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Da pequenez (2)

por João André, em 08.07.14

Na sequência do post anterior e dos diálogos na caixa de comentários, veio-me à memória uma passagem do livro A Short History of Nearly Everything, the Bill Bryson (lamento, li-o em inglês e não estou para ver qual o exacto título em português). Nele o autor brincava com a ideia de aliens a virem à Terra para marcar campos de trigo ou assustarem humanos com shows de luzes. As distâncias no espaço são tão grandes que ele justificava tais acções apenas com a possibilidade de os aliens também passarem pela adolescência.

 

A realidade é que as distâncias são ridiculamente grandes uma vez no espaço. O objecto humano mais rápido de sempre é a sonda Voyager 1, que viaja a cerca de 59 mil km/h e foi laçada há perto de 37 anos. Neste momento está no que já se chamou de espaço interestelar, ou seja, de certa forma está para lá dos limites do sistema solar. Isto se o sistema solar for visto como um espaço dominado por partículas solares. Se o observarmos como a zona de influência da gravidade do sol, as sondas estão longe, muito mas mesmo muito longe de ter saído do sistema solar - falta a nuvem de cometas Oort (apenas uma hipótese).

 

Que quer isto dizer? Bom, que qualquer exploração espacial, com base na ciência moderna, é absolutamente impossível. As sondas Voyager atingiram as suas velocidades graças ao efeito de "fisga" quando passaram por cada um dos planetas gigantes, assim acelerando. Estes efeitos seriam quase certamente impossíveis com humanos a bordo: as acelerações atingidas matariam qualquer pessoa. Mesmo que fossem possíveis, estamos a falar de viagens para lá da nuvem de Oort, que se situará a cerca de 20 mil unidades astronómicas (UA) de distância, ou seja, 20 mil vezes a distância da Terra ao Sol (que é de cerca de 150 milhões de km). A luz do sol demora cerca de 115 dias a chegar a este ponto. É longe.

 

No entanto estamos apenas nos limites do sistema solar e a própria nuvem de Oort extender-se-à por mais umas 30 mil UA, ou seja, 150% da distância até lá chegar. A luz do sol demoraria então nove meses e meio a chegar aos limites do sistema solar. E não chegámos ainda a lado nenhum em especial, ainda falta ir às outras estrelas.

 

O que significa que, perante a ciência conhecida (e não simplesmente imaginada, como no caso de viagens mais rápidas que a luz ou através de buracos negros), qualquer viagem até outras estrelas nunca poderia ser atingida no espaço de uma única vida humana. Nem sequer no espaço de mais vidas humanas. Provavelmente necessitaríamos de várias gerações para chegar a qualquer outro lugar com um mínimo de interesse. E quando esses descobridores lá chegassem, o mais provável seria que não valesse a pena informar ninguém na Terra, uma vez que devido a efeitos relativistícos (alguém de física que os explique melhor) seria bem possível que tivesse passado muito mais tempo na Terra do que aquele que os viajantes tivessem sentido.

 

Isto tudo para me levar à minha conclusão: a Humanidade nunca explorará pessoalmente o espaço para lá dos confins do sistema solar. Mesmo que um dia os nossos descendentes futuros cheguem a fazê-lo, o mais provável é que nessa altura já não sejam humanos como os definimos hoje, como homo sapiens. Terão evoluído naturalmente ou guiados pela tecnologia. O seu sentimento pelo nosso planeta, ao chegar a outro que fosse potencialmente habitável, seria talvez um de misticismo ou mesmo de rejeição. Seria o de seres que olhavam para a Humanidade como aquilo que, à escala do Universo, realmente somos: tão pequenos que não teremos importância.

 

Claro, isto assumindo que a tecnologia nao avança muito mais depressa do que penso. Um dia destes veremos Passos Coelho a inventar a tecnologia warp no intervalo de uma reunião com Merkel e aí logo resolvemos os problemas da Humanidade e, quiçá, dos portugueses (mas continuaremos a não ganhar o mundial).

 

PS - Para quem tenha curiosidade, uma página que representa de forma espectacular o tamanho do sistema solar. Outra que dá uma ideia da escala de tudo.

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