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Delito de Opinião

Planos obscuros

Cristina Torrão, 10.12.25

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"Que os EUA não considerem a China, nem a Rússia, mas sim, em princípio, a Europa como o maior perigo para a democracia e pretendam imiscuir-se na sua política interna, é absurdo e preocupante, em doses iguais."

Ingo Zamperoni, jornalista italo-germânico, a viver na Alemanha (um dos jornalistas mais conhecidos, neste país). É casado com uma norte-americana. O sogro é "trumpista".

Curiosidade: Já foi um "handsome".

«I could shoot somebody and I wouldn't lose any voters»

Pedro Correia, 26.08.25

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Parece que Donald Trump sonha ganhar o Nobel. Não o da Química ou da Medicina, mas o da Paz - logo ele, que em sete meses tornou o mundo ainda mais perigoso e se revelou absolutamente incapaz de pôr fim aos devastadores conflitos bélicos na Ucrânia e no Médio Oriente. Enquanto decretava uma guerra tarifária à escala planetária e ameaçava até nações aliadas, como o Canadá ou a Dinamarca, de invasão ou anexação.

Sonhar é fácil, mas a disparatada aspiração do marido de Melania jamais se tornará realidade. O que não constitui injustiça alguma. Injusto foi o boicote do Comité Nobel norueguês ao Papa Francisco, que faleceu em Abril, após 12 anos de pontificado, sem ter recebido o galardão que tanto merecia: ele sim, foi um incansável promotor da paz. 

 

O prémio que Trump tanto cobiça já distinguiu quatro presidentes norte-americanos - o primeiro republicano, os restantes do Partido Democrata.

Por esta ordem:

Theodore Roosevelt, em 1906:

«Pela sua intervenção para pôr fim à sangrenta guerra travada entre duas das maiores potências mundiais, Japão e Rússia.»

Woodrow Wilson, em 1919:

«Pelo seu papel na fundação da Sociedade das Nações.»

Jimmy Carter, em 2002:

«Por décadas de incansáveis esforços para encontrar soluções pacíficas para conflitos internacionais, impulsionar a democracia e os direitos humanos, e promover o desenvolvimento económico e social.»

Barack Obama, em 2009:

«Pelos seus extraordinários esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos.»

 

Trump não fez nada semelhante. Da sua boca, aliás, saem com muito mais frequência expressões de rancor e raiva do que proclamações de concórdia entre povos e nações - começando pelos insultos que ainda dirige a Joe Biden, seu sucessor e antecessor na Casa Branca. Como se estivesse em perpétua campanha eleitoral.

Martin Luther King, um dos cidadãos norte-americanos que receberam o Nobel da Paz, costumava dizer: «Não deves recusar apenas disparar sobre um homem: tens de recusar odiá-lo.» Premiado em 1964, viria a morrer assassinado quatro anos depois - por um bandido que fazia do ódio racial uma senha de identidade.

Ninguém imagina Donald Trump a pronunciar tão sábias palavras, enraizadas nas nossas melhores bases civilizacionais. Uma das suas frases mais tristemente célebres aponta até na direcção oposta: «Podia dar um tiro em alguém na Quinta Avenida e não perdia votos.»

Alguém que ousa afirmar isto fica moralmente impedido de pronunciar a palavra paz.

Vai ser o último a entender. Talvez.

Paulo Sousa, 20.06.25

Em 1994 a Rússia assinou o Memorando de Budapeste. Em troca da entrega do terceiro maior arsenal nuclear do mundo, a Ucrânia recebeu garantias de segurança.

Nesse mesmo ano, a Geórgia estabeleceu com Moscovo o Tratado de Amizade, Boa Vizinhança e Cooperação. Com a Arménia foi 1997. O documento mereceu o nome de Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua. Com a Síria dos Assad os acordos eram vários, alguns já do tempo da URSS. Todos eles asseguravam cooperação militar e política.

Já depois de ter invadido a Geórgia em 2008, onde ainda controla as regiões da Abcásia e da Ossétia do Sul, Putin formalizou, em 2015 e 2017, a presença da Força Aérea e da Marinha Russa na Síria com carácter de longo prazo.

Depois disso invadiu a Ucrânia e deixou a Arménia à sua sorte quando o Azerbeijão atacou o enclave de Nagorno-Karabakh.

A lista destes acordos de "cooperação" alarga-se a África. República Centro-africana, Sudão, Líbia, Mali e Burkina Faso. O Kremlin apoia uma facção, explora recursos locais e se o jogo virar, põe-se ao fresco.

Quando o regime sírio caiu, o melhor que Putin teve para oferecer ao seu ditador foi uma autorização de aterragem. Depois disso o carrasco de Damasco nunca mais apareceu. Se Assad ainda não foi defenestrado, deve fazer tudo para nunca ir além do rés do chão.

Mais recentemente, e já este ano no dia 17 de Janeiro, foi a vez do Irão. A tinta do tratado de parceria estratégica assinado entre a Rússia e o Irão (com uma validade de vinte anos) ainda mal deve ter secado. Esperando receber apoio para o seu programa nuclear, o Irão partilhou a tecnologia dos seus drones Shaed e até ajudou na construção de uma fábrica na Rússia. Quando os generais iranianos começaram a ser eliminados, Putin fez o que costuma. Nada. O Irão já não tem nada lhe para dar, apenas a incerteza que faz subir os preços do petróleo.

O currículo do actual Czar tem muitas mais traições que as constam neste pequeno resumo. A sua “confiabilidade” é internacionalmente reconhecida. Quando se assina qualquer coisa com ele, é quase uma garantia do exacto contrário. A minha maior surpresa continua a ser a convicção da excepcionalidade de Donald Trump. Se algum dia lá ele chegar, será o último dos humanos a entender que Putin só respeita a força.

Wag the Dog II

Maria Dulce Fernandes, 03.05.25

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Durante a campanha eleitoral para a presidência dos EU, publiquei aqui uma foto do candidato do partido republicano após um alvoroço de onde o candidato emerge com aquilo a que chamei "ketchup" na orelha direita. 

Quase me enterraram viva.

Não sei se estava errada, ainda ninguém me provou o engano, muito pelo contrário,  já que como dizia Maquiavel "os fins justificam os meios" e ele foi eleito. O filme "Wag the Dog" tratava algo muito parecido.

Numa recidiva contínua em 100 dias de inanidades e insanidades, brindou-nos com mais uma, de se tirar o chapéu. Falta de gosto? Falta de respeito? Falta de moral...

E o maluco sou eu...

Trumplundering

Paulo Sousa, 11.04.25

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Talvez um dia no futuro seja possível entender tudo o que tem acontecido nos últimos dias à volta de Donald Trump. Se o plano do POTUS é deixar o mundo sem saber o que vai acontecer na próxima meia hora, então está a ser bem sucedido. Esta incerteza é tudo o que os mercados financeiros não gostam. Quando os investidores ficam nervosos, biliões mudam de mãos, alguns ganham e outros perdem.

O senso comum leva-nos a acreditar que quando os mercados descem, todos perdem. A realidade é outra. Mesmo para quem não conhece os instrumentos de cobertura de risco, mas já viu e se recorda do filme A queda de Wall Street (The Big Short) sabe como isso não é assim. Sem querer entrar em grandes detalhes técnicos, quando um investidor tradicional compra um título, de dívida ou de capital, com a expectativa de que venha a valer mais no futuro, está no que se descreve numa posição longa. A sofisticação dos mercados financeiros levou a que fossem criados instrumentos de cobertura de risco (que podemos comparar a um seguro) que permite ter ganhos se as cotações dos activos em causa caírem. Essa é a posição curta. É possível também explicar isso como se um investidor, convicto de que um activo irá descer, entrasse no mercado como vendedor ao preço desse momento, para mais tarde fechar a sua posição, comprando ao preço verificado após a queda. Mas mesmo com todos esses instrumentos, a incerteza é sempre inevitável. É impossível saber o que vai acontecer a seguir. Excepto para Donald Trump. Sabendo o que vai acontecer nos próximos momentos bolsistas, é possível ir mudando de posição curta para longa de modo a ganhar em qualquer cenário.

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Quando o membro da administração de uma empresa tira partido de informação privilegiada que detenha, fazendo compras ou vendas, antes de isso ser informação pública, está sujeito a pesadas penas de prisão efectiva. Resta saber se isso se aplica ao presidente. 

Como dizia no início, talvez tudo o que se tem passado nos últimos dias, e refiro-me às históricas amplitudes de descidas e subidas dos mercados financeiros, venha a ser revelado no futuro. O que é certo é que Trump, e os seus sequazes, podem ter tirado partido de todas estas manobras. Pode ser apenas mais uma teoria da conspiração, mas repito a pergunta que já fiz neste postal. Se fosse esse o seu propósito, o que é que Trump teria feito de diferente?

A estupidez de Trump e acólitos

João André, 03.04.25

Donald Trump announces 27% tariffs on Indian imports, but others are hit  harder | Economy & Policy News - Business Standard

Tenho evitado falar muito de Trump, não só aqui no Delito, mas em geral. Deixa-me deprimido, saber que faz o que faz sem que alguém o controle.

Depois do anúncio das tarifas de ontem, tenho dificuldade em o evitar. A Cristina tem andado a listar algumas das atrocidades e fez-nos o serviço de publicar o artigo de Miguel Sousa Tavares que faz um apanhado de algumas das decisões ridículas que têm saído de Washington (e noutros posts de outros delituosos vemos mais). Há no entanto um aspecto na questão das tarifas que é difícil deixar passar em claro. Como foram decididas.

Trump falou na reciprocidade. Claro que não é isso que implementou, porque se o fizesse, o grunho Musk teria de recontratar toda a gente despedida e iniciar um enorme programa de emprego no Departamento de Comércio para poder replicar as tarifas em todo o mundo. Também não replicou simplesmente a tarifa média desses países sobre bens (manufacturados, os serviços estão isentos) adquiridos nos EUA.

O método foi este: dividir as o défice comercial (em dólares) para esse país pelas importações americanas desse mesmo país, obter esse rácio e, se positivo (ou seja, os EUA têm um défice comercial com o país), dividir esse rácio por 2 e aplicá-lo como tarifa.

Exemplo: se o país X exporta 100 mil milhões de dólares de bens para os EUA e os EUA exportam 75 mil milhões para o país X. O défice é 25 mil milhões. O rácio é 0,25 (ou 25%). Resultado: aplica-se uma tarifa de 12,5% (aparentemente arredondou tudo para cima, ou seja, seria 13%). Para não haver azares, a tarifa mínima fica-se pelos 10% (com o Reino Unido aparentemente há excedente comercial em favor dos amaricanos, mas levam com 10% na mesma).

Para quê estudar economia, micro ou macro, fazer matemática mais extensa que o 5.º ou 6.º ano, entender consequências, etc.? Não vale a pena. O génio estável de Trump e do seu bando de moluscos* é quanto basta para tudo.

 

* - tenho noção que com isto provavelmente acabei de impedir a minha entrada no país por vários anos. Não me parece que venha a ter pena disso.

Certeiro!

Cristina Torrão, 30.03.25
Não sei se é permitido. Talvez eu esteja, à semelhança de Luís Montenegro, não a praticar um crime, mas a demonstrar "falta de ética". Porém, não resisto. Esta crónica de Miguel Sousa Tavares, publicada no Expresso, no passado dia 27, é tão, mas tão certeira... impossível não divulgar. Na verdade, copiei uma cópia, divulgada no Facebook.

Gostaria de acrescentar que não sou grande admiradora de Miguel Sousa Tavares, por, normalmente, tanto discordar dele. Depois de Trump ter ganho as eleições norte-americanas, porém, não podia concordar mais, pelo menos, sobre este assunto.

Os realces são da minha responsabilidade.

 

UM SÓ HOMEM (Miguel Sousa Tavares, Expresso, 27/03/2025)

 

«No dia 20 de Janeiro, depois de ter assistido à tomada de posse de Donald J. Trump como Presidente dos Estados Unidos, prometi a mim mesmo que não iria seguir obcecadamente cada passo da sua administração nem me deixaria deprimir pelo que aí vinha. A vida tem motivos muito mais interessantes do que acompanhar o desvario político, mental e humano do homem mais poderoso do mundo. Sim, Trump é Presidente dos Estados Unidos e os Estados Unidos detêm a maior capacidade militar e nuclear do mundo. Quer isto dizer que, em querendo, podem dar ordens ao mundo inteiro e ditar o destino de todos. Mas o meu, não.

 

Enganei-me: o meu também. Não consegui manter a minha promessa pela simples razão de que tudo o que está a acontecer na América ultrapassou em pior a minha imaginação, e como eu vivo neste tempo e neste mundo em que está um bandido à solta na Casa Branca e um grupo de marginais a acolitá-lo, não é possível, como cantava o Adriano Correia de Oliveira, viver serenamente. Não é possível, por mais que se queira — até como forma de resistência —, abstrair das malfeitorias diárias do Presidente dos Estados Unidos.

 

Se a agenda foi cumprida, o Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, Mike Waltz, acompanhado de altas patentes militares, está esta sexta-feira na Gronelândia para avaliar in loco as potencialidades militares de um território a que Trump disse que, por razões de segurança, ia deitar a mão, “de uma maneira ou de outra”, comprado ou invadido. Na comitiva vai também a “vice-primeira dama”, a mulher do idiota J. D. Vance, e um filho, viajando em missão turística para ela mostrar à criancinha a conquista que o pai e o seu amigo Presidente vão fazer para os Estados Unidos. A Gronelândia, recorde-se, pertence à Dinamarca e a Dinamarca pertence à NATO, a organização militar de defesa comum liderada pelos Estados Unidos. Isto parece inacreditável, mas somos forçados a acreditar depois de termos visto, apenas nos primeiros 60 dias de governo, Trump reivindicar, além da Gronelândia, o canal do Panamá, a Faixa de Gaza, as riquezas minerais e as centrais nucleares ucranianas, e mesmo o Canadá, a quem convidou a tornar-se o 51º estado da União!

 

Por falar em NATO, ficámos também a saber que Trump não garante que os Estados Unidos respeitem o artigo 5º do Tratado, o “um por todos, todos por um”, que é o fundamento da organização. Mas como poderia garanti-lo se ele próprio fala abertamente em tomar posse de territórios, ou mesmo de países, seus aliados na NATO? A sua regra é simples: se é do seu interesse, da sua segurança ou do seu aprovisionamento estratégico, os Estados Unidos têm o direito de fazerem o que quiserem. Ao mesmo tempo que ele, Trump, ordena aos aliados europeus que desatem a gastar fortunas em armamento comprado aos Estados Unidos e delicia-se a receber, em audiências de vassalagem, os grandes da Europa, Keir Starmer e Macron, ou o seu pau-mandado Mark Rutte, secretário-geral da NATO, que lhe foi dizer que as suas ordens serão obedecidas e que a organização atlântica está pronta a marchar “under your comand, Sir”.

 

Entretanto, ameaça os palestinianos com o “inferno”, como se fosse novidade para eles, e bombardeia os hutis no Iémen para se substituir ao “parasitismo europeu”, como lhe chamou Pete Hegseth, um atrasado mental vindo da Fox News directamente para chefiar o Pentágono. A devoção de Trump por Israel é tanta, o seu desejo de tudo dar ao seu amigo Netanyahu é tamanho, que a polícia de emigração está a expulsar do país estudantes que participaram em manifestações contra o massacre em Gaza, mesmo que sejam residentes legais nos Estados Unidos, e a impedir de entrar no país quem se manifestou pela Palestina: agora, para entrar nos Estados Unidos é preciso nunca ter posto em causa as acções de Israel e sair é arriscar não poder voltar a entrar. Uma após outra, as principais universidades do país vêem o governo federal cortar-lhes os fundos sempre que alguém, no governo de Trump se lembra de ter lá visto manifestações pró-Palestina: Harvard ainda resiste, Columbia já ajoelhou, pronta a alinhar com o desejo de Trump de “banir esta insanidade antiamericana de uma vez por todas”. De caminho — coisa verdadeiramente inédita — encarregou a ministra da Educação de extinguir o respectivo Ministério, declarando que “agora é que vamos ter educação a sério!”. O pretexto é a invocada “esquerdização” do ensino e das universidades, das suas políticas de integração agora proibidas ou o desperdício de dinheiros públicos em aprendizagens inúteis ou antipatrióticas. Mas, na verdade, esta fúria contra o saber que está a paralisar a investigação nas universidades e a aterrorizar todos fundamenta-se numa coisa que é própria da ignorância arrogante de Donald Trump: o ódio à inteligência e ao conhecimento, que, para ele como para os seus apoiantes do MAGA, representa apenas a justa revolta do povo contra as elites intelectuais e académicas. O programa de Trump não é o de aproveitar e tirar partido do melhor dos Estados Unidos — a excelência de um ensino universitário que deu ao país dezenas de Prémios Nobel e o colocou na vanguarda do conhecimento científico e tecnológico. O seu programa e o seu génio político é ter sabido interpretar a nova luta de classes, que não é entre quem tem e quem não tem, como imaginou Marx, mas entre quem sabe e quem odeia os que sabem.

 

Mas, bem entendido, a grande ameaça de Trump à democracia americana e ao Estado de Direito na América e no mundo é o seu profundo desprezo por princípios que temos como universais nas nações civilizadas. Trump comporta-se como um Nero reencarnado, cego de vaidade e embriagado com o desfrute de um poder sem limites. O exemplo extremo disto foi a deportação para a Guatemala, e para uma prisão tida como a mais desumana do mundo, de uma centena de imigrantes venezuelanos que alguém decretou subitamente serem membros de um grupo de criminosos. Sem julgamento, sem instrução e sem defesa, foram expulsos dos Estados Unidos e enfiados numa prisão guatemalteca, sem prazo definido de detenção. Assim, o Presidente americano, sem qualquer interferência da Justiça, arroga-se o poder de acusar, julgar, condenar, decretar e executar a sentença, mesmo em país alheio: juiz de instrução, juiz de julgamento e juiz de execução de penas. E quando um juiz verdadeiro quer saber porque não foi obedecida a sua ordem de suspender a expulsão dos venezuelanos, Trump ameaça afastar esse e todos os juízes federais que contrariem judicialmente os seus desejos, e começou a perseguir, com as suas já célebres notas executivas, até as sociedades de advogados que representaram ou onde trabalhou alguém que o tenha investigado no passado. Trata-se daquilo a que agora chamam o “brokenism”, a política de partir tudo, mesmo a Constituição dos Estados Unidos e os direitos e garantias individuais, em nome da revolução conhecida como Projecto 25 — a tomada de poder por um homem e uma facção ao seu serviço no mais poderoso país do planeta. E, sobre tudo isto, alia a um desejo de vingança sobre quem não lhe reconheceu a vitória eleitoral em 2020, uma crueldade assustadora. O Presidente que se dispõe a fazer propaganda a favor do homem mais rico do mundo, transformando a Casa Branca num stand de automóveis Tesla, é o mesmo que da noite para o dia extinguiu a USAID, mandando para o desemprego todos os seus funcionários e condenando milhões de pessoas à fome, à doença e à miséria, em África e na Ásia pobre, e que corta todas as verbas para a investigação de vacinas para doenças como a malária.

 

Como é que chegámos aqui? Como é que a “land of the free”, uma nação de referência do mundo democrático, num instante se está a transformar num fascismo unipessoal? Como é que chegámos aqui? Chegámos pelo voto popular, pela escolha da maioria dos americanos. Porque hoje já não é necessário derrubar as democracias por golpe militar: derrubam-se nas urnas por voto popular manipulado e planeado por golpistas silenciosos nas redes sociais.»

Cancelamentos de Trump

Cristina Torrão, 17.03.25

Da distinção

Cristina Torrão, 08.03.25

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Para essas questões filosóficas, tenho o Lavrov. Ó Lavrov!

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Putin: Explica aí ao pessoal como se distingue entre homens e mulheres.

Lavrov: Então, os homens somos nós, certo?

Putin: Sim, já me tinha apercebido.

Lavrov: E as mulheres são aqueles outros seres, aos quais não damos tempo de antena. Que nós não somos como os estúpidos dos europeus. Deixam-se ir na cantiga delas. Hoje até festejam um tal Dia da Mulher. Hahahaha!

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Jazus! Que me matas, filho.

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Boa, boa! Eu também já aprendi convosco. Colocar mulheres em posições de alto nível é uma armadilha woke na qual não torno a cair.

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Ainda não aprendeste a falar, ó Elon... Quê? Ai isto não era para dizer? Ups.

Trumpofobia e trumpofilia*

José Meireles Graça, 05.03.25

De Marcelo diz-se que é muito inteligente, culto, habilidoso e querido do povo que lisonjeia, ao qual passa a mão pelo lombo patrioteiro e amante de musiquetas e telenovelas. Tudo verdade. E todavia, com excepção de jornalistas que vivem das rodilhices da política, e dos políticos que são obrigados a tomar em linha de conta o que Sua Excelência diz, ninguém de consequência o leva a sério porque dali não vem nem nunca veio um pensamento com alguma profundidade, uma ideia com alguma originalidade e um desígnio que não seja a vulgata do europeísmo e das ideias que andam no ar da moda do extremo-centro.

De Trump diz-se que é um grosseirão, ignorante e bronco, com educação de carroceiro, gostos de empreiteiro e deslumbramento de pato-bravo. Tudo verdade.

O primeiro não fez nem uma ruga no lago da história do país democrático, e ainda menos no mar da história tout court. O segundo agita as águas do mundo, pôs a Europa em convulsão, quer pôr Israel a dar um já chega! no terrorismo palestiniano, acabar prestes com a guerra da Ucrânia, fazer as reformas do Estado que a direita impotente, que é quase toda, anda há décadas a dizer que vai fazer, e mandar para os cafundós da irrelevância a cultura woke, substituindo-a pelo senso e a tradição, e com tudo isso restaurar a grandeza dos EUA, que acha, e está, em risco.

Um abismo separa os dois homens, tanto neles próprios quanto na importância relativa dos respectivos países, quanto nas circunstâncias. De comum têm apenas o terem sido limpamente eleitos.

Quer dizer que o eleitorado português é lúcido porque elege um intelectual capaz de fazer nada e o americano estúpido porque elege um bully aldrabão com vontade de fazer muito?

Não. Foram ambos eleitos porque respondem a necessidades do eleitorado. E o que isto significa é que o que eles são interessa pouco e o que eles defendem muito.

Donde, deixem lá em sossego o perfil intelectual e psicológico de Trump, isso pode alimentar-nos a repulsa apenas na medida em que nos limita a compreensão.

Para o compreender comecemos por um ponto: Por que razão uma faixa de pessoas na Europa, incluindo entre nós, aprecia o que está a fazer? Um amigo meu da variedade ide-vos catar mais o que pensais fez um resumo indicativo (que se refere também à guerra da Ucrânia, já lá vou), em tom chocarreiro e que, porque o conheço bem, sei que não é para interpretar literalmente, mas suficiente para se perceber a tónica:

“A guerra que me interessa é cultural. É essa guerra que combato, literalmente, diariamente na universidade. Nessa guerra cultural, o Putin é meu aliado, o Trump é meu aliado, o Vance é meu aliado, o Órban é meu aliado… a Europa é minha inimiga. Sou, sem reservas, pró-Putin… entre ele e a comissão europeia, prefiro o Putin; entre o Guterres e o Putin, prefiro o Putin; entre o Starmer e o Putin, prefiro o Putin; entre o Sanchéz e o Putin, prefiro o Putin. Mas respeito quem não goste do Putin. Não vejo é qual é o problema do Putin quando comparado com gente que não distingue um homem de uma mulher. Não vejo mesmo…”

Esta lista podia incluir cancelamentos, educações para a cidadania, imigrações desregradas e um sem-número daquelas coisas que a direita boazinha, porque tolera, sufraga, e que constituem o corpus do que se chama cultura woke, que é a designação inventada para o esquerdismo insidioso. E como vivemos em sociedades democráticas, tenham lá paciência (e contenção para não cancelarem o resultado de eleições, como na Roménia, ou fecharem a matraca a desalinhados, como se planeia para as redes) se houver um número crescente de eleitores “extremistas”.

Este caldo alimenta a desconfiança sobre a razoabilidade da continuação de uma guerra sem fim à vista, que prossegue sob pretexto de Putin ser um demónio, Zelensky um santo e Trump um valentão ridículo.

Já eu acho Putin um czar agressivo e expansionista, Zelensky um herói não necessariamente ornado de qualidades de senso e Trump um epígono da América isolacionista.

Que Trump é um isolacionista, porém, não é uma opinião, é um facto. Que, na sequência disso, não está disposto a bancar o pato da NATO também parece evidente, e é aliás uma inclinação que já vem de anteriores presidentes. E que quer acabar com a guerra da Ucrânia e o seu sorvedouro de dinheiro resultou evidente da famosa conferência na Sala Oval, glosada em mil artigos indignados com a humilhação de Zelensky e a grosseria dos anfitriões.

Também fiquei indignado. Excepto pelo facto de que numa guerra onde todos os dias morrem e se estropiam soldados, e se destroem bens e infraestruturas, a indignação de quem não está disposto a mandar os seus filhos para lá, e não tem ainda consciência do que lhe sai do bolso para a alimentar, não ser a melhor conselheira.

De modo que peço desculpa por não dar nada para o peditório da guerra de trincheiras de paleio e reservar a minha opinião para quando souber:

Qual é exactamente o plano da administração Trump? Porque um acordo de paz implica concessões de ambos os lados, mas se o agressor retirar um benefício líquido demasiado importante pode isso ser o choco de guerras futuras – na Polónia, nos países bálticos, na Escandinávia, até mesmo em Taiwan se o isolacionismo americano der sinais de valer tudo na construção multipolar de esferas de influência.

As garantias de defesa são o quê? Investimentos americanos significativos na Ucrânia, por si, são um óptimo dissuasor, mas provavelmente insuficiente. Porém, a ideia de que é a UE que pode decidir que garantias os americanos devem prestar é uma boa receita, com Trump, para não se chegar a lado algum.

O plano dos países europeus da NATO de reforçarem as suas despesas militares é um bom plano, quer a NATO se desfaça quer não – si vis pacem para bellum e toda essa espécie de coisas.

Finalmente, o esbracejar de Starmer e Macron, com posições centrais porque representam países com a bomba, é por si compreensível mas suscita alguma estranheza porque ambos protestam ter boas relações com Trump. O que permite supor que talvez isso não seja apenas (boa) política, mas antes um acordo debaixo da mesa para nas negociações com Putin Trump ficar com o papel do polícia bom e os outros com o de polícia mau.

Não sei, realmente não sei, e duvido que entre os meus amigos putinistas de circunstância que querem acabar com a guerra dê lá por onde der; e os europeístas frenéticos que são completamente a favor de que continuem a morrer ucranianos: alguém saiba.

Quando tudo clarear também vou para as trincheiras da treta, de canhangulo.

* Publicado no Observador

Então e as Lajes?

Paulo Sousa, 02.03.25

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Os trumpistas andam encantados com as decisões do actual Presidente dos EUA, nomeadamente no que toca às relações atlânticas. Sem qualquer estranheza, este encanto só é ultrapassado pelo dos próprios putinistas.

Haverá ali um qualquer adianto no raciocínio de Trump, e que apenas uma elite escolhida conseguirá acompanhar, segundo o qual o regresso da grandeza da América (MAGA) será apenas possível quando os EUA deixarem de ter aliados.

Depois do que se passou na Casa Branca entre Trump e Zelensky, a Haltbakk Bunkers, uma companhia petrolífera norueguesa, anunciou que irá deixar de abastecer os submarinos americanos. Naturalmente que a decisão não foi do CEO da companhia, mas do Estado Norueguês, que é um país que se leva a sério e tem uma autonomia estratégica que lhe permite tomar tal decisão. Tivéssemos nós capacidade idêntica, em vigiar e proteger o nosso espaço atlântico, e certamente poderíamos decidir algo idêntico no que toca à base das Lajes. Ao fim e ao cabo, foram os americanos que há dez anos começaram a retirar-se de lá. Porque estão a demorar tanto tempo a sair?

Se Portugal avançasse para algo idêntico, seria também esclarecido um mistério com que nessa altura me deparei. Quando os americanos anunciaram que iriam reduzir a sua presença nas Lajes, espantosamente à época, o PCP mobilizou-se contra isso. Eles sabem coisas e já estariam era a antecipar o efeito Trump. Foi isso! O oráculo da Soeiro Pereira Gomes só não funciona para lhes devolver os resultados eleitorais.

Entretanto os submarinos americanos não ficarão sem gota nos depósitos, pois a base russa de Murmansk recebê-los-á de braços abertos. E eu continuo curioso com os efeitos que os últimos dias terão na popularidade interna de Trump.

Contra a cobardia

Cristina Torrão, 01.03.25

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Ser pela Ucrânia é ser pela Europa.

E eu sou pela a Europa, contra os bullies. Contra quem gosta de humilhar e nunca enaltece ou defende direitos humanos. O discurso de Trump é profundamente misantropo, agressivo, humilhante, manipulador. Mente hoje e amanhã dá-lhe uma amnésia. "Disse isso, eu? Não me lembro". Não há honra, não há dignidade, não há palavra. E um homem sem palavra, não é um homem. É um rato. De esgoto.

Trump, Musk e Vance são ratos. São incapazes de empatia, ou de compaixão. São psicopatas.

Acredito que a partilha das dificuldades pode reforçar os laços e a identidade europeia. Num esforço de segurança comum. E é certo que também Trump tem muito a perder, sem a Europa do seu lado.

Por mim, o boicote à Casa Branca seria total. Nem mais um líder europeu de visita, por iniciativa própria, às ratazanas de esgoto! Chega de ir lá, dobrar a espinha! Deixemo-los a falar sozinhos, todos satisfeitos, na sua verborreia!

O mundo vai ficar mais perigoso? Para o bem e para o mal, estamos no meio do vulcão. Resta avançar de cabeça erguida. Sejamos gente!

Contra essa espécie de união entre comunistas e cheganos da pior espécie.

Contra os cobardes!

Da idolatria

Pedro Correia, 28.02.25

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Os comentadores da direita extremista - como se verifica nas caixas de comentários do DELITO - expressam um ódio à Europa liberal em tudo idêntico ao da esquerda mais extremista.

Ódio que tem hoje farol e guia: Donald Trump, cem por cento descendente de europeus, filho de imigrantes de segunda geração e neto de quatro avós que não tiveram o inglês como língua materna. *

 

Este ódio visceral está expresso numa frase debitada anteontem pelo novo-velho inquilino da Casa Branca, com a elegância que o caracteriza e a arrepiante ignorância histórica de que dá mostras quotidianas: «A UE foi criada para lixar os EUA.»

Mas este assumido anti-europeu e "pacifista" belicoso que acaba de declarar guerra comercial à União Europeia impondo taxas draconianas à importação de produtos aqui produzidos (prejudicando também Portugal), num ataque despudorado aos princípios liberais, vive no lado de lá do oceano.

Pode dar-se ao luxo de tratar inimigos como aliados e aliados como inimigos. É, aliás, o que tem feito desde o primeiro dia do seu novo mandato.

 

Os fanáticos apoiantes dele cá do burgo beneficiam da democracia liberal europeia (o sistema político mais invejado do mundo), mas escrevem como se odiassem Portugal. E como se desejassem viver na terra do Tio Sam.

Azar deles: o falso pacifista, filho e neto de imigrantes, declarou guerra também à imigração. Nenhum destes membros tugas do seu clube de fãs seria hoje admitido como residente nos EUA. Para não contaminarem a "Terra Prometida".

Terão de aplaudir o Bonaparte de Mar-a-Lago à distância.

Coitados, deve ser penoso. Idolatram quem os rejeita - a eles, ao país onde nasceram, ao continente onde residem.

 

* Trump assinou hoje um decreto impondo o inglês como idioma oficial dos EUA, facto inédito na história do país, independente há quase 250 anos. Freud talvez explique.

TRUMPUTIN

Pedro Correia, 25.02.25

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Washington juntou-se ontem a Moscovo, na Assembleia Geral da ONU, num voto contrário à condenação do assalto russo à Ucrânia e ao apoio à integridade territorial deste país soberano. No própria dia em que se assinalava o terceiro aniversário da criminosa agressão a Kiev, a mando do regime totalitário de Vladimir Putin. 

Só 16 países representados na Assembleia Geral acompanharam russos e norte-americanos nesta posição. Entre eles, a Bielorrússia, a Nicarágua, a Guiné Equatorial, a Eritreia, o Mali, o Sudão e a Coreia do Norte.

Podemos concluir: nunca os EUA andaram tão mal acompanhados.

Isto não impediu a resolução - proposta pela generalidade dos países da União Europeia e pela própria Ucrânia - de ser aprovada por larga margem: 93 votos a favor, 18 contra e 65 abstenções.

Assim se consumou, para quem ainda alimentasse dúvidas, a ruptura do consenso euro-atlântico por decisão unilateral da Casa Branca. À vista de todo o mundo, num lugar tão emblemático.

Confirma-se: esta administração de Donald Trump e J. D. Vance vai conduzindo os Estados Unidos da América a um colapso moral. Não demorou meses ou anos, como muitos previam. Bastaram trinta e poucos dias.

Quando a realidade parece ultrapassar a ficção

Paulo Sousa, 22.02.25

O virar de mesa de pernas para o ar em curso na geopolítica global dá azo a muitas unhas roídas e à procura de situações passadas de onde seja possível pescar dicas para lidar com a actualidade.

Lembrei-me de um livro, que li há uns anos, sobre uma operação levada a cabo por Moscovo, e que devo ter emprestadado pois não o encontro onde deveria estar. Muito resumidamente consistia em criar uma sósia da primeira-dama do EUA, para depois a substituir pela verdadeira. Com um activo infiltrado em tal nível de proximidade com o POTUS, o KGB conseguiria um acesso sem precedentes ao último decisor do seu maior rival. Apenas uma imaginação prodigiosa conseguiria urdir um enredo tão arrojado. A obra, A Segunda Dama, é assinada por Irving Wallace e chegou-me ás mãos numa edição Livros do Brasil.

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Entretanto chegamos a 2025 e, nos últimos dias, já tropecei em diversas entradas nas redes sociais que afirmam que Trump, desde uma das suas falências nos anos 90, é ele próprio um agente ao serviço dos russos. Nunca saberemos se é apenas mais uma teoria da conspiração, mas a questão que me coloco é seguinte: se fosse verdade, o que é ele teria feito de diferente nos últimos dias?