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Trecho Para Um Livro Que Nunca Vou Escrever

por Francisca Prieto, em 02.02.16

Nos dias em que me faltas, ponho-me a parlapatar contigo na beirada da cozinha, como se estivesses aqui. Não te deixo descansar de tanto te querer dizer coisas. E tu a dizeres-me estou no Panamá, mulher, deixa-me estar sossegado. E eu na cegarrega, que gosto de ti, que queria era que estivesses aqui comigo, não era no Panamá, que é um país lá do outro lado do mundo, onde eu não chego, onde não te consigo tapar com um cobertor e dizer-te segredos ao ouvido.

Para o Panamá tenho de te berrar segredos que toda a gente fica a saber, que deixam de ser segredos de tanto serem gritados.

O Panamá é um país com nome de chapéu pindérico. Preferia que tivesses ido para o Peru, que sempre é um país com nome de almoço de Natal.

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Trecho para um livro que nunca vou escrever

por Francisca Prieto, em 07.11.15

estação.jpg

Decidi que só te espero um par de horas por dia. Se olhares com atenção para o lado esquerdo da imagem, facilmente darás comigo a ler um livro para fazer passar um tempo que teima em fazer-se prolongar.

Só te posso esperar um par de horas por dia, que se ali ficasse toda a jornada, os dias teriam de ter mais de vinte e quatro horas, de tanto que os minutos custam a passar. Parece que esticam, como um cordel enrodilhado dos que cabem na palma da mão e que, depois de desemaranhado, chega para lá dos vinte metros.

Espero-te duas horas por dia e depois vou à minha vida. Se não vieres hoje, amanhã certamente chegarás. Connosco não há desencontros definitivos. Pode haver atrasos, trocas de estações, uma perda num apeadeiro. Mas por mais voltas que dermos, havemos sempre de nos reencontrar.

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Trecho para um livro que nunca vou escrever

por Francisca Prieto, em 01.11.15

Enfiámo-nos no carro a uma hora fora das convenções dos meridianos longitudinais. Encontrámos uma falha no fuso horário que nos deixou uma infinitude de tempo para viajar sem que alguém pudesse dar pela nossa falta. Bastava seguir tantas horas para a frente quantas para trás, não havia que enganar.

Sorriste quando apareci com uma almofada. Expliquei-te que numa longa viagem de carro não é preciso mais nada. Basta uma almofada.

Ofereceste-te para guiar durante os primeiros quilómetros. Eu aceitei e enrosquei-me no banco do passageiro, em jeito de adormecer.

Foi assim que, de olhos fechados e emudecida pelo embalo da estrada, mantive contigo um diálogo silencioso onde tu conversaste pelos meus sonhos e eu te respondi pelos teus pensamentos.

Depois, já repousada e com a alma tranquilizada pela poesia da quietude, assegurei a rota do volante.

Cem, duzentos, trezentos quilómetros, duas horas, cem horas, mil horas. 

Perguntei-te se era altura de voltar para trás. Disseste que não. Que aquela era uma viagem sem ponto de retorno. Que era para seguir em frente sem nunca ninguém dar por nada.

Depois pediste-me a almofada emprestada. 

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Trecho para um livro que nunca vou escrever

por Francisca Prieto, em 01.07.15

Adormeceste a meio do filme iraniano que tinha uns miúdos que queriam formar uma banda. Hesitei em acordar-te e acabei por te tapar com uma manta aos quadrados. Tinhas os pés frios mas cabias na longitude do sofá.

Perdeste uma boa parte do filme. Não estavas em estado de decifrar uma língua ininteligível. A história fica lá, para a veres noutro dia, para saberes como acaba.

Deixei-te com um beijo na testa a acompanhar um afago no cabelo, que estás a precisar de cortar. Sei que mesmo a dormir pressentes os meus gestos de ternura.

Amanhã, se estiveres assim cansado, faço-te um chá. Para adormeceres antes de o filme começar.

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Trecho para um livro que nunca vou escrever

por Francisca Prieto, em 28.06.15

Se me tivessem deixado escrever a história da minha vida, as coisas teriam tomado outro rumo. Havia de ter arranjado maneira de me escapar à sucessão de acontecimentos desgovernados que deixaram mortos, feridos, perdas e estilhaços.

Controlo de danos, é o que tenho andado a fazer nos últimos anos, a viver numa não felicidade, na passividade de me deixar perdurar neste limbo de esforço, encurralada entre dois imanes de pólos opostos. Eu, uma figura parada com a vida a atropelar-me para a esquerda e para a direita, a cair no desnorteio do turista continental que atravessa uma rua de Londres.

Se tivesse sido eu a escrever a história da minha vida, contava-a em fotogramas, como fazem os realizadores de Hollywood, que arranjam maneira de meter pessoas a apaixonarem-se em Nova Iorque.

Nova Iorque no Outono é um sofá de dois lugares com uma manta de xadrez.

Eu, da primeira vez que me apaixonei, foi no largo do Calhariz e era Inverno. Caía uma chuva molha-parvos que me molhava. Um senhor de fato escuro, na paragem do autocarro, ofereceu-me o guarda chuva. Tinha olhos claros e, provavelmente, pena de mim.

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Trecho para um livro que nunca vou escrever

por Francisca Prieto, em 05.06.15

 

F  G  T  D  A

 

- - - - - - - - - - - - -

 

Trrrrrrrrrrrrrrrr

 

J  T  P  E  R

 

Tlim

 

(linha abaixo)

 

Ontem escrevia-te de saudades. Deixei correr os dedos ao acaso, como se os caracteres aleatórios do significando pudessem produzir a alquimia do significado.

Escrevo agora  S  A  U  D  A  D  E  S

A léguas de ti.

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Trecho para um livro que nunca vou escrever

por Francisca Prieto, em 01.06.15

 

Girl travelling.jpg

 

Ontem dei com estas duas telas inacabadas, ou melhor, com esta tela em versão díptico. Coisas das minhas artes plásticas caseiras que tinha feito, há já uma data de tempo, para ti. Faltava aperfeiçoar uns quantos pormenores que tinham ficado toscos na experiência original.

Um dia conserto os borrões, volto a fotografá-las, e ofereço-te.

Ou se calhar, não. Se calhar somos mesmo assim, um par inacabado com meia dúzia de borrões que nos tornam imperfeitos e, por isso, irremediavelmente humanos.

 Eu gostava de ser a miúda das pernas esguias da tela da esquerda, e embarcar no comboio da direita rumo à Patagónia. E tu, o que gostavas de ser?

 

Velho o comboio e desgastados os carris. Deve ser assim na Patagónia. Nunca lá fui senão pela prosa de Chatwin e de Sepúlveda.

Imagino uma jornada longa, com muitas paragens inexplicáveis em lugares onde faz frio.

(nós os dois encostados ombro a ombro e tu a tapares-me as pernas com uma camisola de pêlo grosso)

Não se viaja pelo mundo de calções. Não se abraçam continentes com blusas de manga curta. Para correr mundo exige-se um casaco, ou duas embalagens de Tylenol.

(atchim. pingo no nariz. beijo a 37 graus centígrados)

Vê-se logo que a rapariga da tela foi recortada de uma Vogue. As miúdas da Vogue nunca chegam a lado nenhum por causa dos resfriados. Não se agasalham como deve ser.

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