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Jean Daniel e os Velhos do Restelo

por Pedro Correia, em 17.03.11

 

Fascina-me esta tendência de tantos colunistas da imprensa portuguesa de lançarem anátemas sobre as mudanças em curso no mundo. Ainda agora se viu, nestes dias, a propósito das revoltas populares que derrubaram as decrépitas ditaduras da Tunísia e do Egipto: de súbito, descobrimos que em Portugal era imensa a legião de fãs de Mubarak e Ben Ali - a tal ponto foram derramadas lágrimas de pesar pelo fim dessas tiranias nas colunas dos nossos jornais. Profissionais do pessimismo, daqueles que se gabam de em mil novecentos-e-troca-o-passo terem vaticinado que tudo daria para o torto, desataram a garantir que o fim das ditaduras árabes marcará o início de um ciclo de terríveis cavalgadas do islamismo mais fanático, capaz de perturbar o nosso doce modo de vida e de impor à bomba as suas crenças. A democracia é incompatível com o mundo islâmico, asseguram. Esquecendo, muitos deles, que aplaudiram a invasão norte-americana do Iraque em 2002 precisamente em nome dos valores democráticos. Curiosa concepção de democracia, que só vale se for imposta à bala...

Penso nisto enquanto releio no El País uma entrevista com Jean Daniel, ex-director do L’ Express e do Nouvel Observateur, um dos mais prestigiados jornalistas europeus – testemunha privilegiada de tantos acontecimentos históricos, desde a II Guerra Mundial. Aos 90 anos, mantém um olhar de esperança perante a vertiginosa sucessão de factos que são notícia dos telejornais de hoje e têm já garantido um lugar na História. “Maravilha-me ter vivido o suficiente para ver um negro chegar à Casa Branca, ou os tunisinos e os egípcios revoltando-se contra os respectivos ditadores. A importância destas rebeliões não está no que possa suceder, mas no simples facto de terem ocorrido”, sublinha este decano do jornalismo que há muito aprendi a admirar.

Se Jean Daniel fosse português, faria um discurso carregado de nuvens negras e maus presságios: por cá, ninguém consegue congregar tão vasto auditório como os profetas da desgraça. Mesmo quando não têm razão nenhuma, o que aliás sucede quase sempre.

A imparável revolta no mundo árabe

por Pedro Correia, em 25.02.11

«Radical Islamists have long been the Arab world's presumed revolutionaries, but these fights do not belong to them. In a region that had rotted under repression, a young generation has suddenly found its voice. Pushing ahead of their elders, they have become intoxicated with the possibility of change. As with Europe's triumphant overthrow of communismo in 1989, or even its failed revolutions of 1848, upheaval on such a scale can transform societies.»

Editorial da Economist

 

Uma certa casta de comentadores continua a investir o seu esforço na tarefa de encontrar argumentos que contrariem a legitimidade das revoluções populares da Túnisa e do Egipto. Depois de invocada a ameaça islâmica, há quem tenha avançado para i) a constatação da falta de alternativas credíveis às lideranças dos ditadores desses países; ii) para a tese da inviabilidade da democracia em certas geografias, iii) para a defesa das múmias. Estamos, ainda e sempre, perante a afirmação da mais bacoca superioridade civilizacional. Para os egípcios e tunisinos, dizem, é melhor um ditador competente do que um democrata impreparado. Este é um argumento com inaceitável conteúdo totalitário. A liberdade é um valor. A competência é uma qualidade. A competência nunca poderá ser moeda de troca da liberdade. A ausência de lideranças alternativas é um desígnio da própria ditadura. Não é por isso que se deve beneficiar o infractor. Para além disso, a premissa é falsa. Seria bom que estes postadores ilustrados pudessem apresentar o seu argumento sobre a preparação e competência de Mubarak às centenas de milhares de pessoas que vivem na mais miserável indigência nos arredores do Cairo. Por outro lado, não consigo encontrar racionalidade na ideia de que um país ou uma região, não estando preparados para a democracia, possam estar preparados para uma ditadura. Francamente, a fábula do ditador útil e bonzinho não é para gente crescida. Como teste definitivo à validade destas teses proponho um caso de estudo. Em que posição ficaria nesse argumentário o Portugal que foi entregue às mãos de Vasco Gonçalves? No que diz respeito à tese da defesas das múmias, parecem-me estas muito importantes. E penso que devem ser feitos todos os esforços para preservar o património cultural que é uma marca da humanidade. Mas, não encontro ponto de partida que nos permita aceitar que uma parte de humanidade viva em privação de liberdade e dignidade com o objectivo de preservar as múmias. No fundo, o que este tipo de argumentos esconde é uma desorientação e um incómodo. O erudito geo-estratega da bloga ou da imprensa tem o seu quadro mental preparado para uma certa tipologia de acontecimentos: as revoluções não acontecem em países liderados por ditadores 'amigos'. Perante a evidência de que esta asserção estava errada, resta-lhes recolher do baú dos trastes uma ou outra sentença de condenação dos povos em causa a uma vida de injustiça. Antes isso que pôr em causa as verdades absolutas em que querem continuar a acreditar. Para além do mais, sempre asseguram a si próprios o conforto de poderem acertar nas piores previsões. Equiparam-se, neste aspecto, aos relógios parados que têm razão duas vezes ao dia. E esquecem-se que tornam evidente a diferença que existe entre os que defendem a liberdade em qualquer lugar e os que pensam que a liberdade é o lugar onde se defendem os interesses (ainda que este interesse seja a mera validação das suas teses auto-confirmatórias).

Um ditador é um ditador

por Pedro Correia, em 02.02.11

«Os manifestantes do Cairo e de Tunes enviam uma mensagem à escola diplomática 'realista': é preciso chamar ditador a um ditador, sempre e bem alto.»

Editorial do Le Monde

Notas sobre a revolução na Tunísia

por Rui Rocha, em 15.01.11

1 - A nós portugueses, não pode deixar de nos comover uma revolução em que podemos encontrar algumas semelhanças com o nosso 25 de Abril. Como bem salienta Ramon Lobo em Aguas Internacionales, imagens de pessoas felizes que se abraçam aos polícias ou de militares que se recusam a disparar sobre os cidadãos fazem parte do nosso imaginário colectivo. É muito bom que outros povos possam vivê-las. 

2 - Os acontecimentos da Tunísia impõem uma revisão do papel do Ocidente, muito em particular da Europa, na relação com os países do Norte de África. Nesse espaço geográfico, a Tunísia não tinha o exclusivo dos regimes ditatoriais, militarizados ou corruptos. A Líbia, a Argélia, o Egipto e Marrocos, entre outros, são países relativamente aos quais o Ocidente tem mostrado grande complacência.

3 - A situação tunisina demonstra a possibilidade de revoluções democráticas no mundo árabe, com origem exclusiva na revolta contra a corrupção e a injustiça social e  em que o fundamentalismo religioso não assume qualquer papel activo.

4 - Aliás, o fanatismo religioso é, em boa parte, uma resposta sociológica a sociedades corruptas e opressivas e não pode constituir uma desculpa para que os povos sejam abandonados à sua sorte sempre que os interesses geopolíticos aconselham um fechar de olhos egoísta.

5 - A revolução tunisina pode constituir um virar de página na situação política do Magrebe, servindo de exemplo à luta cívica de povos vizinhos. As consequências são imprevisíveis.

6 - Não podemos esquecer que o Magrebe é já ali, pelo que uma diplomacia que prescinda de uma dimensão ética e que surja orientada apenas por interesses pragmáticos poderá levar Portugal a descobrir, um dia, que não só se alheou dos seus  valores básicos, como comprometeu de forma duradoura a sua relação com esses povos vizinhos.

7 - Este é o momento de todos os perigos. Os tunisinos ainda nada conseguiram e surgirão por certo, tal como aconteceu em Portugal, movimentos e tensões sociais que procurarão pôr em causa o caminho para a democracia.

8 - Guardo da Tunísia a memória de um aroma intenso a jasmim. Espero que os tunisinos possam agora experimentar também as fragrâncias da liberdade e do desenvolvimento.

Este já não prende mais ninguém

por Pedro Correia, em 15.01.11

 

Menos um tirano no activo: a revolta popular que estalou há duas semanas na Tunísia acaba de derrubar o general Ben Ali, que ocupava o palácio presidencial em Tunes desde 1987 e se especializou em organizar eleições fraudulentas em que obtinha sistematicamente 99% dos votos. O seu consulado despótico pertence já ao passado: agora rumo ao exílio, o general não encontra país disposto a dar-lhe guarida - a começar pela dúplice França, que tanto o auxiliou a prolongar-se no poder.

Ben Ali, convém recordar, foi um dos ditadores a quem o Governo português estendeu a passadeira vermelha em Dezembro de 2007, por ocasião da  lamentável cimeira UE-África. Como na altura escrevi, «segundo a Amnistia Internacional, existem centenas de presos de consciência na Tunísia, a pretexto do combate ao terrorismo internacional. As condições de detenção são "cruéis, inumanas e degradantes". Muitos prisioneiros são condenados em "julgamentos injustos", inclusivamente em tribunais militares». Isso não evitou que Cavaco Silva e José Sócrates o tivessem recebido com todas as honras protocolares em Lisboa: as vénias que lhe fizeram constituiram um insulto irreparável aos resistentes tunisinos.

Agora ao menos, para serem coerentes, poderiam ambos oferecer asilo ao ditador em fuga. Na Aldeia da Coelha ou em Vilar de Maçada.

Argélia e Tunísia em ebulição

por Paulo Gorjão, em 09.01.11

Argélia e Tunísia estão a viver dias muito complicados, com a contestação social instalada nas ruas. Em Dezembro de 2009, Diogo Noivo escreveu sobre a situação na Tunísia. O artigo, como se pode verificar, resistiu bem ao tempo. Vale a pena ler em particular a conclusão.


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