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Andar à boleia

por Paulo Sousa, em 03.09.20

Andar à boleia, no seu sentido literal, está fora de moda, diria mesmo em vias de extinção.

Um tio meu que estudou em Lisboa era assim que ia e regressava. Esta foi durante décadas uma forma comum de um jovem se deslocar pelo país. Viajava-se sem despesa e em troca fazia-se companhia ao condutor que assim tinha alguém com quem conversar. Com o seu apurado sentido estético, o meu tio deixou-nos um incrível espólio fotográfico, no qual consta uma fotografia que nos transporta para os anos 60, ali à beira da estrada para Lisboa que na altura ainda passava à frente do Mosteiro de Alcobaça.

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Foto Rafael Coelho de Sousa

Várias décadas mais tarde, a boleia continuava a ser uma forma regular de transporte para gente mais nova. O meu irmão e o meu primo, uns anos mais velhos do que eu, quando estudaram em Lisboa era também assim que iam e vinham a casa no fim de semana. De cada boleia traziam uma história diferente, quase sempre divertida. Pelo menos era divertida a forma como a relatavam.

Num verão, no final dos anos 80, fizeram-se à estrada em direção à Suíça. Iriam apanhar morangos para depois gastar o dinheiro dos morangos num Interrail pela Europa. Esse era o plano. O que aconteceu foi diferente e, apesar de terem chegado a Geneve, a oportunidade de emprego não se concretizou. Os morangos, esses, foram apanhados por outras mãos ou então comidos pelos pássaros. As parcas poupanças que levavam mal lhes permitiu chegar a casa, cheios de saudades de um prato de sopa, de um banho e de, finalmente, poderem dormir descalços. Trouxeram dois ou três rolos de 24 fotografias para revelar e inúmeras horas de relatos de episódios que me fizeram concluir que já conhecia todos os cruzamentos de nossa casa até ao Lago Leman. Importa lembrar que neste tempo ainda não existiam telemóveis e, durante a viagem, as notícias que chegavam a casa tinham a forma de um postal ilustrado com uma semana de atraso. Além disso terão feito dois ou três telefonemas a partir de cabines telefónicas, ávidas sorvedoras de moedas de elevado valor cambial.

No dia em que eles partiram, já depois de terem apanhado a primeira boleia de casa até à EN1, lembro-me do meu pai ter dito que eles iriam viver uma aventura, o que foi uma insuficiente tentativa de conforto das preocupações da minha mãe. Não sei quando ouvi isso lá por casa, mas mais que uma vez foi assunto a máxima de que os filhos são, ou devem ser, criados para o mundo e não para os seus pais, o que pode parecer um detalhe mas não o é.

Uns anos mais tarde chegou a minha vez de ir e vir à boleia para Lisboa. A distante aura de aventura de ir para a beira da estrada nacional de polegar estendido tornou-se realidade. De cada viagem sobrava uma estória completamente diferente da anterior. Era como tirar bombons coloridos à sorte de dentro de um pote. Os sabores variavam mas eram sempre agradáveis. Desde automóveis topo de gama até carros que hoje seriam imediatamente apreendidos na inspecção, passando por camiões de mercadorias, posso dizer que me calhou de tudo um pouco. Apanhei boleias de dia, de noite, à chuva e com sol e, literalmente, do Norte ao Algarve.

Ninguém que circule a 120 km/h pára para dar boleia, por isso importa escolher uma zona onde os carros circulam devagar. Essa lógica torna (ou tornava…) as portagens num bom local. Normalmente no final da semana quando regressava a casa apanhava o 45 da Carris até ao Prior Velho, e seguia a pé até à extinta portagem de Sacavém, onde todos os carros que seguiam para norte tinham de parar.

Quando o destino final de quem apanha boleia era diferente do de quem a dava, importava saber o sitio onde sair. Por vezes a ligação a pé até chegar a uma zona onde se pudesse apanhar a boleia seguinte poderia demorar algum tempo e obrigar a caminhar uns quilómetros adicionais. Ao andar à boleia não se pode ter um horário rígido. Pode ser comparado a um velejar pela estrada fora, em que tanto se apanha vento pela alheta e mar direito como vagas altas e marés contrárias. Tenho saudades de não ter uma hora para chegar ao destino.

Um dia, antes de um período de exames, saí de casa pela manhã para ir para Lisboa começar um daqueles retiros que quem adia o estudo para a semana anterior às frequências bem conhece. Antes de almoço já tinha chegado ao destino que era São Domingos de Benfica, a poucos metros da Buraca. Quando tentei abrir a porta reparei que tinha deixado a chave em casa. Azar do caraças. Regressei ao Rossio pela linha de Sintra, meti uma bucha num tasco na estação, apanhei o 45 até ao fim da linha no Prior Velho, segui a pé até à portagem, novamente boleia até casa onde tinha ficado a chave do apartamento. Repeti depois o trajecto da manhã e cheguei finalmente a casa, à hora de jantar. Com 400 km distribuídos por três boleias podia finalmente começar a estudar.

Um dos episódios mais memoráveis que tenho com boleias passou-se durante uma ida ao Porto para assistir ao concerto que os Pixies deram no Coliseu nos idos de 1991. O Blitz classificou-o então como o concerto do ano.

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O concerto foi de facto incrível mas não consigo desligar as memórias que dele guardo do bouquet dos diferentes imprevistos que adoçam a boca de quem aprecia sentir-se como uma rolha a flutuar no oceano que é a vida.

Desta vez éramos três e o local que escolhemos para pedir boleia não era nada favorável. Após algum tempo lá parou um carro mas só podia levar um de nós. Não quisemos perder a oportunidade e por isso seguimos separados. Tínhamos assim o desafio adicional de nos encontrarmos no Porto, cidade que desconhecíamos. Neste tempo os telemóveis eram ainda coisa de ficção científica.

Os dois restantes, eu e o outro companheiro, conseguimos seguir viagem um pouco mais tarde. A nossa boleia terminou logo no final da ponte da Arrábida. O carro seguiu para Braga e nós seguimos a pé. À hora marcada lá entramos no Coliseu dos Recreios e, quase como se tivéssemos combinado, encontramos o nosso tresmalhado companheiro de viagem no centro da plateia, mesmo durante a hora do tormento. Não consigo deixar de ouvir Pixies sem recordar as vagas alterosas daquelas horas.

Terminada esta provação seguimos, em modo de bola de flippers, batendo aqui, acendendo luzes ali, uns finos acoli, um petisco acolá, quase até desaguar junto ao Douro. Importa lembrar que isto se passou num tempo em que não havia voos low cost, nem booking, nem camones. A onda não era má mas em alguns recantos também não era muito boa.

E para lá andamos, noite fora até que chegou a hora de procurar um canto para pernoitar, o que é sempre uma matéria paracientífica. Não podia ser num canto muito central, porque isso não existe, nem muito obscuro, porque já estavam ocupados. Após várias tentativas, acabámos por nos estender ali à frente, dentro de uma embarcação estacionada numa das rampas de acesso ao rio. Não me recordo do frio, mas da humidade sim.

Para o regresso, calhou-me seguir a solo. Por desconhecimento do terreno não sabia onde pedir boleia. Alguém me deixou na última saída antes da portagem dos Carvalhos e segui a pé. Depois de um bom bocado de polegar esticado sem conseguir o merecido transporte de regresso avistei um camionista sozinho a mudar um pneu, tarefa que é sempre mais fácil quando feita por dois. Depois de me ter voluntariado a dar uma ajuda não há como negar uma boleia. E assim, foi dentro de um TIR de 20 toneladas acabado de carregar no porto de Leixões, que terminou a aventura.

Um minuto antes de um carro parar para nos dar boleia é impossível antecipar qual será o nível e o tema da conversa que se irá desenrolar, e nessa incerteza encerra-se parte da magia. Sem se confiar num desconhecido nada disto é possível. Actualmente somos todos muito mais desconfiados, e também isso explica que andar à boleia esteja em vias de extinção. Há para aí umas aplicações de partilha de trajectos mas mais não são que uma vaquinha das despesas com avaliação mútua dos respectivos users. São coisas diferentes.

Quem já teve o privilégio de, em locais recônditos, sair fora dos circuitos turísticos e tropeçou nos acasos das viagens concordará com uma das mais repetidas conclusões dos viajantes do improviso. A esmagadora maioria das pessoas são boas. É da natureza humana sentir empatia por um estranho que viaje em paz e que necessite de ajuda. É claro que todos somos diferentes, e isso é positivo. Mas para uma imensa parcela da humanidade o conforto, a previsibilidade das rotinas e do planeamento é imprescindível. Não só, mas também por isso a minha conclusão é que existe demasiada gente que teme a liberdade.

De volta à estrada

por Maria Dulce Fernandes, em 21.06.20

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Dulce, a pasta com os mapas está onde? Vi-a em cima da credência, pai. Se lá a viste, lá ficou. Vai buscá-la e deixa a porta bem trancada. Anda lá que está toda a gente à espera. Corri lance após lance, degraus dois a dois (sim, é verdade, acreditem!) até ao terceiro andar, peguei a pasta e voei escada abaixo. Os amigos já nos aguardavam, aqueles que não sendo da família em que nascemos, são a família que escolhemos e éramos inseparáveis. Os Afonso eram três, um casal com uma filha, a Tita, e os Silveira eram quatro, o casal, a Mica e o Gil, que o mano rabiava e apelidava de Gileia, por ser para o anafado.

Íamos todos partir de viagem e sempre que saíamos com o carocha atravancado com a proverbial data de tralha e equipamento essencial ao campista moderno, toda a vizinhança vinha dizer adeus à janela e desejar boa viagem. Adeus D. Sofia! Adeus D. Jo! Adeus!! Boa viagem! Adeus!

O destino era Andorra-la-Vieja, capital e principal cidade do pequeno principado de Andorra encalhado nos Pirenéus, verdinha e fresca no Verão e branca e fria no Inverno, apelativa para caminhadas e prática de desportos na neve, vivia e ainda vive do comércio e do turismo. Como as marcas consagradas mundialmente não pagam impostos nos seus representantes em Andorra, os preços são convidativos, num permanente ambiente de Outlet, que era exactamente o que os amigos Afonso procuravam: a André Jamet e uma tenda com duas assoalhadas e cozinha.

 

Metemo-nos à estrada, cada família no seu carro, e entre cantorias e despiques chegámos a Talavera de la Reina onde passámos a primeira noite. Dali seguimos para Toledo. Adorei Toledo: a sua catedral, o seu ar medieval com espadas e armaduras em todos os pontos de comércio, a glória de Espanha, nas palavras do da triste figura.

Seguiu-se um detour para visitar a imponência do Valle de los Caídos, que é exactamente isso, imponente. Continuámos viagem e pernoitámos em Fraga, estreando um pequeno hostal recém construído, Las Brujas. Foi uma noite memorável.

 

A seguir ao jantar um céu de breu trouxe raios, trovões e um dilúvio. Acomodados nuns quartos catitas a cheirar a novo, ouvíamos os estrondos lá ao longe, encantados pelo aconchego dos lençóis.

De repente, boom! E tudo ficou escuro. Um apagão! A luz que entrava nos quartos era a que vinha da janela e apenas quando havia relâmpagos. Subitamente  o som de alguém a regurgitar, passos apressados e corpos a cair fez-nos sentar na cama meio desnorteados e completamente assustados, até outro som, o de incontroláveis gargalhadas chegar até nós, cada vez mais forte.

Qual enredo de tragicomédia, o Gil foi deitar-se indisposto e apavorado com a “noite nas Brujas”, extravasou a indisposição pelo chão, incapaz de, no escuro, localizar a porta da casa de banho. A sua mãe foi em seu auxílio e pumba, escorregou e caiu. O pai foi em auxílio da mãe, mas não teve melhor sorte e pimba, no chão. Os amigos nas outras suites vieram em socorro com fósforos acesos, acabando por se perder nos corredores… enfim. Ninguém dormiu muito, mas rimos que nem doidos.

Ainda hoje a história da noite nas Brujas nos leva às lágrimas.

 

A manhã seguinte cheirava a chuva e a verde e, depois de mais uma barrigada de riso, voltámos à estrada e chegámos finalmente a Andorra, quedando-nos por Encamp, Camping Meritxell, um paraíso para o campista habituado ao pó: era frondoso, arrelvado e com um ribeiro límpido e borbulhante.

Cada um foi à sua faina de estacas e cordas e ficámos prontos num par de horas para a primeira noite nos Pirenéus.

De manhã, enquanto os adultos foram ao minimercado eu, o mano, o menino, a Tita, a Mica e o Gil, fizemos o reconhecimento do camping e sentámo-nos a ler tranquilamente, todos com o recado de que não se podia deixar o menino sem vigilância, nem por um segundo que fosse. A verdade é que um segundo é seguramente uma infinidade de tempo…

Com os adultos de regresso ao Camping, almoçámos e preparámo-nos para ir às compras, quando demos pela falta dos chinelos. Ninguém tinha trazido os chinelos? Eu guardei os meus! E eu! Eu também!… Como que movidos por um magnete olhamos todos para o menino que sorria, safado e feliz… tiraste os chinelos? Para quê? Fiz corridas de barcos no ribeiro, retorquiu o pequeno patife com aquele olhar de céu travesso… bem que os procurámos, mas o mais certo seria terem já desaguado no Mediterrâneo... o que vale é que em Andorra o comércio é rei e tinham chinelos de todas as cores e feitios.

 

De Encamp sai o teleférico que sobe até ao pico Els Cortals. Fomos todos. Em 1976, as cabines eram pequenas. Não mais do que três pessoas por cabine. Depois de instalados, eu e o mano resolvemos asnear, nem sei porquê, mas chegou-nos a brilhante ideia de abanar a cabine na horizontal armados em thrill seekers, dare devils ou simplesmente palermas. Felizmente não teve desfecho trágico, mas valeu-nos sobejos ralhetes e descomposturas descomunais.

Lá em cima era lindo e valeu por tudo: a vista, o lago azul que espelhava o céu.

Os visitantes, homens principalmente, provavam a sua virilidade, ou fibra, vá, segurando com uma só mão um porrón, jarro de vidro de boca estreita e bico comprido cheio de vinho tinto. Com uma mão atrás das costas, tinham que beber sem tocar com a boca no bico do jarro nem sujar a roupa com vinho. Escusado será dizer que muito poucos desceram a Encamp com as camisas limpas.

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Depois de os Afonso se decidirem por uma tenda azul e branca e pelos apetrechos necessários à arte de bem acampar, deixámos Encamp, Andorra e os Pirenéus rumo a Barcelona. Já em Andorra os Silveira tiveram notícias menos boas de Oeiras. Barcelona foi de fugida, Valência também e regressámos a Lisboa muito mais cedo do que o previsto e ainda a tempo de passar as duas últimas semanas em Albufeira, mas desta feita com a tenda em casa.

On the road again

por Maria Dulce Fernandes, em 10.06.20

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Depois da Grande Aventura Europeia, o meu pai começou a enfastiar de conduzir. Trocou a Variant por um Carocha cor de areia e sedentarizou os nossos dias de férias, que é como quem diz, passámos a acampar “cá dentro”, mais especificamente em Lagos, no Parque de Turismo, com tenda montada de Março a Setembro, não sem antes termos vivido duas aventuras meio loucas, uma em Andorra e a outra em Algeciras e Marrocos. É destas que falarei primeiro, começando de sul para norte.

Com o Carocha escachado sob o peso da tenda e apetrechos indispensáveis a qualquer bom campista que se preze, mas com a panache tão típica do meu pai, deixámos Lisboa rumo a Algeciras num Agosto magnífico de 1977. Desta feita íamos apenas os cinco, o pai, a mãe, eu, o mano e o menino já com sete anos, um pirralho levado da breca.

Primeira paragem em Sevilla, descarregar o carro, jantar e dormir, que viagens longas de automóvel sem ser por autoestrada são uma estafa. No dia seguinte o pai e a mãe tiraram a manhã para ir às compras com o menino e eu e o mano fomos almoçar fora. Os dois. Sozinhos! Coisa insólita e meio atrapalhada, mas tirámos o melhor partido que pudemos.

E lá seguimos para Algeciras onde chegámos a meio da tarde. Camping Costasol. Cheio, quase indisponível, barulhento e bastante poeirento, mas era o que havia.

Montar a tenda, encher colchões, arrumar a data de tralha, não perder o menino de vista… tudo tarefas hercúleas, principalmente a última, que garantidamente o semideus riscou dos seus 13 trabalhos.

O jantar e a noite passaram-se em sobressalto com o barulho dos camiões a acelerarem ali do outro lado da sebe, mas rapidamente chegou a alvorada e o dia amanheceu lindo. Partimos rumo à cidade prontíssimos para embarcar no ferry para Ceuta, para o primeiro de quatro dias em Marrocos: Ceuta, Tetouan, Chouen e Tanger.

A minha primeira impressão de Marrocos foi o cheiro. Era uma mescla de pó com suor, especiarias, curtumes e sebo. Ceuta - muita gente, muita confusão. Como em tudo o que é excursão organizada, tínhamos à nossa espera um guia e um autocarro. Tour pelos pontos turísticos mais importantes, as muralhas da cidade velha, casa dos dragões, Plaza de los Reyes, o tradicional souk, os camelos e as cobras para a fotografia, tudo isto sempre com um olho no camelo e o outro no menino.

Almoço e partida para Tétouan, a Joia do Rif. Ampla, bonita, moscada e de labiríntica medina, Tétouan traz-me as primeiras agradáveis recordações de uma civilização diferente e afável do nosso primeiro contacto com a África setentrional. O hotel era simpático, apesar de as camas terem ar de dormidas, mas parece que há 40 e tal anos as infraestruturas para desenvolvimento das povoações interiores e do turismo ainda deixavam e deixariam muito a desejar.

No dia seguinte o azul e branco de Chouen, entalado entre montanhas do Rif, com vistas estupendas, em que o nevoeiro brincava às primeiras horas de luz por entre cristas e picos até se diluir no azul do céu. O bairro Andalui, a medina, um souk com moscas a mais e contínua abordagem para oferta de substâncias ilícitas, gente risonha. Muita carne caprina às refeições e felizmente muita e variada fruta. Compras, eram um desnorte. Mostrar interesse, por mínimo que fosse, em qualquer artigo produzia uma marcação cerrada e feroz e uma perseguição contínua por parte dos vendedores até à capitulação total.

Mais uma alvorada e nova partida, desta feita para Tanger. Passeio e almoço em restaurante típico com muita música, dança do ventre e o melhor chá de hortelã que já bebi.

Regressámos a Algeciras e ao camping e nos dias seguintes deambulámos por Marbella, Fuengirola, Torremolinos… as praias mais in do sul de Espanha, com águas cálidas e a areia escura. Meu belo Algarve de praias douradas…

Foi então que a minha mãe teve a feliz ideia de voltar a Ceuta para umas comprinhas que não teria podido fazer, porque o menino era ocupação e preocupação para todos os minutos de todos os dias passados pelas terras de Alah.

Combinou-se que ficaríamos os três filhos confinados ao Camping, prometidos e comprometidos a vigiar o menino com olhos de águia. Assim foi. Tudo para a piscina! Confinada a um espaço só com um acesso, bastante grande e com água corrente contínua que jorrava da boca de um leão colocado a um dos topos, espreguiçadeiras e sol, convidava ao lazer e à preguiça.

Tão bom a sonolência, tão calmo tão… sísmico? Tudo a correr e a fugir e a barafustar, sentei-me na cadeira com o coração aos pulos, “Niño Loco, niño loco" mas o quê? Quem? Eis senão quando consigo entender a causa de tanta confusão: o niño loco não era outro senão o menino que, qual enguia, se esgueirara de mansinho, escalando a cabeça golfante do leão que alimentava a piscina e travava risonho e feliz a saída da água com ambas as mãos e braços, de tal modo que encharcava violenta e caudalosamente tudo e todos em seu redor. O problema foi conseguir tirá-lo de lá. Ninguém saiu ileso, ou enxuto, vá lá.

Um buraco! O meu reino por um buraco! Eram descomposturas em catadupa nos mais variados dialectos. Eram pedidos de desculpa mal amanhados e envergonhados enquanto se lutava com braço do malandrim, que insistia em voltar à acção.

A partir desse dia, assim que o niño loco entrava na piscina, todos os utentes iam mudando a espreguiçadeira de lugar, porque bastava um segundo a olhar noutra direcção para o patife voltar à carga.

No fim olhava para as caras zangadas com aqueles olhos brilhantes cor de água emoldurados pelas melenas douradas e desarmava tudo e todos, que ainda acabavam por lhe comprar gelados. Que safado.

O niño loco voltou para casa em Lisboa, mas passados dois anos uns amigos que acamparam no Camping Costasol calhou mencionarem o niño loco. Não havia funcionário que se não lembrasse. E tiveram direito a um gelado cada, como mandava a tradição.

Bom Dia de Portugal para todos.

Livros que inspiram viagens (3)

por Paulo Sousa, em 09.05.20

Na sequência dos dois textos anteriores, salto hoje uns quilómetros para vos relatar a visita a um país que não existe.

Foi de carro que chegamos à Transnistria.

A informação que recolhemos na preparação da viagem sublinhava o exotismo cinzento de um território que teimava em viver num regime de inspiração soviética.

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Após o colapso da URSS, a minoria russa da ex-república moldava soviética socialista não aceitou a mudança da língua oficial de russo para a língua mãe da maioria romena e desencadeou-se um conflito. Após alguns meses de combates, em 1992 estabeleceu-se um equilíbrio de forças com o rio Dniestre a fazer de fronteira. A Rússia mantém o apoio militar e económico à Transnístria mas a falta de contiguidade territorial não lhe permite descongelar o conflito. Desde então a Pridnistrovian Moldavian Republic (PMR), como se autodenominam, tornou-se um 'país' independente de facto embora sem reconhecimento internacional. Tem governo próprio, hino e bandeira com foice e martelo, imprime moeda e selos, tem tropa e polícia, sistema de ensino e de saúde.

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As trocas comerciais entre as duas margens troçam dos políticos e realizam-se com fluidez. Algumas empresas transnistrias até exportam para a UE com etiqueta ‘Made in Moldova’. É tão habitual ver matrículas PMR em Chisinau como veículos moldavos em Tiraspol.

A Sheriff Tiraspol FC, equipa de futebol da ‘capital’, é campeã moldava há nove anos consecutivos e representante da Moldávia nas competições da UEFA. Para cumprir o calendário do campeonato todas as equipas atravessam semanalmente os checkpoint militares. Este limbo de independência leva a que os documentos dos cerca de meio milhão de habitantes não sejam reconhecidos fora do seu território. Além das visitas esporádicas ao outro lado do rio e a Moscovo, o universo dos destinos possíveis é bem reduzido. Os indicadores económicos dizem também que esta região é mais pobre que o resto da Moldávia, que já é o país mais pobre da Europa.

Algumas fontes referem que toda a nomenclatura deste ‘estado’ é composta pelo círculo de confiança de uma família, o que cria uma ideia de um Simcity em 3D mas com a possibilidade de saborear o vinho da Cricova vizinha e com miúdas mais giras do que qualquer avatar informático poderá alguma vez ambicionar.

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Chegamos a Tiraspol vindos de Chisinau. Tivemos a sorte de apanhar um dia iluminado por um sol daqueles em que até as ditaduras, cinzentas por natureza, ficam coloridas.

Ao contrário da ideia criada pelas reportagens que tínhamos visto no YouTube, a cidade aparenta organização e planeamento. Tudo está pintado e as estátuas de Lenin exibem um polimento que fazem inveja às poucas que restarão em Moscovo.

Para evitar o que seria um processo de registo nos serviços de emigração durante um fim de semana optamos por regressar a Chisinau no mesmo dia. Passeamos a pé pela cidade e almoçamos num restaurante local, onde nos deparamos com a maior surpresa da curta visita. Algumas pessoas nas mesas vizinhas estavam a rir!!! Como é possível? Gargalhadas quase obscenas. Toda a informação que recebemos ao longo da vida associam as ditaduras a dias enevoados e a pessoas tristes. Será que se confirma a teoria de que a natureza humana se ajusta mesmo a tudo?

Texto publicado no Jornal de Leiria em Outubro 2018

 

O livro que recomendo, que refere também este "país", é O Despertar da Eurásia, de Bruno Maçães, editado pelo Circulo de Leitores. Trata-se de uma abordagem fora da caixa que contraria a normal divisão da placa euroasiática em dois continentes, a Europa e a Ásia. Lembra-nos que apenas a história e a cultura dos povos criaram esta divisão artificial, e leva-nos a viajar com ele por este imenso território. Sem deixar de ser literatura de viagem é tambem um master class em geopolítica. Lê-se de rajada.

Viagem a Israel (8).

por Luís Menezes Leitão, em 02.01.20

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É interessante em Belém a visita à Basílica da Natividade. A Basílica teve a sorte de ser poupada à destruição dos lugares santos pelos persas, ao que consta, porque viram que um dos Reis Magos tinha um turbante persa. A porta de entrada está reduzida em relação ao que era na época das cruzadas e na época bizantina para não deixar entrar invasores montados a cavalo. Lá dentro encontram-se três igrejas, Arménia, Católica e Ortodoxa e a gruta onde segundo a tradição terá nascido Jesus Cristo, lugar onde só se acede depois de aguardar horas na fila. Historicamente é pouco credível o nascimento de Cristo em Belém, que fica a 200 km de Nazaré. A deslocação é explicada pela necessidade de obedecer a um censo, mas o censo de Quirino só teve lugar em 6 d.c., vários anos após o nascimento de Jesus. Mas era importante para se cumprirem as profecias o seu nascimento na cidade do Rei David, e ainda hoje é lá que o mesmo se assinala.

Viagem a Israel (7).

por Luís Menezes Leitão, em 01.01.20

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Manhã de ano novo passada em território da Palestina. Separada de Israel por um gigantesco muro a fazer lembrar o de Berlim, esta mantém colonatos judaicos neste território. Dois povos vivendo completamente de costas voltadas num território tão pequeno.

Viagem a Israel (6).

por Luís Menezes Leitão, em 01.01.20

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Em Nazaré vale a pena ver a Basílica da Anunciação, construída sobre o lugar onde, segundo a lenda, Maria terá recebido a visita do anjo Gabriel e que como tal é venerado pelos cristãos desde o século I. Em latim surge a frase “verbum caro hic factum est”: Aqui o verbo se fez carne. A Basílica recebe imagens de Maria vindas de todo o mundo não faltando sequer uma de Fátima.

Viagem a Israel (5).

por Luís Menezes Leitão, em 31.12.19

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Subida ao Monte das Bem-Aventuranças onde, segundo a lenda, Cristo terá proferido o sermão da Montanha. Curiosamente a paisagem é verde, como todo o Norte de Israel, ao contrário da representação habitual desta cena nos filmes. Por todo o lado surgem estes versículos, de enorme beleza literária. Mas é especialmente curioso encontrar este texto como agradecimento pelo salvamento de centenas de milhar de refugiados vietnamitas, que fugiram de barco após a invasão de 1975. Faz-nos recordar os migrantes que todos os dias arriscam a vida nas águas do Mediterrâneo às portas da Europa.

Viagem a Israel (4).

por Luís Menezes Leitão, em 30.12.19

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A norte de Haifa encontra-se Acre, a cidade conquistada a Saladino por Ricardo Coração de Leão que depois a entregou à Ordem dos Hospitalários. Uma fortaleza imponente onde a memória dos Cruzados se encontra presente. Mas a fraqueza dos Cruzados está patente na célebre mensagem que Ricardo Coração de Leão dirigiu a Saladino, desejando uma batalha breve pois pretendia ir passar o Natal no seu país. Saladino respondeu que não se preocupava com esse assunto pois estava no seu país, onde iria passar o ano todo e os anos seguintes se fosse necessário. Uma vitória com tropas estrangeiras é sempre efémera. Mas fica para a eternidade o registo da sua passagem por esta terra.

Viagem a Israel (3).

por Luís Menezes Leitão, em 30.12.19

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Impressionante a vista de Haifa a partir do Monte Carmelo, onde se encontra um mosteiro que simultaneamente presta culto ao Profeta Elias e a Nossa Senhora do Carmo. Mais à frente encontram-se os jardins que servem de santuário à Fé bahá’i, uma religião monoteísta de origem persa. Mais uma vez a enorme diversidade religiosa deste país. Na primeira fotografia vê-se o Líbano ao fundo.

Com a casa às costas - 1

por Maria Dulce Fernandes, em 28.12.19

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Depois da Grande Viagem, o pai tomou o gosto pelos longos passeios, mas sem ser rico e com um agregado familiar de cinco pessoas, um cão e um cágado, era difícil marcar férias num resort à beira-mar ou num paraíso na montanha.
Tivemos o primeiro contacto com o campismo quando uma amiga da mãe deixou a tenda montada no Parque de Campismo da Foz do Arelho, para que pudéssemos usufruir de uns dias. Completamente ignorantes do conceito (e de tudo o resto), fizemos uma data de asneiras, mas é assim que se aprende. Aprendemos e gostámos tanto que voltámos nos anos seguintes, claro está melhor equipados.
A família em Amstelveen, quando veio a Lisboa de férias, trouxe consigo uns amigos holandeses, que se fizeram acompanhar de uma tenda nova, com três quartos, cozinha e avançado, que seria nossa sem necessidade de desalfandegar. Truques daqueles tempos.
Tínhamos como contrapartida uma tenda de dois quartos e sala preparada no Parque de Campismo da Costa da Caparica a pedido da família, e uma grade de cerveja Sagres para o Johann, que a bebia em todo o lado, fosse a dormir, no banho ou até mesmo às refeições, alternando com bom tinto português.
Eram alegres, musicais e despreocupados, recusando os “luxos" campistas que a mãe tinha instalado na tenda da Costa, pois não pretendiam sequer cozinhar. Este facto de os alemães e holandeses não serem dados a cozinhados, fomos constatando ao longo dos anos, principalmente quando estávamos de visita ao meu irmão em Geilenkirchen e a minha mãe fazia sopa. Sempre nos acharam complicados e trabalhosos com as refeições, mas apareciam sempre na hora de jantar.
Com a tenda que a família do Johann trouxe, passámos a campistas de segunda categoria no Parque de Campismo da Foz do Arelho. Não podíamos, claro, competir com a Lila e com o Rui, família afastada da Bela e do Fernando Pinto (grande virtuoso da guitarra portuguesa), os vizinhos e amigos do primeiro esquerdo da casa de Belém, porque eram veteranos do rio e da terra.
O Rui, filho do dono da Pensão Cristina nas Caldas da Rainha, onde ficámos algumas férias, tinha barcos e sabia tudo sobre o Arelho, sobre passar “a aberta" e navegar no mar. Sabia também como apanhar amêijoa no “lado de lá" . Munidos de um balde, prescutávamos o areal molhado em busca de dois furinhos próximos e aí enterrávamos a pá e com torção de alavanca fazíamos sair amêijoas, lambujinhas ou berbigão que guardávamos no balde, para depois serem despejados no grande alguidar e escolhidos para serem saboreados por todos.
Entre os “todos", estava o Tino. O Tino era um cromo. Entertainer no mundo do espectáculo, bom amigo do Pinto e da Bela e casado com a Nocas, era o cómico de serviço. Não havia ninguém na Foz do Arelho que à sua presença, não esperasse uma tirada tragicómica, como cavalgar uma vassoura pelo pontão de madeira com um balde na cabeça  e um garrafão vazio na mão, recitando Shakespeare em plenos pulmões e mergulhar de seguida no Arelho com grande espalhafato. Sempre pensei ser da sua autoria o bordão da carcaça e do garrafão de vinho.

Quando não apetecia cozinhar,  bastava agarrar um tacho grande e subir a rampa da FNAT. 

Não havia monotonia. Os domingos eram os dias mais aborrecidos devido à invasão de “leopoldos" com farnéis e rádios de pilha para ouvir o relato do futebol. Eram dias tristes também, porque invariavelmente o Arelho reclamava uma vida, aquela do incauto que, contra todos os avisos, se aventurava mais fundo no leito lodoso e não conseguia sair. Com os mirones a emparedar a desgraça, os bombeiros acabavam por retirar a vítima de afogamento, mas quase sempre demasiado tarde.
Foram anos bons. De longas férias, nas quais o tempo era pachorrento e dava tempo para toda a indolência do mundo. Ler, dormir, amalucar, viver sem medos.
Sempre que faz trovoada, recordo com ternura a imprudência e despreocupação da juventude que continuava a saltar daquele pontão de madeira num espalhafato de espuma e de água, entre gritos e trovões.

Viagem a Israel (1).

por Luís Menezes Leitão, em 27.12.19

Se há coisa que impressiona na velha Telavive (Jaffa) é a diversidade religiosa. Logo atrás de uma mesquita aparece a Igreja de São Pedro, uma igreja católica franciscana, que representa a visão de Pedro, de que os cristãos poderiam comer quaisquer animais, deixando de estar sujeitos às interdições alimentares judaicas. Mais abaixo surge a casa de Simão, o curtidor, que se diz ser o lugar onde Pedro terá tido essa visão. A missa na Igreja está a ser celebrada em indonésio para visitantes desse país, o que ainda torna mais cosmopolita este lugar.

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Em viagem - Parte 4

por Maria Dulce Fernandes, em 22.12.19

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Depois do rio de lágrimas que é tão típico das despedidas, num dia tão nublado como o nosso estado de espírito, voltámos à Variant para começar mais uma etapa da grande aventura dos cinco, que na realidade éramos seis.

Desta vez, “quitado" com alguns gadgets avant garde que adquirimos na Alemanha e na Holanda, tais como uma capa impermeável adaptável, própria para porta-malas de tejadilho, o trisavô do funcional porta-sogras que substituiu a lona, e uns ganchos “aranha” que se prendiam aos ferros e seguravam malas e outras tralhas no lugar, e que substituíram as cordas tornando o manuseamento da bagagem mais funcional e elegante; já parecíamos então turistas a sério!

Claro que o problema das fraldas do menino foi imperativo durante a viagem de ida, com muitas bandeiras da paz a despontar da janela do pendura durante toda a vigem. Muito mais avançadas, as crianças alemãs, holandesas e francesas já utilizavam fraldas descartáveis, as célebres couches, produto de luxo para nós, mas eficaz  e acessível, e que nos proporcionou uma volta muito mais tranquila e turística.

Então, através das maravilhosas autoestradas, partimos de Solingen rumo a Paris, onde chegámos já de noite.

Uns colegas do pai tinham-lhe indicado um “hotelzinho simpático" na Rue de la Paix. Tanta menina bonita e colorida, tanta beijoca e tanta festinha ao bebé. O pai sempre com um caloroso sorriso afivelado. A mãe abanava a cabeça, conformada, mas a tia Eugénia estava possessa. Que raio de hotel foi o pai arranjar? E com crianças na cáfila, caramba. O pai recomendava calma, que o hotel era limpo e que era apenas uma noite. De resto, a arraia-miúda não estava nem aí para tanto sururu, apesar de convir que os múltiplos sons de gritos, risos e  constantes águas  correntes que atravessavam velozes as paredes acromáticas, eram no mínimo bizarros.

Saímos para comprar mantimentos e voltámos com as compras do rol que a mãe e a tia Eugénia tinham preparado e que, como não podia deixar de ser, continha pão. Comprámos uns curiosos, finos  e muito aprumados pães compridos chamados baguettes, que os locais transportavam alegremente debaixo do braço sem qualquer protecção. Talvez o avô do pão com sabores? Nunca o saberei

O pai ficou febril. Como era o único que conduzia, resolveu na manhã seguinte percorrer o máximo de estrada possível antes que alguma gripe que estivesse à espreita o atacasse em força. Saímos bem cedo e, parando sempre que necessário naqueles lugares maravilhosos chamados áreas de serviço, chegámos a Bordeaux à hora de almoço. Nem mesmo os meus dotes linguísticos em francês ajudaram a decifrar o menu do restaurante. Sopa e pezinhos de coentrada. Toca a comer e a tentar gostar, porque depois só pararíamos para jantar, com sorte, em San Sebastián. Então foi um toca a encher, fazer papo e preparar para arrancar. Foi então que serviram os frangos! Dois. E grandes. Mas… mas… mas… estávamos cheios de sopa, porco, batatas e pão! Ninguém conseguiria comer frango, caramba! A tia Eugénia, no seu proverbial pragmatismo, sentenciou logo que as aves ali não ficavam. Então toca de sacar de um saco da sua enorme saca de senhora, ensacou os fragos e zumba, saca com eles sob o olhar reprovador do pai, a quem aquele tipo de situações  deixavam grandemente embaraçado.
A verdade é que piquenicámos um supimpa jantar de frango num quartinho arejado e com uma soberba vista para o mar do Golfo da Biscaia, já em San Sebastián, depois de uma breve paragem num Biarritz de brilho embaçado pelas muitas nuvens que corolavam um céu cor de chumbo.
Na manhã seguinte, e com o pai a não apresentar grandes melhoras, a trupe fandanga, já um tanto saturada, assumiu os seus lugar na Variant para regressar à pátria-mãe.
Chegámos a Ciudad Rodrigo pela tarde e preparámo-nos para pernoitar. Dia de “tarde livre" para a tradicional aquisição de caramelos, torrão, chocolates, leques, mantilhas e outras coisas desnecessárias com que nuestros hermanos tanto nos fascinavam. Aprendemos também ali que sopa de judias é apenas feijão verde cozido e que as cañas em nada contribuem para tratar constipações.

No outro dia, de manhãzinha bem cedo, partimos non stop até Lisboa. Como em todas as etapas dos percurso de ida e do percurso de volta, rimos e cantámos de tudo um pouco, mas principalmente as canções da vida do meu pai, constantes no seu LP favorito da Música no Coração.
Chegámos a casa ao final do dia. Cansados mas satisfeitos, com a bagageira cheia de novidades estrangeiras e experiências fabulosas, que contávamos a cinco vozes em todas as reuniões sociais e familiares e que ainda hoje dois de nós recordamos, quase sempre com um olhar demasiado brilhante.

Em Viagem - Parte 3

por Maria Dulce Fernandes, em 20.12.19

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Com o quartel-general estabelecido em Soligen, iniciámos um périplo pela Renânia do Norte: Wuppertal, Düsseldorf, Colónia...  

A catedral de Colónia era imponente, maravilhosamente talhada na margem do Reno, com pores-do-sol do mais espectacular a que já assisti. Voltei lá em 1993; grande desapontamento o meu. É certo que quando somos mais pequenos as proporções mudam e tudo parece diferente aos nossos olhos, mas a catedral dos meus encantos não me pareceu grande de todo, apenas algo mais escura e mais alta, que se destacava no aglomerado de betão da paisagem urbana da cidade de Colónia. 

Uma manhã, o pai madrugou com uma ideia brilhante:  Então e que tal irmos almoçar a Amsterdam? Foi um toca-a-correr e a cáfila embarcou na Variant com a tralha às costas em direcção  ao norte, rumo a Amstelveen, onde outros familiares nos aguardavam ansiosos. 

Deslizando pelas fantásticas auto-estradas alemãs, a viagem de pouco mais de duas horas fez-se em três horas e tal, atendendo à quantidade de tralha e à população da Variant plus one. 

Como todas  viagens de automóvel, foi estopante... mas se valeu a pena? Claro que sim!! Elevada à enésima potência! A Holanda é um país bucólico, lindo, verde, florido, os moinhos são idílicos. E tem queijos fantásticos. O Gouda continua a ser um dos meus preferidos. 

A sério que nunca tínhamos visto tanta bicicleta junta. Muitas até cestinho para cão tinham, caramba! Caminhar pela beira dos canais sim, mas com muita atenção para não ocuparmos a ciclovia, porque os holandeses são rápidos e furiosos.

E no final apoteótico dum dia em grande, a população da Variant bem equipada para as agruras do  inverno no Mar do Norte, numa tarde soalheira dos idos de Setembro de 1970, com as calças arregaçadas até ao joelho, chapinhava nas águas geladas de Zandvoort, a comer arenque cru (que os indígenas ingeriam deitando a cabeça para trás e deixando deslizar inteiro para dentro da boca!), mexilhões, batatas fritas e maionese, com palitos de forquilha encimados por bandeirinhas holandesas a esvoaçar ao vento do Ártico, e gelado de mirtilo em pequenos copos de papel, deitados na areia ou sentados nuns cestinhos de verga com banquinhos dentro. 

Tendo  o frio como desculpa, os mais velhos perderam-se pelas noites do Dam, enquanto a população miúda se resignou a ficar em casa a assistir a desenhos animados non-stop do Tom & Jerry , dobrados em flamengo e a preto e branco, mas caramba! nós por cá tinhamos o Popeye, o Manda-Chuva, os Filintstones, o Zé Colmeia e pouco mais, e só ao domingo.

Foi a noite da luz vermelha, ideia que nos remetia de imediato para o sarampo, mas que foi deixada no limbo das coisas que eram tabu para as criaças de antes da revolução dos cravos. Foi seguramente um conceito de que só entendemos o significado mais de dez anos depois, mas naquela noite éramos apenas uns Hans Brinker, desolados e sós, com o dedo no botão da tv num bairro de funcionários da KLM junto ao Rio Amstel à espera que algum adulto viesse em nosso auxílio e nos desse permissão para crescer.

Em Viagem - Parte 2

por Maria Dulce Fernandes, em 17.12.19

 

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Solingen, perto de Colónia, na Alemanha, era em 1970 uma pequena cidade conhecida como a “Cidade das Lâminas”, fama que granjeou pelos artefactos em aço que produzia, com um sem número de  aplicações várias. Übenstrasse era o Restelo lá do sítio: casinhas graciosas, com jardinzinhos mimosos e floridos, baloiços, gnomos e casas para pássaros. A Line , formada em Germânicas, trabalhava no seu mestrado e também como au pair. Por essa altura, a Frau Engelhardt  estava num cruzeiro  e assim, com seu consentimento, ocupámos as premissas. 

Sempre dados a ambientalismos, os alemães faziam limpezas periódicas à canalização urbana, alturas essas  em que o depósito de água constante em cada casa e sempre higienizado, era cheio por camiões-cisterna para se poder proceder às desinfecções das condutas sem afectar a população que era avisada atempadamente e  também relembrada telefonicamente pelos respectivos serviços  no próprio dia, cedo pela manhã. 

Pois que nós fluentes poliglotas, que de alemão só sabíamos dizer ja e aufwiedersehen, depois de não conseguirmos decifrar o teor do primeiro telefonema, resolvemos algumas ligações depois e por unanimidade,  deixar o telefone fora do descanso. Só quando a mãe reparou que a água estava  apenas a gotejar na torneira é que começámos a associar as ideias, mas já era muito tarde. 

Eu, o pai,  o mano  e a tia propusemo-nos ir ao supermercado e trazer garrafões de água, enquanto a mãe ficava a tratar do menino.  Lá partimos com uma lista de produtos encabeçada pela desejada água, rumo ao supermercado. Claro está que  cirandando por ruas quase iguais, perdemo-nos em todas as esquinas. Chegados junto a uma escola, era ver a Tia Eugénia com o dicionário na mão a chamar os meninos, ao mesmo tempo que apontava “Kartoffel” no dicionário e vocalizava “Hum? Hum?” O meu pai sorria, divertido. O meu irmão ria também. Eu fazia de conta que não era dali... 

A verdade é que a Tia se fez entender muito bem e que nos levaram a um mercadinho no meio de gargalhadas e cantorias.  Aquela rapaziada... foi um fartote de risota. 

Cada um com um saco de papel e um garrafão na mão ao melhor estilo português, regressámos a casa, voltámos perder-nos uma e outra vez, mas não nos passou pela cabeça o quadro que encontrámos à chegada. 

A grande questão é que, como em tudo na vida, só sentimos realmente a falta de algo simples e que consideramos básico no nosso dia a dia quando esse algo de repente nos falta: a mãe estava morta de sede e não havia gota de água em casa. O pai antes de sairmos, propôs que tomasse dois golos  de cerveja. Assim fez. 

A imagem ficou gravada a fogo na nossa memória colectiva: o bebé chorava a plenos pulmões e a mãe também, meio sentada meia de gatas, no fundo da escadaria, sem conseguir encontrar maneira nem força para a subir… O susto foi grande até termos identificado o culpado, uma garrafa vazia de Beck's  junto aos lava-loiças, da qual, segundo a mãe, tomou dois ou três golos apenas, tendo  a restante birra sido "entornada" pelo Satchmo, o Cocker Spaniel negro da Frau Engelhardt.

No fim do dia, já recomposta do susto, a mãe foi presenteada por todos com o seu próprio garrafão de cinco litros de água e... seis garrafas de cerveja. A relação da mãe com a cerveja nunca mais foi pacífica, mas honestamente, o Satchmo era mesmo bom de birra.

Livros que inspiram viagens (2)

por Paulo Sousa, em 15.12.19

No meu texto anterior sobre livros que inspiram viagens fiquei de contar um episódio ocorrido no Montenegro, ou Crna Gora, como os locais o identificam. Aqui vai ele.

Entrámos neste país vindos da Bósnia e logo à chegada fomos surpreendidos com uma bandeira da União Europeia afixada numa parede do posto de fronteira. Interpretamos como sendo um sinal por parte dos montenegrinos relativo a que bloco político e económico desejam pertencer, o que é especialmente significativo após a sua cisão da Sérvia em 2006, e essa sim tem memórias recentes suficientes para ser anti-NATO, e pró-russa.

Três quartos dos montenegrinos são cristãos ortodoxos. Os restantes são católicos e muçulmanos. Os católicos residem principalmente no litoral, facto que não se pode desligar da proximidade de Itália, nomeadamente da República Veneziana.

Kotor foi classificado Património Mundial pela UNESCO e é um sítio a visitar pelo menos uma vez na vida. A cidade amuralhada ao fundo da segunda baía tem uns traços da medievalidade de Óbidos mas junto à água e rodeada de montanhas. Tem todos os ingredientes para justificar a quantidade de cruzeiros que a visitam e manobram dentro da baía.

A Capela de Nª Senhora das Rochas, construída numa ilha que não é mais que uma imensidão de pedras transportadas pelos marinheiros devotos, é um local único.

 

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A ilha-hotel de Svety Stefan, ligada ao continente por um passadiço, foi visitada ao longo do sec XX, após a “negociada expulsão” dos pescadores que lá habitavam, por inúmeras estrelas de renome mundial.

Podgorica, a antiga Titograd, é a maior cidade do país. O esforço nos melhoramentos é visível. Viajámos após o anoitecer entre Podgorica e Kotor e a estrada era um estaleiro de obras ao longo de quase toda a sua extensão.

A antiga capital do reino do Montenegro é Cetinje. Tem actualmente um décimo da população da capital, mas é o seu centro histórico e religioso. Foi o refúgio seguro contra o poder otomano vindo do interior e os venezianos que dominavam o litoral. Lenda ou facto, os gradeamentos presentes por toda a cidade foram fundidos com canhões capturados aos otomanos.

De forma a fugir à inflação recorde do dinar sérvio, os montenegrinos adoptaram o marco alemão em 1999, ainda antes da secessão da Sérvia. O euro, tal como para nós, chegou naturalmente em 2002.

No censo de 2003, pouco mais de 40% da população declarou ser de etnia montenegrina. Assumiu a etnia sérvia cerca de 30%. Outros inquéritos apresentam resultados diferentes e a explicação resulta da prática religiosa uma vez que, segundo a Igreja Ortodoxa Sérvia, todos os seus membros são de etnia servia. Entretanto, a Igreja Ortodoxa Montenegrina foi restaurada e esta rejeita a associação automática dos seus fieis à identidade sérvia.

O livro que vale a pena ser lido antes desta viagem é, afinal, apenas uma parte do Reinos Desaparecidos de Norman Davies, onde constam alguns dos detalhes que aqui transcrevo mas, além deste, muitos mais sobre a história deste país que foi o único que entrou na Primeira Guerra Mundial do lado dos Aliados e que acabou por perder a sua independência.

Depois de ler vários relatos unânimes sobre a beleza natural deste país, a expectativa era grande e logo desde o início, confirmada. É de facto uma joia que vai sendo muito lentamente descoberta. A travessia do Parque Natural de Durmitor foi memorável, sem menorizar o desfiladeiro do Rio Tara, o maior da Europa, e a incrível baía de Kotor.

 

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A estória que fiquei de contar começa quando chegamos a Podgorica e começamos à procura de uma rede wi-fi onde pudéssemos procurar uma estadia para esse dia.

Ser a maior cidade do país não faz dela uma grande cidade. Conversámos entre nós que era como se Leiria de repente passasse a ser a capital de um país e tivesse de receber todos os serviços inerentes a isso. Algumas embaixadas localizam-se em blocos de apartamentos quase serôdios e as poucas avenidas encontram-se forradas com bandeiras vermelhas com a bizantina águia das duas cabeças.

Uma sequência de restaurantes e cafés pareceu-nos um sítio provável para encontrar internet. A paragem foi curta pois, recorrendo a uma popular aplicação informática, logo encontramos uma promoção dentro das muralhas de Kotor. Vinte e poucos euros para quatro adultos junto ao centro, não se pode pedir mais (ou menos!).

No regresso ao carro... Encontrámos apenas o local onde o tínhamos estacionado! Olhámos incrédulos uns para os outros e verificámos várias vezes se estávamos a procurar no sítio certo. Não havia dúvida; o carro tinha desaparecido! A viagem estava a correr bem e a sorte tinha virado.

Regressámos ao café onde tínhamos estado e contámos o sucedido. Perguntámos se era habitual roubarem carros, ao que nos responderam que naquela rua apenas a Polícia os fazia desaparecer. E eram rápidos.

Lembrámo-nos de que, quando começámos à procura de estacionamento, nos deparámos com um sinal de estacionamento proibido, mas com a indicação horária em que se aplicava. Por não dominarmos a língua servo-croata não entendemos se queria dizer algo como “das 10h às 20h” ou “excepto das 10h às 20h”. A dúvida sobre se poderíamos estacionar ou não, foi dissipada ao vermos várias dezenas de carros ali estacionados.

O nosso tinha sido escolhido no meio dos outros.

No café disseram-nos que, para o recuperarmos deveríamos ir à entrada da cidade, junto a um pavilhão desportivo, onde ficava o parque dos carros rebocados. Escreveram-nos uma nota para mostrar a um taxista e lá fomos nós.

O taxista quando viu a indicação escrita começou logo a rir-se de nós e num tosco inglês disse-nos que em Podgorica só a Polícia é que fazia desaparecer carros.

Chegámos ao parque e dirigimo-nos ao posto da polícia.

Ninguém falava inglês e um dos polícias presentes fez uma chama telefónica para alguém a quem podíamos explicar o que se passava. Relatada a situação mandaram-nos esperar. E ali ficamos por mais de vinte minutos. Para não dar um ar de acomodados, não nos sentamos. Andamos por ali em círculos a falar uns com os outros, não muito alto para não incomodarmos quem não nos entendia, mas não muito baixo para que não se esquecessem de nós.

Após esta espera, chegou finalmente alguém que falava inglês. Mais tarde reparámos que eram oito em ponto e que a sua chegada se devia à mudança de turno.

O polícia, com os seus mais de dois metros, poderia ter pertencido à selecção de basquetebol da Jugoslávia. Quando soube do que se passava começou logo a explicar que os sinais de trânsito eram para cumprir, blá blá, blá... e que em Varsóvia a polícia nunca perdoa nenhuma multa. Nós ouvimos com atenção mas... Varsóvia!!! o que é que este gajo estaria a pensar??

A multa era 50€ pelo estacionamento e 50€ pelo serviço de reboque. Dizer o que nos passa pela cabeça nestas horas só complica as coisas e enquanto olhávamos para cima, a única coisa que víamos eram 25€ a voar bolso fora de cada um de nós.

Sermão terminado, pediu-nos a identificação do proprietário. Quando olhou para o passaporte que lhe demos levantou as sobrancelhas e mandou-o contra a secretária. Abriu as mãos e perguntou:

- São portugueses?!

- Sim.

- Porque é que não disseram logo?

- ...

- Os meus colegas viram o P na matrícula e pensaram que eram polacos.

- Hãaa??

- Não me digam que são do Benfica??

- Hãaa????

Quase automaticamente um de nós abriu a mochila a que chamamos de kit de emergência e, ali mesmo dentro da esquadra, agarrou no cachecol vermelho e abriu os braços.

O gigante fardado sorriu para nós e desatou a explicar-nos que era árbitro de futsal e que tinha estado numa formação em Portugal há uns meses atrás. Antes do regresso tinha ido à Catedral da Luz assistir a um jogo. Falou logo na águia Vitória e que agora até o filho dele já era benfiquista.

Das mãos de um de nós logo apareceu um telemóvel com uma filmagem pessoal do voo da dita águia. Perguntou-nos de que jogo eram as imagens e quando soube que era do recente Benfica-Guimarães disse de imediato: 5-0. Jonas very good!.

Ainda pensámos em abrir uma casa do Benfica em Podgorica, mas como tínhamos um voo de regresso a casa para apanhar em Belgrado daí a poucos dias, a ideia acabou por não vingar.

A conversa ainda durou mais um bocado até o quinto benfiquista do grupo nos informar que só podia retirar uma das duas multas, e assim, poder relatar este belo contratempo passou a custar a cada um de nós 12,50€. Nem foi muito. Tenho histórias bem piores que esta e que foram bastante mais caras.

Antes da tirada nocturna pela estrada em obras até Kotor, ainda fomos jantar ao restaurante muçulmano Pod Volat, que é excelente e que encerrou com chave de ouro a nossa passagem pela capital deste belo país.

Em viagem - Parte 1

por Maria Dulce Fernandes, em 14.12.19

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O pai já não está connosco há 25 anos. Partiu novo, deixando um vazio imenso que coisa alguma conseguiu preencher. Aventureiro carismático e muito castiço, era um gastrónomo de primeira água e apreciava um bom vinho. Adorava música, bons filmes, bons livros, praia, mulheres bonitas, a esposa, os filhos e as netas.

Vivi com ele a primeira grande aventura da minha vida num maravilhoso Setembro de 1970: um Volkswagen Variant com porta-bagagens em cima, uma tia sexagenária, uma miúda de 12 anos, um garoto de 8, a mãe, o bebé com 4 meses e o pai ao volante. As roupas e necessaires iam em cima, em grandes malas e o espaço traseiro do carro tinha sido transformado numa espécie de nurserie do menino: tinha caixas forradas a azul e etiquetadas com as roupas de bebé, as fraldas, os biberons, as papas, um fogão Campingaz e alguns apetrechos de cozinha, e uma alcofa, que porta-bebés ainda era praticamente um produto de ficção científica.

E então fomos estrada fora, depois duma preparação concisa através de mapas e trajectórias alternativas fornecidas pelos experts do ACP, rumo a Solingen, perto de Colónia, na Alemanha, onde morava a Line, a filha mais nova da tia Eugénia.

A primeira paragem foi em Talavera de la Reina, onde pernoitámos num simpático Hostal, gerido por um casal com uma caterva de filhos, todos alegres e salerosos, e onde o meu pai abriu a primeira garrafa da colheita especial ”para levar para a Alemanha”, que guardava zelosamente. Os hospedeiros eram de uma simpatia e amabilidade contagiantes, pondo de imediato ao dispor das senhoras a cozinha e outras facilidades necessárias para tratar das crianças. A ideia que me ficou dos espanhóis é a de pessoas afáveis, alegres e fantásticas, o que me leva a crer que a geração pós-franquista degenerou significativamente.

De Talavera de la Reina partimos para mais uma tirada até Zaragoza e depois até à Costa Brava, com paragem obrigatória em Barcelona - a Costa Brava é linda, grandiosa, magnífica - e atravessámos outra fronteira já na subida para os Pirenéus, para pernoitar em Perpignan, noutra pousada gerida por outro casal espectacular, onde pus pela primeira vez à prova os dotes linguísticos que adquiri num único ano de francês. A verdade é que me safei muito bem e a partir daí tomei-lhe o gosto.

Saídos de Perpignan, seguimos por uma via a que chamavam autoestrada – Uau !!! – e almoçámos num sítio totalmente práfrentex, chamado área de serviço. A caminho de Dijon, onde pernoitámos, pela primeira vez num hotel de luxo, atravessámos a pior tempestade eléctrica que vi na minha vida que culminou com uma chuva torrencial de proporções bíblicas. Foi uma noite aterradora e praticamente insone; nos breves minutos que conciliávamos o sono éramos despertados abruptamente por hordas de hunos gritantes, que nos bombardeavam sem cessar. Em concílio familiar ficou decidido que no dia seguinte era uma directa até Colónia e pronto, mas não sem antes passar no Luxemburgo para deixar uma encomenda que um amigo por lá emigrante nos tinha pedido para levar.

Depois das peripécias do costume, qual bando de ciganos chegámos à grandiosidade do Luxemburgo, que se atravessava nuns meros 20, 30 minutos. O pai estacionou numa bomba de gasolina, para atestar e pedir direcções. O funcionário que o atendeu ere jugoslavo e falava apenas  a sua língua e um mau italiano; tanto quanto o pai entendeu, tínhamos de atravessar duas pontes e virar na via sinistra. Transmitidas as indicações ipsis verbis, as palavras caíram que nem raios na população da Variant, que depois de uma noite terrífica, queria tudo, menos ir para a via sinistra. Novo concílio: não se entregava qualquer encomenda e era o toca a sair de imediato daquele funesto país.

E foi assim que, depois de passarmos duas pontes e virarmos à esquerda, nos encontrámos de novo no caminho para Solingen, onde chegámos bem tarde nessa mesma noite, ajudados por um simpático casal de alemães acabadinho de sair dum pub, que teve a enorme  pachorra de nos levar a Übenstrasse 14, que não ficava nem mais nem menos senão no ponto oposto daquele da nossa entrada na cidade. É que perdemos quase todas as saídas de autoestrada menos aquela, porque sempre que o navegador - a mãe - dizia que saíamos a seguir, surgia a indicação "Ausfahrt"... e como ninguém queria ir para a Áustria, íamos continuando em frente...

 

(Post inspirado nos últimos posts de viagens publicados)

Livros, filmes e viagens

por Pedro Correia, em 05.12.19

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Há livros que nos abrem o apetite para conhecermos países e cidades. De tal maneira que, mal chegamos ao fim da obra, nos apetece logo fazer a mala. Aconteceu-me com a capital francesa depois de ler Paris É uma Festa, de Hemingway, e vários policiais de Simenon. Aconteceu-me com Barcelona, depois de ler Os Mares do Sul, de Vázquez Montalbán. Aconteceu-me com Londres, depois de ler O Livro das Cidades, de Cabrera Infante. Aconteceu-me com Amesterdão, depois de ler A Porta no Chão, de John Irving. Aconteceu-me com o Rio de Janeiro, depois de ler esse fabuloso livro homónimo que lhe dedicou Ruy Castro - autêntica carta de amor à Cidade Maravilhosa.

Mas também podemos apaixonar-nos por uma cidade que ainda não conhecemos ao ver um filme. Aconteceu-me com Viena assim que vi Antes do Amanhecer, de Richard Linklater, espécie de Casablanca dos anos 90 sem guerra nem nazis. Corria ainda o genérico final no ecrã e já eu fazia planos para rumar sem demora à capital austríaca, seguindo os passos de Ethan Hawke e Julie Delpy nesse filme hipnótico. E assim foi. Com uma diferença de pormenor, que neste caso era de pormaior: o filme passa-se no Verão e eu aterrei em Viena no Inverno, faiscavam as luzes de Natal na Rathaus. Com seis graus negativos, as águas do Danúbio estavam geladas e a animação de rua reduzida ao mínimo. Mas apanhei o eléctrico do Ring, andei na roda gigante do Prater (que me havia sido apresentada noutro filme, o inesquecível O Terceiro Homem) e era capaz de jurar que o fantasma de Sissi andava em Schönbrunn, na manhã luminosa em que lá estive, com as verdes alamedas do palácio transformadas num deslumbrante mar de neve.

Saudades de São Francisco

por Pedro Correia, em 01.11.19

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Há uma atmosfera cintilante, tão parecida com a de Lisboa. E a luz coada. E a neblina, que cai quando menos se espera. E os carros eléctricos sulcando as curvas de Lombard Street. E os leões marinhos expostos aos raios do sol e ao olhar indiscreto dos turistas no Fisherman's Wharf. E as frondosas alamedas verdes do parque Golden Gate, o maior pulmão verde da cidade. E a ponte. E os labirintos do bairro chinês. E a memória cinéfila ao espreitar de qualquer esquina, devolvendo-nos cenas míticas de alguns dos filmes das nossa vidas - Dark Passage, Vertigo, Bullitt, Dirty Harry, Basic Instinct. E os barcos que cruzam a baía, rumo a Sausalito. E o rochedo de Alcatraz, lá mais ao longe. E a eterna cantiga de Scott Mackenzie tocada algures em Union Square. E Haight-Ashbury, local mítico da geração das flores.

«Vimos estendida diante de nós a fabulosa cidade branca de São Francisco sobre as suas onze colinas míticas com o Pacífico azul e, ao largo, a sua muralha de nevoeiro marítimo a avançar, e fumo e a luz áurea do fim de tarde do tempo», escreveu Jack Kerouac nas páginas de On the Road. Com um deslumbramento que qualquer forasteiro sente ao visitar Frisco. À despedida, só apetecer trautear a canção de Tony Bennett. «I left my heart in San Francisco / High on a hill, it calls to me.

Criar memórias

por Diogo Noivo, em 26.08.19

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Meia hora de voo num teco-teco e outros 20 minutos em barca de pescador. Uma vez instalado na aldeia, percebo que a electricidade é episódica. O aldeão que me acolheu na sua casa sugere-me que não adoeça: não só é desagradável, como o hospital mais próximo está a quase duas horas de distância. Pela mesma razão, avisa que o melhor é não entrar no mar nem no rio: os tubarões-touro gostarão da companhia, mas o sentimento não será mútuo. Banho só no chuveiro. Pede desculpa por iniciar a conversa com avisos, mas esta parte da América Central é pouco meiga com europeus de cidade - não me quis chamar flor de estufa, foi amável.
Neste pedaço de natureza bruta ninguém quer saber de Trump, de Boris, da Comissão Europeia ou de bichos semelhantes. A única geringonça de interesse é a que permite sacar água doce do poço. O ritmo do dia e os afazeres são ditados pela altura do sol e pelas marés. Tudo o resto são realidades longínquas - ou até completamente ignoradas.
Estive caído do planeta e acho que nunca fui tão feliz.

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