Contraste total

O excelente discurso do primeiro-ministro canadiano - a quem Donald Trump chama "governador", cheio de azia depreciativa - no Fórum Mundial de Davos foi notícia em todo o mundo.
É fácil perceber porquê.
Mark Carney, ao contrário do sucessor de Joe Biden, não padece de logorreia. Fala pouco, mas com clareza, recorrendo às formas clássicas - com elegante acutilância. Nunca diz "eu": prefere "nós", sabendo que nenhum homem é uma ilha. Em total contraste com o vizinho do Sul.
Cultiva a relação especial com os aliados - com destaque para os membros da NATO, organização que o Canadá ajudou a fundar, em 1949. Também ao contrário de Trump, como se tem visto.
Mas a maior diferença é que Carney invoca algo que deixou de integrar o glossário da administração norte-americana: valores. Ele proferiu a palavra e desenvolveu o conceito em Davos.
À luz do mundo actual, sobretudo desde a vergonhosa cimeira de Agosto em Anchorage entre Trump e Putin, parece hoje quase um termo subversivo. Mas, até por isso, é urgente recuperá-lo.
Dever cívico de todos nós, aqueles que não queremos ver o globo transformado numa imensa selva, à mercê de quem berra e agride e viola e mata mais.

