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Delito de Opinião

A Festa do Avante

jpt, 07.08.22

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Há dias José Milhazes criticou os artistas que irão actuar na Festa do Avante, nisso compactuando com o efectivo apoio que o PCP tem dado à invasão russa da Ucrânia. À esquerda -. e na extrema-direita, dado o actual "compromisso histórico" entre as sensibilidades ditatoriais - logo o criticaram, e mais surgiram os hipócritas clamando que se trata de um acontecimento cultural, como se que apolítico, abjecção mistificando as críticas como se fossem "um discurso de ódio", capitaneada pelo sempre tão elogiado António Filipe.

Nisso recordo as minhas sensações sobre os artistas (músicos e não só) que ao longo dos anos participaram na Festa do Avante. E replico o que sobre eles botei num postal de Agosto de 2015

O último festival de Verão a que fui foi a Festa de Avante, ali pelos meados dos 1980s, pouco após os meus exactos 20 anos. Fora lá desde o início, em 1976, pois o camarada Pimentel - apesar das suas suspeitas quando ao desvio de direita "eurocomunista" de Berlinguer, tal como o de Carrillo e, também, também ..., de Marchais -, acompanhara-me na FIL diante dos Area, os daquela hendrixiana "Internacional", e, no ano seguinte, deixara-me assistir a Eugenio Finardi, aí já ombreando com os míticos Fairport Convenction.

Naqueles tempos a Festa do Avante conjugava gerações, e nos anos seguintes a gente, já livre da tutela paternal, aterrava ali a beber durante três dias (e a fumar que se fartava, vá lá, que também era verdade), a "camaradar" entre nós e com os mais velhos dali, os camaradas mesmo, aqueles voluntários dos pavilhões regionais a rirem-se dos nossos efusivos "camarada" e nisso a serem camaradas, no servirem/ajudarem às cervejas e nos comes, estes mesmo para nos manterem em pé, e mesmo assim nós por vezes a desconseguirmos, que as noites seguiam já longas...

Nisso nós, e naqueles tempos tão diversos dos de agora, víamos pavilhões do mundo inteiro (o comunista, claro, ali propagandeado com tantas maravilhas) e do resto do país, nestes com os petiscos locais, jogava-se xadrez com os macro-grandes mestres soviéticos e ouviam-se inúmeros músicos de todos os lados, desde os desconhecidos, e alguns que músicos!!!, e os Dexys Midnight Runners (que concertão), aquele Chico Buarque (no apogeu!!, ainda que trémulo por questões lá dele, biográficas), o Manu Dibango (Manu Dibango em Lisboa naquele tempo? tão raro que me obrigou a voltar àquela Festa), o rock celta então em voga, proto-etnomusic essa que veio a ser dita world, o Ivan Lins provavelmente no melhor concerto da sua carreira (com a belíssima mulher de então, uma loura Lucinha a alumiar Lisboa), Jorge Pardo, o fantástico "corno" de Paco de Lucia, num pavilhão menor numa actuação inesquecível da qual nada recordo, Makeba sem eu saber quem era Makeba, o gigante Luis Gonzaga diante de uma audiência que não o sabia ouvir, Charlie Haden a enfrentar um público estupefacto e também Max Roach, e tantos outros, ali todos os anos polvilhados pelo discurso quase final do camarada secretário-geral, o grande Cunhal.

Foi mesmo isso, este, que me acabou ali. Pois, já cruzados os 20 anos, deu-me a azia, enorme, cansado de constatar que nenhum Sérgio Godinho, Carlos do Carmo ou Vitorino, sempre enfatuados - e ainda hoje assim seguem - com o slogan da liberdade na boca, como se dela fossem legitimados porta-vozes, dedicava alguma canção, pequena que fosse, àquele Sakharov então sob custódia, e das duras, que ninguém dos grupos de música popular ou mesmo do rock português havia lido Soljenítsin e ali o invocava, de que nem os Rão Kyao ou Telectu se lembravam do Solidariedade ou da Carta 77, que nenhum daqueles cantautores flausinos se lembrava da Albânia, de Angola, da Roménia quando cantarolavam em nome dos perseguidos na América Latina - então devastada por militares fascistas. E que o Ary dos Santos, poeta histriónico gritador de poemas diante de milhares, nunca lembrava os homossexuais perseguidos (e de que maneira) nos países que eles tanto promoviam.

Um dia - sei lá quando, mas já depois dos The Clash no Dramático de Cascais -, esperava por um qualquer grande nome, desses do concerto de encerramento após o comício do camarada Secretário-Geral, Cunhal ele mesmo, aquela apoteose ("cultural" dirão os de agora) final. E antes da arenga, tal como em todos os anos, lá se levantou a multidão a cantar o hino (sim, o bacoco "às armas") de punho direito erguido. E eu caí num "que faço eu aqui?!", qual Rimbaud entre os selvagens, ali na Ajuda, e concluí - repito, nos meus vinte anos, no início dos 1980s, bem antes da queda do Muro quando alguns descobriram que afinal..., décadas antes da internet, quando outros descobriram que afinal... - "nunca mais cá venho!" (sim, regressei, a ver o Manu Dibango, uma suspensão episódica dos princípios).

Pois aqueles gajos, mesmo aquela turba simpática, o povo d'aquém e além-Tejo, eram, e mesmo sem o saberem, pobre gente alienada (como dissera o tal Marx), e nisso o inimigo. Vil. Segui para outros concertos, paragens, convívios. Pois a "cultura" - e os arautos da "liberdade" - não moravam ali.

Pensamento da Semana

jpt, 07.08.22

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Quase todo o hoje está previsto na literatura: "Só outro russo podia compreender a mistura reaccionária e sovietófila que apresentavam os pseudo-coloridos Komarov, para quem uma Rússia ideal consistiria em Exército Vermelho, um monarca ungido, herdades colectivas, antroposofia, Igreja Russa e Barragens Hidro-Eléctricas".

(Vladimir Nabokov, Pnin, 1957. Edição portuguesa de Teorema, tradução de Telma Costa)

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Eça e a Rússia (2)

jpt, 01.08.22

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Há tempos citei uma das crónicas de Londres, em que Eça de Queirós se mostrava clarividente a respeito da guerra entre Rússia e Turquia (1877-8). Vários outros trechos se poderão retirar dessas crónicas para sedimentar esse olhar pertinente sobre aquela actualidade,  tanto sobre a referida guerra - que o autor termina por sumarizar como a definitiva expulsão dos muçulmanos da Europa, encetada um milénio antes na Reconquista ibérica -, como sobre outros assuntos: desenvolvimentos tecnológicos, alguma reabilitação da sua querida França após a guerra franco-prussiana, a situação italiana e o papado, etc. Eça era um homem do seu tempo - como todos o são. Nunca foi um visionário, terá sido um jovem contestatário e depois veio sendo um desiludido, mesmo sarcástico, dissecador. 

O que me é aqui interessante foram as reacções de alguns comentadores - em blog e no facebook - àquele meu postal sobre Eça e a Rússia. Logo surgiram os defensores da actual política imperialista russa - essa amálgama de monárquicos ultramontanos ("miguelistas", por assim dizer); fascistas; "frentistas" de extracção comunista - a apontarem Eça de Queirós não só a sua desatenção pelo mundo de então como a sua mediocridade intelectual. É o habitual vitupério anacrónico a la carte... O qual está imenso na moda, como bem mostra este afã na "reescrita da História" que preenche a "nova" esquerda identitarista.

Enfim, foram esses dislates dos adeptos putinófilos que me apelaram a este postal, motivo para regressar ao delicioso "Álbum de Glórias", uma preciosa colecção de perfis da Lisboa de finais de XIX, com desenhos de Rafael Bordalo Pinheiro e textos de vários autores, especialmente de Guilherme Azevedo (João Rialto) e de Ramalho Ortigão (João Ribaixo). E assim aqui deixo o que sobre Eça - afinal tão medíocre, a crermos nos putinófilos de hoje - desenhou Bordalo Pinheiro e escreveu Guilherme Azevedo, seus contemporâneos:

"Quando ele, há alguns anos, soltou os primeiros vagidos nos folhetins da Gazeta de Portugal, houve antigos escritores cheios de introspecção que morreram de ataques apoplécticos! Eça de Queirós era um inspirado estranho que vinha, no concerto ameno da literatura familiar, tocar uma nota desusada e quase incompreensível para muitos espíritos educados no amor e melancolia.

Ele acabara de percorrer a Terra Santa, sentara-se a cismar no Jardim das Oliveiras, e desse jardim não trouxera simplesmente a crença que constitui o fundo único de tantas declarações românticas; do Jardim das Oliveiras arrancara uma pernada com que principiou a desancar a antiga retórica do país, destronando os velhos tropos e lançando os fundamentos daquele estilo fotográfico que é o seu grande poder e uma das suas grandes glórias.

No Oriente não viajara só. A memória de Chateaubriand acompanhara-o, e Leconte de Lisle e Charles Baudelaire, que eram então triunfadores, fizeram com ele o percurso da Terra Santa. Desta camaradagem estranha resultou a original feição que Eça de Queirós imprimiu nas figuras bíblicas tão nossas conhecidas e que então, pela primeira vez, se apresentavam diante de nós falando uma linguagem meio apocalíptica e meia humana, que estava muito longe de ser a linguagem oficial do velho cristianismo clássico. 

O destino fez dele em seguida administrador do concelho de Leiria. Assim como o Jordão lhe revelara a Antiguidade, o Lis revelara-lhe a realidade. O místico sublime morrera: principiava o autor do Crime do Padre Amaro (...). O vidente transformou-se num anatomista. Dentro da sociedade portuguesa existiam coisas de que alguns já teriam suspeitado mas que ninguém ainda trouxera claramente à superfície." (...)

E agora, século e meio, no afã de defenderem o indefensável, assomam os remanescentes desses patéticos românticos, hiper-reaccionários, no saudosismo da pretérita "Nação" que imaginam ter existido e/ou da épica "Revolução" pela qual anseiam, sebásticos, e brandem a "linguagem oficial" de hoje, esta do vil anacronismo punitivo. Eça ainda os incomoda. Que melhor elogio se pode dar a um legado literário e intelectual?

 

Canalhas

Pedro Correia, 24.07.22

Menos de 24 horas após assinarem um acordo com a Ucrânia para desbloquear as exportações de cereais e óleos alimentares para o Norte de África e o Médio Oriente, com supervisão turca e da ONU, os esbirros de Putin bombardearam Odessa, principal porto do país vizinho, com mísseis de alta precisão. Confirmando o que vale a palavra e a assinatura do ditador russo: zero.

São uns canalhas. Eles e todos quantos os apoiam em Portugal, incluindo alguns majores-generais reformados que continuam a exibir fervorosa militância putinesca em dois canais televisivos.

Eça e a Rússia

jpt, 06.07.22

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Enquanto foi cônsul em Newcastle, Eça de Queirós escreveu estas "Crónicas de Londres" em 1877/8, 15 textos publicados no jornal A Actualidade, os quais vieram a ser coligidos em livro apenas aquando do centenário do seu nascimento (Editorial Aviz, 1944). E ainda bem que o foram. Não tanto pela sua ironia, cáustica até roçar o sarcasmo, e nisso eivada de moralismo, sobre as características da sociedade inglesa, as quais, como lhe foi muito comum, tomava como tiques. Mas muito mais pela forma como dali ecoava o mundo - e nisso muito a França de Mac-Mahon, e de Hugo, ainda que esta não seja aqui sombra tutelar -, assim informando o rincão, nisso deixando um olhar que aparece hoje imensamente contemporâneo. Nas reflexões sobre a influência da imprensa, a real e a então imaginada, mas também no entusiasmo pelas inovações tecnológicas que tanto a transformavam, sem com isso deixar de cutucar os desmandos informativos a que ia assistindo.

Nestes textos há uma enorme actualidade que sobreviveu na verve de então, agora ainda mais patente pela atenção analítica - ora em tons sarcásticos ora militantes - à guerra russo-turca que decorria, essa sequela da guerra da Crimeia de vinte anos antes, mais uma etapa dos anseios moscovitas de aceder ao Mediterrâneo. Embrenhado no debate britânico de então, entre os radicais pacifistas e os paladinos da intervenção em prol da Turquia, Eça deixou páginas esplêndidas. Entre elas escolho estes dois trechos- tão contemporâneos que de difícil digestão para muitos literatos de ardor russófilo, esses que por cá ainda abundam:

- 10 de Janeiro de 1878

"Onde estão os tempos saudosos em que cada telegrama nos trazia uma vitória turca? Onde estão êsses dias em que os correspondentes nos pintavam as cargas irresistíveis da infantaria otomana atroando os céus com o grito de Allah! Allah! e apavorizando divisões russas?

Onde estão os vitoriosos e os ghazis? Onde estão as lágrimas do Imperador da Rússia choradas nas noites de derrota? Onde estão as tardes alegres em que um coração liberal se regozijava, pensando que o Czar e o seu Govêrno autoritário, despótico, teocrático, semi-bárbaro, humilhado pelas derrotas na Bulgária, seria na Rússia feito em pedaços por uma revolução niilista? Ai, tudo nos passou! Hoje o que se nos diz, cada dia, é que mais uma fortaleza turca foi tomada, mais um regimento aprisionado, mais um passe dos Balcãs atravessado, mais uma enxadada cavada na sepultura da Turquia. O Czar não só não é destronado, mas é recebido em Sampetersburgo com um fanatismo tão alucinado, que pessoas deixam-se atropelar para se poderem prostrar, beijando-lhe as botas, tocar com a ponta dos dedos na sua espada santa! E são os ministros do Sultão, que dizem ao novo Parlamento em Constantinopla: Estamos perdidos, rendamo-nos!

É doloroso ver que esta guerra injusta tem como resultado fortificar, enfatuar, perpetuar um govêrno inimigo de tôda a liberdade, defensor de todo o despotismo, cuja justiça se chama Sibéria, cuja administração se chama Polónia, que tempera a liberdade dos jornais pelo assassinato dos jornalistas, que liberta os servos para melhor poder explorar pelos impostos, que condena um romancista ou um poeta a prisão perpétua, se o seu poema ou a sua novela desagradam à polícia, que expulsa todo o estrangeiro suspeito de liberalismo como se enxota um cão, que tem como sistema de govêrno a delação e a espionagem, que chicoteia as mulheres cujos maridos não convêm, que exila os maridos cujas mulheres convêm, e que civiliza as raças de civilização inferior - destruindo-as.

Eu não tenho certamente nenhuma simpatia pelo Sultão: uma tão rica porção de território europeu, como a Turquia, nas mãos de uma raça preguiçosa e asiàticamente passiva, é certamente uma perda para a civilização, é uma esterilização de fôrça produtiva; mas se o golpe ao Urso Branco, ao campeão da tirania, pudesse vir da Turquia - hurrah! pela Turquia! hurrah! pelo chino ou pelo mongol! hurrah! por qualquer povo negro ou nu, que pudesse libertar a Rússia, a Europa, a liberdade e o pensamento desta tenebrosa entidade, o Govêrno do Czar! (...) (183-185)

- 26 de Janeiro de 1878

"Um dos meus grandes ódios políticos é a Rússia; não o povo russo, que tem qualidades magníficas, mas o Govêrno russo, que não só exerce o despotismo em sua casa, mas que o defende, o auxilia e o promove nas casas alheias. (...) o grande paladino do absolutismo na Europa; em tôda a parte em que um movimento de liberdade se manifestava, ele corria a ajudar a sufocá-lo; todo o trono despótico e tirânico que uma revolução abalava, tinha-o ao seu lado como defensor oficial do despotismo. 

O actual Czar (...) tem apoiado com a sua influência, com os seus conselhos, com o seu dinheiro, tôdas as tentativas mais ou menos aventureiras que se têem feito contra o livre espírito da época: foi êle que mais embaraçou e contrariou o movimento liberal de 68 em Espanha; foi ele que deu o mais alto aplauso ao Ministério Broglie, de ominosa memória; foi dêle que D. Carlos, na sua criminosa guerra civil, recebeu as palavras mais animadoras; o seu desejo seria colocar o Conde de Chambord em França, D. Miguel em Portugal, restabelecer os Bourbons em Nápoles e restituir os ducados de Itália aos príncipes fanáticos e tiranetes. Isto, reunido à maneira como a Rússia é governada, tornam-no pouco simpático a todo o espírito liberal." (...) (201-202)

A Guerra de Putin

Pedro Correia, 30.06.22

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Vladimir Putin e Serguei Lavrov, criminosos de guerra

 

Não lhe chamemos "guerra da Ucrânia".

Chamemos-lhe Guerra de Putin. Porque é isso mesmo que ela é. Como ainda agora se viu, no dantesco bombardeamento de um centro comercial na cidade de Kremenchuk, onde ocorreu o homicídio deliberado de pelo menos 20 civis já confirmados, havendo muitos outros ainda por identificar.

É uma guerra de extermínio, genocida, desencadeada a 24 de Fevereiro para riscar do mapa um Estado soberano com 44 milhões de habitantes. Uma guerra de pilhagem, de rapina, de usurpação, de deportações forçadas, de violações sistemáticas dos mais elementares direitos humanos.

Desencadeada por Vladimir Putin e o seu lugar-tenente Serguei Lavrov, criminosos de guerra que prestarão contas à justiça internacional.

Reflexão do dia

Pedro Correia, 28.06.22

«Faz todo o sentido que a NATO e as democracias ocidentais se preparem para o pior. Que agravem as sanções, que reforcem a ajuda à Ucrânia, que tratem de aumentar a sua capacidade de resposta militar rápida para 300 mil homens. O tirano que é capaz de bombardear civis ou que encolhe os ombros perante a ameaça de uma indispensável crise alimentar mundial não pensa nem actua num quadro mental em que entra a razão, a emoção ou a humanidade. 

A Rússia é hoje muito mais do que nos primeiros dias do conflito uma ameaça para a Europa. A firmeza da resposta ocidental surpreendeu e irritou a fera. O Donbass já não basta. Os receios do envio de tropas para Kaliningrado ou para a fronteira entre a Lituânia e a Bielorrússia ganham consistência. Zelensky quer acabar a guerra até ao final do ano, mas nada nos garante que a Rússia, movida pelo superávite do gás e do petróleo, esteja disposta a aceitar uma meia vitória ou uma meia derrota. A megalomania é uma marca dos déspotas.»

Manuel Carvalho, no Público

Blogue da semana

Alexandre Guerra, 26.06.22

Focus Ukraine é um blogue do reputado Kennan Institute, dedicado a temas políticos, históricos, culturais e sociais da Ucrânia, assim como à análise da sua geopolítica e relação com os EUA. Este blogue é composto por vários especialistas daquele instituto em assuntos ucranianos e está constantemente a ser actualizado com novos posts. Importa relembrar que o Kennan Institute é o principal think tank americano dedicado ao estudo da Rússia e da Eurásia e integra o Woodrow Wilson International Center for Scholars.

A má fé dos comunistas

jpt, 18.06.22

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(Canal da Assembleia da República, Sessão de 15 de Junho de 2022)

Em 9 de Maio, dia da Europa, deixei um postal no meu Nenhures sobre a confluência relativamente à guerra ucraniana - na efectiva defesa da "Razão russa" - entre a "direita profunda" (dos fascistas aos soberanistas anti-europeístas) e a "esquerda comunista" (do PCP ao actual aglomerado dos velhos grupelhos). E ilustrei essa realidade recomendando uma colecção de proclamações russófilas do comentador televisivo General Cunha, elencada pelo Pedro Correia, explicitando ter o referido General então saudado "a libertação de Mariupol".
 
Esse era apenas mais um dos episódios (alguns dos quais aqui ecoei) do seguidismo ao discurso russo. O qual progressivamente se tornou apenas avulso entre o espectro BE, no qual se foi recuando no apoio à propaganda do Kremlin - desde a inicial defesa ao "espaço vital" da Rússia pela deputada Mortágua até à imediata proclamação da "encenação" de Bucha por um autarca lisboeta, foi sendo notória a progressiva atrapalhação daquela intelectualidade pequeno-burguesa e eurodependente. Mas seguidismo esse que, ao invés, se vem tornando cada vez mais crispado no PCP - o patético humor do ex-vice-presidente da Assembleia António Filipe, as posições oficiais do partido, a atrapalhação do seu líder, os inúmeros dislates de académicos comunistas nas redes sociais e na imprensa, são disso exemplos. Bem como a sanha dos meros militantes e simpatizantes contra os refugiados ucranianos.
 
Enfim, nesse 9 de Maio, a propósito desse meu postal, uma querida amiga - veterana simpatizante do PCP - deixou no meu mural de FB uma crítica viperina, acusando-me de "má fé". Por ter vindo de quem vinha o pontapé magoou-me. Ou melhor, irritou-me. Pois é mesmo factual o apoio (explícito e implícito) dos comunistas (no sentido plural do termo) portugueses ao imperialismo nacionalista (e de retórica teocrática) da plutocracia russa. Não há qualquer "má fé" nessa constatação. Como não tive "má fé" ao partilhar aqui os imediatos abaixo-assinados que congregaram as comunidades profissionais de antropólogos e de arquitectos/urbanistas russos contra a guerra. Ou ao partilhar o texto de um vasto e diferenciado conjunto intercontinental de intelectuais (entre os quais comunistas) crítico da invasão russa. Como não tive "má fé" ao ler as ameaças russas de intervenção militar a meia dúzia de países europeus, e agora a proposta de reversão da independência a (pelo menos) quatro países. Ou a propaganda da guerra nuclear na televisão estatal russa, com simulação em horário nobre da destruição das cidades europeias. Ou mesmo a proclamação televisiva de um fascista "Viva la muerte!", agora em russo, por uma publicista renomada do regime. E também não tenho "má fé" quando constato o silêncio total dos locutores desse nosso espectro comunista sobre essas aleivosias. Perigosíssimas aleivosias.
 
Enfim, para que não haja quaisquer dúvidas sobre esse seguidismo do PCP em relação ao discurso do poder russo, essa tal ditatorial plutocracia imperialista, veja-se este filme da sessão da Assembleia da República de ontem. Avance-se até aos 43 minutos, exactos: aí - e como logo notou o Pedro Correia - o deputado João Dias clama "Nunca estaremos ao lado de regimes nazi-fascistas", a isso reduzindo o regime ucraniano. Decerto que no peculiar sentido da exigência da "complexidade" avessa ao "pensamento único" que alguns intelectuais comunistas vêm reclamando. Justiça seja feita ao deputado Dias, não aludiu à acusação de "drogados" que Putin proferiu sobre o poder ucraniano. Deve ser essa a única autonomia intelectual vigente na liderança comunista. A única "boa fé" que lhes resta. E aos seus apoiantes...
 
Uma adenda sobre "boa fé": se em vez de se avançar até aos 43 minutos deste filme alguém tenha curiosidade em esmiuçar o sentido de "boa fé" vá até aos... 42 minutos. Pois nesse minuto anterior o deputado Dias critica o partido a que se dirige devido ao estado muito problemático a que chegou o nosso SNS. Pode ser que os crentes na "boa fé" (e quem me vem imputar do inverso) se lembrem que nos últimos 27 anos o PS esteve no poder 21. Que o PSD/CDS estiveram 6, 4 dos quais espartilhados por um programa de recuperação económica. E que nos últimos 6 anos o PCP apoiou o governo PS, do qual constava a actual ministra da Saúde. Mas para Dias a responsabilidade do estado do SNS (os "constrangimentos", como dizem os jornalistas avençados pelo Partido Socialista) é da "direita".
 
Esses dois minutos de Dias no parlamento são esclarecedores do que é a "boa fé" comunista: esconder a realidade nacional. E seguir, quais rafeiros sarnentos, os ditâmes do capitalismo russo.
 
Não haja dúvida, face a este lixo e aos seus defensores eu tenho mesmo "má fé"! Ou, melhor, nenhuma "fé"!

Apoiam o violador, injuriam nação violada

Pedro Correia, 16.06.22

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Irpin, Ucrânia, Abril de 2022

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Kramatorsk, Ucrânia, Abril de 2022

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Severodonetsk, Ucrânia, Junho de 2022

 

O PCP, mesmo já sem surpreender ninguém, vai conseguindo descer cada vez mais baixo, enredando-se na pior lama quando o tema é a Ucrânia. A lama putinesca.

Ontem, na Assembleia da República, o deputado da Iniciativa Liberal Carlos Guimarães Pinto dirigiu à bancada comunista a pergunta que se impunha: «Se o agredido nesta história não fosse a Ucrânia mas fosse Portugal, continuariam a ter o mesmo discurso?»

Eis a vergonhosa resposta do deputado João Dias: «Nunca estaremos ao lado de regimes nazi-fascistas, como os senhores fazem.»

Caiu-lhes de vez a máscara: o PCP considera o legítimo governo da Ucrânia, nação agredida pela maior potência nuclear do planeta, um «regime nazi-fascista». Decalcando o glossário de Putin.

 

Ser nazi e fascista, para o que resta hoje do partido em tempos liderado por Álvaro Cunhal, é ser violentado, assassinado, esquartejado. É ver mais de 125 mil edifícios civis destruídos desde 24 de Fevereiro. É ver o PIB cair 40% devido à agressão bélica de Moscovo - um abismo aterrador.

Ser comunista, portanto, é defender o agressor, o violador, o homicida. É estar com Putin neste inqualificável acto de selvajaria que em três meses provocou o maior número de desalojados no continente europeu desde a II Guerra Mundial.

 

O deputado Dias injuria a Ucrânia no preciso momento em que Severodonetsk se transforma na nova Mariúpol, cidade-túmulo, com civis alvejados pelos obuses russos nesse Donbass que Moscovo dizia querer «libertar». E no próprio dia em que o ex-presidente russo Dmitri Medvedev, sem disfarce algum, admitiu que daqui a dois anos a Ucrânia já esteja riscada do mapa.

Um nazi não diria nada diferente. Convém lembrar que Medvedev é vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, fiel adjunto de Putin.

 

Entretanto, a Europa Oriental é percorrida por um sobressalto idêntico ao que foi provocado pelas hordas de Hitler. «Todo o flanco leste da NATO está em posição vulnerável», alerta o primeiro-ministro da Letónia, Krisjanis Karins. Enquanto a Polónia, vizinha ocidental da Ucrânia, vai preparando a mobilização geral. Repetindo-se em 2022 o que sucedeu em 1939.

No seu bunker cada vez mais impermeável aos factos, acometido de incurável cegueira ideológica e exibindo uma fidelidade sem mácula ao Kremlin, o partido da foice e do martelo enterra-se dia após dia. E de novo volto a fazer a pergunta que aqui formulei no dia 23 de Março: Já terá havido demissões no PCP?

 

ADENDA. Um míssil russo destruiu uma carruagem de mantimentos recolhidos por uma organização não-governamental. Aconteceu em Pokrovsk, na Ucrânia. Outro «acto heróico» para Putin juntar ao seu cadastro.

Timor ontem, Ucrânia hoje

Pedro Correia, 13.06.22

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Xanana Gusmão, na resistência ao invasor indonésio

 

Algumas almas angelicais abraçadas a velhas aves de rapina hoje travestidas de pombas, como Henry Kissinger, andam obcecadas com isto: há que «evitar humilhar os russos».

Como se não fossem eles os agressores da Ucrânia.

Como se a tropa de Moscovo não devorasse território ucraniano com fúria expansionista - o Kremlin ocupa agora, ilegalmente, cerca de 125 mil km² de superfície territorial do país vizinho, quase o triplo dos cerca de 43 mil km² que ocupava desde 2014.

Como se vissem a realidade invertida: soldados da Ucrânia envolvidos em operações de conquista e anexação da Rússia.

Como se a agressão moscovita devesse ser recompensada, encorajando futuras campanhas bélicas decalcadas do guião nazi naqueles alucinantes meses que levaram Hitler a engolir a Áustria, os Sudetas, a Checoslováquia e enfim a Polónia. Até tudo desembocar num conflito global já imparável.

 

Esta amálgama de gente - neofascistas, comunistas, falsos pacifistas e alguns idiotas úteis - procura iludir uma evidência: a Ucrânia equivale hoje, numa escala muito superior, à resistência timorense que enfrentou com êxito o imperialismo neocolonialista indonésio entre 1975 e 1999, suportando as maiores atrocidades cometidas pelos esbirros de Jacarta naquele solo onde durante séculos flutuou a bandeira portuguesa.

Também nessa altura pululavam por aí os "realistas" recomendando o reconhecimento da situação de facto, imposta pelos canhangulos indonésios, e desencorajando o apoio ocidental à abnegada guerrilha timorense. Diziam esses tais que eram impossível vergar um dos exércitos mais numerosos e bem equipados do planeta.

Pela lógica actual, o PCP deveria ter gritado então contra o levantamento das sanções ao regime de Jacarta e exigido a «paz» imposta pelos fuzis. Com Timor-Leste debaixo da pata indonésia.

É curioso vermos hoje Jerónimo de Sousa fazer coro com Henry Kissinger. Este, enquanto responsável máximo da diplomacia norte-americana, deu luz verde à brutal invasão de Timor-Leste pela tropa do ditador Suharto, em Dezembro de 1975, sob o argumento de que o Ocidente não deveria «humilhar a Indonésia». Nada melhor, portanto, do que outorgar-lhe direito de pernada e garantir-lhe aquilo a que chamam «concessões territoriais» - eufemismo para designar a anexação de uma nação soberana por um Estado vizinho em grosseira violação do direito internacional.

 

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Henry Kissinger (à esquerda) em Jacarta, Dezembro de 1975

 

Kissinger estava redondamente enganado, como sabemos: a força da razão derrotou a razão da força. Foi preciso esperar 24 anos, mas aconteceu.

Aprendamos com as lições da História. Ontem em Timor, hoje na Ucrânia.

Ao lado de quem é agredido, não de quem agride.

Solidários com as vítimas, não com os verdugos.

Ninguém humilha tanto a Rússia como Vladimir Putin, que já provocou danos reputacionais incalculáveis ao seu país. Com fatais reflexos nas gerações futuras.

Um dia todos seremos julgados

Pedro Correia, 07.06.22

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Mariúpol, Ucrânia, Abril de 2022

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Butcha, Ucrânia, Abril de 2022

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Irpin, Ucrânia, Abril de 2022

 

Um dia seremos todos avaliados pelas opiniões que emitimos nestes dias terríveis de 2022. Em que a maior potência atómica do planeta, imaginando-se acima de qualquer travão, a coberto de qualquer crítica, à margem do direito internacional, invadiu um país vizinho com a intenção declarada de o riscar do mapa. Imitando, passo a passo e argumento a argumento, o que a Alemanha nazi fez nos anos finais da década de 30, dando origem à II Guerra Mundial. Causando um número ainda incontável de vítimas inocentes - incluindo crianças, deficientes e velhos. Destruindo inúmeros alvos civis - incluindo escolas, creches, hospitais, maternidades, enfermarias, igrejas, teatros, museus, lojas e habitações. Provocando a maior deslocação de refugiados na Europa em oito décadas: cerca de 15 milhões de pessoas até agora. 

Tudo isto não numa região remota, algures no globo, mas no continente onde vivemos e que consideramos nosso também.

 

Nesse dia outros lembrarão onde estivemos.

Onde nos situámos.

Quem disse o quê.

Serão mencionados aqueles que se pronunciaram a favor da Ucrânia invadida ou da Rússia invasora.

Saber-se-á com minúcia quem escreveu em solidariedade ao agredido ou em aplauso ao agressor.

Ficará claro, nesse dia em que a poeira assentar, quem se atreveu a chamar "libertação" ao impiedoso bombardeamento de Mariúpol, transformada num mar de ruínas. Como se Guernica em 1937, Coventry em 1940 ou Dresden em 1945 tivessem sido "libertadas".

 

Nesse dia, todos seremos julgados. Não apenas pelas opiniões que emitimos neste ano com tintas de apocalipse, mas pelo silêncio cúmplice que alguns mantiveram. Muitos. Demasiados.

Os Pilatos contemporâneos, que lavam as mãos e olham para o lado, fingindo nada ver. Os "equidistantes", incapazes de tomar partido entre verdugo e vítima. Os "realistas", mais preocupados em "não humilhar" o violador do que em socorrer a nação violada. Os arautos da rendição a que chamam "pacifismo", incapazes de perceber que não existe paz sem liberdade.

Nesse dia, alguém perguntará: «O que disseste e o que fizeste em 2022?»

A todos. Aos que falaram - uns em louvor do crime, celebrando a razão da força, outros erguendo-se contra ele, convictos da força da razão. E aos que calaram, exibindo uma indiferença neste caso também tingida de sangue. Porque assistir a um crime em silêncio é cometer um crime também.

O auto-golo à Zelensky

jpt, 07.06.22

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O sempre muito elogiado, pelo seu gentil trato e cordialidade democrática, António Filipe - que durante 4 (!) legislaturas foi vice-presidente da nossa Assembleia da República - não "vai à bola" com as razões ucranianas. Quando, na sequência da "operação militar especial" russa, o presidente daquele país discursou no parlamento, logo o agora assessor parlamentar aventou que se convidasse o neonazi Mário Machado. E agora, por razões que o camarada saberá, volta ao sarcasmo sobre o líder do devastado país, botando na sua conta no Twitter (na qual se desdobra em dislates, até surpreendentes):

"Havia o penalty à Panenka. Agora há o auto-golo à Zelenski".

Entretanto, no mesmo dia, o secretário de Estado das minas e outras coisas importantes, João Galamba, irritou-se com um "anónimo da internet", um tal de Applehead, que criticava o governo por apoiar a Ucrânia. E gritou-lhe o que nem João Soares, nos seus tempos de logo demitido ministro, bufou a Augusto M. Seabra e Vasco Pulido Valente:

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Nenhuma simpatia tenho pelo actual (e decerto que futuro) secretário de Estado das minas e outras coisas importantes, memórias da era em que ele e alguns outros gabirús (académicos, jornalistas e activistas) constituiam um núcleo fervoroso - e remunerado, em salário, espécie e expectativas entretanto cumpridas - do aldrabismo socratista. Mas interrompo agora essa antipatia, pois vejo-o afinal algo humano. Partilho até a irritação face a tais dizeres críticos - ainda há poucos dias estive para telefonar a um amigo, dedicando-lhe estas palavras de Galamba, e algumas outras de cariz fóbico, ao vê-lo partilhar este lixo de outro camarada, José Goulão, mais uma prova da abjecta russofilia dos comunistas, brejnevistas e esquerdistas, portugueses. Mas contive-me. Não por estar no governo, que não estou! Mas porque não vale a pena... 

Enfim, dito isto, tenho uma proposta para o nosso relevante governante: não perca tempo com anónimos da internet, que assim tudo isto parece um "auto-golo à Galamba"! Se quer proclamar o "desprezo por toda esquerda pro Putin..." juntando-lhe o vernáculo mais peludo, ó homem, quando for à Assembleia grite essa caralhada toda ao António Filipe. Terá mais "panache"... 

Reflexão do dia

Pedro Correia, 29.05.22

 

«Qualquer coisa de impensável está a acontecer naquele país [Ucrânia]. Qualquer coisa só comparável aos campos de extermínio nazis.»

 

«Qualquer coisa de monstruoso apareceu, dentro da monstruosidade que é a guerra. Para lá das leis da guerra, agora sistematicamente quebradas pelo Exército russo, que já nem pretende esconder os crimes que comete, a horda de assassinos avança, exibindo aos olhos do mundo a sua brutalidade sem escrúpulos. Não é só a ordem da paz que é perturbada, é a própria guerra que é subvertida e transgredida - não é uma guerra, é um massacre.»

 

«Num gesto livre, a Ucrânia levantou-se para defender a sua vida, em vez de se submeter aos ditames de uma ditadura. Foi isso, e não a defesa da liberdade como valor ideal e abstracto, que levou os ucranianos a lutar tão energicamente. Às forças de destruição e morte trazidas pelo Exército russo eles opuseram a força de vida vinda daquele laço imanente que os une à sua terra e que define, todos os dias, a liberdade que os anima.»

 

José Gil, no Público

Comer (2)

Pedro Correia, 29.05.22

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Bani os fritos da minha dieta alimentar. Não me fazem falta alguma. É uma regra que admite excepções, aliás cada vez mais raras, mas tem carácter imperativo após o pôr-do-sol. E dou-me bem com isto.

Entre as excepções, figuram as chamuças que compro de vez em quando no mercado de Alvalade. De fabrico caseiro, adquiridas na banca dos congelados Zanugel, ali existente desde 1981. Só há aos sábados - e não são congeladas, estão prontas a comer, se formos cedo ainda as recebemos quentinhas. Estaladiças, com a massa vegetal adequada, o picante e a cebola no ponto certo.

Gosto tanto delas que por vezes tiro uma do cartucho para saboreá-la enquanto deambulo pelo melhor mercado de Lisboa. Que nas manhãs de sábado funciona também como ponto de encontro dos moradores do bairro. 

 

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Passei por lá ontem, já depois das onze: ainda havia. Pedi meia dúzia.

Ia com a intenção de preparar um risoto de cogumelos para o almoço. Passei pelo supermercado para me abastecer do que faltava tendo também em vista as ementas da semana que vai seguir-se.

Mas à entrada do Pingo Doce encontrei um grupo de voluntárias do banco alimentar: mudei de ideias. Enchi um saco de compras - massas, arroz, enlatados - e deixei-o com elas. Nada trouxe para mim. 

 

Sobravam as chamuças. Serviram-me de almoço e jantar (jantei cedo, aguardando a final da Liga dos Campeões). Na melhor companhia líquida possível que uma chamuça pede: cerveja, geladinha. Bebo pouca cerveja, mas agora é sempre desta marca: Robert Doms. Porquê? Por ser da Ucrânia. 

Eis a globalização à mesa. Comes de origem goesa, via Moçambique, e bebes do extremo leste da Europa, agora terra de combate. Combinação perfeita para o sábado mais quente deste ano que tem andado tão enevoado.

Slava Ukraini!

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