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Delito de Opinião

Profetas da nossa terra (79)

Pedro Correia, 25.02.26

 

«Não parece, à primeira vista, que a Rússia tenha qualquer interesse, neste momento, em invadir a Ucrânia.»

João Melo, director da revista África 21, 15 de Fevereiro de 2022

 

«A Rússia, vendo-se sem saída, reagiu como era expectável. Arguir agora que se tratou de uma surpresa é, literalmente, conversa para boi dormir. »

João Melo, director da revista África 21, 1 de Março de 2022

Penso rápido (117)

Pedro Correia, 25.02.26


Em Abril de 2022 a Rússia ocupava 19,6% de território ucraniano.

Agora, mais de um milhão de baixas russas depois, ocupa 19,2%.

Bastam estes números para se perceber a imensa estupidez de Putin e da sua alucinada "operação militar especial". Um dia há-de ser estudada nas academias como exemplo supremo de incompetência militar.

Podem ameaçar incendiar este mundo e o outro se Kiev não ceder.

Inúteis ameaças. Está confirmado: os heróicos ucranianos não se renderão.

Profetas da nossa terra (78)

Pedro Correia, 24.02.26

 

«Sendo claro que, passadas quase duas semanas do início da invasão, ela só vai terminar com a derrota e ocupação da Ucrânia e que, quanto mais durar a guerra, mais destruído ficará o país, não será altura de a União Europeia, sem prejuízo da condenação da invasão e da solidariedade com Kiev, reponderar a sua atitude passional e de alinhamento acrítico com Washington?»

Vital Moreira no blogue Causa Nossa, 7 de Março de 2022

Slava Ukraini! Diakuiu!

jpt, 24.02.26

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Passam hoje exactamente 4 anos que a Rússia encetou a sua "Operação Militar Especial na Ucrânia". Ao presidente Zelensky foi oferecida a pronta evacuação e ele deu a resposta que o colocou na História: "A luta é aqui, não preciso de uma boleia mas sim de munições".
 
O ditador fascista Putin julgou que tudo se resumiria a um célere Anschluss russófono. Dois ou três dias depois do ataque - com os célebres tanques russos cavalgando rumo a Kiev - discursou televisamente às massas ucranianas, convidando-as a aderirem às (fraternais) tropas russas e a saudarem a união. Entretanto a sua máquina propagandística internacional resumia o poder de Kiev a um conglomerado de "palhaços" (Zelensky fora um actor cómico), "drogados", "corruptos", "judeus" e "neonazis". E era evidente que presumiria um "efeito dominó" nas anteriores áreas do império russo-soviético.
 
 
A Ucrânia decidiu resistir! 4 anos brutais, com custos enormes. A Rússia decidiu insistir, num conflito que já lhe é mais longo do que que o teve durante a II Guerra Mundial - recorrendo a "carne para canhão" oriunda das zonas limítrofes do seu império (sem que os "decoloniais" ocidentais sobre isso elaborem, já agora...), a mercenários, a prisioneiros, depois a tropas norte-coreanas, agora a africanas. E, tal como a Ucrânia, tem tido enormes perdas humanas, que virão a ter - aventam especialistas - impressionantes repercussões demográficas futuras. E custos económicos cuja totalidade é ainda imperscrutável. Para além dos geoestratégicos: crispou-se por décadas com a Europa, esta antes dela preguiçosamente dependente em matérias energéticas, e a essa fez mais congregar. Provocou o alargamento da NATO junto das suas fronteiras, acentuou a sua dependência para com a China - e as fricções sino-russas serão o futuro.
 
Esta guerra não poderá eternizar-se, por razões humanitárias e também por se presumir estar exaurido o povo ucraniano. O carácter sinuoso e errático actual governo norte-americano mais indicia que com relativa brevidade haverá um acordo de paz, com perdas territoriais da Ucrânia - que desde o início seriam de esperar. Mas mesmo assim a Rússia de Putin terá uma enorme derrota, "comprará" caríssimo o que julgou que seria "grátis". Pois inexistiu a eufórica "re-união", o tal Anschluss em êxtase russófilo - e de que maneira. E o ambicionado "efeito dominó" transitou de sonho para pesadelo.
 
Neste processo se poderá retirar que as democracias liberais europeias, mesmo se enredadas numa tibubeante concatenação de Estados independentes e poluídas por orbanites, se conseguiram reunir e defender. É certo que quando o tal tratado de paz for concluído, logo virão rejubilar os sobreviventes comunistas - cuja demência senil ainda entrevê em Moscovo o aliado anti-"capitalista" preferencial. E também rejubilarão os fósseis fascistas - esses rústicos paladinos da "Europa das Nações" que se desfazem em simpatias por uma Rússia que se deseja império... transnacional. Então convirá recordar que essas gentes política e eleitoralmente valem nada mais do que um pêlo púbico. E intelectualmente apenas um pêlo púbico sujo.
 
Tudo isto muito influenciou a nossa economia e a nossa (geo)política. A UE e concomitante "Europa" muito mudou. Esperemos que o crime putinesco venha a ser uma serendipidade histórica. Influenciando a Europa democrática, fazendo-a perceber duradouramente da necessidade de aumentar as interacções, reforçar a defesa conjunta, variar as fontes energéticas, independer de aliados preferenciais. E nunca esquecer o "it's the economy, stupid", desburocratizar e inovar na "reindustrialização" (não dickensiana, como é óbvio).
 
Enfim, agora tanto como antes, Slava Ukraini! Independentemente de defeitos e erros que os seus políticos tenham ou possam ter.
 
Aliás, mais, Slava Ukraini! com todos os defeitos que ali existam. Obrigado! Diakuiu!
 
*****
 
Por cá, para além da carestia de vida, e da angústia humanitária, o processo também influenciou politicamente. No mês anterior ao início da guerra tinha havido eleições. O PCP obtivera 4,3% dos votos, elegendo 6 deputados. A sua antidemocrática essência conduziu-o a refutar a condenação de Putin, num falsário "relativismo" "pacificista". Com um pacóvio afã suicidário, a sua direcção sempre se recusou a aceitar a realidade de uma "invasão", optando despudoradamente pela utilização do jargão putinesco, sempre falando de "operação militar especial". Depois, em 2025, após 3 longos anos de guerra e 3 curtos anos legislativos, foi de novo a votos: captou 3% de votos e elegeu 3 deputados, perdendo metade da representação parlamentar. Outras causas terão contribuído para isso. Mas a sua recusa numa vigorosa refutação do fascismo imperialista decerto que teve efeitos.
 
O sempre ufano BE também se espalhou. 3 dias antes da invasão, quando tantos a diziam iminente, vi em directo na televisão a deputada Mariana Mortágua - que ali era ilegalmente comentadora remunerada - explicitar que a Rússia (sob a tal ditadura capitalista fascista de Putin) tinha todo o direito de defender o seu "espaço vital". Saltei na poltrona diante daquilo. Pois via uma deputada da República e professora pro bono do ISCTE (onde estudei) a invocar o argumento legitimador do imperialismo nazi. E nesses iniciais dias de guerra o BE titubeou, incapaz de se apartar do primado à crítica dos EUA e da UE.
 
Assisti in loco a uma ilustração dessa hesitação do BE, um aglomerado sempre propenso a demonstrações públicas ("arruadas" diz-se agora) de "indignismo". Umas semanas depois do início da guerra houve uma manifestação lisboeta, diante da embaixada da Rússia. Participei, lá cheguei uma meia hora atrasado, e consegui esgueirar-me para o centro das apinhadas artérias junto a amigos que ali encontrei. Um bom bocado depois, para aí uma hora, decidimos ir embora... Lá para trás da mole, no final da conglomeração estava a chegar um pequeno punhado de gente do BE - essa que sempre se apresta a estar nas primeiras horas e filas de quaisquer "acções de rua" -, agitando meia dúzia das suas bandeiras, com ar algo constrangido, num evidente "tem de ser...". Os do nosso grupo entreolhámo-nos, rimos. Com desprezo.
 
3 anos depois, os tais longos de guerra e curtos de legislatura, o BE, que antes tivera 4,4% da votaçao elegendo 5 deputados (já de si um desastre eleitora), obteve 2% e elegeu... 1 deputado. De novo, outras razões existem para tamanho descalabro. Mas isto, este primado do anti-americanismo e do desprezo pelas democracias, também contou. Mesmo entre quem fora sensível aos arrazoados BE.
 
Entretanto o CHEGA, partido por tantos dito "fascista" e "nacionalista" (termo que aqui tem conteúdo pejorativo), mandou para Bruxelas o infausto ex-cônsul em Goa (uma personagem tétrica...), único dos seus importantes que papagueara putinices... Ventura, O Única-Voz do partido, assumiu-se europeu, pró-democrático, antifascista. Uma espécie de Meloni luso. Não será necessário aqui colocar os seus números eleitorais, pois não? Os quais lhe advêm de várias causas, claro. Mas, repito, também por isso.
 
(Postal também no meu "O Pimentel")

Não verga, não cede, não capitula

Pedro Correia, 24.02.26

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Vladimir Putin anda desesperadamente, desde 24 de Fevereiro de 2022, a tentar ocupar a Ucrânia manu militari, transformá-la num estado vassalo e liquidar Zelenski, uma das grandes figuras da política mundial do século XXI.

Não conseguiu concretizar nenhum destes objectivos, mesmo à custa de pesadíssimas baixas. Volvidos quatro anos, o senhor feudal do Kremlin só conseguir anexar cerca de 0,75% de território adicional da nação vizinha, que teima em ser livre e soberana. A resistência do povo agredido é tenaz: cada metro quadrado de "conquista" custa a vida a cerca de 55 soldados russos.

Ao contrário do que alguns colaboracionistas portugueses de Moscovo profetizavam, logo nos dias iniciais da agressão, a Ucrânia não se verga, não capitula, não cede a sua soberania ao déspota neo-imperial. 

Comportamento notável, a todos os títulos. Basta reparar nisto: a Federação Russa está há mais tempo em guerra com a Ucrânia do que os dias em que, enquanto URSS, travou combates contra a Alemanha durante a II Guerra Mundial. Este é o conflito bélico há mais tempo travado em solo europeu desde 1945.

Todos os meses o genocida de Moscovo envia 40 mil homens para a vasta linha de frente: mais de 60% acabam mortos ou feridos em combate. O Kremlin perde mais soldados do que aqueles que consegue recrutar. 

A besta selvagem, embalada pelo tropel do Apocalipse, exige mais sangue, cada vez mais sangue. Acabará afogada nele.

 

ADENDA: Balanço destes quatro anos de agressão russa à Ucrânia aqui.

Um resquício do antigamente

Paulo Sousa, 29.10.25

Há uns meses atrás, disse em privado que a Rússia estava cada vez mais encurralada e não via forma de conseguir sair do buraco onde se metera. A resposta, de alguém informado, era que eu estava redondamente errado, que as democracias europeias tinham nascido em tempos de paz, concórdia e compromissos e não eram capazes de decidir com a agilidade dos estados autoritários. Além de que a Rússia não se incomoda em sacrificar o seu próprio povo para salvar a cara do Czar e que ainda por cima tinha o apoio da China. Argumentei dizendo que a derrota da Federação Russa pode levar à sua desagregação e isso seria uma oportunidade para a China, até no que diz respeito a voltar ter um acesso ao Pacífico. Que não, que a Rússia só fica de joelhos quando está a atacar os sapatos, que tem direito a ter a sua esfera de influência e que se as democracias são fracas, a União Europeia é muito mais. Um bando de incapazes e três safanões, rima sempre com recuos, apelos a negociações e a fraldas sujas. Ninguém nos pode acudir. Lembrei que há cem anos também não faltava quem desprezasse as democracias e garantisse que o futuro era das ditaduras, mas no fim da Segunda Guerra Mundial foi o que se viu. Mas nessa altura não existiam redes sociais, respondeu-me, e hoje estamos sempre a ser bombardeados por bots do Kremlin que contagiam os eleitores com insegurança e sublinham a força da Rússia. Se algum líder europeu desafiar Putin, será incinerado nas redes sociais. Churchill e Roosevelt não tiveram de lidar com essa quinta coluna.

Algumas semanas passaram e a balança continua a desequilibrar-se em desfavor da Rússia. As democracias, e a UE, continuam envolvidas no caos dos seus parlamentos, na sua impotência e sem saber o que fazer com a sua relativa prosperidade, com os imigrantes ou com as expectativas dos seus cidadãos.

A democracia, por ser um modelo político desejável do ponto de vista do cidadão, fez parte dos factores que mobilizam o heróico povo ucraniano a suportar as flagelações russas. Claro que lutam pela sua identidade e sobrevivência, mas lutam também para que as suas gerações futuras possam viver na Europa da democracia, dos parlamentos caóticos, dos orçamentos aprovados à última hora, dos governos derrubados pela oposição, dos escândalos revelados pela imprensa, dos humoristas a apoucarem os governantes, mas também da harmonia do compromisso, da cooperação e da solidariedade europeia, da economia de mercado e do estado de direito. Lutam para não terem de viver sob o jugo de Moscovo, das suas elites corruptas e obscuras, que os atacaram, aliás, para tentarem impedir que o seu próprio povo entenda que, mesmo sem infinitas reservas de recursos naturais, é possível ter uma vida próspera e digna. As elites russas não querem abrir mão dos seus privilégios e sabem bem que num sistema competitivo como o da democracia tudo se pode perder muito facilmente. Funcionam como se vivessem num Antigo Regime fora de tempo, onde a vida de cada um depende do berço onde nasceu e o elevador social funciona apenas para os mais corruptos e menos escrupulosos no recurso à violência. Essa é a essência desta guerra que duraria apenas três dias. Esta é uma guerra onde um resquício do antigamente tenta contrariar a força da aparente fragilidade da democracia e da força da dignidade dos cidadãos. Um dia, inevitavelmente, a modernidade chegará também a Moscovo.

O comentário da semana

«A Ucrânia é a linha da frente europeia, a que tem aguentado heroicamente»

Pedro Correia, 28.10.25

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«Enquanto as condições de força da Ucrânia não pioram, têm vindo sempre a melhorar - e as da Europa também, que acordou tarde mas ainda muito a tempo, sobretudo devido à extraordinária resistência ucraniana.

A Ucrânia é a linha da frente europeia, a que tem aguentado heroicamente (durante muito tempo praticamente sozinha!) os grandes embates, enquanto a Europa recupera em ritmo acelerado a capacidade defensiva que descurou - por ter conseguido construir uma situação estável de paz e progresso comum numa geografia que parecia historicamente fadada à guerra.

Provou que, tanto os homens de boa-vontade o queiram, não existem fatalismos, mesmo históricos que sejam. Mas há sempre bárbaros à espreita para a invasão...

(...)

Já se contam em anos os actos falhados da "operação especial passeio de três dias"; e bem assim a sua propaganda putinista falida, tornada repetitiva por falta de mais o que dizer, condenada a abanar sempre os mesmo espantalhos - por mais evidente que seja que não resulta, que os povos europeus não vão na conversa do papão, que não se deixam manipular, é isso ou ficarem calados.

Que para dizer coisas como "Estupidamente, a Ucrânia e a Europa continuam a preferir a guerra" o melhor seria realmente ficar calado, de tal maneira torna evidente a "preferência inteligente" do Czar Careca pela paz... dos cemitérios.

Também ele devia ter ficado calado em vez de cantar vitória antes de tempo e desatar a ameaçar-nos. Até parece que a Rússia nunca perdeu guerras, e até bem ingloriamente. Podem preferir não ter memória, mas a Europa tem.»

 

Da nossa leitora Zebra. A propósito deste meu texto.

Reflexão do dia

Pedro Correia, 25.08.25

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«Putin tem de convencer-se de que qualquer nova agressão desencadeará uma resposta esmagadora. Em última análise, Trump deverá apoiar com determinação a "coligação de vontades" europeia - e fazer o que for necessário para reagir a qualquer futura violação da soberania ucraniana pela Rússia. (...)

Alguns argumentarão que a Ucrânia terá simplesmente de aceitar as condições de Putin em nome da paz. Mas, tendo eu negociado com ditadores de Moscovo a Pyongyang, sei que o apaziguamento só lhes aguça o apetite: parafraseando Churchill, um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo na esperança de ser devorado só no fim.

Se a América liderar negociações que tenham como resultado uma vitória de Putin, não terminaremos esta guerra - abriremos caminho para a próxima.»

 

Mike Pompeo, antigo secretário de Estado dos EUA (2018-2021), em artigo publicado na edição de fim-de-semana do Financial Times

A Constituição é «um artifício jurídico»

Tiago André Lopes ataca Ucrânia com argumentos inaceitáveis

Pedro Correia, 19.08.25

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Alguém devia oferecer um exemplar da Constituição da República Portuguesa (CRP) ao professor Tiago André Lopes, presença habitual nos púlpitos de comentariado da CNN Portugal. 

Dizia ele ontem, em defesa acérrima da capitulação da Ucrânia perante as exigências demenciais do ditador russo em violação sistemática do direito internacional: «Zelenski vai ter de conseguir aceitar a questão territorial [cedência à Federação Russa de cerca de 20% de território ucraniano]. O argumento constitucional, obviamente, não colhe. A Constituição é um texto vivo, alterável, transformável. Não é um bloqueio. A paz não pode ser travada por um artifício jurídico.»

Aquele docente de Organizações Políticas e Internacionais na Universidade Lusíada do Porto aborda com chocante ligeireza algo tão relevante como a legitimidade constitucional. A lei fundamental da Ucrânia é categórica: proíbe a alienação de qualquer parcela territorial do país e quem violar esta norma imperativa incorre no crime de traição à pátria. Norma que surge logo no artigo 2.º: «A soberania da Ucrânia abrange todo o seu território. A Ucrânia e um Estado unitário. O território da Ucrânia, nas suas fronteiras actuais, é indivisível e inviolável.»

Nada original, convenhamos. 

Lembremos o que diz a nossa lei magna, sobre o mesmo tema: «O Estado não aliena qualquer parte do território português ou dos direitos de soberania que sobre ele exerce, sem prejuízo da rectificação de fronteiras.» Vem no artigo 5.º, n.º 3, da CRP, o tal documento-base que o professor Tiago Lopes parece ignorar. 

Relativizar normas constitucionais é usual em sistemas totalitários - não em regimes assentes no primado da lei e do equilíbrio dos poderes. Imaginemos o primeiro-ministro português, há dias confrontado com o chumbo de um diploma no Tribunal Constitucional, adoptar esta lógica. Imaginemos como reagiria o próprio Tiago Lopes se Luís Montenegro usasse as palavras do docente da Lusíada portuense: «O argumento constitucional, obviamente, não colhe, a Constituição é um texto transformável» e a lei fundamental de qualquer país é mero «artifício jurídico».

Resta-me uma dúvida, perante tão óbvio absurdo: diria o comentador da CNN-P o mesmo se estivesse em causa a integridade territorial da Federação Russa? 

Agostinho Costa e o jornalismo informativo

jpt, 29.06.25

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Ontem mais uma vez o Pedro Correia se insurgiu diante das atoardas substantivas e das atitudes abrasivas do comentador televisivo Agostinho Costa. Ecoar diferentes opiniões, oriundos de diversos pontos de (tomada de) vista, é um valor fundamental na imprensa. E a questão da guerra na Ucrânia - crucial na nossa sociedade - não deve ser excepção. Mas o desconforto face a este indivíduo ultrapassa a sua aparente bizarria. Ou seja, levanta várias questões:

1. Lateralmente: sobre a questão ucraniana noto um paradoxo - de facto é um falso paradoxo, mero episódio das artimanhas da retóricas avessas à democracia liberal. Pois quando estalou essa guerra houve decisões europeias para obstar à disseminação da propaganda russa, promovida pela divulgação da sua imprensa e de inúmeros "sítios" digitais, sitos na Rússia ou alhures. O que colocou problemas quanto aos princípios relativos à liberdade de expressão e de acesso à informação.

Lembrando-nos o que é pouco dito: se os "princípios" são (devem ser) sacrossantos, são-no na medida em que são também "maleáveis". Pois a sua centralidade depende, exactamente, dessa relativa maleabilidade e de como esta é controlada de forma institucionalizada / legitimada. Ilustro de modo superficial: a aparente oposição entre o "não matarás" e a defesa da "guerra justa", ou entre a inadmissibilidade de "justiça por mãos próprias" e o direito à "legítima defesa". Ou, vá lá, entre o "não cobiçarás a mulher do próximo" e o direito ao divórcio. Matérias que filósofos, juristas e teólogos esmiuçaram...

Ora realço que muitos, sitos nos diferentes nichos de extracção comunista - cujo viés antidemocrático se consubstanciou numa russofilia até anacrónica -, contestaram essa "censura" (por exemplo aqui, num abaixo-assinado que congregou dezenas de intelectuais portugueses) aos dizeres russos e russófilos. Mas é desses mesmos sectores ideológicos que entretanto surgem apelos para um controlo das plataformas de divulgação - as "redes sociais" - evitando opiniões (e "versões") de "extrema-direita".

É notório que estas opiniões são opções por cardápio  (a la carte). E demonstram que os núcleos avessos às democracias liberais e às suas instâncias multilaterais querem esconder o evidente. Do Atlântico aos Urais nenhuma "extrema-direita" é mais poderosa do que a instalada no poder de Moscovo: nacionalismo agressivo e dotado de fortíssimo argumento militar, discriminação desvalorizadora de "minorias" nacionais/linguísticas ("étnicas", diz-se popularmente), substrato clerical, repressão política, censura de imprensa, limitação ao direito de associação, execução alargada e aprisionamento de opositores políticos, oligarquia cleptocrática, conúbio com as piores ditaduras internacionais (veja-se a aliança factual com a monarquia norte-coreana), apoio constante a núcleos políticos congéneres no estrangeiro. E, relevante pois sonante na actual agenda política da "esquerda identitarista", repressão dos homossexuais - note-se que se na Hungria o governo de Orban, tão dito de extrema-direita, pode ser agora afrontado por uma enorme manifestação defensora dos direitos dos homossexuais, isso é impensável sob o regime russo.

Enfim, mais de três anos depois do início da guerra na Ucrânia, a adesão à ideologia fascista, sob embrulho russófilo, continua a ser aceite. E propagandeada. Em Portugal é-o fundamentalmente através da televisão. Pois não se trata de "redes sociais" mas sim de estações televisivas que emitem sob alvará estatal e pagam para que seja feita propaganda de extrema-direita.

2. Pede-se à imprensa que sobre a guerra na Ucrânia - na produção e importação de reportagens e na análise (comentário) - seja ... analítica. É normal que o estupor e alarme inicial tenha promovido um até alarido, mesmo propagandístico, convocando a opinião pública a um esforço (político, orçamental, de acolhimento) em prol dos invadidos. Mas foi evidente que esse enviesamento pró-ucraniano - democrático, independentemente dos defeitos próprios do regime de Kiev - se deixou alongar: exemplo disso, mesmo pungente, foram as intervenções diárias no horário nobre de canal generalista do exaltado José Milhazes. Esse é caso extremo, até pitoresco. Mas a normal tendência pró-ucraniana - por ser o país invadido, associável ao nosso âmbito multilateral, e pela evidência do expansionismo russo -, cristalizou-se num discurso repetitivo, muitas vezes - mas não sempre - falho de capacidades analíticas. Esquecendo o fundamental: a Ucrânia defende-se no campo de batalha e nos contextos diplomáticos. Não no audiovisual e nos jornais portugueses.

(Pior ainda, o seguidismo às teses e práticas do governo israelita. Mas será importante integrar o cada vez mais esquecido factor: a actual guerra em Gaza e sua transferência para Líbano e Irão, é uma refractada sequela do conflito na Ucrânia).

3. O caso de Costa não é único, mas é o mais vibrante.  General e influente maçónico, evidencia ser adepto do regime fascista russo. E, neste contexto internacional, de todos os regimes antidemocráticos - em particular o iraniano - que sejam adversários dos nossos aliados e das nossas instâncias multilaterais. E segue remunerado para realizar essa propaganda - muito provavelmente devido às teias de influência que construiu a partir das suas inserções nos grupos de pressão castrenses e civis. Pois, até pela sua consabida truculência insultuosa, não haverá outra explicação para a continuidade desse seu labor televisivo. E é nisso apoiado pela estação televisiva - não só pelas constantes aparições. Pois há pouco tempo, num zapping meu, apanhei-o numa entrevista pessoal, julgo que vespertina - lamentavelmente não registei o programa, não recordo o título. Mas percebi o intuito "humanizador": o entrevistador fez questão  de um "vamo-nos tratar por tu", e construíu o diálogo de modo a que os espectadores assistissem à apresentação de um aprazível cidadão sénior, felizmente ainda activo, pois saudável e viçoso. Ou seja, sedimentando a simpatia pelo propagandista Costa. E pelas suas opiniões.

4. Aos jornalistas e/ou analistas (agora ditos "comentadores") não pode ser exigida a "neutralidade". Nem mesmo se pode pedir uma "equidistância", ponto de tomada de vista que é mitológico. Pode-se pedir objectividade, esta sempre construída na subjectividade pessoal. E, até mais do que tudo, alguma decência.

Ainda assim há destrinças a fazer. Ilustro: tivesse eu sido convidado para comentar - de modo gratuito - a recente final da Taça de Portugal entre o meu Sporting e o  Benfica, em estúdio teria sido vibrante adepto. E ali ao vivo, diante dos "caros telespectadores", teria festejado a ansiada "dobradinha" - como aqui o fiz. Mas se ali estivesse na qualidade de "comentador residente" - ou seja, remunerado (e bem que me daria jeito) - a abordagem intelectual seria diferente. Sim, rejubilaria. Sim, festejaria (repito, como aqui o fiz). Mas - por estar a ser remunerado, ou seja, por estar a trabalhar - teria de reconhecer que Mateus Reis deveria ter sido expulso, que houve um erro crasso da arbitragem, o qual a não acontecer teria mudado as dinâmicas do jogo e, talvez, impedido a tal ansiada "dobradinha" sportinguista. Enfim, que o título obtido foi um bocado coxo (o Sporting poderia ter ganho na mesma mas ficará sempre a dúvida...).

Que quero eu dizer? Que é louvável a disponibilidade para acorrer à imprensa de modo voluntário (gratuito, no sentido de não remunerado...) em atitude de cidadania, militância, "activismo" (como se diz agora) ou de mero adeptismo. Mas quando se vai opinar de modo laboral (remunerado) a restrição à militância, ao propagandear, é uma vilania. Costa não é, nem de perto nem de longe, o único - exemplo crasso é o da comentadora residente Ana Gomes, na sua patética classificação da competência televisiva dos cabecilhas partidários: disso diria a minha mãe, que tinha uma linguagem menos abrupta do que a minha, "isso não é um comportamento digno de uma Senhora". Pois esta gente é paga para exercer um trabalho e vai exercê-lo ao serviço de outros interesses. Mas Costa é mais fascista deles todos. E o mais malcriado.

Qual a razão para que continue a ser contratado para propagandear o fascismo? Repito-me: talvez devido à sua influência no meio castrense - e é problemático percebermos que há alguns generais tão avessos aos regimes democráticos e à multilateral de Defesa em que estamos inseridos. E/ou pela inscrição maçónica, sempre de influência esconsa, algo imperscrutável. Mas, para além dessas dúvidas quanto ao actual trampolim fascista em Portugal, há algumas certezas. Entenda-se, os nomes dos responsáveis directos.

Aqui escrevi em 4 de Março de 2025

"Desde logo eu (e tantos outros) me espantei e enojei com a desbragada putinofilia - até vituperando o patriotismo ucraniano - de alguns generais comentadores televisivos - um até exultava com a "libertação de Mariupol", tanto lhe agrada Putin. Ditos "especialistas em assuntos militares" (caramba, são generais, seriam especialistas de quê?). Para quem ache que são "especialistas", comentadores avisados e assim neutrais, deixo um exemplo, o do general Costa - um avençado por instruções dos (ex?-)jornalistas Nuno Santos e Santos Guerreiro. Enquanto trata todos os interlocutores por títulos académicos (o sacrossanto "Chô Doutor/a") gozou a cena da Sala Oval, referindo "Vance", "Trump" e "o Zelensky", assim denotando o desprezo pelo "mimado" ucraniano, como o disse. Tal como referiu o "Senhor Macron" - em evidente glosa do célebre e justificadamente sarcástico "Senhor Hitler" de Fernando Pessa. Terminando, o escroque fascista, a tratar os líderes eleitos da democrática União Europeia por "cavalheiros" e - imagine-se - "madames", como se estas fossem epígonas da Maria Machadão de Jorge Amado. Há 3 anos que Nuno Santos e Santos Guerreiro agridem o país com este lixo moral. Pois são isto."

(Também no  meu "O Pimentel")

 

Pensamento da semana

Pedro Correia, 29.06.25

A situação do mundo está explosiva como nunca no último meio século. Há causas diversas, mas a principal tem uma data: 24 de Fevereiro de 2022. O dia que mudou a geopolítica, fazendo regressar a guerra à Europa. A força da razão foi pulverizada enquanto prevalecia a inaceitável razão da força. Putin abriu a caixa de Pandora. Estilhaçou o direito internacional, tentou refazer fronteiras à bomba, tudo fez para reduzir a pó o quadro global nascido em 1945. O resto veio em sequência, segundo a lógica do dominó. Impossível criticar de boa fé e com elementar sentido de justiça as fases subsequentes sem condenar aquela, a primeira de todas.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

Indignidade moral

Pedro Correia, 06.06.25

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Ontem à noite, no canal do costume, ouvi o famigerado major-general Agostinho Costa com as habituais diatribes anti-NATO e anti-União Europeia enquanto despejava propaganda moscovita, num misto de Lavrov e Medvedev. Desta vez excedeu-se a si próprio, cruzando uma linha absolutamente inaceitável. A propósito da aparatosa destruição de duas dezenas de bombardeiros estratégicos russos por drones de Kiev dotados de inteligência artificial num ataque a quatro bases aéreas, uma das quais situada a 1900 quilómetros da fronteira ucraniana. 

Talvez transtornado por esta péssima notícia na óptica do Kremlin, o referido comentador disparou isto em antena aberta: «Lembremos os side effects da aventura americana no Afeganistão, na forma como combateram os soviéticos, criando a Al-Qaida que depois lhes caiu em cima.»

Uma indignidade moral, esta equiparação da inquebrantável resistência ucraniana ao invasor russo - no quarto ano de feroz conflito bélico em solo europeu - à organização terrorista islâmica. Equiparação que mancha quem a profere. E que só desqualifica quem lhe dá palco.

Slava Ukraini!

Pedro Correia, 09.05.25

Excelente intervenção de Sebastião Bugalho, em nome do PPE, na conferência ontem organizada pelo Parlamento Europeu para assinalar o 80.º aniversário do fim da II Guerra Mundial no nosso continente.

Assinalo alguns trechos:

«A Segunda Grande Guerra confrontou a humanidade com o desumano, o patriotismo com o fascismo, a verdade com a raiva.»

«Aqueles que resistiram à invasão estão aqui, aliados àqueles que jamais invadirão novamente. Aqueles que disseram "Nunca nos renderemos" estão aqui, lado a lado com aqueles que dizem "Lembraremos sempre".»

«Devemos dizer [ao povo ucraniano] que a sua luta já foi a nossa, que a sua vitória será a nossa paz. Eles podem não ser nossos pais ou nossos filhos, mas são nossos irmãos. Nossos irmãos de armas e de direitos. Nossos irmãos na sua esperança e na sua resistência.»

«Hoje é a sobrevivência da liberdade e da democracia que está em jogo no nosso continente. (...) Que o fogo da memória acenda esta causa comum. Que as palavras "Dia da Vitória" também signifiquem - mais cedo do que tarde - "Slava Ukraini!"»

Indignidade moral

Pedro Correia, 15.04.25

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Manhã de Domingo de Ramos: Vladimir Putin ordena aos seus esbirros para bombardearem Sumy, na Ucrânia. Com total desprezo pela vida humana. 

Dois mísseis foram lançados para o centro da cidade enquanto centenas de pessoas iam à missa. Morreram 34 civis e 119 ficaram feridos, alguns em estado muito grave. Sete dos mortos eram menores.

Ao contrário do que apregoavam os propagandistas da Casa Branca, nem a guerra na Ucrânia terminou em 24 horas nem há qualquer sinal de que tenha fim à vista. Continuam a ser ali cometidas as maiores atrocidades - pelo quarto ano consecutivo. 

Confrontado com este mais recente crime de guerra, Donald Trump voltou a poupar Putin: nem um esboço de crítica ao carrasco da Ucrânia. Começou por uma declaração tipo Miss Mundo, geral e abstracta, dizendo que «as guerras são horríveis». Depois limitou-se a chamar «erro» à nova acção criminosa do psicopata russo. E desviou logo a rota, lançando culpas sobre o seu antecessor na Casa Branca. Parece convencido de que a campanha presidencial norte-americana ainda não terminou, daí nunca abandonar a rasteira linguagem de comício. Dando a entender que o responsável dos massacres na Ucrânia é Joe Biden, não Putin.

Em contraste absoluto com a reacção imediata de Keith Kellogg, para quem o bárbaro ataque a Suny «ultrapassa qualquer linha de decência». Palavras dignas que o colocarão ainda mais à margem do processo negocial: Donald Trump, que detesta Zelenski e admira Putin, parece já não contar com o general para contactos com Kiev.

Em Washington, apesar de tudo, acende-se uma ténue luz de esperança. Congressistas republicanos começam a pressionar Trump para se mostrar sensível ao sofrimento ucraniano. É muito provável que este esforço esteja condenado ao insucesso. Mas se não falarem agora arriscam-se a ficar tão contaminados pela indignidade moral como ele.

Cruzeiro, a rapper no PS

jpt, 11.04.25

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Eva Cruzeiro, a rapper Eva Rap Diva, será candidata a deputada pelo Partido Socialista. Na semana passada isso deu polémica, devido a declarações que proferiu há 3 anos, num contexto em que estava sob "liberdade criativa", como afirmou, pois declamou (cantou?) numa desgarrada típica no seu estilo musical: “Eu sou africana, tou-me a cagar para a guerra na Ucrânia. Esses gajos que se matem como nós nos matamos. Eles não se importam connosco, então, nós não nos importamos. Eu sei que isso se cair na net, muitos vão começar a falar mal, mas não me compete agradar a toda a gente.

O assunto é-me muito interessante. E é passível de abordagem por várias portas. Claro que se pode ser cáustico, e acusar o PS de demagogia por cooptar uma artista em busca de votos. Mas é até tradicional que os partidos convidem personalidades públicas para "animarem" as suas listas, assim "convidando" eleitores flutuantes (Rosa Mota no PS, Saramago no PCP, o fadista do PPM, para exemplos).  E também podemos invectivar os modos da rapper - alguém a autodenominar-se "Diva" é um bocado piroso. Mas, convenhamos, os nossos "cantautores" (ou "cantores de intervenção", se se quiser) mimetizavam os da chanson française (ou "franco-belga", para se ser mais exacto). E os nosso rockeiros seguiam os (bons) tiques e toques do rock'n roll alhures... Vamos criticar os da nova geração pela mesma tendência para a cópia identitária?

Mais corrosiva será a evidente comparação - o PS é o regime, mesmo se agora na oposição, tem-no sido desde há largas décadas. Uma rapper, com a parafernália simbólica do anti-sistema, a enfileirar-se no partido é um bocado como se o José Mário Branco tivesse sido candidato do PS em 1987. Ou o Cabeleira nas listas encabeçadas por Fernando Nogueira em 1995... Mas, sendo franco, vendo o perfil e percurso da ainda jovem candidata Cruzeiro, percebe-se que ela não é uma "rebel without a cause". É artista, sim. Mas também estudante, investigadora, e activista sobre questões políticas e sociais. Ou seja, não é (não será) um mero "cromo" nas listas, é uma jovem empenhada na política. Assim justificando a ascensão a lugar elegível. 

Há outra dimensão nisto: tantos lamentam que os jovens não se interessem pela política. E mais, que aqueles que surgem na política sejam meros (e rasteiros, nisso videirinhos) "jotinhas", a papaguearem o que as direcções dos partidos dizem, na volúpia da ascensão "laboral". E de repente aparece uma jovem a interessar-se pela política partidária, e a ter opiniões dissonantes - ainda para mais no passado - das lideranças. E critica-se? É um absurdo esta verrina crítica. Ou seja, e independentemente do meu desejo da derrota do PS, bem-vinda seja Cruzeiro.

Outra coisa que é salutar: Cruzeiro apresenta-se como portuguesa da Arrentela (mal comparado tal como eu sou dos Olivais). E sendo filha de angolanos exerce (vive, activamente) essa "duplicidade" (no bom sentido, o de multiplicidade, complexidade) identitária. Trabalha, empenha-se, debate, participa, nas questões daqui e nas do país dos seus pais. Isso é uma riqueza imensa, dela pessoal mas também de quem com ela interagirá. Chama-se, para incompreensão de muitos críticos, cosmopolitismo. Ou seja, e de novo, bem-vinda Cruzeiro. E seria bom que os outros partidos democráticos se associassem nesta recepção. Apriorística, para depois se passar às hipotéticas críticas às suas posições futuras.

Ficam-me três coisas para referir: a primeira é algo que as extremistas feministas - e Cruzeiro anuncia-se como feminista - chamam de "mansplaining", termo inglês que significa quando alguém com pénis explica uma coisa óbvia a alguém com vagina, mas que eu exijo que seja considerado como um "oldsplaining": entrar no PS implica que, mais tarde ou mais cedo, se fica igual aos tipos do PS. Não há nada a fazer, não há antídoto. E é letal (ainda que dê empregos).

A segunda é relativa ao choradinho da desgarrada por Cruzeiro proferida há três anos sobre a guerra da Ucrânia, aquilo dos sacanas dos brancos "não se importam connosco" (africanos), pelas matanças em África, etc. e tal. Pois há três anos, diante do coro de aleivosias similares veiculadas por maduros moçambicanos sobre o assunto - esse que se lixem os "europeus" (entenda-se, os "brancos") nisso da Ucrânia porque não nos ligam, que Cruzeiro também então balbuciou - botei um texto: "O Barómetro Moral do Sul". O qual, com toda a honestidade, é irrefutável, dada a sua base empírica. Entenda-se bem: este choradinho, da culpabilização dos "brancos" pela sua desatenção pelos "problemas" em África é argumentação ideológica dos cleptófilos, dos adeptos das cleptocracias, tantas delas assassinas, em África. E seria melhor que uma rapper e/ou política desgarrasse sobre isso... Em vez de apenas papaguear a demagogia servil.

Finalmente, e para além de Cruzeiro, a propósito desta situação fui ver o seu perfil nas "redes sociais", nas quais é abundantemente seguida. Tudo curial, uma artista e investigadora jovem, que se apresenta em palco, ou em convívio, na frescura do seu aspecto, às vezes mais formal, outras vezes menos, e também com os seus interlocutores, uns conhecidos, outros menos, um ou outro até célebre. Usando as "redes" para propagar o seu percurso, propagandear o seu trabalho - em particular como "rapper", esse forma musical menor, qual literatura "lite".

Há pouco tempo reagi à disparatada forma como um intelectual português, João Pedro George, investiu sobre uma ... jovem escritora, Madalena Sá Fernandes. Acusando-a de se valorizar através da visibilidade nas "redes sociais": "A "lisboa" Literária". Ora neste caso é exactamente a mesma coisa. Alguns, idólatras das "letras", virão dizer que "literatura" e "música popular" são diferentes, que a análise "sociológica" das formas de afirmação dos seus agentes cumprem um diferente "dever-ser". Poderão argumentar como quiserem: mas eu sempre ripostarei desta forma, lembrando esta cena da tão simpática série "The Byrds of Paradise" (de 1994), na qual o Arlo Guthrie remetia as origens do rap para o Dylan - sim, esse mesmo que depois ganhou o Nobel ... da Literatura.

Ou seja, os conteúdos e as formas, a vacuidade da "liberdade criativa", do contestatário "lite" da demagogia, de uma jovem "africana" (é assim que Cruzeiro se define, no seu militante racialismo), passa incólume à "crítica", contrariamente ao afã sanguinolento que se abate sobre uma jovem "branca", sua congénere. Isto é apenas efeito dos espartilhos ideológicos da tralha "decolonial", abundante em Lisboa.

Uma das figuras icónicas do nosso tempo

Pedro Correia, 03.04.25

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Sugestivo cumprimento de Giorgia Meloni a Zelenski há dias, na cimeira de Paris

 

A Ucrânia é um país agora dotado do segundo maior exército da Europa e uma vontade inquebrantável de se manter como nação soberana. Nem colónia americana, como deseja com avidez Donald Trump, nem protectorado da Federação Russa, como anseia o ditador de Moscovo.

Volodímir Zelenski surge em contraste absoluto com o grotesco Lukachenko, lacaio do Kremlin. Está hoje para Putin como o "frágil e vulnerável" Ho Chi Minh esteve para a administração Johnson da toda-poderosa América do Norte. Só para se concretizar o acordo de paz no Vietname decorreram cinco anos. E os Estados Unidos, depois disso, saíram de lá humilhados.

Mas Zelenski não se destaca apenas pela capacidade de resistência: é também um amante da liberdade. Daí ser pouco adequado compará-lo ao fundador do Vietname pós-colonial, que ali impôs uma tirania comunista. A maior semelhança é com Winston Churchill, que chegou a ser o homem mais solitário da Europa quando em 1940 ficou isolado na luta contra a besta nazi - hoje encarnada no agressor russo da Ucrânia.

Não há engano quando o vemos de cabeça levantada: é a grande figura icónica desta geração. O David de Kiev que enfrentou o Golias de Moscovo no próprio dia da invasão, esse trágico 24 de Fevereiro de 2022, ao declarar, enquanto os blindados do Estado agressor se aproximavam da capital violentada pela maior potência nuclear do planeta: «Quando nos atacarem, verão os nossos rostos, não as nossas costas.»

E assim foi.

Garantiu lugar nos futuros manuais de História desde esse instante em que ergueu o ânimo dos compatriotas, pronto a travar a marcha dos esbirros putinistas. Estatuto reforçado dois dias depois, com outra frase de pendor churchilliano, ao recusar sem rodeios o refúgio que Joe Biden lhe garantia no Ocidente: «Preciso de munições, não de boleia.»

Honrou a promessa: três anos depois, inabalável, permanece no posto de comando. Sem dobrar a cerviz. É um orgulho sermos contemporâneos dele.

Sempre com Moscovo, nunca com Kiev

Pedro Correia, 20.03.25

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A bancada do PCP rompeu ontem uma praxe parlamentar recusando aplaudir uma delegação de deputados da Ucrânia em visita a Lisboa, acompanhada da embaixadora de Kiev no nosso país, Maryna Mykhailenko. Enquanto os representantes dos restantes partidos se levantaram para o habitual gesto de cortesia aos visitantes na galeria dos convidados da Assembleia da República, Alfredo Maia, António Filipe e Paula Santos permaneceram nos seus lugares, indiferentes à presença daqueles deputados, todos membros do Grupo de Amizade Portugal-Ucrânia.

Atitude miserável, mas nada surpreendente.

A 24 de Fevereiro, o PCP esteve igualmente isolado ao recusar participar num minuto de silêncio no hemiciclo em memória das vítimas da guerra, no terceiro aniversário da invasão da Ucrânia pelas forças bélicas da Federação Russa.

A 28 de Fevereiro, rejeitou associar-se a um voto de solidariedade com o povo ucraniano apresentado na sala de sessões do parlamento pelo próprio presidente deste órgão. O documento redigido por Aguiar-Branco exprimia «o compromisso de Portugal para com a construção de uma paz justa, que preserve a ordem internacional baseada em regras, proteja a soberania e a integridade territorial dos Estados e assegure o respeito pelos direitos humanos, pela liberdade e pela democracia».

No final da votação, todos os deputados aplaudiram de pé. Todos? Todos não: os comunistas permaneceram sentados. Solidários com Moscovo, jamais com Kiev.

Comportam-se como vassalos de Putin, comungando da devoção beata de Álvaro Cunhal pela Rússia, que o histórico dirigente comunista venerava como «o sol da Terra».

 

P. S. - Alguns membros do PCP, nas redes sociais, acusam Zelenski de «ter ilegalizado» o PC ucraniano. Aldrabice, que o Polígrafo já desmascarou.

 

Leitura complementar: A "linguagem de rua" no blog

A "linguagem de rua" no blog

jpt, 19.03.25

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Há uns dias o Pedro Correia deixou aqui um postal referindo que uma simpática leitora do DO lhe confidenciara o seu desagrado pela utilização de palavrões neste blog. Acontece que por vezes eu me liberto da tenaz que a minha irmã e a minha filha constituem e deixo correr a "linguagem de rua" - serei o único a pecar entre os prezados (e educadíssimos) co-bloguistas, talvez haja algum comentador (mais ou menos anónimo) que me acompanhe nesse rumo de franqueza popular, assim também maculando o belo blog.

Ainda que ateu, penitencio-me por esses erros, advindos de graves falhas de personalidade. Pois quando vejo coisas como estas, isto dos deputados do PCP António Filipe, Paula Santos e Alfredo Maia (este último um tipo que foi durante uma década presidente do Sindicato de Jornalistas, o que imenso diz da "classe") não só recusando acolher com aplausos os visitantes parlamentares ucranianos mas, mais do que isso, dando-lhes as costas - não se trata apenas de uma recusa simbólica de aplauso, uma posição política, é mais do que isso - ocorrem-me alguns termos desagradáveis às simpáticas leitoras do DO.

E ocorrem-me outras coisas, neste perigoso registo de associação de ideias: um presidente da república estrangeiro, o ucraniano, é convidado a discursar na Assembleia da República. E um funcionário parlamentar deixa-se em dislates públicos apoucando o convidado e a situação. E nisso afrontando o órgão de soberania no qual trabalha. "O que é isto, então agora o pessoal menor tem estas atitudes?" dirá, curialmente, qualquer simpática leitora do DO. Eu, desse António Filipe, disse e digo outras coisas... E lembro-me do escritor comunista Mário Carvalho ("ai que belo escritor", dirão logo as educadas leitoras do DO) a clamar que os tipos das redes sociais (eu e outros) que associavam o PCP a posições pró-russas eram pagos para isso. E a filha dele, também escritora, choramingando junto ao Boaventura, ao Soromenho Marques e outros que tais, que eram "perseguidos", "censurados" e até "criminalizados" por serem inteligentes, iluminados e, nisso, ditos algo russófilos.  Ou seja, o Mário Carvalho pode dizer que eu sou uma puta, perdão, prostituta, e alguns outros também. Mas é a linguagem de rua que ofende, não o putinismo abjecto desta gente. E portanto eu não direi palavrões, não digo o que penso desse António Filipe, dessa Paula Santos, mais desse outro qualquer. E do Mário Carvalho e da sua velha pirralha. Para não ofender as senhoras...

Como também não digo o que penso dos democratas-cristãos, esses do zombie CDS, que muito apreciam Putin porque sabe distinguir homens de mulheres. Porque, como se sabe, os gajos do CDS são muito avessos a essas coisas da homossexualidade. Estes "gajos" (enfim, autocensuro-me assim...) não têm vergonha na cara.

Pois o problema, real, é o da "linguagem de rua". Não este lixo humano.

Trumpofobia e trumpofilia*

José Meireles Graça, 05.03.25

De Marcelo diz-se que é muito inteligente, culto, habilidoso e querido do povo que lisonjeia, ao qual passa a mão pelo lombo patrioteiro e amante de musiquetas e telenovelas. Tudo verdade. E todavia, com excepção de jornalistas que vivem das rodilhices da política, e dos políticos que são obrigados a tomar em linha de conta o que Sua Excelência diz, ninguém de consequência o leva a sério porque dali não vem nem nunca veio um pensamento com alguma profundidade, uma ideia com alguma originalidade e um desígnio que não seja a vulgata do europeísmo e das ideias que andam no ar da moda do extremo-centro.

De Trump diz-se que é um grosseirão, ignorante e bronco, com educação de carroceiro, gostos de empreiteiro e deslumbramento de pato-bravo. Tudo verdade.

O primeiro não fez nem uma ruga no lago da história do país democrático, e ainda menos no mar da história tout court. O segundo agita as águas do mundo, pôs a Europa em convulsão, quer pôr Israel a dar um já chega! no terrorismo palestiniano, acabar prestes com a guerra da Ucrânia, fazer as reformas do Estado que a direita impotente, que é quase toda, anda há décadas a dizer que vai fazer, e mandar para os cafundós da irrelevância a cultura woke, substituindo-a pelo senso e a tradição, e com tudo isso restaurar a grandeza dos EUA, que acha, e está, em risco.

Um abismo separa os dois homens, tanto neles próprios quanto na importância relativa dos respectivos países, quanto nas circunstâncias. De comum têm apenas o terem sido limpamente eleitos.

Quer dizer que o eleitorado português é lúcido porque elege um intelectual capaz de fazer nada e o americano estúpido porque elege um bully aldrabão com vontade de fazer muito?

Não. Foram ambos eleitos porque respondem a necessidades do eleitorado. E o que isto significa é que o que eles são interessa pouco e o que eles defendem muito.

Donde, deixem lá em sossego o perfil intelectual e psicológico de Trump, isso pode alimentar-nos a repulsa apenas na medida em que nos limita a compreensão.

Para o compreender comecemos por um ponto: Por que razão uma faixa de pessoas na Europa, incluindo entre nós, aprecia o que está a fazer? Um amigo meu da variedade ide-vos catar mais o que pensais fez um resumo indicativo (que se refere também à guerra da Ucrânia, já lá vou), em tom chocarreiro e que, porque o conheço bem, sei que não é para interpretar literalmente, mas suficiente para se perceber a tónica:

“A guerra que me interessa é cultural. É essa guerra que combato, literalmente, diariamente na universidade. Nessa guerra cultural, o Putin é meu aliado, o Trump é meu aliado, o Vance é meu aliado, o Órban é meu aliado… a Europa é minha inimiga. Sou, sem reservas, pró-Putin… entre ele e a comissão europeia, prefiro o Putin; entre o Guterres e o Putin, prefiro o Putin; entre o Starmer e o Putin, prefiro o Putin; entre o Sanchéz e o Putin, prefiro o Putin. Mas respeito quem não goste do Putin. Não vejo é qual é o problema do Putin quando comparado com gente que não distingue um homem de uma mulher. Não vejo mesmo…”

Esta lista podia incluir cancelamentos, educações para a cidadania, imigrações desregradas e um sem-número daquelas coisas que a direita boazinha, porque tolera, sufraga, e que constituem o corpus do que se chama cultura woke, que é a designação inventada para o esquerdismo insidioso. E como vivemos em sociedades democráticas, tenham lá paciência (e contenção para não cancelarem o resultado de eleições, como na Roménia, ou fecharem a matraca a desalinhados, como se planeia para as redes) se houver um número crescente de eleitores “extremistas”.

Este caldo alimenta a desconfiança sobre a razoabilidade da continuação de uma guerra sem fim à vista, que prossegue sob pretexto de Putin ser um demónio, Zelensky um santo e Trump um valentão ridículo.

Já eu acho Putin um czar agressivo e expansionista, Zelensky um herói não necessariamente ornado de qualidades de senso e Trump um epígono da América isolacionista.

Que Trump é um isolacionista, porém, não é uma opinião, é um facto. Que, na sequência disso, não está disposto a bancar o pato da NATO também parece evidente, e é aliás uma inclinação que já vem de anteriores presidentes. E que quer acabar com a guerra da Ucrânia e o seu sorvedouro de dinheiro resultou evidente da famosa conferência na Sala Oval, glosada em mil artigos indignados com a humilhação de Zelensky e a grosseria dos anfitriões.

Também fiquei indignado. Excepto pelo facto de que numa guerra onde todos os dias morrem e se estropiam soldados, e se destroem bens e infraestruturas, a indignação de quem não está disposto a mandar os seus filhos para lá, e não tem ainda consciência do que lhe sai do bolso para a alimentar, não ser a melhor conselheira.

De modo que peço desculpa por não dar nada para o peditório da guerra de trincheiras de paleio e reservar a minha opinião para quando souber:

Qual é exactamente o plano da administração Trump? Porque um acordo de paz implica concessões de ambos os lados, mas se o agressor retirar um benefício líquido demasiado importante pode isso ser o choco de guerras futuras – na Polónia, nos países bálticos, na Escandinávia, até mesmo em Taiwan se o isolacionismo americano der sinais de valer tudo na construção multipolar de esferas de influência.

As garantias de defesa são o quê? Investimentos americanos significativos na Ucrânia, por si, são um óptimo dissuasor, mas provavelmente insuficiente. Porém, a ideia de que é a UE que pode decidir que garantias os americanos devem prestar é uma boa receita, com Trump, para não se chegar a lado algum.

O plano dos países europeus da NATO de reforçarem as suas despesas militares é um bom plano, quer a NATO se desfaça quer não – si vis pacem para bellum e toda essa espécie de coisas.

Finalmente, o esbracejar de Starmer e Macron, com posições centrais porque representam países com a bomba, é por si compreensível mas suscita alguma estranheza porque ambos protestam ter boas relações com Trump. O que permite supor que talvez isso não seja apenas (boa) política, mas antes um acordo debaixo da mesa para nas negociações com Putin Trump ficar com o papel do polícia bom e os outros com o de polícia mau.

Não sei, realmente não sei, e duvido que entre os meus amigos putinistas de circunstância que querem acabar com a guerra dê lá por onde der; e os europeístas frenéticos que são completamente a favor de que continuem a morrer ucranianos: alguém saiba.

Quando tudo clarear também vou para as trincheiras da treta, de canhangulo.

* Publicado no Observador

Slava Ukraini!

jpt, 04.03.25

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(Esta vinheta tem o mais belo Corto, exactamente após o fuzilamento do oficial alemão Slutter. "Slava Ukraini" jamais teria dito o Corto. Mas decerto que teria andado por aquelas paragens, a levar armas, informações, a socorrer alguém - presumivelmente uma bela e complexa ucraniana. E estaria agora com este olhar - escondido do sempre insuportável Rasputine, esse meu alter ego).
 
Quando começou a "operação militar da Rússia" na Ucrânia bloguei imenso sobre o assunto. Alguns textos reactivos - furioso com os dislates lusos que ia lendo (e que António Araújo coligiu). Outros "pedagógicos" ("presunção e água benta..."), querendo avisar os interlocutores como poderiam entender o real e presumir o futuro. ("Devias ser comentador", dizem-me alguns amigos mais próximos, solidários com o meu desarrumo. No que sempre concordo, o meu sonho, utopia mesmo, de sexagenário é ser comentador futebolístico. O "novo Ventura", até me imagino).
 
Na madrugada - após saber da cessação do apoio americano à Ucrânia - reli o que escrevi há três anos, entre Fevereiro e Abril. Faço uma súmula, que é também forma de lembrar o que se retira disto. E faço-o em registo assumidamente auto-elogioso:
 
1. Em termos globais propus a leitura de dois livros que explicavam, por antevisão, este processo. Ao invés dos que mergulhavam na bibliografia da "ciência política" e similares (Kissinger et al) recomendei "O Americano Tranquilo", de Graham Greene, que anunciou (nos anos 1950) o conteúdo das relações dos europeus com os EUA. E o "O Último Adeus" de Balzac, uma espantosa evocação da batalha de Berezina. Nesses dois pequenos livros estava tudo anunciado.
 
Poucos dias depois da invasão os russos estavam à porta de Kiev. Putin, implacável ditador imperialista que quer refazer Yalta - por anexação e por tutela -, discursou aos ucranianos, invectivando os seus dirigentes como "drogados" (mote que foi perdendo peso) e "nazis" (mote que se mantém para os cães-de-fila das ditaduras cleptocráticas e para alguns "idiotas (de facto in)úteis" que se julgam de "esquerda"). E apelou a que os ucranianos se sublevassem e aderissem às forças russas, como se estas "libertadoras" - ideia assente na negação de uma nação ucraniana, que é o que subjaz o regime russo neste caso. Foi o que se viu, três anos de incontáveis sacrifícios ... russos para este passo, que julgavam fácil, na tal (re)"Yaltização". Para compreender este processo será aconselhável ler o (não muito recente) ensaio biográfico de Plutarco, dedicado a Pirro.
 
3. Para a tal "salvaguarda do que for possível", há dias a Ucrânia viu-se enxovalhada, "desmontada" até, em Washington. À (extrema-)direita e à (extrema-)esquerda alguns rejubilam e outros sorriem diante do que dirão "o auto-golo à Zelensky" - como há três anos bolçou o execrável comunista António Filipe.
 
E nesse mesmo registo alguns textos disso celebratórios são patéticos - acabo de ver partilhado no Facebook um particularmente disparatado, de militar comunista, esbracejando uma espécie de "sociobiologia", com pateta metáfora recorrendo à etologia, sob a simplória tese de que Zelensky é um estúpido incompetente e Trump um "animal territorial". A ideia, simples (mas não simplória) , de que uma pressão para que um aliado ceda se faz intra-muros e não "alive", para "boa televisão", não é agora acolhida. Por comunistas e por fascistas...
 
4. Desde há muito que as gentes comunistas (os da III e os da IV Internacional) usam o marxismo economicista, básico, para "explicarem" os EUA. Que estes se reduzem à influência do "completo industrial-militar". Está visto que terão de calibrar a tese...
 
5. Após o início da guerra - e mesmo não tendo fontes especiais de informação - deixei algumas notas relevantes: as associações russas de antropólogos e de arquitectos e urbanistas pronuciaram-se contra a invasão, tal como Kasparov. O PC de Espanha também. Uma plêiade de intelectuais magrebinos - comunistas ou marxistas - também. Em Portugal o PCP foi russófilo - a direcção e os poucos intelectuais que ainda ali militam. E recebeu criticas por isso. É interessante ver o que se passa: se o PCP, por óbvias razões históricas, passara incólume a Budapeste de 56 e a Praga de 68, tal como ao Afeganistão de 1979, sofreu forte em 1989, mas foi resistindo, decaindo mas paulatinamente. Até este vergonhoso disparate de 2022: pois é evidente que já ninguém quer saber o que têm a dizer.
 
Muito parecido com o que acontece com os comunistas da IV, o BE. No início da crise russofiliaram-se - Mortágua, então ainda comentadora em "part-time" (não declarado, como tal ilegal) atreveu-se a usar o argumento hitleriano para justificar o imperialismo de Putin. Depois titubearam, diante das botas no terreno (mas ainda assim há sempre um "bloquista" a relativizar as coisas, a falar em "nazis" ucranianos ou a pluralizar os "imperialismos"). Tudo lhes teve evidentes custos reputacionais - para presumível gáudio do Prof. Tavares ali ao LIVRE.
 
6. Desde logo eu (e tantos outros) me espantei e enojei com a desbragada putinofilia - até vituperando o patriotismo ucraniano - de alguns generais comentadores televisivos - um até exultava com a "libertação de Mariupol", tanto lhe agrada Putin. Ditos "especialistas em assuntos militares" (caramba, são generais, seriam especialistas de quê?). Para quem ache que são "especialistas", comentadores avisados e assim neutrais, deixo um exemplo, o do general Costa - um avençado por instruções dos (ex?-)jornalistas Nuno Santos e Santos Guerreiro. Enquanto trata todos os interlocutores por títulos académicos (o sacrossanto "Chô Doutor/a") gozou a cena da Sala Oval, referindo "Vance", "Trump" e "o Zelensky", assim denotando o desprezo pelo "mimado" ucraniano, como o disse. Tal como referiu o "Senhor Macron" - em evidente glosa do célebre e justificadamente sarcástico "Senhor Hitler" de Fernando Pessa. Terminando, o escroque fascista, a tratar os líderes eleitos da democrática União Europeia por "cavalheiros" e - imagine-se - "madames", como se estas fossem epígonas da Maria Machadão de Jorge Amado. Há 3 anos que Nuno Santos e Santos Guerreiro agridem o país com este lixo moral. Pois são isto.
 
7. Um conjunto de intelectuais comunistas - Boaventura Sousa Santos, Soromenho Marques, a escritora Ana Margarida Carvalho, Isabel do Carmo, etc. - logo surgiram a dizerem-se "censurados", "perseguidos" e até (!) "criminalizados" devido às suas (esclarecidas, reclamavam) posições anti-ucranianas. Três anos depois - e independentemente dos tétricos problemas do ex(?)-enverhoxista Sousa Santos - será conveniente aquilatar da pertinência dessa auto-vitimização: qual deles foi perseguido, censurado? Processado? Despedido? Julgado, multado ou aprisionado? Para nos lembrarmos disso, da próxima vez que esses inimigos da democracia venham com a mesma ladainha.
 
Slava Ukraini! Com todos os defeitos que aquela gente e o seu poder possam ter!