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Delito de Opinião

Viagem à Venezuela - V

Paulo Sousa, 16.01.26

De regresso a Caracas, precisei de comprar um adaptador para uma ficha eléctrica, uma vez que usam a tomadas idênticas aos EUA. Indicaram-me o Centro Comercial Sambil, onde, sinais de outros tempos, existe até um Hard Rock Café. Dentro da ferreteria (loja de ferragens) do Shopping encontrei o adaptador que procurava. Quando me preparava para ir pagar, vi uma fila que começava no caixa, fazia todo o comprimento da loja, ao fundo virava noventa graus à esquerda, contornando todo o perímetro do estabelecimento. Isto é a fila para pagar?, perguntei ao funcionário. Não. Estão à espera que cheguem as lâmpadas porque ontem chegou um barco da China com elas.

Quando regressava de táxi ao Hotel e já na rua de sentido único que lhe dá acesso, a uns vinte metros à nossa frente, saiu um carro de uma garagem a andar de marcha-atrás, bloqueando assim a nossa passagem. O que seria algo absolutamente normal noutras paragens, ali fez com que o condutor, num gesto instintivo, esticasse o braço direito até ao porta-luvas e dali tirasse uma pistola. Sem dar por isso, empurrei as costas contra o assento durante uns instantes à espera de ver o que se seguia. O carro que entrara na rua arrancou e seguiu o seu caminho. Depois de respirar fundo, o taxista fez regressar a arma ao seu lugar. Explicou-me que quando viu o carro a bloquear a passagem, pensou logo que era um assalto, Pero, gracias a Dios no fue nada.

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A sete cêntimos de Bolivar cada litro de combustível, o funcionamento das estações de serviço depende de subsídios do estado.

Outra nota que sobressai de Caracas é a sua dimensão e a concentração de capital que ali existiu. São bastantes as avenidas com seis faixas de rodagem e com quilómetros de extensão. Prédios com dezenas de pisos são inúmeros. Apesar da situação de pobreza dos venezuelanos, nada ali se assemelha a, por exemplo, Bissau com a sua meia dúzia de ruas alcatroadas das quais se “desce” à altura de um palmo para as ruas de terra ou lama conforme a época do ano. Falei disso com um local que me respondeu que os prédios e as avenidas só lá continuam porque os chavistas não os conseguiram roubar.

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Já referi o colorido das favelas que faz delas muito diferentes das do Rio de Janeiro. Uma estatística que sobressai da cidade respeita ao nível da criminalidade, onde ocupa o topo mundial, o que explica que todas as moradias e condomínios sejam murados com arame farpado e corrente eléctrica. Soube de uma particularidade interessante. Quando chove, sai-se menos de casa e ocorrem menos crimes.

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Uma outra nota sobre uma bebida local que vi no bar do Hotel e que foi o ron da marca Castro. O slogan era todo um tratado. Cuba Libre, solo con Castro! O barman explicou que era ron venezuelano mas que com a carestia do país a produção da marca tinha sido transferida para a República Dominicana. Quando se diz que o PIB per capita venezuelano, que nos anos 70 superou o da Holanda, caiu 75 pontos percentuais desde o descalabro chavista, é também de coisas destas que estamos a falar.

Uma nota também para a excelência da engenharia portuguesa. Seguem algumas fotos dos prédios construídos pelo tristemente famoso Grupo Lena, que tantas más memórias nos causam.

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Na capital decorriam nessa altura várias manifestações de repúdio ao um qualquer decreto de Obama, que classificara o regime venezuelano como uma ameaça. Mais cartazes, mais manifestações de rua, muito barulho, onde nunca faltavam as bandeiras e os slogans dos amanhãs que cantam.

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A sinistra personagem Diosdado Cabello tinha, e parece que continua a ter, um longo programa diário na televisão. O nome é sugestivo, Con el mazo dando, em que se dirige a todos os que se atrevam a não aplaudir as maravilhas do regime. O que poderíamos descrever como uma moca de Rio Maior é sempre o mote da conversa.

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Além do Orinoco, um mundo à parte, o que vi sobre o estado, o regime e a vida das pessoas comprova aquilo que já imaginava, mas com muito mais detalhe e colorido. Desde então, a minha surpresa prende-se com o modo como um grupo de criminosos, que tomou conta de um país rico, se conseguiu manter no poder durante tanto tempo. Os venezuelanos que conheci depois disso, que já aqui referi, confirmaram a boa opinião que tive daquela gente e entendo bem como agora festejam. Ainda há dias o César me disse que o carro dele avariou, mas que nem isso lhe tira a alegria de ver o Maduro preso. Recordo-me bem das várias vezes em que me disse que aqueles bandidos não roubaram apenas a Venezuela, roubaram a dignidade aos venezuelanos. Gente que não tem medo do trabalho, que vive com uma alegria latina sul-americana, a ter de mendigar para sobreviver e a fugir do país para tentar recuperar a dignidade que lhe foi tirada. É disso que se trata quando falamos no chavismo.

A azia dos que agora, por razões ideológicas e por ignorância, protestam e "exigem" o regresso à situação anterior, mostra como é falso o seu discurso humanista e enviesada a solidariedade que dedicam apenas àqueles que têm o Ocidente por inimigo. De cada vez que um ditador é derrubado, quem ama a liberdade salta e rejubila e por isso termino com uma das frases que se ouve nas festas dos venezuelanos espalhados pelo mundo. Chaves y Maduro ¡Que ardan en el infierno, cábrones!

Viagem à Venezuela - IV

Paulo Sousa, 15.01.26

Num dos dias seguintes fomos visitar uma aldeia dos índios Guaraus, onde se podia comprar algum do seu artesanato e ver o modo como viviam.

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As casas dos índios são construídas sem pregos, nem nenhum outro material que não seja fornecido pela natureza.

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E a cada minuto a natureza reserva-nos mais surpresas.

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Noutra saída fomos de barco a remos para assim evitar que o ruído do motor espantasse os animais.

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Mesmo de dia, os mosquitos ficaram encantados com a casta do meu grupo sanguíneo. Orh positivo, criado em encostas voltadas a sul e amadurecido numa região temperada. Que luxo! Nunca me largaram em todos os passos que dei e gostaram tanto de mim que até queriam que eu lá ficasse mais tempo. Cheguei ao ponto de considerar que afinal a Autoridade Tributária nem era o maior sorvedor de sangue debaixo do firmamento, o que era um óbvio delírio da selva.

Outro momento do passeio a remos, foi quando passamos debaixo, mesmo à vertical, de um tronco de uma árvore onde descansava uma piton. O guia insistiu que era pequena (!!) e que estava a dormir. Tentei convencer-me que ele tinha razão, mas só consegui descontrair os músculos da costas e do pescoço e a voltar a respirar normalmente, bastante tempo depois. Para aliviar e distrair fiquei a pensar para mim: "gosto tanto de ir às repartições de finanças".

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A natureza é ali imensa. Nunca tinha visto nada assim, nem voltei a ver.

Continua

Viagem à Venezuela - III

Paulo Sousa, 14.01.26

Mais de duas horas depois e após algumas paragens nos cais palafíticos que serviam as povoações ribeirinhas, abandonamos o canal principal do rio e subimos um afluente de menor largura. A escolha por passagens cada vez mais estreitas foi-se sucedendo até que praticamente se deixou de ver o céu sem que fosse cruzado pela vegetação. O sentimento de estar num labirinto era total e fez-me lembrar do início de “A Selva” de Ferreira de Castro.

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A vida selvagem nunca se inibe. Os estranhos ali somos nós.

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O ambiente era mesmo o que se pode imaginar como floresta chuvosa tropical. Sempre que imagino ou oiço falar de uma selva chuvosa, recordo-me daqueles dias no delta do Orinoco.

O lodge era composto por um grupo de cabines individuais à beira da água, assentes em estacas que as deixavam a seco mesmo com a subida do nível das águas. Tudo construído com materiais da selva e até a cobertura era feita de vegetação. A circulação entre a casa principal, onde eram servidas as refeições e estava o gerador que permitia iluminar todo o conjunto de cabine, fazia-se sobre um passadiço madeira assente sobre estacas. Imagino que apesar da distância até à foz ainda ser de umas boas dezenas de quilómetros, a subida e descida da água resultasse dos efeitos das marés.

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Outra coisa que está sempre presente são os ruídos da natureza. O que sobressai são os pássaros, mas também os insectos e os macacos, os monos que durante a noite gritam a plenos pulmões e que, juntamente com o calor e a humidade, complicam a necessidade de descansar.

O gerador desligava-se cedo e com ele a iluminação eléctrica. Ouvir os sons da natureza durante tanta hora acabou por se tornar cansativo.

A cama tinha uma rede anti-mosquito que, mais tarde quando me deitei, me fez a sorrir ao ouvir tantas melgas e mosquitos. A alegria foi curta e terminou quando entendi que a rede estava tão rota e com buracos tão grandes que me fizeram sentir ser o banquete de uma festa de casamento. Com conhecimento de causa, posso garantir que é muito melhor estar à mesa do que na ementa.

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A comida dos três dias que se seguiram andou sempre à volta de peixe do rio frito, principalmente piranha, cujo sabor recomendo vivamente. É um peixe muito branco e pouco gordo, que não fosse pelo tamanho podia ser palmeta.

Os filhos do guia viviam por ali e eram eles que tratavam da pescaria. Uma ponta de um pau, dois ou três metros de fio de nylon, um anzol e um pedaço de carne eram o suficiente para abastecer a cozinha. Tentei a minha sorte, mas acabava sempre por ficar sem isco. Tal como durante a noite, descobri que eu tinha jeito mas era para alimentar a bicharada.

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continua

Viagem à Venezuela - II

Paulo Sousa, 13.01.26

O ponto de acesso ao Orinoco é a Ciudad Guayana, onde cheguei num voo doméstico de cerca de uma hora. Por um motivo técnicos, quando estávamos a poucos minutos do destino e já avistávamos a imensidão da barragem de Guri, o avião teve de regressar ao aeroporto de partida. Aterrou, foi reparado e na segunda tentativa tudo correu pelo melhor.

Em conversa com o vizinho do assento do avião que me calhou nesse segundo voo, soube que a capacidade hidroeléctrica daquela barragem fazia dela a segunda maior da América do Sul. Imediatamente ao seu lado, existia uma fábrica com oito fornos para a fundição de alumínio. Este é um tipo de industria que consome muita energia e por isso aquele era um sítio privilegiado e que lhe permitiria exportar muitas toneladas deste metal. Disse-me que depois de a economia ter sido nacionalizada, os melhores técnicos tinham abandonado o país, o que juntamente com a falta de manutenção, fazia com que apenas um dos fornos estivesse em funcionamento.

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Vista aérea da fábrica

Chegado ao aeroporto, esperava-me um condutor que me iria levar até à selva. Seguiram-se algumas horas de carro a atravessar imensas planícies onde se criava gado. Segundo o condutor, era um negócio que nesse tempo pouco ia para além da subsistência dos seus proprietários.

Uma coisa que nunca falhou em toda a viagem, foram as inúmeras pinturas patrióticas e alusiva aos seus excelsos líderes, Bolivar, Chaves e Maduro.

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Finalmente cheguei ao porto de rio, perto de Tucupita, e pude sentar-me na pequena embarcação de madeira que me levou até ao ecolodge Orinoco Queen.

A viagem rio abaixo, demorou mais de um par de horas. Quando estava em deslocação deixei de ouvir fosse o que fosse, uma vez que o motor de dois tempos que tocava o barco era ensurdecedor.

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Nas paragens que foram acontecendo ao longo das povoações por onde íamos passando, ouviam-se os outros barcos, rio abaixo e rio acima, desde grande distância. Nos cais em madeira descarregava-se materiais vários, sendo que o mais vulgar eram jarricans de gasolina. Bem baratos por sinal. Um de quarenta litros custava menos que uma garrafa de água.

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Ainda antes de ter embarcado e a rede de telemóvel já tinha ficado para trás. Quando me lembrei de enviar uma última mensagem antes de passar vários dias dentro da selva, já era tarde de mais. O Orinoco é um bom sítio para fazer um desmame de telemóvel.

Pouco tempo depois de zarparmos começou a chover. Àquela velocidade os grossos pingos tropicais, além de nos poderem encharcar muito rapidamente, faziam doer. A chuva passou a aparecer várias vezes por dia. Mais ou menos intensa, mais ou menos duradoura, mas o calor fazia que depois desta terminar, tudo secasse muito rapidamente. No barco o resguardo era uma grossa cobertura de plástico tipo estufa. Nessa viagem partilhei-a com o outro passageiro, um índio Guarau que tinha ido às compras. Abrigado, fiquei impedido de apreciar a vista. O barqueiro tapou-se também, deixando apenas uma parte do rosto de fora para poder continuar a governar o barco.

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A velocidade foi sempre a máxima que o motor conseguiu imprimir, mas sempre que se avistava um barco no sentido contrário, o condutor desacelerava para conseguir vencer a onda provocada pelo rasto do outro, sem nunca arriscar que virássemos.

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E o gajo aparecia mesmo em todo o lado

Continua

Viagem à Venezuela - I

Paulo Sousa, 12.01.26

Há cerca de dez anos estive na Venezuela. Além de Caracas, visitei também a região do Orinoco, cuja bacia hidrográfica tem cerca de um milhão de quilómetros quadrados o que equivale aproximadamente a dez vezes a área terrestre de Portugal. Não é uma região muito falada, pois quando o assunto toca a florestas tropicais sul-americanas, todas as atenções recaem sobre o Amazonas.

Como é normal em todos os destinos, logo à chegada importa arranjar moeda local. Devido à impossibilidade de levantar dinheiro com cartões internacionais, a única hipótese era, e continua a ser, levar dinheiro vivo para trocar por bolivares. Já não me recordo em detalhe, mas o cambio oficial era cerca de dez vezes mais desfavorável do que o das ruas, pelo que escolhi o não oficial. O tipo com quem falei levou-me a outro e poucos minutos depois já estava sentado no banco traseiro de um carro estacionado no parque em frente ao aeroporto. O dealer dos câmbios disse também ser português da Madeira, embora o sotaque não o permitisse distinguir dos locais. Em troca de uma nota de cem euros entregou-me um tijolo de notas locais que mal conseguia segurar numa só mão. Há quem tenha as mãos maiores do que as minhas, por isso para ser mais rigoroso, e olhando para uma régua de escritório, era um volume com cerca de quinze centímetros de altura. Arqueei as sobrancelhas e coloquei aquela enorme quantidade de papel dentro da mochila. Quando já me preparava para sair, olhei para o banco da frente e vi um outro bloco de igual dimensão à minha espera. Cada calhamaço daqueles equivalia afinal a uma nota de cinquenta das nossas. Lembrei-me das aulas de iniciação à economia, onde a inflação era apenas mais um conceito a memorizar. O que acabara de ali assistir era a mais eficaz das visitas de estudo sobre aquela matéria.

Já abonado com papel-moeda, segui de táxi até ao Hotel Pestana. A viagem desde o aeroporto obriga à travessia da montanha que separa Caracas da costa. Além dos infindáveis cartazes evocativos da pátria, de Simón Bolivar e Hugo Chávez, vi este mural com um palavra que associava muito mais a Espanha que à Venezuela: “Juntos PODEMOS!”. Com o passar dos anos, através de notícias posteriores, concluí que aquela referência não era casual nem inocente.

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Com a aproximação da metrópole começaram a surgir as muito coloridas favelas caraquenhas, onde vive a maior parte da população.

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Já dentro da malha da cidade, o condutor apontou para algumas da inúmeras filas, las colas, à frente das padarias. O quotidiano dos venezuelanos era, e continua a ser, assim. Horas e horas em filas para o pão. Achei que deveriam passar a chamar ao Presidente, Nicodelascolas Maduro. O taxista concordou, mas a moda não deve ter pegado. Foi uma pena porque lhe assentava bem. 

E assim chegámos ao Hotel Pestana, que à entrada exibe uma brilhante placa metálica evocativa da sua inauguração.

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Em conversa com o recepcionista disse-lhe que registava o detalhe de não terem designado o Sr. José Sócrates por engenheiro, mas ele não entendeu o alcance da conversa e encolheu os ombros. Disse-lhe também que a referida figura estava nesses dias encerrado na cela 44 do Estabelecimento Prisional de Évora. Riu-se e respondeu: Es un político... ¿qué esperabas? Senti o impulso de responder que a Europa não é a América Latina, mas a negação do meu argumento tinha sido o princípio da conversa.

Soube que mais tarde passaram a aceitar pagamentos em dólares, mas nessa altura era proibido aceitar pagamentos em moeda estrangeira, e por isso comecei logo a aliviar-me dos blocos de notas que me derreavam as costas. Mais tarde, para outros pagamentos, e depois de esbanjados os primeiros quilos de notas, foi o próprio recepcionista que, perante uma nota europeia cor de laranja, telefonou a alguém informando quantos euros é que eram para trocar. Em pouco mais de um minuto chegou alguém de mota, e o recepcionista disse-me para ir ter com ele para trocar o dinheiro. Observada e avaliada a nota que tinha, entregou-me outro grosso bloco de papel, que simplesmente me limitei a transportar até à recepção. E se cumpria a lei de defesa da economia da República Bolivariana da Venezuela, nem as padarias fazem vida sem uma ou duas máquina de contar notas.

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Se me lembro do propósito desta foto, todos estes índios juntos (há tribos menos populosas) equivalia a cinco euros.

Um indicador do nível do hotel ou da riqueza do país, é a variedade das opções do pequeno-almoço. Um hotel fraco, num país rico, a escolha é curta. Tal e qual como um hotel bom, num pais pobre, mas o que ali encontrei foi mais um indicador da carestia do país. Não quero maçar o leitor com demasiados detalhes, mas nunca tinha visto um tabuleiro dos queijos fatiados, preenchido com fatias quadradas de queijo afastadas umas das outras à distancia das respectivas.

Continua

Venezuela*

José Meireles Graça, 07.01.26

Despachemos primeiro o lirismo: O Direito Internacional foi e é uma tentativa fruste para nas relações entre Estados substituir o uso da força por um código de conduta, proibindo certas acções e estabelecendo sanções através de decisões de tribunais internacionais: Tribunal Internacional de Justiça (TIJ, principal órgão judicial da ONU) para disputas entre Estados e o Tribunal Penal Internacional (TPI) para crimes graves contra a humanidade. Há também tribunais europeus internacionais, esses com jurisdição dentro da EU e que têm verdadeiros poderes por causa do mecanismo do corte de subsídios e outras sanções contra Estados recalcitrantes – o que, evidentemente, nada tem a ver com o caso da Venezuela. E já houve pelo menos um tribunal (o de Nuremberga) que não era internacional mas é justamente olhado como um progresso no âmbito do Direito Internacional – mas não compliquemos.

Já o chapéu da ONU encaixa mal na cabeça da isenção, porque há Estados mais iguais que os outros (os membros permanentes do Conselho de Segurança) e não podem tomar-se como democráticas decisões por maiorias de Estados que democráticos é o que precisamente não são. Já o Tribunal Penal Internacional está ferido pelo facto aborrecido de vários países (EUA, Rússia e China, p. ex.) não reconhecerem a sua jurisdição.

De modo que não vem mal ao mundo em haver um conjunto de princípios jurídicos que têm o louvável propósito de defender os fracos contra os fortes, mas é uma ingenuidade imaginar que os interesses permanentes dos Estados (e até os não permanentes) se deixam sempre regular por aqueles sãos princípios como se não houvesses outros atendíveis.

Durante algum tempo não parecia ser assim. Todavia, quando caiu a URSS caiu com ela a solidez da aliança corporizada pela NATO porque deixou de existir um inimigo comum com intenção e desejo de exportar a sua maneira de organizar o Estado e as sociedades. Sem inimigo comum os irmãos unidos tendem a ficar… desunidos porque o interesse de cada um não é igual ao interesse de cada qual. Talvez algures no futuro venha a renascer esse inimigo comum do Ocidente, mas para já o que temos é o regresso àquelas velhas coisas dos equilíbrios de poderes. A EU, hoje uma máquina trituradora de diferenças nacionais à boleia das desejáveis quatro liberdades do Mercado Único, irá provavelmente tentar um exército único por causa da ameaça russa – boa sorte lá com isso, uma iniciativa a meu ver condenada ao fracasso, matéria de que hoje não me ocupo (de resto, a propósito, a paz que os europeístas frenéticos dizem ter sido garantida pela UE foi-o pela rivalidade planetária russa/EUA, que congelou os blocos nas fronteiras nascidas da II Guerra Mundial, fazendo-se as guerras lá longe, por procuração).

Há interesses que estavam em surdina e agora renascem porque o velho inimigo está enfraquecido mas há novos. A Venezuela era um espinho russo, cubano e sobretudo chinês encravado na garganta americana, que pretende ser o patrão do seu hemisfério. Na verdade nunca deixou de querer, agora apenas está o braço musculoso onde há pouco estava a intenção mais ou menos contida. E Trump, com característica desenvoltura, foi pescar o grotesco general Tapioca local, para efeito de ser julgado numa espécie de tribunal de Nuremberga americano, circunscrito a questões de tráfico de droga.

É atropelo, abuso, descaso, do Direito Internacional? É, já não há paciência para ouvir tanto jurista a abundar na demonstração. Porém: É possível fazer marcha-atrás? Não. E o mundo, e a própria Venezuela, ficam melhor ou pior sem as madurezas esquerdistas e criminosas do capo local? Ficam melhor.

Seria preferível que Trump, falando menos, não abrisse a porta a acusações de que o petróleo teria sido a sua principal motivação. É improvável que o tenha sido, desde logo porque os EUA são energeticamente suficientes. A alegação do petróleo “roubado” é apenas uma trumpice (ainda que com algum fundamento na nacionalização chavista de companhias americanas) – com Trump é sempre melhor reparar no que faz, não no que diz no seu discurso primário de empreiteiro de sucesso. A prometida invasão de empresas americanas para se ocuparem do petróleo em nada prejudica os Venezuelanos: o petróleo local não é um bem escasso, o que escasseia são os capitais e a competência técnica que o chavismo destruiu.

Pode correr mal? Pode. Os presidentes antecessores recentes que embarcaram em guerras, com ou sem botas no terreno (no Golfo, na Líbia, no Afeganistão, entre muitas outras, incluindo na América do Sul) nunca se preocuparam excessivamente com o que deixaram para trás. E não vão longe os tempos em que os neocons pretendiam promover regimes civilizados pelo expediente de despejarem bombas em cima das populações locais, que imediatamente se sentiriam assoberbadas por fortes sentimentos democráticos. Para já parece que Trump quer utilizar o aparelho político e administrativo do madurismo para assegurar uma transição. Faz muito bem, a anarquia e a quantidade de armas disseminadas pela população seriam uma receita para a guerra civil e (mais um) Estado falhado.

E em que ficamos quanto à Gronelândia, o Canadá, a Colômbia, Cuba (Rubio já vai dizendo que se vivesse no Palácio da Revolução em Havana estaria muito preocupado), …? Tentemos ver claro: cada caso é um caso. Uma coisa é uma operação militar especial para capturar um indivíduo (de resto, provavelmente, com colaboração local), outra muito diferente seriam guerras em larga escala, ou pequena mas protelada no tempo, que aliás teriam de ter aprovação do Congresso. Esta não teve, com raciocínios algo capciosos, mas começou e acabou depressa, e teve a silenciosa anuência dos países aliados, que protestam o seu acrisolado amor ao Direito Internacional enquanto interiormente querem mais é que Maduro se dane e pretendem conservar (como nós) a amizade americana. Quanto ao Canadá a ideia é apenas uma bravata trumpista significando nada e a invasão da Gronelândia, sob administração de um país aliado, criaria uma ferida insanável no mundo de que a América precisa para lidar com o seu potencial inimigo, a China. Admitindo que Trump, que é desbocado e imprudente mas não louco, albergue uma tal intenção, as instituições americanas não coonestariam semelhante aventura. Nem aliás o eleitorado, incluindo o de Trump, que foi eleito, entre outras razões, para acabar com guerras, não para as começar. Mas concordo com Rubio: Diaz-Canel deve andar a dormir mal, mas o que lhe tira o sono a ele não me tiraria o meu.

Isto é assim hoje, e o hoje são conquilhas porque caiu um regime execrável e os Venezuelanos exilados (4, 6 ou 8 milhões consoante a fonte) poderão sonhar com o regresso e os que não fugiram mas não apoiavam o regime, a larga maioria, com melhores condições de vida e esperança.

Amanhã não sabemos.

* Publicado no Observador

Como figura central em fita de corsários

Pedro Correia, 07.01.26

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Sensação crescente de que vivemos um momento sério e grave, com evidente erosão da ordem global tal como a conhecíamos há quatro gerações. O direito internacional fundado em 1945 com a Carta da ONU - estabelecida em larga medida por iniciativa dos EUA - acaba de ser torpedeado, sem paliativos, pelo próprio país que o impulsionou.

Donald Trump envia um grupo de operações especiais à capital de um Estado distante com o qual Washington mantém relações diplomáticas, ordena que o seu homólogo local voe algemado para Nova Iorque e proclama-se de imediato regedor supremo dessa nação, sem qualquer mandato para o efeito. Do mesmo passo, desconsidera a oposição democrática, sem lhe reconhecer estatuto para assumir o poder na Venezuela após um quarto de século no combate à clique mafiosa do Palácio de Miraflores. Imitando um senhor feudal, com direito de pernada.

Para já, tolera a posse da número dois da ditadura bolivariana, inaugurando um insólito madurismo sem Maduro. Segue-se o quê? A designação para Caracas de um vice-rei, um alto-comissário ou um governador-geral replicando os modelos coloniais? Logo nos EUA, que fundaram a sua soberania, no século XVIII, em luta aberta contra o colonialismo inglês.

 

Falando aos jornalistas junto ao WC do avião presidencial, mostrando a cara mas mantendo parte do corpo escondido, o chefe do Executivo norte-americano vai multiplicando ameaças: ao Irão, a Cuba, à Colômbia. Sem esquecer o México, vizinho do sul. E o Canadá, vizinho do norte.

As mais impensáveis, por visarem uma nação aliada, são as que tem dirigido ao Reino da Dinamarca com a intenção deliberada de tomar posse da Gronelândia - como se fosse figura central numa fita de corsários. «Precisamos dessa ilha, em nome da nossa segurança nacional», afirmou o inquilino da Casa Branca. Parecendo esquecer que os EUA já lá possuem uma base militar desde 1951.

A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, respondeu-lhe à letra. Com linguagem contundente - única que Trump parece entender. Se Washington cometer algum acto de agressão contra a Gronelândia, a OTAN termina nesse mesmo dia.

Teve o mérito de ser directa e clara, atributos que nem sempre caracterizam os líderes europeus, viciados no balofo linguajar diplomático.

 

Turbulência total: ainda antes de decorrer um ano desde que tomou posse, o sucessor de Joe Biden já subverteu o quadro de relações internacionais, tratando amigos e aliados como inimigos, a partir da sua mansão da Florida, entre duas tacadas de golfe. O cenário tornou-se caótico ao ponto de a República Popular da China surgir hoje como aparente sentinela da legalidade, apelando ao respeito pela soberania dos povos. 

Trump não tornou apenas o mundo muito mais perigoso: anda a voltá-lo do avesso. Isto tem tudo para acabar mal. E provavelmente terminará mesmo.

O General Tapioca foi derrubado.

Luís Menezes Leitão, 04.01.26

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Há vários anos que denuncio neste blogue as patifarias do golpista Nicolás Maduro, verdadeira imitação do General Tapioca do Tintim. Em 13 de Agosto de 2017 critiquei veementemente a pseudo assembleia constituinte por ele criada para se perpetuar no poder, tendo-lhe chamado uma fantochada. Voltei a ter a mesma opinião em Julho do ano passado, quando o mesmo se proclamou vencedor de umas eleições fraudulentas

Não consigo por isso lamentar a queda deste homem, que tão mal fez ao povo venezuelano, colocando-o na maior miséria, quando dispõe dos maiores recursos naturais do mundo. O regime chavista já há muito que devia ter acabado e, se tal ocorreu ontem, só se pode dizer que já foi tarde.

A Putinização de Trump

João André, 04.01.26

Quando escrevi a minha ladainha há apenas 4 dias - mas no ano passado, esqueci-me da Venezuela e demais países da América do Sul. Quando pensei nisso, ainda considerei rever o post, mas decidi não o fazer. Em apenas 4 dias Trump decidiu atacar o país e raptar o seu governante.

Tratemos já de um aspecto: Maduro era um ditador e o seu regime era ilegítimo e brutal e fez a vida dos seus cidadãos muitíssimo pior do que era antes. Há muito que idealmente deveria ter sido expulso do poder.

No entanto, não há justificação para o ataque americano à Venezuela nem para o rapto de Maduro - e sua mulher. Nem com base no Direito Internacional, nem sequer com base nas leis dos EUA. Os argumentos que Trump usaram não colhem nem sequer tentam ser consistentes. Maduro provavelmente nada tem a ver com o tráfego de drogas para os EUA, nem é promotor de terrorismo. Os seus argumentos de defender os venezuelanos são obviamente treta, já que se está nas tintas para eles. E ser um comunista também não colhe, caso contrário teria invadido outros países. Há um, e apenas um, argumento: os seus recursos naturais, petrolíferos minerais. O facto de dizer que as empresas americanas tratarão da produção de petróleo e que os EUA irão governar a Venezuela demonstra a mentira. Esta foi uma acção de roubo à mão armada, nada mais.

É a putinização de Trump. A seguir veremos Putin tentar o mesmo com Zelenski e Xi a actuar de forma semelhar em Taiwan. Roubo pelo mais forte. O mundo não só está mais perigoso, está a caminhar para o abismo.

Nota para as Nações Unidas: são hoje inúteis fora um ou outro programa. A sua presença em Nova Iorque é uma aberração. A única coisa que deveria ser feita seria retirarem-se da sua sede actual, reduzir o seu tamanho, expulsar EUA, Rússia (e talvez e China) e abolir o veto. Necessitaria de uma refundação da organização, muita coragem, e uma enorme redução dos seus programas, mas talvez seja o única caminho. Está visto que os EUA (não é de agora com Trump) vê os acordos na ONU como não servindo sequer para papel higiénico.

Leitura (ou audição) complementar com explicação sobre a geopolítica do petróleo.

Nota: por erro técnico o meu post a certo ponto surgiu como sendo do Pedro. Este novo post serve agora para corrigir.
Os comentários ao post foram entretanto adicionados, infelizmente sob o meu nome. As nossas desculpas pelo inconveniente.

Notícias de Caracas

Paulo Sousa, 03.01.26

Logo pela manhã, quando soube da operação norte-americana na Venezuela, enviei uma mensagem a um casal de venezuelanos que, depois de fugirem do paraíso socialista, se fizeram meus vizinhos e, mais tarde, amigos.

- Então? Acabou a ditadura, César?

- Pablo! A gente aqui quase que não dormiu! Às cinco e pouco de la mañana que empezamos a recibir mensagens e a seguir as notícias. Incríbel! A gente aqui não pára de sorrir e de bailar. Incríbel!

Um prémio mais que merecido

Pedro Correia, 10.10.25

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Donald Trump andava a fazer figuras ridículas, implorando que lho concedessem, como fedelho birrento em véspera de Natal. Mas o Prémio Nobel da Paz, hoje anunciado em Oslo, distingue quem realmente o merece: a intrépida líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, há mais de um ano clandestina no seu próprio país, que Nicolás Maduro converteu em narco-estado. Onde os mais elementares direitos humanos são espezinhados. Onde há cerca de dois mil presos políticos. Onde a fraude eleitoral inutilizou os mecanismos formais da democracia representativa ainda vigentes no consulado de Hugo Chávez, o autocrata que precedeu Maduro. Onde o destino de grande parte da população é emigrar em massa: mais de sete milhões cruzaram a fronteira na última década, fugindo ao pesadelo do "socialismo bolivariano", que converteu o país dotado das maiores reservas de petróleo do mundo numa ruína económica em ameaça permanente de colapso social.

Nas palavras do presidente do Comité Nobel, Corina é laureada por «manter acesa a chama da democracia na crescente escuridão» vigente na Venezuela, outrora a mais próspera nação da América hispânica. Maduro impediu-a de concorrer à eleição presidencial de Julho de 2024. Ela não desistiu: convenceu o antigo diplomata Edmundo González a avançar contra o déspota, mobilizando largos milhões de eleitores. Fechadas as urnas, contados os votos, ficou claro que a vitória coube ao candidato da oposição. Mas a clique militar alimentada pelo narcotráfico que domina o regime de Caracas com mão de ferro mandou a vontade popular às urtigas, impondo Maduro como "triunfador" sem se dar sequer ao incómodo de divulgar as actas eleitorais. Seguiu-se nova onda repressiva, forçando González a pedir asilo político à embaixada espanhola na Venezuela. Hoje vive exilado em Madrid.

Ela, no entanto, resiste no lugar próprio: a terra onde nasceu. Por meios pacíficos, apelando à resistência cívica, condenando sempre o recurso à violência sob o lema «votos em vez de balas». Mas sem temor dos verdugos, obcecados em depositá-la numa masmorra: a sinistra Sebin, polícia política da ditadura, tem ordens expressas para continuar a procurá-la em cada recanto do país. Felizmente sem sucesso até agora, o que não ilude esta inquietante evidência: María Corina arrisca não só a liberdade, mas a própria vida.

Recebi a notícia do Nobel da Paz 2025 com imensa satisfação nesta semana tão fértil em acontecimentos. E concluo: raras vezes este prémio foi tão merecido.

 

Leitura complementar:

A Mulher do Ano (1 de Agosto de 2024)

Pela liberdade, contra a ditadura (21 de Setembro de 2024)

Pela liberdade, contra a ditadura

Pedro Correia, 21.09.24

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Este ano, nenhuma dúvida: o Prémio Sakharov, do Parlamento Europeu, deve destacar os dois rostos mais visíveis da oposição na Venezuela: Maria Corina Machado, a Mulher-Coragem que enfrenta com risco da própria vida a oligarquia "bolivariana", e Edmundo González, o homem que com desassombro e dignidade deu a cara na eleição presidencial que venceu por larga margem e da qual foi espoliado pela camarilha de Caracas.

Ela e ele representam os venezuelanos. Incluindo os 2400 presos políticos encarcerados nos temíveis calabouços da narcoditadura de Nicolás Maduro, vários dos quais sujeitos a torturas. Incluindo os cerca de oito milhões que na última década "votaram com os pés", abandonando o país, outrora o mais próspero da América hispânica, em busca de pão e liberdade.

A propósito, o meu elogio a Francisco Assis, que não hesitou em demarcar-se da maioria da bancada socialista na eurocâmara votando «por imperativo de consciência» a favor do reconhecimento de Edmundo González como legítimo presidente eleito da Venezuela, contestando a vergonhosa fraude eleitoral que atribuiu a vitória ao derrotado nesse escrutínio. Outros quatro eurodeputados do PS tomaram a mesma posição. Merecem também elogio.

Isto enquanto o Partido Comunista da Venezuela acaba de denunciar as sevícias a que têm sido sujeitos muitos jovens opositores da tirania de Maduro, vários deles ainda menores. «Torturados com electricidade, mecanismos de asfixia e espancamentos», às ordens da sinistra Sebin, a PIDE venezuelana.

Nada que pareça incomodar o PCP, muito pelo contrário. Cego e surdo aos dolorosos protestos dos próprios camaradas de Caracas, Paulo Raimundo e os restantes membros do Comité Central cá do sítio continuam a comportar-se como serviçais do déspota de Caracas. Tal como prestam vassalagem ao genocida de Moscovo.

Assim vão traindo a memória dos comunistas que em vários quadrantes sofreram prisões e torturas. Ignomínia moral perante o que acontece hoje na Venezuela, dia após dia, a tantos combatentes pela liberdade.

Prende, tortura e mata

Pedro Correia, 06.08.24

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O déspota venezuelano prometeu e cumpriu: anunciou «um banho de sangue» no país se os eleitores não o reelegessem para as funções que exerce desde 2013 no Palácio de Miraflores, onde sucedeu a Hugo Chávez, o finado que de vez em quando o visita em forma de passarinho.

A 18 de Julho, dez dias antes do escrutínio presidencial, o antigo condutor de autocarros declarou numa das suas habituais arengas públicas em que aparece rodeado de guarda-costas: «O destino da Venezuela depende da nossa [dele] vitória em 28 de Julho se não quiserem que a Venezuela caia num banho de sangue.»

Ou ele ou o caos: já receava o veredicto das urnas. Que aconteceu na data marcada, desencadeando a mega-fraude eleitoral no narco-Estado que já foi o mais próspero país da América do Sul e é hoje o mais miserável após um quarto de século sob o jugo do chavismo-madurismo.

Desacreditado aos olhos do mundo inteiro, sem nenhum país democrático a validar a monumental chapelada, o tirano desatou a sequestrar militantes da oposição, acumulados nas prisões de alta segurança de Tocorón e Tocuyito - Caxias e Peniche lá do sítio. Rasgou de vez as garantias constitucionais, impôs na prática um estado de sítio. Exigindo «castigo máximo» a quem ousa fazer-lhe frente, com a vergonhosa cumplicidade de pseudo-juízes que ele transformou em paus-mandados. Orgulha-se da onda repressiva em curso, revelando que em três dias o país registou dois mil novos presos políticos, sob a alçada da tenebrosa SEBIN, a Pide venezuelana. E decreta de antemão a sentença para todos eles: «Castigo máximo!»

Mas não há só prisões arbitrárias e torturas sistemáticas, denunciadas pela Amnistia Internacional e pelo Observatório dos Direitos Humanos. Houve também 19 mortos confirmados nos quatro dias subsequentes à farsa eleitoral. Todos foram baleados. O mais velho tinha 56 anos. O mais novo, apenas 15.

Fraude nas urnas, presos de consciência, assassínios por delito de opinião: eis tudo quanto o PCP sempre disse condenar e afinal aplaude entusiasticamente, em obscenas loas ao sátrapa de Caracas. Posição miserável, em contraste com a dos comunistas venezuelanos, agora também eles perseguidos. 

Observo tudo isto interrogando-me se não subsiste ninguém com um pingo de vergonha na sede da Rua Soeiro Pereira Gomes, transformada em clube de fãs do maior torcionário actual sul-americano. Que se orgulha de oprimir o próprio povo enquanto vai cavaqueando com passarinhos e recebe a bênção dos piores abutres.

Acerca da Venezuela

jpt, 03.08.24

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(Bogotá, frente ao consulado da Venezuela, 2.8.2024. Fotografias de Pedro Sá da Bandeira)

O regime de Chavez e seu avatar Maduro prolonga o estertor, na fraude eleitoral, sequestro de opositores, repressão generalizada. Governos de diferentes tendências na sua região repudiam os acontecimentos, da Argentina ao Chile, entre Uruguai, Costa Rica ou Peru. Aflitos com a degenerescência do gigantesco vizinho, exaustos com os contínuos fluxos de refugiados venezuelanos, outros governos à esquerda da região tergiversam, empurram a situação para "negociações". Fá-lo o México, sempre no sonho de grande potência regional para sul, também a Colômbia, onde um frágil e fragilizadíssimo presidente Petro se mascara em laivos de vínculos ideológicos, fá-lo até o Brasil, onde o tão típico Silva se aprestou a sufragar a fraude maduriana, para logo matizar, prestando-se à rábula "negociadora". Por cá na Europa há ainda quem defenda Maduro - às escâncaras o nosso PCP brejnevista, os "Podemos" vizinhos, e mais alguns proto-brigadistas Europa afora, para além do húngaro Orban, que alguns intelectuais fascistas tanto vão louvando.

Hoje sairá o povo à rua na Venezuela - se as "revolucionárias" forças de segurança deixarem. E alhures também. Deixo aqui eco de pequena manifestação  já ontem ocorrida em Bogotá, congregando venezuelanos ali refugiados. Hoje, sábado, muitos mais sairão, em associação com as manifestações no seu país. E serão acompanhados pelos colombianos, pois a oposição não só os apoia, repudiando o "silêncio" inactivo de Petro, como cavalgará a situação para contestar o actual poder.  

As fotografias são do meu querido amigo Pedro Sá da Bandeira - veterano fotorepórter do "Record" e da "Lusa", entre outros, trota-mundos, e que agora vive em Bogotá, calcorreando aquela região. Sempre de máquina em punho.