, reunido em congresso em Koh Pich, “outlined a program of social reforms”, num pacote de políticas que, entre outras coisas, envolve o controlo dos preços dos produtos agrícolas, a distribuição de terras ao abrigo de concessões sociais, ajudas aos pobres, desburocratização da obtenção de certidões de nascimento, de casamento e de óbito e de identificação, preços controlados na electricidade e o aumento do salário mínimo para 1 milhão de Riéis (250 USD). As eleições comunais são no próximo ano. Hun Sen foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1979/1986 e depois entre 1987/1990. É primeiro-ministro desde 1996. Foi segundo primeiro-ministro até ao golpe de 1997 e desde 1998 é primeiro-ministro. Estamos no final de 2016 e o senhor vai no quinto mandato. Por aqui fica tudo explicado sobre a oportunidade das medidas anunciadas.

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Tomado o pequeno-almoço, ao ar livre e à beira de uma piscina, fomos ter com o condutor de tuk-tuk com quem tínhamos combinado o dia. Era outro. Disse que o irmão não podia ir e lhe tinha telefonado a pedir que fosse ter connosco. Seguimos na mesma.

O dia foi reservado para ir, finalmente, ao que ficou tristemente conhecido como os “killing fields”. O seu nome oficial é Choeung Ek e foi tudo menos uma prisão normal. Está a 7,5 km de Phnom Penh, contados a partir dos limites da parte sul da capital. O percurso é todo ele um suplício que atravessa um mar de pó, percorrendo zonas comerciais à beira da estrada com ofertas de massagens de 60 minutos por 9 USD, lojas de bugigangas, de ferro velho, cantinas e hostels miseráveis. Sempre com muito lixo largado à beira da estrada, atirado para os campos e em riachos. De repente uma curva para a esquerda e continuamos por um caminho de terra batida entre hortas e esgotos onde nalguns pontos mal cabem dois carros. Por fim lá chegámos, debaixo de um imenso e longínquo céu de um azul profundo, com um sol escaldante e uma humidade elevada. Uma estufa.

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Entre 1975 e 1979 cerca de 17.000 homens, mulheres e crianças foram presos e torturados na S-21, código de uma escola na capital que se chamou Tuol Svay Prey High School. Em 1975 foi tomada pelos homens da segurança de Pol Pot e redenominada "Security Prison 21". Da S-21, prisão secreta do regime, saíam depois os camiões com os presos de olhos vendados, entre as 20 e as 21 horas, que iam até Choeung Ek, uma das 196 prisões do regime de Pol Pot. Dali, da S-21, só sete dos que lá entraram saíram com vida, escapando milagrosamente à morte, sendo libertados depois da queda dos Khmer Rouge. Também lá ficaram nove estrangeiros incluindo um navegador neo-zelandês, Kerry Hamill, e o seu amigo canadiano, Stuart Glass, que tiveram o azar de entrar em águas do Camboja quando o primeiro realizava o seu sonho de dar a volta ao mundo num veleiro.

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Choeung Ek é um local de um silêncio aterrador. Com entrada por um terreiro que está agora ladeado de casas, um estacionamento para carros, motas e tuk-tuks e tascos incaracterísticos. Ainda hoje está murado e com arame farpado. Só depois dos vietnamitas entrarem e expulsarem os khmer rouge é que foi possível saber o que aconteceu. Em 1980 foram exumados 8985 cadáveres, muitos ainda com as mãos atadas e as vendas no que foram os seus olhos. As valas comuns estão umas a seguir às outras, devidamente assinaladas.

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Tal como os nazis, os khmer rouge mantinham registos meticulosos dos seus crimes pelo que é possível saber com rigor o que aconteceu. As fotografias são imensas e hoje o fotógrafo principal, Nhem En, vive descansadamente com a família no norte do país, onde ainda sonha, de acordo com o que me foi transmitido, vir a ser governador provincial. Na S-21 foi inclusivamente criado um centro de documentação com o apoio da Universidade de Yale para investigar e documentar os crimes daquela canalha. Em 1997 esse centro deu lugar a uma organização independente que desde então tem traduzido e compilado documentos, mapeado as valas comuns e procedido à preservação dos espaços para que a memória, que não é só a deles mas também a nossa, não se perca.

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A visita é toda ela feita em silêncio. Um silêncio muito diferente daquele que vivi na beleza de Angkor Wat e que aqui é apenas cortado pelos comentários do magnífico guia-áudio que me foi entregue. Há guias-áudio em múltiplas línguas, com excepção do português, para acompanharem os visitantes ao longo das várias estações do percurso, numa espécie de Via Sacra. A locução é rigorosa, cristalina, irrepreensível. Os factos e os depoimentos são-nos atirados sem filtro. Por vezes ouve-se apenas a música que era tocada num volume altíssimo nos altifalantes de Choeung Ek na altura das execuções, para assim se abafarem os gritos das vítimas, os tiros e o ruído daquelas.

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Há bancos à sombra das árvores e arbustos, onde as pessoas são convidadas a sentarem-se para ouvirem o guia-áudio. A maioria dos que lá encontrei eram jovens, estudantes, muitos ocidentais, alguns asiáticos. E havia viajantes, como eu, que queriam saber um pouco mais do que aquilo que vem nos livros. Existe no local, logo após o início do percurso que está devidamente demarcado, um pavilhão com fotografias e múltiplas explicações onde é passado um documentário com as imagens do que se encontrou quando em 1979 se tornou possível entrar e sair dali. Porque para se perceber o que ali aconteceu e a forma como aquele inferno era gerido impõe-se a compreensão da cadeia de comando estabelecida pela liderança khmer rouge.

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No seu topo, além de Pol Pot, figuravam Nuon Chea, Ta Mok, Son Sen e Khiev Sam Pan. Como muitos saberão, Pol Pot, o líder máximo, era filho de um rico agricultor khmer, Penh Saloth, que tinha mais de 12 hectares de terra. Nascera com o nome de Saloth Sar, em Kompong Thom. Uma irmã era consorte real, o irmão Song era oficial do protocolo real, e ele foi enviado pelos pais para viver com estes e ali ser educado. Frequentou uma escola básica da elite católica e aos 23 anos recebeu uma bolsa do governo francês e foi estudar para Paris onde se juntou ao Partido Comunista Francês. Depois de reprovar em três anos consecutivos, casar-se-ia com Khieu Ponnary, a primeira mulher cambojana a obter um baccalauréat, regressando ambos ao seu país em 1956. Mentiroso compulsivo, até no dia do casamento mentiu quanto à sua idade, dizendo que tinha 21 anos em vez de 28. Nunca admitiu o seu nome verdadeiro e a sua biografia oficial, publicada em 1977, diz que era agricultor, omitindo os anos passados no Palácio Real, em Phnom Penh, e a passagem por França. Por aqui se vê a qualidade da besta. 

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O regime estava organizado em termos tais que a última ordem seria sempre dada pelo “Irmão n.º 1”. Tudo o que fosse feito tinha a sua aprovação, ainda que escasseiem as ordens escritas. Son Sen era o encarregado da Segurança Nacional e da Defesa e o sinistro Duch, que aparece no julgamento com uma camisa da Ralph Lauren, o comandante da S-21. Foram estes, depois de Pol Pot, os responsáveis pelo genocídio. Sobre isto existem provas escritas. Os documentos eram todos enviados para a sede do partido e vistos por Son Sen, havendo imensos memorandos com anotações e “confissões” dos prisioneiros, muitas vezes a tinta vermelha. Obtidas as instruções do Comité Central era produzida a lista dos que seriam executados. Residentes nas cidades, escritores, jornalistas, professores, estudantes, ninguém escapava. 

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Penso que sobre isto não vale a pena dizer mais nada. A informação é abundante e só escapou porque na fuga a canalha não teve tempo para destruir as provas. A média diária de executados era variável e podia ir de algumas dezenas a centenas. Duas a três vezes por mês lá saíam os camiões cheios de prisioneiros da S-21. Não levavam gado. Transportavam seres humanos de todas as idades. E estes não morriam com gás. Aquela gente era mais refinada. Estiletes pelo crânio, machados, bebés e crianças agarrados pelos pés e atirados contra uma árvore, homens de joelhos que depois eram agredidos com barras de ferro no pescoço até começarem a sangrar (...), tudo era possível. A seguir aos choques eléctricos na S-21, às celas minúsculas, aos vasos de barro cheios água onde lhes mergulhavam a cabeça enquanto aguardavam pelas “confissões”, às barras de ferro onde lhes enfiavam os tornozelos, seguia-se a viagem para Cheoung Ek. Os químicos que lá foram encontrados costumavam ser usados para regar as vítimas, muitas ainda vivas e em profunda agonia, desfazê-las e evitar os cheiros, por vezes inevitáveis quando os ventos sopravam mais fortes. Kong San, um ex-soldado da divisão 703, que cultivava arroz nas redondezas, testemunhou que quando sentia o cheiro pensava que era o de cachorros mortos. Terminadas as execuções procedia-se à confirmação das vítimas para se ter a certeza de que ninguém ficara vivo.

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Choeung Ek não era, nesses tempos miseráveis em que noutros locais desse mundo a Humanidade ainda vai insistindo, uma brincadeira de crianças. Também não é na actualidade um passeio turístico. Não é lugar para turistas que vão à procura de sol, bebidas exóticas e ansiosos para se atafulharem de imitações rafeiras das marcas famosas que chineses e angolanos ricos disputam na Avenida da Liberdade. Choeung Ek é uma viagem ao que de mais inaudito existe na alma humana. Uma viagem às nossas entranhas sem bilhete de volta. Mais de trinta volvidos continua a não ser um local para pessoas sensíveis. Proporcionalmente, e em termos de barbarismo, o que aqueles filhos da puta fizeram ao seu povo, a gente de carne e osso, a seres humanos como nós, suplantou em muito o que aconteceu com os nazis ou o que se sabe dos períodos mais negros do estalinismo. E tudo aconteceu tão perto de nós. Há tão pouco tempo. E quando nós, portugueses, discutíamos salários, nacionalizações, a reforma agrária, líamos a Gaiola Aberta e víamos o Último Tango em Paris. Como se este fosse outro mundo.

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Antes de me retirar fui ao stupa (pagode) que ali foi erigido para honrar a memória das vítimas. Deixei lá um ramo de flores brancas e amarelas. Alguém entregou-me uns pivetes que se juntaram a outros e que por lá ficaram a arder. Fi-lo quase maquinalmente, absolutamente horrorizado, destroçado na minha condição de homem. Com uma angústia que não sei descrever.

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O regresso ao tuk-tuk e o caminho de volta pareceram-me intermináveis. Emocionei-me protegido pelos óculos de sol. Fui olhando para a passagem sem nada ver. Sem saber o que dizer a quem estava ao meu lado, sem saber o que pensar. Uma vez mais o silêncio. Um silêncio dilacerante. Sempre o silêncio até chegar a Phnom Penh e o nosso motorista nos largar à porta da S-21. Podia tê-lo evitado. Não o fiz. Sentia que era preciso cumprir a última fase do caminho. Por respeito para com todos aqueles que por ali passaram. Por respeito para comigo. Percorri as quatro alas em silêncio. Subi e desci aquelas escadas frias, feias, despidas. Entrei nas celas, vi os instrumentos de tortura, as caixas que garantiam as descargas junto às camas dos reclusos. Vi milhares de fotografias e li os testemunhos. Até vi nas paredes o arrependimento tardio dos suecos que num momento em que regime precisou fizeram de idiotas úteis da sua propaganda para o Ocidente promovendo as virtudes que aquela canalha desprovida de princípios e de valores nunca teve. Sempre em silêncio. De que outra forma poderia ser? Daqui para a frente não escrevo mais nada. Imaginem uma página em branco onde está lá tudo. Tudo o que não consigam imaginar, mas que vos deixe nauseados, moribundos. Não há palavras que o descrevam. Poupo-vos ao relato de tudo o que encontrei na S-21. A minha parceira não aguentou mais. Preferiu descansar de tanta violência e aguardar-me no jardim, enquanto lia e escrevia uns postais. Para ela já não havia mais nada para ver. Tinha visto tudo. Eu nunca vira nada assim e ainda não estou certo de ter visto o que vi. 

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Quando no final desse dia cheguei ao meu hotel e me despedi do nosso prestável motorista sentia-me sem forças. Como se tivesse levado uma sova de proporções épicas. Transpirado, nojento, senti-me imundo. Dei umas braçadas na piscina do hotel, tomei um duche como que desejando desinfectar-me, purificar-me, perdoar-me pelo que não fiz. Absolutamente destroçado pelo que vi, esmagado pelo asco, pela dimensão do sofrimento daquela gente. Senti vergonha e nojo da minha espécie. Não sei como algum dia sairei daqui. Sei que após esse dia 22 de Dezembro não sou o mesmo. E também não sei que sentido se há-de atribuir ao Natal depois da viagem que fiz. Pode ser que um dia alguém me explique. Presentes? Caixas de Multibanco exauridas? Presépios? Reis Magos? Sacos a abarrotar de compras? Pinheiros enfeitados com luzinhas coloridas a piscar? As crianças merecem-nos. Têm direito ao sonho. Mas nós? Nós, nós ainda estamos tão longe do Natal... 

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Ninguém volta a ser o mesmo depois de passar por ali. De ouvir e de ver aqueles registos. Não há olhos que cheguem para tanta escuridão. Não há lágrimas que nos sustentem. Não há nada que fique de pé. Não há nada que resista. Nada.

Nunca mais vai ser Natal. Tenho a certeza. Espero um dia ser perdoado. Por quem é que eu já não sei.

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[* - Antigamente escrevia-se Cambodja. Foi assim que aprendi. Os brasileiros ainda o fazem. Há especialistas que dizem que se pode grafar das duas maneiras. Contudo, de acordo com o Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa e o meu velho prontuário aparece sem o "d", pelo que daqui para a frente assim será.]

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Por terras khmers (4)

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.12.16

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Se viajar é também uma arte e um prazer, há algumas regras que devem ser seguidas para se extrair o máximo da jornada. Paul Theroux, um reconhecido escritor de viagens, escreveu um dia que há três regras básicas para o viajante – aquele que não sabe para onde vai, ao contrário do turista que não sabe onde esteve – e que se resumem a viajar por terra sempre que possível, de preferência sozinho e tomando notas. Como não gosto de voar e só o faço por obrigação sabia que não iria de avião para Phnom Penh. Contudo, estava indeciso sobre a melhor forma de seguir caminho, se de barco, descendo o Mekong até à capital, se fazê-lo por estrada.

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Descer o rio teria sempre o aliciante de poder tirar boas fotografias, mas revelava-se uma opção pouco gratificante porque me iria afastar das pessoas, da estrada, do contacto com a terra e com os campos ao longo do caminho. As referências sobre as embarcações que fazem esse percurso não eram as melhores, nem em termos de salubridade nem de segurança. Por estrada, as alternativas eram várias mas acabámos por fazer essa parte da viagem num dos autocarros da Giant Ibis, uma excelente companhia, com um registo impecável em termos de segurança, um site na Internet e que que providencia o transporte dos seus passageiros dos hotéis para os terminais. Os veículos da Hyundai que utiliza são relativamente novos. Tem um serviço de bordo melhor do que algumas companhias aéreas a que tenho recorrido, bons motoristas, pessoal atencioso e, inclusivamente, distribui logo pela manhã uns magníficos brioches e os nossos conhecidos caracóis com passas, acompanhados de uma garrafa de água. Os autocarros têm wi-fi, ar-condicionado, são limpos e cómodos. Por 15 USD iria fazer o percurso de 340 km entre as duas cidades, sabendo que iria ter três paragens pelo caminho, uma delas para o almoço. 

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A escolha foi acertada. Vi uma paisagem diferente daquela que conhecera na região de Siem Reap e Angkor Wat e pude ir apreciando as estradas, o casario, as dezenas e dezenas de escolas, vendo o movimento das pessoas e veículos, os pais à espera dos mais novos, os mais velhos seguindo a pé ou de bicicleta, alguns de mota. A estrada nacional está em muito bom estado e o percurso, que acaba por durar cerca de 6 horas e 30 minutos, faz-se bastante bem.

20161221_173137.jpgAo longo do caminho também aproveitei para ler mais alguma coisa, dando particular atenção ao livro de Ben Kiernan ("The Pol Pot Regime – Race, Power, and Genocide in Cambodia under the Khmer Rouge, 1975-1979"), de leitura obrigatória para quem quer saber alguma coisa sobre o que ali se passou quando em Portugal se defendia a democracia e a liberdade na Alameda. Ao mesmo tempo ia observando as pessoas, recordando trechos do filme de Joffé e pensando na cidade que iria encontrar.

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O corrupio de pessoas, motociclos, tuk-tuks, carros, bicicletas e autocarros de turismo carregados de chineses e coreanos aumentava à medida que nos aproximávamos de Phnom Penh. A confusão nas ruas à beira dos cruzamentos era grande e rapidamente compreendi que a cidade ocupava uma área bastante extensa e tinha uma população muito substancial. Mais tarde esclareceram-me que deve andar pelos dois milhões de almas. 

thumb_P1080020_1024.jpgAo chegar a Phnom Penh dirigi-me de imediato ao meu hotel, situado mesmo junto ao Palácio Real e ao Museu Nacional, próximo do Boulevard do Príncipe Sihanouk (Preah Sihanouk Blv.) e na zona onde até 1975 ficava a Embaixada dos EUA. Foi só o tempo de largar a bagagem, refrescar-me e começar a palmilhar a cidade. 

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Visitar o Palácio ou o Museu nesse dia estava fora de questão, visto que fecham cedo (17 horas), pelo que agendei essas visitas para mais tarde e tirei partido da localização do hotel para conhecer as ruas adjacentes, dar um rápido passeio pela marginal junto ao rio, e fazer a pé todo o percurso desde ali até ao Monumento da Independência. De caminho vi dezenas de estudantes e candidatos a monges, da Universidade Budista de Phnom Penh, vi as novas embaixadas altamente protegidas e fui olhando para os rostos, tentando perscrutar nos sorrisos que me cruzavam o que teria sido a sua vida há algumas décadas.

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De novo me voltaram à cabeça as cenas da película de Roland Joffé, em especial as das filmagens no interior da embaixada e da chegada dos Khmer Rouge às suas portas. Embora o filme tivesse sido rodado na Tailândia, as casas, as ruas e a arborização que nele aparecem correspondem na perfeição ao que encontrei em Phnom Penh.  

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A cidade tem uma localização privilegiada junto ao rio, espraiando-se já pela outra margem, de onde se pode ver um excelente pôr-do-sol sobre os telhados do Palácio Real. Os problemas do lixo, da higiene urbana e dos cheiros, de que me apercebera em Siem Reap, tinham aqui continuação. Existe um conjunto de edifícios de arquitectura colonial, muitos deles degradados ao lado de outros excelentemente preservados, que conjuntamente com as esplanadas, numerosos cafés e muitos e bons hotéis e restaurantes dão-lhe um toque ocidental e mediterrânico. A luz durante os dias em que ali estive foi imensa, em especial durante as manhãs, o que me trouxe um misto de satisfação e saudade pela inigualável e penetrante luz das manhãs do meu país. 

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O contraste entre alguns muito ricos, os ricos e os pobres é visível, notando-se que os mais abastados têm traços étnicos chineses. Estes e os de origem vietnamita eram os principais habitantes da cidade e foram os primeiros a ser dizimados e expulsos para o campo, como a maioria da população das cidades, obrigada a trabalhos forçados e de "reeducação" pela cegueira resultante de uma amálgama de extremismo ideológico, racismo e xenofobia que aniquilou etnias e classes urbanas, acusando-as de traição em resultado da contaminação provocada pelas influências estrangeiras. Apesar da cidade estar a crescer, ainda não atingiu o ritmo de desenvolvimento do vizinho Vietname. O novo Casino Naga tem atraído um conjunto de investidores e jogadores chineses e de outras regiões da Ásia, como Singapura e Coreia do Sul, pelo que é natural que nos próximos anos a cidade dê um salto. Deverá ser essa a razão para a Rolls Royce já ter um representante e expositor na cidade.

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A população aprecia os jardins, gosta de ficar na cavaqueira, fumando e bebendo, nos passeios, vendo-se imensas crianças. Crianças e jovens, pois que praticamente não se vêem velhos. Alegres, correndo de um lado para o outro atrás das suas bolas, envergando camisolas contrafeitas de clubes de futebol europeus e até da nossa Selecção Nacional, emulando Cristiano Ronaldo nos seus toques de bola. 

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Durante os dias em que andei por Phnom Penh conheci mais alguns restaurantes. Gostei bastante do La Pergola, no hotel The Plantation, onde pernoitei. Um óasis confortável no centro da cidade, que recomendo vivamente, decorado com gosto, com um bar de tapas no rés-do-chão, um ambiente cosmopolita, de gente simples mas que se vê ter mundo e maneiras pela maneira como come, como fala, como se comporta perante os empregados e pela educação com que lida com os outros com que se cruza. Esses são os primeiros sinais de civilização de um homem. 

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Estive também no afamado Chinese House, do qual não fiquei com saudades. Pena que um local diferente e bem decorado, popular entre os expatriados, tenha uma cozinha com uma confecção tão má e tão pretensiosa. Caro para a qualidade. Mau para se amesendar. Salva-se o bar do rés-do-chão, por sinal às moscas na noite em que lá fomos. 

Amanhã será um novo dia. Não sei o que irei encontrar, embora me tenha vindo a preparar para tal. Veremos se depois do que vi e li não ficarei demasiado maltratado.  

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Por terras khmers (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.12.16

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O desenvolvimento de Angkor ficou a dever-se ao génio do Rei Jayavarman II (790-835) que inicialmente estabeleceu a capital em Roluos, depois mudada para as montanhas Kulen. Até então a história dos khmers era uma história de pequenos estados independentes, por vezes transformados em impérios, mas sempre durante períodos relativamente curtos. Consta que desde o período neolítico a região foi ocupada devido à fertilidade dos solos em redor do chamado Grande Lago, da riqueza piscícola e abundância de água, mas foi a partir de 1908 e das descobertas da Escola de Arqueólogos Franceses do Extremo-Oriente, em particular de Jean Commaille, que escreveu em 1912 o primeiro guia de Angkor, que se tornou conhecida. O que hoje se vê é apenas uma pequena amostra do que existiria, sabendo-se das inscrições nos relevos dos templos que, por vezes, as construções se atrasavam durante anos devido à ausência de fundos para serem concluídas. 

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Não vou aqui descrever em detalhe o que por ali vi, importa talvez dizer que quem quiser explorar a região de Angkor e visitar os templos, declarada Património da Humanidade desde 1992, após a celebração dos Acordos de Paris, tem primeiro de munir-se de um bilhete, cujo preço varia entre os 20 USD, para um dia, e 40 USD, para três dias, sendo possível obter passes de uma semana. Convém que quem lá for não se iluda e não se arme em chico-esperto, resolvendo começar a circular livremente por toda aquela vasta área para poupar no custo do bilhete, confiando na sorte, porque na estrada e à entrada das zonas onde estão os principais templos é feito o controlo dos bilhetes pela Polícia do Turismo, bilhetes que depois são frequentes vezes pedidos para verificação da identidade do titular e confirmação de que a foto dele constante, tirada na hora, corresponde ao visitante que se apresenta. O controlo é amigável e simpático para os viajantes sem deixar de ser rigoroso para os infractores que sejam apanhados sem bilhete.

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Depois de três dias passados nesta região, onde aproveitei para observar os fabulosos frescos, respirar todo aquele verde e visitar o Museu Nacional D'Angkor, reservando para outra ocasião o centro dos Artisans Angkor e as oficinas dos ceramistas, comecei a aperceber-me do grau de destruição e rapina provocado quer pelo regime de Pol Pot, e após a queda deste, em 1979, quer pela ocupação vietnamita que se lhe seguiu. Muitas das figuras das belíssimas apsaras (ninfas), que representam na perfeição a generosa e enigmática beleza da mulher cambodjana, das cabeças de esculturas centenárias, das divindades, serpentes e leões foram mutiladas, decepadas, desfiguradas. Galerias inteiras foram destruídas, provavelmente para estarem hoje a ornamentar casas e jardins fora do Cambodja. Algumas peças foram entretanto recuperadas depois de terem aparecido ao fim de muitos anos em leilões e exposições por esse mundo fora, mostrando a importância da cooperação internacional na defesa do património cultural que a todos pertence.

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Antes de rumar ao Sul ainda ensaiei uma primeira aproximação ao que foram os anos de guerra e genocídio, primeiro com a ditadura do direitista Lon Nol, que alegadamente chegou ao poder através de um golpe apoiado pela CIA e os EUA, acusação que alguns dizem ter falta de provas e que foi rejeitada por Kissinger, para quem os EUA terão sido apanhados de surpresa, e depois com o infame regime de Pol Pot.

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Quanto a Lon Nol é duvidoso que não tivesse obtido prévio apoio dos EUA atenta a forma como as coisas aconteceram, a começar pelas manifestações promovidas pelo próprio governo para justificar o golpe militar e o suporte que os EUA deram de imediato ao novo poder. Muito resumidamente, o que aconteceu foi que na sequência de uma votação na Assembleia Nacional cambodjana, Lon Nol derrubou a monarquia e atirou o Príncipe Norodom Sihanouk para o exílio. Invocando poderes extraordinários, aquele que era ao tempo primeiro-ministro, tomou o poder, proclamou a República Khmer e substituiu uma monarquia clientelar e corrupta, que abrira o porto de Shianoukville aos vietcongs, pela instauração de uma férrea ditadura, igualmente corrupta, dirigida por um nacionalista místico e chauvinista que queria ser tratado por “Black Papa” devido à cor da sua pele, o que segundo o próprio faria dele um verdadeiro khmer. O golpe conduziu a uma intervenção directa na Guerra do Vietname e à perda de mais umas centenas de milhares de vidas entre cambodjanos, com particular incidência sobre as comunidades dos etnicamente de origem vietnamita, inocentes ou culpados, que viviam no Norte, e que iam sendo atirados ao Mekong à medida que eram eliminados na tentativa de conter o avanço comunista.

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Fui então visitar o denominado “War Museum” que se encontra instalado na Região Militar de Siem Reap, a poucos quilómetros da cidade. Recebido à entrada pelo seu responsável, com o tradicional traje negro dos antigos guerrilheiros khmer, perguntou-me se precisava de guia, tendo eu retorquido que não. O que eu já sabia dispensava-o de me esclarecer sobre aquilo que ali estava patente. Material militar desactivado, tanques, granadas, lança-roquetes, morteiros, praticamente todos os modelos de metralhadoras ligeiras, com destaque para as AK-47, pistolas dos mais diversos fabricantes e modelos, incluindo israelistas, até um helicóptero e um velho Mig russo usados em combate, dispensavam explicações adicionais por parte de qualquer guia. De um lado e do outro vários barracões com fotografias, memórias dos conflitos, registo de tragédias pessoais e colectivas e um vasto conjunto de todos os tipos de minas que se encarregaram de ceifar, e que continuam a ceifar, centenas de milhares de vidas, de toda a espécie de gente, novos e velhos, homens e mulheres, gente inocente. Tudo ali exposto em fotografias, cartazes, relatos biográficos e relatórios para que a memória não se perca por falta de informação. Para todos e a começar pelos jovens locais, para que se possam aperceber do que foi o passado, do preço da paz e do drama do seu povo.

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Existe também um museu dedicado às minas a 25 km de Siem Reap. Não estava nos meus planos lá ir até porque a guerra contra as minas continua no presente, não faz parte do passado. Há ainda vastas áreas minadas, admitindo-se que haja cerca de seis milhões de minas (este número não é engano) espalhadas pelo país. Há minas colocadas pelos vietnamitas durante a ocupação, usando mão-de-obra forçada local, ao longo dos 700 km da fronteira com a Tailândia. Há minas colocadas pelos Khmer Rouge nas florestas, a partir do momento em que foram afastados do poder para protegerem os locais onde se refugiaram, e há minas colocadas pelos governo nacional para proteger cidades, vilas e aldeias e as suas próprias posições. São por isso frequentes os avisos de perigo, incluindo em caminhos aprazíveis pelas florestas e nalgumas zonas das províncias de Banteay Meanchey e Oddar Meanchey, por exemplo, num país que tem o mais alto número de amputados devido às minas. A média de amputados mensal é actualmente de cerca de 15, num total superior a 40000, agravando-se a situação na época das chuvas, em especial nas zonas rurais, onde os mais atingidos são os desgraçados dos agricultores.

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À sombra das árvores, com os pássaros e mosquitos por companhia, com um guia nos seus trinta anos que mostrava nos olhos e no rosto, para um pequeno grupo de turistas que nos seguia, os pergaminhos da sua história pessoal e a do seu pai, mais uma vítima dos Khmer Rouge, todo aquele material exposto tornou-se inofensivo. Está ali a memória da sua infância e da sua juventude, se é que de tal se poderá falar. Longo e doloroso foi o caminho que o trouxe até àquele cemitério. O que para trás ficou será sempre irrecuperável. Em vidas e em sofrimento. Não há preço para isto.

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Por terras khmers (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.12.16

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O aeroporto de Siem Reap fica relativamente perto da cidade. Em vez de um táxi tinha um simpático e rechonchudo motorista local à minha espera, disponibilizado pelo primeiro hotel onde fiquei, que logo tratou de acomodar a escassa bagagem que trazíamos no tuk-tuk que nos iria transportar. Foi este o primeiro contacto com o mais popular meio de transporte daquelas terras. Táxis, daqueles que conhecemos, não vi um único e desconheço se a Uber já se aventurou por tais paragens, apesar de também ter andado em jipes da Lexus.

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A cidade é pequena e só começou a desenvolver-se quando se tornou conhecida depois da descoberta de Angkor Wat. Ao tempo sob domínio francês, consta que terá recebido os primeiros turistas a partir do início do século XX. O Grand Hotel d´Angkor abriu as suas portas em 1932. Hoje tem à volta de 200.000 habitantes, de acordo com o último censo (2008), mas os que chegam para visitar a região são cada vez mais. O maior fluxo chega da China, que à sua conta representa cerca de 80% dos visitantes, mas também os há do Japão, da Coreia do Sul, do subcontinente indiano, australianos, estado-unidenses e europeus, em especial franceses e ingleses.

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Aqui apercebi-me do primeiro grande problema do país: o pó. O pó está em todo o lado e o ideal quando se circula de tuk-tuk, entre milhares de outros veículos idênticos, autocarros de excursionistas, camiões velhos e automóveis que largam enormes nuvens negras, é ir prevenido com uma máscara para a boca e nariz ou um lenço que nos proteja as vias respiratórias. Os tradicionais lenços khmer, em algodão, são baratos e custam entre 3 e 6 USD, dependendo do tamanho, o que é ridículo face à sua qualidade. O dólar tem curso legal, dentro ou fora das cidades. É normal só haver preços em dólares e o câmbio informal em qualquer lado é de 40.000 Riéis para 1 USD, o que me levou a arrepender-me de ter trocado alguns dólares no balcão de câmbios do aeroporto a 38.000. 

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A oferta hoteleira e culinária é vasta. Não faltam hotéis acolhedores das cadeias internacionais, alguns depositários da escola colonial, e pequenos locais de muito bom nível, com pessoal qualificado, afável e de uma educação extrema em quaisquer circunstâncias, a preços muitos razoáveis para a qualidade do serviço. Eu prefiro hotéis calmos e sossegados, sem a confusão dos excursionistas. Em Siem Reap e Phnom Penh há imensos. Os hotéis-boutique estão na moda. Aqui, onde iniciei a minha jornada, são quase todos “D´Angkor” ou de “Indochine”, ou as duas coisas, para todas as bolsas e com diferentes níveis de sofisticação, mas convém ter cuidado porque por vezes o nome ilude uma espelunca a 20 ou 25 USD ou um hostel entre os 5 os 10 USD para aqueles que não se importam de viajar sem tomar banho e convivem sem pruridos com a abundante fauna rastejante, roedora e voadora. Sinais, aliás, de outro gravíssimo, e de mais difícil solução, problema nacional: o tratamento dos lixos. Jazendo a céu aberto, sem contentores, por vezes dentro de sacos plásticos largados à beira dos passeios, sujeitos à fúria da cachorrada e dos desgraçados que remexem o seu interior, na maioria dos casos atirado para a beira dos passeios, das estradas ou dos cursos de água ou, nesta altura do ano, os leitos secos dos ribeiros, assume contornos assustadores, o que explica epidemias, doenças e o cheiro nauseabundo de que quando em vez nos assole.

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O assunto não é tabu, mas o convívio de diferentes tradições culturais e heranças religiosas naquela zona de cruzamento ente o hinduísmo e o budismo, onde a cristandade sempre teve dificuldade em se afirmar, não se afigura fácil. Talvez isso também explique a inexistência de discussões, de vozes alteradas, gritos, gestos obscenos ou empurrões, em cidades onde o trânsito é caótico, a confusão imensa, não raro com vacas e cães que circulam pachorrentamente pelo meio da via, mas que apesar disso flui, e onde se vêem piscas-piscas, braços esticados e raramente se ouvem buzinas. As que se ouvem não são de protesto, tratando apenas de saudar ou avisar quem circula que convém manter o rumo e o ritmo para não haver uma desgraça. 

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Normalmente, onde há especiarias é possível comer bem. O Cambodja não foge à regra e é possível aliar a tradicional culinária khmer, o saborosíssimo peixe amok no coco, sem pele nem espinhas, os caris vermelhos e verdes, o camarão, o coco, os lagostins, as perninhas de rã ou as vieiras com a excelência da herança culinária francesa, as influências vietnamita, chinesa, indiana e tailandesa com os sabores tradicionais, onde pontifica o incontornável travo de “lemon grass”, a erva aromática que produz um óleo deliciosamente perfumado a limão que é de utilização obrigatória em muitas cozinhas asiáticas. Aqui é especialmente saborosa e o seu uso, como noutros locais onde estive, vai muito para além da culinária, sendo frequente o seu aproveitamento em saboaria e cosméticos, chás, bebidas refrescantes, produtos medicinais e como óleo para alguns tipos de massagens, já que a massagem tradicional khmer é a seco.

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Não há nada de mais confortável do que entrar numa casa recuperada, com a velha arquitectura colonial, ou com as linhas simples e modernas de algumas das novas construções, num spa ou casa de massagens, num quarto limpo, decorado de forma simples, impregnado com a luz e as cores do fim de tarde, de onde se liberta o refrescante aroma a “lemon grass”. Uma bênção para os sentidos depois de um dia de tuk-tuk, subindo e descendo as escadarias de templos, percorrendo museus vivos e palácios com a roupa colada ao corpo, observando a vida nos fascinantes mercados onde é possível tudo comprar e obter, de objectos de prata a peças para motas, de sedas a pedras semi-preciosas, lado a lado com os vernizes para as unhas, as estatuetas de cobre ou as fardas escolares, antes de um bom banho ou de umas braçadas retemperadoras numa qualquer piscina escondida num jardim interior disfarçado pela abundante vegetação que os cerca. 

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Na maioria dos locais onde merendei ou jantei vi muitas cozinhas abertas e asseadas, mesas limpas, toalhas de pano e jogos americanos sem manchas. Mesmo em restaurantes de estrada, onde a comida ficava a desejar, como num que é habitual parar para quem vai por estrada para Phnom Penh e cujo nome “Banyan Tree” homenageia a frondosa árvore da frontaria e não pretende confundir-se com a afamada cadeia de hotéis de luxo, não se vê louça lascada ou há talheres encardidos como é habitual encontrar em muitos dos nossos tascos com pretensões a restaurantes finos. Em Siem Reap há várias casas que se recomendam. Para além do F.C.C., o famoso clube dos correspondentes estrangeiros, também com aposentos para viajantes, elogiado pelo The Guardian e por onde passaram tantos escritores, jornalistas e simples curiosos, de que falarei noutra altura e que não se confunde com o seu homólogo da capital, gostei do Embassy, em King´s Road, perto do Hard Rock, numa casa só de mulheres, com uma Chef oriunda da escola do Sofitel e com experiência anterior em Singapura, que tem um excelente menu de degustação, onde sem qualquer rebuço me substituíram o pato que aparecia lá pelo meio pela carne decente de um animal sem penas. 

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Em lugares onde o Sol nasce muito cedo é também natural que tudo termine mais cedo. É por isso normal que se jante mais cedo, por volta das 20:00, e a vida nocturna também antecipe os seus períodos de abertura e termo, o que é gratificante para quem gostando de dias intensos não dispensa estar sentado numa esplanada acolhedora, ouvir um pouco de música entre dois dedos de conversa com outros viajantes, trocando experiências e conhecimentos na língua que se proporcionar.

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Por terras khmers (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.12.16

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A primeira sensação foi de estranheza. Ali, tão longe, enquanto aguardava pela pouca bagagem que normalmente transporto em viagem, as imagens que tinha diante dos meus olhos eram do Aeroporto Humberto Delgado, da velha Portela, em Lisboa. Imagens de rostos e paisagens familiares, de aviões da TAP na descolagem e de intermináveis e desesperantes tapetes rolantes carregados de malas maltratadas e viradas ao contrário. Rapidamente percebi que se tratava de um filme promocional dos actuais concessionários do aeroporto onde acabava de chegar. Os mesmos que gerem Lisboa. Coincidência, claro, nem por isso menos estranha naquele momento. Mas era o que eu via e disso não podia fugir.

Há uma frase de Proust que faz parte do 5.º volume de À La Recherche du Temps Perdu, publicado a título póstumo, que é muito conhecida entre os amantes de viagens e que reza o seguinte: “Le seul véritable voyage, (…), ce ne serait pas d’aller vers de nouveaux paysages, mais d’avoir d’autres yeux, de voir l’univers avec les yeux d’un autre, de cent autres, de voir les cent univers que chacun d’eux voit, que chacun d’eux est (…)”. Nunca como este Natal essa citação foi tão apropriada. Ver com outros olhos. 

O falecimento em Julho passado de Sydney Schanberg, mais um no imenso rol de gente que desapareceu e de catástrofes que marcaram o ano que se prepara para sair, despertara-me a vontade de empreender uma viagem que me ajudasse a compreender um pouco melhor a história e a cultura de um povo marcado, em especial nos anos mais próximos, por regimes opressivos, instabilidade política, conflitos armados e um interminável sofrimento. O impacto que o filme de Roland Joffé rodara sobre a amizade entre o falecido Dith Pranh e Sydney Schanberg, o repórter do New York Times que cobriu em 1975 a queda de Phnom Penh às mãos dos Khmer Rouge, fizera-me pensar, durante muitos anos, na hipótese de um dia conhecer mais de perto aquela que foi a dura realidade vivida por um povo às mãos dos seus próprios filhos.

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Decidi, pois, rumar até ao reino que herdou as tradições do velho império Khmer, outrora estendendo-se desde a Birmânia, actual Myanmar, até ao Vietname, hoje comprimido entre os seus vizinhos (a Tailândia, o Laos e o Vietname) e as águas quentes do golfo da Tailândia. E fi-lo entrando pelo norte do país para depois fazer o percurso em direcção à capital.

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Também há muito que sabia da existência dos templos de Angkor e foi exactamente por aí que comecei, partindo de Siem Reap à sua descoberta, aproveitando a estação seca e as temperaturas mais amenas desta altura do ano.

Não se descreve nalgumas linhas a sensação de esmagamento que causa ao viajante a apreensão da imponência, grau de desenvolvimento e arrojo estético da civilização que floresceu entre os séculos VIII e XIII naqueles terras férteis e ricas em minerais irrigadas pelo Mekong. O que a vista alcança perde-se na imensidão do trabalho esculpido na pedra. Nos detalhes de um tempo cuja engenharia atravessou séculos, praticamente incólume, na forma como se encaixam as pedras que sustentam as abóbadas, nos quilómetros de frescos que recriam lendas, crenças e mitos, batalhas históricas, que se perdem na arenga de guias que aprendem português pela Internet em quatro meses e se fazem entender na perfeição depois de correrem o seu cardápio de idiomas ocidentais enquanto tentam oferecer os respectivos préstimos a quem chega. Sempre sorrindo, com bons modos, educadamente.

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Sem a confusão de outros locais, podendo livremente deslocar-me por entre paredes e corredores, saltando de um local para outro, percorrendo a pé extensas zonas de floresta, perdendo-me na frescura do verde e na quietude dos lençóis de água, onde nenúfares, lótus e uma imensidão de outras flores e plantas vai lutando por um espaço à superfície, vendo as horas correrem silenciosas, tão discretas na sua passagem como os séculos, ali tomados pelos frondosos caules, repousando à sombra de copas monstruosas e prisioneiros de raízes maiores e mais poderosas que o aço, impondo-se à pedra e ao lento trabalho de esculpi-la a que tantos se dedicaram.

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Ali estão elas, aquelas árvores que o tempo não parou, senhoras de tudo, desafiando a trindade suprema de Xiva, Vixnu (Vishnu) e Brama, desafiando a serenidade intemporal de Buda, desafiando os homens, dizendo que estão ali. E que ali permanecerão. Guardando o tempo, marcando-o, assistindo à sua erosão na pedra, mostrando a irreversibilidade do domínio da natureza, da nossa sujeição às suas leis, escutando o seu próprio eco, enquanto uma brisa mansa percorre as ramagens mais altas, entrecortada pelo chilrear de alguns pássaros ou a sombra de uma ave de rapina.

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Lá longe, ao fundo, vê-se o fumo elevar-se no ar. Sente-se agora o cheiro intenso do incenso que arde, da lima e do jasmim. As cores fortes do céu, os aromas do fim de tarde. E à minha volta o silêncio. A vida. O silêncio que antecipa a chegada da noite e o nascer do dia. O silêncio que só alguns ouvem, o silêncio que se prolonga e estica o tempo. O silêncio que nos dá luz, que nos retempera e acalma. O silêncio, sim, o silêncio. 

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Câmara de Lobos

por Rui Rocha, em 14.04.13

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Cartas do Japão - 11

por Teresa Ribeiro, em 11.04.10

Enquanto espero pelo transfer reparo no arranjo que decora uma das mesas do lobby do hotel. É feito com pequenos seixos e apenas duas flores. Está lindo. O sentido estético deles é desconcertante. Conseguem o melhor e o pior. Gosto da cerâmica local, por exemplo, mas detesto o merchandising que têm para consumo de turistas. Algumas montras de loja são de um kitsch inenarrável. Os táxis são indescritivelmente pirosos, com estofos forrrados a renda branca e corações luminosos no tejadilho. Jamais esquecerei o autocarro de turistas que vi com lustres no tecto e estofos em veludo de fantasia.

São 8.30h, hora de ponta. Do autocarro vejo pela última vez os homens-robot de fato e pasta, todos iguais e as miúdas com a farda do colégio. À medida que nos aproximamos do aeroporto a paisagem perde a graça, mas mesmo no meio do casario mais desinteressante sebes de azáleas dão um toque de beleza às ruas por onde passamos. Um sinal na estrada indica acesso à ponte Arco-Íris. Alguma vez nos lembraríamos no ocidente de baptizar uma ponte com este nome?

O autocarro recolhe turistas em vários hotéis. Sempre que se põe em marcha há pessoal que fica na rua a saudar-nos com uma vénia. Nunca se curvaram tantos à minha passagem. Em Lisboa vou sentir falta disto.

Espera-me um dia anormalmente longo. Já no avião consulto o menu dos filmes e fico feliz. Selecção de luxo: Good Night and Good Luck, O Fiel Jardineiro e Férias em Roma. Adivinhem por qual vou começar?

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Cartas do Japão - 10

por Teresa Ribeiro, em 10.04.10

 

8º dia - À chegada a Hiroshima espera-nos Komiko. É simpática, mas percebe-se bem demais que está a cumprir serviço, portanto não cativa como as outras. O seu inglês é razoável, ou então sou eu que já os consigo perceber melhor. Komiko veste um quimono. Observo-a e de repente percebo porque ganharam as japonesas a fama de terem um andar gracioso. É que o quimono trava-lhes as pernas, obrigando-as a dar passos pequeninos. Com saias curtas ou calças a graciosidade evapora-se num ápice, por causa daquela curvatura que têm nas pernas. É assim que se desfazem certos mitos.

Está calor, mas uma neblina impede-nos de ver o céu azul. Já nem quero saber. É o último dia, nas tintas. O programa inclui uma visita à ilha Miyajima, onde vamos visitar o santuário xintoísta Itsukushima, considerado a terceira maravilha do Japão. Vejo a foto no prospecto que Komiko nos entregou e fico entusiasmada. Este santuário foi edificado sobre estacas para dar a impressão de que flutua sobre as águas do oceano. Viajamos para a ilha de barco. Tento fotografar o santuário, quando o descubro à beira da ilha, mas desisto por causa da neblina. A minha sina, nesta viagem, é não ver nada nas melhores condições, penso, conformada. Mas quando desembarcamos e percebo que está maré baixa e que aquele efeito do santuário a vogar nas águas não se pode observar na vazante, a irritação da véspera regressa em força. Entre raios e coriscos, desabafo: tive de imaginar Nikko sem chuva, o pavilhão dourado com Sol, as encostas de Quioto com flores e agora ainda tenho de imaginar o soi-disant "santuário flutuante" com água. Estou farta de puxar pela imaginação!

Há veados à solta na ilha, algo que já tinha observado em Nara. Estão tão habituados à presença das pessoas que não fogem, pelo contrário. Se percebem que temos alguma coisa que lhes possa interessar, até nos perseguem. E o que lhes interessa? Comida e... papel. Um deles roubou de supetão um mapa a uma turista desprevenida e começou a comê-lo. Adorei a cena. Graças aos bichos recuperei a minha boa disposição. Almocei à japonesa, descalça e sentada no chão. Menu? Ostras. Nunca vi ostras tão grandes. Estavam uma delícia.

Não tinha grandes expectativas em relação a Hiroshima do ponto de vista arquitectónico, por motivos óbvios. Porém, a visita a esta ilha foi uma surpresa e na cidade ainda existe um castelo bem bonito. Naturalmente trata-se de uma reconstrução, pois localiza-se muito perto da zona de impacto zero, onde tudo foi completamente arrasado. Há coisas que não esquecemos, como uma elevação no terreno onde estão enterradas as cinzas de milhares de corpos que não foi possível identificar e, claro, o museu que lhes é dedicado. Sente-se um silêncio pesado à nossa volta assim que entramos. Os visitantes ficam ensimesmados, sem vontade de fazer sequer comentários de circunstância. Um dos documentos que está em exposição é a carta que Einstein escreveu a Roosevelt informando-o de que os alemães estavam adiantados nas investigações sobre a bomba, mas que o seu grupo de investigação também já se encontrava em condições de avançar, se ele quisesse. Em poucas ocasiões um documento histórico me fez arrepiar tanto.

No fim os visitantes podem deixar mensagens em livros que se encontram dispostos para o efeito. Apeteceu-me registar a frase que ecoou durante toda a tarde na minha cabeça Tu nas vu rien a Hiroshima. Assinei, registei data e país. Esse filme, que roda ao ritmo do texto de Duras, é hipnótico. Faz sentido evocá-lo naquele lugar.

Chego tarde a Tóquio, só a tempo de dormir algumas horas. Virei o mundo do avesso, agora tenho de voltar a pô-lo no sítio. Amanhã regresso a casa.

 

Fotos: santuário Itsukushima 

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Cartas do Japão - 9

por Teresa Ribeiro, em 09.04.10

7ºdia (cont.) - Em trânsito para um dos templos que vou visitar reparo numa loja com um poster da Yoko e do Lennon na montra, a darem um beijo. Tantos anos depois, semelhante destaque é revelador do impacto que aquela união teve nos japoneses. Nunca tinha pensado nisso, claro. Sempre olhei o casal na perspectiva de uma ocidental.

Desde que cheguei mal consegui ouvir música japonesa. Neste aspecto eles são tão saloios como nós: o que vem de fora é que é bom. Pena, gostava de ouvir os sons novos que certamente se fazem por aqui. Em contrapartida ouvi ontem num restaurante Se todos no mundo fossem iguais a você, do Vinicius (!)

Novo deslumbramento: Sanjusangendo, o templo das mil estátuas. Como não é o último ponto do roteiro, pergunto-me: Será possível superar isto? É. A fechar o tour levaram-nos ao templo Kiyomizu, que fica no alto de uma colina, a dominar a cidade. Ao olhar aquelas encostas percebi, mais uma vez, o que tinha perdido: no blossoms, of course. Mas o meu encantamento era tal (a alternativa de copas multicolores também é muito bonita) que já não me apeteceu insultar nada nem ninguém. Fiquei simplesmente a olhar, a esquadrinhar pormenores, para não perder nada, a registar os melhores enquadramentos, numa ginástica desesperada para meter dentro da máquina aquela beleza impossível de levar para casa.

Noite suave, nem um pouco de frio. Caminhei junto ao rio, a ver os bares de madeira com lanternas vermelhas e casais de namorados sentados nas margens do rio Kamo, que atravessa a cidade, e dirigi-me ao bairro das gueixas, criaturas que sempre me perturbaram muito.

Sabiam que há 200 gueixas em Quioto? E que as turistas podem maquilhar-se à gueixa por seis mil ienes (preço especial, porque estranhamente as japonesas têm de pagar muito mais - dez mil). Por falar em números, Youmi disse-nos que Quioto tem 1600 templos budistas e cerca de 300 santuários xintoístas. Impressionante!

Fotos: em cima Sanjusangendo, o templo das mil estátuas, em baixo Kiyomizu

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Cartas do Japão - 8

por Teresa Ribeiro, em 08.04.10

7º dia - Está de chuva, raios! Eu queria ver Quioto nas melhores condições e como uma desgraça nunca vem só, é impossível visitar o Palácio Imperial porque fecha aos domingos e é domingo. Saio do hotel mal humorada. Pensamento do dia: Está-se mesmo a ver que não vai haver cherry blossoms pr'a ninguém!

Começamos o tour pelo castelo Nijo, de que gostei muito. A guia de hoje chama-se Youmi. É muito simpática e tem uma voz agradável. Para variar não parece uma menina pequenina a falar, como acontece com quase todas. Youmi chama-nos a atenção para o som que faz o chão do castelo ao passarmos, um som agradável que se destinava, no tempo dos senhores feudais e dos ninjas, a alertar os donos da casa para a presença de intrusos. Daqui passámos a um santuário xintoísta, o Kitano Tenmangu, também muito bonito. Seguiu-se o Pavilhão Dourado.

Salto no tempo: estou a descrever este tour por Quioto no comboio bala, já a caminho de Hiroshima. Enquanto vejo esta cidade encantada desaparecer no horizonte pergunto-me: Será que nunca mais te vejo? Quero voltar aqui. Não gosto de repetir destinos quando sei que tenho tanto para descobrir, mas Quioto é uma das coisas mais lindas que já vi (tem razão, Nanbanjin, seria imperdoável excluí-la do meu roteiro). 

Embora não goste de circuitos, tenho de reconhecer que esta foi a melhor experiência que tive do género. Os japoneses são extremamente organizados, sabem gerir o tempo muito bem, não nos obrigam a andar a toque de caixa. Em geral dispomos de um tempo aceitável para desfrutar as coisas. Acresce que revelam particular sensibilidade para cuidar de pormenores, como o da apresentação em crescendo das suas jóias. Em geral, o monumento que vemos a seguir supera o anterior.

Retorno ao registo em que comecei esta carta: quando entro nos jardins do pavilhão dourado identifico facilmente as árvores que, segundo nos disseram, há dias ainda estavam em flor. Praguejo muito. Se as cerejeiras tivessem orelhas ficariam com elas a arder. Ainda por cima, sem Sol à vista, o pavilhão dourado não tem, como se pode imaginar, tanto impacto. Obrigadíssima, ó gordo! (o gordo era o Buda). Irritada lá fui tirando umas fotos. Estou com fome. À saída dos jardins vejo uma máquina do Hagen Dasz. Reparo que tem um gelado de chá verde, variante para o mercado oriental. Mas tiro um de chocolate, agora não me apetece japonices.

Ao almoço outro buffet. Gosto da solução porque permite experimentar muitas coisas, mas desta vez dá-me mais para pôr defeitos em tudo. Estes comedores-de-peixe-ao-pequeno-almoço sabem lá o que são sobremesas! De facto, do que provei o mais decepcionante tem sido os doces.

À tarde tudo mudou. O sol apareceu e recomeçámos o tour  pelo santuário Heian, com os seus deslumbrantes jardins. A nossa simpática guia já nos tinha dito, ao almoço, que aqueles eram os seus jardins favoritos e que estava certa de que eu iria adorar, até porque ali ainda havia muitas cerejeiras em flor (há espécies que florescem mais tarde, era o caso). Fiquei, de facto, maravilhada. Perdi a conta às fotos que tirei e esqueci-me de continuar mal disposta. A neura ficou para trás.

 

Na foto: jardins do santuário Heian

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Cartas do Japão - 7

por Teresa Ribeiro, em 07.04.10

6º dia (cont.) - À chegada a Quioto esperava-me um almoço no hotel com buffet onde se podia provar várias especialidades japonesas. Deparei com uma boa porção de pratos que ainda não tinha visto em lado nenhum. Decido experimentar tudo, em ínfimas porções. Só hesito em relação a uma coisa que só estava identificada em japonês e que eu não sabia muito bem se eram tripas de peixe ou um legume esquisito. Afiançam-me que aquilo é de origem vegetal, portanto decido provar. Não era mau. Também comi peixes em estado larvar (cheia de má consciência ambientalista). Os pequenitos não sabiam a nada.

Instalámo-nos em Quioto, mas o dia é dedicado a Nara, para onde seguimos de camioneta. A guia de hoje chama-se Imu. O seu inglês é fraquíssimo, mas neste caso tal limitação facilita a vida a quem quer tentar percebê-la, porque ela fala muito devagar. Dá palmadas na testa quando não consegue lembrar-se de uma palavra em inglês. Para enfatizar o que não consegue com o seu escasso vocabulário, levanta os calcanhares e abre os braços. Tem imensa piada. E é muito simpática, como todo este povo. Gostei do que vimos em Nara: um templo com o Buda maior do mundo e um santuário xintoísta lindíssimo, onde andavam veados à solta.

É sábado, passo a noite em Quioto, numa das zonas mais animadas da cidade. Cruzo-me com algumas vamps nipónicas. As que sabem arranjar-se ficam lindas, as outras parecem putas da baixa, consequências de uma péssima assimilação da cultura ocidental, I supose, ou então são apenas reflexos da tendência oriental para a piroseira.

Noto que algumas mulheres têm as pernas arqueadas em cima, o que lhes confere uma forma de andar muito peculiar. Comento isto com um homem, que me responde de imediato: não são só algumas, todas têm as pernas assim. De facto ainda não me tinha lembrado de olhar para as pernas de todas. Pois, não sou gajo.

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Cartas do Japão - 6

por Teresa Ribeiro, em 06.04.10
6º dia
- Ainda não consegui que me dessem uma explicação satisfatória para uma coisa que me tem intrigado: porque têm eles áreas para fumadores nas ruas do centro de Tóquio? Isto parece-me de tal forma absurdo que não vou descansar até descobrir qual é a lógica, se é que existe alguma.

Não falei ainda das minhas aventuras gastronómicas. Gosto de comida japonesa. Já conhecia o sushi, o sashimi, a tempura e o fondue japonês. Desde que cheguei tenho experimentado quase tudo o que vejo à frente, menos o que me parece repugnante. À excepção de uns bolinhos que me pareciam de chocolate e afinal sabiam a feijão cozido, tenho gostado de tudo. Estive quase a encomendar no hotel um pequeno almoço japonês quando percebi que eles comem logo de manhã peixe e noodles soup. Recuei ainda a tempo de pedir fried eggs and bacon.  

Estou a escrever no comboio bala. Destino: Quioto. Sabem que eles vão ter um comboio ainda mais rápido, com capacidade para atingir os 500km/h? Noto que não temos a percepção da velocidade a que realmente vamos, tal como nos aviões. Vamos demorar três horas a chegar.

A guia que nos acompanhou, logo de manhã, no transfer do hotel para o comboio, correspondia ao estereotipo que temos das japonesas que imaginamos nestas lides: muito solícita, sempre a sorrir, às corridinhas, por entre vénias, de um lado para o outro, inglês péssimo. Em suma, era engraçadíssima. Durante esse trajecto fez um pouco de conversa e até cantou. Daquilo que nos foi dizendo fixei a parte em que nos falou dos "famous toulists, like Malilyn Monloe" que tinham passado por Hakone (unfolgetable!).

Alguém disse que a primeira visita a uma casa-de-banho pública condiciona, de forma irreversível, a opinião dos turistas acerca dos países que visitam. No meu caso confirma-se e o Japão não é excepção. Quanto da sua peculiar cultura se revela também neste detalhe: a par de sanitas high-tech com tampos giratórios aquecidos e repuxo, no império do sol nascente proliferam os wc japonese style, que não são mais que umas fossas abertas no chão (ugh!).

Na estação, nas ruas, por todo o lado onde circulo nem um papel no chão, nenhum escarro ou presente de canídeo. E vem-me à memória uma frase batida: "Por que é que os portugueses são tão porcos?"

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Cartas do Japão - 5

por Teresa Ribeiro, em 05.04.10

5º dia - Ontem passei a noite em Ginza (a zona comercial mais in de Tóquio) e Shinguzu (zona de diversão nocturna). Adorei. Um festival de neons como nunca vi. Comparada com isto a Times Square parece a baixa da banheira by night.

Hoje vamos ver o Monte Fuji, o céu está azul e a guia que nos acompanha tem bom inglês. Aleluia! Chama-se Osaki esta charmosa cinquentona. Sabe passar-nos a informação que realmente nos interessa, no tom adequado, muitas vezes cheio de sentido de humor. É um prazer ouvi-la. A esta no fim sou mesmo capaz de dar um beijo onde ela quiser quando chegar o momento dos aplausos que, já percebi, é um costume que está enraizado nos excursionistas profissionais. No Monte Fuji deram-nos um guizo da boa sorte. A partir de agora passamos a ser, oficialmente, um bando de carneiros, com badalo e tudo.

Uma das coisas que me diverte em viagem é observar a inconcebível falta de imaginação que as pessoas têm para tirar fotos. Invariavelmente lá se põem à frente do monumento ou do fatídico canteiro de flores, em pose, de sorriso forçado e de preferência paradas bem a meio do enquadramento, que é para mal se ver o ponto turístico que pretendem fotografar. Observo-as e tento imaginar o resultado: esta vai ficar péssima, esta ainda pior... fazem todos os mesmos erros: chinocas, bifes, gringos, parece que andou tudo na mesma escola. Pergunto-me se no fim, quando mostram as fotos à família, ficam satisfeitos com o resultado. Se calhar ficam.

Mas o Monte Fuji, o mais alto do Japão, não cabe na fotografia. Subimos até onde as camionetas conseguem chegar, já em zona de neve. Para os japoneses este vulcão ainda em actividade é sagrado e diz o povo que pelo menos uma vez na vida se deve subi-lo a pé, apesar dos seus quase 3 800 metros, ou exactamente por isso. Na volta, já perto do sopé, macacos selvagens espiavam-nos dependurados das árvores que orlam a estrada. Que pena não termos disto em Sintra, ou no Gerês.

Ao fim do dia mudámos para um hotel em Hakone, uma estância turística na montanha. À chegada ao quarto fui, como faço sempre, direitinha à janela. A vista não é má. Em seguida espreito a casa de banho e deparo com uma espécie de banco com alguidar por cima, instalado por baixo do chuveiro. Para que serve isto? No roupeiro há quimonos. Depois do banho visto um deles, faço um carrapito e repuxo os olhos ao espelho. Se os conseguisse manter assim passava por japonesa na boa.

Amanhã viajamos para Quioto no comboio bala e deslocamo-nos a Nara. No dia seguinte viajaremos até Hiroshima. Tu nas vu rien à Hiroshima. Sempre o cinema para todo o lado onde vou. E a música. Na minha cabeça tem rodado com frequência desde que cheguei uma música do Ryuichi Sakamoto de que gosto muito, que pertence à banda sonora do filme Feliz Natal Mr. Lawrence de Nagisa Oshima, de que também gostei muito. Oiço bichos a piar lá fora. É outra música, boa para me embalar.

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Cartas do Japão - 4

por Teresa Ribeiro, em 04.04.10

4º dia - Consegui dormir durante a noite. Adeus jet lag, olá... chuva?! O programa de hoje inclui uma visita a Nikko, terra de samurais, que fica na montanha, a cerca de hora e meia de Tóquio. Chove torrencialmente. Nova irritação matinal.

O guia mudou. Simpático, é bem o exemplo do profissional diligente oriental. Fala para que todos o oiçam, mas o sotaque, dio mio, é terrível. Já percebi que japoneses a falar inglês são pior do que o polícia do Alô Alô. Desisto de o perceber. Acho-lhe graça, mas há que reconhecer, no terreno o tipo é um chato: debaixo de chuva torrencial é incapaz de adaptar o discurso às circunstâncias para poupar as pessoas à molha inevitável. Fica ali, trá-lá-lá, os outros guias chegam com os seus grupos, vão-se embora e o nosso continua, estoico, trá-lá-lá, trá-lá-lá.

Enquanto isso aproveito para tirar fotos tentando segurar máquina e chapéu-de-chuva ao mesmo tempo e a praguejar contra buda, que é a divindade de serviço, e portanto responsável pelo mau tempo.

O ponto forte da visita de hoje é um conjunto de magníficos templos budistas, lindos de morrer. Vale a pena ficar encharcada para ver tudo bem visto, mas não cesso de me perguntar o que seria vê-los num dia de Sol, com aqueles dourados e vermelhos avivados pela luz. Quando terminou a visita a chuva parou. É irritante, convenhamos. Digo mais uma vez a buda o que penso dele. Acho que estou lixada, com favores deste é que nunca mais posso contar. É o que faz reagir sob impulso!

Ao guia de hoje bati palmas. É um chato, mas acabou por me divertir por ser assim. Os cromos acabam sempre por me conquistar.

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Cartas do Japão - 3

por Teresa Ribeiro, em 03.04.10

4º dia (madrugada) - Não tenho grande tolerância ao desconforto físico, seja ele provocado pela dor, fome ou sono. Ontem passei toda a manhã com uma disposição que deixava muito a desejar. A partir das seis começou a dar-me o sono, encostei-me na cama, mas passada meia-hora fui acordada. Era o primeiro dia do circuito e tinha de me levantar áquela hora. Antes não tivesse passado pelas brasas. Fui a arrastar-me para o pequeno-almoço e daí para a camioneta que nos levaria numa volta pelas ruas de Tóquio. O nosso guia falava num tom arrastado, extremamente baixo, com uma pronúncia horrível. Eu estava sentada muito atrás, portanto ao fim de cinco minutos desisti de o ouvir e perceber. Só que aquela toada indecifrável tinha um efeito soporífero, assim como a trepidação da camioneta. Levei o tempo todo a adormecer e a acordar de cada vez que tínhamos de fazer uma paragem para sair. Foi uma espécie de tortura do sono, que durou até que consegui despertar de uma vez, ou seja, até meio da tarde.

Visitámos o conjunto de templos xintoístas Meiji, os jardins imperiais e o templo budista Kanon. Depois demos uma volta pela costa de barco e acabámos o circuito num centro comercial de Obaida, sem interesse nenhum, obviamente um compromisso comercial da organização com direito a comissão. Fiquei em brasa. Na véspera, quando tinha andado a ver a cidade por minha conta, descobri templos lindos, perto da Torre de Tóquio, templos que este tipo não mostrava aos turistas em benefício de um shopping banalíssimo em Obaida! Definitivamente odeio tours! No fim, quando o guia se despediu, o grupo bateu-lhe palmas. A mim apetecia-me era pedir-lhe a percentagem que me cabia da comissão que ele ganhou.

À noite fui ver Tóquio à luz dos néons. Já no quarto, antes de me deitar, fiquei a olhar a vista da minha janela, que ocupa quase toda a parede. Uma vista soberba. Empoleirei-me como a Scarlett no parapeito e fiquei ali um bom bocado, a olhar a torre de Tóquio iluminada e os edifícios adjacentes, a ver passar o comboio bala e os néons com caracteres japoneses a piscar. Até que veio o sono. Gosto de Tóquio.

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Cartas do Japão - 2

por Teresa Ribeiro, em 03.04.10

3º dia - O meu dia começou cedo, à 1.30h. Consegui dormir a partir das 20h. Foram cinco horas e meia de sono e depois... kaputt! O jet lag assim me obriga. Planos para esta longa madrugada: escrever este diário, ler Ulisses, uma das minhas imperdoáveis lacunas. A seguir ao Ulisses vou para o jacuzzi. Lembrei-me, enquanto vagueava pelo quarto, do Lost in Translation. Eles também não conseguiam dormir.

 

Ontem, quando cheguei, andei a explorar as imediações do hotel, que fica numa ponta da cidade. Almocei num restaurante barato. Basta procurá-los e encontram-se por todo o lado, desmentindo a ideia de que em Tóquio é tudo caríssimo. Neste restaurante não se falava uma palavra de inglês, mas tinham fotos nas ementas. A linguagem gestual resolveu o resto.

Não foi preciso caminhar muito para descobrir, entalado entre duas torres, um velho templo budista. Parecia uma peça mal encaixada no puzzle errado, mas a seguir descobri uma e outra e outra. Peças soltas que afinal encaixam porque a harmonia aqui faz-se de contrastes absurdos.

Também andei de metro, quis logo ver como era. Apesar de haver alguma informação escrita em inglês é muito difícil orientarmo-nos. O metro é muito confuso quando temos de mudar de linha. O que valeu foi a solicitude das pessoas (estou a achar os japs de uma simpatia desarmante, quando  viajam até ao ocidente devem pensar que somos uns brutos). A menina de uma banca de jornais a funcionar numa das estações até me fez um croqui para que eu a entendesse. Um homem, com ar de executivo nipónico, conduziu-me escada acima, escada abaixo, até ao comboio que eu havia de apanhar. Deu para perceber que para o efeito se tinha desviado muito do seu caminho. Outro, ao ver-me com ar desorientado, veio ter comigo a perguntar se me podia ajudar. Este, é claro, speakava.

Acho muita graça a este hábito que eles têm de fazer vénias por tudo e por nada. E gosto do requinte e delicadeza que revelam nos mais pequenos detalhes. Passei por uma secção de produtos alimentares de um centro comercial onde até os produtos mais triviais eram apresentados com uma elegância notável.

Este primeiro dia em Tóquio geri-o como quis, mas a partir de hoje não vai ser assim. Vou andar num tour organizado para ver o resto. Não gosto de circular em rebanho, as poucas experiências que fiz do género deixaram-me sempre insatisfeita, mas aqui, que há óbvias dificuldades de comunicação, pareceu-me vantajoso. Vamos ver como corre.

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Cartas do Japão - 1

por Teresa Ribeiro, em 02.04.10
1º dia
- Viagem para o outro lado do planeta. Grande pedra. Tomei dose reforçada de calmantes para ver se dormia. Não dormi.

 

2º dia - Escrevo num bloco-notas manhoso. São 18.40h e já estou a jantar. Preciso de comer cedo para me deitar cedo, a ver se recupero da directa que tenho em cima. Este é o meu primeiro dia em Tóquio. Cheguei de manhã, a tempo de circular umas horas pelas ruas, meio à toa, só para sentir esta cidade de fusão, mas agora estou knock-out. Janto na esplanada de um restaurante que se situa perto de uma estação de comboio. Observo o movimento da hora de ponta e penso: "Já vi isto". Os bandos de meninas com farda de colégio, os funcionários do terciário de telemóvel e pasta. Tudo cenas de reportagem ou de filme. Passou mesmo agora por mim uma mulher de quimono e chinelas. Parece que passou de propósito para a meter nesta carta. Pensava que já ninguém andava assim na rua, mas hoje vi uma meia dúzia de mulheres com esta indumentária.

Não é a primeira vez que me encontro rodeada de gente que não é da minha raça, mas neste caso estou a estranhar mais a situação. Já me interroguei porquê e cheguei a uma conclusão: aqui eles vivem num mundo que em muitos aspectos não contrasta com o nosso, por isso ficamos com a sensação de que estamos perante um paradoxo qualquer.

Bocejo. E outro e outro. Vou ter de interromper a escrita. O resto será somado aos poucos, imagino que nas mais diversas situações.

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