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As "folhas secas" de Caracas

por Pedro Correia, em 01.05.19

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É, desde já, uma das imagens do ano. E também uma das mais chocantes. Um blindado antimotim da Guarda Nacional Bolivariana salta um separador numa larga via circular de Caracas e arremete a toda a velocidade rumo à faixa contrária, onde se agrupam largas dezenas de manifestantes desarmados, atropelando-os sem piedade, como quem esmaga folhas secas no alcatrão. Logo alguns ficam estendidos no solo, ignorando-se o que lhes sucedeu.

O mundo inteiro viu: esta é a verdadeira face da ditadura de Nicolás Maduro. Um regime que apregoa o socialismo revolucionário enquanto reprime, esmaga e tortura os humildes que ousam contestá-lo. Um regime que encerra órgãos de informação, censura vozes livres, aprisiona deputados e autarcas, silencia cadeias de televisão internacionais e suprime comunicações telefónicas, asfixiando a liberdade. Um regime que condena a população à penúria, à desnutrição e ao desabastecimento dos bens essenciais. Nos últimos oito anos, os venezuelanos perderam em média oito quilos por efeito da fome endémica e da falta de proteínas. Enquanto o ditador, encerrado no palácio, vai engordando.

 

Falta tudo em Caracas: luz, água, alimentos e medicamentos. Só não faltam os crimes: é a capital onde se regista a maior taxa de homicídios do planeta, quase todos permanecendo impunes, grande parte deles cometidos pelos chamados "colectivos", gangues armados até aos dentes por Maduro para esmagar focos oposicionistas nos bairros populares, funcionando como a face mais negra e sangrenta do regime.

A Venezuela é também o país com a maior taxa de inflação a nível mundial: 10.000.000% ao ano, algo impensável para os nossos padrões europeus. Nada se consegue pagar com o dinheiro da treta, que não vale sequer o papel em que é impresso, no país que possui as maiores reservas de petróleo do hemisfério ocidental. Enquanto o caudilho se entrincheira num bunker palaciano, vigiado a todo o momento pela guarda pretoriana que Cuba lhe forneceu, totalmente isolado do povo, há largos meses sem descer à rua. Transformado num títere de Havana.

 

O mundo inteiro viu o Golias blindado, ao serviço da revolução falhada, esmagar os Davids civis que se atreveram a protestar contra a tirania. O mundo inteiro indignou-se. Todo? Não, todo não. Para Catarina Martins, coordenadora do BE, a culpa da fome, da miséria e da repressão armada na Venezuela socialista resulta da «ingerência máxima» dos Estados Unidos. Debitando a vulgata pró-soviética dos tempos da Guerra Fria. Evitando cuidadosamente pronunciar uma só palavra de crítica a Maduro.

Como se não tivesse observado as imagens de Caracas. Ou - pior ainda - como se as tivesse visto e ficasse indiferente a elas.

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Hergé já o tinha previsto.

por Luís Menezes Leitão, em 01.05.19

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Entre os mais comentados

por Pedro Correia, em 01.05.19

Em 22 destaques feitos pelo Sapo em Abril, entre segunda e sexta-feira, para assinalar os dez blogues nesses dias mais comentados nesta plataforma, o DELITO DE OPINIÃO recebeu 19 menções ao longo do mês. 

 

Os portais foram estes, por ordem cronológica:

Belles toujours (28 comentários)

Reformismo e revolução (38 comentários)

Uma coerência exemplar (36 comentários, segundo mais comentado do dia)

O bispado de Bolsonaro (34 comentários)

Lavourada da semana (26 comentários)

As flores de estufa (36 comentários)

Penso rápido (91) (30 comentários)

Belles toujours (26 comentários)

A Igreja Católica em crise (91 comentários)

Assombro e dor (40 comentários)

Estátuas dos nossos reis (apêndice 1) (34 comentários)

E que tal ter férias em Caracas? (34 comentários, terceiro mais comentado do dia)

Votos de uma Santa Páscoa (23 comentários)

O Sri Lanka e o estado do Ocidente (50 comentários)

Lavourada da semana (22 comentários)

Estrelas de cinema (30) (38 comentários, terceiro mais comentado)

Pago jornal, levo propaganda (56 comentários, terceiro mais comentado)

Belles toujours (62 comentários, terceiro mais comentado)

O "direito" a prejudicar outros (64 comentários, terceiro mais comentado)

 

Com um total de  768 comentários  nestes postais. Da autoria do JPT, da Cristina Torrão e de mim próprio.

Fica o nosso agradecimento aos leitores que nos dão a honra de visitar e comentar. E, naturalmente, também aos responsáveis do Sapo por esta iniciativa.

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E que tal ter férias em Caracas?

por Pedro Correia, em 18.04.19

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Foto: Tiago Petinga/Lusa

 

Ia escrever sobre o tema, mas afinal o texto já estava escrito. Aqui, pelo Eduardo Louro.

Incluindo a frase de remate, que desvenda bem esta tola sociedade consumista em que nos tornámos: ao toque de qualquer sineta alarmista, largos milhares atropelam-se para conseguir um lugar na bicha, precisem ou não precisem. 

«Já estive ontem na fila e atestei, mas como ontem ainda acabei por gastar uns 20 euros, hoje venho atestar outra vez...» 

A esta gente, que atesta o depósito depois de o ter já atestado, recomendo uma semana de férias no "paraíso" venezuelano. Onde tudo falta, excepto ao recluso do Palácio de Miraflores, e as filas são gigantescas, quase sempre para nada obter. Porque nada há lá para consumir, a começar pela água e pela luz.

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De olhos bem fechados

por Pedro Correia, em 23.02.19

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«Há um perigo na Venezuela», onde um tirano proto-comunista, cabeça de turco de uma ditadura militar, não hesita em mandar atirar contra o povo, condenando-o à doença e à fome, perante a indignação universal.

Universal? Nem tanto. Ainda não li nenhum texto indignado contra Maduro subscrito em conjunto por Freitas do Amaral e Francisco Louçã, semelhante ao que publicaram há dois meses no El País em vigoroso alerta contra Bolsonaro. Quanto à Venezuela, continuam de olhos bem fechados.

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O General Tapioca da Venezuela.

por Luís Menezes Leitão, em 23.02.19

Cada vez que vejo na televisão o Maduro a discursar, só me vem à mente esta personagem do Tintin.

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Venezuela: quase tudo dito aqui

por Pedro Correia, em 12.02.19

«Venezuela. O PC e o Bloco tomaram uma posição política e moralmente abjecta. A extrema-esquerda continua a fazer a política externa da Rússia, por puro ódio à América, agora reforçada pelo ódio a Trump. (...) Ainda por cima esta gente não percebe que a Rússia é hoje uma potência de segunda ordem; o "Gabão com mísseis" de Helmut Schmidt. Há cinco estados dos Estados Unidos com um PIB maior que o da Federação Russa; e sobram 45. Os americanos salvaram a Europa dos nazis e dos comunistas, mas não tencionam salvá-la de Putin.

(...) É para isto que o PC e o Bloco aplicadamente trabalham. Maduro abriu as portas da Venezuela aos russos e aos chineses. Os russos venderam-lhe armamento (15 mil milhões de euros) e os chineses emprestaram-lhe dinheiro (3 mil e quinhentos milhões de euros). Consola saber que os nossos revolucionários defendem estes negócios contra a ambição imperialista da Europa e da América de ajudar as 370 mil pessoas que estão em risco de morrer.»

(...) Toda a gente diz que o Exército decidirá tudo. Mas toda a gente sabe que esse Exército é um Exército patrioticamente sul-americano, sem a mais vaga tradição de combate e com 2 mil e tantos generais (os Estados Unidos, a primeira potência militar do mundo, têm 900) que se dedicam a roubar o Estado e ao tráfego de droga e divisas. Quando Guaidó apela à "honra" dessa camarilha burocrática e suja, não fico muito convencido.»

 

Vasco Pulido Valente, no Público (9 de Fevereiro)

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Presidente Juan Gaidó

por Pedro Correia, em 05.02.19

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Por uma Venezuela livre.

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Que esquerda é esta?

por Pedro Correia, em 01.02.19

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Jerónimo de Sousa diz-se de esquerda.

Mas que esquerda é esta, que apoia o capitalismo selvagem na China, a plutocracia criminosa de Moscovo, o sistema totalitário vigente na Coreia do Norte e a miserável "revolução bolivariana" que levou a Venezuela ao extremo da penúria, com 47% das famílias a passar fome?

Acabo de ler uma mensagem de «calorosas saudações» do secretário-geral do PCP, com o habitual jargão leninista, saudando o «caminho libertador» inaugurado por Nicolás Maduro e os seus esbirros que prendem, torturam e matam opositores, liquidam órgãos de informação, silenciam magistrados independentes e já condenaram três milhões de venezuelanos ao exílio. Num país que, possuindo as maiores reservas de petróleo do hemisfério ocidental, tem um salário mínimo de sete dólares,  ostenta a maior inflação a nível planetário e sofre de permanente escassez de medicamentos e alimentos básicos.

Releio esta carta com papel timbrado do PCP, em nome dos valores da "esquerda", e de novo me interrogo: que esquerda é esta que apoia a fome, cultiva a pobreza, justifica a miséria, aplaude a violência, enaltece a prisão política, amordaça a liberdade e renega a esperança?

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Frases de 2019 (3)

por Pedro Correia, em 21.01.19

«Da Europa vêem-nos com bons olhos. Os "coletes amarelos" vêem-nos com bons olhos. Mandaram-me um colete amarelo.»

Nicolás Maduro, Presidente da Venezuela, ao tomar posse num novo mandato (10 de Janeiro), após um processo eleitoral fraudulento, com os principais oposicionistas presos ou exilados

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O esquecimento do 'Expresso'

por Pedro Correia, em 27.10.18

Há dias escrevi aqui sobre as indignações selectivas, a propósito de política internacional. Pois nem de propósito: o editorial do Expresso de hoje - num estilo e com uma linguagem muito diferentes do habitual - constitui um exemplo vivo disto mesmo. 

«O Brasil somar-se-á à história sombria que, com matizes diferentes, está a ser construída nos últimos anos, com o endurecimento de regimes como o da Turquia e o das Filipinas, a eleição de populistas nos Estados Unidos, as subidas eleitorais de candidatos nacionalistas na Europa em países como França e Alemanha, o radicalismo na Polónia ou o antieuropeísmo em Itália.» Assim se pronuncia o preocupado e pomposo editorial sobre o que se vai passando por esse mundo fora.

Esquece o anónimo editorialista do Expresso o drama da Venezuela, que desde 2013, sob a gerência do populista ultranacionalista Nicolás Maduro, tem empurrado o país para a ruína económica, a tirania política, a violência impune e a asfixia das liberdades democráticas, condenando quase quatro milhões de compatriotas ao exílio noutras paragens - incluindo Portugal.

Faria bem o sobressaltado plumitivo em ler uma excelente reportagem de João Carvalho Pina, publicada esta semana na revista Sábado sob o título «Venezuela: a grande fuga». Em que se relata, a partir do local, como a vizinha Colômbia tem acolhido centenas de milhares de venezuelanos que ali acorrem em circunstâncias dramáticas.

Maduro, caudilho num Estado onde o salário mínimo paga apenas um rolo de papel higiénico e os preços subiram 223,1% só no mês de Agosto, embrulha as bravatas patrioteiras com retórica socialista e "anti-imperialista". Será isso que leva o conspícuo semanário a ser tão selectivo nas suas indignações?

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Calam e consentem

por Pedro Correia, em 24.10.18

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Não vejo por aí comícios indignados contra o caudilho venezuelano, que manda matar opositores detidos pela sinistra política Sebin, expulsa quatro milhões de compatriotas para os países vizinhos e faz mergulhar o país num apocalipse monetário: um salário mínimo, nesta república que possui as maiores reservas de petróleo bruto do planeta, paga apenas um rolo de papel higiénico ou um quilo de tomates.

Maduro, o narcotirano que oprime e empobrece os venezuelanos, pode contar com a indulgente "boa consciência" ocidental, que apenas se mobiliza em função de indignações selectivas. Quando os ecos da  repressão e do  crime chegam de Caracas, os revoltados de turno fingem não saber.

Calam e consentem.

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No pasarán.

por Luís Menezes Leitão, em 29.12.17

Há que dar apoio ao perseguido governo venezuelano, a quem uns capitalistas indecentes privaram do acesso ao pernil de porco. Ficámos a saber que Mário Lino, que tinha sido tão bem tratado pelo grande comandante Hugo Chávez quando fazia parte do governo socialista de José Sócrates, afinal se passou para os capitalistasse recusa a vender pernil de porco a crédito ao povo venezuelano. "Queres fiado? Jamé!", terá respondido ele aos apelos insistentes de Nicolás Maduro, mesmo depois de Sócrates ter impingido ao comandante Chávez um milhão de computadores Magalhães. E o governo português da geringonça, em vez de mostrar solidariedade ao povo irmão da Venezuela, vem dizer que não interfere no pernil de porco. Há que desencadear uma rápida reacção do movimento operário mundial contra os patifes dos capitalistas, e fazê-los mesmo esticar o pernil. E o governo traidor português da geringonça deve ser denunciado como inimigo do povo e da classe operária. No pasarán!

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Amanhã, em Estrasburgo, o Parlamento Europeu reunido em sessão solene entregará o Prémio Sakharov 2017 a representantes da oposição democrática e plural da Venezuela.

Será um momento muito importante. Pelo seu simbolismo e pelo alento que dará à vasta frente política e social que combate a oligarquia de Caracas e o seu rosto mais visível, o ainda Presidente Nicolás Maduro, autoproclamado "filho de Chávez", que lega à posteridade um regime corrupto e um país arruinado, onde vigora a maior taxa de inflação do mundo e os artigos de primeira necessidade - começando pelo papel higiénico - são hoje bens de difícil acesso.

 

A  Venezuela é hoje um país sem pão nem liberdade.

Um país onde mais de cem jovens foram abatidos este ano na rua só porque protestavam contra a o Governo.

Um país com centenas de presos políticos.

Um país onde a justiça está submetida ao poder político e a procuradora-geral, perseguida por esbirros de Maduro, teve de se asilar num país vizinho quando investigava os tentáculos do narcotráfico em Caracas.

Um país onde vigoram as maiores taxas de homicídios e de crimes violentos do planeta.

Um país onde os principais meios de informação foram encerrados ou mudaram compulsivamente de proprietários para passarem a entoar hossanas ao regime.

Um país onde os opositores mais destacados são forçados a rumar ao exílio ou vegetam nos calabouços de Ramo Verde, sinistro símbolo da repressão "bolivariana".

 

Prestigiado galardão que visa distinguir os combatentes pelos direitos humanos, o Prémio Sakharov reforçará a resistência ao déspota que transformou a precária democracia venezuela numa ditadura.

Maduro anulou a Assembleia Nacional onde a oposição dispõe de larga maioria, mandando prender deputados que gozam de imunidade jurídica face à própria lei venezuelana. Fez eleger um parlamento fantoche, destinado a "redigir uma nova Constituição" que porá fim à de 1999, proclamada pelo seu antecessor. Promoveu a maior fraude eleitoral do século na América Latina. Muda datas eleitorais à mercê dos caprichos e conveniências políticas. E já anuncia que não permitirá candidatos da oposição nas presidenciais de 2018, enquanto garante que o seu  Partido Socialista Unido da Venezuela governará pelas "décadas e séculos que estão por vir". Linguagem típica de ditador.

 

Segue-se uma resenha de algumas das principais notícias ocorridas na Venezuela desde 30 de Julho, quando foi oficialmente eleito o parlamento fantoche, alcunhado de Assembleia Constituinte, composto apenas por fervorosos apoiantes de Maduro:

 

Assembleia Nacional, eleita há 20 meses com larga maioria da oposição, foi esvaziada de funções.

Procuradora-geral da República exila-se na vizinha Colômbia.

Presidente da Câmara de Caracas, em prisão domiciliária desde 2015, refugia-se em Espanha.

Juízes venezuelanos forçados a abandonar o país.

Cinco magistrados fogem de Caracas para se reunirem ao Supremo no exílio.

Famílias inteiras deixam a Venezuela só com a roupa que trazem vestida.

342 presos políticos permanecem nos cárceres de Maduro e vários deles são torturados.

Caritas venezuelana alerta: há 300 mil crianças subnutridas em risco de morte no país.

Músico Adrían Guacarán, de 44 anos, morreu após 24 horas à espera de um medicamento que não havia.

Caos na saúde: mulheres dão à luz em salas de espera de hospitais.

Malária, difteria e sarampo: epidemias regressam ao país de Maduro.

Animais morrem de fome no maior jardim zoológico venezuelano.

Governo de Maduro manda encerrar duas populares rádios de Caracas.

Jornal independente Ultima Hora fecha por falta de papel de impressão.

Maduro manda emitir notas de 100 mil euros para fazer face à maior inflação do mundo.

Preços subiram 56,7% só em Novembro.

Eleições autárquicas realizaram-se quase sem candidatos da oposição.

Maduro quer proibir principais forças da oposição a concorrer às próximas presidenciais.

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Um herói caído em desgraça

por Diogo Noivo, em 15.08.17

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Em Espanha, Alberto Casillas foi um herói para os manifestantes anti-tudo. No dia 25 de Setembro de 2012, jovens "indignados", pertencentes a movimentos anti-sistema, anti-globalização e a uma lista infindável de associações ditas cívicas, promoveram a iniciativa Rodea el Congreso ("Cerca o Parlamento", um mote que, como é bom de ver, jorra civismo por todo o lado). Houve excessos por parte dos manifestantes e a polícia espanhola não é famosa por ser meiga. Aqueles que não foram detidos procuraram refúgio. Os que entraram no bar El Prado, em Madrid, tiveram a protecção de Alberto Casillas Asenjo, um empregado de mesa que se meteu entre os manifestantes e o corpo de intervenção. Alberto disse à polícia não querer violar a lei, mas foi irredutível na defesa dos manifestantes que se encontravam dentro do bar, afirmando que não autorizaria um "massacre". As imagens do acto de bravura de Alberto tornaram-se virais. Os colectivos anti-tudo saudaram o herói e desdobraram-se em agradecimentos laudatórios nas redes sociais.

 

Passaram uns anos e Alberto Casillas voltou às notícias: em 2014, interrompeu um acto público, em Madrid, onde Pablo Iglesias, caudillo do Podemos, era o convidado principal. Iglesias, que assessorou o regime chavista e que dele conseguiu financiamento para criar o Podemos, entretinha-se a criticar a "casta", os políticos "de siempre". Alberto levantou a voz e perguntou ao líder do Podemos se não tinha vergonha de ter assessorado o regime venezuelano. "Mi esposa no puede comprar papel ni comida", disse Alberto, que tem a mulher e a filha a viverem na Venezuela. Alberto foi expulso da conferência. Ao regressar ao trabalho no bar El Prado, Alberto encontrou ameaças e insultos e, uns tempos depois, o desemprego.

Este ano, num outro acto público onde representantes do partido Izquierda Unida se deleitavam a branquear a manipulação eleitoral e o autoritarismo do regime de Nicolás Maduro, Alberto volta à carga para dizer que o rei vai nu. "Están matando a jóvenes!", gritou, incomodando a fina flor da extrema-esquerda espanhola. Acabou na rua.

 

A avaliar pelo que fez no passado e pelo que fez agora, Alberto deve ser um tipo decente. Parece ter o coração no sítio certo. No entanto, acabou proscrito por aqueles que o elevaram ao Olimpo. O crime de Alberto foi o de não entender que para a extrema-esquerda a violência policial num Estado de Direito é hedionda, mas quando perpetrada por um regime autoritário afim é uma defesa legítima da soberania nacional. Agora não o aplaudem.

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Os pios dos ogres

por João André, em 14.08.17

Nos tempos de Chávez a Venezuela entrou num período de experiências de esquerda que foram resvalando em aceleração sempre constante para o autoritarismo. Chávez ia conseguindo manter uma semelhança de democracia à custa do seu carisma que lhe davam apoio de boa parte da população e o mantinham no poder, mesmo perante o desastre para onde ia fazendo o país avançar. Com Maduro a opção da "revolução bolivariana" passou a ser o despotismo directo que só por sorte (eu sei, eu sei...) ainda não deu em guerra civil.

 

Perante o que vamos vendo a Venezuela vai ficando cada vez mais isolada e provavelmente só Cuba ainda ia dando apoio ao regime (sinceramente não sigo o suficiente a situação). Era uma questão de tempo até Maduro cair de podre por pressão externa e interna (pelo menos asism o esperava). Depois veio Trump dizer que não excluía a opção militar para intervir na Venezuela.

 

Ainda não termos visto muitas reacções às declarações é simbólico de como os outros países da região vêem a actual situação venezuelana e da enorme falta de credibilidade que Trump conseguiu "construir" em 6 meses. No entanto, se voltar à carga, Trump poderá conseguir unir de tal forma a região em torno de Maduro que este julgará que Chávez lhe apareceu outra vez na forma de um passarinho a piar tweet tweet. Nem é de excluir que, se Maduro começar a executar pessoas e disser que são traficantes, Trump acabe por dar uma volta de 180 graus e arranje um novo best friend forever.

 

E, de permeio, os venezuelanos vão sofrendo de ogre a ogre.

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A fantochada da Venezuela.

por Luís Menezes Leitão, em 13.08.17

Acho que não houve ninguém que tenha descrito melhor o golpismo numa república sul-americana do que Hergé, com a sua inesquecível figura do General Tapioca. Mas a Venezuela chegou a um estado tal, com aquela assembleia constituinte, que já nem Hergé a conseguiria descrever num dos seus álbuns. Na verdade a tal "assembleia constituinte" deveria elaborar uma nova constituição, mas faz tudo menos isso, estando antes preocupada em legitimar a todo o custo a ditadura de Maduro. É assim que primeiro destitui a procuradora-geral do país e agora pretende alterar o calendário eleitoral das eleições regionais, antecipando-o em relação a uma data já marcada e com a qual os partidos já contavam. Mas o curioso é que o faz por unanimidade (!). Ou seja, naqueles 545 pseudo-deputados dessa pseudo-assembleia constituinte não se encontra uma única alminha que discorde das propostas que lá são apresentadas. Chamar-lhe assembleia de fantoches seria mais adequado. E, sinceramente, quando é que esta fantochada na Venezuela irá terminar?

 

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A esquerda submissa e ajoelhada

por Pedro Correia, em 11.08.17

 

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O bolivarismo - versão caribenha do socialismo real - andou todos estes anos a contaminar a esquerda clássica europeia, que persiste em nada extrair das lições da história. Jean-Luc Mélenchon, o líder da chamada "França Insumissa", chegou a proclamar que Nicolás Maduro lhe servia de "fonte de inspiração" - a tal ponto que, se desembarcasse no Palácio do Eliseu, prometia transformar Paris numa das capitais da exótica Aliança Bolivariana Pelos Povos das Nossas Américas, de braço dado com o ditador de Caracas. Na Venezuela, o candidato derrotado por Emmanuel Macron nas presidenciais francesas alinha com aqueles que esmagam os insubmissos, incapaz de condenar a repressão.

Do outro lado da Mancha, o mesmo tom. Jeremy Corbyn, o Mélenchon inglês, recusa condenar o regime tirânico do sucessor de Hugo Chávez, que só nos últimos quatro meses já provocou 127 vítimas mortais em protestos de rua contra o endurecimento da ditadura e levou a Comissão de Direitos Humanos da ONU a insurgir-se contra o  "uso generalizado e sistemático da violência e as detenções arbitrárias" de opositores na Venezuela.

Louve-se ao menos a coerência do líder trabalhista, derrotado por Theresa May nas recentes legislativas britânicas: nem mesmo desafiado por deputados e membros do Governo-sombra do seu próprio partido, renega a fidelidade ao regime de Caracas. Em 2013, Corbyn proclamou Chávez como "inspiração para todos quantos combatem o neoliberalismo e a austeridade". No ano seguinte, foi exibido na televisão pública venezuelana por um sorridente Maduro, que o apresentou como seu "amigo".

Submissa afinal, a "verdadeira esquerda". Herdeira directa das esquerdas que durante décadas entoaram hossanas a Estaline, Mao, Brejnev, Honecker, Enver Hoxha e Pol Pot - a esquerda que demoniza as vítimas e glorifica os carrascos, ajoelhando em perpétuo tributo aos piores déspotas que o mundo já conheceu.

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A democracia venezuelana

por Diogo Noivo, em 09.08.17

O Egipto de Hosni Mubarak era uma democracia. Bom, não era, mas se aplicarmos ao regime de Mubarak a bitola usada por alguns para analisar a Venezuela de Hugo Chávez, então o ditador egípcio era na verdade o chefe de um Executivo ampla e plenamente democrático. Os órfãos do chavismo que preservam alguma sanidade mental e uma dose mínima de vergonha - excluo, portanto, Boaventura Sousa Santos e o PCP - mostram-se incomodados com as cenas que nos chegam da Venezuela e, acto contínuo, dizem-nos que antes é que era bom, que antes não se manipulavam eleições, enfim, que Hugo Chávez era um democrata. Ora, se Chávez era um democrata, então Mubarak também o era.


No Egipto de Mubarak as eleições eram livres na medida em que raramente havia manipulação dos votos expressos em urna. De resto, alguns actos eleitorais foram monitorizados e validados por organizações internacionais independentes. O problema da liberdade eleitoral egípcia estava a montante, isto é, nos partidos e indivíduos a quem era permitido concorrer. O crivo eleitoral imposto pelo regime era de tal forma apertado (e viciado) que às eleições apenas se apresentavam o partido no poder e chamada "oposição leal". No Egipto de Mubarak as eleições eram livres porque a manipulação (opressão, na verdade) acontecia antes de os eleitores se deslocarem às urnas. Na Venezuela de Chávez a lógica era em tudo semelhante: os juízes dissidentes eram detidos, os empresários que destoavam do regime eram expropriados, os dirigentes sindicais que ousavam levantar a voz eram investigados, os órgãos de comunicação social livres eram encerrados, os recursos do Estado eram colocados ao serviço dos interesses políticos do líder e, como se isto não bastasse, fez-se uma Constituição favorável ao poder incumbente. Quando este é o terreno de jogo não há grande necessidade de manipular eleições. Por estes dois lustrosos exemplos de autoritarismo se vê que quando falamos em democracia não nos limitamos à exigência de actos eleitorais livres em stricto sensu.
 
Na Venezuela actual a manipulação é evidente, como é evidente o grotesco atentado às liberdades políticas dos cidadãos. Não há dúvidas - pelo menos, para os democratas - quanto ao carácter autoritário do regime de Maduro, criatura que as ruas de Caracas apelidam adequadamente de Maburro. No entanto, o agravar da crise política e humanitária em curso está a abrir espaço para a reabilitação de Hugo Chávez, um revisionismo que dificilmente teria sustentação se não fosse pela falta de memória colectiva. Hoje, como no passado chavista, a democracia venezuelana é uma aldeia Potemkin.

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Há sempre alguém que diz não

por Pedro Correia, em 08.08.17

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1

Nicolás Maduro, confrontado com sondagens  cada vez mais negativas e um parlamento dominado pelas forças da oposição, lembrou-se de rasgar a Constituição mandada elaborar pelo seu antecessor, Hugo Chávez, e que vigorava apenas há 18 anos. Convocou por decreto uma Assembleia Constituinte sem prazo de vigência para esvaziar de funções a Assembleia Nacional e silenciar o que restava das vozes discordantes nos órgãos políticos de Caracas.

Foi uma autêntica farsa eleitoral, ocorrida num cenário sangrento, com dez mortos confirmados só nesse fim de semana e a capital venezuelana transformada numa cidade sob custódia militar. Sem debates, sem verdadeira campanha, com o recolher obrigatório imposto nas ruas por millhares de polícias armados até aos dentes, milícias paramilitares e até membros das forças armadas contendo o menor sinal de protesto. Com os círculos eleitorais desenhados de forma a que as regiões do interior, mais facilmente domáveis, faziam eleger quase tantos representantes como as grandes metrópoles, onde se concentra a maioria da população e o essencial da oposição. E um terço dos 545 lugares reservados à "constituinte" ocupados desde logo por putativos representantes de segmentos económicos e sociais, todos pró-governo, ao jeito da defunta Câmara Corporativa salazarista.

 

2

Nesse dia ocorreu a mais grosseira fraude eleitoral de que há memória este século em toda a América Latina. A tal ponto que a própria empresa internacional responsável pelo sistema eleitoral venezuelano denunciou publicamente a manipulação de pelo menos um milhão de votos, anunciados pelo regime mas afinal nunca entrados nas urnas. E a própria procuradora-geral da República, designada para esse cargo durante a vigência do mandato de Chávez, em 2007, anunciou a abertura de um rigoroso inquérito para apurar a extensão da fraude, recusando validar os resultados.

Pagou por isso: chamaram-lhe "traidora" e, apesar de o seu mandato só terminar por lei em 2021, tornou-se de imediato um alvo a abater. Desde logo, viu o inquérito às eleições invalidado pelo Supremo Tribunal, que nunca proferiu qualquer acórdão desfavorável a Maduro e é integralmente composto por um séquito de fiéis ao sucessor de Chávez, alguns dos quais nunca foram magistrados. Começando pelo presidente Maikel Moreno, ex-quadro da polícia política (a Sebin, equivalente à tenebrosa Stasi da antiga Alemanha comunista) que esteve dois anos preso pelo assassínio de uma mulher. Facto nada irrelevante, mesmo num país onde em 2016 se registaram 28.479 homicídios, 98% mantidos impunes.

A investigação à fraude, obviamente, nunca se fará.

 

3

Os crimes violentos em Caracas, a segunda cidade mais perigosa do planeta, tornaram-se parte integrante da paisagem urbana - agravando um quotidiano afectado pela persistente falta de víveres e de medicamentos. São como "uma epidemia fora de controlo", como a descreve uma jornalista do El País. Mas Maduro e a clique militar que o sustenta no poder parecem exclusivamente preocupados em dar combate a quem lhes faça frente.

Não admira, por isso, que mal foi anunciada a contabilidade oficial de votos a Sebin tenha detido dois dos principais resistentes à fúria repressora do regime: Leopoldo LópezAntonio Ledezma foi retirados à força de suas casas pouco após a meia-noite, contrariando as leis vigentes no país, e conduzidos ao sinistro presídio militar de Ramo Verde, onde se concentra a maioria dos cerca de 600 presos políticos do país.

Luisa Ortega, a corajosa procuradora-geral, foi  destituída pela amestrada Constituinte logo no primeiro dia dos trabalhos, "por unanimidade e aclamação", ao estilo da velha União Soviética. Sem inquirição prévia, sem processo, sem o exercício de qualquer contraditório. Acusam-na, absurdamente, de "cumplicidade com a insurreição armada" num país onde todas as armas estão em poder do aparelho repressivo do Estado ou das máfias do crime.

Autarcas eleitos por voto directo são hoje perseguidos pelo obediente Supremo apenas pelo facto de pertencerem a partidos da oposição. Como Ramón Muchacho, alcaide de Chacao, recém-condenado a 15 meses de prisão e destituição de funções públicas. Que "crime" cometeu? "Não acatou a proibição de encerrar ruas durante manifestações contra o Governo." É o quarto autarca opositor condenado nas últimas semanas, após Gustavo Marcano (de Lechería), Alfredo Ramos (de Iribarren), Carlos García (de Mérida) e José Barreras (de Cabudare).

Um cenário kafkiano que teve como única vantagem retirar os últimos vestígios de postiço verniz democrático a Maduro, agora convertido sem rodeios em ditador. Ameaça retirar a imunidade parlamentar aos deputados da oposição na Assembleia Nacional, agora esvaziada de poderes. Profere contínuas ameaças ao que resta da comunicação social independente. Manda encercerar juízes que ousaram desafiá-lo.

 

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Já ninguém se preocupa sequer em ocultar o quadro de nepotismo, bem evidente no facto de a mulher de Maduro, Cilia Flores, o filho do casal - Nicolasito Maduro, de apenas 27 anos - e o ajudante de campo do Presidente figurarem entre os 545 constituintes. É um regime que se fecha em círculos cada vez mais concêntricos, incapaz de conviver com opiniões adversas.

Ser jornalista na Venezuela é arriscar a vida. Dois dias após a consumação da farsa eleitoral, um jornalista do diário independente El Nuevo País, José Daniel Hernández Sequera, foi encontrado morto. Outro jovem jornalista, Miguel Castillo, foi assassinado em Maio enquanto cobria uma acção de protesto, enquanto os directores do El Nuevo País  e da revista Zeta eram detidos sem culpa formada. "Maduro faz tudo para silenciar as vozes independentes nos media", denuncia a organização internacional Repórteres Sem Fronteiras.

Ser jovem na Venezuela é perigoso quando se protesta contra o regime. A Procuradoria-Geral da República definiu o perfil médio dos 109 mortos em manifestações entre 1 de Abril e 27 de Julho: estudantes do sexo masculino com 27 anos. A mesma idade de Nicolasito, já em pleno tirocínio para um dia suceder ao pai.

 

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Ser venezuelano no país de Maduro é estar condenado à emigração por motivos políticos e sociais. A rede de organizações católicas da América Latina e Caraíbas para as Migrações e Refugiados acaba de denunciar um êxodo “sem precedentes” da população venezuelana para países vizinhos.

Ser cidadão de corpo inteiro na Venezuela, nos dias que correm, requer desassombro moral e coragem física. Segundo a ONU, o regime pratica a tortura e recorre ao "uso generalizado e sistemático de força excessiva" para dobrar quem protesta.

E no entanto na Venezuela de hoje, tal como no Portugal salazarista e em tantos outros países que estiveram e estão ainda submetidos a ditaduras, há felizmente sempre alguém que resiste. Há sempre alguém que diz não.

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