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Pulido Valente "in memoriam" (2)

por Pedro Correia, em 06.03.20

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«Nada há de original no republicanismo português, que não passa de uma adaptação - particularmente pobre - de ideias velhas na Europa.»

 

«Apesar de esforços desesperados, o Partido [Republicano Português] nunca conseguiu implantar-se solidamente em mais de 30 dos 262 concelhos existentes. Até à sua amarga e desiludida morte, o republicanismo e a República permaneceram coisa privada de Lisboa.»

 

«Palla e Sá Cardoso desertaram; Cândido dos Reis matou-se. Tudo somado, apenas cinco oficiais ficaram no seu posto do princípio ao fim [entre 3 de 5 de Outubro de 1910]: o comissário naval Machado dos Santos, os segundos-tenentes da Armada Tito de Morais, Mendes Cabeçadas e José Carlos da Maia e o primeiro-tenente da Armada Ladislau Parreira.»

 

«Apenas dois [jornais], o agora "reaccionário" Liberal (ex-progressista) e o ultramontano Portugal, desafiaram os tempos e persistiram no seu caminho. A 10 de Outubro [de 1910] foram ambos assaltados, saqueados e destruídos e os respectivos directores devidamente presos. O seu destino inaugurou uma época em que a "rua" controlava a imprensa com uma eficácia desconhecida nos costumes políticos portugueses.»

 

«Não apenas uma pequena parte da nação, os republicanos de Lisboa, conquistaram um poder político sem proporção com o seu poder social, económico e ideológico, mas uma pequena parte dessa pequena parte acabou por se apossar do Estado sozinha.»

 

«Os homens que haviam sido promovidos a Governo Provisório da República, uma inacreditável colecção de mediocridades glorificadas, representavam várias tendências dentro do PRP, tinham opiniões diferentes sobre o que devia ser o novo regime e nem sequer especialmente se estimavam

 

«O presidente, o filósofo, historiador, crítico e sociólogo Teófilo Braga, não passava de uma nulidade política, ali posta com propósitos puramente decorativos. (...) Quando abria a boca, os homens sérios tremiam: ou porque anunciava o advento da República "positivista", ou porque exaltava desvergonhadamente as virtudes da raça de elite lusitana, ou porque incitava os espanhóis à "revolução social".»

 

«Os carbonários não se atreveram a empregar força física contra jornais republicanos, mas não hesitaram em usar a chantagem e a intimidação. A sua primeira e mais célebre vítima foi Sampaio Bruno, escritor, jornalista, filósofo, veterano do 31 de Janeiro e uma das mais genuínas glórias do republicanismo. (...) Haveria de morrer em 1915, no Porto, depois de três anos de completa solidão, e nem sequer se atrevia a ir ao café com medo de que o insultassem

 

«Basílio Telles, o mais notável economista, historiador e pensador político do seu tempo, (...) foi espancado e apedrejado nas ruas do Porto, aos 55 anos, por se ter atrevido a criticar a obra da "ditadura revolucionária".»

 

«Os deputados à Assembleia Constituinte acabaram por ser escolhidos, não pelo eleitorado ou pelos militantes "históricos" do PRP, mas à porta fechada por pequenos grupos de dirigentes. Consequentemente, a escolha, em lugar de reflectir a vontade da nação ou do Partido, reflectiu apenas a balança de poder nos altos círculos republicanos.»

 

«De Agosto de 1911 a Julho de 1912, pelo menos 2383 pessoas entraram nas cadeias da República. (...) Por uma razão ou por outra, ou por razão nenhuma, foram presos trabalhadores e aristocratas, dirigentes sindicais e contra-revolucionários monárquicos.»

 

«As cadeias estavam cheias de presos políticos. Na Relação do Porto, no Forte do Duque, no Limoeiro, no Castelo de São Jorge, em Caxias, em Sacavém, na Trafaria, por toda a província, amontoavam-se centenas de homens em condições deploráveis. A grande maioria nunca tinha sido pronunciada ou sequer ouvida.»

 

«Depois de dez anos de uma dura, amarga e, às vezes, desesperada luta, os jacobinos urbanos eram, enfim, os incontestados senhores de Portugal. Um por um, os seus numerosos inimigos tinham sido vencidos: o Rotativismo, Franco e D. Carlos, a Monarquia e, agora, a última barreira, os próprios moderados da República. O reino de justiça ia começar. Durou pouco mais de um ano.»

 

Citações extraídas do livro O Poder e o Povo (Gradiva, 1999)

Pulido Valente "in memoriam"

por Pedro Correia, em 28.02.20

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«Encontrei muitos políticos desde 25 de Abril, não encontrei nenhum que não ficasse reprovado num exame elementar de História de Portugal. (...) Fora Marx e Lenine, não abriram os clássicos. Dos grandes sistemas políticos acumularam penosamente meia dúzia de noções triviais, destinadas ao jornal e ao comício.»

 

«Só por milagre o dr. Sampaio, o dr. Soares e o dr. Amaral, seus amigos, afilhados e sequazes, não acabariam colectiva e patrioticamente sentados à mesa do orçamento, esperando pela auspiciosa chegada do dr. Sousa Franco que não tardará. (...) Todos gostam das mesmas situações ambíguas e esfumadas, todos se distinguem na mesma arte subtil de conciliar o inconciliável e justificar o injustificável, e todos padecem da mesma gravidade cordata, parlapatona e pomposa, que em Portugal revela fatalmente o estadista. Não são inimigos, nem sequer adversários: são compadres. E esta é a sua República. Sua - muito deles.»

 

«Entre quadros partidários profissionais, militares, políticos e os fala-baratos do costume, o 25 de Abril não revelou ou produziu ainda um dirigente genuinamente operário ou popular de estatura. Quem se espantará?»

 

«Em Portugal o doutoramento continua a ser um tremendo privilégio. Habilita os seus venturosos possuidores ao adereço distinto de "sr. professor", confere-lhes um pequeno feudo vitalício na Universidade, promove-os a lugares de direcção académica, e quase sempre indica-os aos órgãos de soberania como desejáveis pastoreadores da nação.»

 

«Houve um tempo em que os Governos e as Universidades consideravam um sociólogo o lamentável cruzamento de um socialista e de um astrólogo. (...) Estudar uma sociedade parecia aos Governos implicar o perigoso propósito de a mudar - temeridade que geralmente não acontecia aos sociólogos. Por outro lado, a Universidade pensava sobre a sociologia o mesmo que sobre os horóscopos: à força de generalizações e trivialidades, era realmente impossível não se acertar algumas vezes.»

 

«Tendo muito pouco, o povo quer logicamente alguma coisa e, quando é livre de decidir, recusa sempre a aventura revolucionária, porque vive num curto espaço antes da privação, do desemprego ou da miséria. Os "sonhos" que o intelectual em causa confessa alimentar de "privilégio" sem limites e de "grandeza que não há" não são sonhos do povo, são sonhos do pequeno-burguês socialmente frustrado. A ideologia da revolução não passa de uma ideologia pequeno-burguesa.»

 

«Se os Governos caíssem por causa do descontentamento, o salazarismo tinha caído trinta vezes depois de 1945. Se a agitação fizesse cair Governos, o liberalismo não tinha passado de 1834 e a República de 1911. Se os Governos precisassem para sobreviver de uma sólida base social de apoio, Portugal não era governado desde o fim do século XVIII.»

 

Citações extraídas do livro O País das Maravilhas (Intervenção, 1979)

Vasco Pulido Valente bloguista

por jpt, em 26.02.20

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Após a sua morte, e como é normal, muito se escreveu sobre Vasco Pulido Valente. E muito se partilhou, textos antigos, entrevistas antigas, etc. Mas que eu tenha visto - e que o google mostre - ninguém recordou o breve blog que criou em parceria com Constança Cunha e Sá, em plena era blogal (2006). Julgo, se a memória não me atraiçoa, que o encerraram no dia seguinte a terem passado a liderar as audiências blogais nacionais de então, medidas e muito seguidas na lista elaborada pelo contador sitemeter. Ultrapassando o muito lido Abrupto, de José Pacheco Pereira, que desde sempre encabeçara essa lista. Vivia eu em Maputo e ao ver aquilo ocorreu-me um enfastiado "ai, aquela Lisboa ...".

Enfim, não seja por esses meneios, que o tempo tudo apaga. E talvez até tivesse sido coincidência ... De facto, apenas vim lembrar o bloguista VPV. E, já agora, o blog ainda está disponível para quem o queira ver. É O Espectro

Contra a preguiça intelectual

por Pedro Correia, em 24.02.20

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Vasco Pulido Valente foi meu professor na Faculdade. Leccionava Ciência Política e era uma das celebridades daquele curso. 

Julgo que quase todos o líamos religiosamente na última página do Expresso, numa coluna intitulada "O País das Maravilhas". Eu começava precisamente por ali, sábado após sábado. Por aquele rectângulo destacado na linha gráfica do jornal com uma prosa que parecia saída do bisturi dum cirurgião. Prosa limpa, sem "poréns", sem "entretantos", sem "outrossins". Sem reticências nem pontos de exclamação. Sem atalhos para chegar onde queria. À inglesa, libertando-nos da retórica afrancesada que ainda marcava tantos dos seus parceiros de geração. 

Porque ele não nos ensinava só a pensar. Também nos ensinava a escrever. Este foi um dos seus maiores méritos: mudar a forma como se escrevia nos jornais, traçando linhas de fronteira. Antes dele proliferavam os gongóricos, cultores imoderados do adjectivo e e do advérbio. Depois dele, a nossa escrita ficou mais limpa.

 

Estou a revê-lo no alto do estrado, na Universidade Católica. Era o primeiro dia de aulas e nós, caloiros, tínhamos pela frente aquele professor ainda jovem mas já famoso pela tal coluna onde zurzia nos políticos. 

De blazer e gravata de malha, ele olhou-nos de cima para baixo e rompeu enfim o silêncio com uma lâmina em forma de pergunta: «Algum dos senhores leu Os Fidalgos da Casa Mourisca

Sentiu-se um embaraço colectivo na sala enquanto olhávamos uns para os outros: ninguém havia lido aquele livro. 

«Era o que eu pensava», disparou em tom cáustico, cruzando os braços enquanto continuava a olhar-nos fixamente. O Vasco colunista confundia-se com o Vasco professor: agora éramos nós os zurzidos. 

«Os senhores nunca saberão o que foi a história do século XIX em Portugal sem lerem esse romance», prosseguiu, sem a menor preocupação em cativar-nos pela simpatia. Não era para isso que ali estava, mas para rasgar-nos horizontes. E a primeira lição fora dada: não há limites estanques no domínio do saber. Um romance pode ser a primeira janela aberta para a política. 

 

Meses depois, O País das Maravilhas saiu em livro. Andei com ele literalmente debaixo do braço. Lido e relido, sublinhado, transcrito. Já com as virtudes e até alguns dos defeitos que obras posteriores confirmaram - no campo da crónica, da biografia, do ensaísmo histórico. Obras como Às AvessasPortugal -- Ensaios de História e de Política, Retratos e Auto-Retratos, Os DevoristasEsta Ditosa PátriaMarcello Caetano: as Desventuras da RazãoUm Herói PortuguêsIr Prò ManetaGlória. Até à última, não por acaso intitulada O Fundo da Gaveta, sobre a qual escrevi aqui.

Uma escrita elegante, cáustica, direita ao osso, sem vias sinuosas. A palavra certa estava sempre lá. Mas também uma visão de Portugal marcada por um inabalável pessimismo, ancorado na ancestral geração de 70 e nas torrenciais páginas desse romance excessivo em tudo, até no campo das ideias, que Eça de Queiroz nos deixou em legado: Os Maias. A visão por vezes desfocada de um país asfixiado pela mediocridade irrevogável das suas elites. 

 

Lembrarei sempre Vasco Pulido Valente, acima de tudo, como meu professor. Um dos mais estimulantes que tive - e, felizmente, foram vários. Capaz de nos fornecer pistas de análise, de nos sacudir da tentação da apatia, de nos alistar no combate à preguiça intelectual. Até para discordarmos dele.

Anoto isto e reparo agora que, tantos anos depois, continuo sem ter lido Os Fidalgos da Casa Mourisca. Algum dos senhores o leu?

Vai fazer-nos muita falta

por Pedro Correia, em 22.02.20

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Vasco Pulido Valente era o melhor. Em quase tudo. Também na capacidade de inspirar epígonos que ia influenciando por geração espontânea e foram irrompendo como cogumelos - todos com menos talento que ele.
 
Era bom a pensar, a escrever, a polemizar.
Nunca lhe faltou a coragem para dar expressão pública ao pensamento. Nem vocação para escolher sempre as palavras mais adequadas à elegância formal que jamais cessou de procurar.
Sem atender a conivências nem a conveniências, criticou quase tudo e quase todos. Por vezes com um desassombro que alguns confundiam com arrogância ou cinismo. Por vezes com incoerências, naturais num percurso tão vasto, que se espraiou por seis décadas: era o comentador político português que exercia o ofício há mais tempo em permanência.
Vinha do pioneiro Almanaque, remontava ao antigo O Tempo e o Modo - publicações que hoje já quase ninguém sabe o que significaram na estreita sociedade portuguesa daquele tempo em que a censura estava inscrita no quotidiano mental das elites bem-pensantes.
Nem sempre fez os juízos certos sobre todas as figuras públicas que foi visando com a sua pena cáustica, pontualmente repassada de sarcasmo. Mas acertou na maior parte das vezes - em quase tudo quanto era essencial no catálogo de ideias que professava e foi sedimentando desde que estudou em Oxford, na primeira metade dos anos 70. A necessidade imperiosa de aproximar Portugal dos padrões de civilidade europeia, por exemplo.

Faltou-lhe escrever um romance. Ensaiou essa peça de ficção durante décadas, em versões diversas, mas era tão exigente com ele próprio que acabou por nunca publicar nenhuma.
Tentou uma aproximação ao género, com Glória, mas saiu-lhe afinal um ensaio histórico, aliás não destituído de brilhantismo. Com duas características essenciais: devolveu aos leitores o prazer do reencontro com a escrita narrativa, reaproximando a História da Literatura, e recuperou a biografia como peça fundamental da investigação histórica numa altura em que os cânones académicos menosprezavam o género.
No campo da historiografia, o título imbatível do seu legado foi o primeiro: O Poder e o Povo, que derrubou para sempre vários mitos beatíficos sobre a I República. Pena também esta investigação ter ficado incompleta, pois só abarca um período circunscrito deste ciclo histórico que antes dele era descrito com inúmeras omissões factuais.
 
Sentiu-se por duas vezes atraído pela política activa, nas décadas de 70 e 90, mas depressa concluiu que não era aquele o seu mundo e soube retirar-se muito a tempo. Também a comunicação radiofónica e televisiva estava longe de constituir o seu domínio de eleição, que era o da escrita.
O Henrique Raposo descreve-o muito bem neste parágrafo: «Na imprensa dos anos 70, antes (Cinéfilo) e depois (Diário de Notícias e Expresso) do 25 de Abril, as colunas de VPV eram especiais porque ele era o único grande cronista sem qualquer rasto do linguajar marxista. Foi ele que abriu espaço a uma linguagem política clássica, republicana e, sim, liberal (leia-se “liberal” no sentido de “democracia liberal”, por oposição a “democracia popular”). Quem acredita na liberdade deve muito ao colunismo político de VPV desta época.»
 
Tinha este dom - e soube exercê-lo. Graças a ele, ensinou muitos de nós a reflectir, a ponderar, a argumentar, a desafiar os bonzos da opinião, a questionar os dogmas soprados no vento, a ripostar sem medo.
Por vezes à custa de si próprio, pois consumiu-se sem remissão na contingente espuma dos dias, que lhe roubava tempo e paciência para outros projectos, mais adequados ao seu engenho.
Eis o fardo insustentável de um comentador - mesmo o melhor de todos, como VPV. Não vejo hoje ninguém que possa equiparar-se a ele. Vai fazer-nos muita falta.

Vasco Pulido Valente

por José Meireles Graça, em 21.02.20

Uma das coisas mais estúpidas que se dizem é aquela “os cemitérios estão cheios de gente insubstituível”.

São muito raros esses, os insubstituíveis, mas existem.

Vasco Pulido Valente era um deles e, podendo haver em cada geração mais do que um, não me lembro de mais ninguém.

Não mais quem diga muito com pouco; não mais quem veja no nevoeiro e na confusão do presente os ecos do passado que tornam inteligíveis os nossos dias e nos lembram a nossa condição inelutável de portugueses; não mais quem, para falar dos casos da semana, do mês, da década ou do regime, utilize uma forma superior de português de lei; e não mais quem, amado por uns e odiado por outros, fazia ver o óbvio, que só o era depois de ele o mostrar.

Não usava, para falar de pessoas importantes, a maior parte das quais conhecia pessoalmente, o dorso da colher; e era implacável com os tiques, as mazelas, as vaidades irritadas e irritantes do mundo oficial.

Adeus, Vasco. Nós, os que para descobrirmos a nossa opinião precisávamos de conhecer a tua porque, concordando ou discordando, o edifício lógico se erigia como por mágica diante dos nossos olhos, vamos ter de pensar sozinhos.

Não vamos pensar melhor.

Venezuela: quase tudo dito aqui

por Pedro Correia, em 12.02.19

«Venezuela. O PC e o Bloco tomaram uma posição política e moralmente abjecta. A extrema-esquerda continua a fazer a política externa da Rússia, por puro ódio à América, agora reforçada pelo ódio a Trump. (...) Ainda por cima esta gente não percebe que a Rússia é hoje uma potência de segunda ordem; o "Gabão com mísseis" de Helmut Schmidt. Há cinco estados dos Estados Unidos com um PIB maior que o da Federação Russa; e sobram 45. Os americanos salvaram a Europa dos nazis e dos comunistas, mas não tencionam salvá-la de Putin.

(...) É para isto que o PC e o Bloco aplicadamente trabalham. Maduro abriu as portas da Venezuela aos russos e aos chineses. Os russos venderam-lhe armamento (15 mil milhões de euros) e os chineses emprestaram-lhe dinheiro (3 mil e quinhentos milhões de euros). Consola saber que os nossos revolucionários defendem estes negócios contra a ambição imperialista da Europa e da América de ajudar as 370 mil pessoas que estão em risco de morrer.»

(...) Toda a gente diz que o Exército decidirá tudo. Mas toda a gente sabe que esse Exército é um Exército patrioticamente sul-americano, sem a mais vaga tradição de combate e com 2 mil e tantos generais (os Estados Unidos, a primeira potência militar do mundo, têm 900) que se dedicam a roubar o Estado e ao tráfego de droga e divisas. Quando Guaidó apela à "honra" dessa camarilha burocrática e suja, não fico muito convencido.»

 

Vasco Pulido Valente, no Público (9 de Fevereiro)

Frases de 2018 (39)

por Pedro Correia, em 22.10.18

 

«A direita portuguesa hoje não existe.»

Vasco Pulido Valente, ontem, em entrevista ao Público

A ler

por Pedro Correia, em 21.10.18

Sou de uma espécie em vias de extinção: todos os dias compro um jornal. Pelo menos um jornal. Hoje comprei o Público, só pela entrevista de Ana Sá Lopes e Manuel Carvalho a Vasco Pulido Valente. E valeu a pena, claro. Se não tivesse mais nada, já justificava o que paguei pelo meu exemplar.

Metáfora do destino português

por Pedro Correia, em 01.08.18

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Os crónicos problemas de Portugal relacionam-se com a profunda impreparação e a manifesta venalidade das nossas elites. Este pensamento, que percorre grande parte da obra de Vasco Pulido Valente como historiador e ensaísta, ressurge num livro agora editado pelo autor de O Poder e o Povo, justamente intitulado O Fundo da Gaveta.

Um título com sentido duplo: não apenas alude ao facto de incluir dois ensaios, escritos desde 1989 e até hoje inéditos, mas funciona também como metáfora de um certo destino português.

São «dois fragmentos de uma hipotética História do Portugal moderno», concebida quando Pulido Valente era investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS). O projecto abrangia aspectos económicos, sociais, militares e diplomáticos, como o autor explica num breve prefácio. «Isto não caiu bem na sopa turva do esquerdismo metafísico e simplório, de que a universidade e as suas ramificações têm vivido», acrescenta.

Ao fim de três anos, o empreendimento abortou. Sobraram os ensaios aqui reunidos, inicialmente apresentados num seminário do ICS. Embora visem diferentes décadas do século XIX, têm em comum a peculiar resistência dos portugueses à mudança: entre nós foi sempre mais fácil fazer revoluções do que concretizar reformas.

 

Do absolutismo à "fusão"

 

"A Contra-Revolução (1823-1824)" aborda o turbulento ano decorrido entre a Vilafrancada, movimento restauracionista promovido pelo infante D. Miguel, e a Abrilada, nova tentativa de golpe de mão dos absolutistas - desta vez contra a "terceira via" ensaiada pelo Rei D. João VI para pôr fim à guerra civil larvar que já grassava no País e dilacerava a própria Família Real, com irreparáveis consequências na década seguinte. É um retrato sumário, mas expressivo, da debilidade das nossas instituições, postas à mercê de sucessivos estados de alma dos dirigentes, num momento de comoção colectiva provocada pela recentíssima perda do Brasil, que os integristas domésticos ainda procuravam reunir à coroa portuguesa. 

"Ressurreição e Morte do Radicalismo" (1867-1870) debruça-se em estados gerais sobre os chamados governos de "fusão" naquela época iniciados - correspondentes àquilo que hoje chamaríamos "bloco central". Era uma amálgama de liberais, progressistas, conservadores e até antigos legitimistas convertidos ao desígnio comum de «pastorear a nação», com a bênção do palácio real e do voto censitário num país que permanecia em larguíssima medida analfabeto. Os gabinetes ministeriais sucediam-se num frenético jogo de cadeiras enquanto as finanças públicas entravam em derrocada.

 

Editoriais e motins

 

Produziam-se reformas contestadas em motins de rua e nos inflamados editoriais da imprensa: a reforma do mapa administrativo, a reforma da justiça, a reforma fiscal. Quase todas condenadas ao fracasso mal soltavam os primeiros vagidos. Desse período sobrou o monumental Código Civil (com a introdução do casamento laico) que viria a perdurar um século e a abolição total da pena de morte em território português - marcos civilizacionais submergidos na algazarra política da época, em que os apóstolos da "revolução socialista" alternavam com arautos da "integração ibérica" e a incipiente oposição republicana conspirava já pela abolição da Monarquia.

«Sempre me queixei nos jornais da falta de memória dos portugueses. Mas os portugueses não se podem lembrar de uma história que ninguém lhes contou», observa o autor no prefácio. Justificando estas suas acutilantes incursões num século ainda tão mal conhecido entre nós - e que ganhariam, em reedições da obra, se vissem adicionado um verdadeiro dicionário onomástico nas páginas finais, além de notas de rodapé que permitam situar os acontecimentos, aqui por vezes relatados com excessiva brevidade.

 

............................................................... 
 
O Fundo da Gaveta, de Vasco Pulido Valente (D. Quixote, 2018). 231 páginas.
Classificação: ****
 
Publicado originalmente no jornal Dia 15

Este é cá dos meus

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.03.15

"Do incidente fiscal de Pedro Passos Coelho só uma coisa se deve concluir: as “juventudes partidárias” precisam de ser abolidas, como primeiro acto para a regeneração do regime."

Não é por nada, mas sobre o que VPV conclui hoje já há um ano este conservador de esquerda se tinha pronunciado. Com a liberdade de sempre.


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