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Visto de longe, de muito longe

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.02.15

autumn leaf.jpg"- Se ao menos pudéssemos partir já! - disse ele com um lamento na voz" - D.H. Lawrence, O Raposo

 

Há alguns anos, Maria Filomena Mónica escreveu um pequeno ensaio sobre a morte, que foi editado pela FFMS. Creio que deve ter sido um dos escritos que mais me impressionou sobre esse caminho irreversível que nos conduz até à velhice, esse estado em que já fomos sem ainda termos ido e em que a vida conta para efeitos estatísticos.

Não sei se haverá alguma fórmula feliz para o envelhecimento, para ver esse dealbar dos dias que nalguns casos servirá para lavar a memória dos erros passados, noutros para recordar os momentos em que as forças, a energia, o vigor e a esperança nunca faltaram. Não temo a morte. De igual modo, não receio envelhecer. Mas desconfio do prolongamento seminatural da vida quando olho para o que me rodeia e sou confrontado com a impotência humana, com o desgosto, com o olhar perdido no tempo daqueles que sofrem na velhice o acréscimo da esperança média de vida. Porque a este não se podem opor. Porque a medicina assim o quer, mesmo quando ninguém lhes perguntou em que condições estariam dispostos a viver os anos que a ciência entendeu acrescentar-lhes. Às vezes para deleite dos vivos. Dos que não vegetam. Dos que se movem e levam uma vida nornal.

Quando o vi ali prostrado, depois de um AVC sofrido há mais de uma dezena de anos que o imobilizou numa cadeira de rodas e lhe retirou quase tudo o que lhe dava gosto fazer, tornando-o naquela espécie de gente sofrida que deve estar sempre agradecida pelo que diariamente por ela fazem, pergunto a mim mesmo se valerá a pena viver assim. Desta vez calhou-me a mim. Lá estava ele, deitado no chão, com duas mantas por cima para não arrefecer, esperando que alguém conseguisse levantá-lo, aguardando pacientemente a sua vez, sem saber quando ela chegaria. Se dentro de dez minutos, se de uma hora, ou se só ao fim de uma eternidade. Sem um queixume. Como se a vida se tivesse tornado numa espera permanente e dependente pela qual, quaisquer que sejam as circunstâncias, se deva estar sempre agradecido. Ali estava ele, diante dos meus olhos, perante o último patamar da dignidade humana. Aquele do qual já ninguém pode fugir no momento em que já lhe falta tudo e nada pode para contrariá-lo. Aquele do qual ninguém nos pode retirar. Por muito que se sofra. A não ser Deus, para quem acredite, o que não é o seu caso de ateu praticante.

E logo depois vejo também os outros, os que se amparam em cada dia que passa aviando receitas, contando as horas para as refeições, os comprimidos, a leitura dos valores da pressão arterial, cuidadosamente anotados numa folha de papel. A máxima, a mínima, a frequência cardíaca, enquanto lá fora a vida segue com o debate quinzenal, as agruras do espólio do BES, ou a discussão sobre os efeitos das eleições gregas no tamanho dos ovos das galinhas nacionais. Ali só interessa saber se é preciso tomar o Varfine, o Lasix ou o Tenormin. A vida está toda nas caixinhas, nos comprimidos brancos, azuis, cor-de-rosa, na quantidade de sal na sopa, no açúcar do chá. Também nas horas e no boletim meteorológico, faça chuva ou faça sol, sendo indiferente para o caso se se deixou de pôr o pé na rua há meses ou há anos. Ah, pois é, é por causa da chuva. O teu irmão amanhã vai dar consultas fora. E se estiver de chuva a Natasha vai ter mais dificuldade com os transportes. E depois a que horas é que ela vai chegar? E tu a que horas vens? Passa quando puderes. Primeiro estão as tuas coisas, mas passa quando puderes. Eu passo. Eu passo sempre. E eles à espera. Sempre à espera. Pensando neles, no frio, no corte das reformas - "estão sempre a tirar-nos, o que eles nos estão a fazer é um assalto; só o ano passado, a mim, foram quase duzentos euros por mês, à tua mãe foi menos, porque a reforma dela é mais pequena, mas também lá foram" -, pensando em nós - em todos nós - dias a fio, nas alternativas que nunca são viáveis por isto ou por aquilo. Está sempre frio. Os aquecedores estão ligados mas está sempre frio. Sair de casa? Vamos ter de pensar nisso, isto assim não pode continuar. Mas entretanto continua. Mais um dia, e depois mais um a seguir ao outro. Todos os dias. Até a seguradora cancelou aquele seguro de vida. Querem o recibo assinado para devolver o prémio. Como, se eu não vejo? Já não sei assinar. Cego há quase cinquenta anos e o tipo quer que ele assine o recibo. Ou que vá ao notário fazer uma procuração. Ou que ponha a impressão digital e o notário certifique. Aos noventa e seis anos. Porque não depositam o cheque na conta? Recebo a reforma por lá. A conta é na Caixa. E por que raio ele se há-de sujeitar a isso. Como eu o compreendo sem o compreender. Era só uma assinatura. Não assino, eles que fiquem com isso. O dedo reconhecido pelo notário. Aos noventa e seis anos. Um tipo não faz a barba porque não tem forças e há-de ir ao notário fazer a procuração. Ou pôr o dedo na burocracia. Uns cretinos.

Hoje a mulher não veio. Há greve nos comboios. O miúdo foi internado, teve de ficar com ele. Está toda a gente com gripe. Caiu? Duas vezes? Então e ninguém diz nada? Já tomou os comprimidos? Já, já lhe dei. Mas hoje não é segunda-feira? Então deu-lhe os de terça-feira. Eu? Não. Não, como? Se na caixa faltam os de terça-feira e hoje é segunda é porque se enganou outra vez. E já lhe deu os da noite? Então trocou tudo outra vez. Outra vez?! Está tudo separado, por dias da semana e refeições. Esta coluna está vazia. Amanhã dou-lhe os de hoje. E depois a tensão desce, e andam cheios de sono, e ninguém sabe por que razão, não é? Se não vê ponha os óculos. Não é para isso que eles servem? E agora a perna engessada. O dia todo na cama. Nem para a cadeira pode ir. Mas tem de ficar sentado. Aquela perna era a que já não mexia. Está inchadíssima. E o ortopedista quer vê-lo na quarta-feira. Às 10 horas? Alguém vai ter de levá-lo. Terão de ser os bombeiros. Vai na cadeira de rodas, ele não pode descer as escadas. E quem aguenta com ele? Nesse dia não poderei ir trabalhar. Vou ter de ir com ele. Não percebo nada do que diz. Fale devagar. E agora está a chorar? Está com os óculos todos besuntados, cheios de dedadas. Já viu como está essa camisola? Não está em condições, não pode andar assim. Como é que podes dizer que não está em condições se ainda esta manhã a vesti? O telemóvel não está carregado. Esteve toda a tarde a carregar. Só se faltou a luz. Vou à janela dizer-te adeus. Tens falado com ela? Ela está boa? Dá-lhe um beijo quando falares com ela. Amanhã passas por cá? Não posso, mãe. Amanhã vou-me embora. Tenho avião de manhã. Oxalá não te dêem frango. Que Santo António te acompanhe.

 

E lá ficaram eles. Com eles. Mais as suas preocupações. À espera. Sempre à espera.

 

Não tinha que ser assim. Não podia ser assim. A velhice não pode ser uma pena, uma condenação pré-morte em nome do progresso para expiação dos pecados que não se cometeram. A velhice não pode ser uma fatalidade. Isto está tudo gatado.

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Este país não é para velhos!

por Helena Sacadura Cabral, em 17.11.13

A nossa sociedade não está preparada nem para velhos nem para solidões. Acontece que aqueles são cada vez em maior número - melhores cuidados de saúde e a saída de jovens - e carregam quase sempre consigo estas últimas. É algo que toda a vida me impressionou, já que pertenço a uma família com o hábito de se reunir à volta dos seus.

Há dias, no supermercado, uma senhora de muita idade agarrou-me no braço e disse:

- peça-lhes que pensem nas nossas porções

- que porções? disse eu

- de tudo. Os velhos sozinhos e com dificuldades levam comida para casa que acabam por comer já rançosa. Veja a manteiga, a margarina, a banha, o azeite, o óleo, feijão, farinha, açúcar, são tudo embalagens muito grandes para uma pessoa só. Quando as acabamos até já fazem mal.

Na altura resolvi-lhe o problema à minha maneira e dividi as porções dela ao meio. Ficou feliz. Mas, depois disto, tudo irá continuar na mesma.

Prometi-lhe que lhe daria voz. Aqui estou a faze-lo, sabendo que ela tem razão e talvez fosse a altura de, com menos pergaminhos higiénicos, se pensar nos nossos velhos e na forma de lhes facilitar compras e consumo, criando embalagens de conteúdos menores. Eu sei que a ASAE acabou com a venda a peso destes produtos. Mas os velhos não acabaram e com as novas disposições acabam por ingerir alimentos em piores condições. 

Se vendem fiambre e queijo às porções, porque é que não poderão estender o processo aos outros produtos desde que em condições sanitárias idênticas? Alguém se lembra disto? Ou pensam que nunca serão pobres nem velhos?!

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Estou farta das pinças lexicais com que os políticos falam dos velhos (pobres) deste país, e tudo se torna ainda mais revoltante em época de campanha eleitoral. Pura hipocrisia: são tratados abaixo de cão, sem qualquer consideração ou respeito na prática, puxam-lhes o tapete no fim da vida com condições de sobrevivência desumanas e humilhantes. Mas dizer "velhos" é completamente proibido, isso é que nunca, como se fosse esse o grande insulto. Têm o maior cuidado em chamar-lhes "idosos" (ou outro preciosismo qualquer inventado por esta esta intragável e oportunista novilíngua) mas tratam-nos como pesos descartáveis. E aposto que dormem que nem justos.

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Rainha Sofia

por Gui Abreu de Lima, em 05.04.13
Aqui, na Calçada do Marquês de Tancos, a chuva tem feito muito estrago. Nem Sofia vê a rua, nem as pombas a visitam, nem a gente lhe pode sorrir, nem os serviços se fazem. Sofia, naquela cadeira de rodas, em dias de sol, mesmo no inverno, chama por quem passa para lhe valer ao que falta faça. Anda cá, disse-me há tempos. Não encontro o palito. Deve estar caído aí no chão. Vasculhei à volta, desviei a cadeira, sacudi a manta, levantei-lhe as pernas, enterrei as mãos por onde podia. E nada, nada dele. Oh, meu Deus, que ainda a pica. Ai, Jesus, se lhe fura a fralda... Deixa lá. Não faz mal. Dá-me outro dali, dás?
 

Entrei, salinha dentro, cerimoniosa. Onde, menina Sofia? Nesse móvel da televisão, tenho aí bolachas. Caixas disto e daquilo, remédios e lenços, e nem sinal de palitos. Raças parta. E ela insistia. Por baixo, por baixo, está, está, procura. Valha-me o Senhor... começo a descrever todo o arsenal, alto e bom som, até que os meus olhos chegam a uma embalagem. Ah! Não me diga que é isto? É, diz-me num sorriso luminoso. Menina Sofia, eu andava à procura de palitos, mas não eram de La Reine, sua bandida! O que ela riu. E eu.
Hoje, voltei a vê-la. Como é menina Sofia, tudo em ordem? Veio o solinho, hã?, que maravilha! É verdade, filha. Olha: anda cá.

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Idosa, excluída e morta

por Fernando Sousa, em 16.01.11

"Uma mulher idosa "bastante debilitada" entrou no Centro de Acolhimento de Xabregas numa sexta-feira à tarde para lá ficar o fim-de-semana. Dormiu e, no dia seguinte, não entregou a chave do cadeado do armário como obriga o regulamento. Nessa noite, não foi autorizada a entrar e "dormiu à porta". "Foi encontrada morta. O INEM já nada pôde fazer." (Diário de Notícias)

 

Um Presidente dito de todos os portugueses e com ambições a continuar no cargo devia perguntar ao Governo, já hoje, o que aconteceu no Centro de Acolhimento de Xabregas, questão que deveria interessar igualmente qualquer dos concorrentes às eleições do dia 23. Um Governo dito socialista e partidário da inclusão social não devia esperar sequer que alguém lhe perguntasse para explicar o que se passou. Uma Justiça à altura das suas obrigações não deveria esperar nem por um nem por outro.

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