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Declaração de voto II

por José Meireles Graça, em 24.08.20

Em 2016 escrevi, a propósito da eleição de Trump, um texto seminal onde a determinado passo se dizia assim: “Vai ser, então, um bom mandato? Acho que sim”.

Um amigo já morto, detentor com justiça da notoriedade que com a mesma justiça a mim me falta, e que tinha opinião oposta, disse-me: És capaz de ter razão!

Tinha. E passado pouco mais de um ano pude, com assinalável modéstia, lembrar aos incréus o bem fundado do meu palpite.

Em 2018 fiz o ponto: “Talvez fosse tempo de a direita lhe dar o benefício da dúvida”.

Não deu. Tudo o que Trump diz (e, infelizmente, o homem nunca aprendeu a pensar duas vezes antes de falar, em vez de fazer precisamente o oposto) é passado ao pente fino do hipercriticismo, enquanto as suas reais conquistas, no plano interno como no externo, são votadas a um silêncio desdenhoso e revelador. Isto enquanto a guerra suja do Partido Democrata, inconformado com a rejeição de um acquis que julga civilizacional, e é na realidade a versão americana do mesmo socialismo que todos os dias faz a UE um pouco mais irrelevante, vai atingindo píncaros de promiscuidade com o Poder Judicial, e destruindo a credibilidade de uma comunicação social que há muito, lá e cá, deixou de cultivar a independência opinativa e a seriedade noticiosa.

Fora destes textos, raramente abri a matraca, porque Trump não deixa: não se pode razoavelmente defender um tipo que vai todos os dias expectorar tolices para o café reles, manhoso e primário que o Twitter é. E de tanto gritar olhem para o que o homem faz, não para o que diz, corria o risco de ficar rouco.

A guerra verdadeira não é entre as grosserias de Trump e o palavreado delicodoce de Biden, uma versão medíocre do demagogo Obama; é entre uma América grande, que talvez esteja numa decadência que é o destino inelutável de todos os impérios, e que Trump quer retardar, e outra que se condena a suicidar-se na dissolvência do socialismo mole que matará a competitividade, a vitalidade e a superioridade da economia americana.

Biden, praticamente uma não-pessoa, escolheu como colega de ticket uma preta (afro-americana, como dizem lá pela mesma razão que, aqui, os arrumadores de carros passaram a chamar-se técnicos de parqueamento automóvel). E como não ando ao corrente das trincas e mincas da politiquice americana, aguardei que me dissessem quem é a personagem. É isto.

A manobra é transparente e bem vista: trata-se de garantir o voto dos negros e das mulheres. Kamala Harris não é lésbica, que se saiba, nem portadora de uma deficiência qualquer, senão fazia o pleno.

Não faltam vozes a defender o valor simbólico da eleição de uma mulher, por o ser; e preta pela mesma razão.

Esse valor simbólico existe, e é por existir que talvez tenha valido a pena a eleição de Obama: ao menos acabou-se com a generalizada convicção de o racismo histórico da América impedir a eleição de um preto. Mas não me parece que existam os mesmos obstáculos a mulheres – basta ver a votação de Hillary, um exemplo acabado do que de pior pode produzir a classe política americana. De modo que as feministas e os feministas (sim, não faltam por aí uns tipos que passam a vida a lisonjear os preconceitos e ambições de parte do mulherio, para o efeito de lhes agradar como se elas não tivessem inclinação para escolher os homens que não lhes convêm) o que têm a fazer é arranjar uma candidata convincente. E há: Nicky Haley, por exemplo, mas não é democrata, que maçada.

Que fique claro, por causa da brigada bem-pensante: se Thomas Sowell fosse novo, e gay, e candidato, e eu fosse americano, teria o meu voto; a tal Nicky Haley também, com a condição de a conhecer um pouco melhor; e ter um genro preto, e netas pretinhas, nem por um segundo me afligiria. De modo que quem quiser interpretar as minhas opiniões à luz do racismo pode bem, com licença, ir para a puta que o pariu.

O que sucede é que, lá como cá, a riqueza não se multiplica pelo efeito de se a dividir, a eficiência não aumenta pelo efeito de se a regulamentar, e um Estado forte não é a mesma coisa que um Estado grande. Escolher um chefe de Estado não é equivalente a escolher um namorado, um sogro, um amigo, um sócio, a pessoa com quem se gostaria de jantar ou aquela com quem se apreciaria discutir a obra de Elena Ferrante.

Se bem que, no caso do jantar, Trump talvez levasse vantagem sobre Marcelo. Ao menos, a ementa não seria vichyssoise e Trump alardearia a sua imensa e genuína ignorância, em vez do vasto manancial de superficialidades de Marcelo. Mas o meu post não é sobre esta importante diferença.

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A liberdade de desmentir

por Paulo Sousa, em 07.08.20

Pela primeira vez o Facebook removeu uma publicação do Presidente Trump com a justificação que a mesma não era verdadeira.

Faço parte do imenso grupo de vários biliões de seres humanos que desprezam o sujeito Donald Trump. Mas este grupo tem uma grande diversidade. Nele junta-se quem ache que os EUA pelo que representam, e pelo que contribuíram para o actual concerto das nações, nunca tiveram um representante de tão baixo nível, em termos humanos inclusivamente. Mas este grupo inclui também os que apoiam regimes autoritários e até totalitários. Esses odeiam Trump pelo que é, mas acima de tudo pelo que os EUA representam.

Uns e outros, com maior ou menor contenção, alegraram-se pela remoção desta publicação de Trump. Mas, pergunto eu, em que outro país com dimensão para ter uma rede social própria (seja a Qzone, a Weibo, a VK, a Odnoklassniki, a TikTok, ou outras) seria possível desmentir desta forma o líder do próprio país?

Terrorismo, violência e antifascismo [Pub]

por Diogo Noivo, em 07.06.20

"É verdade que existem paralelismos entre o ANTIFA e as organizações terroristas do passado e do presente. A crença em messianismos históricos, a inversão do ónus da responsabilidade – dizem actuar porque as circunstâncias a isso os obrigam, não por vontade própria – e a atribuição à violência de um papel transformador da sociedade são semelhanças inegáveis. Ademais, exacerbam e instrumentalizam sentimentos de revolta invocando ânsias de justiça quase sempre definidas de forma sectária. Procuram cavar abismos comunitários para dividir as sociedades e acender rastilhos ideológicos junto das populações. Mas há elementos essenciais em falta para cumprir os critérios inerentes a uma organização terrorista." - no Observador.

A Saga da Gronelândia (reescrita)

por Cristina Torrão, em 21.08.19

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Pintura de Carl Rasmussen

Apesar de ter governo próprio, a Gronelândia pertence à coroa dinamarquesa. A Dinamarca é um país pequeno, mas dos mais ricos do mundo, com uma qualidade de vida de causar inveja. A rainha da Dinamarca, pessoa civilizada e simpática, convidou o Presidente Trump para uma visita oficial ao seu reino. O convite foi aceite. Porém, pouco tempo antes de se iniciar a visita, agendada para o início de Setembro, Trump não resistiu a dar um ar da sua graça e, como não quer a coisa, postou, no Twitter, que gostaria de comprar a Gronelândia, um ponto estratégico que daria muito jeito aos Estados Unidos.

Depois de um momento de perplexidade, o governo dinamarquês considerou tratar-se de uma brincadeira. Nessa atmosfera jocosa, o Presidente Trump, novamente via Twitter, anunciou que prometia não construir uma Trump Tower na Gronelândia, quando a ilha lhe pertencesse. A Primeira-Ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, resolveu então comunicar que a venda da Gronelândia estava fora de questão e que não valia a pena sequer discutir o assunto, durante a visita. Trump agradeceu a resposta directa, dizendo que a chefe do governo dinamarquês tinha poupado trabalho a todos. Poucas horas mais tarde, um porta-voz da Casa Branca comunicou ao governo da Dinamarca que a visita fora cancelada.

A porta-voz da Casa Real foi discreta, disse que era uma grande surpresa, mas que mais nada tinha a dizer. Já os chefes dos partidos da oposição manifestaram o seu desagrado e a sua indignação. Morten Ostergaard, do Partido Social Liberal, disse mesmo: «a realidade supera a ficção - este homem é imprevisível», outros consideraram uma grande ofensa em relação ao povo dinamarquês e da Gronelândia o cancelamento de uma visita oficial, quase em cima da hora. Mesmo o chefe do Partido Populista de Direita, que se diria ser mais chegado a Trump, usou a palavra “farsa”, para classificar todo este absurdo.*

O executivo dinamarquês anunciou uma tomada de posição ainda para esta tarde, mas, até ao momento, não me é conhecida, pelo que se adivinha um segundo volume desta saga.

 

* O link é em alemão, pois foi lá que reuni estas informações. Para quem queira ler mais sobre o assunto, é só ir ao Google, que encontra muitos artigos escritos em português.

Muito bem, Alemanha!

por Cristina Torrão, em 01.08.19

A Alemanha recusou tomar parte na “Operation Sentinel” de Trump, no Estreito de Ormuz. Um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão declarou estar fora de questão seguir a estratégia de confrontação dos EUA, que pode levar a uma escalação perigosa do conflito (link em alemão). O governo alemão continua a considerar a via diplomática como a melhor forma de lidar com o problema.

Apoio a posição da Alemanha que visa, acima de tudo, preservar a união europeia e distanciar-se da linha conflituosa de Trump. Com Boris Johnson, a Grã-Bretanha mudou de estratégia, deixando de apelar a uma acção conjunta europeia, para se pôr sob a protecção dos EUA. Este país, no entanto, solicitou a colaboração alemã, numa óbvia tentativa de forçar a Europa a dançar sob a sua batuta (e a dividi-la). Esteve bem o governo alemão, ao declarar que, não chegando a diplomacia, a Alemanha só admitirá o envio de forças militares para o Estreito de Ormuz numa acção conjunta europeia, dispensando o comando norte-americano.

Trump 2.5 (anos)

por João André, em 25.07.19

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Ao fim de sensivelmente dois anos e meio de uma presidência Trump, estamos agora em plena viagem de pré(?)-campanha presidencial nos EUA. É de lamentar que nos ciclos noticiosos de hoje em dia mal haja tempo para uma administração americana começar a funcionar antes de começar a campanha seguinte.

Que dizer ao fim deste período de era Trump? Independenetemente de quaisquer juízos de valor, tem que se aceitar que Trump tem sido altamente eficaz na forma como tem cumprido as suas promessas de campanha. A sua mais emblemática, a do muro na fronteira com o México, não se concretizou. Aqui terá falhado de forma estranha, especialmente quando teve quase dois anos de maioria no Congresso e Senado, mas teve também uma oposição interna no Partido Republicano que terá complicado a implementação esta promessa. Hoje tem o Partido Republicano (quase) completamente controlado mas o Partido Democrata controla o Congresso, pelo que o muro, se vier a ser construído, terá que esperar pelas próximas eleições intercalares. Na ausência do Muro (não que faça muita diferença, existe muro em larga parte da fronteira, construído por presidentes republicanos e democratas no passado), Trump aumentou as medidas dissuasoras para imigrantes e pessoas em busca de asilo. O Muro não existe, mas dificilmente os apoiantes de Trump se podem queixar.

 

 

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Há dias aqui escrevi um breve postal a propósito das reacções portuguesas às mortes por afogamento  de dois salvadorenhos que tentavam cruzar a fronteira norte-americana, reacções essas que invectivam o governo americano. E comparei-os com as reacções que o mesmo tipo de locutores tiveram aquando da discussão sobre os fluxos migratórios portugueses durante o anterior governo - os quais, já agora, não só eram anteriores como lhe sucederam.

Logo alguns comentários surgiram, com aquela rispidez que aqui no DO se mantém constante, querendo ensinar-me que as migrações oriundas da América Central não têm as mesmas causas e conteúdos das que emanam do nosso Portugal ("o que é que um tipo responde a este tipo de comentários?", resmungo-me. "Nem respondas ...", respondo-me). Outros (de facto, os mesmos) reavivam - como se fosse isso o relevante no meu postal - que o anterior primeiro-ministro mandou os portugueses emigrar, em particular os professores. E assim, entre a reprodução de chavões construídos por políticos e ecoados pelos jornalistas avençados, e a mania presumida de dar lições com a mão na anca, as auto-certezas se vão mantendo e reafirmando. O mero achismo.

Enfim, a única coisa que procurei dizer é que não é inteligente apontar apenas causas norte-americanas às derivas dos fluxos migratórios oriundos da América Central. Que estes terão causas endógenas. E que é estranho que ninguém as refira quando tanto discurso, e tão exaltado, há sobre o assunto. Que, neste caso, ninguém na imprensa, blogs ou redes sociais, surgisse a falar de El Salvador. Eu pesquisei, o assunto da situação político-económica da América Central e de El Salvador é bem secundário no mundo google mas encontra-se algo. Mas a esmagadora maioria fica presa à fúria anti-yankee (ou anti-partido republicano) e nem liga a isso. É uma mundividência. Ignorante. E racista, no sentido de desvalorizar dinâmicas sociais em contextos não "ocidentais", com o pântano nocional que este termo carrega.

E ontem li no New York Times as declarações do novo presidente de El Salvador, sobre o drama daquela família migrante. Certo que é um discurso de quem acaba de chegar ao poder. Mas é significante. Será que os comentadores do DO, em particular os (quase)sempre ariscos, porão as mãos nas ancas diante destas declarações?

Há mais um assunto que quero abordar neste postal cansado. Eu nunca votei no PSD liderado por Passos Coelho. Em 2011 bloguei que votaria CDS, apesar de não ser demo-cristão (se é o que o CDS ainda o era), "porque não tem aparelho autárquico", voraz como todos estes o são. E nas eleições seguintes bloguei que votaria PAN (do que me arrependo agora) exclusivamente porque Passos Coelho acabara de discursar na terra natal de Dias Loureiro apontando-o aos jovens como um exemplo. Entenda-se, num país homogéneo como o nosso (e para os da mão-na-anca, dizer um país homogéneo não é dizê-lo sob uma unicidade sociocultural) as dinâmicas anti-democráticas vêm da degenerescência do sistema político, da sua cleptocratização. Como tal, apoiar Dias Loureiros ou Silva Pereiras não é apenas uma imoralidade ou uma parvoíce clubística, é cumprir (ou deixar cumprir) uma agenda anti-democrática. Por mais meneios que se tenha. Coloco estre intróito para contextualizar o que se segue: não sou um eleitor PSD ou um "seguidor" de Passos Coelho.

Eu fui professor (português) em África (Moçambique) durante quinze anos. Antes disso tive como trabalho a obrigação de acompanhar (não coordenar, mas acompanhar) as actividades dos professores portugueses no país - alguns ainda na figura de "cooperantes"- bem como das escolas locais, que existiam em várias cidades, com paralelismo pedagógico com o sistema português, algumas das quais tinham professores portugueses. Depois, uma década depois, a minha filha estudou durante cinco anos na Escola Portuguesa de Maputo, então já uma escola oficial (instalação a qual acompanhara profissionalmente). Conheci vários professores portugueses dessa e doutras escolas, e com alguns constituí amizades. E ao longo dos anos conheci inúmeros professores moçambicanos, universitários meus colegas, secundários e primários. E trabalhei com professores secundários e primários, tanto como informantes em trabalhos avulsos, como na condição de intérpretes. Após a crise portuguesa de finais da década passada recebi uma assustadora quantidade de pedidos de ajuda e/ou informação sobre como emigrar para Moçambique. Muitos deles de professores. Na sua maioria de gente que não conhecia (muitos contactos vinham através do google, imensos através do célebre "amigo de amigo ..."). Sobre isso escrevi algumas vezes, até em registo sorridente.

Assim sendo, e apenas por isso, e ainda que com a cinquentenária consciência das minhas limitações intelectuais e da monumentalidade da minha ignorância global, em 2011, quando Passos Coelho falou de emigração de professores, eu sabia - por razões biográficas e interesse profissional - muito mais, incomparavelmente mais, sobre professores portugueses em África do que a esmagadora maioria dos meus conterrâneos. E, por maioria de razão, do que os comentadores actuais do Delito de Opinião.

Sei que alguns membros do governo de então aconselharam, assim como se que en passant, os compatriotas a emigrarem (ao longo da vida quantas vezes me perguntei, sobre gente no poder ou no topo da administração pública, "onde irão buscar estes bandalhos?". Nunca terei encontrado ninguém mais diminuído intelectualmente do que Vitalino Canas - expliquei aqui - mas há outros que se aproximam ...). Mas ao saber que Passos Coelho falara sobre a hipotética emigração de professores para África fui ler, com enorme interesse e com o tal meu conhecimento privilegiado. E o que era imediata e nitidamente claro é que o homem respondera muito competentemente - até de modo surpreendente para um primeiro-ministro, que tem inúmeros assuntos para apreender. Ele não mandou emigrar nem sequer aconselhou. Explicitou, acertadamente, a situação. Escrevi então sobre isto (até com citação da famosa entrevista), o postal "Passos Coelho e a emigração dos professores.". Caramba, alguém que conhece a realidade em questão que mais poderia pedir de um PM? Bem pelo contrário, só se poderia esperar menor conhecimento e reflexão. Alguns dias depois botei o postal "O Emigrão", sobre o significado do desatino generalizado em torno daquela entrevista. Um desatino demagógico mas, acima de tudo, ignorante.

Porque volto, e de modo tão detalhado, a esta velha questão, despicienda hoje? Porque há decerto imensa coisa que se pode criticar a Passos Coelho sem termos que cair na inanidade de papaguear o que políticos e colunistas avençados então botaram, fazendo as pessoas crer naquilo que não é verdade. E a operação intelectual é exactamente a mesma no que se refere aos migrantes, seja para a Europa, seja para os EUA, seja para a África do Sul (desta temática não se fala, por outras razões), ou para outros pólos de atracção. Não precisamos de ser trumpianos, de crer que muros impedem migrações, de abominar emigrantes (nunca percebi como há portugueses que abominam emigrantes, mas isso é outro assunto). Não precisamos de negar as assimetrias no mundo, os efeitos da velha doutrina Monroe e da sua perenidade. Mas também  não precisamos de papaguear as inanidades, mais ou menos moralistas, que os "teclados arrebitados", tantas vezes mercenários, rabiscam. Sobre os EUA, sobre Passos Coelho. Ou sobre outras coisas, por exemplo a excelência de Silva Pereira, para falar na espuma dos dias.

E isto tudo passa, evidentemente, pela atitude nas caixas de comentários bloguísticos. Apenas como detalhe. Mas também. E são estas que me provocam esta longa jeremíada, até memorialista.

Donald goes to London

por jpt, em 04.06.19

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Há algumas semanas não só uma qualquer dignitária da Comissão Europeia como, depois, o próprio presidente francês, Macron, enviaram públicas mensagens de apreço ao nosso primeiro-ministro. Em período pré-eleitoral pareceu um bocado intromissão externa. Nada de particularmente grave, por mais que nos queixemos a democracia portuguesa vai um bocado adulta (já trôpega?) e resiste a uns floreados metediços. Talvez por isso deu para este (e outros?) velhadas sorrir(em?), na memória do vero slogan "dos tempos", aquele do "meu amigo Miterrand", com o qual Soares capitalizava o apreço que no estrangeiro por ele tinham, aquilo do "A Europa connosco", em particular a sacrossanta França, a sempre Pátria de Victor Hugo, como nos ensinou e ainda ensina aquele (de facto reaccionário) Eça de Queirós. 

Mas esta "aisance" (assim mesmo, na língua de Gambetta) não foi universal. Li vários patrícios algo ofendidos com o atrevimento francófono e europeísta, isso de aparecerem políticos estrangeiros a congratularem o (de facto malvado) António Costa. Patrícios esses que nos chegam doutores e praticantes da opinião política, nos por enquanto órgãos de comunicação social e nas fervilhantes "redes sociais".

Acalmado que foi o período eleitoral esquecidos foram esses momentos. Entretanto Trump vai à Grã-Bretanha, celebrar o 75º aniversário do heróico Dia D. No caminho diverte-se a pontapear o Medina londrino, a celebrar o André Ventura lá do sítio e a propor a liderança daquele antigo estudante da Escola Europeia de Bruxelas (quereis compreender o anti-europeísmo do rapaz?). Qual a reacção dos nossos patrícios, mui liberais, veementes direitistas? Ei-los nas redes sociais congratulando-se com a bela posição do presidente americano.

A gente não tem que ser coerente (na realidade até nem o deve ser). Mas para quem anda, até arisco, a botar sobre política, a publicar livros-manifestos, a abrir partidos, a propor novos caminhos, renovar e regenerar o envelhecido degenerado, convirá ter alguma ... consistência. Um bocadinho, pelo menos. É que, em não a tendo, o pessoal depois não vai votar nestas "novidades".

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Entretanto, e só para aqueles mais conservadores, ligados aos valores patrióticos, de sacrifício pelo bem comum: utilizar a celebração deste tipo de heroísmo extremo para "mandar bocas" aos medinas alheios é mesmo sinal de pequenez. Reconhecível, excepto pelo mentecaptismo liberalóide.

Sim, falar falamos

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.05.19
TASS33281723.jpg(créditos: Anton Novoderzhkin / TASS)

 

In illo tempore, em Moçambique, um médico foi chamado a arbitrar um conflito que, creio, opunha um curandeiro a um régulo num lugarejo remoto. Não falando o dialecto local o clínico recorreu a quem o acompanhava para a tradução. Passados uns bons minutos, durante os quais os intervenientes iam, pensava ele, terçando argumentos enquanto faziam vénias e trocavam sorrisos e gargalhadas, o árbitro interrompeu para perguntar o que já tinham dito. "Até agora nada, doutor, têm estado só a falar", respondeu o tradutor ad hoc.

Vem isto a propósito porque ao chegar a casa liguei a televisão e dei de caras com a conferência de imprensa de Mike Pompeo e Sergei Lavrov, em Sochi.

Pelo que ouvi, praticamente todos os assuntos importantes e que interessam à comunidade internacional foram passados em revista. Venezuela, Síria, Irão, Ucrânia, eleições presidenciais nos EUA, "democracia" na Líbia. Calculo que o ataque de drones na Arábia Saudita também tenha sido ventilado.

Estranhei, apesar de tudo, que não tivessem falado das incidências dos jogos da "Liga Nos", nem do "VAR". Mas o tempo não dá para tudo nos canais internacionais. E lá fora não se podem dar ao luxo de ter um exército de "paineleiros", de todas as formas e feitios, com os penteados, as gravatas e os sotaques mais mirabolantes, durante horas, dias, anos a fio, em múltiplos canais de televisão, falando em futebolês criativo, faça chuva ou faça sol,  gritando e gesticulando, oferecendo-se reciprocamente mimos, não raro desafiando-se para duelos "lá fora", como se fossem Jaime Nogueira Pinto e Ruben de Carvalho a discutirem a crise dos mísseis cubanos. Têm sempre pano para mangas. E audiência, o que é ainda mais espantoso.

De qualquer modo, deu para perceber do encontro em Sochi que a atmosfera foi muito "amigável", de grande respeito mútuo e admiração. Nas palavras do MNE russo foi uma "conversa franca e útil". 

Confesso que não vejo grande diferença entre o que aconteceu no Vale do Limpopo com o conflito que opunha o curandeiro ao régulo e o que, ultimamente, Trump e Xi Jinping dizem de cada vez que se reúnem. "We have a good dialogue with China", diz o estado-unidense. Quando não corre bem não passa de um "we had a little squabble with China". Acontece o mesmo nos encontros com o celerado Kim, da Coreia do Norte, com excepção da parte da conferência de imprensa. Porque há sempre um que amua antes da sobremesa. 

A situação não foi hoje muito diferente no diálogo de Pompeo com Lavrov. Para todos os efeitos, conversa franca e útil, claro.

Os impasses, como as crises, os refugiados, o perigo nuclear, o terrorismo, a catástrofe ambiental, o drama da fome, as epidemias, a miséria moral, a estupidez humana e a ignorância é que são hoje permanentes. E cada vez mais universais.

Ivanka Trump e o Banco Mundial

por jpt, em 18.04.19

Isto de Donald Trump ter oferecido à sua filha a presidência do Banco Mundial dirá muito sobre como estão os EUA e o mundo em geral. Mas diz também sobre o estado do jardim à beira plantado e dos seus habitantes. Dei uma volta pelas "redes sociais", secções portuguesas. Nas quais, desde há anos, Trump é visceralmente criticado. E não serei eu quem virá contestar a pertinência de muitas dessas críticas. Mas agora? Encontro, naquilo que vejo, na "rede" egocentrada que me é disponível, um silêncio total. As vozes e teclas mais anti-trumpianas, sempre tão activas na crítica ao presidente americano, distraíram-se e não estão frenéticos nas "partilhas" e "denúncias" desta escandalosa deriva nepotista. Decerto que não por estarem ocupados nas bichas das bombas de gasolina: poderiam ter usado os telemóveis durante as esperas para "denunciar", com redobrado ímpeto, este episódio.

Mas agora não. Convém nem referir o assunto, já basta de falar de redes familiares nos cargos de nomeação política. Mesmo que tão mais importante seja a possibilidade da nomeação da filha de Trump para o Banco Mundial do que mais um primo de Carlos César ser colocado num qualquer posto, ou a rábula do secretário de estado invertido ninfomaníaco que queria o capitão garanhão como motorista. Mas nem essa diferença de escala lhes diminui o silêncio. Não querem parecer "parolos" aos olhos de Augusto Santos Silva, como tal preferem calar-se, preocupar-se com outras coisas. Ou, por outra, antes parecer Trump do que parolo, dirão, fiéis ao perversor ministro.

Gente muito fraquinha. Se gente.

 

Bolsonaro e Trump

por João André, em 03.10.18

Leio em muitos lados a comparação entre Trump e Bolsonaro e fico incrédulo. Bolsonaro não é Trump. Trump é um populista, com tendências autoritárias e uma ténue compreensão de democracia. No entanto é o presidente de um país com créditos democratas bem fundados e que compreende que tem limites no seu poder (mesmo que não goste deles).

 

Bolsonaro é um fascista que apoia ditadores, louva torturadores, ameaça mulheres, gays e pessoas não brancas. Se for eleito (o que é improvável, embora as alternativas não sejam para sorrir) Bolsonaro ou será um presidente paralisado pela sua incapacidade de se mover em democracia (pelo que percebi, só conseguiu passar 2 leis em toda a sua carreira de mais de duas décadas no senado) ou optará pela força. Nenhuma das opções é agradável e são infinitamente piores que aquilo que acontece nos EUA.

 

Trump é mau, não tenho dúvida. Mas Bolsonaro seria um desastre.

A ONU a rir-se.

por Luís Menezes Leitão, em 26.09.18

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Acho inacreditável que uma assembleia geral da ONU se permita rir do Presidente dos Estados Unidos, sabendo-se que é esse o país que sustenta a organização e que pode muito bem cortar a sua contribuição. A assembleia geral deveria respeitar quem lhe paga e ouvir atentamente os discursos, como se espera num forum internacional. Desde o tempo de Ronald Reagan que estou habituado a o resto do mundo considerar os presidentes republicanos como imbecis e idiotas. Quando são democratas, já são uns génios, mesmo no caso da desastrada presidência de Carter, que até permitiu reféns americanos no Irão. Ninguém consegue perceber que, se o presidente americano fosse um imbecil, nunca teria chegado a presidente dos Estados Unidos. E quanto a rir-se de Trump, muitos o fizeram durante as eleições americanas. Viu-se o resultado.

A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.07.18

We’ve never had our president go on a foreign tour and categorize our allies as foes. And we’ve never had our president hold a joint news conference with a Russian leader where he assigned blame, from his perspective, to both parties, but in fact dedicated most of his time to blaming the U.S. Justice Department and intelligence services.”

 

Claro, conciso e esclarecedor é o que posso dizer do excelente texto de Jill Colvin, da Associated Press, sobre a prestação de Trump na sua viagem à Europa, texto que tem vindo a ser reproduzido em vários jornais por todo o mundo. Recomendo por isso mesmo a sua leitura.

Trump e a Europa.

por Luís Menezes Leitão, em 12.07.18

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Marcelo foi para a Casa Branca falar de vinho e futebol e Costa agora afirma que não se ganha nada em confrontar Trump. Os estados europeus não cumpriram a exigência de Trump de passarem a gastar 3% do PIB em defesa e agora pelos vistos vão dizer que sim a uma subida para 4%. Se bem estou a perceber, a estratégia da Europa para lidar com Trump é aceitar tudo o que ele propõe e depois não fazer absolutamente nada. A sério, estão convencidos de que um homem de negócios americano, que chegou a Presidente dos Estados Unidos, se deixa enganar assim? A continuarmos nisto, a NATO já era.

Guerras de tarifas

por João André, em 18.06.18

Há um aspecto curioso desta guerra de tarifas que trump está a iniciar: ele provavelmente ganhá-la-à a não ser que os democratas ganhem a maioria no Congresso em Novembro. Note-se, não acredito em guerras de comércio/tarifas e penso que só há perdedores absolutos, mas em termos relativos os EUA irão quase de certeza vencer este conflito.

 

A questão é que os EUA são o país mais poderoso do mundo, com a maior economia do mundo e com a maior capacidade de absorver estes choques. Irão certamente sofrer (as tarifas irão causar estragos nos EUA, como noutros países) mas os outros países sofrerão mais. Quando a poeira assentar, o que veremos serão provavelmente situações piores da parte de todos os países, mas menos no caso dos EUA, que têm um mercado interno que lhes permitirá repôr os produtos perdidos (mesmo que a custos mais elevados e de forma menos eficiente).

 

Ou seja: os países perderão todos nesta guerra de tarifas, mas perdendo menos (provavelmente muito menos) que os outros, os EUA acabarão por reforçar a sua posição dominante no panorama económico mundial. O risco que correm - além de perdas em termos não-relativos - é que o resto do mundo deixe de depender deles. No longo prazo os EUA poderão acabar por perder, mas nessa altura Trump já terá o segundo mandato no papo...

Já a produzir efeitos

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.03.18

Gun-trained teacher accidentally discharges firearm in Calif. classroom, injuring student

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Os pios dos ogres

por João André, em 14.08.17

Nos tempos de Chávez a Venezuela entrou num período de experiências de esquerda que foram resvalando em aceleração sempre constante para o autoritarismo. Chávez ia conseguindo manter uma semelhança de democracia à custa do seu carisma que lhe davam apoio de boa parte da população e o mantinham no poder, mesmo perante o desastre para onde ia fazendo o país avançar. Com Maduro a opção da "revolução bolivariana" passou a ser o despotismo directo que só por sorte (eu sei, eu sei...) ainda não deu em guerra civil.

 

Perante o que vamos vendo a Venezuela vai ficando cada vez mais isolada e provavelmente só Cuba ainda ia dando apoio ao regime (sinceramente não sigo o suficiente a situação). Era uma questão de tempo até Maduro cair de podre por pressão externa e interna (pelo menos asism o esperava). Depois veio Trump dizer que não excluía a opção militar para intervir na Venezuela.

 

Ainda não termos visto muitas reacções às declarações é simbólico de como os outros países da região vêem a actual situação venezuelana e da enorme falta de credibilidade que Trump conseguiu "construir" em 6 meses. No entanto, se voltar à carga, Trump poderá conseguir unir de tal forma a região em torno de Maduro que este julgará que Chávez lhe apareceu outra vez na forma de um passarinho a piar tweet tweet. Nem é de excluir que, se Maduro começar a executar pessoas e disser que são traficantes, Trump acabe por dar uma volta de 180 graus e arranje um novo best friend forever.

 

E, de permeio, os venezuelanos vão sofrendo de ogre a ogre.

Antes de eu voltar

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.02.17

 

Antes de voltar às lides, e de me pôr a comentar o livro de Cavaco Silva, os emails da CGD ou as arbitragens no Dragão, convém ter uma ideia do mundo em que estamos...

Just in case.

O que é preciso é animar em Malta

por Rui Rocha, em 04.02.17

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Podemos, naturalmente, pensar o que quisermos de Trump. Eu penso mal. Ponto. Mas há um grupo alargado de oportunistas a quem Trump dá muito jeito. E essa é, aliás, mais uma razão para o efeito Trump ser nocivo. Para os tais oportunistas, é útil que Trump encarne o Mal para que eles possam aparecer como manifestação do Bem. Tomemos o exemplo do Dr. Costa. Ainda ontem proclamou em Malta a sua satisfação por a Europa não se esconder atrás de muros. Ora, para não irmos mais longe, o Dr. Costa sabe perfeitamente que existe uma vedação em Melilla que divide Marrocos de território da União Europeia. E se essa barreira não seria capaz de deter as vacas voadoras em que só o Dr. Costa acredita, sabemos que foi construída para evitar que seres humanos a transponham, prevenindo a imigração ilegal e o contrabando comercial. Estas são questões densas e complexas em que a única coisa evidente é a hipocrisia de artistas de segunda categoria como o Dr. Costa que se aproveitam de circunstâncias humanas desesperadas para se apresentarem como sacerdotes da pureza. Quando das profundezas da sua fanfarronice congénita utiliza o muro de Trump, o Dr. Costa cuidando estar a subir mais um degrau na escada da sua própria santidade, define-se como anão moral que realmente é. O Dr. Costa, fiquemos todos cientes, fará tudo o que puder para preservar a democracia por palavras que pessoalmente o engrandeçam. Mas, tal como dizia Gene Hackman em Crimson Tide, não está cá para dar-se ao trabalho de excercê-la.

Trump - dia 5

por João André, em 24.01.17

Nestes dias Trump conseguiu:

E ainda vamos só com 5 dias. Isto não vai acabar mesmo nada bem.

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