Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Viagem a Israel (8).

por Luís Menezes Leitão, em 02.01.20

1.jpg

2.jpg

3.jpg

4.jpg

 

É interessante em Belém a visita à Basílica da Natividade. A Basílica teve a sorte de ser poupada à destruição dos lugares santos pelos persas, ao que consta, porque viram que um dos Reis Magos tinha um turbante persa. A porta de entrada está reduzida em relação ao que era na época das cruzadas e na época bizantina para não deixar entrar invasores montados a cavalo. Lá dentro encontram-se três igrejas, Arménia, Católica e Ortodoxa e a gruta onde segundo a tradição terá nascido Jesus Cristo, lugar onde só se acede depois de aguardar horas na fila. Historicamente é pouco credível o nascimento de Cristo em Belém, que fica a 200 km de Nazaré. A deslocação é explicada pela necessidade de obedecer a um censo, mas o censo de Quirino só teve lugar em 6 d.c., vários anos após o nascimento de Jesus. Mas era importante para se cumprirem as profecias o seu nascimento na cidade do Rei David, e ainda hoje é lá que o mesmo se assinala.

Viagem a Israel (7).

por Luís Menezes Leitão, em 01.01.20

1.jpg

2.jpg

3.jpg

4.jpg

 

Manhã de ano novo passada em território da Palestina. Separada de Israel por um gigantesco muro a fazer lembrar o de Berlim, esta mantém colonatos judaicos neste território. Dois povos vivendo completamente de costas voltadas num território tão pequeno.

Viagem a Israel (6).

por Luís Menezes Leitão, em 01.01.20

1.jpg

2.jpg

3.jpg

4.jpg

 

Em Nazaré vale a pena ver a Basílica da Anunciação, construída sobre o lugar onde, segundo a lenda, Maria terá recebido a visita do anjo Gabriel e que como tal é venerado pelos cristãos desde o século I. Em latim surge a frase “verbum caro hic factum est”: Aqui o verbo se fez carne. A Basílica recebe imagens de Maria vindas de todo o mundo não faltando sequer uma de Fátima.

Viagem a Israel (5).

por Luís Menezes Leitão, em 31.12.19

1.jpg

2.jpg

3.jpg

4.jpg

5.jpg

 

Subida ao Monte das Bem-Aventuranças onde, segundo a lenda, Cristo terá proferido o sermão da Montanha. Curiosamente a paisagem é verde, como todo o Norte de Israel, ao contrário da representação habitual desta cena nos filmes. Por todo o lado surgem estes versículos, de enorme beleza literária. Mas é especialmente curioso encontrar este texto como agradecimento pelo salvamento de centenas de milhar de refugiados vietnamitas, que fugiram de barco após a invasão de 1975. Faz-nos recordar os migrantes que todos os dias arriscam a vida nas águas do Mediterrâneo às portas da Europa.

Viagem a Israel (4).

por Luís Menezes Leitão, em 30.12.19

1.jpg

2.jpg

3.jpg

4.jpg

 

A norte de Haifa encontra-se Acre, a cidade conquistada a Saladino por Ricardo Coração de Leão que depois a entregou à Ordem dos Hospitalários. Uma fortaleza imponente onde a memória dos Cruzados se encontra presente. Mas a fraqueza dos Cruzados está patente na célebre mensagem que Ricardo Coração de Leão dirigiu a Saladino, desejando uma batalha breve pois pretendia ir passar o Natal no seu país. Saladino respondeu que não se preocupava com esse assunto pois estava no seu país, onde iria passar o ano todo e os anos seguintes se fosse necessário. Uma vitória com tropas estrangeiras é sempre efémera. Mas fica para a eternidade o registo da sua passagem por esta terra.

Viagem a Israel (3).

por Luís Menezes Leitão, em 30.12.19

1.jpg

2.jpg

3.jpg

4.jpg

 

Impressionante a vista de Haifa a partir do Monte Carmelo, onde se encontra um mosteiro que simultaneamente presta culto ao Profeta Elias e a Nossa Senhora do Carmo. Mais à frente encontram-se os jardins que servem de santuário à Fé bahá’i, uma religião monoteísta de origem persa. Mais uma vez a enorme diversidade religiosa deste país. Na primeira fotografia vê-se o Líbano ao fundo.

Com a casa às costas - 1

por Maria Dulce Fernandes, em 28.12.19

21655094_j1YBC[1].jpg

 

Depois da Grande Viagem, o pai tomou o gosto pelos longos passeios, mas sem ser rico e com um agregado familiar de cinco pessoas, um cão e um cágado, era difícil marcar férias num resort à beira-mar ou num paraíso na montanha.
Tivemos o primeiro contacto com o campismo quando uma amiga da mãe deixou a tenda montada no Parque de Campismo da Foz do Arelho, para que pudéssemos usufruir de uns dias. Completamente ignorantes do conceito (e de tudo o resto), fizemos uma data de asneiras, mas é assim que se aprende. Aprendemos e gostámos tanto que voltámos nos anos seguintes, claro está melhor equipados.
A família em Amstelveen, quando veio a Lisboa de férias, trouxe consigo uns amigos holandeses, que se fizeram acompanhar de uma tenda nova, com três quartos, cozinha e avançado, que seria nossa sem necessidade de desalfandegar. Truques daqueles tempos.
Tínhamos como contrapartida uma tenda de dois quartos e sala preparada no Parque de Campismo da Costa da Caparica a pedido da família, e uma grade de cerveja Sagres para o Johann, que a bebia em todo o lado, fosse a dormir, no banho ou até mesmo às refeições, alternando com bom tinto português.
Eram alegres, musicais e despreocupados, recusando os “luxos" campistas que a mãe tinha instalado na tenda da Costa, pois não pretendiam sequer cozinhar. Este facto de os alemães e holandeses não serem dados a cozinhados, fomos constatando ao longo dos anos, principalmente quando estávamos de visita ao meu irmão em Geilenkirchen e a minha mãe fazia sopa. Sempre nos acharam complicados e trabalhosos com as refeições, mas apareciam sempre na hora de jantar.
Com a tenda que a família do Johann trouxe, passámos a campistas de segunda categoria no Parque de Campismo da Foz do Arelho. Não podíamos, claro, competir com a Lila e com o Rui, família afastada da Bela e do Fernando Pinto (grande virtuoso da guitarra portuguesa), os vizinhos e amigos do primeiro esquerdo da casa de Belém, porque eram veteranos do rio e da terra.
O Rui, filho do dono da Pensão Cristina nas Caldas da Rainha, onde ficámos algumas férias, tinha barcos e sabia tudo sobre o Arelho, sobre passar “a aberta" e navegar no mar. Sabia também como apanhar amêijoa no “lado de lá" . Munidos de um balde, prescutávamos o areal molhado em busca de dois furinhos próximos e aí enterrávamos a pá e com torção de alavanca fazíamos sair amêijoas, lambujinhas ou berbigão que guardávamos no balde, para depois serem despejados no grande alguidar e escolhidos para serem saboreados por todos.
Entre os “todos", estava o Tino. O Tino era um cromo. Entertainer no mundo do espectáculo, bom amigo do Pinto e da Bela e casado com a Nocas, era o cómico de serviço. Não havia ninguém na Foz do Arelho que à sua presença, não esperasse uma tirada tragicómica, como cavalgar uma vassoura pelo pontão de madeira com um balde na cabeça  e um garrafão vazio na mão, recitando Shakespeare em plenos pulmões e mergulhar de seguida no Arelho com grande espalhafato. Sempre pensei ser da sua autoria o bordão da carcaça e do garrafão de vinho.

Quando não apetecia cozinhar,  bastava agarrar um tacho grande e subir a rampa da FNAT. 

Não havia monotonia. Os domingos eram os dias mais aborrecidos devido à invasão de “leopoldos" com farnéis e rádios de pilha para ouvir o relato do futebol. Eram dias tristes também, porque invariavelmente o Arelho reclamava uma vida, aquela do incauto que, contra todos os avisos, se aventurava mais fundo no leito lodoso e não conseguia sair. Com os mirones a emparedar a desgraça, os bombeiros acabavam por retirar a vítima de afogamento, mas quase sempre demasiado tarde.
Foram anos bons. De longas férias, nas quais o tempo era pachorrento e dava tempo para toda a indolência do mundo. Ler, dormir, amalucar, viver sem medos.
Sempre que faz trovoada, recordo com ternura a imprudência e despreocupação da juventude que continuava a saltar daquele pontão de madeira num espalhafato de espuma e de água, entre gritos e trovões.

Viagem a Israel (1).

por Luís Menezes Leitão, em 27.12.19

Se há coisa que impressiona na velha Telavive (Jaffa) é a diversidade religiosa. Logo atrás de uma mesquita aparece a Igreja de São Pedro, uma igreja católica franciscana, que representa a visão de Pedro, de que os cristãos poderiam comer quaisquer animais, deixando de estar sujeitos às interdições alimentares judaicas. Mais abaixo surge a casa de Simão, o curtidor, que se diz ser o lugar onde Pedro terá tido essa visão. A missa na Igreja está a ser celebrada em indonésio para visitantes desse país, o que ainda torna mais cosmopolita este lugar.

1.jpg

2.jpg

3.jpg

Em viagem - Parte 4

por Maria Dulce Fernandes, em 22.12.19

22962.jpg

Depois do rio de lágrimas que é tão típico das despedidas, num dia tão nublado como o nosso estado de espírito, voltámos à Variant para começar mais uma etapa da grande aventura dos cinco, que na realidade éramos seis.

Desta vez, “quitado" com alguns gadgets avant garde que adquirimos na Alemanha e na Holanda, tais como uma capa impermeável adaptável, própria para porta-malas de tejadilho, o trisavô do funcional porta-sogras que substituiu a lona, e uns ganchos “aranha” que se prendiam aos ferros e seguravam malas e outras tralhas no lugar, e que substituíram as cordas tornando o manuseamento da bagagem mais funcional e elegante; já parecíamos então turistas a sério!

Claro que o problema das fraldas do menino foi imperativo durante a viagem de ida, com muitas bandeiras da paz a despontar da janela do pendura durante toda a vigem. Muito mais avançadas, as crianças alemãs, holandesas e francesas já utilizavam fraldas descartáveis, as célebres couches, produto de luxo para nós, mas eficaz  e acessível, e que nos proporcionou uma volta muito mais tranquila e turística.

Então, através das maravilhosas autoestradas, partimos de Solingen rumo a Paris, onde chegámos já de noite.

Uns colegas do pai tinham-lhe indicado um “hotelzinho simpático" na Rue de la Paix. Tanta menina bonita e colorida, tanta beijoca e tanta festinha ao bebé. O pai sempre com um caloroso sorriso afivelado. A mãe abanava a cabeça, conformada, mas a tia Eugénia estava possessa. Que raio de hotel foi o pai arranjar? E com crianças na cáfila, caramba. O pai recomendava calma, que o hotel era limpo e que era apenas uma noite. De resto, a arraia-miúda não estava nem aí para tanto sururu, apesar de convir que os múltiplos sons de gritos, risos e  constantes águas  correntes que atravessavam velozes as paredes acromáticas, eram no mínimo bizarros.

Saímos para comprar mantimentos e voltámos com as compras do rol que a mãe e a tia Eugénia tinham preparado e que, como não podia deixar de ser, continha pão. Comprámos uns curiosos, finos  e muito aprumados pães compridos chamados baguettes, que os locais transportavam alegremente debaixo do braço sem qualquer protecção. Talvez o avô do pão com sabores? Nunca o saberei

O pai ficou febril. Como era o único que conduzia, resolveu na manhã seguinte percorrer o máximo de estrada possível antes que alguma gripe que estivesse à espreita o atacasse em força. Saímos bem cedo e, parando sempre que necessário naqueles lugares maravilhosos chamados áreas de serviço, chegámos a Bordeaux à hora de almoço. Nem mesmo os meus dotes linguísticos em francês ajudaram a decifrar o menu do restaurante. Sopa e pezinhos de coentrada. Toca a comer e a tentar gostar, porque depois só pararíamos para jantar, com sorte, em San Sebastián. Então foi um toca a encher, fazer papo e preparar para arrancar. Foi então que serviram os frangos! Dois. E grandes. Mas… mas… mas… estávamos cheios de sopa, porco, batatas e pão! Ninguém conseguiria comer frango, caramba! A tia Eugénia, no seu proverbial pragmatismo, sentenciou logo que as aves ali não ficavam. Então toca de sacar de um saco da sua enorme saca de senhora, ensacou os fragos e zumba, saca com eles sob o olhar reprovador do pai, a quem aquele tipo de situações  deixavam grandemente embaraçado.
A verdade é que piquenicámos um supimpa jantar de frango num quartinho arejado e com uma soberba vista para o mar do Golfo da Biscaia, já em San Sebastián, depois de uma breve paragem num Biarritz de brilho embaçado pelas muitas nuvens que corolavam um céu cor de chumbo.
Na manhã seguinte, e com o pai a não apresentar grandes melhoras, a trupe fandanga, já um tanto saturada, assumiu os seus lugar na Variant para regressar à pátria-mãe.
Chegámos a Ciudad Rodrigo pela tarde e preparámo-nos para pernoitar. Dia de “tarde livre" para a tradicional aquisição de caramelos, torrão, chocolates, leques, mantilhas e outras coisas desnecessárias com que nuestros hermanos tanto nos fascinavam. Aprendemos também ali que sopa de judias é apenas feijão verde cozido e que as cañas em nada contribuem para tratar constipações.

No outro dia, de manhãzinha bem cedo, partimos non stop até Lisboa. Como em todas as etapas dos percurso de ida e do percurso de volta, rimos e cantámos de tudo um pouco, mas principalmente as canções da vida do meu pai, constantes no seu LP favorito da Música no Coração.
Chegámos a casa ao final do dia. Cansados mas satisfeitos, com a bagageira cheia de novidades estrangeiras e experiências fabulosas, que contávamos a cinco vozes em todas as reuniões sociais e familiares e que ainda hoje dois de nós recordamos, quase sempre com um olhar demasiado brilhante.

Em Viagem - Parte 3

por Maria Dulce Fernandes, em 20.12.19

mvpwr0cw61cwshlgvzxj.jpg

 

Com o quartel-general estabelecido em Soligen, iniciámos um périplo pela Renânia do Norte: Wuppertal, Düsseldorf, Colónia...  

A catedral de Colónia era imponente, maravilhosamente talhada na margem do Reno, com pores-do-sol do mais espectacular a que já assisti. Voltei lá em 1993; grande desapontamento o meu. É certo que quando somos mais pequenos as proporções mudam e tudo parece diferente aos nossos olhos, mas a catedral dos meus encantos não me pareceu grande de todo, apenas algo mais escura e mais alta, que se destacava no aglomerado de betão da paisagem urbana da cidade de Colónia. 

Uma manhã, o pai madrugou com uma ideia brilhante:  Então e que tal irmos almoçar a Amsterdam? Foi um toca-a-correr e a cáfila embarcou na Variant com a tralha às costas em direcção  ao norte, rumo a Amstelveen, onde outros familiares nos aguardavam ansiosos. 

Deslizando pelas fantásticas auto-estradas alemãs, a viagem de pouco mais de duas horas fez-se em três horas e tal, atendendo à quantidade de tralha e à população da Variant plus one. 

Como todas  viagens de automóvel, foi estopante... mas se valeu a pena? Claro que sim!! Elevada à enésima potência! A Holanda é um país bucólico, lindo, verde, florido, os moinhos são idílicos. E tem queijos fantásticos. O Gouda continua a ser um dos meus preferidos. 

A sério que nunca tínhamos visto tanta bicicleta junta. Muitas até cestinho para cão tinham, caramba! Caminhar pela beira dos canais sim, mas com muita atenção para não ocuparmos a ciclovia, porque os holandeses são rápidos e furiosos.

E no final apoteótico dum dia em grande, a população da Variant bem equipada para as agruras do  inverno no Mar do Norte, numa tarde soalheira dos idos de Setembro de 1970, com as calças arregaçadas até ao joelho, chapinhava nas águas geladas de Zandvoort, a comer arenque cru (que os indígenas ingeriam deitando a cabeça para trás e deixando deslizar inteiro para dentro da boca!), mexilhões, batatas fritas e maionese, com palitos de forquilha encimados por bandeirinhas holandesas a esvoaçar ao vento do Ártico, e gelado de mirtilo em pequenos copos de papel, deitados na areia ou sentados nuns cestinhos de verga com banquinhos dentro. 

Tendo  o frio como desculpa, os mais velhos perderam-se pelas noites do Dam, enquanto a população miúda se resignou a ficar em casa a assistir a desenhos animados non-stop do Tom & Jerry , dobrados em flamengo e a preto e branco, mas caramba! nós por cá tinhamos o Popeye, o Manda-Chuva, os Filintstones, o Zé Colmeia e pouco mais, e só ao domingo.

Foi a noite da luz vermelha, ideia que nos remetia de imediato para o sarampo, mas que foi deixada no limbo das coisas que eram tabu para as criaças de antes da revolução dos cravos. Foi seguramente um conceito de que só entendemos o significado mais de dez anos depois, mas naquela noite éramos apenas uns Hans Brinker, desolados e sós, com o dedo no botão da tv num bairro de funcionários da KLM junto ao Rio Amstel à espera que algum adulto viesse em nosso auxílio e nos desse permissão para crescer.

Em Viagem - Parte 2

por Maria Dulce Fernandes, em 17.12.19

 

Becks.jpg

 

Solingen, perto de Colónia, na Alemanha, era em 1970 uma pequena cidade conhecida como a “Cidade das Lâminas”, fama que granjeou pelos artefactos em aço que produzia, com um sem número de  aplicações várias. Übenstrasse era o Restelo lá do sítio: casinhas graciosas, com jardinzinhos mimosos e floridos, baloiços, gnomos e casas para pássaros. A Line , formada em Germânicas, trabalhava no seu mestrado e também como au pair. Por essa altura, a Frau Engelhardt  estava num cruzeiro  e assim, com seu consentimento, ocupámos as premissas. 

Sempre dados a ambientalismos, os alemães faziam limpezas periódicas à canalização urbana, alturas essas  em que o depósito de água constante em cada casa e sempre higienizado, era cheio por camiões-cisterna para se poder proceder às desinfecções das condutas sem afectar a população que era avisada atempadamente e  também relembrada telefonicamente pelos respectivos serviços  no próprio dia, cedo pela manhã. 

Pois que nós fluentes poliglotas, que de alemão só sabíamos dizer ja e aufwiedersehen, depois de não conseguirmos decifrar o teor do primeiro telefonema, resolvemos algumas ligações depois e por unanimidade,  deixar o telefone fora do descanso. Só quando a mãe reparou que a água estava  apenas a gotejar na torneira é que começámos a associar as ideias, mas já era muito tarde. 

Eu, o pai,  o mano  e a tia propusemo-nos ir ao supermercado e trazer garrafões de água, enquanto a mãe ficava a tratar do menino.  Lá partimos com uma lista de produtos encabeçada pela desejada água, rumo ao supermercado. Claro está que  cirandando por ruas quase iguais, perdemo-nos em todas as esquinas. Chegados junto a uma escola, era ver a Tia Eugénia com o dicionário na mão a chamar os meninos, ao mesmo tempo que apontava “Kartoffel” no dicionário e vocalizava “Hum? Hum?” O meu pai sorria, divertido. O meu irmão ria também. Eu fazia de conta que não era dali... 

A verdade é que a Tia se fez entender muito bem e que nos levaram a um mercadinho no meio de gargalhadas e cantorias.  Aquela rapaziada... foi um fartote de risota. 

Cada um com um saco de papel e um garrafão na mão ao melhor estilo português, regressámos a casa, voltámos perder-nos uma e outra vez, mas não nos passou pela cabeça o quadro que encontrámos à chegada. 

A grande questão é que, como em tudo na vida, só sentimos realmente a falta de algo simples e que consideramos básico no nosso dia a dia quando esse algo de repente nos falta: a mãe estava morta de sede e não havia gota de água em casa. O pai antes de sairmos, propôs que tomasse dois golos  de cerveja. Assim fez. 

A imagem ficou gravada a fogo na nossa memória colectiva: o bebé chorava a plenos pulmões e a mãe também, meio sentada meia de gatas, no fundo da escadaria, sem conseguir encontrar maneira nem força para a subir… O susto foi grande até termos identificado o culpado, uma garrafa vazia de Beck's  junto aos lava-loiças, da qual, segundo a mãe, tomou dois ou três golos apenas, tendo  a restante birra sido "entornada" pelo Satchmo, o Cocker Spaniel negro da Frau Engelhardt.

No fim do dia, já recomposta do susto, a mãe foi presenteada por todos com o seu próprio garrafão de cinco litros de água e... seis garrafas de cerveja. A relação da mãe com a cerveja nunca mais foi pacífica, mas honestamente, o Satchmo era mesmo bom de birra.

Livros que inspiram viagens (2)

por Paulo Sousa, em 15.12.19

No meu texto anterior sobre livros que inspiram viagens fiquei de contar um episódio ocorrido no Montenegro, ou Crna Gora, como os locais o identificam. Aqui vai ele.

Entrámos neste país vindos da Bósnia e logo à chegada fomos surpreendidos com uma bandeira da União Europeia afixada numa parede do posto de fronteira. Interpretamos como sendo um sinal por parte dos montenegrinos relativo a que bloco político e económico desejam pertencer, o que é especialmente significativo após a sua cisão da Sérvia em 2006, e essa sim tem memórias recentes suficientes para ser anti-NATO, e pró-russa.

Três quartos dos montenegrinos são cristãos ortodoxos. Os restantes são católicos e muçulmanos. Os católicos residem principalmente no litoral, facto que não se pode desligar da proximidade de Itália, nomeadamente da República Veneziana.

Kotor foi classificado Património Mundial pela UNESCO e é um sítio a visitar pelo menos uma vez na vida. A cidade amuralhada ao fundo da segunda baía tem uns traços da medievalidade de Óbidos mas junto à água e rodeada de montanhas. Tem todos os ingredientes para justificar a quantidade de cruzeiros que a visitam e manobram dentro da baía.

A Capela de Nª Senhora das Rochas, construída numa ilha que não é mais que uma imensidão de pedras transportadas pelos marinheiros devotos, é um local único.

 

21645795_MLMVM[1].jpg

 

A ilha-hotel de Svety Stefan, ligada ao continente por um passadiço, foi visitada ao longo do sec XX, após a “negociada expulsão” dos pescadores que lá habitavam, por inúmeras estrelas de renome mundial.

Podgorica, a antiga Titograd, é a maior cidade do país. O esforço nos melhoramentos é visível. Viajámos após o anoitecer entre Podgorica e Kotor e a estrada era um estaleiro de obras ao longo de quase toda a sua extensão.

A antiga capital do reino do Montenegro é Cetinje. Tem actualmente um décimo da população da capital, mas é o seu centro histórico e religioso. Foi o refúgio seguro contra o poder otomano vindo do interior e os venezianos que dominavam o litoral. Lenda ou facto, os gradeamentos presentes por toda a cidade foram fundidos com canhões capturados aos otomanos.

De forma a fugir à inflação recorde do dinar sérvio, os montenegrinos adoptaram o marco alemão em 1999, ainda antes da secessão da Sérvia. O euro, tal como para nós, chegou naturalmente em 2002.

No censo de 2003, pouco mais de 40% da população declarou ser de etnia montenegrina. Assumiu a etnia sérvia cerca de 30%. Outros inquéritos apresentam resultados diferentes e a explicação resulta da prática religiosa uma vez que, segundo a Igreja Ortodoxa Sérvia, todos os seus membros são de etnia servia. Entretanto, a Igreja Ortodoxa Montenegrina foi restaurada e esta rejeita a associação automática dos seus fieis à identidade sérvia.

O livro que vale a pena ser lido antes desta viagem é, afinal, apenas uma parte do Reinos Desaparecidos de Norman Davies, onde constam alguns dos detalhes que aqui transcrevo mas, além deste, muitos mais sobre a história deste país que foi o único que entrou na Primeira Guerra Mundial do lado dos Aliados e que acabou por perder a sua independência.

Depois de ler vários relatos unânimes sobre a beleza natural deste país, a expectativa era grande e logo desde o início, confirmada. É de facto uma joia que vai sendo muito lentamente descoberta. A travessia do Parque Natural de Durmitor foi memorável, sem menorizar o desfiladeiro do Rio Tara, o maior da Europa, e a incrível baía de Kotor.

 

21645799_sPr8B[1].jpg

21645801_IhtS9[1].jpg


A estória que fiquei de contar começa quando chegamos a Podgorica e começamos à procura de uma rede wi-fi onde pudéssemos procurar uma estadia para esse dia.

Ser a maior cidade do país não faz dela uma grande cidade. Conversámos entre nós que era como se Leiria de repente passasse a ser a capital de um país e tivesse de receber todos os serviços inerentes a isso. Algumas embaixadas localizam-se em blocos de apartamentos quase serôdios e as poucas avenidas encontram-se forradas com bandeiras vermelhas com a bizantina águia das duas cabeças.

Uma sequência de restaurantes e cafés pareceu-nos um sítio provável para encontrar internet. A paragem foi curta pois, recorrendo a uma popular aplicação informática, logo encontramos uma promoção dentro das muralhas de Kotor. Vinte e poucos euros para quatro adultos junto ao centro, não se pode pedir mais (ou menos!).

No regresso ao carro... Encontrámos apenas o local onde o tínhamos estacionado! Olhámos incrédulos uns para os outros e verificámos várias vezes se estávamos a procurar no sítio certo. Não havia dúvida; o carro tinha desaparecido! A viagem estava a correr bem e a sorte tinha virado.

Regressámos ao café onde tínhamos estado e contámos o sucedido. Perguntámos se era habitual roubarem carros, ao que nos responderam que naquela rua apenas a Polícia os fazia desaparecer. E eram rápidos.

Lembrámo-nos de que, quando começámos à procura de estacionamento, nos deparámos com um sinal de estacionamento proibido, mas com a indicação horária em que se aplicava. Por não dominarmos a língua servo-croata não entendemos se queria dizer algo como “das 10h às 20h” ou “excepto das 10h às 20h”. A dúvida sobre se poderíamos estacionar ou não, foi dissipada ao vermos várias dezenas de carros ali estacionados.

O nosso tinha sido escolhido no meio dos outros.

No café disseram-nos que, para o recuperarmos deveríamos ir à entrada da cidade, junto a um pavilhão desportivo, onde ficava o parque dos carros rebocados. Escreveram-nos uma nota para mostrar a um taxista e lá fomos nós.

O taxista quando viu a indicação escrita começou logo a rir-se de nós e num tosco inglês disse-nos que em Podgorica só a Polícia é que fazia desaparecer carros.

Chegámos ao parque e dirigimo-nos ao posto da polícia.

Ninguém falava inglês e um dos polícias presentes fez uma chama telefónica para alguém a quem podíamos explicar o que se passava. Relatada a situação mandaram-nos esperar. E ali ficamos por mais de vinte minutos. Para não dar um ar de acomodados, não nos sentamos. Andamos por ali em círculos a falar uns com os outros, não muito alto para não incomodarmos quem não nos entendia, mas não muito baixo para que não se esquecessem de nós.

Após esta espera, chegou finalmente alguém que falava inglês. Mais tarde reparámos que eram oito em ponto e que a sua chegada se devia à mudança de turno.

O polícia, com os seus mais de dois metros, poderia ter pertencido à selecção de basquetebol da Jugoslávia. Quando soube do que se passava começou logo a explicar que os sinais de trânsito eram para cumprir, blá blá, blá... e que em Varsóvia a polícia nunca perdoa nenhuma multa. Nós ouvimos com atenção mas... Varsóvia!!! o que é que este gajo estaria a pensar??

A multa era 50€ pelo estacionamento e 50€ pelo serviço de reboque. Dizer o que nos passa pela cabeça nestas horas só complica as coisas e enquanto olhávamos para cima, a única coisa que víamos eram 25€ a voar bolso fora de cada um de nós.

Sermão terminado, pediu-nos a identificação do proprietário. Quando olhou para o passaporte que lhe demos levantou as sobrancelhas e mandou-o contra a secretária. Abriu as mãos e perguntou:

- São portugueses?!

- Sim.

- Porque é que não disseram logo?

- ...

- Os meus colegas viram o P na matrícula e pensaram que eram polacos.

- Hãaa??

- Não me digam que são do Benfica??

- Hãaa????

Quase automaticamente um de nós abriu a mochila a que chamamos de kit de emergência e, ali mesmo dentro da esquadra, agarrou no cachecol vermelho e abriu os braços.

O gigante fardado sorriu para nós e desatou a explicar-nos que era árbitro de futsal e que tinha estado numa formação em Portugal há uns meses atrás. Antes do regresso tinha ido à Catedral da Luz assistir a um jogo. Falou logo na águia Vitória e que agora até o filho dele já era benfiquista.

Das mãos de um de nós logo apareceu um telemóvel com uma filmagem pessoal do voo da dita águia. Perguntou-nos de que jogo eram as imagens e quando soube que era do recente Benfica-Guimarães disse de imediato: 5-0. Jonas very good!.

Ainda pensámos em abrir uma casa do Benfica em Podgorica, mas como tínhamos um voo de regresso a casa para apanhar em Belgrado daí a poucos dias, a ideia acabou por não vingar.

A conversa ainda durou mais um bocado até o quinto benfiquista do grupo nos informar que só podia retirar uma das duas multas, e assim, poder relatar este belo contratempo passou a custar a cada um de nós 12,50€. Nem foi muito. Tenho histórias bem piores que esta e que foram bastante mais caras.

Antes da tirada nocturna pela estrada em obras até Kotor, ainda fomos jantar ao restaurante muçulmano Pod Volat, que é excelente e que encerrou com chave de ouro a nossa passagem pela capital deste belo país.

Em viagem - Parte 1

por Maria Dulce Fernandes, em 14.12.19

21644286_KLVLz[1].jpg

 

O pai já não está connosco há 25 anos. Partiu novo, deixando um vazio imenso que coisa alguma conseguiu preencher. Aventureiro carismático e muito castiço, era um gastrónomo de primeira água e apreciava um bom vinho. Adorava música, bons filmes, bons livros, praia, mulheres bonitas, a esposa, os filhos e as netas.

Vivi com ele a primeira grande aventura da minha vida num maravilhoso Setembro de 1970: um Volkswagen Variant com porta-bagagens em cima, uma tia sexagenária, uma miúda de 12 anos, um garoto de 8, a mãe, o bebé com 4 meses e o pai ao volante. As roupas e necessaires iam em cima, em grandes malas e o espaço traseiro do carro tinha sido transformado numa espécie de nurserie do menino: tinha caixas forradas a azul e etiquetadas com as roupas de bebé, as fraldas, os biberons, as papas, um fogão Campingaz e alguns apetrechos de cozinha, e uma alcofa, que porta-bebés ainda era praticamente um produto de ficção científica.

E então fomos estrada fora, depois duma preparação concisa através de mapas e trajectórias alternativas fornecidas pelos experts do ACP, rumo a Solingen, perto de Colónia, na Alemanha, onde morava a Line, a filha mais nova da tia Eugénia.

A primeira paragem foi em Talavera de la Reina, onde pernoitámos num simpático Hostal, gerido por um casal com uma caterva de filhos, todos alegres e salerosos, e onde o meu pai abriu a primeira garrafa da colheita especial ”para levar para a Alemanha”, que guardava zelosamente. Os hospedeiros eram de uma simpatia e amabilidade contagiantes, pondo de imediato ao dispor das senhoras a cozinha e outras facilidades necessárias para tratar das crianças. A ideia que me ficou dos espanhóis é a de pessoas afáveis, alegres e fantásticas, o que me leva a crer que a geração pós-franquista degenerou significativamente.

De Talavera de la Reina partimos para mais uma tirada até Zaragoza e depois até à Costa Brava, com paragem obrigatória em Barcelona - a Costa Brava é linda, grandiosa, magnífica - e atravessámos outra fronteira já na subida para os Pirenéus, para pernoitar em Perpignan, noutra pousada gerida por outro casal espectacular, onde pus pela primeira vez à prova os dotes linguísticos que adquiri num único ano de francês. A verdade é que me safei muito bem e a partir daí tomei-lhe o gosto.

Saídos de Perpignan, seguimos por uma via a que chamavam autoestrada – Uau !!! – e almoçámos num sítio totalmente práfrentex, chamado área de serviço. A caminho de Dijon, onde pernoitámos, pela primeira vez num hotel de luxo, atravessámos a pior tempestade eléctrica que vi na minha vida que culminou com uma chuva torrencial de proporções bíblicas. Foi uma noite aterradora e praticamente insone; nos breves minutos que conciliávamos o sono éramos despertados abruptamente por hordas de hunos gritantes, que nos bombardeavam sem cessar. Em concílio familiar ficou decidido que no dia seguinte era uma directa até Colónia e pronto, mas não sem antes passar no Luxemburgo para deixar uma encomenda que um amigo por lá emigrante nos tinha pedido para levar.

Depois das peripécias do costume, qual bando de ciganos chegámos à grandiosidade do Luxemburgo, que se atravessava nuns meros 20, 30 minutos. O pai estacionou numa bomba de gasolina, para atestar e pedir direcções. O funcionário que o atendeu ere jugoslavo e falava apenas  a sua língua e um mau italiano; tanto quanto o pai entendeu, tínhamos de atravessar duas pontes e virar na via sinistra. Transmitidas as indicações ipsis verbis, as palavras caíram que nem raios na população da Variant, que depois de uma noite terrífica, queria tudo, menos ir para a via sinistra. Novo concílio: não se entregava qualquer encomenda e era o toca a sair de imediato daquele funesto país.

E foi assim que, depois de passarmos duas pontes e virarmos à esquerda, nos encontrámos de novo no caminho para Solingen, onde chegámos bem tarde nessa mesma noite, ajudados por um simpático casal de alemães acabadinho de sair dum pub, que teve a enorme  pachorra de nos levar a Übenstrasse 14, que não ficava nem mais nem menos senão no ponto oposto daquele da nossa entrada na cidade. É que perdemos quase todas as saídas de autoestrada menos aquela, porque sempre que o navegador - a mãe - dizia que saíamos a seguir, surgia a indicação "Ausfahrt"... e como ninguém queria ir para a Áustria, íamos continuando em frente...

 

(Post inspirado nos últimos posts de viagens publicados)

Livros, filmes e viagens

por Pedro Correia, em 05.12.19

fontaine-du-chateau-de-schoenbrunn-en-hiver[1].jpg

 

Há livros que nos abrem o apetite para conhecermos países e cidades. De tal maneira que, mal chegamos ao fim da obra, nos apetece logo fazer a mala. Aconteceu-me com a capital francesa depois de ler Paris É uma Festa, de Hemingway, e vários policiais de Simenon. Aconteceu-me com Barcelona, depois de ler Os Mares do Sul, de Vázquez Montalbán. Aconteceu-me com Londres, depois de ler O Livro das Cidades, de Cabrera Infante. Aconteceu-me com Amesterdão, depois de ler A Porta no Chão, de John Irving. Aconteceu-me com o Rio de Janeiro, depois de ler esse fabuloso livro homónimo que lhe dedicou Ruy Castro - autêntica carta de amor à Cidade Maravilhosa.

Mas também podemos apaixonar-nos por uma cidade que ainda não conhecemos ao ver um filme. Aconteceu-me com Viena assim que vi Antes do Amanhecer, de Richard Linklater, espécie de Casablanca dos anos 90 sem guerra nem nazis. Corria ainda o genérico final no ecrã e já eu fazia planos para rumar sem demora à capital austríaca, seguindo os passos de Ethan Hawke e Julie Delpy nesse filme hipnótico. E assim foi. Com uma diferença de pormenor, que neste caso era de pormaior: o filme passa-se no Verão e eu aterrei em Viena no Inverno, faiscavam as luzes de Natal na Rathaus. Com seis graus negativos, as águas do Danúbio estavam geladas e a animação de rua reduzida ao mínimo. Mas apanhei o eléctrico do Ring, andei na roda gigante do Prater (que me havia sido apresentada noutro filme, o inesquecível O Terceiro Homem) e era capaz de jurar que o fantasma de Sissi andava em Schönbrunn, na manhã luminosa em que lá estive, com as verdes alamedas do palácio transformadas num deslumbrante mar de neve.

Saudades de São Francisco

por Pedro Correia, em 01.11.19

sanfran-trolley-alcatraz-wharf_dp_700[1].jpg

 

Há uma atmosfera cintilante, tão parecida com a de Lisboa. E a luz coada. E a neblina, que cai quando menos se espera. E os carros eléctricos sulcando as curvas de Lombard Street. E os leões marinhos expostos aos raios do sol e ao olhar indiscreto dos turistas no Fisherman's Wharf. E as frondosas alamedas verdes do parque Golden Gate, o maior pulmão verde da cidade. E a ponte. E os labirintos do bairro chinês. E a memória cinéfila ao espreitar de qualquer esquina, devolvendo-nos cenas míticas de alguns dos filmes das nossa vidas - Dark Passage, Vertigo, Bullitt, Dirty Harry, Basic Instinct. E os barcos que cruzam a baía, rumo a Sausalito. E o rochedo de Alcatraz, lá mais ao longe. E a eterna cantiga de Scott Mackenzie tocada algures em Union Square. E Haight-Ashbury, local mítico da geração das flores.

«Vimos estendida diante de nós a fabulosa cidade branca de São Francisco sobre as suas onze colinas míticas com o Pacífico azul e, ao largo, a sua muralha de nevoeiro marítimo a avançar, e fumo e a luz áurea do fim de tarde do tempo», escreveu Jack Kerouac nas páginas de On the Road. Com um deslumbramento que qualquer forasteiro sente ao visitar Frisco. À despedida, só apetecer trautear a canção de Tony Bennett. «I left my heart in San Francisco / High on a hill, it calls to me.

Criar memórias

por Diogo Noivo, em 26.08.19

21539717_1hz45[1].jpg

 

Meia hora de voo num teco-teco e outros 20 minutos em barca de pescador. Uma vez instalado na aldeia, percebo que a electricidade é episódica. O aldeão que me acolheu na sua casa sugere-me que não adoeça: não só é desagradável, como o hospital mais próximo está a quase duas horas de distância. Pela mesma razão, avisa que o melhor é não entrar no mar nem no rio: os tubarões-touro gostarão da companhia, mas o sentimento não será mútuo. Banho só no chuveiro. Pede desculpa por iniciar a conversa com avisos, mas esta parte da América Central é pouco meiga com europeus de cidade - não me quis chamar flor de estufa, foi amável.
Neste pedaço de natureza bruta ninguém quer saber de Trump, de Boris, da Comissão Europeia ou de bichos semelhantes. A única geringonça de interesse é a que permite sacar água doce do poço. O ritmo do dia e os afazeres são ditados pela altura do sol e pelas marés. Tudo o resto são realidades longínquas - ou até completamente ignoradas.
Estive caído do planeta e acho que nunca fui tão feliz.

21539723_inapP[1].jpg

Tags:

O Demónio e Mr. Prim

por Maria Dulce Fernandes, em 22.08.19

20170419101200_IMG_2814.JPG

20160526_200051.jpg

 

Quase todos os meses de Abril, de há alguns anos a esta parte, saímos para recarregar baterias, coisa que toda a gente que trabalha muito, tem gatos, filhos e netos, deveria fazer para manter a sanidade mental. Desligar... não totalmente... só um bocadinho, mas desligar sim, e recuperar a vida a dois, nem que seja por apenas três ou quatro dias.

Há três anos, calhou escolhermos a República Checa. Calhou também decidirmos fazer uma caminhada de cerca de 30 km pelo Bohemian Saxon Switzerland National Park.

Partimos de Lisboa com tudo organizado ao pormenor e fomos informados na véspera do passeio que Mr. Prim, o melhor guia para aquele tour em particular, nos iria buscar ao hotel às 8:00h.
Fantástico! Estávamos realmente expectantes.
Aconteceu como previsto. Durante a viagem de automóvel demo-nos a conhecer e ficámos a conhecer Mr. Prim na medida do possível.

Escusado será dizer que a meio do caminho para Pravčická Brána tive que fazer uma pausa para me reunir com as minhas pernas, que tinham entretanto resolvido entrar em greve devido a exigências não regulamentadas na ACT.
Após as promessas da praxe, chegámos a acordo, para o que muito contribuiu a chegada ao Falcons Nest, com descanso e um bom almoço a acompanhar.

Como não podia deixar de ser, convidámos Mr. Prim para nos fazer companhia.
A meio da refeição, dei a volta à conversa e em vez de fazer as habituais perguntas sobre a República Checa, resolvi perguntar o que sabia Mr. Prim sobre Portugal.

Mr. Prim, que já tinha estado em Lisboa há cerca de cinco anos, não gostou. A cidade era feia, suja e sentia sinceramente pelos portugueses, porque viviam em condições de extrema pobreza…
É certo que as notícias sobre o País não têm sido fabulosas, mas seguramente Portugal tem uma qualidade de vida superior à da República Checa, retorqui. Sorriu condescendente e respondeu que lá (na Rep. Checa) não viviam em casas de madeira sem saneamento básico (!!).

Não pude deixar de rir, mas rir mesmo. Onde, pelo amor da santa, terá o Mr. Prim ficado hospedado e por que caminhos terá andado para se deparar com aquela dantesca realidade?
Não consegui saber muitos pormenores. Acredito que a visita de Mr. Prim fosse coisa tipo relâmpago, pois pouco ou nada sabia de Lisboa, para além da anunciada pobreza e más condições sanitárias. Que o hotel não ficava longe do rio e passava pelas tais "barracas" para chegar à margem.

Quem me conhece minimamente sabe que quando acredito que tenho razão não me calo, e o pobre Mr. Prim passou mais de 10km, até às Edmund Gorges, a ouvir sobre a minha terra e a história das pseudo-casas de madeira.
Castigou-me com a descida mais íngreme e escorregadia da minha vida, mas apesar de ter uma preparação física a anos-luz da nossa, garanto que acabou mais cansado, tal não foi a injecção sobre Lisboa que lhe ministrei.

Mas por muito que tentasse, foi impossível contornar aquela impressão negativa de uma cidade salobra e escura que Mr. Prim tinha gravada nos recônditos do seu disco rígido.

O meu passeio ao Parque foi estupendo. Aconselho vivamente.

Lamento apenas que o nosso País, tão bonito, tão brilhante, N vezes ao quadrado mais simpático do que a República Checa, seja tão erroneamente interpretado.
Estes turistas que nos chegam, em Fam Trips, vêm tantas vezes "comprar" o destino para o poder incluir nos seus pacotes de tours.

Chegados cá, a que demónio será entregue a organização da sua estadia? Não acredito que o Turismo de Lisboa, que normalmente dá a conhecer a nossa capital com tanta clareza e desvelo, tenha transformado mais uma oportunidade de "vender" Lisboa num passeio à timberland...

Acre, cobiçada por todos, pertencente a muitos

por João Pedro Pimenta, em 28.03.19

Não sendo imune ao chamamento das grandes metrópoles, tenho uma particular atracção pelas cidades médias ou pequenas, que tantas vezes fogem ao roteiro dos guias turísticos e às campanhas das agências e das companhias aéreas. E sobretudo as que têm uma amálgama de influências culturais diversas e uma historia respeitável.

Acre cumpre totalmente esses requisitos. Está ali na ponta da baía de Haifa, com essa cidade portuária do outro lado, dominada pelo monte Carmelo, e o Líbano a poucos quilómetros a norte. Vem de tempos imemoriais, e desde a Antiguidade que é um dos principais portos do Levante. Por ela passaram fenícios, persas, egípcios, judeus, gregos, macedónios, romanos, bizantinos, árabes, cruzados europeus, turcos, ingleses e de novo judeus. Sofreu inúmeros cercos e conquistas. O mais famoso terá sido o de 1291, quando era o último bastião do Reino Latino de Jerusalém, e caiu nas mãos dos mamelucos egípcios. Os vestígios cruzados nunca desapareceram totalmente, mas a arquitectura e a configuração da cidade alteraram-se bastante com os seus novos ocupantes, e sobretudo com os turcos, que se lhes seguiram. Napoleão também tentou apoderar-se daquele ponto estratégico, no seguimento da campanha no Egipto, mas o seu cerco não surtiu efeito e os otomanos resistiram. Acre passaria ainda para as mãos dos ingleses, no decorrer da Grande Guerra, que a mantiveram durante o Mandato Britânico da Palestina, e estava incluída no território palestiniano projectado com a divisão do território planeada pela ONU, mas o primeiro conflito entre os países árabes e o novo estado de Israel determinaria que ficasse no território deste.

A cidade novo de Acre, moderna e sem graça, é habitada por judeus. Ultrapassada a primeira cintura de muralhas, já do tempo dos turcos, entra-se numa cidade quase exclusivamente árabe e turca. Mas os vestígios do passado pré-muçulmano estão lá. A antiga cidadela dos Hospitalários impõe-se e recebe os visitantes no seu comprido refeitório, nas suas torres e na praça de armas desta ordem que depois de andar séculos entre ilhas do Mediterrâneo com a "casa às costas, converteu-se na actual Ordem de Malta. O edifício serviu já no século XX de prisão de rebeldes judeus que combatiam o Mandato Britânico da Palestina.

DSC_0049_5.JPG

A partir daí começa a cidade árabe, com a esplendorosa mesquita turca El Jazzar, e segue-se o miolo urbano formado por ruelas serpenteantes que se desdobram em mais ruelas, num labirinto interminável e algo espantoso numa cidade de dimensão reduzida. Ao contrário do resto do país, as placas estão quase todas em árabe, não em hebreu, nem são bilingues. Sucedem-se pequenos souks ou lojas de rua. Mas mais uma vez a herança cruzada (já) não está totalmente escondida. Nos anos noventa, um banal problema de terrenos levou à descoberta de um túnel subterrâneo, com centenas de metros de extensão, pertencente aos antigos templários, que se acolhiam do lado ocidental da cidade, quase junto ao mar. O túnel começa precisamente junto às muralhas já a tocar na água e desemboca num dos muitos becos do centro. Nalgumas extensões não ultrapassa o metro e meio de altura e naturalmente a humidade invade-o. Nas paredes de blocos graníticos, e entre os arcos de ligação, podem-se ver algumas explicações gráficas da obra, enquanto uma gravação nos tenta explicar os contornos daquela construção. Hélas, está em hebraico e os esforços são inúteis. Mas imagina-se o afã dos cavaleiros do Templo em tempo de cerco.

DSC_0059_4.JPG

Pelo bairro, pelas muralhas batidas pelas ondas, no pequeno ancoradouro, outros nomes trazem-nos as memórias de antigos detentores do burgo: praça dos genoveses, praça dos venezianos, bairro dos templários, porto pisano, etc. Os baluartes defensivos são já quase todos do tempo dos turcos, mas pode-se imaginar, até em pequenos troços do seu tempo, os cruzados a defender tenazmente o último bastião do condenado Reino Latino. Será mais fácil pensar que aqueles mesmos muros resistiram às tentativas inúteis de Bonaparte de tomar a cidade. Os canhões que ainda lá estão decerto testemunharam este episódio. Agora são testemunhas de um belíssimo pôr-do-sol, com a silhueta de Haifa do outro lado da baía.

DSC_0065.JPG

DSC_0072.JPG

DSC_0078_1.JPG

Se os templos são quase todos muçulmanos, avista-se também uma ou outra igreja, como a maronita encostada à muralha. E além da arquitectura militar e religiosa, há outros edifícios notáveis, como o Khan al-Umdan, o único caravançarai em território israelita que se pode arrogar desse título, uma construção imensa com um amplo terreiro rodeado de arcos, e rematada por uma torre do relógio, que domina a vizinha Praça dos Venezianos. Diz-nos a sempre prestável Wikipedia que neste edifício é que Bahá 'u`lláh, refugiado da Pérsia, começou a divulgar as suas ideias religiosas numa escola para o efeito, começando aí a pregação da fé Bahai, cujos principais templos podem ser encontrados à volta de Acre e sobretudo em Haifa. Nas redondezas há ainda os banhos turcos e a Khan al Sawarda, uma praça mercantil rectangular com uma curiosa fonte no meio, de arquitectura indiscutivelmente otomana. Tudo isto a dois passos do porto, outrora comercial e de guerra, hoje mais ligado à pesca e ao turismo, a única parte que não está rodeada de muralhas. Acre, a antiga cidade dos cruzados que pertence a Israel mas que permanece árabe/turca; a comprová-lo, a voz do muezzin ouve-se nos altifalantes das mesquitas ao fim da tarde e ecoa sobre todas aquelas memórias.

Nota: talvez o muezzin fosse novo, já que ocorreu há pouco tempo uma curiosa história: o responsável pelo chamamento dos fieis da mesquita El-Jazzar era reconhecido como tendo uma voz "que nem em Meca se encontrava uma tão bela". Mas dedicava-se também à musculação e ao bodybuilding, e tinha até representado Israel em competições internacionais da modalidade. Ora o responsável ministerial pelos assuntos religiosos considerou que tal prática não era compatível com a de muezzin, até pela exposição pública com pouca roupa, e determinou a sua demissão do posto. A decisão despoletou vários protestos entre os muçulmanos de Acre, que consideraram que as duas coisas não eram incompatíveis, e que pediam ao menos uma segunda oportunidade, mas tudo leva a crer que será em vão. Resta ao inconformado ex-muezzin dedicar-se agora em exclusivo ao seu próprio ginásio.

Fim de semana inglês

por Pedro Correia, em 07.03.19

20190303_114722-1.jpg

 

O circunspecto Telegraph titula a toda a largura da primeira página na sua edição de domingo: «O cão domina.» Um destaque impensável noutros tempos e que diz quase tudo: no Reino Unido, como em Portugal, há cada vez mais gente a trocar pessoas por animais, humanizando os bichinhos, a quem tratam como não tratariam um filho. Não me espantava que fosse criminalizado o ralhete ao lulu ou a advertência severa a um bichano, por parte dos donos, no espaço público. Não sei se aqui também já existe um PAN, mais vocacionado para defender as quatro patas do que as duas pernas, mas não deverá faltar muito.

O que não falta é a correcção política, que nos cerca e asfixia como um garrote, nos mais banais actos do quotidiano. Sento-me à mesa para matar saudades de um tradicional fish and chips e logo a empregada paquistanesa me pergunta: «Tem alguma alergia alimentar?» Fiquei tão espantado que nem percebi à primeira.

Esta fobia de todas as fobias domina os chamados países ricos do primeiro mundo, que forçam os seus habitantes a sentir culpa ou a padecer seja do que for. Quem não tem alergias é olhado de soslaio, como se não bastasse tirar o cinto e descalçar os sapatos na minuciosa inspecção dos aeroportos.

Há câmaras de vigilância nos locais mais insuspeitos, proliferam advertências contra a necessidade de «não dirigir palavras ofensivas» aos funcionários públicos, o que constitui infracção criminal. Acabamos por sentir-nos suspeitos de alguma coisa, sabe-se lá o quê.

 

20190302_132638-1.jpg

 

«Get in lane», advertem em letras garrafais os cartazes destinados a promover a segurança rodoviária. Acho muito bem. Mas já será algo excessivo, nas pedovias, haver uma faixa exclusiva para quem anda e outra para quem corre, como se todos tivéssemos de nos encaixar sempre em trilhos. Ou nem pudéssemos optar por andar e correr quando nos apetecesse.

Esta mania de etiquetar e regulamentar tudo deu cabo da paciência aos britânicos e ajuda a explicar a orientação de voto que levou ao Brexit. Muitas destas normas são emanadas de Bruxelas, onde abundam os microlegisladores apostados em interferir nas mais ínfimas partículas da existência dos povos comunitários. Os ingleses, com o seu espírito insular, continuam a pagar contas em libras e a medir distâncias em milhas e jardas. Mas não escapam à imposição das directivas que mandam esmiuçar até ao último miligrama todas as partículas integrantes de um vulgar frasco de champô, como comprovo no quarto onde me alojo.

Para acompanhar a refeição, mato saudades de uma boa cidra Harry’s, produzida com maçãs do Somerset. Mas algo mudou desde a minha anterior visita ao Reino Unido, como verifico ao observar a garrafa: «Esta bebida é comprovadamente apropriada a vegetarianos, veganos e celíacos», explicita o rótulo.

Bem-vindos ao admirável mundo novo das regras infindáveis e das redomas sem remissão. Nesta Europa a que em breve os britânicos deixarão de pertencer, a crianças são tratadas como adultos e nós, adultos, andamos a ser tratados como crianças.

Volta a paquistanesa e pergunta-me se desejo uma das sobremesas em promoção. «São todas sem açúcar», especifica. Agradeço, mas dispenso. E peço a conta.

A mochila etíope (V) - último

por Diogo Noivo, em 10.01.19

Lalibela.jpg

Lalibela - fotografia minha

 

Na primeira metade da década de 1980 a Etiópia foi assolada por uma fome severa que vitimou um milhão de pessoas e deixou oito milhões numa miséria absoluta. Os repórteres da BBC que estavam no terreno descreveram o drama como sendo de proporções bíblicas. As imagens de morte e sofrimento impressionaram o mundo, dando ao país uma atenção mediática sem precedentes.

 

Para esta atenção internacional muito contribuiu o festival Live Aid. Realizado simultaneamente em Londres, Reino Unido, e em Philadelphia, Estados Unidos da América, o Live Aid foi uma ideia do músico Bob Geldof destinada a angariar fundos para combater a fome em África, em particular na Etiópia. O festival, que contou com mais de 70 artistas, entre os quais Madonna, U2, Bob Dylan, Mick Jagger e Neil Young, foi visto por cerca de 1,5 mil milhões de pessoas em 100 países. Do Live Aid saiu o tema “We are the World”, acolhido como um hino por aquela geração.

LiveAidlogo.jpg

Cartaz do Live Aid

 

O que Geldof e as demais estrelas da pop internacional não explicaram foi que, ao contrário de secas anteriores, cíclicas na Etiópia, aquela não era apenas uma acção da natureza. Contou com o ímpeto genocida e com as políticas de “transformação social” do regime ditatorial comunista Derg. O bombardeamento de campos agrícolas e os programas de realojamento forçado foram duas das várias atrocidades que agravaram a carência alimentar provocada pela seca. A fome foi um instrumento de guerra.

 

Alguns trabalhos de investigação jornalística publicados na altura sugeriam que parte dos mais de 100 milhões de dólares angariados pelo Live Aid foram usados pelo regime e pelas forças que o combatiam para adquirir armamento soviético usado para intensificar os conflitos em curso. A equipa especial de procuradores que investigou os crimes do Derg descobriu 725 valas comuns e os restos mortais de aproximadamente 5.000 pessoas, uma pequena amostra dos efeitos do terror implementado pelo comunismo do Derg (a Amnistia Internacional coloca o número total de vítimas mortais na ordem do meio milhão de pessoas).

RedTerrorMuseum.png

Restos mortais de vítimas do regime Derg. "Red Terror" Martyr's Memorial Museum, Adis Abeba - fotografia minha

 

O regime ditatorial acabou e o tempo passou. Chegou o crescimento económico impressionante. Porém, os abismos sociais permanecem praticamente inalterados.

 

O desequilíbrio no desenvolvimento entre cidades e campo é um aspecto central da vida social e política desde pelo menos a década de 1960, etapa que corresponde à fase final do reinado do Imperador Haile Selassie. O processo de modernização conduzido por Selassie foi intenso: a criação de uma rede de escolas que não discriminava géneros, a introdução do sufrágio universal, a criação de redes de comunicação e de transportes são exemplos de metas tangíveis e, naqueles anos, inovadoras.

 

No entanto, este desenvolvimento estava circunscrito aos centros urbanos e foi implementado de forma a não alterar a dinâmica autocrática e feudal da arena política. Estas limitações intencionais do processo de modernização contribuíram para que Selassie fosse deposto em 1974. O regime Derg, por via do que ficou conhecido como “Terror Vermelho”, destapou as tensões étnicas latentes, agravou o abismo entre urbes e meio rural, e juntou-lhes uma violência sanguinária sem precedentes.

 

Hoje, o milagre económico etíope é um fenómeno citadino enquanto que nas zonas rurais, a imensa maioria do país, a agricultura de subsistência domina a paisagem. O desequilibro nota-se na dicotomia urbano-rural, mas é também visível dentro e entre regiões. A industrialização e os serviços são agora maiores do que no passado e o turismo assume um papel crescente, mas apresentam-se tímidos quando comparados com uma economia rural frágil e assente em meios de produção arcaicos.

 

O crescimento económico e os avanços sociais que dele resultaram são inegáveis e fazem da Etiópia um caso raro no panorama africano. De tal forma que a coligação no poder desde 1991 fez da economia uma bandeira que cobre a inexistência de liberdades políticas e o ambiente de intimidação no qual vivem as oposições à FDRPE.

 

É certo que o número de habitantes do país duplicou desde que a FDRPE chegou ao poder e que isso se traduz numa pressão acrescida sobre a gestão e distribuição de recursos. É igualmente certo que, no contexto africano, combater forças potencialmente desagregadoras com mais centralismo e repressão é uma reacção quase natural. Porém, os desafios à viabilidade da arquitectura política parecem crescer de ano para ano. O perigo da desagregação territorial e política não terminou com a independência da Eritreia. De resto, ao decretar o Estado de Emergência em Outubro de 2016 o Governo etíope reconheceu tacitamente esse risco.

 

Pelo que se vê, ouve e lê no país, não é o federalismo que é contestado. É esta federação em concreto. Há tempo e espaço para ultrapassar as limitações e deficiências que inquinam o modelo político. Contudo, as estatísticas dizem que o país vai bem. Quando assim é, a disponibilidade para mudar é reduzida.

 

NOTA: Os textos que integram esta série foram escritos há mais de um ano. No geral, resistiram bem ao teste do tempo, pois continuam a explicar muito do que se passa na Etiópia nos planos social, político e económico. Porém, o último parágrafo deste último texto estará a ser desmentido pelos novos protagonistas políticos, cujas acções e propostas sugerem uma intenção real de mudança. Espero que demonstrem que, nestas últimas linhas, me enganei redondamente.


O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D