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Mnemosyne

por Diogo Noivo, em 10.07.18

Na semana passada assinalou-se o terceiro aniversário do referendo onde uma parte importante do eleitorado grego deu um cartão vermelho à austeridade e recusou a “escravatura” da dívida. Tendo esta efeméride como pano de fundo, Zoe Konstantopoulou, ex-Presidente do Parlamento grego e antiga militante do Syriza, publicou um artigo de opinião no jornal britânico The Guardian onde faz a revisão da matéria dada. Eis as passagens dignas de antologia:

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“Pense como o povo britânico olharia para um primeiro-ministro eleito com o intuito de acabar com as privatizações e que, em vez disso, privatizou quase todos os bens públicos; que foi eleito para servir a paz e que, em vez disso, facilitou a acção militar contra alvos na Síria e concordou com a venda de armas a países acusados de crimes internacionais; que foi eleito para proteger as casas das pessoas, e que ficou parado enquanto os bancos se apoderavam delas, deixando as pessoas sem abrigo; que foi eleito para servir a democracia e a independência do seu país e que, em vez disso, o entregou à UE, ao FMI e ao BCE. Isto foi o que Tsipras fez ao povo grego.”

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“A vida tornou-se insuportável. O desemprego dos jovens é a norma e estima-se que 8% da população abandonou o país em busca de trabalho. O salário mínimo não paga as contas e centenas de milhares de famílias ficaram sem eletricidade”.

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“Tsipras prometeu destruir os oligarcas da comunicação social. Hoje, os velhos oligarcas ainda controlam a imprensa grega, enquanto uma nova geração, os “oligarcas da era Tsipras”, se estabeleceram”.

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“Em outubro do ano passado, representando um estado falido, ele [Tsipras] gastou 2,4 mil milhões de dólares na compra de caças F-16 aos EUA. Elogiou Donald Trump por continuar a “tradição de democracia e liberdade” que nasceu na Grécia.”

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Tsipras? We don't know him

por Pedro Correia, em 28.07.17

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«La politique c'est, avant tout, l'interprétation des réalités

Charles de Gaulle (1958)

 

«Cometi erros... grande erros.»  Numa notável entrevista ao Guardian, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras - outrora «the global pinup of the far-left anti-establishment movement», para usar a saborosa expressão do jornal britânico - faz várias confissões. Estava impreparado ao assumir o poder, em Janeiro de 2015, não soube escolher as pessoas certas, foi confrontado com um panorama ainda mais sombrio do que esperava.

Hoje, com o seu país a registar tímidos progressos na frente económica, o antigo radical de esquerda não hesita em reconhecer que foi correcta a decisão de manter os compromissos assumidos pelo Estado grego perante as instituições políticas de Bruxelas e os pilares financeiros da eurozona - contrariando o que algumas vozes líricas apregoavam então e ainda apregoam por cá. E questiona, acertadamente: «Se abandonássemos a Europa íamos para onde? Para outra galáxia?»

De campeão da retórica anti-austeridade a gestor das mais severas medidas austeritárias de que há memória na Grécia: eis um governante que chegou a contar com uma ruidosa legião de adeptos lusitanos mas nunca mais voltou a ser mencionado nos círculos políticos e mediáticos em Portugal. Há um par de anos, muitos queriam fazer-se fotografar com ele. Hoje apagaram essas fotografias, eventualmente comprometedoras. «As coisas são o que são», costumava dizer o general de Gaulle: nada como a dura realidade para destronar os mitos.

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O herói da nova tragédia grega

por Pedro Correia, em 06.05.17

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1

Eu sei que as memórias andam fracas, mas gostava de saber se alguém ainda se lembra do delírio messiânico que acolheu a vitória eleitoral de Alexis Tsipras na Grécia, em Janeiro de 2015.

Os hossanas tributados durante meses em incontáveis serões televisivos cá no burgo e nas páginas da imprensa portuguesa não deixavam lugar a dúvidas: a "verdadeira esquerda" personificada pelo líder do Syriza iria enfim fazer peito às balas "neoliberais" disparadas de Bruxelas e Berlim proclamando o perdão unilateral da dívida.

"Não pagamos" era a palavra de ordem.

Meninas com pendor anti-sistema confessavam a sua ardorosa admiração pelo efémero ministro grego das Finanças e houve até quem se fizesse fotografar com ele em comícios. Cavalheiros com irrepreensível pedigree revolucionário apressaram-se a produzir epístolas aos indígenas lusos apontado Atenas como a nova capital das luzes europeias. Jornais sempre prontos a deixar-se embalar pelos ventos dominantes derreteram-se de fervor pelo farol helénico, que nos iluminava para o "fim da austeridade".

 

2

"A vossa voz anulou a austeridade. A troika é passado", anunciou Tsipras à multidão reunida para ovacioná-lo a 25 de Janeiro de 2015, provocando uma corrente orgástica no rincão luso.

Nem a coligação logo estabelecida entre o Syriza e o Anel, representante da direita nacionalista, fez esmorecer os crentes. Nem sequer o apoio manifestado ao novo Executivo por Marine Le Pen e Nigel Farage, irmãos de fé eurofóbica, abrandou a prosa ditirâmbica daqueles que por cá já anteviam o PS a ser ultrapassado pelo Bloco, equivalente local do novo partido do poder entre os herdeiros espirituais de Sócrates (o genuíno).

Durante grande parte desse ano, enalteceu-se o experimentalismo político, a irresponsabilidade demagógica, o populismo mais rasteiro (incluindo as camisas sem gravata pour épater le bourgeois), a navegação à vista.

Tsipras, o "anti-Passos", era o novo ídolo das massas.

 

3

Manuela Ferreira Leite e José Manuel Pureza irmanavam-se no louvor à "devolução da dignidade" do povo grego. "Pela Grécia passa a salvação da Europa", garantia Ana Gomes, insuflada de júbilo. "O Governo grego conseguiu dobrar a Alemanha", entusiasmou-se Freitas do Amaral. "A Alemanha teve de ceder", sorria Nicolau Santos. "A Grécia teve a coragem de resistir às pressões das potências europeias", celebrou André Freire.

"Viva a Grécia", gritou a escritora Hélia Correia ao receber o Prémio Camões. Enquanto o pintor Leonel Moura constatava que "uma parte do sucesso do Syriza deve-se à boa imagem de Tsipras" e do seu ministro das Finanças, por quem "muitas mulheres da Europa" andariam "perdidas de amores". Isabel Moreira, bem ao seu jeito, corroborava.

Boaventura de Sousa Santos, confirmando que de Coimbra também se observa o mundo, vislumbrou ali rasgos de odisseia homérica: "A vitória do Syriza teve o sabor de uma segunda libertação da Europa."

 

4

Alguém tem ouvido estas e outras boas almas que se derramavam em cânticos e louvores à "nova Atenas" voltar ao tema?

Certamente não. E provavelmente pelos motivos que surgem enumerados neste artigo do Guardian que nos mostra a verdadeira face da Grécia após dois anos e meio de Executivo Tsipras: mais cortes de pensões (18% até 2019), novos aumentos de impostos, novo pacote de privatizações em marcha, nem vestígio de perdão da dívida.

Tudo isto para travar in extremis  um quarto resgate de emergência e afastar o espectro da bancarrota num país que desde 2009 é incapaz de se financiar nos mercados internacionais e só nos primeiros dois meses de 2015 viu desaparecer cerca de 2,5 mil milhões de euros em depósitos bancários.

Em sete anos, o produto grego caiu 27% - mais do que o ocorrido nos EUA durante a Grande Depressão - e a dívida pública ascendeu a 180% do PIB. O desemprego, agora situado em 23,5%, não dá sinais de queda. Ninguém acredita que daqui a um ano, quando terminar a actual intervenção externa, o país recupere a soberania financeira, hoje hipotecada pelo Banco Central Europeu.

Afinal o Syriza não fazia parte da solução: faz parte do problema.

 

5

Outra  greve geral já está marcada na Grécia, desta vez para o dia 17. Mas Tsipras, herói da nova tragédia helénica, resiste firme: continua a não usar gravata.

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Em 2016, com quatro meses de antecedência, o primeiro-ministro britânico convocou um referendo prometido dois anos antes. Perdeu, afirmou que respeitaria a decisão dos britânicos e demitiu-se.

Em 2015, com oito dias de antecedência, o primeiro-ministro grego convocou um referendo nunca antes anunciado. Ganhou, afirmou que respeitaria a decisão dos gregos, fez o oposto e manteve-se no cargo.

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Já não entoam hossanas a Tsipras

por Pedro Correia, em 25.01.16

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Faz hoje um ano, a "verdadeira esquerda" triunfou na Grécia. Alexis Tsipras, líder do Syriza, proclamou em Atenas o fim da austeridade, provocando um coro de hossanas um pouco por toda a Europa.

Poucos pararam para pensar que nenhum líder político soluciona problemas financeiros com retórica inflamada. A razão cedia lugar à emoção, como ficou bem patente no dia seguinte em eufóricas manchetes de periódicos como o Jornal de Notícias e o Público. "Grécia - o princípio do fim da austeridade", anunciava o primeiro, em parangonas. "Grécia vira a página da austeridade e deixa a Europa a fazer contas", bradava o segundo, igualmente em letras garrafais.

 

Um ano depois, o que temos?

A austeridade afinal vigora na Grécia. Mais apertada que nunca, após um terceiro resgate no valor de 86 mil milhões de euros que Tsipras se viu forçado a aceitar para evitar in extremis a bancarrota do país, pondo de lado todas as bravatas que lhe haviam rendido votos e o aplauso acéfalo de pequenas e médias multidões de colunistas.

Doze meses exactos após a vitória eleitoral do Syriza, imitando qualquer social-democrata ou "neoliberal", a esquerda "revolucionária" helénica implora por investimento externo enquanto os gregos apertam cada vez mais o cinto. As pensões de reforma e benefícios sociais estão sujeitas a cortes que podem chegar aos 30%. E o IVA dos restaurantes e dos transportes subiu para 23%.

Intervindo perante os próceres da finança internacional na mais recente reunião do Fórum Económico Mundial em Davos, iniciativa antes diabolizada por servir de cobertura ao "capital especulativo", Tsipras anunciou sem pudor que Atenas "era parte do problema e agora quer fazer parte da solução". E, dando o dito por não dito, fez nova jura de equilíbrio das contas públicas enquanto acedia à tutela do FMI sobre as finanças gregas - algo que há um ano constituía um anátema para a sua base eleitoral de apoio.

Desde então o chefe do Executivo grego enfrentou duas greves gerais, violentas manifestações nas ruasruidosos protestos de um número crescente de cidadãos - incluindo  agricultores e  funcionários públicos - que se sentem  traídos pelas promessas que ficaram por cumprir. Incluindo o fim dos cortes salariais e da vaga de privatizações no país.

 

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Vale a pena recordar o que escreveram e disseram há um ano diversas personalidades que produzem opinião no espaço público português. Para se perceber até que ponto eram irreais as expectativas que depositavam neste resultado eleitoral.

E para se perceber também até que ponto as convicções pessoais, nomeadamente do foro ideológico, perturbam a capacidade de entender a realidade.

 

Ana Gomes: «Pela Grécia passa, antes, a salvação da Europa.»

António Costa: «Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir na mesma linha.»

Boaventura de Sousa Santos: «A vitória do Syriza teve o sabor de uma segunda libertação da Europa.»

Catarina Martins: «Hoje vira-se uma página na Europa. Hoje começa-se a colocar a austeridade no caixote do lixo.»

Daniel Oliveira: «A vitória do Syriza é a única boa notícia que a Europa pode receber nos próximos meses.»

Freitas do Amaral: «Eles [governo grego] recuaram muito, mas a Alemanha recuou muito mais. (...) Terminou a austeridade pura e dura [na Grécia].»

José Castro Caldas: «A Grécia renasceu hoje. O medo falou e perdeu.»

José Vítor Malheiros: «A Grécia vai ter finalmente um Governo grego, composto por gregos que se preocupam com a vida dos cidadãos gregos.»

Leonel Moura: «Uma parte do sucesso do Syriza deve-se à boa imagem de Tsipras, reforçada agora pela de Varoufakis. Ao que parece muitas mulheres na Europa andam perdidas de amores por estes dois gregos.»

Nicolau Santos: «A Europa vai ter de ceder.»

Pedro Adão e Silva: «É uma transformação importante: deixou de haver uma hegemonia na forma como estava a ser governada a União Europeia.»

Pedro Bacelar de Vasconcelos: «A vitória do Syrisa lavrou a certidão de óbito de uma "política" que recusava admitir alternativas para a quebra da solidariedade europeia.»

Rui Tavares: «Os gregos abrem uma porta para a transformação das políticas da União Europeia.»

Viriato Soromenho-Marques: «A coragem da Grécia rasgou uma brecha no muro da insensatez.»

 

Um ano depois, todos estes ditirambos só podem provocar sorrisos amarelos - por estarem nos antípodas do que aconteceu. Os factos são teimosos, como Lenine nos ensinou.

Durante todo o dia, procurei ouvir novos hossanas a Tsipras. Apenas escutei um silêncio ensurdecedor.

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Um perigoso neoliberal

por Pedro Correia, em 03.10.15

Tsipras corta pensões, elimina subsídios e aumenta impostos na Grécia duas semanas após as eleições. Sem um sussurro de protesto dos indignadinhos em Portugal.

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Já só lhe falta usar gravata

por Pedro Correia, em 21.09.15

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A vitória de Alexis Tsipras nas legislativas de ontem na Grécia foi acolhida de forma muito diferente da que ocorreu a 25 de Janeiro, data da eleição anterior. Desta vez não houve manchetes eufóricas, proclamações festivas dos comentadores "isentos" nem a ridícula elevação do dirigente da esquerda radical grega ao estatuto de novo messias capaz de pôr fim às políticas de austeridade na Europa com a sua retórica populista.

Tsipras voltou a vencer - com menos um ponto percentual e menos quatro deputados do que há oito meses - num escrutínio marcado pelo galopante avanço da abstenção: 45% dos eleitores gregos viraram desta vez costas às urnas, quando em Janeiro esta percentagem se tinha quedado nos 34%. E acaba de revalidar a coligação com o partido da direita nacionalista e xenófoba Gregos Independentes que lhe tem servido de bengala. Beneficia do insólito bónus de 50 deputados propiciado pela lei eleitoral helénica ao partido vencedor (que tanto criticou quando estava na oposição) e da irrisória percentagem obtida pela ala fraccionista do Syriza, reunida em torno da Unidade Popular, uma nova formação de extrema-esquerda a que nem o ex-ministro Yanis Varoufakis conseguiu dar alento.

 

Desta vez as rolhas de espumante mantiveram-se nas garrafas. Percebe-se porquê. Tsipras rasgou o "inegociável" Programa de Salónica, que lhe serviu de bússola para se apresentar às urnas há oito meses com proclamações "anti-austeridade" contra uma União Europeia "dominada pela especulação financeira". Desse programa constava a suspensão unilateral do pagamento da dívida grega, o aumento do salário mínimo de 580 para 751 euros, um vasto pacote de nacionalizações, o alargamento dos quadros da administração pública e a redução da carga fiscal, entre outras medidas que chocavam com o Tratado Orçamental subscrito por Atenas.

Sabe-se o que aconteceu depois. A 5 de Julho, a coligação esquerdodireitista convocou um plebiscito-relâmpago que rejeitou as normas de contenção financeira ditadas por Bruxelas. Dias depois, no entanto, o primeiro-ministro aceitou um conjunto de medidas ainda mais severas, que enterravam de vez o programa eleitoral do Syriza. Medidas que incluíram um corte drástico de pensões (entre 30% e 70%), o aumento de impostos como o IVA e um amplo programa de privatizações de empresas estatais.

 

O Tsipras de Setembro nada tem a ver com o Tsipras de Janeiro: confrontado com um iminente cenário de bancarrota e a perspectiva de colapso do sistema financeiro, conduziu a Grécia ao terceiro resgate externo de emergência em cinco anos, recebendo um cheque de 86 mil milhões de euros cuja aplicação será escrutinada até ao último cêntimo pela Comissão Europeia e pelo Banco Central Europeu. Na melhor das hipóteses, resta-lhe ser o Passos Coelho helénico na legislatura que vai seguir-se, forçando os gregos ao maior aperto de cinto de que há memória.

Bastaram oito meses para silenciar os hossanas ao antigo herói da esquerda radical, agora forçado a praticar políticas decalcadas de qualquer cartilha "neoliberal". Já nada me espanta. Nem me surpreenderia até que um dia destes víssemos Tsipras de gravata.

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O factor grego

por Pedro Correia, em 28.07.15

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A errática actuação do executivo de coligação em Atenas formado em Janeiro pelo Syriza e o Anel - partidos com a eurofobia como único traço identitário comum - começa a ter reflexos nas intenções de voto um pouco por toda a Europa. A experiência de poder da chamada esquerda radical, confrontada com a iniludível crueza dos factos, tem decepcionado uma fatia imensa de apoiantes que ainda há seis meses estavam convictos de que havia uma "verdadeira alternativa" ao Tratado Orçamental na eurozona. E nem preciso de evocar aqui as citações que venho enumerando na minha série Grécia Antiga para ilustrar esta diferença abissal entre os doces desejos e a amarga realidade. Basta recomendar a leitura atenta desta excelente reflexão de Jorge Bateira, insuspeito de simpatias pelo pensamento liberal ou conservador.

"Quando convocou o referendo, Tsipras tinha a obrigação de aceitar o repto da direita e dizer ao povo grego que a experiência de longos meses de negociações falhadas o obrigava a concluir que um “não” implicava a provável expulsão de facto do euro através do BCE. O que se seguiu foi penoso e humilhante. Uma pesada derrota para a esquerda que ainda acreditava na mudança da UE por dentro, uma derrota que terá repercussões negativas nos resultados eleitorais do Podemos em Espanha", escreveu aquele economista, na passada sexta-feira, no jornal i.

Tocou no ponto certo - como aliás ficou bem evidente logo dois dias depois, na sondagem divulgada este domingo no El País  sobre as intenções de voto dos espanhóis nas próximas legislativas. Os números demonstram uma queda abrupta do Podemos: dez pontos percentuais num semestre (28,2% em Janeiro, 18,1% em Julho) e mais de três pontos num só mês (em Junho tinham 21,5%).

 

Questões de âmbito interno ajudarão a explicar este recuo da esquerda radical espanhola, que há 14 meses irrompeu na cena política conquistando mais de um milhão de votos nas europeias. Com um líder telegénico, Pablo Iglesias, e um programa que mistura marxismo e populismo em doses bem estudadas, o Podemos prometeu "revolucionar" a política espanhola e pôr fim à "casta" dominada pelas duas maiores famílias ideológicas, a conservadora e a socialista. No início de 2015 chegou a liderar as intenções de voto.

A queda entretanto registada explica-se em grande parte pelo factor grego, que não deixará de ter também repercussões em Portugal. Nada mais natural, atendendo ao desvario estratégico do executivo de Atenas - que, sabe-se agora, chegou a ter preparado um  plano de abandono unilateral da eurozona que despenharia fatalmente a Grécia no caos financeiro.

Um plano que não avançou, por um lado, devido à escassez de reservas monetárias do país e, por outro, devido ao bom-senso revelado por Moscovo e Pequim: em ambas as capitais, Tsipras e o seu ex-protegido Yanis Varoufakis escutaram palavras cheias de realismo político. A Grécia falida não vale um conflito global com o Ocidente. Sobretudo agora, que a Rússia mergulha na recessão e a queda das bolsas chinesas começa a alarmar o planeta financeiro.

 

Entretanto já se anuncia um novo pacote de austeridade ainda antes de entrar em vigor o terceiro resgate de emergência à Grécia. Tornando ainda mais longínqua aquela demagógica proclamação de Tsipras na noite de 25 de Janeiro, enquanto celebrava a vitória eleitoral: "Vamos deixar a austeridade!"

Palavras prontamente desmentidas pelos factos.

Por tudo isto, o factor grego continuará a pesar na opinião europeia. E ajudará a determinar o desfecho das próximas contendas eleitorais no continente - queiram ou não queiram todos quantos ainda há pouco apontavam o Syriza como bóia salvadora.

Alguns já perceberam que andaram a aplaudir meros vendedores de ilusões. E talvez subscrevam agora o diagnóstico certeiro de Jorge Bateira: "A derrota do governo grego foi causada, em última instância, por uma cegueira ideológica que o impediu de perceber o significado do impasse em que caiu e de, a partir daí, mobilizar o povo grego para a aceitação das implicações últimas da recusa da austeridade."

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O cavalo de Tróia do euro.

por Luís Menezes Leitão, em 27.07.15

Há dias escrevi aqui que me parecia que a situação na Grécia tinha atingido uma irracionalidade de tal ordem, que não se sabia o que o governo grego pretendia. O tempo levou a descobrir que, com ou mais ou menos planos rocambolescos, o que ele pretendeu desde o início foi a saída do euro e o regresso ao dracma. Tsipras parece por isso Hamlet, de quem se dizia que estava numa verdadeira loucura, mas havia método nisso ("Though this be madness, yet there is method in't").

 

Efectivamente, Atenas só não saiu do euro porque não teve apoio externo para o fazer. O problema de um país adoptar uma moeda própria é que ninguém a aceita no estrangeiro. Por isso, em ordem a poder manter o pagamento dos bens importados, esse país tem que antes de tudo ter uma reserva grande de divisas. Ora, a Grécia não tinha quaisquer reservas. Correu por isso literalmente seca e meca para as arranjar. Tsipras pediu auxílio aos EUA, à Rússia, à China e até ao Irão, para obter um financiamento que lhe permitisse sair do euro. De todos estes países ouviu um sonoro e terminante não. Pode haver desavenças com a Europa, mas a nenhum destes Estados interessava contribuir para o colapso da zona euro. Por isso Krugman, um dos maiores apoiantes do Grexit, acabou a chamar incompetente ao governo grego.

 

Rejeitado por todos, Tsipras voltou, qual filho pródigo, para os braços do Eurogrupo. Mas voltou sem qualquer convicção, referindo que um dia a batalha vai dar frutos. Parece que estamos assim perante a velha estratégia leninista de dar dois passos atrás para dar um passo em frente.

 

Em qualquer caso, não parece que as feridas tenham ficado minimamente saradas e que Tsipras tenha desistido dos seus intentos. A Grécia é por isso hoje o cavalo de Tróia do euro, de onde os seus soldados estão preparados para sair a qualquer momento, voltando a fazer colapsar a cidadela.

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Competências sobrestimadas

por Rui Rocha, em 19.07.15

Paizinho Krugman vem agora dizer  que sobrestimou a competência do governo grego. Pelo visto, não passava pela cabeça de Paizinho Krugman que Tsipras & Varoufakis não tivessem um plano de urgência para o caso de as negociações com os credores levarem a resultados inaceitáveis. Pois muito bem. O que eu gostaria realmente de saber é que tipo de plano poderia ser esse, dadas as circunstâncias. É que uma saída do euro e a sua substituição pelo dracma, ou coisa que o valha, pressuporia sempre a existência de reserervas cambiais significativas. E isso é coisa que a Grécia não tem. Ora é surpreendente que Paizinho Krugman (ou Varoufakis), proficientes como são em questões económicas, desconheçam a impossibilidade prática de a Grécia optar por moeda própria nesse cenário. Por isso, das duas uma: ou alguém anda aqui a enganar deliberadamente a opinião pública ou, então, teremos de concluir que não é só a competência do governo grego que tem sido sobrestimada.

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O avião oficial de Tsipras

por Pedro Correia, em 16.07.15

«La última vez que Mariano Rajoy vio a su homólogo Alexis Tsipras antes de esta desastrosa semana fue el pasado día 26 cuando presenció cómo despegaba a toda pastilla de Bruselas el avión oficial del griego. Ya se lo había dicho el primer ministro portugués, Pedro Passos Coelho: "Para que veas. Yo no tengo avión oficial por los recortes, pero Alexis sí lo mantiene". Lo llamativo esa tarde era la rapidez con que la que Tsipras - que suele propinar largas y mitineras ruedas de prensa - se largaba. Lo que tramaba era convocar un referéndum para hacer fuerza negociadora que puede terminar siendo su sepultura política.»

Carlos Segovia, no El Mundo

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Manicómio em autogestão

por Pedro Correia, em 16.07.15

Dez dias depois do referendo que convocou para dizer "não" à austeridade, obtendo quase 62% nas urnas, Alexis Pirro Tsipras fez há minutos aprovar no Parlamento grego um documento que impõe à Grécia um pacote austeritário muito mais severo. Esse pacote, em que o próprio Tsipras diz não acreditar, corresponde à terceira intervenção financeira externa de emergência no país e foi validado por 229 votos favoráveis, com apenas 64 contra e seis abstenções. Resumindo e abreviando: o "não" de 5 de Julho passa a "sim" a 15 de Julho com o aval de 79% dos deputados. O primeiro-ministro obteve mais apoio da oposição do que dos parlamentares que só em teoria apoiam o Governo.

Por estes dias, a Grécia parece um manicómio em autogestão. Como se dizia do velho Portugal revolucionário de 1975.

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Grécia: leituras recomendadas

por Pedro Correia, em 11.07.15

A vitória da austeridade? De José Guinote, no Vias de Facto.

"Saída ordenada". De Vital Moreira, na Causa Nossa.

A táctica do Syriza. De F. Penim Redondo, no Dote Come.

Guião para ler as horas até domingo. De Francisco Louçã, no Tudo Menos Economia.

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Os indomáveis

por Pedro Correia, em 11.07.15

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«Sim, cometemos erros nestes cinco meses.»

Alexis Tsipras, esta madrugada, no Parlamento de Atenas

 

O Syriza chegou ao poder em Janeiro, festejado por toda a "verdadeira esquerda europeia". E também por representantes da "verdadeira direita" - a de Marine Le Pen, em França, e de Nick Farage, no Reino Unido.

Em clima de bravatas eurofóbicas, Alexis Tsipras e o seu flamejante ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, prometeram aos gregos aquilo que jamais lhes poderiam dar: um programa expansionista, que aumentava em 11,7 mil milhões de euros a despesa pública.

Foram ovacionados. Lá e .

 

Nesse momento a Grécia tinha acabado de sair de uma profunda recessão: equilibrara o seu saldo primário, apresentava uma leve recuperação económica (o produto cresceu 0,8% em 2014) e segundo as estimativas do Fundo Monetário Internacional o PIB do país aumentaria 2,5% no ano em curso.

Seguiram-se doze cimeiras europeias que não produziram resultados práticos, excepto os quatro meses de extensão do programa de assistência alcançado por Atenas a troco de mera retórica. E seguiram-se novas bravatas, que culminaram no inenarrável referendo plebiscitário de 5 de Julho, em que Tsipras voltou a defraudar os eleitores.

Prometendo-lhes algo que não estava em condições mínimas de lhes dar.

 

Nessa altura a Grécia já se tornara o primeiro país da NATO a suspender pagamentos ao FMI (deixando por transferir 3,5 mil milhões de euros a 30 de Junho).

Nessa altura, sem capacidade de financiamento, já Atenas se vira forçada a impor medidas drásticas de controlo de capitais.

Nessa altura já os bancos gregos estavam fechados compulsivamente após cinco meses de descapitalização contínua: mais de 40 mil milhões em depósitos voaram do sistema financeiro desde que Tsipras tomou posse.

Nessa altura já a maioria dos estabelecimentos exigia o pagamento em dinheiro vivo e pelo menos 20% das caixas multibanco estavam sem liquidez para remunerar os 60 euros diários de levantamento permitidos a cada cidadão.

 

O plebiscito abortou um acordo esboçado com as instituições europeias. Que daria luz verde a um terceiro programa de assistência financeira ao país a troco de reformas que mal ultrapassariam os 7 mil milhões de euros.

A 5 de Julho a maioria dos gregos votou sim. Foi uma vitória de Pirro do primeiro-ministro, como na altura escrevi aqui.

Três dias depois, já com Varoufakis fora de cena, o novo ministro das Finanças, Euclidis Tsakalotos, dirigiu uma carta à Comissão Europeia e ao Banco Central Europeu com um pedido formal de resgate. A troco de cortes estruturais na despesa pública que nunca serão inferiores a 14 mil milhões de euros.

Se antes tivessem procurado alcançar este consenso, a que só agora chegam em situação desesperada, teriam obtido contrapartidas menos duras.

 

O terceiro programa de resgate em cinco anos à Grécia deverá totalizar 53 mil milhões de euros e amarra os cidadãos helénicos a três anos de "austeridade" suplementar.

A mesma "austeridade" que Tsipras, na noite de 25 de Janeiro, afirmou triunfalmente ter terminado na Grécia.

 

As reformas começam quando o dinheiro acaba.

E, sem dinheiro, também as bravatas chegam ao fim.

Falando na longa madrugada de hoje aos deputados, Tsipras reconheceu que a Grécia vive num «ambiente económico de asfixia sem precedentes».

O terceiro pedido de assistência à Grécia em cinco anos foi aprovado no Parlamento de Atenas. Com 251 votos a favor, 32 votos contra, oito abstenções e a ausência de sete parlamentares da ala mais extremista do Syriza. Varoufakis foi um dos que se ausentaram.

Suprema ironia: valeu ao partido maioritário o apoio da Nova Democracia e do Pasok para conseguir luz verde do hemiciclo.

Falta agora a validação do pacote financeiro no Eurogrupo, no Conselho Europeu que reunirá de emergência amanhã e em pelo menos seis parlamentos nacionais, que poderão ratificá-lo ou chumbá-lo. Incluindo o Parlamento alemão.

 

Oiço agora alguns dizer - contra todas as evidências - que os governantes do Syriza "não cederam".

Pois não.

Só cederam no aumento do IVA (subida de 13% para 23% nos restaurantes).

E na questão das pensões (as do regime contributivo ficarão congeladas até 2021).

E no aumento da idade da reforma (dos 65 para os 67 anos).

E nas privatizações, que afinal vão por diante (portos do Pireu e de Salónica e redes de aeroportos regionais, nomeadamente).

E no imposto da propriedade, que será mantido.

E no quadro de mobilidade da função pública, que verá enfim a luz do dia.

E na exigência de condicionarem as reformas à reestruturação da dívida.

E na garantia aos cidadãos gregos que não haveria novas medidas de austeridade.

Mas quase não cederam nos cortes das despesas para as forças armadas. Os generais gregos podem dormir tranquilos no país europeu da NATO que tem maior ratio de militares por habitante e reserva maior fatia do seu orçamento para a defesa: 2,2%, correspondentes a 4,7 mil milhões de euros anuais.

Afinal só terão um corte de 300 milhõezitos nos próximos dois anos...

 

São indomáveis.

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O vencedor.

por Luís Menezes Leitão, em 10.07.15

Temos que reconhecer que Tsipras é um vencedor nato, tendo conseguido vergar totalmente os credores. Depois de inicialmente ter tido um sucesso retumbante ao conseguir que a troika se passasse a chamar as instituições, venceu estrondosamente o referendo que rejeitou um pacote de austeridade proposto pelo Eurogrupo. Com isto conseguiu aceitar agora um pacote de austeridade ainda pior. Como Tsipras sempre salientou "hoje a democracia vence o medo". Os gregos que o digam.

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Alexis Pirro

por Pedro Correia, em 06.07.15

pirro[1].jpg

Vitória clara de Alexis Tsipras, ufanam-se alguns "analistas" comentando o sufrágio de ontem na Grécia. Num  plebiscito com uma pergunta absurda, que já estava ultrapassada pelos acontecimentos no preciso momento em que foi impressa nos boletins de voto, numa campanha-relâmpago onde não houve tempo para um debate sério e esclarecedor, com os adeptos do "sim" quase remetidos à clandestinidade perante a maciça propaganda governamental favorável ao "não".

Que vitória?

Com a economia em derrocada, os bancos falidos, a recessão a regressar em força (após o país ter crescido 0,8% em 2014), a necessidade absoluta de financiamento externo de emergência para fazer face às despesas mais elementares e o espectro de uma saída descontrolada do euro se no próximo dia 20 falhar o pagamento de 3,5 mil milhões de euros ao Banco Central Europeu. E - na melhor das hipóteses - um terceiro resgate a caminho, sujeito ao crivo prévio dos parlamentos nacionais dos restantes países da eurozona, tão respeitáveis como o de Atenas.

Pirro era grego. E também ficou célebre pelas vitórias que alcançou.

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Just for the record

por Rui Rocha, em 05.07.15

Em caso de vitória do não no referendo na Grécia (o que me parece extremamente improvável, mas logo veremos e o povo é soberano), o Syriza prometeu: 1) afastamento do cenário grexit; 2) acordo com os credores em 48 horas; 3) bancos abertos na terça-feira; 4) ausência de qualquer tipo de bail-in sobre os depositantes. Tsipras, entretanto, não referiu em concreto a possibilidade de unicórnios sobrevoarem a Acrópole a partir da noite de Domingo, mas supõe-se que essa será a surpresa reservada para um eventual discurso da vitória.

 

Actualizado às 14.43. Afinal, parece que o prazo para acordo com os credores era pouco ambicioso:

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Lex talionis

por Rui Rocha, em 03.07.15

Os que louvam Tsipras, omitindo que este enganou os eleitores gregos ao prometer o que sabia não estar nas suas mãos cumprir, deviam ser obrigados a fazer campanha por Passos Coelho.

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Os garotos

por Rui Herbon, em 03.07.15

MINISTROS-GREGOS2.jpg

Os países não podem ser governados em estado de permanente excitação. É possível adoptar a estratégia da fuga para a frente a curto prazo, com gestos, slogans e propaganda que satisfaçam num momento concreto a maioria dos cidadãos, mas nem as grandes revoluções se conseguiram instalar na retórica da política-ficção de modo indefinido. Fazer política à margem da realidade é uma farsa inaceitável. Não é sério celebrar eleições em Fevereiro (que sufragaram uma política que, por ser contrária à defendida pela generalidade dos países da União, que nunca a aceitariam, implicava o incumprimento e a saída do euro) e convocar um referendo em Julho, a correr, porque o governo eleito não tem coragem para tomar decisões (a democracia, dizia Max Weber, é um instrumento para escolher os encarregados de adoptar as decisões supostamente justas e definir contra-pesos para limitar os seus excessos) e nem sequer soube gerir os problemas que afectavam muito dolorosamente a maioria dos gregos (a economia estava a crescer antes da tomada de posse do governo do Syriza).

 

Há dias Alexis Tsipras aceitava o núcleo duro das exigências dos credores. Poucos dias antes tinha abandonado as negociações e convocado, à noite e sem avisar ninguém, um referendo. Não se entende como, apesar de querer negociar, continua a apoiar o «Não» no referendo, cuja pergunta está totalmente ultrapassada, pois refere-se a documentos que, não tendo havido acordo até terça-feira passada, deixam de estar em vigor; e os seus ministros, à falta de argumentos, continuam a usar a demagogia: «campanha de terror contra a Grécia», «conspiração para derrubar um governo de esquerda» e por aí fora. Resumindo: a culpa é dos outros. Sempre que se empreende uma política baseada na ficção, alheia às leis vigentes e à realidade palpável, responsabiliza-se o suposto adversário ou inimigo pelos males pátrios. É essa a táctica secular de ditadores e populistas de meia-tigela (que são sempre aprendizes dos primeiros).

 

Os plebiscitos precipitados são jogos com cartas marcadas. Putin (oh, o amigo Putin) fê-lo na Crimeia, e Tsipras quer transferir para os gregos uma responsabilidade que é sua. A leviandade tem um preço demasiado elevado em política, que não é um jogo para garotos.

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Cai o pano

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.07.15

vaseIA.jpg

Se a convocação do referendo por parte de Alex Tsipras podia ser compreendida à luz das regras democráticas, a que os Estados dominantes da União Europeia têm fugido sempre que possível quando se trata de confrontar as suas decisões com a vontade dos povos, já o mesmo será difícil de dizer da errância de que tem dado mostras. Seguramente que não é fácil gerir um país na situação grega, sendo certo que o estado a que a Grécia chegou não foi fruto da irresponsabilidade dele ou de Varoufakis, mas sim de um conjunto de factores que vão da irresponsabilidade dos governos anteriores, tanto do PASOK como da Nova Democracia, que foram encanando a perna à rã, aldrabando as contas aos credores e disfarçando reformas, como foi também da ganância dos agiotas que, podendo ir acompanhando o que não ia sendo feito permitiram o arrastamento da situação através de sucessivos financiamentos, enquanto viam o défice crescer e as reformas necessárias eram trocadas por juros cada vez mais altos.

Para quem foi fustigado ao longo de meia dúzia de anos com sucessivos, e cada vez mais gravosos, pacotes de austeridade, com o dinheiro, as poupanças e as pensões de reforma a desaparecerem, o apelo do Syriza e a folha limpa que os seus líderes apresentavam em termos governativos aparecia como uma janela de esperança.

Volvidos estes meses é a própria esperança que se esvai. O pouco capital de credibilidade que ainda poderia possuir, Tsipras alienou-o da forma mais tonta e grotesca que se poderia imaginar. Porque em atenção às propostas que levaram o Syriza ao poder, se era legítimo que o referendo fosse convocado, independentemente do facto de isso já dever ter sido feito há mais tempo, isto é, logo que se apercebeu de que não conseguia lograr os seus intentos e que a continuação da negociação implicaria a rejeição do contrato eleitoral, não poderia fazê-lo revelando a incoerência de apelar ao voto no “não” e, ao mesmo tempo, continuar a negociar os termos da capitulação que entretanto aceitara. Para quê uma nova carta depois de dizer não aos credores e de ter anunciado o referendo?

Tsipras e o Syriza perderam a credibilidade. E, mais do que isso, perderam a razão. Que era não só a deles mas também a do povo grego, entregando-o à sua sorte, que em caso de vitória do “sim” no referendo, a meu ver previsível nas actuais circunstâncias, será igualmente a misericórdia dos credores. O desfecho, na linha da tradição dramática grega, não podia ser mais trágico.

Para a dignidade de um povo a vergonha do enxovalho por incompetência e espalhanço do mandatário é bem pior do que uma situação de incumprimento por carência objectiva de meios. Pode ser que a lição possa servir a outros, incluindo aos portugueses.

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