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O novo ópio do povo

por Pedro Correia, em 28.08.19

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A TVI, no seu canal informativo, prometia ontem conceder destaque a Assunção Cristas, entrevistada por um jornalista da casa e alguns especialistas em diversas áreas incluídos entre os participantes nesta emissão, transmitida em directo. Sob o título genérico «Tenho uma pergunta para si» (o abuso do redundante pronome "si", que me soa sempre a nota de música, reflecte o empobrecimento da nossa linguagem comunicacional).

Tentei fixar a atenção nesta entrevista, mas desisti a meio. Porque me pareceu desde o início que se destinava apenas a despachar agenda e aliviar um fardo. Decorria tudo num tom tão impaciente, como se houvesse urgência máxima em retirar a presidente do CDS do ar, que obrigou uns e outros a falar em ritmo anormalmente acelerado.

Assunção, pressionada pelo ponteiro dos segundos, parecia uma picareta falante, para usar a expressão que Vasco Pulido Valente colou noutros tempos a António Guterres. Os interrogadores de turno, quando demoravam um pouco mais a formular a pergunta, eram de imediato interrompidos pelo profissional da casa. O próprio Pedro Pinto, ao comando desta emissão tão frenética, parecia mais confinado à função de cronometrista do que de jornalista.

E afinal tanta pressa para quê? Para que o mesmo canal informativo da TVI desse lugar a três cavalheiros de calças de ganga a discorrer tranquilamente sobre os mais recentes rumores do chamado "mercado de transferências" da bola. Preopinavam em modo pausado, de perna traçada, como se estivessem no café e tivessem todo o tempo do mundo para perorarem sobre coisa nenhuma.

Foi a minha vez de recorrer ao cronómetro: cavaquearam das 22.36 às 23.57. Um dos membros deste trio já estivera em antena durante a tarde, entre as 17.58 e as 18.48, tagarelando sobre o mesmíssimo assunto.

Estranho critério jornalístico, estranho critério informativo - cada vez mais monotemático. Como se nada mais houvesse de relevante do que as tricas do futebol.

Alguém aí falou em ópio do povo? Se o fez, acertou em cheio.

«Essa»

por Pedro Correia, em 09.07.19

 

«Essa».

Foi nestes elegantíssimos termos que Rui Rio se referiu ontem à ex-ministra da Justiça e ex-dirigente social-democrata Paula Teixeira da Cruz, respondendo a uma pergunta de Miguel Sousa Tavares no Jornal das 8 da TVI.

Para não haver dúvidas, transcrevo a frase na íntegra: «Acho que essa até disse "tirano", salvo erro, ahahah...»

Há pormenores que definem uma pessoa. Às vezes basta uma palavra. Um simples pronome demonstrativo, como é o caso. Rio definiu-se nesta palavra com que brindou em directo, num dos principais telediários portugueses, uma senhora - sua companheira de partido.

Como se estivesse lá em casa. Ou no café.

 

É este um líder da oposição?

por Pedro Correia, em 09.07.19

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1. Elogios ao Governo (do PS):

«O produto interno bruto cresceu, nestes quatro anos, cerca de 30 mil milhões.»

«Têm sido criados empregos.»

«As taxas de crescimento que nós temos não são muito diferentes das do PS: são um pouquinho acima.»

 

2. Críticas ao Governo (do PSD/CDS):

«No tempo da tróica, o que é que se fez? Cortes nos salários, cortes nas pensões, cortes na despesa. Porque, ao mesmo tempo, já se estava a aumentar os impostos.»

«Inventaram-se os vistos gold, que eram uma espécie de exportação de casas, sendo que a mercadoria fica cá e não é exportada...»

 

3. Dúvidas existenciais:

«Eu estou em Lisboa pelo menos três dias por semana. E não quer dizer que nos outros dias esteja no Porto.»

«Podem duvidar se eu sou capaz, se o PSD é capaz. Isso, podem duvidar.»

«O apego pessoal que eu tenho ao lugar [de presidente do PSD] não é nenhum.»

 

Rui Rio, ontem à noite, em entrevista ao principal telediário da TVI conduzida por Miguel Sousa Tavares e Pedro Pinto

Insuflado de indignação

por Pedro Correia, em 27.06.19

Ouvi ontem as críticas ao Governo feitas por Pacheco Pereira naquela amena tertúlia política de nome impronunciável que passa na TVI 24, enquanto aguardava pelo programa sobre putativas transferências de jogadores de futebol, no mesmo canal. Tendo sintonizado aquilo a meio da emissão, estranhei o desassombrado diagnóstico do mais ilustre habitante da Marmeleira ao dissecar estes quase quatro anos de governação marcados por duras cativações impostas aos portugueses pelo presidente do Eurogrupo e pela mais pesada carga fiscal de que há memória neste flanco ocidental da Europa.

O Governo, anotou Pacheco insuflado de indignação, «fechou diversos serviços públicos, ajudou a desertificar o interior, fechou tribunais, fechou centros de saúde, fechou acessibilidades». Pior: «Aumentou brutalmente os impostos, portanto empobreceu muito significativamente a classe média e quebrou o chamado elevador social.»

De súbito, senti-me regressado a 2015: era afinal uma anacrónica vergastada não ao Executivo em funções, mas ao que o precedeu. Tudo normal, portanto. Com Pacheco, podem António Costa e Mário Centeno dormir um sono sorridente e descansado: o ex-marxista-leninista e ex-liberal continuará na primeira linha do combate - não a este Governo, mas ao anterior. Enclausurado na cápsula do tempo, redobra de vigor nas críticas à medida que a distância cronológica aumenta. Implacável como nunca, contundente como sempre. 

Europeias (4)

por Pedro Correia, em 09.05.19

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A PEIXEIRADA

 

Monumental peixeirada, ontem, na TVI 24. Aquilo que prometia ser um debate vivo mas cordato descambou numa gritaria em modo taberneiro, daquelas que nem no futebol. Com prejuízo para todos os participantes e sobretudo para os telespectadores: vários candidatos falavam por cima uns dos outros, em tom cada vez mais elevado, tentando silenciar a mensagem do oponente, perante a total impotência do moderador, José Alberto Carvalho, claramente sem pedalada nem ganas para pôr fim à barafunda. «Quem é que paga a multa?», chegou a questionar-se o jornalista ao perceber que lhe fugia a capacidade de cronometrar o tempo de intervenções no debate. «O que é que eu faço? Ponho-me à frente das pessoas?», desabafou em forma interrogativa, um pouco mais à frente. Percebendo que aquilo já descarrilara de vez, também por sua culpa.

A coisa foi de tal maneira que desisti de recolher as frases mais significativas desta sessão de pugilato verbal. Ninguém percebeu, ninguém ficou esclarecido, certamente muita gente mudou de canal antes do fim. Debates como este só contribuem para avolumar a abstenção - que nas anteriores eleições europeias, em 2014, abrangeu dois terços dos eleitores.

Valha a verdade que o dedo acusador não pode ser apontado a todos os participantes. As mais lamentáveis prestações couberam (por esta ordem) a Nuno Melo, do CDS, Pedro Marques, do PS, e Paulo Rangel, do PSD. Com prejuízo de todos, incluindo de Marisa Matias, do BE - única mulher presente em estúdio, única que não interrompeu ninguém e chegou quase a implorar para conseguir dizer duas frases seguidas de forma audível.

Verdadeiramente lamentável. Para haver debates destes mais vale não haver nenhum.

O equívoco Mário Machado

por João Pedro Pimenta, em 15.01.19

 

A famigerada entrevista de Mário Machado por Manuel Luís Goucha (isto dito assim seria digno de um jornal satírico), além de levantar celeuma pela qualidade do entrevistado, dividiu um pouco as hostes da micropolítica. Parece que pelo facto de alguma esquerda bramir contra a entrevista, alguma direita pespega com exemplos aparentemente equivalentes que tiveram honras de entrevistados ou até de colunistas, como Camilo Mortágua, Isabel do Carmo ou Otelo Saraiva de Carvalho. Nuno Melo, cabeça de lista pelo CDS às europeias, por exemplo, é um dos que caem nessa armadilha, mais digna de conversas de rede social. É que tirando talvez Otelo, pela sua ligação às tenebrosas FP-25, é difícil equiparar Machado a qualquer um dos outros, e muito menos a Mariana Mortágua, que surge à baila. O equivalente directo seriam as redes bombistas dos anos setenta, também com crimes nas mãos, como o da morte do Padre Max (já depois do 25 de Novembro), cujos autores nunca foram punidos nem sequer condenados. Um dos prováveis autores morais, aliás, teve um elogio póstumo do mesmo Nuno Melo, o que talvez ajude a explicar o esquecimento.

A ver se nos entendemos: Mário Machado não é um político, nem representante de um sector político, tirando uma dúzia de neonazis. É um delinquente e um psicopata, preso por associação a grupos de criminosos e assassinos, posse de arma, ameaças, etc. Ultimamente tem arquitectado planos para dirigir a Juve Leo, depois da bela operação criminosa que as cúpulas da claque sportinguista protagonizaram, e de uma facção de motards, Los Bandidos, não exactamente conhecidos por actos de beneficência. Talvez a indignação de alguma esquerda por lhe darem a palavra, desde que não lance mensagens de ódio, seja contraproducente e oportunista. Mas a defesa, ou pelo menos a ausência de crítica de alguma direita, fazendo equiparações abusivas, dá a impressão de que tolera Machado, ou que não se incomoda grandemente com ele, passando a ideia de que ele é o radical do "seu lado". Dar importância política a quem tem somente importância criminal, eis o profundo erro dos que recordam eventuais equivalências do outro espectro.

Mas há ainda outra aspecto esta história toda que me deixa espantado: é a pergunta "acha que faz falta um novo Salazar", e sobretudo que Mário Machado ache que sim, É que com o currículo de desordeiro que tem, o mais provável é que no tempo de Salazar ele fosse posto na masmorra ainda mais anos.

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Vi ontem à noite, na rubrica "Repórter TVI", da TVI, uma excelente reportagem assinada pela jornalista Ana Leal sobre incêndios florestais onde, entre outras coisas, se fala do negócio ruinoso dos Kamov, os seis helicópteros russos que foram comprados em 2006 pelo Estado português, e dos objectos incendiários que caem do céu.

Toda a visibilidade que se possa dar a este trabalho de investigação é pouca. Porque é importante fundamentarmos as nossas opiniões em factos e ainda mais importante que os factos que fundamentam as nossas opiniões não sejam esquecidos. Inscrevê-los na memória colectiva é um acto de cidadania. 

O jornalismo perdeu por goleada

por Pedro Correia, em 16.09.17

Será talvez pleonástico, mas a RTP cumpriu a sua obrigação de serviço público, sem aspas. Anteontem à noite, ao juntar no mesmo estúdio os 12 candidatos à presidência da Câmara de Lisboa, num debate bem moderado por António José Teixeira. Oportunidade para ouvirmos alguns dos que actuam no chamado "campeonato dos pequenos", com aspas. Só assim denominado porque outros canais televisivos, como a  SIC e a TVI, decidiram apostar apenas nos mesmos - os do costume, os de sempre.

Critério jornalístico, dizem. Se a pauta que aplicam aos candidatos fosse aplicada pelos espectadores às televisões, nunca ambas, TVI e SIC, teriam destronado o canal público.

 

À mesma hora em que os doze de Lisboa debatiam na RTP, a TVI dava um exemplo inverso, de mau jornalismo, ao reunir num debate cinco dos sete candidatos à câmara de Loures (e porquê Loures e não Odivelas, ou Sintra, ou Matosinhos, ou Almada, ou Gaia, ou Barreiro?) apenas para dar palco ao estridente e histriónico candidato do PSD. Que foi o primeiro a falar, por amável deferência da imoderadora Judite Sousa, e também o único que falou o tempo todo, monopolizando a sessão. Tudo menos um debate, afinal.

Vendo bem, o que estava ali em jogo era uma tentativa quase desesperada da TVI de roubar por 90 minutos - o tempo que dura, em regra, um desafio de futebol - um protagonista habitual da sua concorrente CMTV, que já a ultrapassou em audiência nos canais por cabo. O cabeça de proa do PSD, travestido de Tea Party em Loures, teve o seu momentinho de glória perante a benevolente Judite e o ar acabrunhado dos figurantes neste pseudo-debate onde o melhor da política, que todos dizem ser a que se desenrola no plano autárquico, deu lugar ao pior do futebol.

 

Levado ao colo pela jornalista incapaz de arbitrar, o tipo que só quer aparecer e diz tudo o que possa dar-lhe audiência no campeonato dos cromos televisivos - incluindo injuriar sportinguistas, destratar ciganos e mandar às malvas o Código Penal - ganhou por goleada. Derrotando não os rivais que com ele surgirão nos boletins de voto mas o jornalismo sem aspas, que ainda enaltece a isenção e o pluralismo como imperativos éticos e virtudes cívicas.

As autárquicas só serviram de pretexto.

Altice no país das maravilhas.

por Luís Menezes Leitão, em 16.07.17

Confesso que a preguiça me tem impedido de fazer o que qualquer consumidor responsável deveria estar sempre a fazer: comparar os preços e os serviços dos diversos operadores de telecomunicações. Não estou por isso em condições de avaliar qual é o melhor operador do mercado. Mas, depois de ter visto António Costa a fazer propaganda no parlamento contra a Altice, cheguei à conclusão de que esta deve merecer claramente a preferência dos consumidores. Isto porque vai cumprir o serviço patriótico de comprar a TVI, para assegurar uma verdadeira televisão independente, que não faça fretes ao PS, como é a escandalosa oferta de poiso semanal a Medina, num óbvio favorecimento da sua campanha eleitoral. Não admira, por isso, que António Costa esteja tão preocupado com esta operação e até queira prorrogar o mandato da ERC, que tem que aprovar a aquisição. Na verdade, nada melhor que seja a mesma ERC, que tem fechado os olhos a todos estes fretes, que venha analisar este negócio, se necessário com o mandato prorrogado. Neste ponto Passos Coelho está cheio de razão. O Portugal da geringonça tornou-se um país terceiro-mundista, a fazer lembrar a Venezuela de Maduro que, não por acaso, até é objecto de manifestações de solidariedade com a presença da banda do exército. A Altice vai cair na toca do coelho e entrar no país das maravilhas. Vamos ver se a Rainha de Copas lhe consegue cortar a cabeça.

Blogue da semana

por Pedro Correia, em 31.10.16

O blogue da semana, desta vez, é o blogue do ano: Por Falar Noutra Coisa, que acaba de merecer este título por escolha da TVI. Um blogue cuja leitura eu já tinha recentemente recomendado por justificar leitura atenta. O seu autor, Guilherme Duarte, tem sentido de humor e não assassina as chamadas "consoantes mudas". Em pouco tempo, tornou-se um caso raro de popularidade, que até já deu livro. Está de parabéns.

Aproveito para esclarecer alguns leitores que me interrogaram sobre a ausência do DELITO DE OPINIÃO na escolha dos blogues do ano, inicialmente sujeita a votação nas redes sociais e depois deixada ao critério de um júri nomeado pela TVI-Media Capital.

Acontece que o regulamento forçava os autores a apresentarem-se a concurso nas diversas áreas temáticas. Na componente cultural não seria possível inscrever o DELITO pois não estava sequer contemplada neste concurso (o que é um significativo sinal dos tempos). Na componente política não faria o menor sentido pois a TVI decidiu agrupá-la com "economia e negócios" - tudo à molhada, sem qualquer lógica, e abrindo até espaço a "blogues" que nunca o foram. De tal maneira que acabou por ganhar uma coisa chamada Poupadinhos e com Vales: só o nome já é um tratado de "política" - o que diz muito sobre a forma como este canal televisivo encara tal fenómeno.

Um critério mais que duvidoso, alvo de pertinentes críticas. Por exemplo, aqui e aqui.

Ficámos, portanto, voluntariamente de fora. Acreditamos, hoje como no primeiro dia, que o nosso melhor prémio são os leitores que continuam a visitar-nos e comentar-nos. Concordem ou não com o que aqui se escreve.

Só lá faltou o Barbas

por Pedro Correia, em 09.09.16

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A TVI inaugurou esta semana um novo "formato": a entrevista sem contraditório. Anteontem, no seu canal de notícias, esta estação televisiva teve como convidado especial o presidente do Benfica. Durante uma hora e cinco minutos.

José Alberto Carvalho estava lá, em pé, a assistir com um sorrriso embevecido. Mas a entrevista foi conduzida por três adeptos do clube dos encarnados: Domingos Amaral, Pedro Ribeiro e Diamantino Miranda. Sentados ao lado do presidente da agremiação a que pertencem.

Nenhum deles integra os quadros da TVI, tanto quanto sei. E não faltam jornalistas por lá que bem poderiam exercer aquela função. Mas a direcção editorial optou por este original formato, que levou o ex-jogador encarnado Diamantino a dar o pontapé de saída com estas comoventes palavras: "Luís Filipe Vieira é conhecido, entre os benfiquistas e não só, como um dos presidentes - senão o único - que tem demonstrado um grande respeito pelos actuais jogadores e pelos antigos jogadores. E eu posso prová-lo."

Estava dado o tom à nova modalidade: a entrevista puxa-saco. Aguardo agora com interesse as futuras entrevistas da TVI 24. Quando lá tiver o presidente do Sporting, um painel de adeptos leoninos prontos a questionar Bruno de Carvalho. Quando lá for o líder do PSD, um trio de militantes sociais-democratas. Quando lá for o primeiro-ministro, só correligionários de António Costa.

Paz e sossego, conversa mole, solo de violino, manteiga no pão, mais sorrisos embevecidos: infotainment no seu melhor. Espero que da próxima vez seja também dado tempo de antena ao Barbas: porque não há-de ser ele um dos "entrevistadores" de Vieira? Se for preciso até lhe passam carteira profissional de jornalista.

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 16.12.15

«O show televisivo [entrevista a Sócrates] foi o palco do aviltamento de Joana Marques Vidal e do sistema judicial como um todo. Sócrates, cuja deriva histriónica é inegável, fez-nos regressar à democracia ateniense, quando não havia separação de poderes nem processos formais de investigação. Quando a condenação até do mais justo dos heróis da Antiguidade - o general Aristides (530-468 a.C.) - poderia ser induzida por um demagogo, incendiando uma multidão na ágora. Partindo bilhas, e usando os cacos como boletins de voto, no sinistro processo de ostracismo. Um péssimo serviço à democracia que nenhuma guerra de audiências pode justificar.»

Viriato Soromenho-Marques, no Diário de Notícias

Sócrates, os chouriços e o voto

por Pedro Correia, em 04.10.15

Dez segundos em televisão são preciosos, dizem todos os especialistas. Pois hoje a TVI gastou cinco minutos do seu noticiário das 13 horas - entre as 13.19.45 e as 13.24.33 - com a não-notícia da presença de José Sócrates numa bicha de eleitores num stand de automóveis.

A jornalista, enchendo chouriços em sistema de piloto automático, ia debitando frases que constituíam apelos subliminares (e certamente involuntários) numa certa força política enquanto decorria o processo de votação em todo o País: "Durante a campanha eleitoral, ainda antes de começar a campanha oficial, José Sócrates manifestou apoio a António Costa. Recordo que na véspera do primeiro debate entre António Costa e Pedro Passos Coelho, José Sócrates, por escrito, disse que estava ao lado do PS e ao lado de António Costa pela vitória eleitoral. Depois, no próprio dia do primeiro debate televisivo, e único, entre os dois maiores adversários destas eleições, José Sócrates reuniu um grupo de amigos em casa e depois esses amigos, à porta da casa onde se encontra em prisão domiciliária, deram conta de que estava muito entusiasmado com a prestação de António Costa."

 

Valeu o facto de o Presidente da República votar a essa mesma hora, noutro local, para pôr fim ao arrazoado da não-notícia. Mas Sócrates não esteve muito tempo longe dos focos da TVI: voltaria ao telediário entre as 13.26.14 e as 13.28.02.

Balanço global: quase sete minutos de espaço noticioso em sinal aberto num dia com tantos protagonistas da cena política nacional. É obra.

Vinte oito minutos e sete segundos

por Helena Sacadura Cabral, em 01.02.14



Manuel Forjaz, 50 anos, professor e empresário, foi operado no mesmo dia que o meu filho Miguel. Felizmente, está vivo. É casado com uma mulher de quem gosto muito e que se chama Helena, como eu.

Há mais de cinco anos que combate o “seu cancro”, mas vive como sempre viveu: com paixão e uma força anímica surpreendente, que não deixa ninguém indiferente. Como fez o meu filho. Talvez por isso este vídeo me comove tanto.

A TVI24 estreou, esta quarta-feira «28 minutos e 7 segundos de vida». Um programa semanal com Manuel Forjaz, conduzido por José Alberto Carvalho.

Em cada semana haverá um tema para reflectir e para tirar proveito de cada dia da nossa vida...

Como ele próprio diz, «posso acabar por morrer da doença; mas a doença não matará a minha vida». É isso que verdadeiramente conta. Foi ter percebido isso que me aguentou estes vinte meses sem o Miguel.

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TVI24: isto é serviço público

por Pedro Correia, em 10.01.14

 

 Eusébio travado em falta na jogada mais emocionante do Portugal-Coreia do Norte (1966): ainda não hava cartões vermelhos

 

É o mais célebre jogo de sempre da selecção nacional de futebol -- aquele de que todos falavam mas poucos tinham visto. Até agora. Porque a TVI24, numa verdadeira missão de serviço público, lembrou-se em boa hora de o transmitir na íntegra a pretexto da morte de Eusébio, marcador de quatro dos cinco golos portugueses dessa partida.

Aconteceu na quarta-feira e apesar das imagens serem a preto e branco -- o Portugal-Coreia do Norte realizou-se a 23 de Julho de 1966 -- a emissão resultou num enorme sucesso: o canal de notícias da TVI no cabo obteve o maior número de sempre de espectadores, com 4,8% de audiência média e uma quota de audiência de 9,8%. Quase meio milhão de pessoas acompanhou o desafio no serão de anteontem.

 

Eu fui uma dessas pessoas. E tenho de felicitar a TVI24 pela proeza. Desde logo porque não se limitou a transmitir o mítico jogo dos quartos de final do Campeonato do Mundo de 1966, considerado o melhor desse certame. Teve também a excelente ideia de reunir em estúdio três jogadores dessa selecção, dois dos quais participaram no jogo: o benfiquista José Augusto e os sportinguistas Hilário e José Carlos. Com Fernando Correia -- que já relatava jogos de futebol há 48 anos -- encarregado de recriar um pouco do ambiente daquela época, em que os portugueses acompanhavam os jogos de futebol sobretudo através de relatos radiofónicos pois eram raras as partidas transmitidas pela televisão.

 

Hilário e José Augusto nunca tinham visto na íntegra as imagens daquele desafio em que foram dois dos mais destacados participantes. E portanto os seus comentários ao longo do jogo tornaram-se noutro espectáculo dentro do espectáculo da emissão, muito bem conduzida pelo jornalista Joaquim Sousa Martins.

  

A visão integral do jogo permitiu desfazer alguns mitos, que passarei a enumerar:

- Naquele desafio, por bandas de Portugal, jogaram "Eusébio mais dez". Não é verdade: Eusébio foi excelente, mas vários outros jogadores destacaram-se. Desde logo Simões, incansável no corredor esquerdo. E José Augusto. E Jaime Graça. Sem esquecer Hilário: nenhum dos três golos norte-coreanos ocorreu no lado esquerdo da nossa defesa, onde ele era um baluarte;

- Aquela selecção quase só tinha jogadores do Benfica. Falso. Do Benfica, neste jogo, eram cinco: Eusébio, Coluna, José Augusto, Torres e Simões. Havia três do Sporting (João Morais, Hilário e Alexandre Baptista), dois do Belenenses (José Pereira e Vicente Lucas) e um do Vitória de Setúbal (Jaime Graça);

- Os coreanos dominaram, pelo menos na primeira parte. As imagens não mostram nada disso. Excepto no quarto de hora inicial, quando a pressão ofensiva da equipa adversária foi mais notória, Portugal dominou sempre a partida. Sem nunca se desviar da rota do golo.

- Naquele tempo jogava-se um futebol muito mais lento. Pelo contrário, este jogo desenrolou-se a uma velocidade estonteante, do primeiro ao último minuto. Sem tempos mortos, mesmo quando havia interrupções por faltas. Sem manobras ardilosas dos jogadores para retardarem o tempo de jogo. E numa espécie de antecipação do "futebol total", com frequentes incursões dos avançados em manobras defensivas. Futebol-espectáculo por excelência.

 

Os 11 que jogaram contra a Coreia do Norte: Alexandre Baptista, Jaime Graça, Hilário, Vicente, Morais, José Pereira (em cima), José Augusto, Torres, Eusébio, Coluna e Simões (em baixo)

 

Por uma questão de idade, nunca tinha visto este jogo. Mesmo muitos portugueses que já eram adolescentes ou adultos naquela época não chegaram a assistir ao Portugal-Coreia do Norte porque os televisores não tinham nessa época a difusão que hoje têm.

Está de parabéns a TVI por ter concretizado esta missão de serviço público. Que devia envergonhar a RTP, detentora de um canal Memória que é capaz de passar na íntegra o jogo Cascalheira de Cima-Alguidares de Baixo de há vinte e três anos mas nunca voltou a difundir o Portugal-Coreia do Norte, cujas imagens certamente a televisão do Estado possui em arquivo.

Fica agora um pedido extra aos responsáveis da TVI24: e que tal difundirem agora o Portugal-Brasil, também do Mundial de 1966? Será novo sucesso garantido, tenho a certeza.

Também aqui

Um genocídio mental

por Ana Vidal, em 12.01.13


Uma destas manhãs fui "obrigada" a ver parte do programa da manhã da TVI. No espaço de pouco mais de meia hora registei as seguintes pérolas:
1. Uma florista de bouquets para noivas que se inspira em Confúcio para as suas criações artísticas, explicando: "é um senhor chinês antigo que está agora a vir à tona". Muitas palmas do público.
2. Uma blogger fashionist (ainda estou para perceber o fenómeno, mas o defeito deve ser meu) que se refere às "tendências 2013" em shorts e mini-saias com a gravidade e a reverência com que Vítor Gaspar anuncia outras reduções, bem menos apetitosas. Muitas palmas do público.
3. Um anunciante de produtos naturais de emagrecimento e saúde que oferece como brinde, para compras acima de x euros, "a Bíblia Sagrada, um livro de auto-ajuda". Muitas palmas do público.

Acabar com o serviço público de televisão, por muito insuficiente e criticável que ele seja, é reduzir a esta estupidificação colectiva a oferta televisiva nacional. Ainda tenho esperança - mas eu sou uma optimista, já se vê - de que os responsáveis pelos destinos da RTP2 percebam isto.

Irra! Nem a cultura se safa

por Patrícia Reis, em 09.09.12

A TVI termina com o único programa cultural digno desse nome, o único na grelha actual e anterior. João Paulo Sacadura, além de ser uma pessoa excelente, é um profissional de mão cheia. Por mim, agradeço tudo o que fez, o interesse, a divulgação, o trabalho árduo, a constante vontade de fazer mais e melhor num país onde a cultura é sempre o parente pobre. É muito simples: a cultura é a nossa identidade nacional. Leiam o Mattoso, o Eduardo Lourenço, tudo o que Eduardo Prado Coelho escreveu, o que escreve Maria Alzira Seixo, Helena Vasconcelos e tantos outros ros. Daqui a pouco é a a RTP a terminar com o excelente Ler+, Ler melhor, apresentado pela maravilhosa Teresa Sampaio? Se for, temos o caldo mesmo entornado. Para azedar as coisas o FB pergunta-me se quero adicionar Miguel Relvas como meu amigo. Acham isto normal? Estou deprimida, vou fazer máquinas de roupa e esquecer que a conta vem no final do mês.

 


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