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A coisa

por Pedro Correia, em 25.03.20

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Há uma coisa chamada Conselho Nacional de Saúde. Estava posta em sossego, sem ninguém imaginar que existia, quando a emergência sanitária a fez despertar da letargia.

Com relutância, a coisa reuniu-se. Ficámos a saber que tem trinta membros, incluindo «seis representantes dos utentes, eleitos pela Assembleia da República», «dois representantes das autarquias, designados um pela Associação Nacional de Municípios Portugueses e outro pela Associação Nacional de Freguesias» e «cinco personalidades indicadas pela Comissão Permanente de Concertação Social, sob proposta das respectivas organizações sindicais e empresariais».

 

A reunião decorreu à margem das mais elementares normas sanitárias, sem que os membros da coisa respeitassem as distâncias de segurança, numa sala apinhada. Ao fim de seis ou sete horas de reunião, os conselheiros deliberaram... recomendar ao Governo que mantivesse abertos os museus e os estabelecimentos de ensino. Por unanimidade

Sem surpresa, António Costa procedeu exactamente ao contrário, marimbando-se para a recomendação da coisa.

 

Um putativo porta-voz da coisa, chamado Jorge Torgal, esmiuçou o seu pensamento desta forma, em entrevista ao jornal Público:

«O quadro global nacional [sobre o coronavírus] é relativamente positivo, face à morbilidade de outras patologias com que convivemos todos os dias.»

«As pessoas agem como se fosse uma doença facilmente transmissível por contacto social e não é. (...) É um quadro muito limitado que não é compatível com todo o alarme social que existe.»

«Fechar as escolas é ajudar e justificar o medo, que não tem razão de ser.»

 

Esta entrevista, note-se, foi concedida já depois de a Organização Mundial de Saúde ter qualificado de pandemia o coronavírus.

E ocorreu seis dias antes da declaração do actual estado de emergência em Portugal.

 

Já a 28 de Fevereiro, o mesmo cavalheiro produzira estas pérolas, em entrevista ao Jornal de Notícias

«[O Covid-19] é menos perigoso que o vírus da gripe! Existe um pânico completamente desproporcional à realidade.»

 «É uma doença que tem tratamento.»

«Em Portugal, em 2014, os casos de legionela em Vila Franca de Xira mataram muita gente e deixarem sequelas em muitas mais. Isso, sim, é preocupante.»

 

Raras vezes tenho visto alguém bolçar uma colecção tão grande de inanidades. Questiono-me se os familiares dos 43 portugueses que faleceram em apenas oito dias, vítimas do Covid-19, não deveriam apresentar queixa judicial contra este senhor.

Indaguei entretanto se a coisa ainda se mantinha em funções. Disseram-me que sim. Sem sequer registar uma deserção, depois de ter ficado evidente, aos olhos dos portugueses, que não serve para nada.

Diário do coronavírus

por Pedro Correia, em 12.03.20

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Bairro pachorrento, estranhamente despovoado: há muito menos gente a circular na rua, o trânsito parece de domingo apesar de estarmos a meio da semana, os transportes públicos deixaram de andar apinhados. Tudo em casa? Tudo não: espreito o Continente, habitualmente vazio a esta hora: está repleto de gente a acotovelar-se junto às caixas, exibindo carrinhos a transbordar de compras como se receassem um bombardeamento aéreo. Sem perceberem que o local menos indicado para fugirem ao vírus é ali mesmo, naquelas filas.

Pelo menos cinco estabelecimentos comerciais encerrados «por motivos de saúde», segundo letreiro colocado à porta. Passo pelo Celeiro, sou atendido pela empregada mais bonita das redondezas. Uma brasileira que não esconde a preocupação: «Minha mãe me disse para eu não atender pessoas sem estar de máscara. Tenho medo de estar aqui.» Não permitem que ela use máscara. Aliás nem existem máscaras, como verifiquei há duas semanas, só a título de curiosidade, junto das sete farmácias da Avenida da Igreja. Material esgotado, novas encomendas, não fazem a menor ideia quando voltarão a renovar o stock, já têm muitos clientes em lista de espera. 

 

Eis-nos reconduzidos às questões essenciais - da vida e da morte, da saúde e da doença - no momento presente, sem preenchermos a agenda mediática com engenharias sociais ou hipotéticas calamidades futuras. Aliás não sobra tempo nem espaço nos meios de comunicação para outro assunto: os telediários tornaram-se monotemáticos. E, ao contrário do que sucede em Espanha, por exemplo, a oposição eclipsou-se: deve estar também de quarentena preventiva, como o Presidente da República. Sem possibilidade nem vontade, portanto, de questionar o Governo sobre a decisão tardia de suspender as ligações aéreas com Itália, principal foco de infecção na Europa, e de continuar a permitir a entrada de dezenas de milhares de pessoas em cruzeiros de luxo que aportam a Lisboa e de forasteiros que aterram nos aeroportos sem rastreio de qualquer espécie à chegada.

Um amigo recém-desembarcado da Europa de Leste diz-me, com espanto: «Fiz esta viagem com máscaras e gel para as mãos a toda a hora. Vi precauções em todos os países - nos aeroportos e em todo o lado. Em Portugal, nada.»

 

Entre um Governo que "desdramatiza" para não baixar nas sondagens e uma oposição hibernada, a maralha corre para as praias como se não houvesse amanhã, confundindo quarentena sanitária face à pandemia com férias ao sol. Enquanto o incessante vozear televisivo sobre futebol dá lugar ao incessante vozear televisivo sobre coronavírus, com mil putativos especialistas em epidemologia a surgirem debaixo de todas as pedras da rua.

Salva-se, ao serão na TVI 24, a voz sensata mas firme de António Lobo Xavier: «Há qualquer coisa que não está a ser captada pela opinião pública, com uma certa doçura das mensagens. Olhando para o modo como progride esta epidemia - uma pessoa infectada pode infectar três por dia, em seis semanas sem controlo pode dar origem a três mil infectados - [critico] um certo laxismo mediterrânico, baseado num certo aventureirismo pessoal, numa certa autonomia privada, com cada um a correr os riscos que entende. Este ponto de vista é profundamente negativo e tem de ser criticado. Não é um problema de autonomia nem de liberdade pessoal. É preciso explicar que quem não acata as medidas básicas tem comportamento criminoso em vários planos: origina o agravamento de risco de outros cidadãos, causa mortes das pessoas mais frágeis, provoca danos incomensuráveis. A negligência face às regras custa vidas de pessoas e problemas de saúde, afecta hospitais que deviam estar a tratar dos cuidados normais e causa um dano brutal ao País. É inaceitável o desprezo individual e colectivo de massas de portugueses que se comportam como se não houvesse problema algum.»

Tudo quanto há de essencial ficou dito nestas palavras.

Tão amigas que elas eram

por Pedro Correia, em 20.01.20

A inveja é o desporto nacional

por Pedro Correia, em 21.11.19

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Ao contrário do que muitos supõem, o maior desporto nacional não é o futebol: é a inveja. Pura e dura.

Como os comentários lidos e ouvidos nas últimas 24 horas sobre a ida de José Mourinho para o Tottenham confirmam, uma vez mais.

Coisas realmente importantes

por Pedro Correia, em 11.10.19

«Uma mulher foi obrigada a chamar a polícia depois de ter sido atacada por uma gata. Este caso aconteceu na Amadora. Maria Almeida foi atacada na noite desta segunda-feira pela gata, chamada Clarinha, e com quem vive há mais de seis anos. Segundo a vítima, foi há um mês que o animal mudou de comportamento.»

Notícia da CMTV, hoje, às 7.20

Isto cheira cada vez pior

por Pedro Correia, em 30.05.19

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Esta minuciosa investigação do Luís Rosa e da Sara Antunes de Oliveira é um retrato perturbador mas fidedigno do país político e da tentacular administração pública portuguesa em descarado concubinato com redes de esquemas e negociatas. Tudo temperado com o nepotismo agora tão em voga, apesar dos platónicos alertas do Presidente da República. 

Em suma: um país em falência moral. Depois admirem-se que tantos portugueses virem costas às urnas e tanta gente esteja pronta a ovacionar o primeiro populista que irrompa ao virar da esquina. E desta vez nem precisa de vir montado num cavalo branco, como o Sidónio há cem anos: basta aparecer de vassoura em riste.

O "direito" a prejudicar outros

por Pedro Correia, em 29.04.19

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Cenas destas ocorrem todos os dias, em milhares de passeios deste nosso país, onde basta um veículo assim estacionado para criar sérios problema de locomoção a qualquer pessoa que se desloque a pé. Basta pensar em cegos, velhos com bengala, jovens de muletas, gente que transporte malas, alguém que se mova em cadeira de rodas ou empurre um carrinho de bebé.

Vivemos numa época em que a todo o instante há quem reivindique direitos sem jamais mencionar a incómoda palavra dever - que todo o direito implica, pois são duas faces da mesma moeda. Alguns dos que mais clamam por direitos são os primeiros a mandarem às urtigas o mais elementar civismo. Ignorando que nenhum direito é absoluto, desde logo quando corre o risco de colidir com o exercício de direitos alheios.

O indivíduo que estacionou assim o carro em zona proibida é daqueles que têm uma concepção absoluta dos seus direitos. Talvez repita até à exaustão nas redes sociais palavras pomposas, como solidariedade e justiça. Aposto que será dos primeiros a exigir aos outros - incluindo entidades públicas - aquilo que ostensivamente não pratica. É o que mais há por aí. Alguns até se atrevem a dar lições de rigor moral e ética comportamental a quem vão encontrando pelo caminho.

E que tal ter férias em Caracas?

por Pedro Correia, em 18.04.19

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Foto: Tiago Petinga/Lusa

 

Ia escrever sobre o tema, mas afinal o texto já estava escrito. Aqui, pelo Eduardo Louro.

Incluindo a frase de remate, que desvenda bem esta tola sociedade consumista em que nos tornámos: ao toque de qualquer sineta alarmista, largos milhares atropelam-se para conseguir um lugar na bicha, precisem ou não precisem. 

«Já estive ontem na fila e atestei, mas como ontem ainda acabei por gastar uns 20 euros, hoje venho atestar outra vez...» 

A esta gente, que atesta o depósito depois de o ter já atestado, recomendo uma semana de férias no "paraíso" venezuelano. Onde tudo falta, excepto ao recluso do Palácio de Miraflores, e as filas são gigantescas, quase sempre para nada obter. Porque nada há lá para consumir, a começar pela água e pela luz.

Tiro à letra

por Pedro Correia, em 12.04.19

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Há livros que são editados com os pés, para usar uma expressão da gíria jornalística. Abrimos um exemplar e logo na contracapa ou numa badana deparamos com um erro grosseiro, gerado por ignorância ou incompetência - daqueles que nos levam de imediato a pôr aquilo de parte.

Por vezes o disparate surge não na casca, mas já no miolo, no espaço reservado à apresentação ou prefácio. Aconteceu-me há dias, com um exemplar de uma destas editoras que pretendem difundir "coisas giras" e "fora da caixa". Bastou-me ir à primeira página impressa para deparar com isto: como se não bastasse o impiedoso extermínio das impropriamente chamadas "consoantes mudas", o tiro à letra é tão obsessivo que leva estes mabecos a mutilarem até palavras como "actual", aqui mascarada de "acual". Deve ser idioma de pato: língua portuguesa não é, seguramente.

Fechei o livro e ele lá ficou, a gozar um merecido repouso. Faço votos para que seja perpétuo.

A minha semana em cinco palavras

por Pedro Correia, em 12.01.19

 

Vergonha.

Asco.

Lamento.

Repulsa.

Despudor.

 

Repulsa

por Pedro Correia, em 10.01.19

Duarte Lima, ex-presidente do Grupo Parlamentar do PSD, foi condenado em Novembro de 2014 a uma pena de prisão por burla agravada e branqueamento de capitais. O Tribunal da Relação confirmou em 2016 a sentença condenatória. A 18 de Dezembro de 2018, o Tribunal Constitucional chumbou o último recurso que lhe foi apresentado no âmbito deste processo, esgotando assim a possibilidade de revisão da pena.

Apesar disto, Lima continua em liberdade.

 

Armando Vara, ex-ministro adjunto do primeiro-ministro António Guterres e ex-vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos, foi condenado em Setembro de 2014 por três crimes de tráfico de influências. O Tribunal da Relação confirmou em 2017 a sentença condenatória. A 24 de Novembro de 2018, o Tribunal Constitucional chumbou o último recurso que lhe foi apresentado no âmbito deste processo, esgotando assim a possibilidade de revisão da pena.

Apesar disto, Vara continua em liberdade.

Lamento

por Pedro Correia, em 09.01.19

Uma das melhores livrarias de Lisboa, de que fui durante anos visitante e cliente habitual, era a Bulhosa, situada no extremo sul do Campo Grande, já quase em Entre-Campos. Um dia, há pouco mais de um ano, encerrou "para inventário", como rezava o letreiro. Não voltou a abrir: morreu assim, ingloriamente, perante o alheamento quase total desta cidade que anda de costas ostensivamente viradas para a cultura.

Há dias passei por lá. Onde morou a Bulhosa está agora um desses estabelecimentos pindéricos que prometem "depilação total nas axilas e nas virilhas" em letras garrafais estampadas à entrada. É uma actividade em expansão, ao que parece. A malta preocupa-se com a fachada e marimba-se para o intelecto: os neurónios não propiciam fotos giras no Instagram.

Lamento, claro. Mas não estranho. Ainda há pouco, numa roda de amigos com um nível cultural supostamente acima da média, perguntei-lhes quantos livros tinham comprado em 2018. Zero, nada: nem um. «Li por obrigação quando andava na escola, felizmente hoje já não preciso disso», respondeu um, sem sombra de ironia. Daí as livrarias - que também eram um espaço de convívio, de socialização, de buscas e descobertas - irem fechando, umas atrás das outras, por esse país fora. Pobre e frívolo país, tão mal instruído e tão bem depilado.

Asco

por Pedro Correia, em 08.01.19

Morreu há dias, de doença num hospital, um conhecido cavaleiro tauromáquico português. Foi quanto bastou para que uma legião de energúmenos munidos de dispositivos electrónicos uivasse exclamações de júbilo nas chamadas "redes sociais", congratulando-se com o falecimento.

Confesso um imenso asco por esta gente, que se atreve hipocritamente a invocar civismo, tolerância e princípios "humanistas" a propósito seja do que for mas escarra nestas belas proclamações mal vira a primeira curva do caminho. E só não lhes chamo animais porque iriam certamente interpretar este qualitificativo como um elogio. Longe de mim tal intenção.

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Do amarelo ao encarnadinho

por Pedro Correia, em 22.12.18

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Esta frase ontem dita por um indivíduo aos jornalistas destacados no terreno - e que, somados aos polícias, suplantavam os manifestantes em número - resume o fiasco dos "coletes amarelos", versão tuga: «Eu sou solidário com eles... mas tenho de trabalhar.»

Há uma diferença enorme entre os indignadinhos de sofá, sempre prontos a clicar contra o "sistema", seja lá o que isso for, e aqueles que estão dispostos a sair à rua, consequentes com a revolta que dizem sentir. A verdade é que - isso ficou bem demonstrado ontem - não basta copiar o que lá fora se passa nem ser campeão das bravatas em redes sociais. Quando há que dar a cara, assumir a identidade, ter o incómodo de mergulhar no país real, esvai-se a ousadia oculta em pseudónimos na Rede.

 

Se fosse o próprio Governo a organizar este "protesto", não lhe teria saído melhor: duas dúzias de mabecos gritando slogans inconsequentes no Nó de Francos ou na rotunda do Marquês de Pombal, como se ali houvesse sedes de órgãos de soberania. Prejudicando afinal apenas o cidadão comum que diziam representar, enquanto desafinavam penosamente, tentando trautear umas estrofes do hino nacional perante as televisões.

Pretenderam imitar os franceses. Esquecendo que os gilets jaunes não desceram às praças e avenidas numa sexta de manhã, mas em sucessivas tardes de sábado - podendo assim agregar gente que trabalha durante a semana. E escolheram os locais mais emblemáticos das cidades - desde logo Paris - para centro nevrálgico dos protestos. O próprio Marcelo Rebelo de Sousa aludia ontem, ironicamente, à sua passagem episódica pelo Marquês de Pombal, ao fim da tarde, para «observar o que se passava», já que a vasta praça fronteira ao Palácio de Belém fora deixada em sossego apesar de reunir todas as condições para dar visibilidade a qualquer manifestação de rua.

 

Os promotores deste "fiasco amarelo" revelaram a sua inépcia, desde logo, na lista de putativas "reivindicações" que difundiram nas redes: querem, ao mesmo tempo, diminuir a receita fiscal e aumentar a receita pública. Tudo e o seu contrário: menos IRS, menos IRC, IVA mais baixo, salário mínimo a disparar, pensões de reforma e subsídios de desemprego mais elevados. Uma quadratura do círculo que equipara qualquer deles aos mais incompetentes membros da classe política que dizem abominar.

Sou capaz de entender porque não marcaram para hoje os tais protestos: faltam só três dias para o Natal. Imagino-os atarefados, a esta hora, na corrida às grandes superfícies, cartão de crédito na mão. Já não de amarelo, mas de encarnadinho - a cor do Pai Natal.

Adeus Camões, olá "camones"

por Pedro Correia, em 31.05.18

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As farmácias devem ser um excelente negócio. Só perto da minha casa, na Avenida da Igreja, há seis. Uma delas, mais modernaça, deixou agora de chamar-se farmácia. Fez obras para «modernizar as instalações» e ressurgiu baptizada como chemist store - assim mesmo à "amaricana", como se em vez de Lisboa estivéssemos em Seattle, Portland, Omaha ou Minneapolis.

Sinal dos tempos: eis o nosso idioma em recuo acelerado nos mais diversos tabuleiros, com a anuência generalizada das entidades públicas, a bocejante indiferença dos nossos putativos "agentes culturais" e o aplauso contentinho dos basbaques que imaginam podermos atrair "resmas de turistas" cá para o torrão se substituirmos a língua materna de Vieira, Eça e Pessoa pelo esforçado vernáculo do senhor Trump.

O estúpido "acordo ortográfico" já tinha funcionado como sinal de alerta: o português necessita de cuidados intensivos. Não apenas na versão escrita, com a abertura da época de caça às supostas consoantes mudas, mas na própria oralidade, com a progressiva atonalidade de sílabas e a contínua condenação das vogais abertas à reforma antecipada. Agora somos colonizados culturalmente pelos "camones". Cada vez mais longe de Camões.

Receio que isto já não se cure com uma simples ida à farmácia.

'Chic' espertismo

por Pedro Correia, em 04.04.18

O chico-espertismo tuga não é menos condenável quando surge com rótulo cultural. Há quem prefira chamar plágio ao roubo, o que soa sempre mais chic.

Mas quando o roubo é caucionado pelo Estado, com a Direcção-Geral da Educação a exibi-lo em itinerância pelas principais cidades do País e com "condições especiais de acesso para escolas", a coisa torna-se ainda mais grave.

Se há experiência pedagógica a que as criancinhas devem ser poupadas é à da exibição do furto de propriedade intelectual. Se a moda pega, o Ministério da Educação ainda vai pô-las a ouvir o Tony Carreira: ou há moralidade ou plagiam todos.

Encurtando razões, exprimo aqui a minha solidariedade com Deana Barroqueiro. Como canta o Fausto, "quem conquista sempre rouba / quem cobiça nunca dá".

O Luso-portuguesismo

por Rui Rocha, em 12.02.18

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Em 13 de Fevereiro de 2016, a seleção espanhola de futsal sagrou-se campeã europeia. No dia seguinte, os 3 jornais de referência do país tinham grandes manchetes de primeira página sobre tão extraordinário feito, certo? Errado. Não lhe fazem, sequer, uma minúscula referência. Compare-se isto com o que se pode ver hoje no DN, no JN ou até no Público, ou nas aberturas dos jornais televisivos. Com as homenagens, as condecorações e as recepções a que já assistimos ou que já foram ameaçadas nas últimas horas. Uma das características de sermos pequeninos, não de geografia mas de cabecinha, é não termos a mínima noção da real e relativa importância das coisas. Outra, que no fim é a mesma, é este entusiasmo infantil com qualquer sucesso, por irrelevante que seja, em que se ostente a nossa pobre bandeira. Cada vez que um luso-canadiano, um luso-francês, um luso-nepalês ganha na carica, o país abana em espasmo. Quando a gesta é daqueles portugueses mesmo daqui, quase caímos todos ao mar. No sábado, o fulano que exerce de primeiro-ministro, com apenas 5 minutos de jogo decorridos na primeira parte, já festejava um golo no twitter. Dói ser-se tão tacanho. Dói esta doença a que podemos chamar luso-portuguesismo.

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A pergunta inútil de Dezembro

por Pedro Correia, em 03.12.17

« Já começaste a fazer as compras de Natal»

A pergunta inútil de Novembro

por Pedro Correia, em 05.11.17

« Não te aborrece que às seis já seja de noite»

 

"Fogo amigo" contra Ronaldo

por Pedro Correia, em 24.10.17

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Dizem-me que as "redes sociais" cá do burgo se encheram nas últimas horas de tugas indignados a disparar sarcasmos em diversos tons contra Cristiano Ronaldo, ontem eleito pela quinta vez melhor profissional de futebol do mundo. Preferiam talvez o argentino Messi, como se o nosso compatriota não tivesse conquistado só neste último ano a Liga dos Campeões, o campeonato espanhol e o Mundial de clubes, além de ter integrado a selecção portuguesa que subiu ao pódio da Taça das Confederações.

É sina nossa: quando alguém cá nascido e aqui criado se destaca, erguendo-se acima da mediania, logo sente os conterrâneos a crivá-lo de "fogo amigo", com palavras quase tão mortíferas como punhais. A inveja é uma espécie de passatempo nacional exercido com prodigalidade. E quanto mais alto está o alvo, mais se enfurece a legião de detractores.

Uma das críticas recorrentes a Cristiano Ronaldo, no vespeiro das redes, relaciona-se com o idioma: acusam-no de ter um domínio insuficiente do português. Tomaram muitos destes anónimos internautas que o apontam de dedo em riste - analfabetos funcionais - exprimirem-se tão bem não apenas na nossa língua mas também em inglês e castelhano, como se expressa o mais célebre n.º 7 do futebol à escala planetária.

Por mim, gostaria de ver muitos dos nossos políticos, que mal chegam a Badajoz desatam logo a palrar "estrangeiro", comunicar em português perante plateias internacionais como ontem Ronaldo fez na gala da FIFA, recorrendo com orgulho ao idioma de Camões com o mundo a escutá-lo. Senti-me orgulhoso enquanto compatriota. E senti também orgulho pelo miúdo pobre do Funchal que subiu a pulso no desporto e na vida, à custa de muito talento, muito esforço e muito brio. Dando autênticas lições de tenacidade a milhões de meninos pobres que sonham conseguir o mesmo nos mais diversos recantos do planeta.

Tento imaginar os adeptos argentinos a torcer por Ronaldo enquanto lançam impropérios a Messi. Não consigo: esta é uma originalidade cá do torrão, nada transmissível. Padecemos de endémica alergia ao mérito enquanto prestamos tributo recorrente à mediocridade mais rasteira. Se existe sintoma do nosso atraso estrutural, no capítulo das mentalidades, é precisamente este. Que nos tem levado, geração após geração, a marcar golos consecutivos na própria baliza.


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