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Delito de Opinião

Um ano com D. Dinis (74)

Hábitos Religiosos

Cristina Torrão, 27.01.26

Faz hoje 719 anos que o bispo de Lisboa, D. João Martins de Soalhães, colaborador de D. Dinis desde o início do reinado, reuniu um sínodo, procurando a formação do clero paroquial a fim de prestigiar o ministério. Igualmente se procurou promover o matrimónio religioso, erradicar a bigamia e inculcar a prática da confissão anual ao respectivo pároco.

A necessidade de reunir um sínodo, a fim de tratar destes assuntos, é elucidativa em relação a alguns costumes medievais portugueses, o que vem contradizer a imagem medieval de profundos hábitos religiosos e morais.

Na verdade, o povo estava ainda muito ligado a ritos pagãos. E o casamento religioso só quase se verificava no seio da nobreza. Entre o povo, dominavam as relações de facto.

A Igreja tentava, desde o século XI, moralizar os costumes. Mas só para o fim da Idade Média (segunda metade do século XIII e todo o século XIV) as práticas e os sacramentos se começaram a generalizar.

 

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 Imagem Codex Manesse

 

Com este post, dou por findo o ano dedicado a D. Dinis, iniciado a 30 de Janeiro de 2025. Encontram todos os posts na "pasta" umanocomddinis. Obrigada pela vossa atenção e pelos comentários.

Um ano com D. Dinis (73)

Tutora dos bastardos

Cristina Torrão, 21.01.26

Livro Dinis e Isabel.jpg

A 21 de Janeiro de 1298, D. Dinis fez de D. Isabel tutora de três dos seus filhos bastardos - Pedro Afonso, Afonso Sanches e Fernando Sanches -, para o caso de morrer antes dela e da maioridade dos filhos. Li algures que tal atitude seria um abuso, só permitido pelas qualidades de santa da rainha. Na verdade, porém, a aceitação de filhos do rei fora do casamento, pela rainha sua esposa, não era tão rara como isso, um pouco por toda a Europa. Dependia muito dos casos e das circunstâncias. Muitos desses filhos, reconhecidos pelo pai, eram educados e integrados na corte. Como vemos, já nesses tempos, a família tradicional nem sempre era o modelo. 

A vida conjugal de D. Dinis e de D. Isabel levanta algumas interrogações. Apesar de terem estado mais de quarenta anos casados, só tiveram dois filhos, nascidos nos primeiros anos da união. Especular sobre as razões, não nos leva a lado nenhum. No entanto, sabendo ser a missão principal de uma rainha gerar o herdeiro do trono e tendo conhecimento da profunda religiosidade de D. Isabel, usei a hipótese, no meu romance, de ela ter optado pelo celibato, depois de ter dado à luz o infante D. Afonso, considerando a sua missão cumprida. Notemos que a infanta D. Constança nasceu apenas um ano antes do irmão. E, depois dele, não veio mais nenhum!

Inverti, assim, um pouco os papéis. Apesar de não lhe agradarem as aventuras do marido, não era propriamente D. Isabel a pessoa mais amargurada, neste casamento. Era, sim, D. Dinis. Ao ver-se casado com uma "santa".

 

Nota: a capa do livro de Mário Domingues serve apenas para representar o casal. É interessante verificar que D. Dinis surge aqui parecido com a reconstrução do seu rosto, feita a partir do seu crânio.

Um ano com D. Dinis (72)

Transferência do Estudo Geral

Cristina Torrão, 15.01.26

Em Janeiro de 1307 (não se sabe o dia) fez-se o primeiro pedido de transferência, de Lisboa para Coimbra, do Estudo Geral das Ciências, percursor da Universidade.

O Estudo Geral tinha sido fundado em Agosto de 1290, em Lisboa, através da bula De Statu Regno Portugaliae, emitida pelo papa Nicolau II. Poucos anos depois, iniciaram-se conflitos com a Casa da Moeda em relação ao terreno que D. Dinis doara para a construção do edifício, no Campo da Pedreira à Lapa, perto do Mosteiro de São Vicente de Fora. Também haveria conflitos entre os estudantes e a população de Lisboa, embora os motivos, tanto para uns, como para outros, não sejam hoje claros. No meu romance, tentei dar uma explicação plausível:

O Estudo Geral, porém, continuava a ser um problema bicudo. A contestação dos escolares aumentava, pois a Casa da Moeda instalara-se definitivamente naquele que havia sido o seu edifício e o rei ainda não conseguira disponibilizar os terrenos para a construção de um novo. As querelas descambavam, muitas vezes, em autênticas zaragatas, que se alargavam à população residente à volta do bairro dos estudantes. Estes, por seu turno, reclamavam do monarca a protecção especial que Nicolau IV lhes havia destinado. E Dinis ponderava a transferência do Estudo Geral. Custava-lhe afastá-lo de Lisboa, mas a situação tornava-se insustentável.

Considerava a hipótese de Coimbra. O Estudo Geral teria de se situar obrigatoriamente numa cidade, já que era o bispo quem concedia o grau de licenciado aos estudantes. Santarém e Leiria, por exemplo, não sendo assento episcopal, possuíam apenas o estatuto de vila. Em Portugal, havia apenas nove cidades, tantas, quantos os bispos: a Braga arquiepiscopal à cabeça, seguindo-se Lisboa, Coimbra, Porto, Lamego, Viseu, Guarda, Évora e Silves.

A transferência para Coimbra foi autorizada pelo papa Clemente V em 26 de Fevereiro de 1308. No entanto, a Universidade mudaria de local várias vezes, entre Lisboa e Coimbra, e só ficou definitivamente instalada junto ao Mondego mais de dois séculos depois da morte de D. Dinis.

À altura da Fundação do Estudo Geral das Ciências de Lisboa, já existiam as Universidades de Paris, Oxford, Cambridge, Nápoles, Pádua, Montpellier e Salamanca, todas fundadas na primeira metade do século XIII. Bolonha, a mais antiga, foi fundada ainda no século XII.

Estátua D. Dinis Coimbra.jpg

Estátua de D. Dinis, em Coimbra

Um ano com D. Dinis (71)

O neto chamado Dinis

Cristina Torrão, 12.01.26
 

D. Dinis teve um neto com o seu nome, nascido a 12 de Janeiro de 1317.

Porém, as desavenças entre o rei e o seu herdeiro Afonso, que desembocariam numa guerra civil, eram já graves. D. Dinis parece ter tido muita esperança neste neto, que foi jurado como herdeiro do trono pelos concelhos do reino com apenas cinco meses. 

A 14 de Junho, Dinis deu mais uma vez azo à euforia que lhe provocara o nascimento do neto, ao exigir que os concelhos do reino jurassem o pequeno como herdeiro do trono. Uma atitude que, porém, caiu mal ao filho Afonso. A criança, de apenas cinco meses, não carecia de legitimidade, nem tão-pouco faltava ao reino um príncipe herdeiro adulto. Porque dava o soberano um sinal claro em relação ao neto, em vez de o fazer com o filho?*

O pequeno infante Dinis morreria com cerca de um ano de idade, cumprindo o mesmo destino de um seu irmão, chamado Afonso, nascido em 1315.

Em Estremoz, Dinis recebeu a notícia da morte do neto, nas vésperas do primeiro aniversário do pequeno. Na sua desolação, a família real convencia-se de que Deus, por algum motivo, a castigava. Seria pelos diferendos entre os seus membros? O certo é que nem Isabel encontrava resposta para tanta calamidade e, em Fevereiro, Dinis resolveu ir em peregrinação a Santiago de Compostela.

Embora acompanhado de grande comitiva, incluindo os seus cavalos, o monarca andava muito a pé. Os prelados aconselhavam-no a assim fazer, pelo menos, metade do caminho.

(…)

O rei rezou longamente junto ao túmulo do apóstolo (...) Suplicou paz para o reino… E um herdeiro para o filho! Porque já lhe levara Deus dois netos legítimos, não consentindo inclusive que o sucessor de Afonso tivesse o seu nome?*

Dos sete filhos do futuro D. Afonso IV, apenas três atingiram a idade adulta: duas filhas, Maria e Leonor, e um filho, futuro rei D. Pedro I, nascido a 8 de Abril de 1319.

 

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D. Pedro I, neto de D. Dinis 

 

* Excertos do meu romance Dom Dinis, a quem chamaram o Lavrador.

Um ano com D. Dinis (69)

701º aniversário da morte de D. Dinis

Cristina Torrão, 07.01.26

D. Dinis faleceu a 7 de Janeiro de 1325, com sessenta e três anos, sendo aclamado seu filho Afonso IV rei de Portugal.

O Rei Lavrador teve um reinado preenchido. Durou quarenta e seis anos, dos quais cerca de quarenta terão sido felizes, pois o soberano estava, desde o início, perfeitamente vocacionado para a sua tarefa, sentindo-se, por assim dizer, como peixe na água.

Os últimos anos foram, porém, marcados pela guerra civil contra o seu próprio herdeiro, o que muito o amargurou e tanto desgastou, que o conflito bem pode ter acelerado a sua morte.

Conforme sua vontade, D. Dinis foi sepultado no mosteiro de Odivelas, mandado construir por ele próprio.

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O estado degradado em que se encontrava a sua sepultura, levou um grupo de cidadãos a criar uma página no Facebook, a fim de alertar quem de direito para a necessidade da sua recuperação.

A iniciativa foi um sucesso! O túmulo foi inteiramente restaurado, foi feita uma reconstituição do rosto de D. Dinis (contestada por muitos, sem razão, diria eu; explico aqui, porquê), e foram apurados vários elementos para estudo, entre os quais, a espada funerária.

A descoberta desta espada foi mesmo uma sensação arqueológica mundial. Agitou a comunidade internacional, tanto de profissionais, como de entusiastas e amantes da época medieval. Trata-se de uma espada lindíssima, que, espero, esteja a ser restaurada (pelo menos, assim estava planeado) e dará informações preciosas sobre a arte e a estética medievais ibéricas.

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No ano passado, o do 700º aniversário da sua morte, estavam, aliás, previstas várias iniciativas:

Está prevista uma "exposição itinerante dedicada à divulgação dos resultados do Projecto de Conservação e Restauro do Túmulo D. Dinis, a inaugurar a 18 de Abril". Vai ainda haver um "Congresso Internacional, a decorrer dias 27 e 28 de Junho, no Mosteiro de Odivelas", e vai ser lançado um "livro monográfico/catálogo que reunirá o conjunto de estudos interdisciplinares desenvolvidos", com data prevista em Outubro.

Não sei se todos este planos foram cumpridos. Se sim, não tiveram o impacto que calculava, pois não dei conta de nada. Interessava-me, sobretudo, o "livro monográfico/catálogo". Será que existe? E, claro, a apresentação da espada, em todo o seu esplendor.

Enfim, muitos projectos se atrasam, no nosso país. Aguardemos, pois!

Um ano com D. Dinis (68)

Fundação de Vila Real e Morte de D. Sancho II

Cristina Torrão, 04.01.26

 

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Faz hoje 736 anos que D. Dinis fundou a Vila Real (hoje, cidade), doando-a a D. Isabel. Na medieval Terra de Panóias, existia uma outra vila, Constantim, que acabou por decair. O pai de D. Dinis, D. Afonso III, tentou desenvolver a região, concedendo foral e direitos reais sobre a Terra de Panóias, mas o seu povoamento falhou. D. Dinis empenhou-se em renovar o malogrado plano, e fundou aquela que se tornaria a maior cidade transmontana.

 

Hoje verifica-se igualmente o 777º aniversário da morte do rei D. Sancho II, tio de D. Dinis, no seu exílio em Toledo.

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Incapaz de impor a ordem no reino, Sancho II foi afastado do trono pelo seu irmão mais novo, Afonso. Uma delegação portuguesa havia-se deslocado a França, onde vivia o infante D. Afonso, conde de Bolonha, por casamento com Matilde de Bolonha. Composta de clérigos e nobres, a delegação foi pedir ao conde que intercedesse na situação portuguesa, exigindo justiça e a imposição da ordem no reino. Jurou-lhe obediência, em Paris, a 6 Setembro de 1245, depois de, a 24 de Julho, o papa Inocêncio IV ter emitido a bula Grandi non immerito, que ditara a deposição de Sancho II, aí considerado rex inutilis.

O futuro rei D. Afonso III jurou respeitar as liberdades da Igreja, mas, durante o seu reinado, envolveu-se numa série de conflitos com o clero, culminando num interdito, lançado pelo papa Alexandre IV, em Maio de 1255. Este papa acusou igualmente Afonso III de adultério e incesto, numa bula de Abril de 1258, exigindo a restituição do dote a Matilde de Bolonha, a consorte ignorada pelo rei português. Este casara entretanto com Beatriz de Castela, filha de Afonso X o Sábio. Uma situação complicada, resolvida pela morte da malograda Matilde, nesse mesmo ano de 1258.

Um ano com D. Dinis (67)

Infanta Dona Constança de Portugal, Rainha de Castela

Cristina Torrão, 03.01.26

Constança 1.jpg

(sobre a imagem, ver nota no final)

 

A 3 de Janeiro de 1290, nasceu a infanta D. Constança de Portugal, a primeira filha de D. Dinis e de D. Isabel. O casal teve apenas mais um filho, o futuro rei D. Afonso IV, que nasceu cerca de um ano mais tarde.

Apesar de nascida em berço de oiro e se ter tornado rainha, a infanta D. Constança não terá sido muito feliz na sua curta vida, como acontecia a muitas donzelas da época medieval. Foi obrigada a separar-se dos pais com apenas sete anos, por ocasião do Tratado de Alcañices, a 12 de Setembro de 1297, pois ficou prometida em casamento ao rei Fernando IV de Leão e Castela. Em casos destes, era habitual a noiva ser criada pelos sogros.

Fernando IV tinha apenas doze anos, à altura do Tratado de Alcañices, mas era rei por morte de seu pai Sancho IV. Sua mãe, Maria de Molina, exerceu a regência durante a sua menoridade.

Fernando IV e Maria de Molina.jpg

Fernando IV e sua mãe Maria de Molina, Pintura de Antonio Gisbert Pérez, 1863.

 

O casamento foi celebrado em Janeiro de 1302, tinha a noiva doze anos e o noivo dezassete. Fernando IV, porém, morreria subitamente dez anos mais tarde. Constança escreveu aos pais a pedir protecção para o filho Afonso, o novo rei, de apenas um ano.

A cena política de Castela agitou-se, despertando lutas pela sucessão do trono. Levantava-se o problema da tutoria do pequeno rei e da regência do reino. A situação tornou-se insuportável para a frágil rainha, incapaz de lidar com as intrigas da corte e as lutas entre os ambiciosos nobres castelhanos e aragoneses. Cortou inclusivamente relações com a sogra.

Sobre isto, um pequeno excerto do meu romance:

No início do Outono, chegou à corte um apelo desesperado de Constança. O pequeno rei, de apenas dois anos, encontrava-se em Toro com a avó, que, ofendida com a nora, a proibia de ver o filho. No seu desespero, Constança suplicava o apoio do pai para levar o tio Juan a exigir a custódia completa do filho, contra Maria de Molina.

Dinis censurou Isabel por haver arrastado a filha para o tio aragonês e a rainha, mortificada, escreveu a Constança, pedindo-lhe que viesse ter com eles. A filha, porém, respondeu que tentaria fazer as pazes com a sogra, esperando que esta a autorizasse a entrar em Toro.

Constança faleceria poucos dias depois, com apenas 23 anos, vítima de uma febre que a levou em três dias. Sem ter feito as pazes com a sogra, sem ver os pais uma última vez, nem sequer o filho de dois anos.

 

Também a 3 de Janeiro, mas no ano de 1312, dá-se um acontecimento que avolumou as discórdias entre D. Dinis e o seu herdeiro: a sentença do tribunal régio, no processo dos herdeiros do 1º conde de Barcelos, D. João Afonso Telo.

A sentença favoreceu Afonso Sanches, um dos genros do falecido e filho ilegítimo de D. Dinis, que é nomeado mordomo-mor do pai. O outro genro, D. Martim Gil de Riba de Vizela, apesar de ter sucedido ao sogro no título, tornando-se no 2º conde de Barcelos, foi muito prejudicado nas partilhas. A sentença chocou-o tanto, que se exilou em Castela, morrendo antes do fim desse ano. O seu testamento referia que nenhum dos seus bens fosse parar às mãos do cunhado Afonso Sanches. Foi, porém, exactamente isso que acabaria por acontecer. Por decisão régia!

O escandaloso favorecimento do filho bastardo Afonso Sanches, por parte de D. Dinis, foi uma razão de peso para a revolta do príncipe herdeiro Afonso. Como sabemos, essa revolta desembocou numa guerra civil, amargurando os últimos anos de vida do rei Poeta e Lavrador. Mas sejamos honestos: este rei, tão culto e cujo reinado ficou marcado pela justiça, falhou redondamente, neste preceito, ao sujeitar o seu único filho legítimo a várias humilhações.

 

Afonso IV Selo.jpgD. Afonso IV, filho de D. Dinis

 

Nota em relação à primeira imagem: não encontrei nenhuma representação de D. Constança. Deparei, nas minhas pesquisas, com esta imagem de Sansa Stark, uma personagem da série Game of Thrones. Decidi usá-la porque se aproxima muito da Constança descrita no meu romance.

Um ano com D. Dinis (65)

Batalha de Alvalade

Cristina Torrão, 12.12.25

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Depois das Cortes de Lisboa, em Outubro de 1323, em que as pretensões do príncipe herdeiro foram desleixadas, este retirou para Santarém, a fim de reunir os seus apoiantes e apoderar-se do trono à força.

Ao saber que o filho avançava em direcção a Lisboa com a sua hoste, D. Dinis, auxiliado pelos bastardos Afonso Sanches e João Afonso, tomou posição no campo de Alvalade (ou, segundo José Mattoso, no lugar chamado Albogas, perto de Loures).

Estava tudo a postos para a batalha final da guerra civil. Mas a refrega foi impedida por intervenção de D. Isabel. Diz-se que se interpôs entre os dois exércitos, no meio do campo de batalha. 

Isabel - Batalha Alvalade.jpg

Imagem daqui

 

Dei a minha versão dos acontecimentos, no romance sobre D. Dinis:

 

Soaram as trombetas e os anafis, deu-se ordem de disparo, abrindo as hostilidades. Voaram as primeiras setas dos archeiros de Dinis por cima do campo e não tardou que uma chuva delas, vindas do adversário, caísse em cima dos seus homens, que se protegiam com os escudos.

O monarca deu mais algumas vezes ordem de disparo, a fim de matar o maior número possível de adversários, antes de investir contra eles.

Nisto, o alcaide Fernão Rodrigues Bugalho agitou-se:

- Pelas cinco chagas… Mas que vem a ser aquilo?

Dinis esforçou os olhos no ar límpido da manhã. Viu a cruz em primeiro lugar. Devia ser enorme, mas era transportada por um único cavaleiro. À frente deste, vinha mais alguém. Duas figuras a cavalo deslocavam-se pelo campo, debaixo do fogo das setas.

- Com mil diabos - exclamou o alferes-mor João Afonso. - Estarão as criaturas cansadas de viver?

O rei esforçou mais os olhos. A figura da frente vinha toda vestida de branco, uma capa esvoaçava na brisa da manhã, iluminada pelo sol de Dezembro. Parecia um anjo…

Isabel!

- Cessai os disparos - berrou Dinis com quanta força tinha. - É a rainha! Cessai os disparos!

Também do outro lado teria sido dada ordem semelhante, pois os projécteis deixaram de cruzar os céus. Estabeleceu-se o silêncio sobre a planície. Dinis mandou cavaleiros ao encontro de Isabel e seu acompanhante. Constatou que o príncipe fizera o mesmo. Cavaleiros de ambos os lados aproximaram-se das duas figuras solitárias.

 

O acompanhante de D. Isabel era o bispo de Lisboa, D. Gonçalo Pereira. Enquanto a rainha seguiu os cavaleiros do príncipe, pois decidiu falar primeiro com o filho, o bispo acompanhou os de D. Dinis. Chegado à presença do rei, o prelado relatou:

 

«Vieram acordar-me a meio da noite, disseram-me que a rainha se encontrava ali no meu paço. E ela assim comigo falou:

- D. Gonçalo, temos de impedir a batalha prestes a acontecer no campo de Alvalade. Estava eu a meio das minhas rezas, quando Deus me fez ver a desgraça: os corpos mutilados, os gritos desesperados dos feridos… E uma voz suplicou-me que me interpusesse entre os dois exércitos, acompanhada do mais alto representante de Deus que pudesse encontrar. Aqui em Lisboa sois vós, eminência.

- Mas que podemos nós os dois fazer contra dois exércitos, minha santa senhora? Sem armas, sem guerreiros…

Ela replicou, cheia de serenidade:

- A voz garantiu-me que nada nos sucederá, se levarmos esta cruz.

Mostrou-me a enorme cruz, transportada por quatro criados. 

Ainda me recordo de pensar ter D. Isabel endoudecido, quando senti uma força misteriosa apoderar-se de mim. Parecia vir do brilho dos olhos da rainha, uma força que me impedia de a contradizer. Fizemo-nos ao caminho, no escuro da noite fria, acompanhados pelos quatro serviçais e mais dois com lanternas. Ao acercarmo-nos do campo de batalha, já ao nascer do sol, D. Isabel disse que apenas eu e ela estaríamos protegidos das setas pelas forças divinas. Os criados teriam de procurar abrigo. Eu retorqui que, na minha idade, jamais conseguiria carregar com uma cruz daquelas, mas ela disse:

- Pegai nela, D. Gonçalo, e vede como Deus a faz leve.

E tinha razão! Logrei pegar na cruz e erguê-la. Se não o houvesse experimentado, nunca acreditaria. Mas ainda perguntei à rainha:

- E quem guiará o meu cavalo? Fico sem mãos livres para as rédeas…

- Deus - respondeu ela. - Tende Fé!

A minha montada seguia a de D. Isabel como se realmente alguma força a guiasse, nem sequer se assustava com a zoada das setas, voando em arco por cima de nós. O mesmo não se podia dizer de mim. Confesso nunca haver sentido tanto medo na minha vida. Bradei:

- Morreremos, é o nosso fim.

- Fechai os olhos, D. Gonçalo, e rezai.

- Fechar os olhos? Mas como saberei para onde ir?

- Confiai em Deus!

Obedeci, nada mais me restava. E dei por mim com a cabeça encostada à cruz, a confessar os meus pecados, suplicando absolvição, tão convencido estava haver chegado a minha hora. Não faço ideia quanto tempo assim estive. De repente, dei conta do silêncio que se havia apoderado de todo o campo. O meu cavalo parou, sem que lhe houvesse dado qualquer ordem. Abri os olhos e vi os vossos cavaleiros e os do príncipe virem ao nosso encontro. Chegaram no momento certo, pois comecei a tremer violentamente e a cruz pôs-se-me de repente mui pesada. Não fossem eles, tê-la-ia deixado cair ao chão. E só deixei de tremer aqui, no abrigo da vossa tenda».

 

A pedido da mãe, o príncipe concordou em desistir dos seus intentos, mas declarou não mais desejar falar com o pai, nem encontrar-se com ele.

Em Fevereiro seguinte, D. Dinis dirigiu-se a Santarém, onde o príncipe se havia recolhido, apenas para sofrer grande humilhação. As portas da cidade mantiveram-se fechadas, barrando a entrada ao rei de Portugal. Houve combates, em redor das muralhas, e, a 26 de Fevereiro, conseguiu-se um acordo entre o rei e o príncipe. D. Dinis comprometeu-se a aumentar as rendas do filho e a retirar o cargo de mordomo-mor ao bastardo Afonso Sanches.

Um ano com D. Dinis (64)

Os Irmãos Sancho e Afonso

Cristina Torrão, 04.12.25

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Representação de D. Afonso III na Viagem Medieval de Santa Maria da Feira 2015

 

Em Dezembro de 1245, D. Afonso Conde de Bolonha desembarcou em Lisboa, a fim de tomar conta do reino português, caído em desordem sob a regência de seu irmão D. Sancho II. D. Afonso, que vivia em França há vários anos, satisfazia assim o pedido de uma delegação portuguesa que se deslocara a Paris em busca de ajuda. Possuía o apoio dos concelhos do Centro e do Sul e dos castelos de Santarém, Alenquer, Torres Novas, Tomar e Alcobaça.

Seguiu-se uma guerra civil, que acabou com a deposição de D. Sancho II.

D. Afonso, o terceiro desse nome, seria o pai de D. Dinis. O seu irmão Sancho morreu no exílio, em Toledo, a 4 de Janeiro de 1248.

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Um ano com D. Dinis (63)

Forais

Cristina Torrão, 24.11.25

Verifica-se este mês o 729º aniversário dos forais de Sabugal, Castelo Rodrigo, Castelo Bom, Almeida e Vilar Maior, concedidos por D. Dinis, numa altura, em que estes lugares pertenciam ainda ao reino de Leão. Depreende-se que já teriam sido prometidos ao Rei Lavrador. A sua integração no reino português foi ratificada cerca de um ano mais tarde, no Tratado de Alcañices.

Um ano com D. Dinis (62)

Morte de Dona Constança

Cristina Torrão, 18.11.25
 

- Que se passa?

Isabel respondeu num sussurro:

- Tive um sonho…

- Um pesadelo?

- Não sei… Uma mensagem… Ou uma premonição…

Mais uma? Dinis fez esforço por vencer o enfado, pois haveria uma razão forte que a trouxera aos seus aposentos, numa noite tão fria. Acabou por dizer:

- Sentai-vos e contai-me o que vos atormenta.

Isabel assim fez. Depois de pousar a vela sobre a mesinha ao lado da cama, iniciou o seu relato:

- Há cerca de uma semana, andando para os lados da Azambuja, deparei com um eremita à beira da estrada. Parecia muito perturbado e eu desmontei da minha mula e perguntei-lhe se havia mister do meu auxílio. Ele não respondeu, limitou-se a fixar-me numa tristeza infinita. Já tratei de muitos enfermos e assisti a muitas aflições, mas nunca vira olhos tão tristes. Insisti na minha pergunta. Depois de me fixar durante mais alguns momentos, ele abanou a cabeça e afastou-se de mim sem uma palavra.

Isabel baixou a cabeça e prosseguiu:

- Não mais olvidei aquele olhar. Passado uns dias, tornei ao local, a fim de o procurar. Mas não o encontrei. Perguntei por ele nas aldeias da região, descrevendo-o o melhor que podia. Ninguém parecia conhecê-lo. Indicaram-me alguns eremitas que por ali viviam e fui ter com eles. Mas nenhum era o que eu havia visto. O homem parecia ter-se esfumado, ou sido engolido pela terra… Tentei olvidá-lo. Mas hoje…

Começou a tremer mais violentamente:

- Sonhei com ele…

- Ora, ficastes impressionada com a sua figura…

- No sonho, ele falou comigo. E disse-me… Que Constança havia morrido!

 

A 18 de Novembro de 1313 morreu a rainha D. Constança de Castela, antiga infanta portuguesa, filha de D. Dinis e D. Isabel, com apenas vinte e três anos.

 

Constança 1.jpg

 

Nota: não encontrei nenhuma representação de D. Constança. Deparei, nas minhas pesquisas, com esta imagem de Sansa Stark, uma personagem da serie Games of Thrones, interpretada por Sophie Turner. Decidi usá-la porque se aproxima muito da Constança que descrevo no meu romance.

Um ano com D. Dinis (61)

Estudo Geral das Ciências de Lisboa

Cristina Torrão, 12.11.25
 

A 12 de Novembro de 1288 foi redigida, em Montemor-o-Novo, a carta ao papa Nicolau IV, pedindo autorização para a criação do Estudo Geral das Ciências em Lisboa (percursor da Universidade). Além de D. Dinis, assinaram a carta o abade do mosteiro de Alcobaça, os priores de Santa Cruz de Coimbra e de São Vicente de Lisboa e os superiores de vinte e quatro igrejas e conventos do reino. Suplicaram a aprovação e «confirmação de uma obra tão pia e louvável», pois o Estudo Geral deveria albergar estudantes que, por falta de posses, não podiam estudar em universidades estrangeiras.

O Estudo Geral das Ciências de Lisboa foi aprovado pelo papa em Agosto de 1290.

 

Terá sido igualmente nesta altura que D. Dinis resolveu usar o Português nos documentos oficiais da chancelaria, normalmente redigidos em latim ou em galaico-português. Esta língua, falada no início da fundação do reino e ainda usada na poesia trovadoresca, já não correspondia ao falar do dia-a-dia, no tempo de D. Dinis.

Um ano com D. Dinis (60)

Morte de D. Pedro III de Aragão

Cristina Torrão, 02.11.25
 

Pedro III de Aragão.jpg

Pedro III de Aragão, por Manuel Aguirre Y Monsalbe, 1854

 

A 2 de Novembro de 1285 morreu o rei D. Pedro III de Aragão, denominado o Grande, pelas suas conquistas militares. Tinha apenas quarenta e seis anos e era o pai da rainha Santa Isabel. Não sabemos qual o efeito teria o acontecimento causado em sua filha, que já estava em Portugal há dois anos e meio. Segundo a tradição, D. Isabel era muito chegada ao pai e, considerando que estava ainda a dois meses de completar quinze anos e seria dona de um carácter sensível, criei esta cena no meu romance, no castelo de Trancoso, rodeado de neve:

 

Os alões deitados em frente à lareira levantaram-se, a ladrar como doidos. Dinis bradou:

- Que vem a ser isto?

- Virá por aí alguém? - sugeriu Pêro Anes Coelho.

- A esta hora? Num tempo destes?

Dinis virou-se para Isabel e assustou-se: a rainha apresentava uma palidez cadavérica, uma das mãos agarrava o vestido à altura do peito.

- Que tendes? Não vos sentis bem?

Isabel apontou-lhe olhos aterrorizados:

- Uma desgraça sucedeu!

- Que dizeis?

Apesar de assustado, Dinis pegou-lhe nas mãos gélidas e afirmou:

- Os cães ficaram nervosos com o uivar dos lobos, é só.

De repente, irromperam na sala dois cavaleiros com os seus capotes cobertos de neve. Isabel começou a tremer, mas Dinis teve de a largar para ir ajudar Pêro Anes Coelho e João Anes Redondo a segurar os alões, que ameaçavam despedaçar as vestes dos recém-chegados.

- Quem sois? - bradou o rei. - Porque vos deixaram entrar?

- Vimos de Aragão, Alteza.

- Meu Deus - gritou Isabel.

Levantou-se e foi ao encontro deles. Logo os cães se acalmaram, como por encanto. 

- Trata-se de meu pai, não é verdade? Que lhe sucedeu? Dizei!

- Lamentamos ter de vos informar que el-rei D. Pedro III se finou no passado dia 2 deste mês.

Gerou-se um silêncio sepulcral. Até que os lobos tornaram a uivar. Isabel desfaleceu de encontro a Dinis, que a segurou nos braços.

Carregando-a, o rei desceu a escada exterior da torre de menagem e caminhou pela neve a dar-lhe pelas canelas. Pêro Anes Coelho seguira-o e bateu à porta da casa da rainha, arrancando as damas e as camareiras do seu sono.

 

Nota: Pedro III de Aragão era igualmente rei de Valencia, Sicília e conde de Barcelona.

Um ano com D. Dinis (59)

Os últimos meses

Cristina Torrão, 25.10.25

Em Outubro de 1324, D. Dinis fez-se ao caminho de Santarém, como de costume. Tinha-se tornado um hábito passar o Natal e o fim do ano naquela cidade, só regressando a Lisboa na Primavera. Naquele ano, porém, D. Dinis fora desaconselhado a empreender a viagem, devido ao seu precário estado de saúde. A rainha D. Isabel tratava dele, administrando-lhe pessoalmente os remédios.

Durante a viagem, D. Dinis sentiu-se tão mal, que a rainha mandou chamar o filho D. Afonso, encontrando-se este em Leiria. Depois de uma desgastante guerra civil, o rei e o seu herdeiro haviam assinado as pazes a 26 de Fevereiro daquele ano. A guerra terminara, mas os dois continuavam desentendidos, não se falavam e evitavam encontrar-se. 

Vendo o pai em tão mau estado, porém, o infante tudo fez para cuidar dele. Com a sua ajuda, D. Dinis chegou a Santarém, onde melhorou um pouco.

Mas o destino do Rei Lavrador estava traçado. Sentindo a morte aproximar-se, fez o seu terceiro e último testamento a 31 de Dezembro. Morreria a 7 de Janeiro seguinte, com 63 anos.

 

Um ano com D. Dinis (58)

Cortes de Lisboa de 1323

Cristina Torrão, 17.10.25

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Em Outubro de 1323 (não se sabe em que dias) reuniram-se Cortes em Lisboa, a pedido do infante D. Afonso, o herdeiro de D. Dinis. E reacendeu-se a guerra civil, que já se dera por terminada.

O infante D. Afonso exigia, entre outras coisas, que fosse retirado a seu meio-irmão Afonso Sanches o cargo de mordomo-mor, assim como as terras e dinheiros a ele doados pelo pai de ambos. Estas suas pretensões foram, porém, desleixadas, tratou-se de outros assuntos, acabando com a paz frágil, negociada entre pai e filho em Leiria, no ano anterior. A seguir ao cerco a Coimbra, essa paz tinha sido possível através da mediação da rainha D. Isabel e do conde D. Pedro de Barcelos.

Deixo-vos com um excerto do meu romance relativo às Cortes de Lisboa, quando o príncipe herdeiro viu os seus desejos ignorados pelos pares do reino, sem que seu pai interviesse a seu favor:

Ninguém abriu a boca. Mas Dinis arrependeu-se daquele procedimento em relação ao príncipe. Apesar de Afonso se manter digno, a humilhação era enorme, principalmente, perante a notória satisfação dos meios-irmãos. Naquele instante, o rei apercebeu-se haver exagerado na sua protecção e no seu favorecimento dos bastardos.

Não podia, porém, voltar atrás, dando o dito por não dito e, por isso, nada fez para impedir o voltar de costas do seu herdeiro àquela assembleia.

No fim do dia, o rei foi informado que o príncipe deixara a cidade e, passado duas semanas, soube que juntava os seus partidários em Santarém, planeando marchar sobre Lisboa, a fim de se apoderar do trono à força!

Era a ruptura total. Embora Isabel não o dissesse, Dinis sabia que ela o considerava responsável pela situação. Ele próprio assim se sentia. A rainha recolheu-se novamente em jejuns e penitências, recusando falar com ele.

Não obstante o arrependimento, o rei não podia deixar de defender o seu trono. Passou o mês de Novembro a organizar um exército, formado principalmente pelos combatentes do concelho de Lisboa.

A questão decidir-se-ia numa batalha em campo aberto, onde não existiria lugar para piedades nem perdões. As tropas digladiar-se-iam até haver um vencedor.

Os exércitos aquartelaram-se na zona do campo de Alvalade.

Um ano com D. Dinis (57)

764º Aniversário de D. Dinis

Cristina Torrão, 09.10.25

 

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Nuno Luís - Facebook

A 9 de Outubro de 1261, nascia o segundo filho do rei D. Afonso III e da rainha D. Beatriz, o príncipe herdeiro, pois sua irmã mais velha, a infanta D. Branca, só seria considerada na linha de sucessão em situações de emergência.

D. Afonso III vivera na corte francesa, protegido por sua tia Branca de Castela, rainha de França. Resolveu, assim, dar o nome de um santo francês (Saint Denis) ao seu sucessor.

À altura do seu nascimento, D. Dinis era ilegítimo, já que o casamento dos pais não havia sido ainda reconhecido pela Igreja.

Além da infanta D. Branca, D. Dinis teve mais cinco irmãos:

Infante D. Afonso, nascido a 6 de Fevereiro de 1263

Infanta D. Sancha, nascida a 2 de Fevereiro de 1264 (morreu com cerca de vinte anos)

Infanta D. Maria, nascida em Fevereiro ou Março de 1265 (morreu com pouco mais de um ano)

Infante D. Vicente, nascido a 22 de Janeiro de 1268 (morreu ainda criança)

Infante D. Fernando, nascido em 1269, morrendo pouco tempo depois.