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Viagem ao Egipto (20).

por Luís Menezes Leitão, em 29.01.17

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Para concluir estes já longos apontamentos da minha viagem ao Egipto, falta falar dos colossos de Mémnon. Estes colossos são tudo o que resta do que se julga ser um gigantesco templo funerário construído pelo Faraó Amenófis III, cuja entrada era guardada por estes dois enormes colossos. Mas o templo foi sucessivamente destruído pelas cheias do Nilo e pela invasão das areias, restando apenas os colossos. Estes mesmos, porém, ainda ruiriam parcialmente antes da nossa era por um terramoto ocorrido em 27 a. C., que abriu uma fenda na cabeça de um dos colossos.

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Essa fenda causou, porém, um fenómeno estranho, já que a estátua passou a cantar ao amanhecer, segundo se julga devido a um fenómeno de concentração de humidade dentro da fenda, que seria expelida com o surgimento dos raios do sol. Por isso, os gregos passaram a associar a estátua a Mémnon, herói da guerra de Tróia. Segundo Homero refere na Ilíada, Mémnon era um rei etíope, que levou um exército para Tróia, em ordem a defender Príamo da invasão grega. No entanto, foi morto por Aquiles em vingança pela morte do seu companheiro Antíloquo. Por isso, depois da sua morte, a sua mãe Eos, a deusa da aurora, passou a chorar a morte do filho todos os dias à alvorada. Em resultado disto, até o nome de Amenófis III deixou de estar associado a estas estátuas, a benefício de uma nova mitologia.

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Mas o choro de Eos duraria apenas duzentos anos, um instante na história milenar do Egipto, uma vez que o imperador romano Septímio Severo, em 199 d.C., mandou reparar a fenda na estátua, que desde então nunca mais cantou.

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Olhando para estes colossos, tem-se a verdadeira sensação da eternidade. Como dizia Camões: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Muda-se o ser e muda-se a confiança. Todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades". Estes colossos foram construídos em homenagem a um faraó, foram destruídos, passaram a cantar, foram associados a um herói grego, deixaram de cantar, e aqui agora permanecem, como testemunhos de um tempo perdido, cuja busca agora termina.

 

Finis

Viagem ao Egipto (19).

por Luís Menezes Leitão, em 27.01.17

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Muito perto do Vale dos Reis, encontra-se o templo da rainha Hatchepsut, a única mulher que assumiu no Egipto a dignidade de faraó. Mulher de Tutmés II, quando ele morreu, em lugar de se limitar a assumir a regência em nome do seu enteado Tutmés III, decidiu ela própria coroar-se faraó, passando a governar o país.

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Em sua homenagem foi construído este magnífico templo, estando a rainha representada como qualquer outro faraó, incluindo com uma barba postiça.

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O reinado de Hatchepsut não foi, no entanto, aceite pelo seu enteado, Tutmés III, que, quando lhe sucedeu, mandou apagar todas as representações da madrasta, querendo eliminar o seu reinado da memória colectiva. Tanto foi assim que o calendário que mandou elaborar transita directamente do reinado de Tutmés II para o de Tutmés III, apagando à maneira orwelliana o reinado de Hatchepsut da história do Egipto.

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Tutmés III não se atreveu, no entanto, a desafiar os sacerdotes, destruindo o templo que a rainha tinha querido construir. E assim este magnífico templo permanece até aos nossos dias, recordando para a posteridade a corajosa história de uma mulher se atreveu a assumir um cargo até então reservado aos homens.

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Viagem ao Egipto (18).

por Luís Menezes Leitão, em 25.01.17

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Constitui um absoluto fascínio visitar o Vale dos Reis, onde se encontram os túmulos dos faraós entre a XVIII e a XX dinastia. Infelizmente é totalmente interdito tirar fotografias deste local, talvez o mais precioso da arqueologia egípcia. Aqui foram encontradas as múmias dos grandes faraós, incluindo Ramsés II, hoje na sala 52 do museu do Cairo, e foi encontrado em 1922 inviolado o túmulo de Tutankhamon, também no museu do Cairo.

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Desde sempre se ficou a pensar que, se o túmulo de um faraó tão pouco importante tinha tantas riquezas, que verdadeiros tesouros esconderiam os túmulos dos grandes faraós?

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No Vale dos Reis é permitido entrar em três túmulos. Os mesmos estão escavados na rocha e desce-se a grande profundidade até à cripta onde o faraó repousava. Os egípcios fechavam os sarcófagos em três recipientes de pedra, madeira e ouro, todos enchidos de areia. Assim, a múmia ficava envolvida numa atmosfera de 20,9% de oxigénio, 78,1% de azoto e 1 por cento de humidade, sendo que cinco anos depois, o oxigénio caía para 1,2%, matando todos os fungos e micróbios. As múmias ficavam assim conservadas para a eternidade, podendo durar milhões de anos, se os egiptólogos não tivessem vindo perturbar este repouso. E hoje são os turistas, vindos dos quatro cantos do mundo, a entrar no que deveria ser a morada eterna dos faraós.

Viagem ao Egipto (17).

por Luís Menezes Leitão, em 22.01.17

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A apenas alguns quilómetros do templo de Karnak, encontra-se o templo de Luxor, que já só conseguimos visitar de noite. É um templo magnífico, que tem a curiosidade de ter estado séculos enterrado debaixo das areias, tanto assim que acima do mesmo foi construída uma mesquita. Após a redescoberta do templo no séc. XIX, a mesquita mantém-se, estando situada a um plano superior.

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Igualmente dedicado ao deus Amon e à sua esposa Mut, o templo foi iniciado por Amenófis III, mas a parte mais importante foi construída pelo sempre presente Ramsés II.

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À entrada possuía dois grandes obeliscos, cujos hieróglifos extremamente bem conservados retratam os grandes feitos deste faraó, mas um dos obeliscos foi, como se referiu, trocado por um relógio de torre que nunca funcionou, e hoje encontra-se na Place de la Concorde em Paris. É inacreditável que este magnífico templo esteja mutilado de uma das suas peças principais. A França que devolva o obelisco de Luxor a Luxor e já. 

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Viagem ao Egipto (16).

por Luís Menezes Leitão, em 21.01.17

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Continuando a descer o Nilo, chegamos quase ao pôr do sol ao templo de Karnak, dedicado ao grande deus Amon. Uma vez que se iniciou a construção deste templo no ano de 2.200 a.C., mas só foi terminado no ano 360 a.C., é o equivalente egípcio às nossas obras de Santa Engrácia, ainda que com muito maior dimensão temporal.

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É um templo imponente, guardado para a eternidade por duas enormes fileiras de esfinges, só que desta vez com cabeça de carneiro, que correspondia à forma tradicional de representação do deus Amon. Olhando para esta estranha série de leões com cabeça de carneiro, não pude deixar de pensar no célebre cão Cérbero da mitologia grega, que guardava o reino dos mortos, despedaçando os que tentassem de lá sair. E as estátuas quebradas no interior do templo dão-nos esta sensação de que o tempo foi inexorável para aqueles que tentaram ir-se da lei da morte libertando.

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Mas lá dentro, como não podia deixar de ser, encontra-se, bem conservada, mais uma gigantesca estátua do maior faraó do Egipto, o grande Ramsés II, como sempre com a sua esposa preferida, Nefertari, aqui representado como Osíris. É claro que, no templo do grande deus Amon, teria que estar uma estátua deste grande faraó, que seguramente alcançou a eternidade, olhando desafiante para os visitantes que aqui vêm perturbar o seu sossego de milénios. 

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Viagem ao Egipto (15).

por Luís Menezes Leitão, em 19.01.17

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Continuando a descer o Nilo, chega-se de madrugada a Edfu, onde se encontra o templo dedicado a Hórus, o deus-falcão, que simboliza o poder da vingança. Efectivamente, de acordo com a religião egípcia, Osíris, o deus da vida e rei do Egipto, seria assassinado por seu irmão Seth, o deus do deserto, que lhe roubaria o trono, abandonando o seu corpo despedaçado no Nilo. Mas a sua mulher Ísis reconstituiria o corpo, conseguindo gerar postumamente um filho, Hórus. Este resolve terminar com o reinado maléfico de Seth, devolvendo a ordem ao Egipto e concretizando a ressurreição de Osíris. O mito simboliza a eterna luta do bem e do mal, sendo que o termo Seth está na origem da palavra Satã, que simboliza o diabo nas três grandes religiões. Para além disso, a luta do sobrinho contra o tio, para recuperar o trono roubado ao pai, está na base da obra imortal de Shakespeare, Hamlet.

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Curiosamente, a imagem de Hórus, que era um deus bom, assustaria imenso os cristãos, que ocuparam este templo após o édito de Tessalónica, que proibiu os templos pagãos. Julgando que Hórus representava o diabo, os cristãos picavam a sua imagem, não sabendo que o verdadeiro diabo era Seth, depois Satã. Mais uma vez, verifica-se ser verdadeira a célebre capacidade do diabo de enganar as pessoas.

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Por este templo andou Gulbenkian, sendo que as fotografias que aqui tirou serviram de modelo à estátua que está hoje na Fundação, na Praça de Espanha. Justifica-se por isso tirar uma fotografia semelhante para a posteridade.

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Viagem ao Egipto (14).

por Luís Menezes Leitão, em 17.01.17

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Descendo o Nilo a partir de Assuão chega-se 40 quilómetros depois, já de noite, a Kom Ombo, onde se encontra o único templo dedicado a dois deuses, o deus falcão Hórus e o deus crocodilo Sobek. Também é um templo mais recente, já da época ptolomaica, expressando as suas colunas uma clara influência greco-romana.

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O templo conserva, no entanto, em profundidade a mitotologia egípcia, com os seus dois deuses a travar a eterna luta do bem e do mal, simbolizada no combate entre o falcão e o crocodilo, prestando, no entanto, o faraó vassalagem a ambos.

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Ao lado do templo, encontra-se um museu do crocodilo, onde se encontram múmias de crocodilos, demonstrando que os egípcios até esses animais pretendiam conservar para a eternidade.

Viagem ao Egipto (13).

por Luís Menezes Leitão, em 16.01.17

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Um outro templo que ficou alagado pela barragem de Assuão foi o templo de Ísis, na ilha de Philae, o qual teve por isso que ser desmontado e reconstruído na ilha vizinha de Agilka, a cerca de 300 metros de distância. Trata-se de um templo da época ptolomaica, desenvolvido depois da ocupação romana, pelo que são visíveis as influências greco-romanas.

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Consta que a célebre rainha Cleópatra se dirigia a este templo para prestar adoração à deusa Ísis, tendo permanecido no templo o altar dedicado à deusa.

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Mas a célebre Cleópatra, que conseguiu seduzir sucessivamente Júlio César e Marco António, transformando-os em aliados do seu Egipto, já não conseguiria seduzir Augusto, que a derrotaria, levando-a ao suicídio. O Egipto tornar-se-ia assim uma simples província romana, tendo, no entanto, este templo permanecido para os fiéis da religião egípcia, cada vez mais esmagados pelo poder romano. Ao lado foi construído um templo dedicado a Trajano, o imperador que levou o império romano à sua maior extensão.

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Depois, a difusão do cristianismo foi fatal para a religião egípcia. A 27 de Fevereiro do ano 380 o imperador Teodósio I estabelece o édito de Tessalónica, que decreta o cristianismo como religião oficial do império mandando fechar todos os templos pagãos. Assim, os fiéis de Ísis foram perseguidos, e a própria escrita egípcia, anteriormente gloriosa, desapareceu. Encontra-se precisamente neste templo o último texto escrito na escrita hieroglífica, datado de 24 de Agosto de 394 d. C., numa altura em que seguramente o seu autor já estaria a ser alvo de perseguições. A roda da história é implacável para com os povos vencidos, restando-nos hoje apenas os velhos monumentos para recordar o seu passado glorioso.

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Viagem ao Egipto (12).

por Luís Menezes Leitão, em 15.01.17

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A partir de Assuão pode fazer-se uma viagem por estrada a Abu Simbel, situada junto à fronteira com o Sudão. É uma viagem de ida e volta de 600 km através do deserto do Saara, que se tem que fazer numa manhã, mas vale a pena. Sai-se de madrugada e vê-se o nascer do sol no deserto, comprando um café quente numa banca à beira da estrada, para afastar o frio.

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 Abu Simbel foi um dos templos que ficou submerso com a barragem de Assuão, tendo sido salvo devido à intervenção da UNESCO. A intervenção foi complexa, uma vez que se tratava de um templo escavado numa montanha. A solução foi fazer mais recuadamente uma montanha artificial com uma estrutura de ferro, para onde depois foram transferidas as estátuas. O resultado foi excelente, uma vez que todos os monumentos foram conservados, mantendo-se o espírito original.

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Os templos são dois, sendo o maior dedicado a Ramsés II, com os grandes colossos, todos representando o faraó, e o segundo, mais pequeno, dedicado à rainha Nefertari. Ramsés II teve várias esposas, mas a sua favorita foi sempre Nefertari, nome que significa precisamente a mais bela ou a mais perfeita. Nefertari era uma princesa núbia, cujo casamento com Ramsés II trouxe a paz entre o Egipto e a Núbia, paz essa que se julga ter sido simbolizada em Abu Simbel, com os dois magníficos templos. Mas os templos simbolizam principalmente a história de amor entre o faraó e a sua rainha, que ainda hoje é proclamada aos visitantes, milhares de anos passados.

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Viagem ao Egipto (11).

por Luís Menezes Leitão, em 14.01.17

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Um dos mais belos inícios de um romance em língua portuguesa é o de Luandino Vieira, De Rios Velhos e Guerriheiros: "Conheci rios. Primevos, primitivos rios, entes passados do mundo, lodosas torrentes de desumano sangue nas veias dos homens. Minha alma escorre funda como a água desses rios". Eu também conheci muitos rios, primevos, primitivos, entes passados do mundo, mas nenhum se compara ao Nilo.

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O Nilo não é apenas o maior rio do mundo  em extensão — já em volume de água é ultrapassado pelo Amazonas — como também é um rio absolutamente único, cujas características espantavam os antigos. Em primeiro lugar desce de Sul para Norte. Depois, uma vez juntos o Nilo Branco e o Nilo Azul, já não tem afluentes, dividindo-se num enorme delta antes de chegar à foz. E a sua cheia não coincidia com as cheias dos outros rios que desaguam no Mediterrâneo. Enquanto nestes a cheia é no Inverno, secando o rio no Verão, no Nilo a cheia era em Julho, no pico do Verão, altura em que a água alagava os campos tornando-os férteis sob uma temperatura de mais de 40 graus. A explicação é que era nessa altura que surgiam as grandes chuvas tropicais no centro da África, levando a que o rio enchesse, provocando inundações a milhares de quilómetros de distância.

 

Por isso os egípcios entoavam hinos à cheia do Nilo como nos excertos seguintes:

 

"Salve ó Nilo, que sai da terra e vem vivificar o Egipto

de natureza misteriosa, tenebroso em pleno dia!

A sua saída canta-o,

ele que faz viver todo o gado,

ele que sacia o deserto

quando a água distante aparece (…)".

 

"Ele traz a sua plenitude e nenhum dique se ergue à sua frente.

Ele atingiu as montanhas,

senhor dos peixes, com muitos pássaros

[Ele traz] todos os seus [produtos] úteis.

Ele é alimento e todos os corações estão doces (…)

(recolhidos em Luís Manuel de Araújo, Mitos e Lendas do Antigo Egipto, págs. 103 e 107)

 

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Hoje tudo isto acabou. O Nilo, que nenhum dique impedia, está hoje represado pela grande barragem de Assuão, que criou o Lago Nasser com 550 Km de comprimento e 5250 km2 de área, seguramente o maior lago artificial do mundo. E assim, para além de ter alagado importantíssimos sítios arqueológicos, esta barragem terminou com a cheia do Nilo, que existia desde a antiguidade. Na verdade, o homem tudo faz para vergar a Natureza à sua vontade e nem o maior rio do mundo lhe consegue resistir.

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Viagem ao Egipto (10).

por Luís Menezes Leitão, em 13.01.17

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Em Mênfis podemos ver uma enorme estátua derrubada daquele que foi seguramente o maior faraó do Egipto: Ramsés II, o Grande. O seu reinado foi longuíssimo, situando-se aproximadamente entre 1279 a.C. e 1213 a.C., pelo que várias gerações de egípcios apenas conheceram Ramsés II como seu faraó. Esse período foi extremamente próspero, tendo o faraó casado várias vezes, sendo a sua principal esposa a rainha Nefertari, e deixado inúmera descendência. Por isso se diz que grande parte dos egípcios são descendentes de Ramsés II.

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Ramsés II não foi, no entanto, conhecido por grandes feitos militares, mas antes pela grande arte do político, que é a propaganda, e que o levou a espalhar estátuas monumentais por todo o Egipto. O seu maior feito militar é a batalha de Kadesh, que travou na Síria contra os hititas, mas que na realidade acabou por se revelar um fracasso, não tendo Ramsés II conseguido tomar a cidade. A lenda, no entanto, diz que Ramsés II foi abandonado pelos soldados em pleno combate mas que, após uma prece ao deus Amon, este interveio a seu favor, permitindo-lhe vencer e esmagar os hititas completamente sozinho. Como dizia John Ford, no filme O homem que matou Liberty Valance, "quando a lenda é mais interessante do que o facto, imprima-se a lenda".

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Olhando esta estátua derrubada de Ramsés II, lembrei-me do célebre poema Ozymandias, que Shelley escreveria em 1818, também após olhar para uma estátua deste faraó, aqui na tradução de Eugénio da Silva Ramos:

Ao vir de antiga terra, disse-me um viajante

Duas pernas de pedra, enormes e sem corpo,

Acham-se no deserto. E jaz, pouco distante,

Afundando na areia, um rosto já quebrado,

de lábio desdenhoso, olhar frio e arrogante

Mostra esse aspecto que o escultor bem conhecia

Quantas paixões lá sobrevivem, nos fragmentos,

À mão que as imitava e ao peito que as nutria

No pedestal estas palavras notareis:

"Meu nome é Ozimândias, e sou Rei dos Reis:

Desesperai, ó Grandes, vendo as minhas obras!"

Nada subsiste ali. Em torno à derrocada

Da ruína colossal, areia ilimitada

Se estende ao longe, rasa, nua, abandonada.

 

Só que Shelley escreveria antes da descoberta do Vale dos Reis, onde se encontrou a múmia de Ramsés II. E, curiosamente, quando em  1976 a múmia teve que viajar para Paris para ser tratada de um fungo que a consumia, o governo francês decidiu receber a múmia no aeroporto com honras de chefe de Estado. No Egipto o passado e o presente estão eternamente ligados e, mesmo após três mil anos, ninguém se esquece de prestar as honras devidas ao Grande Faraó.

Viagem ao Egipto (9).

por Luís Menezes Leitão, em 12.01.17

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Depois de Sakkara chega-se num instante à antiga capital do Egipto, Mênfis, situada na margem do Nilo. Segundo o historiador grego Manetón, Mênfis teria sido fundada em 3.000 a. C. pelo faraó Menes, que deu o nome à cidade. Situada no delta do Nilo, com um importante porto, Mênfis foi o centro político e económico do Egipto durante todo o império antigo, só vindo a perder importância depois da fundação de Alexandria por Alexandre, o Grande. Na verdade, receoso perante os feitos desse grande guerreiro, o Egipto render-se-ia sem qualquer luta a Alexandre, que se fez coroar em Mênfis rei do Egipto. Considerado como faraó e filho de Amon, Alexandre, no entanto, abandonaria Mênfis, construindo logo uma nova capital, Alexandria, no que foi o princípio da decadência do Egipto. 

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Mênfis foi assim ficando esquecida. No séc. XIX Eça de Queiroz escreveria que "as ruínas de Mênfis são apenas montículos escuros, onde se vêem ainda paredes de tijolos quase torrificados. As palmeiras crescem por entre as ruínas e a estátua de Sesótris aparece-nos meio coberta pelo lodo da inundação…". Actualmente Mênfis é apenas um museu a céu aberto, com as suas imponentes estátuas como testemunho da glória de uma cidade milenar, mas que a história implacavelmente castigou e que por isso é hoje uma cidade perdida.

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Viagem ao Egipto (8).

por Luís Menezes Leitão, em 11.01.17

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Escreveu Eça de Queiroz que "para além da esfinge, começa o caminho de Sakkara". Efectivamente, depois da esfinge, visitamos Sakkara, onde se encontra a primeira pirâmide, e talvez a primeira construção monumental alguma vez feita pelo homem. Efectivamente, a pirâmide dos degraus de Sakkara foi construída por volta de 2.650 a. C, por ordem do faraó Djoser, da III dinastia, que quis criar um túmulo monumental para guardar os seus restos mortais. Djoser pediu ao seu vizir Imhotep, o qual também era arquitecto, que lhe construísse esse monumento funerário, e Imhotep, na sua ingenuidade, desenhou uma simples mastaba. Queixando-se Djoser que o projecto não era digno de tão grande faraó, Imhotep decidiu alargar a base e construir um andar por cima. Continuando insatisfeito o faraó, Imhotep alargou os dois primeiros andares e construiu um terceiro por cima. Mas como o faraó continuava insatisfeito, voltou a alargar os três primeiros andares para construir um quarto e depois um quinto e ainda um sexto andar. E assim se chegou à construção de uma pirâmide, como túmulo para um faraó, que depois seria repetida em Gizé com muito mais monumentalidade.

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No museu do Cairo pode ver-se uma estátua deste faraó, que reinou entre 2691 e 2625 a. C. Seria hoje um faraó completamente obscuro se não tivesse exigido construir a pirâmide. Diz a Bíblia sobre isto no Ecclesiastes, 12,8: "Vanitas vanitatum et omnia vanitas" (vaidade das vaidades e tudo é vaidade) para reflectir melancolicamente sobre a pequenez das coisas deste mundo. Mas há que reconhecer que a vaidade dos faraós produziu monumentos que resistiram à usura do tempo.

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Viagem ao Egipto (7).

por Luís Menezes Leitão, em 10.01.17

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Ao longo da viagem ao Egipto, descobrimos imensas esfinges, uma vez que esta é uma representação muito comum na mitologia egípcia. Mas há uma que merece de facto ser designada apenas como a esfinge: a grande esfinge de Gizé, que se encontra neste planalto há mais de quatro mil e quinhentos anos, esmagando os visitantes com a sua monumentalidade.

 

Com um corpo de leão e cabeça humana, a primeira dúvida é saber o que representa a esfinge. A primeira versão sustentava que a esfinge era uma representação do Deus Harmakhis (hórus do horizonte), que simbolizava o sol nascente e a sabedoria divina. Mais recentemente, e atendendo a que a esfinge está vestida com um toucado real, sustenta-se que a mesma representa o faraó Quéfren, autor da segunda pirâmide, que a mandou construir em 2.500 a.C., simbolizando o corpo de leão apenas o poder desse faraó. A ser esse o caso, nunca na história da humanidade a majestade real terá sido alguma vez representada de uma forma tão imponente.

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A esfinge está infelizmente sujeita a uma erosão contínua, por força da acção do vento que empurra as areias na sua direcção. Por isso, durante parte da antiguidade e mesmo até ao séc. XIX, a esfinge esteve coberta de areia. Na frente da esfinge um dístico em hieróglifos conta a história do faraó Tutmés IV, que não tinha direito ao trono, mas que lá terá chegado por causa da esfinge. Efectivamente, o príncipe adormeceu em frente à esfinge, na altura coberta de areia, e teve um sonho no qual a esfinge lhe dizia que ele a deveria libertar da areia onde estava aprisionada e que, se o fizesse, como o considerava seu filho, fá-lo-ia faraó das duas terras do Egipto. Tutmés IV manda desenterrar a esfinge, e de facto obtém o trono, após o que manda referir essa história no monumento, ligando-se à esfinge para toda a eternidade.

 

A esfinge é de facto uma representação absoluta da eternidade. Inúmeros reis nasceram e morreram, impérios foram construídos e ruíram ao longo destes quatro mil e quinhentos anos, mas a esfinge, apenas perturbada pelo vento, permanece imutável a olhar para os intrusos que se atrevem a visitar este planalto, onde ela pretende reinar para sempre.

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Viagem ao Egipto (6).

por Luís Menezes Leitão, em 09.01.17

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A apenas 25 km do Cairo encontra-se uma das sete maravilhas da antiguidade, e a única que chegou aos nossos dias: as pirâmides de Gizé, sucessivamente erguidas por três faraós, pai, filho e neto: Quéops, Quéfren e Miquerinos. As pirâmides foram sendo sucessivamente menores, ou porque nenhum dos descendentes se quis equiparar ao seu antecessor, ou mais prosaicamente porque foi faltando a capacidade para construir obras tão grandes. Na verdade, os historiadores especulam se as pirâmides foram construídas com trabalho escravo, ou com recurso a trabalhadores livres, pagos com cerveja. Seja qual fosse o processo, é arrepiante pensar o esforço sobre-humano que foi necessário, não apenas para transportar todos estes blocos, mas também para os colocar sucessivamente uns sobre os outros, em forma piramidal.

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Sobre a Grande Pirâmide, Jean-François Champollion, o decifrador dos hieróglifos do Egipto, disse que temos uma tendência natural para imaginar as coisas muito melhores do que elas são, pelo que ficamos decepcionados quando as vemos ao vivo, mas que era impossível ter esse sentimento em relação à Grande Pirâmide, face à sua monumentalidade. É, de facto, assim. A Grande Pirâmide deslumbra-nos desde o primeiro momento em que a vemos e no sopé da mesma ficamos completamente esmagados pela sua dimensão, e pela capacidade que teve em resistir a todas as invasões do Egipto. Parece que estamos a ouvir Napoleão a proclamar: "Soldados de França! Do alto destas pirâmides quarenta séculos vos contemplam". E de facto as pirâmides de Gizé são das poucas construções humanas com vocação para a eternidade.

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O que não deixa de ser profundamente irónico é que do homem que mandou construir a Grande Pirâmide para perpetuar a sua glória, o faraó Quéops, apenas restou uma pequena figurinha em marfim, exposta no Museu do Cairo. Chegaram até nós estátuas, e inclusivamente, múmias de outros faraós, que nos permitem conhecer o seu aspecto, mas de Quéops apenas esta minúscula imagem. Em qualquer caso será sempre recordado como o criador do maior símbolo do Egipto.

Viagem ao Egipto (5).

por Luís Menezes Leitão, em 08.01.17

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No Museu do Cairo, é interessante encontrar as imagens de uma figura histórica altamente controversa, o faraó Amenhotep IV, da XVIII dinastia, que resolveu reformar a religião egípcia, combatendo o seu clero, e instituindo o culto do deus supremo Aton, representado pelo disco solar. A mudança foi tão profunda que o faraó mudaria o seu próprio nome, de Amenhotep (a satisfação de Amon) para Aquenaton (aquele que agrada a Aton) e deixaria a capital, Tebas, para fundar uma nova capital Aquetaton (o horizonte de Aton).

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O horizonte foi, no entanto, curto, uma vez que Aquenaton só reinaria 17 anos, suspeitando-se que tenha sido assassinado a mando dos sacerdotes. Logo após a sua morte, o seu filho e sucessor Tutankaton ("a imagem de Aton") reinstaurou a religião tradicional, abandonou a nova capital e alterou o seu nome para Tutankamon ("a imagem de Amon"). Por isso Aquenaton foi considerado herético, sendo visto na história do Egipto como um faraó inimigo, julgando-se que tenham sido destruídas grande parte das suas relíquias. No Museu encontra-se um invólucro arrombado, que se julga ter envolvido a sua múmia. 

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A Aquenaton é dado, no entanto, um papel histórico importante como fundador do monoteísmo, embora mais rigorosamente se deva falar em henoteísmo, uma vez que os antigos deuses não eram eliminados, mas apenas relegados para uma posição secundária. Olhando as estátuas, pensamos que Aquenaton deveria ser uma pessoa doente, uma vez que é representado como sendo extremamente magro, mas com um ventre extraordinariamente dilatado. Em qualquer caso, se não fosse a reversão decretada pelo seu sucessor, talvez a sua religião hoje pudesse figurar entre as grandes religiões do mundo. Não sendo esse o caso, resta-nos admirar a beleza do hino que ele criou para adorar o seu deus hoje desconhecido:

 

"Apareces belo no horizonte do céu, 

ó Aton vivo, criador da vida!

Quando te ergueste no horizonte oriental,

encheste toda a terra com a tua beleza.

És gracioso, grande e resplandencente

e estás muito acima de todas as terras.

Os teus raios iluminam as terras 

até ao limite de tudo o que criaste.

És como Ré, chegas ao limite de todos os países,

que unes para o teu filho que amas.

Embora estejas longe, os teus raios chegam à terra.

Embora todos te vejam, ninguém conhece o teu percurso (…).

 

Tudo se move desde que criaste a terra

e a ergueste para o teu filho, que saiu do teu corpo,

o rei que vive pela maet, senhor das Duas Terras,

Neferkheperué-Uaenré,

o filho de Ré que vive pela maet, senhor das coroas,

Akhenaton, grande no seu tempo de vida,

e a grande esposa real que ele ama,

senhora das Duas Terras,

Neferneferuaton Nefertiti, que viva para sempre".

(tradução de Luís Manuel de Araújo, Mitos e Lendas do Antigo Egipto, págs. 97 e 100).

Viagem ao Egipto (4).

por Luís Menezes Leitão, em 07.01.17

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ex-libris do Cairo é o Museu Egípcio, seguramente o mais rico museu do mundo em arte egípcia, ainda que um dos últimos a ser fundado. Efectivamente poucas pessoas sabem que o primeiro museu egípcio do mundo é o museu de Turim, resultante da aquisição da colecção de Bernardino Drovetti, que foi Cônsul da França no Egipto entre 1825 e 1829, período durante o qual recolheu colecções fantásticas de peças, múmias, e papiros. Drovetti propôs-se vender a sua principal colecção ao  Estado Francês, mas foi rejeitada essa proposta, acabando por isso a mesma por ser comprada por uma fortuna em 1824 pelo Rei Charles Felix do Piemonte, que instalou o museu na sua capital, Turim. A inveja que causou noutras cidades europeias esse magnífico museu (que já visitei) levou a que Charles X de França adquirisse a Drovetti outra parte da colecção para integrar o Louvre. Finalmente uma última parte da colecção seria adquirida pelo prussiano Karl Lepsius, que com base nela fundou o Museu Egípcio de Berlim.

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Enquanto que em toda a Europa se fundavam museus a partir das peças subtraídas ao Egipto, o Egipto permanecia apenas como um museu a céu aberto, de onde qualquer pessoa podia retirar tudo. Só em 1858 foi criado o Serviço de Antiguidades do Egipto, que pretendeu evitar a pilhagem das peças, tendo desempenhado papel importante nessa criação Auguste Mariette, conservador do Louvre, que ofereceu a sua colecção pessoal para fundar em 1863 o museu do Cairo, no Bairro de Bulak. Em 1900 transitaria para a Praça Tahrir onde ainda hoje se encontra, mas está em fase de acabamento um novo museu, um grande edíficio nas proximidades.

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Na suas notas de viagem sobre o Egipto, Eça de Queiroz recorda a sua visita ao Museu de Bulak: "O Museu fica à beira do Nilo. As suas varandas abrem sobre a água que corre em baixo, larga e luminosa junto a um bosque de palmeiras. O Museu é novo, branco, polido, envernizado, estofado, alcatifado. Ali estão reunidas vetustas antiguidades egípcias, velhas de milhares de anos, tiradas do fundo dos templos, da escuridão das sepulturas, das câmaras obscuras dos pilones. Estátuas de faraós, ainda com a pintura fresca e delicada, esfinges, toda a sorte de deuses, com cabeças de cães, de chacais, de dromedários, de abutres; deuses nus, delgados, com grandes colares sobre o peito, coroados de plumas de avestruz, de crescentes, de flores de loto; estátuas hieráticas, sentadas, com as mãos espalmadas sobre os joelhos; figuras de sacerdotes e de negros; múmias de faraós, de rainhas, de ibis, de gatos, de bois e de crocodilos; colares, jóias, símbolos religiosos, armas de guerra; pequenas figuras de deuses com que se cobre o peito das múmias; anéis, escaravelhos, sinetes — todas aquelas maravilhas perdidas estão ali, numeradas, classificadas, limpas, asseadas, sob as suas vitrinas novas".

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Hoje não é exactamente assim. O grande problema do Museu do Cairo é que é mais um depósito do que um museu. Não havendo uma ordenação clara das diversas salas, o visitante perde-se entre peças oriundas de períodos históricos muito distintos. Em qualquer caso é uma emoção encontrar pela primeira vez peças tão famosas como o casal Rahotep e Nofret, e admirar a beleza de uma mulher egípcia, sempre jovem apesar dos seus 4.000 anos de idade.

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Viagem ao Egipto (3).

por Luís Menezes Leitão, em 06.01.17

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Depois do Cairo Islâmico, convém conhecer o Cairo cristão, entrando no bairro copta. Dez por cento da população do Egipto é cristã, tendo o cristianismo aqui sido difundido pela primeira vez pelo evangelista São Marcos, mas o país tem uma igreja nacional, a Ortodoxa Copta, que não deve obediência a qualquer outra Igreja, possuindo por isso um sínodo de bispos próprio, liderado pelo seu primaz, o Papa Tawadros II de Alexandria. O Egipto tem-se caracterizado por uma convivência pacífica entre religiões, pelo que causou estupefacção no país o atentado do passado dia 11 de Dezembro contra a Igreja de São Pedro e São Paulo no Cairo, que causou 25 mortos.

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Não visitei essa Igreja, uma vez que no bairro copta existe uma Igreja bastante mais interessante, a Igreja de São Sérgio e São Baco, dedicada a estes dois antigos oficiais do imperador romano Galério que foram martirizados no início do Séc. IV por se terem convertido ao cristianismo, recusando-se por isso a fazer oferendas a Júpiter. Construída no final desse século, a Igreja adquire, no entanto, relevo especial por se acreditar que foi construída sobre a cripta onde a Sagrada Família se refugiou após a fuga para o Egipto, para escapar ao massacre dos inocentes decretado por Herodes. A cripta é por isso objecto de peregrinação e muito visitada, exibindo a Igreja ainda vários manuscritos do início da era cristã, escritos em alfabeto copta, muito semelhante ao grego. Lamentavelmente não é possível tirar fotografias do seu interior.

 

O episódio da fuga da Sagrada Família para o Egipto é dos mais controversos dos evangelhos, aparecendo apenas em Mateus 2, 13-18: "Depois de partirem, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egipto e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procurará o menino para o matar.»  E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egipto, permanecendo ali até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciou pelo profeta: «Do Egipto chamei o meu filho» [Oseias, 11,1]Então Herodes, ao ver que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou matar todos os meninos de Belém e de todo o seu território, da idade de dois anos para baixo, conforme o tempo que, diligentemente, tinha inquirido dos magos. Cumpriu-se, então, o que o profeta Jeremias dissera: «Ouviu-se uma voz em Ramá, uma lamentação e um grande pranto: É Raquel que chora os seus filhos e não quer ser consolada, porque já não existem» [Jeremias, 31,15]

 

Apesar da beleza e do dramatismo deste texto, a sua historicidade tem sido muito questionada. Existindo imensos registos históricos sobre Herodes, nenhum menciona o massacre dos inocentes, sendo que um infanticídio dessa dimensão dificilmente poderia passar sem referência. E o episódio também não se encontra descrito em mais nenhum dos evangelhos, sabendo-se que os três evangelhos sinópticos partem de uma única fonte, o manuscrito Q, pelo que, se esse episódio lá constasse, seria de esperar que aparecesse nalgum dos outros evangelhos. Para além disso, o percurso de Belém para o Egipto (e o subsequente regresso a Nazaré) tem uma extensão de mais de 500 km através do deserto, muito difícil de fazer com um recém-nascido. 

 Em qualquer caso, e apesar do cepticismo acima descrito, é impossível não sentir dentro desta Igreja, ao olhar para a cripta, um sentimento de profunda espiritualidade, ao se imaginar a Sagrada Família ali recolhida, colocando o menino a salvo dos assassinos. E é especialmente simbólico nestes tempos conturbados, onde tantos refugiados procuram igualmente colocar os seus filhos a salvo das perseguições.

Viagem ao Egipto (2).

por Luís Menezes Leitão, em 05.01.17

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O deslumbramento com os monumentos egípcios não deve fazer esquecer o interesse do Cairo islâmico. Neste âmbito impõe-se uma visita à cidadela de Saladino, o famoso chefe militar curdo, ainda hoje venerado pelos árabes. Nascido em Tikrit, na Mesopotâmia, em 1138, Saladino viria a ser sultão do Egipto e da Síria, tendo depois tomado Jerusalém, o que deu origem à terceira cruzada, comandada por Ricardo Coração de Leão. Apesar das vitórias militares deste último, Jerusalém não seria recuperada, tendo pelo tratado de paz de Ramla em 1192 Saladino apenas aceitado que a cidade ficasse aberta às peregrinações cristãs. Amin Maalouf, no seu As cruzadas vistas pelos árabes, descreve o diálogo entre os dois que deu origem ao tratado de paz. Ricardo Coração de Leão explica que pretende terminar a cruzada, pois quer passar o Natal no seu país. Saladino responde que a diferença entre os dois era precisamente essa. É que ele estava no seu país, iria lá passar todos os Natais e não pretendia ir a mais lado nenhum. 

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A cidadela de Saladino foi construída entre 1176 e 1183, tendo passado a ser a sede oficial do governo do Egipto desde 1207 até ao séc. XIX. No interior da cidadela encontra-se a Mesquita de Alabastro, construída entre 1830 e 1848 pelo governador do Egipto Mohammed Ali, que viria a ser enterrado no local. A mesquita domina todo o horizonte do Cairo, mas a história mais interessante é a do seu relógio. Na verdade, Mohammed Ali celebrou em 1829 um negócio com o Rei Luís Filipe de França pelo qual trocou um dos dois obeliscos de Luxor por um relógio de torre. O obelisco de Luxor enfeita hoje magnificamente a Place de La Concorde em Paris enquanto o relógio, que foi instalado na Mesquita de Alabastro, só funcionou durante quatro dias, tendo estado parado desde então. Pelo que vi quando lá estive, o relógio está em obras, pelo que pode ser que o consigam reparar. Em qualquer caso, a vigarice monumental que constituiu este negócio ainda hoje indigna os egípcios.

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Viagem ao Egipto (1).

por Luís Menezes Leitão, em 04.01.17

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Há imenso tempo que andava a planear uma viagem ao Egipto, que fui sucessivamente adiando devido às confusões em que infelizmente se conseguiu colocar o mundo árabe. Mas este ano jurei que seria a altura e nem um atentado no Cairo nas vésperas da viagem, a que se somou outro atentado em Istambul, cidade onde fiz escala por duas vezes, me fez dissuadir desse objectivo. Os terroristas não podem matar toda a gente, e a melhor atitude a tomar é não deixarmos que os atentados influenciem o nosso comportamento. A aposta foi ganha, uma vez que a viagem foi extremamente tranquila.

 

O Egipto é um autêntico museu a céu aberto, e quando julgamos que já vimos tudo o que nos poderia deslumbrar, somos surpreendidos com algo ainda mais grandioso. Na verdade, não há no mundo mediterrânico civilização mais perene do que a civilização egípcia. O Império Romano durou cerca de quinhentos anos, a Grécia Antiga cerca de mil anos, mas o antigo Egipto perdurou por mais de três mil anos. No Egipto o passado e o presente estão profundamente ligados, sendo impressionante a quantidade de testemunhos históricos que ainda hoje se continuam a descobrir. 

 

Curiosamente, a porta de entrada neste mundo mágico é uma cidade perfeitamente banal, o Cairo. Com uma população de cerca de oito milhões de habitantes, e uma área urbana de 23 milhões de pessoas, o Cairo é a maior cidade de África. Especialmente caótica em termos de trânsito, uma vez que nos explicaram que a regra ali é a de que quem tem pressa tem prioridade. Como resultado, os sinais vermelhos são considerados simples decorações de mau gosto. Por pouco não nos ocorreram vários acidentes, mas a perícia dos condutores, que encaram cada viagem como um rally urbano, evita consequências piores.

 

Em qualquer caso é irresistível o pitoresco do Cairo velho, especialmente um passeio nos seus mercados, com inúmeros comerciantes, que vendem exactamente as mesmas coisas, a tentar apanhar qualquer turista desprevenido.

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