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Ser turcófilo passou de moda

por Pedro Correia, em 13.06.19

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1

Ao contrário do que por vezes se imagina, a passagem do tempo costuma ser clemente para os políticos. Se assim não fosse, estaríamos em 2019 a escrutinar todos aqueles que durante anos andaram por cá a defender com fervor a integração da Turquia na União Europeia. 

Não precisamos de recuar muito. Na campanha para as eleições europeias de 2009, este tema esteve em debate. Com os cabeças de lista do PS e do PSD, Vital Moreira e Paulo Rangel, convergindo no apoio à adesão turca.

«A União Europeia só teria a ganhar com a integração de um país muçulmano e laico», declarou Vital Moreira durante essa campanha. Enquanto Paulo Rangel deixou claro: «Devemos apoiar os esforços de negociação entre a Turquia e a UE.»

 

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Ainda mais longe neste entusiasmo andou o ex-Presidente da República Cavaco Silva. Que aproveitou precisamente uma visita de Estado realizada há dez anos à Turquia para garantir o «apoio integral de Portugal» no processo de adesão, possibilitando que a maior potência da Ásia Menor se tornasse «membro pleno» da UE.

Indiferente ao facto de se tratar de um país com mais de 70 milhões de habitantes, aliás na esmagadora maioria residentes fora do continente europeu (em termos geográficos, o centro-sul/sudeste da Trácia é a única parcela de território turco que faz parte da Europa).

Indiferente também à inevitável pressão demográfica desta adesão, que conduziria à quebra de salários e rendimentos dos trabalhadores assalariados no espaço comunitário.

 

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Havia já suficientes sinais de alerta para que tais entusiasmos fossem travados. Desde logo, a ocupação ilegal de parte da ilha de Chipre por forças turcas, à revelia do direito internacional. Depois, o contínuo desrespeito da minoria curda residente em solo turco. Sem esquecer a preocupante aproximação do partido do primeiro-ministro (agora Presidente da República) Recep Erdogan ao integrismo islâmico.

Sabemos o que aconteceu desde então: a Turquia tornou-se um Estado autoritário, onde se multiplicam as violações dos direitos fundamentais dos seus cidadãos - incluindo severas restrições às liberdades de expressão, de reunião, de manifestação e de imprensa, acentuadas desde a alegada tentativa de golpe ocorrida em 2016, que serviu de pretexto a Erdogan para uma gigantesca purga no aparelho de Estado, além do silenciamento de incontáveis vozes incómodas no jornalismo turco. Enquanto se vai diluindo o regime laico implantado em 1923 por Ataturk. 

 

4

Tudo isto já é suficientemente grave com a Turquia fora da UE. Agora imaginemos se as teses turcófilas dos generosos políticos portugueses tivessem prevalecido dez anos atrás, escancarando as portas a Ancara: haveria hoje uma séria deriva ditatorial no segundo país mais populoso do espaço comunitário (logo após a Alemanha).

Felizmente os desígnios de Erdogan foram travados pela sábia Angela Merkel e pelo arguto Nicolas Sarkozy, que vetaram a adesão. Felizmente também para alguns políticos cá do burgo, a nossa memória colectiva é muito curta: cada vez somos menos com memória suficiente para pedir-lhes contas do que disseram e fizeram.

Europa: o outro sítio

por João André, em 27.05.19

Nasci em 1975, num país mal saído da ditadura. Não passei pelo Verão Quente, senão no conforto do útero. Cresci num país a melhorar aos poucos, com momentos piores que outros mas que a minha idade não me permitia lembrar. A maior parte das minhas memórias vêm de 1985-86, pelo que qualquer memória que tenho associa Portugal à União Europeia (na altura a CEE). A minha vida activa apanha-me quase exclusivamente com Portugal como parte do EURO, que afortunadamente eliminou o termo ECU. A minha primeira viagem fora do país que não envolvesse comprar caramelos em Ayamonte foram umas férias a limpar escritórios em Londres. A entrada não requereu mais que um bilhete de identidade. O meu primeiro passaporte foi pedido já com uns 22 anos de idade e terá recebido um carimbo. Não visitei todos os países da UE nem do espaço Schengen, mas já visitei uns quantos. Vivo num país que não é o do meu nascimento e trabalho noutro, sendo que sou obrigado a deslocar-me a vários países da UE/Schengen com frequência. A Europa não é para mim um conceito ou um objectivo: é uma realidade diária.

É por isso que tenho dificuldade em conceber tanta gente a votar em partidos que, por ideologia ou populismo, estejam contra a UE. Isto não quer dizer que seja uma posição inválida ou errada por si mesma, apenas que tenho tanta dificuldade em concebê-la como em compreender que há pessoas que se mutilem extensivamente por motivos estéticos. Há bons argumentos contra a UE, contra uma integração mais profunda ou em favor de manter a UE mas reduzir a sua influência na vida dos estados membros. Infelizmente raras vezes vejo esses argumentos apresentados de forma séria. Em geral são-no conjuntamente com falsidades referentes à ingerência que a UE tem na vida dos países individuais (como em todo o debate em torno de Brexit).

Mas o maior falhanço da Europa provém dos seus partidos mais tradicionais, do centro ou não. Confrontados com a estridência dos partidos populistas ou extremistas (e nos extremos faz pouca diferença se de direita ou esquerda), esses partidos têm optado por cooptar parte dos argumentos para os tentar esvaziar. Casos há em que funciona, mas habitualmente é por pouco tempo e faz sempre lembrar a fábula da rã e do escorpião. A verdade é que as cópias são sempre piores que os originais e, quando temos os países tradicionais ou do centro a copiar os argumentos anti-Europa ou anti-imigração, normalmente soam ocos e falsos. Porque o são.

A Europa é para mim uma realidade diária, escrevi eu. É também um objecto da Evolução, tão real quanto a biológica. Nao há uma meta para um projecto Europeu, é um projecto cujas balizas estarão sempre a mover-se e, se as alcançarmos, teremos que procurar novas. A natureza humana é uma de descontentamento e será sempre necessário adaptar a Europa para que continue a ser um ideal em vez de realidade.

Em tempos a série The Twilight Zone teve um episódio chamado A Nice Place to Visit. Nele um ladrão morria depois de um assalto e acabava num lugar onde tudo lhe corria bem. Recebia o dinheiro que quisesse, ia ao casino e vencia sempre, com a bola da roleta a cair nas suas escolhas e as suas mãos nas cartas a serem sempre perfeitas. Ao fim de algum tempo comçava a odiar o lugar e pedia para ir para "o outro sítio". Claro que o twist é óbvio: ele já estava no outro sítio. Se a Europa não evoluir, se apenas for o melhor sítio do mundo para viver, não tardará muito a que seja também "o outro sítio". Nesse aspecto, introduzir imperfeições é boa ideia. Talvez possamos almejar, em vez de definhar.

Desleixo ou desinteresse

por Alexandre Guerra, em 14.11.17

Vinte e três Estados-membro da UE assinaram ontem a notificação conjunta para a instituição da Cooperação Estruturada Permanente (PESCO), um passo muito importante na tua almejada política de Segurança e Defesa europeia comum e pela qual Portugal se tem batido. Mas, com bastante surpresa, constatou-se que o nosso País não esteve no grupo fundador, ainda por cima sendo este um instrumento previsto pelo Tratado de Lisboa. É certo que se pode juntar mais tarde e que para já estamos apenas a falar de uma notificação, mas a verdade é que para a História, Portugal não esteve no grupo da frente, rompendo com a boa tradição da diplomacia portuguesa, de ter sabido sempre posicionar-se na vanguarda do projecto europeu. E que ilações se pode tirar disto? Das duas uma: ou desleixo nacional, por não se terem cumprido uns prazos quaisquer (segundo as justificações do próprio chefe da diplomacia nacional), ou desinteresse. Em qualquer dos casos, é lamentável que a diplomacia portuguesa, historicamente sempre de grande qualidade, desta vez não tenha percebido onde Portugal devia estar.

Independência dos tribunais?

por Luís Menezes Leitão, em 09.11.17

Confesso que tenho ficado absolutamente perplexo com a pressão que está a ser feita pelos governos da União Europeia para que o juiz belga se decida a extraditar Puigdemont a Espanha. Basta ver olhar para estas declarações absolutamente inaceitáveis de Manuel Valls, ex-Primeiro-Ministro e actual deputado francês, a declarar que não haverá espaço judicial europeu se Puigdemont não for extraditado para Espanha. Como é sequer imaginável que o ex-Primeiro-Ministro de um país estrangeiro se atreva a dizer o que é que um juíz belga deve fazer num processo que tem entre mãos? O que demonstra bem a anedota que constitui a União Europeia é os estados grandes acharem que podem fazer tudo em relação aos estados pequenos, inclusivamente dar ordens aos seus tribunais. Não haverá limites para esta absoluta falta de vergonha?

França e o futuro da UE

por José António Abreu, em 28.11.16

nomeação de François Fillon como candidato do centro-direita às eleições presidenciais francesas abre perspectivas interessantes. Se, como tudo parece indicar, for ele a defrontar Marine Le Pen na segunda volta, não apenas a eleição de Le Pen ficará quase impossível (por muito que a faceta social-conservadora de Fillon desagrade à esquerda «progressista», ele constituirá sempre um mal menor) como, qualquer que seja o vencedor, ficam garantidas mudanças fundamentais na política francesa – e, por arrasto, na europeia. É sabido que uma vitória de Le Pen conduziria a França para fora do euro e da UE, provocando o colapso desta. Mas uma vitória de Fillon garantirá uma alteração fundamental no balanço de forças entre os países que defendem e aplicam reformas estruturais e os países que, na prática, se lhe opõem. Fillon defende cortes no Estado e uma economia baseada na iniciativa privada e nas exportações. Num país como França, não é líquido que consiga fazer tudo o que pretende. No mínimo, enfrentará enorme contestação dos grupos que se alimentam do Estado. Mas terá o peso da estagnação francesa a seu favor (muita gente sabe que algo tem de ser feito) e uma legitimidade dupla: a conferida pela eleições e a decorrente da clareza, verdadeiramente admirável, com que tem exposto as suas ideias. Ora uma França reformista (honestamente, parece um oxímoro) estará muito mais alinhada com a Alemanha e tornará a União Europeia muito menos condescendente para com países que preferem ir arrastando os pés. Convinha que estes se preparassem – para qualquer dos cenários.

Não tenho dúvidas de que hoje em dia está na moda dizer mal da União Europeia e de tudo que ela faz e representa. Os políticos europeus estão na linha da frente desses "ataques", muitas das vezes esquecendo-se o que essa mesma União (ou Comunidades, dantes) deu e contribuiu para o progresso e salto civilizacional deste Continente. O povo, naturalmente, vai atrás, criticando sem saber bem do que fala, embora, também se deva dizer que as supostas elites pensantes que pululam pelos meios de comunicação social são mais críticas em relação à UE do que os cidadãos comuns, que, apesar de tudo, são mais justos na análise que fazem aos benefícios e virtudes da Europa Comum. E no meio desta ânsia mediática de se criticar e dizer mal, acaba-se por dar ênfase ao que está errado (e há muita coisa) e ignorar o que diariamente é feito de positivo ao nível comunitário e devidamente comunicado pelas instâncias de Bruxelas. Mas, a questão é que isso pouco interessa às redacções e essa informação não tem espaço nos alinhamentos de comentários dos muitos "especialistas" que se redistribuem pelos vários canais noticiosos. 

 

Há dias, tivemos um bom exemplo disso, com a União Europeia a dar um passo político muito importante na sua história ao ter, pela primeira vez, como um todo, ratificado um acordo internacional, optando por não esperar pelas ratificações nacionais dos Estados-membros. Pouco se ouviu falar sobre isso, mas o que é certo é que os ministros de Meio Ambiente dos países-membros da UE aprovaram no passado dia 30, em Bruxelas, a ratificação do Acordo de Paris, que determina as directrizes universais para o combate ao aquecimento global. A decisão foi aprovada por unanimidade, num raro avanço político na UE. Os ministros aprovaram, na prática, a aceleração do processo de ratificação, sem esperar pela implementação do acordo em cada Estado-membro. De notar que apenas sete países da União Europeia já tinham concluído esse procedimento de ratificação nacional. Entretanto, o Parlamento Europeu também já aprovou a ratificação do Acordo de Paris, estando, agora, fechado o processo político e aberto o caminho para a sua entrada em vigor, no prazo de 30 dias. Sublinhe-se que para entrar em vigor, o Acordo de Paris precisava da ratificação de, pelo menos, 55 países responsáveis por 55% das emissões de gases com efeito de estufa. Até agora já tinha sido ratificado por 62 países, mas estes representavam apenas 52% das emissões, incluindo os dois maiores emissores – a China (20% do total) e os EUA (18%) –, pelo que a ratificação da UE permitirá a implementação do compromisso, 30 dias depois de a mesma ser depositada na ONU.

 

Ora, além da importância óbvia da entrada em vigor do Acordo de Paris (e isso foi noticiado timidamente no meio de tantas outras notícias), existe a vertente política no âmbito do processo europeu e esse enquadramento esteve praticamente ausente da imprensa e televisões portuguesas. É pena, porque este processo é um dos bons exemplos de como a Europa pode estar ao serviço de grandes causas, desde que haja consenso entre os líderes europeus. E era bom que isso fosse explicado e salientado.   

(Euro)peu

por Adolfo Mesquita Nunes, em 12.07.16

O Europeu de Futebol, com as suas emoções, é uma -- mais uma, mas bastante elucidativa -- demonstração de que a Europa é feita de nações com histórias, culturas, emoções e percursos próprios. Cada nação a sofrer pelo seu país, a criticar a selecção do lado, a orgulhar-se do seu trajecto, chamando pelos seus, chorando com os seus. Não há qualquer problema nisso, é o que nos sai com naturalidade, sem maldade. E talvez devêssemos prestar mais atenção a essa demonstração, porque ela diz muito de nós, das nossas circunstâncias.

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Só um totalitarismo poderá impedir essa diversidade de percursos, ou pelo menos a sua manifestação. Só uma ditadura nos impedirá de nos sentirmos mais portugueses do que qualquer outra nação a competir pelo título. Só coagidos nos esqueceremos de aplaudir e chorar os nossos golos e as nossas falhas.

 

Qualquer projecto político ou institucional europeu que não dê conta dessa diversidade, que a não integre no seu processo decisório, que não faça dela um activo, só encontrará problemas e criará outros tantos. É evidente que estas nações se unem por valores comuns, e que partilham muito do que as fez sobreviver num Mundo que viu tantos apogeus e tantos declínios. Mas essa partilha, genuína, nunca as fez perder essa individualidade.

 

Num momento em que a Europa enfrenta tantos desafios, talvez fosse bom olhar para o Europeu com olhos de ver.  

Uma boa pergunta

por Pedro Correia, em 29.06.16

O inglês manter-se-á como língua oficial da União Europeia após a saída do Reino Unido?

Euro-snobbism

por Adolfo Mesquita Nunes, em 22.06.16

A 15 de Maio de 1992, em Haia, Margaret Thatcher sintetizava, num discurso intitulado de 'Europe’s Political Architecture', os seus principais receios sobre a moeda única e registava a forma como esses receios, as suas dúvidas, que lhe pareciam gritantes, não mereciam, no espaço público europeu, muito mais do que desdém, como se não merecessem atenção, como se fossem umas ideias antiquadas de uma provinciana (chegou a dizer-se que ela queria voltar ao Século XIX).

Aqui ficam, de novo, para que possamos dar-lhes a atenção que então não mereceram. E que pelo menos nos sirvam de lição, não tanto sobre o euro, mas sobre a forma como muitas vezes lidamos, no debate público, com as ideias com que não concordamos (o discurso integral pode ser lido aqui).   

If the European Community proceeds in the direction which the majority of Member State Governments and the Commission seem to want they will create a structure which brings insecurity, unemployment, national resentment and ethnic conflict.

Insecurity — because Europe's protectionism will strain and possibly sever that link with the United States on which the security of the continent ultimately depends.

Unemployment — because the pursuit of policies of regulation will increase costs, and price European workers out of jobs.

National resentment — because a single currency and a single centralised economic policy, which will come with it, will leave the electorate of a country angry and powerless to change its conditions .

Ethnic conflict — because not only will the wealthy European countries be faced with waves of immigration from the South and from the East.

Also within Europe itself, the effect of a single currency and regulation of wages and social costs will have one of two consequences.

Either there will have to be a massive transfer of money from one country to another, which will not in practice be affordable.

Or there there will be massive migration from the less successful to the more successful countries.

Yet if the future we are being offered contains so very many risks and so few real benefits, why it may be asked is it proving all but irresistible ?

The answer is simple.

It is that in almost every European country there has been a refusal to debate the issues which really matter.

And little can matter more than whether the ancient, historic nations of Europe are to have their political institutions and their very identities transformed by stealth into something neither wished nor understood by their electorates.

Yet so much is it the touchstone of respectability to accept this ever closer union, now interpreted as a federal destiny, that to question is to invite affected disbelief or even ridicule.

This silent understanding — this Euro-snobbism — between politicians, bureaucracies, academics, journalists and businessmen is destructive of honest debate.

So John Major deserves high praise for ensuring at Maastricht that we would not have either a Single Currency or the absurd provisions of the Social Chapter forced upon us: our industry, workforce, and national prosperity will benefit as a result.

Indeed, as long as we in Britain now firmly control our spending and reduce our deficit, we will be poised to surge ahead in Europe.

For our taxes are low: our inflation is down: our debt is manageable: our reduced regulations are favourable to business.

We take comfort from the fact that both our Prime Minister and our Foreign Secretary have spoken out sharply against the forces of bureaucracy and federalism.

Our choice is clear: Either we exercise democratic control of Europe through co-operation between national governments and parliaments which have legitimacy, experience and closeness to the people.

Or, we transfer decisions to a remote multi-lingual parliament, accountable to no real European public opinion and thus increasingly subordinate to a powerful bureaucracy.

No amount of misleading language about pooling sovereignty can change that.

Dez reflexões sobre o referendo

por Pedro Correia, em 22.06.16

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Vai haver um referendo amanhã no Reino Unido, vital para o destino europeu. Ninguém diria, vendo a televisão portuguesa – com destaque para o chamado “serviço público”. A avaliar pelos vários canais que confundem notícias com futebol, e confundem futebol com as mais ocas futilidades, o que importa é o penteado de Ronaldo, o sorriso de Ronaldo, a mãe de Ronaldo, o filho de Ronaldo, o penálti falhado de Ronaldo ao poste.

 

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Também amanhã a Europa arrisca ver uma bola embater no poste. Há dois anos estava em causa a eventual saída da Grécia, que vale menos de 3% do PIB da União Europeia. A dimensão do problema é agora muito mais vasta: estamos perante a possível retirada do Reino Unido, segunda economia europeia e  terceiro maior contribuinte líquido do orçamento comunitário. Basta isto para se perceber que o problema não é “deles” – é também nosso. E de uma amplitude muito superior à da improvável derrota da selecção portuguesa esta tarde frente à da Hungria.

 

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Durante décadas habituámo-nos a olhar para a Europa como a solução. Hoje sabemos que a Europa começa por ser o maior dos problemas pela ausência de respostas institucionais face ao tropel dos desafios. Enquanto este dilema não encontrar resposta todos os outros permanecerão em aberto – crise económica, crise demográfica, crise migratória, crise de modelo social, crise de segurança. Porque as dificuldades são de tal forma avassaladoras que exigem soluções à escala continental para encontrar antídoto eficaz. "As grandes questões do nosso tempo transcendem as fronteiras nacionais", lembrou o Guardian no artigo de fundo em que justificava a sua opção editorial eurófila. Nesta matéria todas as bolas têm embatido no poste.

 

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Arrumemos ideias. É fundamental que o Reino Unido permaneça na União Europeia tal como há dois anos era fundamental que a Escócia permanecesse no Reino Unido. Não tanto porque Londres seja a maior praça financeira mundial, metade das trocas comerciais britânicas tenha como origem ou destino o espaço comunitário, oito dos dez principais parceiros económicos do Reino Unido pertençam à UE e os súbditos de Isabel II contribuam para 17,6% do PIB europeu. Mas sobretudo por motivos políticos: tal como uma suposta Escócia independente instigaria o rastilho nacionalista, inaugurando uma sucessão de reivindicações soberanistas por toda a Europa, também a vitória do Brexit no referendo de amanhã abriria um péssimo precedente, como se a unidade europeia tivesse a consistência de uma porta giratória: não por acaso, Marine le Pen já se apressou a reivindicar um referendo em França para 2017. Hoje os escoceses estão na primeira linha do apoio à manutenção do Reino Unido no espaço comunitário. Eles bem sabem de que lado sopram os ventos da economia: a cada segundo exportam 38 garrafas de scotch - um terço das quais, livres de barreiras alfandegárias, se destinam aos restantes países da UE.

 

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Tal como sempre estive convencido de que os nacionalistas escoceses perderiam o referendo de 2014 e que a eleição plebiscitária na Catalunha se saldaria num claro recuo do separatismo, julgo que o Brexit será derrotado amanhã nas urnas pelos eleitores, mais racionais nas suas escolhas do que as manchetes do jornalismo tablóide deixam antever ao trocarem o histórico pelo histérico.

 

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Neste referendo, os eurófilos mobilizam-se por valores – desde logo o da integração europeia, que por estes dias se joga muito para além dos estádios franceses anfitriões do campeonato de futebol. É a concretização do ideal concebido pelos artífices do maior período de paz e prosperidade já conhecido no Velho Continente – homens como Churchill, Adenauer, Spaak, De Gasperi e Monnet. Um ideal em boa parte tornado realidade: com apenas 7% da população do globo, a Europa produz cerca de 25% da riqueza mundial e sustenta 50% das despesas de carácter social do planeta. Os eurofóbicos, pelo contrário, mobilizam-se pela negativa contra os "eurocratas" dispostos a impor-lhes "passaporte e hino", segundo alegou o Sun num texto em que recomendava o sim ao Brexit. Hoje não hesitam em recorrer à mais rançosa retórica xenófoba, insurgindo-se contra a livre circulação de pessoas e bens. Amanhã não tardarão a insurgir-se contra a livre circulação de ideias.

 

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Aqueles que um pouco por todo o território britânico repetem o estribilho de que “a Europa suga-nos dinheiro e manda-nos imigrantes” esquecem que o próprio país é fruto da imigração – começando pelos saxões e pelos normandos que na Idade Média iniciaram a configuração étnica e cultural desse mosaico tão multifacetado que é hoje o Reino Unido da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. Esquecem também que nunca a soberania de Londres esteve em causa no processo de integração: os britânicos mantêm-se fora do sistema monetário europeu e do Espaço Schengen, conservam a Rainha no trono e no hino, continuam a pagar as contas em libras esterlinas e até têm três selecções a disputar o Euro 2016 (Inglaterra, Gales e Irlanda do Norte), privilégio que não é reconhecido a nenhum outro Estado.

 

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A campanha referendária que agora termina foi marcada por uma tragédia: o assassínio da jovem deputada trabalhista Jo Cox, firme defensora da manutenção do vínculo europeu do Reino Unido. As cerimónias fúnebres, com a campanha interrompida, constituíram um momento de compreensível consternação nacional, com o primeiro-ministro David Cameron a prestar um comovido tributo à malograda activista eurófila e o líder da oposição trabalhista, Jeremy Corbyn, a expressar um oportuno apelo à decência no espaço comunicacional, conspurcado pelo ódio à solta nas chamadas redes sociais: na política não pode valer tudo.

 

9

A campanha trouxe no entanto algumas notícias positivas. Eis a primeira: a mobilização das gerações mais jovens pela causa europeia. Um eleitor médio britânico com mais de 43 anos tende a ser eurofóbico, enquanto os restantes já se habituaram, em grau crescente, a encarar a UE como casa comum de 500 milhões de pessoas num continente que antes da integração sempre foi devastado pelos demónios da tirania e da guerra. Não deixa de ser irónico que os jovens tenham aprendido esta lição que os mais velhos persistem em ignorar: a Europa é uma construção política demasiado frágil para podermos adormecer confiados em sonhos de paz perpétua. Os ingleses, que combateram Filipe II, Napoleão e Hitler, deviam saber isso melhor que ninguém.

 

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Outra boa notícia que este referendo no Reino Unido já trouxe: a mobilização dos intelectuais eurófilos, que pareciam ausentes em parte incerta. Figuras tão díspares como o cientista Stephen Hawking, os escritores John Le Carré, Julian Barnes e J. K. Rowling, as actrizes Emma Thompson, Kristin Scott Thomas e Keira Knightley, o cineasta Ken Loach e os historiadores Brendan Simms e Timothy Garton Ash, entre muitas outras, pronunciaram-se a favor do Remain – isto é, querem o reino unido à Europa, não desunido. “O meu receio é que a vitória do Brexit produza uma separação geral e que, com o decorrer do tempo, a Europa volte a deparar-se com os seus velhos e aterradores fantasmas”, observou Ian McEwan, outro escritor eurófilo. Vale a pena reflectir neste testemunho ontem publicado no El País. Para que a Europa deixe de falhar penáltis e de marcar golos na própria baliza: são estes os lances que realmente interessam.

Frases de 2016 (23)

por Pedro Correia, em 09.05.16

«União Europeia continua a ser uma bicicleta, mas sem ar nos pneus.»

Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, hoje, no DN

A confusão ideológica do PS.

por Luís Menezes Leitão, em 02.02.16

 

Vital Moreira tem toda a razão quando diz que este reposicionamento ideológico do PS é a mais importante viragem política desde que Mário Soares decidiu pôr o socialismo na gaveta. A dúvida, no entanto, é para onde vai o PS com esta viragem ideológica. É que se à primeira vista parecia que o PS se tinha transformado no primeiro Syriza, com Mário Centeno a fazer a figura de Yanis Varoufakis junto da Comissão Europeia, sempre a anunciar um acordo que, pelos vistos, é uma miragem, a última entrevista de Porfírio Silva aproxima o PS da direita nacionalista. Quando Porfírio afirma que "corremos o risco de a Europa se transformar numa URSS sem KGB", está a repetir uma afirmação que foi proferida vezes sem conta por membros do UKIP, como Vladimir Bukovski, ou Roger Helmer. Para além do risco de ter uma acusação de plágio, resta saber qual será o próximo passo do PS, se a Comissão Europeia, como tudo indica, lhe rejeitar o orçamento. Iremos assistir a uma proposta de Portexit, imitando igualmente o Brexit inglês? Aguardam-se as cenas dos próximos capítulos. Em qualquer caso, é evidente que esta salada ideológica em que o PS se meteu lhe vai custar muito caro.

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Ser ou não ser soberano na UE

por Pedro Correia, em 22.09.15

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É curioso: alguns dos que se apressaram a contestar a suspensão da aplicação das regras vigentes no Espaço Schengen, por decisão soberana de Estados-membros da União Europeia, costumam estar na primeira linha da crítica à UE por desrespeitar as soberanias nacionais.

Eis que, no momento em que há países a adoptar medidas que consideram de estrito interesse nacional, as mesmíssimas vozes fazem-se escutar em contestação intransigente desse exercício de soberania.
Sem sequer repararem na contradição em que tombam.

 

A suspensão provisória das regras de Schengen para cidadãos extra-comunitários é plenamente justificada pelo imenso afluxo de pessoas oriundas da Síria, Iraque, Eritreia, Somália, Líbia, Sudão, Etiópia, Nigéria, Iémene, Afeganistão, República Democrática do Congo, República Centro-Africana, Mali, Paquistão, Nepal e Bangladeche que - salvo raríssimas excepções - procuram a Alemanha ou a Suécia como destinos finais.

Segundo dados do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, cerca de 450 mil já terão chegado ao continente europeu desde o início do ano: é aqui que encontram refúgio e esperança numa vida melhor. Fora da Europa, apenas a Turquia (dois milhões, o equivalente a 2% da sua população, o Líbano (um milhão, cerca de 28% da sua população) e a Jordânia (600 mil, o que corresponde a 10% do número de habitantes do país) têm acolhido estes imigrantes, que em grande parte escapam a situações de guerra - mas também à mobilização militar obrigatória decretada pela ditadura síria e a condições de penúria económica existente nos continentes africano e asiático.

A suspensão temporária que agora vigora decorre da necessidade de proporcionar condições mínimas de acolhimento a quem chega e de identificar devidamente todos quantos demandam o espaço comunitário. Para prevenir males maiores a curto prazo, pois os efeitos perversos da política de portas escancaradas são facilmente previsíveis. Desde logo, para travar o crescimento de movimentos extremistas e xenófobos um pouco por toda a Europa, inflamados pela retórica anti-imigrante. Além disso, para impedir uma sensação crescente de insegurança no espaço da UE: é fácil prever que o chamado 'estado islâmico' tem capacidade para infiltrar estas correntes migratórias que circulam de país em país muitas vezes sem documentação e quase sempre sem controlo.


Não accionar agora este travão provisório acabaria fatalmente por condicionar em definitivo um dos pilares da construção europeia, que é a liberdade de circulação. Só a Baviera recebeu desde 31 de Agosto cerca de 70 mil pessoas oriundas de outras latitudes e muitos milhares continuam em movimento - sempre de leste para oeste e de sul para norte.

Perante tanta demanda, a capacidade de acolhimento torna-se limitada. Sendo inquestionável que nenhum genuíno refugiado será remetido à procedência: quem escapou do terror da guerra e da opressão de regimes tirânicos tem o direito de encontrar asilo num continente que se gaba de ser livre.

 

Enquanto este escrutínio começa a ser feito, na medida do possível, vou escutando alguns indignadinhos de sofá no conforto da Europa Ocidental clamando contra a "repressão" e a "desumanidade" na UE.

São os mesmos que até hoje não proferiram o mais leve sussurro contra a brutal ditadura de Assad, responsável pelo banho de sangue em curso na Síria, com 240 mil mortos já confirmados.

São os mesmos que não ousam indignar-se contra a Rússia de Putin - aliada nº 1 da tirania síria - e as milionárias monarquias do Golfo Pérsico, que até agora não acolheram um só refugiado.

São os mesmos que, num exercício de chocante duplicidade moral, ousam até imputar ao Ocidente o patrocínio moral das atrocidades do auto-intitulado "estado islâmico".

Os mesmos que desatariam a lançar pragas se vissem multidões de refugiados a rondar-lhes os bairros, os prédios e os quintais.

Penso rápido (64)

por Pedro Correia, em 13.02.15

Já li mil textos a profetizar o desmembramento da União Europeia e a derrocada do euro. Enquanto esses textos se sucediam a um ritmo imparável, a União Europeia alargava-se continuamente (passando de 12 países em 1986 para os 28 actuais). A mais recente adesão foi a da Croácia, em 2013. E o euro ia conquistando terreno: já nesta segunda década do século XXI passou a circular oficialmente nos estados bálticos (Estónia, Letónia, Lituânia).
Nenhum estado-membro, por decisão soberana, decidiu abandonar a UE. Pelo contrário, quase metade dos países comunitários (13 em 28) aderiu de 2004 para cá. E vários outros já bateram à porta, aguardando resposta favorável: Turquia, Montenegro, Macedónia, Islândia, Albânia e Sérvia.
Nenhum deles, vá-se lá saber porquê, deu ouvidos aos profetas da desgraça.

Podridão

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.11.14

Profetas da nossa terra (50)

por Pedro Correia, em 14.08.14

«Ser comissário europeu seria um desafio aliciante, não me ponho de fora.»

José Silva Peneda, 9 de Junho de 2014

Frases de 2014 (18)

por Pedro Correia, em 31.07.14

«26 mil milhões de euros é uma pipa de massa. Que se calem aqueles que dizem que a UE não é solidária com Portugal.»

Durão Barroso, ontem, em Lisboa

A guerra no horizonte.

por Luís Menezes Leitão, em 26.07.14

 

 

A revista Time está convencida de que o abate do avião da Malaysia Airlines por parte dos rebeldes pró-russos corresponde a um regresso à guerra fria. Efectivamente, a situação faz lembrar o abate do avião da Korean Airlines pela URSS sobre a ilha de Sacalina em Setembro de 1983, quando a guerra fria estava no seu auge. Parece-me, no entanto, que o que se está a passar não representa qualquer regresso à guerra fria. Por muito que Putin queira reconstituir o antigo espaço soviético, o back in the USSR não é hoje mais possível. O que se está a passar é antes um regresso a 1914. Na altura também houve um crime bárbaro, o assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand pelo terrorista Gravilo Princip, o que serviu de motivo para que a guerra se iniciasse para esmagar todos os "sérvios regicidas". Agora, porque os rebeldes russófonos da Ucrânia cometeram também o bárbaro crime de abater um avião civil, Putin é sumariamente declarado culpado desse crime e a União Europeia vai aplicar sanções para mergulhar a Rússia na recessão. Parece assim que todo o povo russo vai agora expiar uma culpa colectiva pelos crimes cometidos pelos rebeldes pró-russos da Ucrânia.

 

Quem conhece um pouco da história da Rússia, sabe perfeitamente que estas sanções não vão vergar a Rússia, só podendo pelo contrário conduzir à guerra. Primeiro, é evidente que Putin não pode deixar de apoiar os russos da Ucrânia, sob pena de ser considerado um traidor na Rússia, o que facilmente acontecerá em virtude da fúria nacionalista que esta ameaça de sanções já está a gerar. Segundo, mesmo que suporte um verdadeiro inferno, o povo russo sempre resistiu aos ataques ao seu país. Quando Napoleão conquistou Moscovo, os russos entregaram-lhe a cidade em chamas, obrigando-o à retirada. Na segunda guerra mundial, mesmo depois de terem sofrido vinte milhões de mortos, os russos vergaram as tropas de Hitler, obrigando-as a retirar e ocuparam Berlim. Terceiro, o isolamento mundial também nunca assustou a Rússia. Estaline não hesitou em adoptar a fórmula do socialismo num só país, isolando a Rússia do resto do mundo, quando a revolução mundial desejada por Lenine não se verificou.

 

Não tenho dúvidas de que, se Putin for colocado entre a espada e a parede, terá que optar pela espada. É por isso que me parece que nesta história das sanções à Rússia, os dirigentes europeus estão a brincar com o fogo. A guerra não irá assim ser fria. Quem vai ter frio será o norte da Europa, quando falhar o abastecimento do gás russo. Já a guerra será muito quente. No fundo 2014 está a replicar 1914. Sem que ninguém se aperceba, andam todos a preparar o apocalipse.

Perdidos no labirinto

por José Gomes André, em 20.06.14

O Partido Popular Europeu reuniu-se no Algarve para discutir “crescimento e emprego”, procurando anunciar um novo ciclo na política europeia. Após anos de austeridade, é altura de enviar uma mensagem de esperança aos deprimidos povos europeus, ainda que ninguém saiba qual a receita milagrosa capaz de reactivar o mercado europeu e dinamizar as débeis economias da periferia, já para não falar de problemas crónicos como a crise demográfica, a imigração ilegal ou o futuro da Segurança Social.

A verdadeira agenda dos conservadores deverá pois concentrar-se em desafios mais prementes. Um deles é saber como lidar com o novo mapa político da União Europeia, mais fragmentado do que nunca e habitado por um número crescente de nacionalistas xenófobos, eurocépticos tradicionais e esquerdistas radicais, cujas intenções são bem conhecidas: enfraquecer (ainda mais) o que resta do projecto europeu.

A eleição do próximo Presidente da Comissão Europeia adquire por isso grande preponderância. O PPE encontra-se porém num complexo labirinto, em parte por si gerado: prometeu que Juncker seria o escolhido caso vencesse as eleições, mas uma vez conhecido o resultado, regressou ao velho jogo de bastidores da política europeia, onde dominam os egos, os números de circo e a estrita defesa dos “interesses nacionais”. Como acaba esta história? Em mês de Mundial, provavelmente ao jeito do famoso ditado futebolístico dos anos 90: são onze contra onze e no fim ganha a Alemanha – ou seja, a escolha de Merkel...

[publicado no Diário Económico]

O declínio do Ocidente.

por Luís Menezes Leitão, em 18.06.14

 

Enquanto anda tudo entretido com o Mundial há alguma coisa de novo a Leste. Em primeiro lugar, depois dos seus sucessos na guerra civil síria, a Al-Qaeda ameaça agora tomar conta do Iraque, pretendendo construir desde já um Estado islâmico radical nesse território, denominado Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, na versão inglesa). Será algo absolutamente novo e que demonstrará uma derrota absoluta dos Estados Unidos na denominada guerra contra o terrorismo. Na verdade, o que era até há pouco tempo apenas uma organização terrorista, com recursos consideráveis, é certo, mas sem qualquer base territorial, pode a partir de agora começar a gerir um Estado, a partir de território sírio e iraquiano, iniciando a realização da sua ambição de reconstituir o califado. Trata-se de algo muito mais ameaçador do que qualquer Saddam Hussein, mas a verdade é que Barack Obama não se mostra disposto a nova intervenção militar no Iraque, preferindo deixar os iraquianos à sua sorte. Aposto que vão ser presa fácil para a Al-Qaeda e que em breve um país com a importância estratégica do Iraque estará a servir para o desenvolvimento do terrorismo.

 

 

Na Ucrânia as coisas não estão melhores. Poroshenko, legitimado pela sua vitória eleitoral e estimulado pelo apoio da União Europeia, achou que uma situação altamente complexa como a que herdou podia ser resolvida com uma simples bravata. Garantiu resolver a questão no Leste numa semana, através de uma ofensiva brutal contra os rebeldes russos. A iniciativa era ridícula, uma vez que a manutenção do Leste ucraniano depende muito mais de concessões aos rebeldes, depois da desconfiança criada pelo golpe de Estado, do que de uma ofensiva militar. Era evidente que a Rússia não toleraria um massacre dos rebeldes pró-russos. Mas a reacção de Putin, apesar de curiosamente contida, foi extremamente eficaz. Limitou-se a cortar o gás à Ucrânia, matando com isso dois coelhos de uma só cajadada. Efectivamente, não apenas a Ucrânia vai ser economicamente muito prejudicada, como especialmente a Europa vai morrer de frio no Inverno, o que seguramente lhe vai arrefecer os ímpetos de intervir em zonas que Putin considera de influência russa. Naturalmente que, depois dessa resposta, a Poroshenko nada mais restou do que ir negociar com Putin, engolindo assim a bravata inicial.

 

 

De tudo isto resulta que estamos a assistir neste século XXI a um profundo declínio do Ocidente, associado a um ressurgimento islâmico e ao regresso da Rússia. E neste aspecto ter uma União Europeia exclusivamente dominada pela Alemanha é altamente contraproducente. Uma União Europeia só poderia ter força se efectivamente congressasse os povos europeus. Mas hoje, quando os líderes europeus acham que podem ignorar os votos dos cidadãos e escolher o Presidente da Comissão numa canoa num lago sueco, parece evidente que a Europa está neste momento a meter muita água. Por este caminho arrisca-se a ir ao fundo.


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