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Fim de semana inglês

por Pedro Correia, em 07.03.19

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O circunspecto Telegraph titula a toda a largura da primeira página na sua edição de domingo: «O cão domina.» Um destaque impensável noutros tempos e que diz quase tudo: no Reino Unido, como em Portugal, há cada vez mais gente a trocar pessoas por animais, humanizando os bichinhos, a quem tratam como não tratariam um filho. Não me espantava que fosse criminalizado o ralhete ao lulu ou a advertência severa a um bichano, por parte dos donos, no espaço público. Não sei se aqui também já existe um PAN, mais vocacionado para defender as quatro patas do que as duas pernas, mas não deverá faltar muito.

O que não falta é a correcção política, que nos cerca e asfixia como um garrote, nos mais banais actos do quotidiano. Sento-me à mesa para matar saudades de um tradicional fish and chips e logo a empregada paquistanesa me pergunta: «Tem alguma alergia alimentar?» Fiquei tão espantado que nem percebi à primeira.

Esta fobia de todas as fobias domina os chamados países ricos do primeiro mundo, que forçam os seus habitantes a sentir culpa ou a padecer seja do que for. Quem não tem alergias é olhado de soslaio, como se não bastasse tirar o cinto e descalçar os sapatos na minuciosa inspecção dos aeroportos.

Há câmaras de vigilância nos locais mais insuspeitos, proliferam advertências contra a necessidade de «não dirigir palavras ofensivas» aos funcionários públicos, o que constitui infracção criminal. Acabamos por sentir-nos suspeitos de alguma coisa, sabe-se lá o quê.

 

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«Get in lane», advertem em letras garrafais os cartazes destinados a promover a segurança rodoviária. Acho muito bem. Mas já será algo excessivo, nas pedovias, haver uma faixa exclusiva para quem anda e outra para quem corre, como se todos tivéssemos de nos encaixar sempre em trilhos. Ou nem pudéssemos optar por andar e correr quando nos apetecesse.

Esta mania de etiquetar e regulamentar tudo deu cabo da paciência aos britânicos e ajuda a explicar a orientação de voto que levou ao Brexit. Muitas destas normas são emanadas de Bruxelas, onde abundam os microlegisladores apostados em interferir nas mais ínfimas partículas da existência dos povos comunitários. Os ingleses, com o seu espírito insular, continuam a pagar contas em libras e a medir distâncias em milhas e jardas. Mas não escapam à imposição das directivas que mandam esmiuçar até ao último miligrama todas as partículas integrantes de um vulgar frasco de champô, como comprovo no quarto onde me alojo.

Para acompanhar a refeição, mato saudades de uma boa cidra Harry’s, produzida com maçãs do Somerset. Mas algo mudou desde a minha anterior visita ao Reino Unido, como verifico ao observar a garrafa: «Esta bebida é comprovadamente apropriada a vegetarianos, veganos e celíacos», explicita o rótulo.

Bem-vindos ao admirável mundo novo das regras infindáveis e das redomas sem remissão. Nesta Europa a que em breve os britânicos deixarão de pertencer, a crianças são tratadas como adultos e nós, adultos, andamos a ser tratados como crianças.

Volta a paquistanesa e pergunta-me se desejo uma das sobremesas em promoção. «São todas sem açúcar», especifica. Agradeço, mas dispenso. E peço a conta.

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A mochila etíope (V) - último

por Diogo Noivo, em 10.01.19

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Lalibela - fotografia minha

 

Na primeira metade da década de 1980 a Etiópia foi assolada por uma fome severa que vitimou um milhão de pessoas e deixou oito milhões numa miséria absoluta. Os repórteres da BBC que estavam no terreno descreveram o drama como sendo de proporções bíblicas. As imagens de morte e sofrimento impressionaram o mundo, dando ao país uma atenção mediática sem precedentes.

 

Para esta atenção internacional muito contribuiu o festival Live Aid. Realizado simultaneamente em Londres, Reino Unido, e em Philadelphia, Estados Unidos da América, o Live Aid foi uma ideia do músico Bob Geldof destinada a angariar fundos para combater a fome em África, em particular na Etiópia. O festival, que contou com mais de 70 artistas, entre os quais Madonna, U2, Bob Dylan, Mick Jagger e Neil Young, foi visto por cerca de 1,5 mil milhões de pessoas em 100 países. Do Live Aid saiu o tema “We are the World”, acolhido como um hino por aquela geração.

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Cartaz do Live Aid

 

O que Geldof e as demais estrelas da pop internacional não explicaram foi que, ao contrário de secas anteriores, cíclicas na Etiópia, aquela não era apenas uma acção da natureza. Contou com o ímpeto genocida e com as políticas de “transformação social” do regime ditatorial comunista Derg. O bombardeamento de campos agrícolas e os programas de realojamento forçado foram duas das várias atrocidades que agravaram a carência alimentar provocada pela seca. A fome foi um instrumento de guerra.

 

Alguns trabalhos de investigação jornalística publicados na altura sugeriam que parte dos mais de 100 milhões de dólares angariados pelo Live Aid foram usados pelo regime e pelas forças que o combatiam para adquirir armamento soviético usado para intensificar os conflitos em curso. A equipa especial de procuradores que investigou os crimes do Derg descobriu 725 valas comuns e os restos mortais de aproximadamente 5.000 pessoas, uma pequena amostra dos efeitos do terror implementado pelo comunismo do Derg (a Amnistia Internacional coloca o número total de vítimas mortais na ordem do meio milhão de pessoas).

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Restos mortais de vítimas do regime Derg. "Red Terror" Martyr's Memorial Museum, Adis Abeba - fotografia minha

 

O regime ditatorial acabou e o tempo passou. Chegou o crescimento económico impressionante. Porém, os abismos sociais permanecem praticamente inalterados.

 

O desequilíbrio no desenvolvimento entre cidades e campo é um aspecto central da vida social e política desde pelo menos a década de 1960, etapa que corresponde à fase final do reinado do Imperador Haile Selassie. O processo de modernização conduzido por Selassie foi intenso: a criação de uma rede de escolas que não discriminava géneros, a introdução do sufrágio universal, a criação de redes de comunicação e de transportes são exemplos de metas tangíveis e, naqueles anos, inovadoras.

 

No entanto, este desenvolvimento estava circunscrito aos centros urbanos e foi implementado de forma a não alterar a dinâmica autocrática e feudal da arena política. Estas limitações intencionais do processo de modernização contribuíram para que Selassie fosse deposto em 1974. O regime Derg, por via do que ficou conhecido como “Terror Vermelho”, destapou as tensões étnicas latentes, agravou o abismo entre urbes e meio rural, e juntou-lhes uma violência sanguinária sem precedentes.

 

Hoje, o milagre económico etíope é um fenómeno citadino enquanto que nas zonas rurais, a imensa maioria do país, a agricultura de subsistência domina a paisagem. O desequilibro nota-se na dicotomia urbano-rural, mas é também visível dentro e entre regiões. A industrialização e os serviços são agora maiores do que no passado e o turismo assume um papel crescente, mas apresentam-se tímidos quando comparados com uma economia rural frágil e assente em meios de produção arcaicos.

 

O crescimento económico e os avanços sociais que dele resultaram são inegáveis e fazem da Etiópia um caso raro no panorama africano. De tal forma que a coligação no poder desde 1991 fez da economia uma bandeira que cobre a inexistência de liberdades políticas e o ambiente de intimidação no qual vivem as oposições à FDRPE.

 

É certo que o número de habitantes do país duplicou desde que a FDRPE chegou ao poder e que isso se traduz numa pressão acrescida sobre a gestão e distribuição de recursos. É igualmente certo que, no contexto africano, combater forças potencialmente desagregadoras com mais centralismo e repressão é uma reacção quase natural. Porém, os desafios à viabilidade da arquitectura política parecem crescer de ano para ano. O perigo da desagregação territorial e política não terminou com a independência da Eritreia. De resto, ao decretar o Estado de Emergência em Outubro de 2016 o Governo etíope reconheceu tacitamente esse risco.

 

Pelo que se vê, ouve e lê no país, não é o federalismo que é contestado. É esta federação em concreto. Há tempo e espaço para ultrapassar as limitações e deficiências que inquinam o modelo político. Contudo, as estatísticas dizem que o país vai bem. Quando assim é, a disponibilidade para mudar é reduzida.

 

NOTA: Os textos que integram esta série foram escritos há mais de um ano. No geral, resistiram bem ao teste do tempo, pois continuam a explicar muito do que se passa na Etiópia nos planos social, político e económico. Porém, o último parágrafo deste último texto estará a ser desmentido pelos novos protagonistas políticos, cujas acções e propostas sugerem uma intenção real de mudança. Espero que demonstrem que, nestas últimas linhas, me enganei redondamente.

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A mochila etíope (IV)

por Diogo Noivo, em 11.09.18


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 Fotografia minha

Pagodes etíopes

 

A estação de autocarros de Bahar Dar, uma pequena cidade localizada no noroeste etíope, é um caso esplendoroso de improviso organizado. Um recinto a céu aberto com piso de terra batida, murado por paredes variadas – secções em tijolo, secções em chapa de zinco, secções em falta. Lá dentro, nada estava sinalizado. Após transpor os desafios impostos pela barreira linguística e pelos fura-vidas que vivem da inexperiência de viajantes incautos, avistei a carrinha com destino a Gondar. São cerca de 170 km em direcção a Norte. A furgoneta tinha capacidade para 20 pessoas, mas naquele dia viajámos 32. Entre o excesso de passageiros e o excesso de bagagem, foram três horas e meia sem espaço para mexer um músculo.

 

Ao meu lado, no último banco, viajava um técnico de saúde etíope com 50 e muitos anos. “Em amárico, o meu nome significa Paciência”. Nome apropriado, pois encarava o espaço exíguo com uma temperança invulgar. Trabalhava como epidemiologista em Bahar Dar numa clínica custeada com fundos internacionais. Combatia doenças como a tuberculose e a SIDA. “Mais do que trabalho médico, é trabalho educativo”. Fora aceite num curso de formação em Israel e andava à procura de um mecenas que o ajudasse com as despesas de deslocação.

 

A conversa começou virada a Oriente. “Tudo aqui é chinês. Das pilhas aos chinelos, até aos novos meios de transporte. Bom, os novos e os velhos. Esta carripana, batida e cansada de velha, veio da China”.  De facto, as advertências de segurança coladas nas janelas estavam escritas em mandarim.

 

As relações económicas entre a República Popular da China e África - investimento, empréstimos, comércio e apoio ao desenvolvimento - aumentaram de forma muito substancial nos últimos 15 anos. E a tendência parece manter-se. No primeiro trimestre de 2017, as relações comerciais sino-africanas cresceram 16,8%, atingindo os 38,8 mil milhões de dólares. O investimento directo aumentou 64%, e a China anunciou o investimento de 60 mil milhões de dólares em projectos de apoio ao desenvolvimento.

 

Este crescimento tem merecido a atenção de analistas de diferentes áreas. Sintetizando bastante, o debate orbita em torno a duas grandes teses. A primeira defende que Pequim disponibiliza capital e meios a troco da exploração dos recursos naturais existentes em África, que usa para o desenvolvimento interno da China. Tratar-se-á, portanto, de uma relação com propósitos essencialmente económicos. A segunda tese vê na aposta chinesa em África uma estratégia política de médio-longo prazo na qual a economia desempenha um papel meramente instrumental. Ao disponibilizar financiamento e ao construir infraestruturas, Pequim pretende criar dependência nos países africanos, em parte através do aumento das dívidas públicas, uma relação que a China explorará politicamente.

 

O caso da Etiópia parece validar esta última tese. É a que mais convence Paciência. “Ao contrário do nosso vizinho Sudão, rico em petróleo, a Etiópia não dispõe de abundantes recursos energéticos. Mas Adis Abeba obteve da China mais do dobro dos empréstimos recebidos por Cartum”. De acordo com o Financial Times, a Etiópia é o sexto país africano que mais investimento directo recebeu de Pequim entre 2003 e 2017, ficando à frente de  países como Angola, o Níger e Marrocos. No que respeita a empréstimos chineses entre 2000 e 2015, a Etiópia ficou no segundo lugar do ranking africano.

 

O que a Etiópia não tem em recursos minerais e em hidrocarbonetos tem em relevância estratégica. É um referencial de estabilidade no Corno de África (mais por demérito dos vizinhos do que por mérito próprio). As Forças Armadas etíopes são essenciais no combate ao radicalismo islamista na região, em particular ao grupo terrorista somali al-Shabab, cuja violência ter-se-á estendido ao Norte de Moçambique, e que tem grande impacto no Golfo de Áden, um ponto nevrálgico para o comércio marítimo internacional. A Etiópia é também indispensável para a estabilização do Sudão, onde têm presença policial e militar tanto no quadro bilateral como no âmbito das Nações Unidas (trata-se, aliás, do país que mais contribui com pessoal para esta missão da ONU).

 

O meu companheiro de viagem salientou outro aspecto, pouco referido nas análises políticas. “80% do caudal no Nilo vem da Etiópia, o que cria relações tão estreitas como tensas com o Egipto.” Recorde-se que o Cairo é uma capital essencial nos arranjos de poder no Médio Oriente.

 

Por tudo isto, a Etiópia é uma peça estratégica do troço africano da Nova Rota da Seda, um projecto anunciado pelo Presidente chinês Xi Jinping em 2013, que unirá a China à Europa por via terrestre e marítima, passando por África, Ásia Central e Médio Oriente. O projecto abrange 68 países, mais de 65% da população mundial e cerca de um terço do PIB do planeta. Portanto, não se estranhe que Pequim tenha construído a título gracioso a nova sede da União Africana, instalada em Adis Abeba – onde, por mero acaso, foram encontradas escutas que, diz-se, pertenceriam aos serviços de informações de Pequim.

 

Em infraestruturas ferroviárias, rodoviárias e hídricas, mas também no número de cidadãos chineses que andam pelas ruas, a presença da China é evidente. Aliás, a presença de trabalhadores chineses é tão significativa que o aeroporto da capital etíope (cuja ampliação está a cargo de uma empresa chinesa) entende justificarem-se ecrãs com informações sobre partidas e chegadas apenas em mandarim.

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 Painel de informação de voos no aeroporto de Adis Abeba - fotografia minha

 

Falávamos da China e Paciência perguntou-me pela Coreia do Norte. Disse-lhe que no pouco acesso que tivera a internet naquele dia vira que o regime norte-coreano lançara um míssil sobre o Japão. Saltou no banco. “Isso não vai acabar bem”. Como o assunto eram desgraças, contei-lhe que naquela manhã houvera uma explosão no metro de Londres. Não tinha sido reivindicada ainda, mas tudo apontava para um atentado terrorista. “As pessoas são tontas. E há muito tonto em África e no Médio Oriente. Não percebem que se a Europa não está bem, África também não estará. Quanto mais vocês, europeus, gastam em segurança menos investem nas nossas economias e no apoio ao nosso desenvolvimento. E mais espaço se abre à China. O terrorismo na Europa também mata em África”. Mas, para Paciência, na Europa também há tontos: “E como se isto não bastasse, vocês ainda inventam problemas como o Brexit. Vamos perder todos”.

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A mochila etíope (III)

por Diogo Noivo, em 04.09.18

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Lalibela, norte da Etiópia - fotografia minha  

O orfanato

 

A estrada de acesso ao portão principal é um atoleiro. Os carros e carroças atascados na lama obrigam a gincana apeada, com o lodo a chegar ao meio da canela. É um cenário comum durante a época de chuvas, período que vai de Junho ao final de Setembro. Dentro do recinto funciona uma clínica pediátrica e um orfanato financiados e geridos por uma ONG europeia.

 

As crianças ali acolhidas têm idade estimada – abandonadas na rua, ninguém sabe ao certo quando nasceram. O membro mais recente da família era uma menina que teria entre um e dois meses de idade, recolhida à beira da estrada. Como referido em posts anteriores, a berma da estrada é o centro da vida social e do comércio nas zonas rurais e, por isso, é lá que as crianças são deixadas para que alguém as encontre. Acontece, porém, que é também à beira da estrada que apodrecem os cadáveres dos animais atropelados – cães, burros, hienas, há de tudo – e que a população sem acesso a saneamento básico faz as suas necessidades. Quando a menina foi encontrada tinha o corpo entregue à sarna.

 

“As infecções de pele e as doenças respiratórias são os problemas mais comuns nas crianças desta região. Há casos extremos. Mas são problemas que os hábitos de higiene, o saneamento básico e o acesso a água potável eliminariam quase por completo”, explica N., médico, chefe de serviço na clínica pediátrica. “Gastam-se fortunas em apoio médico, mas 90% das doenças em pediatria resolver-se-iam com coisas simples”.

 

O problema com maior incidência e gravidade é a malnutrição. Os casos mais frequentes são de malnutrição severa, embora os números oficiais do Estado mostrem uma realidade diferente, onde a malnutrição moderada é a regra e a severa quase marginal.

 

“O Governo falseia os dados por duas razões”, explicou-me N. “Primeiro, porque pretende transmitir ao exterior uma imagem positiva do país, essencial para alcançar suas ambições de Estado dominante na região. Segundo, porque precisa de demonstrar aos patronos internacionais, estatais e não estatais, que os milhares de milhões de dólares que anualmente entram no país para combater a malnutrição infantil estão a ser bem utilizados”.

 

Há uma terceira razão. Na última década, entre 40% e 50% do orçamento do Ministério da Saúde proveio de financiamento exterior, tanto de Estados como de organizações internacionais. Só com este apoio a Etiópia consegue ter um serviço nacional de saúde gratuito de âmbito nacional. Mais do que cumprir uma função do Estado, a saúde pública assume um papel político, pois é usada pelo Governo para mostrar que não existe discriminação étnica e, dessa forma, mitigar pulsões nacionalistas. O sistema nacional de saúde é, até certo ponto, um instrumento para dissuadir a contestação: com este Governo há saúde para todos; com outro não se sabe.

 

A luta contra a malnutrição é difícil. Para que não seja inglória, M., 36 anos, coordenadora da ONG no país, conta-me que as crianças com este diagnóstico, mesmo que acompanhadas pelos pais, ficam internadas na clínica. “O tratamento é feito através da administração de um leite em pó, uma fórmula especial. Podíamos entregar este leite aos pais para que o administrassem às crianças em casa. Mas sempre que o fizemos, os pais, ao chegarem às suas aldeias e verem que há mais crianças subnutridas, partilham o leite entre todos. Conclusão: nenhum dos bebés recebe a dose de que necessita. O leite desaparece (e é um bem caro e difícil de obter aqui) e as crianças continuam subnutridas. Agora ficam internadas até que as medições e o peso indiquem que estão bem.”

 

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 Procura de trabalho, Adis Abeba - fotografia minha

 

O serviço nacional de saúde tem cobertura universal, mas está mal equipado, especialmente nas zonas rurais. As ONG prestam uma atenção médica fundamental e, em alguns casos, são mesmo o único apoio às populações, o que coloca uma pressão enorme sobre a gestão de recursos. “Umas noites atrás tivemos cinco casos graves de crianças com problemas respiratórios. Só havia botijas de oxigénio para quatro. E se usássemos o oxigénio com esses quatro casos, não haveria botijas para a manhã seguinte. Tivemos de fazer escolhas difíceis...apoiámos os três casos mais graves, mantivemos os outros em observação, e arrancámos para Adis Abeba para comprar mais botijas”. Num raio de 160 km, esta é a única organização com botijas de oxigénio.

 

Naquele orfanato, as crianças comem três vezes ao dia, têm água potável e hábitos de higiene, têm uma cama, estudam, têm assistência médica permanente, e estão protegidas da violência – em particular de agressões sexuais, crime com alguma incidência no país. São vidas privilégio quando comparadas com o que sucede fora dos muros da instituição, o que é trágico.

 

As carências alimentares e os demais problemas de saúde pública expõem os limites do milagre económico e suscitam sérias dúvidas sobre a política de desenvolvimento adoptada pelo Governo. Um relatório muito crítico publicado pelo Oakland Institute em 2016 refere que a crise alimentar vivida nesse ano, que deixou 18 milhões de pessoas dependentes de assistência para sobreviver, teve a sua origem, como sempre, em factores ambientais, mas foi potenciada pelo Plano de Desenvolvimento Comunal e pelo Plano Quinquenal de Crescimento e Transformação da Etiópia. Estas estratégias governamentais resultaram no realojamento forçado de 1,5 milhões de pessoas de comunidades pastoris e agro-pastoris, além de dificultarem o acesso das populações a água. As secas são crónicas na Etiópia, mas parte importante dos estudos independentes sugerem que as fomes catastróficas não têm de o ser.

 

O nome dos cooperantes foi omitido a pedido dos próprios. As fotografias que ilustram o texto são, intencionalmente, de regiões distantes da vila onde a ONG está sedeada.

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A mochila etíope (II)

por Diogo Noivo, em 28.08.18

 

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De Adis rumo ao Sul - Fotografia minha

Camiões e violência étnica

 

De Adis Abeba para Sul a viagem inicia-se numa estrada profundamente danificada. Há buracos com o comprimento de autocarros. Literalmente. A isto acresce a inobservância de todas as regras de trânsito: carros, motos, bajaj (tuk-tuk de uso local), pessoas e animais circulam nas mesmas vias, frequentemente em sentidos conflituantes. A sinalização é escassa e decorativa. Uns quilómetros depois surge um troço de autoestrada imaculado, produto da engenharia chinesa.

 

Antes de chegar ao lago Koka e de volta à penosidade de uma estrada secundária, dois camiões jazem incendiados na berma da estrada. Na Etiópia, a vida acontece na berma da estrada: é na berma da estrada que se constroem as casas de barro prensado, é na berma da estrada que se monta um pequeno negócio abrigado por chapa de zinco, é na berma da estrada que se vê a vida passar. Assim, a presença daqueles camiões neste local não era desleixo. Pergunto a Ermiyas, o meu camarada etíope de viagem, a causa. Íamos sozinhos no carro, mas a frase “mau governo” sai entre dentes. Para perceber o porquê da frase e a razão pela qual foi dita em surdina importa entender primeiro a organização político-territorial do país.

 

A Etiópia é um estado federal onde a cada um dos nove estados federados corresponde a uma etnia maioritária - no total, existem no país mais de duas dezenas de grupos étnicos. Oromos e amharas são os mais numerosos, sendo, respectivamente, 34% e 27% da população. A etnia tigrínia, que representa pouco mais de 6%, tem um estado próprio e é a força preponderante na Frente Democrática e Revolucionária do Povo da Etiópia (FDRPE), a coligação que detém o poder político federal. Este arranjo político-institucional é fruto de uma tentativa de domesticar a violência.

 

Em 1974, quando depôs o imperador Haile Selassie, o golpe da junta militar comunista (Derg) pôs fim a um sistema autocrático e feudal e, em simultâneo, destapou um conjunto de tensões políticas e étnicas há muito latentes, às quais respondeu com terrorismo de Estado. Com diferentes velocidades e intensidade, estas tensões transformaram-se em conflitos armados. À luta pela independência da Eritreia, em curso desde a década de 1960, juntaram-se outras protagonizadas por movimentos de base étnica como, por exemplo, a Frente de Libertação Afar, o Partido Revolucionário do Povo Etíope, a Frente Islâmica de Libertação da Oromia, a Frente de Libertação Oromo e a Frente de Libertação Nacional Ogaden.

 

A Etiópia torna-se então o cenário de diferentes guerras civis que com frequência se misturaram e sobrepuseram. Do lado do Estado, as purgas e os assassinatos transformaram o regime militar ditatorial numa tirania de corte personalista liderada pelo infame Major Mengistu Haile Mariam. Neste período de tirania militar, que foi de 1974 a 1991, momentos houve em que a Etiópia foi palco – e vítima – de um estado de guerra total. Os avanços e recuos destes conflitos foram determinados pelas identidades étnicas, pela demografia, pela geografia, mas também pela influência das potências enfrentadas na Guerra Fria.

 

Findo o regime militar em 1991 e obtido o reconhecimento internacional da Eritreia em 1993, o país virou-se para dentro à procura de soluções. Desde o final do reinado de Halie Selassie que a fragmentação da sociedade em diferentes etnias, línguas e culturas estava no centro da contestação social. As tentativas dos diferentes regimes em forjar uma unidade nacional mediante a eliminação da preponderância das identidades étnicas saíram sempre goradas – e o custo dessas tentativas foi medido em cadáveres.

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Vila na periferia de Gondar - Fotografia minha

A solução de um estado federal que conferisse autonomia política e administrativa às principais etnias foi a via encontrada para acomodar as diferentes identidades e evitar maior desagregação territorial, sendo esta a base do actual regime.

 

Da teoria à prática há sempre uma distância considerável e, por isso, os méritos do federalismo são mitigados por quatro problemas de gestão política. Primeiro, a descentralização é débil. O poder político está concentrado no Estado Federal, em particular na FDRPE, no poder desde 1991, controlada pela etnia tigrínia. Segundo, a ausência de liberdades políticas. A imprensa não é livre, o acesso à internet é controlado e a oposição é oprimida, algo que foi bastante visível em 2015, ano em que foram realizadas as últimas eleições legislativas onde a FDRPE ficou com 500 mandatos parlamentares num total de 547 – os 47 de diferença foram conseguidos por partidos leais à coligação no poder. Terceiro, muitos dos representantes locais são encarados pelos seus constituintes como fantoches do poder central, cooptados por via da corrupção. Por último, e embora se tenha encontrado uma forma equilibrada de distribuir os recursos do orçamento de Estado, a maior parte dos fundos e projectos internacionais de apoio ao desenvolvimento bem como a construção de infraestruturas estão localizados na região Tigré ou nas zonas definidas pela etnia que a controla.

 

Às tensões étnicas e nacionalistas do passado acresce então o sentimento de marginalização económica e política. E, devido à natureza autoritária do poder incumbente, não existem no sistema político etíope mecanismos e canais eficazes através dos quais os cidadãos possam exprimir o seu descontentamento e encontrar soluções. Era a tudo isto que Ermiyas se referia quando respondeu “mau governo”.

 

Os dois camiões ardidos eram então uma recordação do sucedido onze meses antes, em Outubro de 2016, mês em que os oromos celebraram o festival anual Irreechaa, evento onde se celebra o fim da época das chuvas e se pedem colheitas prósperas à natureza. Milhões de oromos acorrem à localidade de Bishoftu, relativamente próxima do lago Koka, por onde passava em viagem. Ter-se-ão infiltrado na massa de peregrinos manifestantes anti-governo e a polícia reagiu com brutalidade: os números oficiais referiam cerca de 50 mortos, embora diferentes organizações não governamentais coloquem a cifra na ordem dos 100. O caos e a violência deixaram um rasto de destruição que o passar dos meses foi apagando. Em Setembro sobravam dois camiões ardidos, uma espécie de memento mori que a todos recordava os efeitos da violência étnica (e a brutalidade que o regime usa para a reprimir).

 

O episódio do festival Irreechaa foi antecedido por meses de protestos oromos contra o Executivo. Iniciados em Novembro de 2015, e motivados por causas diversas – desde um plano para expandir a cidade de Adis Abeba que retiraria terrenos de cultivo à região oromo a manifestações contra o permanente clima de intimidação que rege a vida política –, os protestos alastram-se a várias cidades da Oromia. Entretanto, a etnia amhara iniciou os seus próprios protestos contra o Governo e dele obteve a mesma reacção. Em Outubro de 2016 o Governo Federal decretou o Estado de Emergência, findo em Julho de 2017. A Comissão Etíope para os Direitos Humanos, organismo dependente do Governo e por ele criado para refrear as acusações de autoritarismo vindas do estrangeiro, fez o balanço dos protestos ocorridos em 2016 e concluiu que há 600 mortos a lamentar.

 

Semanas depois de ter visto os dois camiões, e já numa região diferente, ouviria a frase “mau governo” outra vez. A 18 de Setembro de 2017, de caminho a Harar, no Este do país, sou aconselhado a não seguir viagem. “Há refugiados em direcção a Harar porque as coisas estão complicadas junto à fronteira com a Somália”, disse-me Agu, diácono numa igreja ortodoxa. De facto, era notória agitação e o nervosismo das pessoas que se iam juntando na rua. Pouco a pouco formou-se uma caravana de gente apeada que transportava como podia o pouco que tivera tempo de arrumar. Perguntei a razão. Foi então que ouvi o fatídico “mau governo”.

 

A causa imediata eram confrontos entre somalis e oromos. Naquele primeiro dia as autoridades federais contabilizaram 18 mortos, um número contestado pelos representantes locais, que registaram mais de 30. O número de refugiados internos andava na ordem das dezenas de milhares. Porém, a violência foi menos intensa do que em Fevereiro e Março daquele ano, quando os confrontos entre oromos e somalis provocaram centenas de mortos – o número exacto nunca foi apurado.

 

Com estradas cortadas, esperámos junto à rádio por novidades. Enquanto houve notícias, Agu traduziu o que ouvia para inglês. Faltava saber o que esteve na génese dos confrontos. Mas disso não falavam na rádio. “Isto é instigado a partir de Adis. Metem-nos uns contra os outros para aparecerem [a FDRPE e os tigrínia] como os únicos capazes de garantir a unidade da Etiópia”. A tese tem alguns argumentos válidos e adeptos nas regiões Oromia e Amhara, mas é impossível de demonstrar. Vale por ilustrar a desconfiança que existe em relação à FDRPE.

 

Sem prejuízo do progresso alcançado desde 1991, a Etiópia está no 134º lugar do Global Peace Index 2017, uma lista que avalia o nível de segurança em 164 países. Nos diferentes parâmetros, analisados numa escala de 1 (muito baixo) a 5 (muito elevado), a Etiópia é especialmente mal classificada em Conflitos Internos Combatidos (4.3), Acesso a Armamento (4.0), Intensidade de Conflito Interno (4.0) e Protestos Violentos (3.5). Em relação a 2016, a Etiópia caiu 16 lugares e piorou na generalidade dos indicadores. Foi, de resto, o país que mais pontuação perdeu.

 

Invertida a marcha em segurança graças à amabilidade daquele diácono que me cuidou como se fossemos família, segui viagem em direcção ao orfanato onde passaria os próximos dias.

 

Estes factos e dados reportam a 2017. Eleições recentes alteraram o status quo - sem prejuízo dos sinais positivos que resultaram das eleições, o real significado da alteração ainda está por ver.

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A mochila etíope (I)

por Diogo Noivo, em 21.08.18

Entre o milagre económico e o abismo político

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centro de Adis Abeba - fotografia minha 

À noite, vista do ar, Adis Abeba nada deve a Nova Iorque ou a Xangai. A capital etíope apresenta-se como uma metrópole colossal, vibrante, repleta de pontos de luz e de cor. Aterrando, o cenário muda e sobressaem as contradições de uma cidade indecisa entre o progresso e os abismos do passado.

 

Os edifícios modernos compartem espaço com formas de miséria indisfarçável. As avenidas movimentadas onde desponta dinheiro novo são entrecortadas por vielas enlameadas e sem iluminação, controladas por matilhas de cães vadios. O novo betão tem ao lado casas de chapa de zinco. As estradas, irregulares e acidentadas, conhecem poucas regras de trânsito e são apenas para quem as domina. Num táxi, o destino é dito com base em referências – um hotel, uma escola, uma embaixada – porque as ruas não têm nome. O novo metro de superfície, uma infraestrutura construída e financiada pela República Popular da China, coloca no século XXI uma população que vive com cortes diários e prolongados de água e de eletricidade.

 

Ainda que pareça um contrassenso, tudo isto são sinais de um notável progresso económico. Após décadas de guerras civis e depois das fomes dramáticas da década de 1980, a economia etíope não tem rival na região e poucas são as economias no mundo com um crescimento comparável. De acordo com o Banco Mundial, entre 2003 e 2015 a economia etíope cresceu a uma média anual de 10,8%, o que compara com um crescimento médio regional de 5,4%. O crescimento do PIB em 2016 situou-se nos 7,6%.

 

Este sucesso, apelidado por alguns analistas de milagre económico, levou a um decréscimo acentuado da pobreza. Ainda de acordo com o Banco Mundial, no ano 2000 55,3% dos etíopes viviam em pobreza extrema – menos de 1,90 dólares por dia –, uma percentagem que desceu para os 33,5% em 2011. A esta década de êxito económico juntam-se duas décadas de avanços sociais: aumentou o número de crianças a frequentar o ensino primário, a mortalidade infantil reduziu para metade e o número de cidadãos com acesso a água potável duplicou.

 

No entanto, é um êxito com limitações severas. As que são visíveis na capital e nas demais cidades acentuam-se bastante quando nos aventuramos em zonas rurais. Percebemos que o milagre económico é um fenómeno essencialmente urbano e que no espaço rural, a maior parte do território, onde reside mais de 80% dos 102 milhões de habitantes, a pobreza e as condições de vida insalubres são a regra.

 

As carências internas não mitigam a relevância estratégica da Etiópia no mundo. É essencial aos projectos comerciais e políticos da China e assume-se como primeira linha de combate ao terrorismo islamista na África Oriental, o que em grande medida justificou a visita oficial do então Presidente Barack Obama em 2015, o primeiro Chefe de Estado norte-americano a visitar o país. Ladeada por focos de instabilidade no Sudão do Sul e na Somália, virada para o Golfo de Áden, e vizinha do Djibuti – país com a maior base militar permanente dos Estados Unidos da América em África e com a única base militar chinesa fora da Ásia –, a Etiópia é uma peça indispensável para a estabilidade de um ponto sensível para o comércio e segurança internacionais.

 

Este post, em jeito de introdução, é o primeiro de vários que relatam um mês de mochila às costas pela Etiópia em Setembro do ano passado. Os factos, dados e estatísticas referidos nestes textos foram obtidos nessa altura.

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Pelo Mundo

por Francisca Prieto, em 19.01.18

Quando estás nos confins da Birmânia, em casa de um artesão, e as imagens decorativas da sala são, nada mais, nada menos, do que dois posters do Cristiano Ronaldo e um da selecção portuguesa.

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Birmânia 2017

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Pelo Mundo

por Francisca Prieto, em 15.01.18

Era uma vez um monge que estava a tirar uma fotografia a uma janela de um templo, em contraluz. Os viajantes que passavam por perto ficaram fascinados com a imagem, e resolveram fotografar o monge a tirar uma fotografia a uma janela de um templo, em contraluz. Depois o monge virou-se de repente e, quando percebeu que estava a ser fotografado por uma multidão, desatou-se a rir. Os viajantes, apanhados em flagrante delito, também se riram.
Às vezes, o humor é uma linguagem universal que se basta.

 

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Birmânia 2017

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A América

por Francisca Prieto, em 27.06.17
Lembras-te que, quando eras da idade da Rita e ias a Lisboa, o teu pai, que tinha mau génio, te levava a almoçar ao Great American Disaster. O teu pai era um paradoxo de onde saltava uma palmada à mesma velocidade que criava rituais de amor inesquecíveis.
Para ti, comer um hambúrguer e beber um batido no Great American Disaster era o mais próximo de ir à América que conhecias.
Anos mais tarde, foste para a América durante muito tempo. E o teu pai escrevia-te cartas muito compridas que, de tanto pormenor, te traziam com alegria de volta a Portugal. Mesmo quando a tua avó morreu, mesmo quando o teu irmão teve um acidente de mota do qual levou uma data de tempo a recuperar.
Mas a tua América começou ali, naqueles almoços onde podias escolher tudo o que quisesses, até rebentar. Na verdade, foi o teu pai, que nunca foi à América, quem te mostrou pela primeira vez a grandeza daquele continente.
Hoje foi a tua vez de levar a tua filha à América num copo de batido de morango. E esperas que lhe tenhas conseguido despertar o mesmo gosto que a ti te fez querer calcorrear o mundo.

 

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Pelos Caminhos de Fátima

por João Pedro Pimenta, em 13.05.17

Estive a ver a chegada do Papa a Fátima e a procissão das velas. Mesmo o mais empedernidos dos descrentes deve ter sentido uma pontinha de comoção ao ver toda aquela alegria e devoção. Não estou em Fátima, com pena minha, mas não estou especialmente treinado para fazer longos percursos em bicicleta em pouco tempo, como me propuseram, e combinações de última hora acabaram por não surtir efeito. Por isso, assisto às cerimónias pela televisão.

 
Todos os anos sucedem-se as peregrinações a pé até Fátima. A esmagadora maioria dos peregrinos segue pela estrada, com todos os perigos que isso acarreta. Mas não têm necessariamente de o fazer.
Têm caminhos alternativos, por troços secundários e mais seguros, tal como acontece como os que vão para Santiago.
Os Caminhos de Fátima são um projecto do Centro Nacional de Cultura e uma ideia original de Helena Vaz da Silva. Pretendem levar os peregrinos em segurança desde o ponto de partida, seja ele qual for, até ao santuário de Fátima. Para já não há muitos albergues e pontos de descansos. Mas há indicações, muitas, que mostram a quem por eles segue a direcção do seu destino. As setas azuis, em fundo branco ou não, indicam o rumo até à Cova da Iria.

 

 
Nas últimas semanas, e com a aproximação do Centenário de Fátima, várias equipas de voluntários, entre os quais o escritor destas linhas, entretiveram-se a desenhar ou redesenhar as setas do caminho. Boa parte do traçado é dividido com o Caminho de Santiago, aproveitado para fins idênticos, indo cada uma na direcção inversa do outro. Assim, as setas azuis "esbarram" nas amarelas.

 

 
Os Caminhos de Fátima dificilmente alcançarão a importância cultural dos de Santiago. Há que recordar que os trajectos até à cidade do Apóstolo vêm desde tempos imemoriais, têm mais de mil anos, e durante séculos foram as únicas vias terrestres a servir esse importantíssimo ponto de peregrinação. Os Caminhos de Fátima nasceram na época do GPS, da net, das autoestradas e do transporte individual, e portanto nunca alcançarão a mesma notoriedade, nem são para já um "clássico" das peregrinações a pé. Mas cumprem o seu propósito, dando aos peregrinos uma segurança que não têm na estrada. Além disso, permitem-lhes conhecer melhor o país, observar mais atentamente a paisagem e descobrir pormenores singulares. No troço que coube à minha equipa, por exemplo, e que começava em Conímbriga, (a mais importante estação arqueológica romana de Portugal), passei por uma aldeia chamada Fonte Coberta que nem consta dos mapas, mas que em tempos acolheu o grão-duque da Toscana Cosme III de Médicis na sua ida para Santiago e o Marechal Soult na sua debandada da 3ª Invasão, por caminhos de floresta onde se praticava motocross, por vales de rios secos e perto de castelos no alto de penhascos aparentemente inacessíveis.
 
Fátima é um ponto de chegada, de fé e de devoção, mas pode ser também um caminho de esforço e de resiliência sem ser um tormento, e sobretudo sem ser um perigo latente que obrigue a caminhar na margem da estrada. Talvez os Caminhos não sejam ainda muito usados nem sejam ainda vistos como a alternativa aos mais conhecidos. Por isso mesmo, este Centenário pode significar não uma oportunidade menos aproveitada mas sim a alavanca para percursos mais seguros e interessantes e que dê  a quem os use uma nova perspectiva do país, até aí escondida pelas "ruas da estrada"e pelo trânsito incessante.

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Síndrome de Stendhal e tal

por Bandeira, em 27.01.17

José Bandeira

(Foto: Um homem atacado pela síndrome de Stendhal em plena Santa Croce, num momento místico captado por este seu criado. A igreja está escura para que não se veja o quanto é feia.)

O grande crítico vitoriano John Ruskin (a quem por vezes acendo velinhas e cuja foto quero muito em versão magneto de frigorífico) diz que a basílica florentina de Santa Croce não passa de uma espécie de mal amanhada despensa de frescos, túmulos e turistas, não forçosamente por esta ordem. O alvo dele é praticamente tudo o que não passou pelo crivo do arquitecto original, Arnolfo di Cambio, cujo estilo aprecia e ao qual, num rasgo de genialidade que ainda hoje me tira o sono, deu o nome de... Arnolfo-Gótico.

Permita, galerníssimo leitor, que cite Ruskin em Mornings in Florence (tradução caseira):

“[o leitor] Regressará a casa com a vaga impressão de que Santa Croce é, de algum modo, a mais feia igreja gótica em que alguma vez pôs os pés. Bom, de facto assim é (…)”

E pronto, no que aos ingleses diz respeito é case closed.

Mas de Stendhal, que não era crítico de arte, vitoriano muito menos e as más-línguas chegam a jurar francês, dir-se-ia que apreciou Santa Croce, que foi o primeiro local turístico que visitou, pelo que percebo das suas notas de viagem, aquando de uma visita à cidade toscana. Tanto assim que, em saindo da basílica, o autor do jamais concluído O Rosa e o Verde (cores que, digo-o a título de curiosidade, abundam nos mármores florentinos), trocou os passos, sofreu uma espécie de vertigem, quase desfalecia. A citação que se segue é traduzida de Naples, Rome et Florence:

“Havia atingido aquele ponto emocional onde se cruzam os sentimentos apaixonados e as sensações celestiais que nos dão as Belas-Artes. Em saindo de Santa Croce, sofri um acelerar do coração, aquilo que em Berlim chamam 'nervos'; a vida exauria-se dentro de mim, caminhava com receio de cair.”

O fenómeno, que atingia um sem-número de outros visitantes de Florença, depressa se tornou conhecido como “Síndrome de Stendhal”; e no Ospedale di Santa Maria Nuova inaugurou-se um serviço – que viria a tornar-se muito conceituado – dedicado ao estudo dessa estranha condição clínica que atinge aqueles que sofrem os efeitos da exposição excessiva a obras de arte. Ignoro se o serviço ainda funciona, a bem da tradição espero que sim, se bem que continue a achar que o mal de Stendhal era falta de brioches e cappuccino.

“E como… ahm… como ultrapassou Stendhal a desagradável situação?”, ouço perguntar, de Moleskine e caneta em riste, o plantivo leitor, recordado de haver sentido algo de semelhante numa exposição de aguarelas de um Artista Local na junta de freguesia do seu bairro.

Pois ultrapassou-a, respondo eu, sentando-se num banco e lendo poesia – à época, o ansiolítico mais eficaz, até porque se podia tomar com álcool. Muito álcool.

 

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Périplo de Livrarias em Nova Iorque

por Francisca Prieto, em 18.01.17

Na semana passada, a Livreira Acidental concretizou um velho sonho e, argumentando tratar-se de uma viagem de trabalho, fugiu para Nova Iorque para vasculhar todas as boas ideias que pudesse encontrar, por entre as livrarias da cidade.

Após quilómetros de quarteirões calcorreados e de opiniões tomadas, resolveu partilhar aquelas que considerou serem as quatro livrarias obrigatórias para um livrólico convicto.

 A McNally Jackson, na Prince Street, no Soho tem a característica de ter os livros organizados por zonas geográficas. Para além de ser um espaço com bastante personalidade, oferece uma variedade considerável de excelentes autores e revistas literárias.

 A 192 Books, em Chelsea, é uma livraria pequena mas tem uma selecção absolutamente excepcional de títulos. Percebe-se logo que o dono é alguém com um gosto literário apurado. À conversa, descobrimos que é gémeo de Fernando Pessoa - ambos nasceram a 13 de Junho - e que por isso tem o grande sonho de um dia vir a Portugal.

 A Housing Works é uma livraria solidária, onde todos os livros são doados, o staff é voluntário e 100% dos lucros revertem para uma instituição que oferece apoio a cidadãos com HIV e a sem abrigo. É aqui possível encontrar algumas raridades a óptimos preços.

 A Strand é a catedral do livro. Juntando livros novos e em segunda mão, é o paraíso para quem gosta destas andanças. Apesar de enorme, é uma livraria super personalizada, cheia de sugestões por todos os cantos e com secções temáticas de quilómetros.

Se só puder visitar uma livraria, atire-se à Strand. É possível passar lá uma tarde inteira sem nunca se aborrecer.

 

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Memórias subjectivas (3)

por João André, em 16.09.16

Distâncias e viagens

Enquanto cresci, a única auto-estrada existente era a que ligava Lisboa a Aveiras. Num bom carro e respeitando apenas o espírito da lei no que respeita a limites de velocidade (isto é, acreditar na sua existência mas não os praticar, como a maioria dos católicos portugueses), era possível ir de Aveiras ao Aeroporto em 20-24 minutos. Isto era um eternidade, mas a bem dizer viajar em Portugal até meados da década de 90 demorava eternidades.

 

Quando pequeno, eu passava bastantes fins de semana em casa da minha tia. A distância eram uns 10-15 km, mas no Citroën Diane (a "diane") ou no Renault 5 (o "renôssinco") que o substituiu, a viagem era um tédio. Visitar a minha avó implicava uma viagem de 20 km por estradas regionais, com passagens de nível e demorava pelos meus cálculos cerca de 3 episódios do Roy Rodgers ou pelo menos a primeira parte do Benfica Belenenses (que não valia a pena ver a preto e branco na televisão porque as camisolas vermelhas e azuis eram indistinguíveis). Uma ida à Nazaré exigia mantimentos equivalentes ao um Paris-(Argel)-Dakar e se fôssemos a Lisboa o carro passava metade do dia anterior em revisões, mudando o óleo, acertando a pressão dos pneus, atestando o depósito e os tanques de água, enchendo a bagageira de equipamento de emergência incluindo tendas, fornos a gás e rádios portáteis (talvez a minha memória me faça exagerar).

 

 

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Elefantes Brancos

por Francisca Prieto, em 19.05.16

As redes sociais têm sido um suporte insuperável na missão de trazer à tona episódios embaraçosos que a nossa memória selectiva já tinha atirado para o subconsciente há séculos e que agradeceríamos que por lá permanecessem. É certo e sabido que, mais cedo ou mais tarde, alguém nos adiciona a um velho grupo da faculdade e que, de repente, desatamos a ser identificados em fotografias onde nos apresentamos de franja, camisa com chumaços e rosetas estampadas nas bochechas.

Mas se é verdade que há coisas que preferíamos esquecer, também é verdade que há momentos que merecem ser relembrados.

Hoje, quando me dei conta de que andava a circular pelo facebook de sombrero mexicano, mão na anca e cara de quem já tinha dado conta de um par de tequilhas, rendi-me à nostalgia e ingressei numa viagem no tempo à Meca dos finalistas universitários – Cancún.

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A viagem há-de ter sido idêntica à de tantos outros finalistas, mas, para além dos episódios previsíveis, ficou-me na memória a relutância em comprar um sombrero. Enquanto todos os colegas escolhiam o seu exemplar, entre várias cores e modelos, alguma coisa me dizia que importar sombreros não era a melhor ideia do mundo. Tinha muita graça no local, mas não conseguia vislumbrar qualquer utilidade para um chapéu daquelas dimensões, à chegada a Lisboa. Vieram-se a confirmar os meus piores temores logo à entrada do avião, quando cinquenta viajantes tentavam, em gestos épicos, arrumar cinquenta sombreros nas bagageiras.

Depois desta aventura fiz várias outras viagens e, sempre que me sentia a ceder à tentação consumista que nos invade em terras estranhas, lembrava-me do episódio dos sombreros e resistia estoicamente.

Até que uns anos mais tarde, em Banguecoque, dei de caras com um cozinheiro de madeira maciça com uns quarenta centímetros de altura, que resolvi que era imprescindível para decorar a cozinha da nossa casa nova. Não me ocorreu que depois da visita à capital, íamos em périplo para Puket, Ilhas Pi-Pi e Krabi. De maneira que, após o entusiasmo inicial, andei a rogar pragas ao malfadado cozinheiro que foi arrastado por terras tailandesas, entre ventos e intempéries, durante mais de duas semanas. Mas o pior é que ainda hoje, volta não volta, dou com o raio do boneco numa qualquer arrecadação, de onde nunca saiu porque era um mono tão grande que nunca coube numa bancada de cozinha.

Voltei assim aos bons hábitos de viajar com pouca bagagem e de, sobretudo, não me lançar em compras estapafúrdias. Isto, claro, até me ter lembrado de comprar um poncho peruano. Dos genuínos.

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De Falcon para Atenas.

por Luís Menezes Leitão, em 16.04.16

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Confesso que achei um exagero evidente quando Passos Coelho determinou que os Ministros só pudessem viajar em classe turística, até porque a TAP tinha a obrigação de disponibilizar a classe executiva gratuitamente. O resultado dessa medida foi que assisti a Ministros irem sentados ao meu lado em aviões para Bruxelas em classe turística, enquanto mais à frente entidades com menos estatuto, como deputados europeus ou governantes regionais viajavam em executiva. 

 

Já acho, porém, um verdadeiro abuso utilizar um Falcon da Força Aérea para viajar até Atenas. Estive em Atenas há poucos meses e sei bem que a Atenas se chega num instante via Frankfurt ou Zurique, e não há necessidade nenhuma em torrar os dinheiros públicos num luxo desta ordem. Não há dúvida que se há coisa que caracteriza um governo de esquerda é o amor ao luxo e o desprezo total pelo controlo dos dinheiros públicos. O novo resgate aproxima-se e ainda vai chegar mais depressa do que o Falcon voa.

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Viva 2015, Venha daí 2016

por Francisca Prieto, em 28.12.15

2014 tinha sido um ano horribilis, de maneira que me lancei a 2015 decidida a fazer uma pega de caras à vida, das que nos dão direito a duas voltas à arena no final do espectáculo e uma saída em ombros.

Não posso ter a pretensão de achar que cheguei efectivamente a sair pela porta grande, até porque vários acontecimentos menos felizes se foram sucedendo durante o ano que passou, mas foi um ano em que cumpri com brio um par de objectivos que estavam dentro da gaveta e que nunca pensei que viessem a ver a luz do dia.

Um deles foi a abertura de uma livraria solidária, que tem crescido a olhos vistos e que não só me dá todos os dias o prazer de estar a trabalhar para uma causa, como me fez conhecer dezenas de pessoas extraordinárias, desde os voluntários que fazem turnos, a pessoas que doam parte do seu espólio livreiro ou outros que não se importam de passar tardes a limpar o pó ou a carregar caixotes. De igual forma, adoro os clientes que já se tornaram amigos ou os que visitam pela primeira vez o espaço e que ficam maravilhados pela boa energia que dali emana. Sinto, por tudo isto, que foi um ano riquíssimo em termos de trabalho e de relacionamento humano.

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O outro grande sonho cumprido foi uma viagem ao Peru e à Bolívia, acompanhada por uma irmã e por um grupo de gente cheia de genica e de sentido de humor. Nem consigo explicar como pode ser divertido viajar com uma irmã adulta durante quase três semanas.

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É quase impossível que 2016 me traga dois acontecimentos com este nível de superlatividade. Mas se for um ano de consolidação, já me sinto muito grata. Venham então de lá esses ossos, seu 2016.

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Quentes, rápidos e longos (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.08.15

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Com uma esplendorosa manhã de sol, uma temperatura amena para aquilo que foram os últimos dias, esta teria sido uma óptima ocasião para dar um passeio pela região de Fuji, fazer uma visita aos grandes lagos e dar um salto a Hakone.

Situada na parte leste de Shizuoka, com um clima agradável durante os meses de Verão, região de vilegiatura de muitos estrangeiros e locais, Gotemba é a cidade onde Akira Kurosawa se retirava para descansar durante largos meses. Nas proximidades da estação há um parque que noutros tempos serviu de morada à família imperial, e a meia hora de caminho fica o Fuji Safari Park. Apesar disso tudo, e de segundo me disseram ter centenas de lojas de marcas famosas, o que eu não fazia tenção de visitar, a cidade é mais conhecida por constituir a porta de entrada na região de montanha do Fuji. No centro da cidade é possível arranjar com facilidade transporte para passeios aos pontos mais elevados. Conhecida como a montanha onde vive um deus, foi a partir do final do século VIII que se tornou famosa. Nessa época, a Fuji-ko, uma seita religiosa cujo objectivo era escalar a montanha, inseria essa subida na sua preparação ascética. No chamado período Edo, entre o século XVII e meados do século XIX, o Fuji popularizou-se entre os habitantes da cidade. A forma actual da montanha terá sido adquirida há cinco mil anos, tendo sido fonte inspiradora de poetas e pintores. Com quatro vias principais de acesso (Yoshida, Subashiri, Fujinomiya e Gotemba), a melhor altura do ano para lá ir é entre Julho e Setembro. Todos os anos é fixado o período de ascensão, que varia em função das condições atmosféricas e da via de acesso, pelo que quem quiser lá ir convém estar prevenido. Entre a base e o topo há em regra uma diferença de 20 a 23.º Celsius (Gotemba está a 450 m de altitude). Há imensa informação, há hotéis e ryokans em fartura, mas que em determinadas alturas do ano esgotam rapidamente, convindo por isso reservar com antecedência. Esta foi uma dessas ocasiões, já que Gotemba não é só porta de entrada da montanha mas também a via mais fácil para chegar à pista que fica no seu sopé.

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Sem tempo nem companhia para a subida, em dia de corridas, cheguei ao circuito ainda a tempo do warm-up. Com tempos idênticos aos da véspera que serviram para a qualificação, os pilotos da Gainer estavam confiantes e bem dispostos. Depois seguiu-se a segunda corrida da Porsche Super Cup e, entretanto, aproveitei para circular pelo interior da pista, usufruindo das vistas, do azul do céu, e observando os espectadores. No exterior prosseguia a animação, com espectáculos musicais, sessões em simuladores e sorteios, logo antes de começar a romaria de espectadores para a volta pelo paddock e pelas boxes. Verifiquei depois que a maioria dos que ali estavam eram coleccionadores em busca de autógrafos e de memorabilia diversa, a maior parte dela inútil aos meus olhos, como leques de plástico com fotografias dos carros e das starlets, sacos de plástico, autocolantes da banda desenhada japonesa alusiva ao evento e aos carros, tralha que é oferecida em quantidades industriais pelas equipas e seus patrocinadores, um pouco à semelhança do que acontece noutras provas como no WTCC.

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Com uma carreira construída a pulso e fora de portas desde 1995, quando participou na Fórmula Opel Euroseries, vencendo no Estoril, a que se seguiu F3 na Alemanha e em Itália, a vitória na Taça do Mundo de 2000, em Macau, a Fórmula 3000, com um terceiro lugar em Nurburgring, e depois de ainda ter andado pela Fórmula Nippon, as World Series da Nissan e o ETCC, em 2004 o André participou pela primeira vez nos GT 500. Entre 2005 e 2012 competiu igualmente nalgumas provas do WTCC, conduzindo para a Alfa Romeo, a Honda e a Seat, mas foi nos Super GT que terá encontrado alguma estabilidade. Em 2014 esteve também presente na Blancpain Endurance Series.

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Durante muitos anos, apesar de ser um piloto extraordinariamente rápido e combativo, fosse por falta de carros e equipa suficientemente competitiva, por excesso de impulsividade ou simples falta de sorte, não mereceu em Portugal a atenção e o apoio devido da comunicação social nacional e de alguns patrocinadores. Nunca teve a projecção que o seu talento exigia e talvez por isso muitos portugueses não saibam quem é. No final de 2010 ainda passou pela provação de perder o seu filho Afonso, com sete anos, vítima de leucemia, num combate que ainda perdurará na memória de muitos pela solidariedade que mereceu dos colegas em todo o mundo e de milhares de anónimos para a causa do combate à doença e pela criação de bancos de dadores de medula. Apesar disso, o André não esmoreceu, fazendo jus ao seu profissionalismo e espírito de luta. Aquele que o trouxe até aqui. Pelo meio, para além das vitórias já referidas, registem-se o 2.º lugar no GT 500, em 2004, a vitória em 2005 nos 1000 Km de Suzuka e o 2.º lugar na Audi R8 LMS Cup China, em 2014, ano em que fez 21 corridas, conquistou cinco vitórias, esteve sete vezes no pódio, fez cinco pole positions e quatro vezes a volta mais rápida.

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Este ano, com um carro competitivo no Super GT, numa equipa de primeira linha e com colegas de equipa igualmente rápidos, com pistas com muitos milhares (este domingo foram 54.000), os resultados não podiam deixar de continuar a aparecer. A televisão e a imprensa japonesa e de outros países asiáticos acompanham. Popular em Macau, onde cresceu desde os 4 anos e foi o primeiro piloto local a vencer a corrida de F3, confesso que não esperava ver o que vi. Fui testemunha da popularidade de que o André goza no Japão, entre velhos e novos, dos ajuntamentos na traseira da boxe para o saudarem, da simplicidade e simpatia com que a todos atende. Registo em particular o modo como recebeu um pequeno fã, talvez com não mais de 6 anos, tímido na aproximação ao ídolo, com o seu caderno de autógrafos e a caneta na mão, e a quem o André chamou, colocando-o à-vontade, bem como a visita de um seguidor tailandês, fabricante de cristais, que fez questão de lhe ir oferecer duas peças com inscrições alusivas às corridas anteriores.

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Quanto à corrida, propriamente, depois de tocados os acordes do hino japonês, momento para o qual já me havia chamado a atenção pelo silêncio que o antecede, o André partiu em 11.º lugar da grelha e atacava o 5.º lugar quando recebeu um toque de um GT 500 que o atirou para o 12.º. Voltou à luta e quando terminou o seu turno de condução antes de passar o volante a Katsumasa Chiyo, colega de equipa que é acompanhado desde muito cedo pela Nissan, já estava de novo em 7.º lugar. Não é para todos. O GT-R terminou em 6.º. Sem o toque que levou teria chegado ao pódio, atento o seu andamento. O outro carro do Team Gainer Tanax, um Mercedes SLS AMG-GT3 conduzido pela dupla Hiranaka/Wirdheim, subiu ao 3.º posto.

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Com 78 kg a mais no carro, em consequência dos bons resultados anteriores que penalizam os melhores para a corrida seguinte, de forma a que seja mantido o interesse no campeonato, o Nissan GT-R com o número 10 conseguiu um excelente resultado. Com este resultado, o André, que tinha começado a corrida com um ponto de avanço sobre o 2.º classificado, saiu de Fuji 300 com mais cinco, aumentando a liderança no campeonato. A próxima prova é Suzuka e vai ser decisiva. Nunca um piloto português esteve tão próximo de chegar a um título do Super GT. Vamos todos torcer para que esse momento aconteça e esperar que nessa altura, já agora, as televisões nacionais consigam passar imagens dessa prova.

Eram quase 20h quando nos despedimos na estação de Mishima. Ele a caminho de Haneda. Eu de Shizuoka. Depois de um par de dias que nasciam muito cedo e passaram depressa, com muita adrenalina e muito calor. Na minha memória ficaram as felicitações que o André recebeu da equipa, de colegas e de adversários, e o quadro electrónico que a televisão apresentara horas antes. Quadro visto por milhões nos muitos países da Ásia/Pacífico para onde a corrida foi transmitida em directo. 

Os portugueses mereciam conhecer melhor um dos seus melhores. E que é, seguramente, depois de Venceslau de Morais, um dos que mostrando a sua arte mais tem engrandecido o nome de Portugal em paragens tão longínquas.

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Quentes, rápidos e longos (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.08.15

20150808_211956.jpgHá uns meses, pouco depois da inauguração de uma cervejaria de uma conhecida cadeia nacional, com as 21:30 a baterem e na sequência de um jantar ocorrido na semana anterior nesse mesmo local com um grupo de amigos alargado, quisemos repetir a dose na semana seguinte, embora fôssemos somente quatro. Assim que entrámos o empregado olhou para o relógio e a primeira coisa que nos transmitiu foi que não podiam dar-nos de jantar porque a cozinha fechava às 22:00. Um amigo comentou com a sua habitual bonomia e perspicácia que o tipo devia ser o delegado sindical, pelo que imediatamente saímos e fomos jantar à porta do lado. Dias volvidos, os jornais relatavam uma zaragata com o cozinheiro, com facas pelo ar, os empregados em debandada pela rua fora e a polícia a entrar por ali. História semelhante aconteceu-me em Faro, numa sexta-feira, há uns anos, mas aí tivemos melhor sorte do que um grupo de espanhóis que chegou depois de nós. Estávamos em Junho, numa capital de distrito dedicada ao turismo. Não tardou para que chegasse a crise e nessa altura começaram a fechar ainda mais cedo, ao mesmo tempo que se queixavam da governança. Alguns fecharam de vez.

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Lembrei-me disto porque ontem me atrasei a arrumar a papelada e a mandar as habituais mensagens para casa e quando saí do hotel já passava das 23h. Vi duas ou três portas abertas e acabei por entrar numa que me pareceu mais movimentada e acolhedora, exibindo numa pequena mesa um menu com fotografias, o que me facilitava a vida. Duas simpáticas camareiras desfizeram-se numa cantilena de boas-vindas incompreensível para os meus ouvidos, encaminhando-me para uma das salas do estabelecimento decorada com umas lanternas iguais às da fachada. Receoso, perguntei em inglês e gesticulando se me davam de jantar. É claro, estamos cá para isso, foi a resposta. O que quer beber? Já passava da meia-noite e meia, petiscados que estavam uns banais camarões e vegetais de tempura, e despachadas duas Kyrin, quando me lembrei da fotografia do crème brûlée que vira na ementa e quis encerrar a solitária refeição. À saída reparei que a hora de encerramento da cozinha era às 23.30 mas ainda entrou mais um casal quando recebia o troco. Enfim, diferenças.

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Infalivelmente, às seis da matina, tocaram o despertador e o telemóvel, que por aquelas bandas não há serviço de despertar na recepção. Pelo que, ainda mal refeito da chinfrineira das cigarras durante toda a noite, que nem o ar condicionado do quarto abafava, e de tal forma que cheguei a pensar serem pássaros noctívagos ou com as horas trocadas, a muito custo levantei-me. O jet lag ficará para outra altura. Havia que me pôr ao caminho. Primeiro o comboio até Numazu, depois a mudança de linha até Gotemba, onde pela primeira vez, depois de várias tentativas, consegui vislumbrar em toda a sua plenitude os 3776 metros do Fuji-san, desde 2013 declarado património mundial. Sem nuvens, mas também sem neve para grande desconsolo. Só um farrapo sobrava na vertente sul. 

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Há muito que sonhava em fazer esta viagem. Quando em 1976, o título mundial de Fórmula 1 se discutiu na lendária pista de Fuji, num duelo em péssimas condições atmosféricas entre Nikki Lauda e James Hunt, que viria a dar o título ao segundo depois de uma corrida em que acabou em 3.º lugar, jurara a mim mesmo ir um dia ir a Fuji, num dia grande. E esse dia surgiu quando vi o calendário do campeonato japonês de Super GT. Havia a alternativa de ir a Suzuka, no final do mês, mas a perspectiva de poder acompanhar em Fuji o actual líder do campeonato não me permitiu pensar duas vezes. Com o segundo lugar obtido na corrida de Buriram (Tailândia) só havia uma hipótese: é para Fuji e é já.

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Depois de recolhido o meu passe junto ao West Gate do Fuji Speedway, e de uma volta rápida pela parte principal do circuito, junto à bancada principal, onde estão expostas as novidades, se vende de tudo e há animação e sessões de autógrafos das novas estrelas, as meninas ao serviço das marcas, vestidas (ou despidas) a rigor, e que têm direito a atenção própria, fui à procura do meu "anfitrião", a quem devo a generosidade de, tendo sabido da minha deslocação e interesse no Super GT se prontificou de imediato a dar-me preciosas indicações e a tratar do mais importante: a minha liberdade de circulação e visão integral do evento. Pelo caminho reparei na quantidade de famílias completas – avós, pais e filhos, alguns ainda nos carrinhos de bebé – que se iam instalando, desde muito cedo, montando tendas e cadeiras, preparando os canhões fotográficos, num espectáculo como há muito não via, habituado que estava ao desolador deserto das pistas portuguesas. Quando em Maio passado soube que na prova que aqui se disputara tinham estado mais de 90 mil espectadores, ou seja, mais 40 mil do que na prova idêntica em SPA Francorchamps (Bélgica), perdi as poucas dúvidas que ainda poderia ter sobre a grandeza do Super GT. Como então alguém escreveu, “é Super GT por alguma razão”!  

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Convém dizer que o campeonato de Super GT, criado inicialmente em 1994 com o nome de All-Japan GT Championship, viu as suas regras técnicas serem unificadas com as do DTM em 2014. Actualmente, os seus carros da categoria 500 são mais rápidos do que os do campeonato alemão, pelo que será aceitável dizer-se que é o mais competitivo campeonato de carros de GT (Grand Touring) do mundo. Com duas classes, uma de 500 e outra de 300, para se perceber o grau de competitividade bastará verificar que é normal haver mais de uma dezena de carros a fazerem tempos por volta dentro do mesmo segundo, isto é, com diferenças de milésimos. Este sábado, na classe GT 500, houve dez carros a rodarem com diferenças por volta inferiores a um segundo, e na classe GT 300 foram 13. Basicamente, os GT são carros de grande potência, capazes de rodarem a alta velocidade em longas distâncias, razão pela qual há corridas de 300, 500 e 1000 KM, com dois ou três pilotos por carro e muito movimento nas boxes. Estão lá todos os maiores construtores japoneses (Lexus, Toyota, Honda, Nissan e Subaru), mais alguns europeus (Mercedes, BMW, Porsche, Audi, Lamborghini, Lotus e Ferrari), entre equipas de fábrica, oficiais, semi-oficiais e privados. As equipas são todas profissionais, a tecnologia é a mais desenvolvida que se possa imaginar, com directores de equipa e patrões que foram antigos pilotos de Fórmula 1, de carros de turismo e de protótipos, encontrando-se por vezes na mesma equipa duas gerações da mesma família. Nomes como Nakajima, Suzuki (Yutaka e Aguri), Kondo, Hoshino ou Noda são habituais nestas andanças. E ao contrário do que se possa pensar, o Super GT não tem só participantes japoneses. Neste momento também correm regularmente italianos – Quintarelli e Caldarelli -, alemães – Jorg Muller, Michael Krumm, Christian Mamerow –, ingleses – Rossiter e Oliver Turvey –, um belga – Bertrand Baguette, um finlandês – Heikki Kovalainen –, um suíço – Alexandre Imperatori –, um sueco – Bjorn Wirdheim, um brasileiro – João Paulo de Oliveira – e, last but not the least – o português André Couto, que corre sob bandeira de Macau, por razões perfeitamente compreensivas e que mais adiante veremos, mas que continua a ser identificado como piloto nacional. O catálogo oficial não enganava pela bandeira colocada à frente do seu nome, bandeira que não é a que ele transporta no carro nem no seu fato de competição.

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O programa incluía ainda uma corrida da Porsche Super Cup e outra de Fórmula 4, mais os respectivos treinos, sendo que a segunda se trata de uma fórmula de promoção de jovens pilotos, colocada no patamar logo a seguir ao karting, com veículos de fabrico local em que a maior parte dos componentes são ainda em alumínio e não em carbono ou de outro material mais sofisticado. Depois de terem andado a importar carros de outras latitudes, os japoneses e a sua poderosa indústria automóvel optaram por criar uma fórmula local que está a ser um êxito.

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O enquadramento do circuito é fabuloso, em plena comunhão com a natureza e com um traçado que me fez recordar a nossa magnífica pista de Portimão.

Feitas as apresentações e passada uma primeira vista de olhos pelos carros, circuito e instalações, onde ressaltava a boa organização, o rigor no cumprimento dos horários e a forma como tudo se encaixava e evoluía, pude então começar a ver as coisas com mais atenção.

20150809_122038.jpgDurante todo o dia de sábado acompanhei os treinos do Super GT com a equipa Gainer Tanax GT-R, aquela onde corre o homónimo do nosso companheiro daqui do Delito de Opinião, e que foi a razão maior da minha deslocação a Fuji. É que o André Couto é o líder do campeonato japonês de Super GT 300. Há algumas semanas, um outro piloto nacional que tem mostrado a sua classe nas pistas europeias, venceu uma prova do campeonato alemão DTM. Não foi um escândalo porque o António Félix da Costa tem muita categoria. De outra forma não estava lá, como também não estaria o André na Gainer. Mas agora imaginem o que seria se um português fosse à quarta prova o líder do DTM correndo num carro de uma equipa semi-oficial. Pois bem, salvaguardadas as distâncias, é o que neste momento acontece no Super GT 300. Sobre isso e André Couto deixarei aqui umas linhas noutra altura. Até lá ficam algumas imagens do Super GT.

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Quentes, rápidos e longos (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.08.15

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É sempre estranho chegar a locais que não são conhecidos pelo frio de rachar ou calor de morrer que por lá costumam fazer, como foi o caso, e sentir que tinha acabado de entrar numa estufa. Já antes sentira calor em Tóquio, mas chegar ao Aeroporto de Narita, num final de tarde, com 38.º Célsius e a sensação de mais de 40.º era para mim algo de inimaginável. Mas aconteceu. Tirando isso, regressar ao Japão é sempre motivo de satisfação. Pela simpatia desse povo, pelo seu altíssimo grau civilizacional e pela beleza das suas paisagens.

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Desta vez ia com um propósito bem definido, e embora com tempo limitado teria de aproveitar os 4 dias em que por lá estaria para me aperceber de eventuais mudanças que entretanto tivessem ocorrido desde a minha última viagem, há 15 anos. A minha chegada ocorreu no dia seguinte àquele em que se completavam 70 anos sobre o lançamento da primeira bomba em Hiroshima. Desta vez não fui até esta cidade, tendo-me limitado a fazer o percurso de cerca de 200 quilómetros entre Tóquio a região do Fuji, no município de Shizuoka.

Logo à chegada, verifiquei que o asseio e a organização eram os mesmos de sempre. Apesar de num espaço de tempo curtíssimo terem aterrado uma dúzia de aviões, não estive mais de quinze minutos para me desenvencilhar das formalidades do passaporte. É claro que viajando sozinho, com um documento de viagem europeu e praticamente sem bagagem, fui convidado a esclarecer no controlo alfandegário o que ia lá fazer e a mostrar a minha, não fosse eu, com a minha tez estival a dar ares de marroquino, ser um perigoso bombista ou traficante. Sempre com simpatia, educação e desmesuradas desculpas pelo incómodo. Assim que se apercebeu das minhas intenções, o funcionário imediatamente me arrumou a bagagem, ao contrário do que noutros países sucede em que depois de tudo desarrumarem despacham o viajante de mala ainda aberta, com os pertences desalinhados e não raro espalhados pela bancada, ao mesmo tempo que me desejava uma boa estadia.

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Segui então o meu caminho, coisa fácil num país cujo sistema de transportes, públicos e privados, continua a merecer a minha admiração. Numa cidade de milhões em que jamais me perdi e não há papéis pelo chão, nem beatas, embora continue a haver fumadores e se possa fumar nos restaurantes, por sinal todos com excelentes extracções de fumo e de onde não se sai a cheirar a fumo ou a fritos, nem incomodado pelo tabaco do vizinho, continua a ser um prazer utilizar os seus transportes. Continuo a pensar que pela organização, a higiene e os modos no trato se vê o alto nível civilizacional de um povo. E nisto os japoneses são exemplares. Quando me recordo do espectáculo de algumas casas de banho do Alfa Pendular, logo à saída de Faro, ou das reclamações que tive de fazer na Portela e em áreas de serviço das auto-estradas portuguesas em razão da falta de higiene das casas de banho, uma pessoa não pode deixar de pensar no nosso endémico atraso perante instalações que servem diariamente milhares de utentes mas onde não faltam dispensadores automáticos de sabonete líquido, com conteúdo, onde tudo brilha e funciona e não se sente nojo em entrar. Este nível cívico reflecte-se nas carruagens dos comboios, nas paredes das suas estações de comboios, edifícios e monumentos, onde não se vê um grafito. E, no entanto, são milhares e milhares de jovens, com ar asseado, desprendido e descontraído, sorridentes, alguns muito compostos nos seus uniformes, elas de minissaias muito curtas, orgulhosas na sua elegância, outros com o cabelo pintado de louro, com madeixas azuis ou verdes, a caminho das escolas ou de instalações desportivas, com os seus sacos, as suas raquetes de ténis – a nova loucura da juventude japonesa estimulada pelos êxitos de alguns dos seus nos circuitos do ATP –, bolas de futebol e equipamentos de basebol. Uns conversando, outros ouvindo música, ou divertindo-se com os seus smartphones do último grito.

Gente composta, gente que fala em tom moderado, gente que sabe comportar-se, seja na fila do autocarro ou nos apertos do comboio, gente disponível, apesar de nem sempre parecer muito aberta e de muitas vezes, em especial fora das regiões mais desenvolvidas e com maior afluxo de turistas, não dizer uma palavra de inglês.

O caminho até Shizuoka, no Hikari 539 com destino a Nagoia, uma verdadeira bala da última geração de comboios, e depois para Shimizu, devido ao facto de não haver em Gotemba um quarto disponível há várias semanas, num comboio suburbano tão cheio quanto o TGV deles, passou num ápice. Sempre à tabela, num estado democrático.

No meu destino, já com menos uns graus do que aqueles que encontrara em Tóquio, fui para o hotel. Recebido pelo meu nome próprio e um sorriso de orelha a orelha num modesto mas muito decente hotel de província, com todo o conforto de que um viajante precisa, rumei ao meu quarto. Era altura de tomar um duche e preparar o dia seguinte, que se previa longo, antes de poder iniciar a aventura do jantar e começar a respirar o ar puro da região.

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Recado de Rua

por Francisca Prieto, em 18.07.15

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             Lima, Peru. Julho 2015.

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