Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Quando a mentira se torna compulsiva

Pedro Correia, 10.09.25

img av.webp

 

Ninguém me contou: eu ouvi na CMTV. No dia 5, André Ventura anunciou aos portugueses que a tragédia ocorrida na Calçada da Glória 48 horas antes era «o terceiro pior acidente da história do país». Insistindo: «O terceiro pior da história do país toda. Toda!»

Nem numa altura em que ainda permaneciam por identificar algumas das 16 vítimas mortais deste desastre o líder do Chega conseguiu falar verdade, recorrendo às habituais hipérboles sem fundamento, no pior estilo trumpista.

Longe de mim armar-me em “polígrafo”, mas seria bom que Ventura não torcesse demasiado os factos nem insultasse a inteligência de quem o escuta.

Não é preciso recuar ao terramoto de 1755, que ele certamente incluiu entre os três piores acidentes da história do país. Fiquemo-nos pelos últimos 80 anos.

 

Fevereiro de 1941: Um grave ciclone devastou vastas áreas do País, provocando sobretudo vítimas em Lisboa, Alhandra e Sesimbra - muitas das quais por afogamento devido a inundações registadas nas áreas ribeirinhas. Mais de cem mortos.

Setembro de 1954: descarrilamento do comboio rápido do Algarve em Santa Clara (Odemira). 54 mortos.

Maio de 1961: avião DC8 que fazia a ligação Roma-Lima caiu na Fonte da Telha (Caparica), pouco após descolar de Lisboa. 61 mortos.

Maio de 1963: queda da cobertura das plataformas da estação ferroviária do Cais do Sodré, soterrando mais de uma centena de pessoas. 49 mortos.

Julho de 1964: reboque de passageiros solta-se do comboio em que circulava na Linha do Porto e choca contra um paredão em Custóias: 90 mortos.

Setembro de 1966: combate a um incêndio descontrolado na Serra de Sintra marcado pela tragédia. 25 mortos, todos militares.

Novembro de 1967: dramáticas inundações na Grande Lisboa, de Alenquer ao Dafundo, após horas consecutivas de chuva intensa que viriam a transformar a cintura da capital num mar de lama. 462 mortos oficiais.

Setembro de 1976: avião C-130, da força aérea da Venezuela, cai quando ia aterrar nas Lajes em escala para Espanha. Sem sobreviventes. 68 mortos.

Novembro de 1977: Boeing 727-200 da TAP oriundo de Lisboa falhou aterragem no velho aeroporto de Santa Catarina, no Funchal, partindo-se em dois. Parte da aeronave caiu na praia, a 130 metros de altura, e foi consumida pelas chamas. Era, à época, a maior tragédia aérea em Portugal. 131 mortos.

Janeiro de 1980: sismo na Terceira, com magnitude de 7,2 na escala de Richter. O pior em 200 anos nos Açores. 73 mortos.

Abril de 1984: colisão entre um autocarro e uma automotora junto ao apeadeiro de Recarei-Sobreira (Paredes). 17 mortos.

Setembro de 1985: choque de comboios em Alcafache (Mangualde), na Linha da Beira Alta, entre o Sud Express que seguia para Paris e um regional com destino a Coimbra. Foi o maior desastre ferroviário em Portugal. Cerca de 150 mortos.

Maio de 1986: colisão entre um comboio suburbano e outro de serviço rápido, oriundo da Covilhã, na estação da Póvoa de Santa Iria (Vila Franca de Xira). 17 mortos.

Fevereiro de 1989: Boeing 707 da Independent Air, que fazia escala na ilha de Santa Maria em viagem de Itália para a República Dominicana, embate no Pico Alto, sem sobreviventes. Foi o maior desastre aéreo em Portugal. 144 mortos.

Dezembro de 1992: avião da companhia holandesa Martinair, vindo de Amesterdão, partiu-se em dois ao tentar a aterragem em Faro. 56 mortos.

Dezembro de 1999: avião da SATA despenhou-se após embater no Pico da Esperança, na ilha de São Jorge, num voo regional. Desastre sem sobreviventes. 35 mortos.

Março de 2001: colapso da secular ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios (Castelo de Paiva), quando nela circulava um autocarro de passageiros. 59 mortos.

Fevereiro de 2010: forte aluvião em quatro concelhos da Madeira, devido à precipitação com valores inéditos na ilha, redundou em catástrofe. 51 mortos.

Junho de 2017: dramático incêndio florestal em Pedrógão Grande alastrando aos concelhos vizinhos de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Ansião. No mesmo dia, as chamas devoraram vastas áreas na Sertã, Penela, Pampilhosa da Serra, Góis e Arganil. 66 mortos.

Outubro de 2017: 440 incêndios, 33 dos quais de grandes dimensões, em dezenas de concelhos no pior dia desde sempre registado em fogos florestais no País. 50 mortos.

"Populares", repórteres e teleteóricos

Pedro Correia, 22.08.25

images.jpg

 

Meio Portugal continua a arder: cerca de 275 mil hectares calcinados, correspondentes a quase 3% do território nacional.

Vejo imagens do incêndio na Gardunha com um nó na garganta. Imagens que me são familiares desde a infância: Alpedrinha, Castelo Novo, Alcongosta, Souto da Casa, São Vicente da Beira. Dez aldeias do concelho do Fundão ameaçadas. A impotência das pessoas (que alguns repórteres improvisados designam "populares", com indisfarçável desdém classista) perante o macabro anel de fogo que a todo o momento ameaça destruir-lhes os parcos haveres reunidos em décadas de esforço ininterrupto.

No conforto dos estúdios climatizados, legiões de teleteóricos debitam soluções mágicas para este terror que nos assombra Verão após Verão: de repente, os tudólogos tornam-se também especialistas no combate aos incêndios agrícolas e florestais. Enquanto o vedetismo mais desbragado floresce graças ao drama: há os "enviados especiais aos fogos" com direito a apelido em caixa alta, ao encontro dos "populares" que falam português com cerrada pronúncia beirã, levando alguns editores televisivos a legendar o que dizem.

Sinal, entre tantos outros, de que existem dois países dentro do País.

 

Oiço com atenção os repórteres em diferentes canais. Há uma enorme diferença entre os que aterram lá de pára-quedas sem nada saberem e aqueles que têm ligação à terra, à província e à escassa gente que ainda lá mora. Os primeiros nunca ouviram falar num aceiro, numa cumeada, em corta-fogos, em máquinas de arrasto. Não distinguem giesta de tojo nem carvalho de castanheiro. Os segundos sabem tudo isto. E valorizam a intervenção dos aviões Fire Boss no combate ao inferno das chamas no mato deixado ao abandono - anfíbios e versáteis, aterram em pistas curtas, são mais úteis nestas operações do que os Canadairs de que tanto se fala a propósito ou despropósito.

Se há jornalistas que merecem Prémio Gazeta são estes profissionais da reportagem pura e dura que trabalham com conhecimento e sensibilidade, sem horários e quase sem descanso. Tantas vezes esquecidos nas promoções internas das empresas onde trabalham. Eles são a "malta da ferrugem", operários do ofício de relatar notícias.

Nenhum deles se imagina vedeta: vedetas são os que aproveitam estas tragédias para exibições de obsceno narcisismo defronte das câmaras. Nenhum deles se imagina herói: heróis são aqueles portugueses em desespero a quem eles dão nome e voz.

 

Leitura complementar:

O pesadelo (17 de Setembro de 2024)

"La culpa es del eucalipto". Bulos y medias verdades que avivan la tragedia de los incendios. (Maria Guerrero, El Confidencial)

Está no Governo a fazer o quê?

Pedro Correia, 20.08.22

20793136_5U1nL.jpeg

Foto: Global Imagens

 

Portugal sofre neste momento uma das maiores catástrofes ambientais de que há memória. Cerca de um terço do Parque Natural da Serra da Estrela - património nacional, reserva ecológica europeia - já foi consumido pelas chamas. Há fortes suspeitas de incúria e de incompetência no combate a esta acção devastadora das chamas, como tem sido reportado na comunicação social. Incluindo o registo de aviões a fazerem descargas de água em locais onde nada ardia.

Mas não só ali. Ontem, registavam-se 95 fogos florestais e agrícolas em todo o País, tendo duplicado para 26% o registo de acções criminosas, segundo o ministro da Administração Interna. A linha ferroviária do Norte foi encerrada quando as chamas já ameaçavam as carruagens, como ficou registado em vídeo por passageiros.

 

Neste quadro, potencialmente agravado pela perspectiva de subida das temperaturas, o que fez o Governo? Esperou por esta sexta-feira para anunciar que no domingo Portugal entrará em «situação de alerta».

Porquê tão lenta reacção?

Porquê este absurdo hiato de 48 horas?

Ninguém sabe explicar.

Muito menos a secretária de Estado da Protecção Civil, Patrícia Gaspar, que ontem à noite compareceu sorridente nos estúdios da SIC para uma entrevista em que se revelou incapaz de responder às perguntas feitas pelo jornalista Rodrigo Pratas.

«Uma situação deste género foi de alguma forma trágica», disse esta cultora de eufemismos, chamando «ocorrência» à destruição florestal em curso na Serra da Estrela. Enquanto, confrontada com sucessivas questões concretas do seu pelouro, ia balbuciando: «Não tenho informação.»

 

Neste trágico Verão, já arderam 92 mil hectares no nosso país. Portugal é hoje o terceiro Estado da União Europeia com mais área queimada em números absolutos, sendo superado apenas por Espanha e Roménia, países com maior superfície territorial. 

Perante isto, o que disse a secretária de Estado, que anteriormente foi número dois da Protecção Civil a nível nacional? 

Algo espantoso, depois de consultar um papel. Afirmou ela: «Os algoritmos dizem que a área ardida que devíamos ter devia ser 30% superior.»

Patrícia Gaspar considera portanto, com base na esforçada consulta à sua cábula, que ainda ardeu pouco. Apenas 70% do território que estaria previsto no tal canhenho algorítmico foi consumido pelas chamas.

Em vez de nos indignarmos, devíamos até comemorar. 

 

Oiço estes dislates e uma vez mais me interrogo: esta gente está no Governo a fazer o quê?

No sítio errado à hora errada

Sérgio de Almeida Correia, 21.10.20

20190214-0601-01-580x400.jpg(foto daqui)

Primeiro a gente ouve. Depois volta-se atrás para ouvir melhor. A seguir fica-se a pensar no que se ouviu, duvidando-se que tenha sido mesmo assim.

Para que se saiba do que estou a falar,  refiro-me à entrevista que o Senhor Embaixador de Portugal na China deu ontem à TDM.

A Televisão de Macau e o jornalista João Pedro Marques cumpriram o seu papel. Já do Senhor Embaixador será difícil alguém, com um mínimo de conhecimento do terreno que se pisa, possa perceber o que disse e por que o disse num momento destes e depois do que foi afirmado pelo Senhor Presidente do Tribunal de Última Instância da RAEM na Sessão Solene de Abertura do Ano Judiciário.

Desconheço mesmo se alguém no Palácio das Necessidades já terá tido tempo e pachorra para lhe prestar atenção, mas convém que o façam. A diferença horária não serve de desculpa.

Esta não foi a primeira vez que o Senhor Embaixador veio a Macau. Como também não foi a primeira vez que vindo a Macau se mostrou desatento e mal informado. Mas pior do que isso é que o faça sem prestar muita atenção ao que diz, mesmo quando afirma desconhecer o que esteve em causa, e aos inquietantes sinais que transmite.

Haverá certamente quem até esteja de acordo com o que afirmou, designadamente quanto ao encerramento, sem que se conheçam publicamente as verdadeiras razões que estiveram na base da decisão, pois que ninguém tem coragem de dizê-lo, da exposição da World Press Photo.

E igualmente quanto ao que o Senhor Embaixador disse relativamente à "fluidez" com que deverão ser tratados os princípios e valores pelos quais nos guiamos, uma vez mais destratando e desconsiderando o estatuto autonómico de Macau, a Declaração Conjunta Luso-Chinesa, a Lei Básica de Macau e os interesses de Portugal e dos portugueses nesta parcela da Ásia. 

À ponderação, reserva e lucidez dos seus antecessores sobrepôs o Senhor Embaixador o seu discurso pujante, assertivo e impregnado, digo eu, de pragmatismo comercial, numa demonstração de qualidades que faria as delícias do director do departamento comercial de uma cadeia de supermercados.

O cliente tem sempre razão. Parece ser este o lema do Senhor Embaixador de cada vez que lhe colocam o microfone à frente. Pois, sim, há para aí uns princípios e valores mas eu não sei se são mesmo assim nem se vale a pena perder tempo com eles. De qualquer modo, a minha posição é esta. E aqui vai disto. É meia-bola e força.

Estou certo que haverá muita gente, e não apenas na Terra Nova, que compreenderá as declarações do Senhor Embaixador. Eu próprio as compreendo. Todavia, pareceram-me despropositadas e excessivas, colocando em causa, como nunca até aqui, a posição dos interesses portugueses na China e, em especial, os interesses e legítimos direitos e expectativas dos residentes de Macau. 

A especial posição e estatuto da Região Administrativa Especial de Macau deviam ser suficientes para que o Senhor Embaixador tivesse percebido, antes mesmo de cá chegar, que Macau não é Qingdao, embora aos seus ouvidos possa soar ao mesmo. E que a sua função não é apenas de comprar ventiladores e máscaras quando é necessário. Ele não é o presidente de uma câmara de comércio. Se o objectivo de Portugal fosse apenas o de vender azeites e vinhos, então seria melhor mandar para cá especialistas nessas matérias, com adequado conhecimento do mercado e sem preocupações de maior em matéria de princípios e valores.

Uma posição dessas tornaria mais compreensíveis e aceitáveis as declarações do Senhor Embaixador, sairia mais económico ao erário público e não deixaria ficar mal nem o Palácio das Necessidades nem todos os portugueses que esperavam do Senhor Embaixador de Portugal outra posição que não a de "ponta-de-lança" dos interesses políticos e económicos do Estado que o acolhe.

É difícil defender bem os interesses de Portugal na China quando quem está de fora, como é o meu caso, lamento dizê-lo, só consegue ver o Senhor Embaixador de costas, de "cócoras" ou sem controlo do linguajar, tagarelando sem sentido de cada vez que vem a Macau.

Sensibilidade política e diplomática nalguns momentos difíceis seria o mínimo a exigir-lhe, ainda que isso possa não ser suficiente para lhe ser atribuído o Prémio Vista Alegre/Atlantis.

E quanto ao mais, como boa pessoa e cidadão, desejo apenas que durma descansado, tenha saúde e seja feliz. Se conseguir sê-lo assim melhor.

Aqui ao lado, demasiado perto

Pedro Correia, 03.04.20

Coronavírus: o drama italiano

Pedro Correia, 22.03.20

Aqui ao lado, demasiado perto

Pedro Correia, 20.03.20

Este século começou em Setembro

Pedro Correia, 12.09.19

v2-REUTERS-9-11-plane-crash-twin-towers-fire-1120[

 

Estava de folga, espreitei ao fim da manhã a TV - e já não consegui desgrudar os olhos do ecrã.

Mal engoli o almoço, rumei ao jornal como voluntário - à semelhança de muitos colegas que estavam desmobilizados naquele dia.

Passei catorze horas seguidas a trabalhar.

Saí do edifício da Avenida da Liberdade ia alta a madrugada de 12 de Setembro de 2001, quatro edições depois. Sabia que venderíamos largas dezenas de milhar de exemplares do diário no conjunto das bancas do País - breve e derradeiro apogeu da imprensa escrita.

A caminho de casa, afundei-me no banco traseiro de um táxi, esgotado e transido. Com a nítida sensação de aquela ter sido a dramática e definitiva despedida do século XX.

Um novo mundo acabara de ser inaugurado. Demasiado parecido com o pior do mundo velho.

Assombro e dor

Pedro Correia, 16.04.19

notre-dame-vii-1555350965.jpg

 

A sensação é de enorme consternação, de profunda tristeza. Direi mais: é de luto. Hoje, como centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, sinto-me enlutado. Pela perda irreparável da catedral das catedrais. Notre-Dame, que sobreviveu incólume a incontáveis guerras, escapou à carnificina de dois conflitos mundiais e em 1944 se manteve imune à desvairada ordem de Hitler, que queria ver Paris a arder, acaba de ser praticamente reduzida a escombros. No início da Semana Santa, num dia em que o Presidente francês anunciara um discurso à nação. 

Ver as imagens das chamas a devorarem o edifício medieval, jóia absoluta da arquitectura gótica, marco da espiritualidade universal, símbolo supremo da cultura cristã que é também matriz europeia, dilacera todos quantos algum dia ali haviam entrado - e fomos muitos, pois Notre-Dame recebia cerca de 13 milhões de visitantes por ano, gente de todas as crenças e todas as latitudes.

O mundo em que vivemos é um mundo em contínua perda de referências, que padece de uma confrangedora falta de memória. O pavoroso incêndio que destruiu Notre-Dame acaba de nos cortar mais um emblemático vínculo às gerações precedentes. Tudo se torna cada vez mais precário e descartável. Assente num passado sem vestígios, o futuro já nasce mutilado.

Notre-Dame, cujos alicerces são contemporâneos da fundação de Portugal, demorou quase dois séculos a ser erguida. Para a destruir bastaram duas horas. E nós a assistirmos, num silêncio impotente e magoado, feito de assombro e dor.

Sem ética de responsabilidade

Pedro Correia, 29.11.18

img_757x498$2018_11_21_00_05_32_799026.jpg

 

Faz hoje dez dias, um troço de cerca de 100 metros de uma estrada confiada à guarda das entidades públicas - neste caso, a Câmara Municipal de Borba, sob a vistoria e supervisão da Direcção-Geral de Energia e Geologia e do Instituto da Mobilidade e dos Transportes - abateu tragicamente, sobre uma ravina de cerca de 80 metros que tinha sido cavada, junto a ambas as bermas, por empresas extractoras de mármore. O acidente - se é que podemos chamar-lhe assim - provocou a morte de cinco pessoas. Por mera sorte, não se registaram mais vítimas mortais: o abatimento ocorreu ainda sob luz solar e num momento de trânsito reduzido nesta via que ligava Borba a Vila Viçosa e onde costumavam circular autocarros escolares, entre muitos outros veículos. Até o cortejo da volta a Portugal em bicicleta ali passara dois meses antes.

Repito: decorreram dez dias. E, uma vez mais, ninguém se demitiu: todos continuam firmes nos seus postos. Apesar de haver sucessivos alertas, que remontam a 2002, de especialistas pertencentes a entidades como o Instituto Superior Técnico ou a Universidade de Évora a alertarem para os graves danos ali gerados por eventuais deslizamentos de terras, potenciados em situações de chuva contínua. Já em 2006 o Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação classificara o local como zona de "alto risco".

Tal como em Pedrógão, quando só outra devastadora série de fogos florestais, quatro meses depois, conseguiu desalojar a ministra Constança. Tal como em Tancos, onde o ministro Azeredo demorou mais de um ano a extrair consequências políticas do furto ali ocorrido e que ainda permanece por esclarecer na totalidade. É um padrão na nossa administração pública: a ética da responsabilidade rumou a parte incerta.

Outra objectividade

Sérgio de Almeida Correia, 14.08.18

"Tenho a noção de que muito do que aqui ficou dito contraria hipóteses populares entre boa parte da opinião pública, mas que são contraditadas por análises objectivas dos dados relevantes", escreveu o Prof. José Miguel Cardoso Pereira num texto para o qual me chamaram a atenção e que me pareceu escorreito e objectivo face ao lixo que me tem chegado sobre os incêndios que têm continuado a devastar Portugal.

Eu admito que sim, que exista um desfasamento entre aquilo que é a crença e a opinião popular e a análise da realidade apoiada em dados científicos. Sei que estou longe e, talvez por essa razão, não me chega muita da informação a que teria acesso se vivesse no rectângulo. Apesar disso continuo a ver as notícias e reportagens que me chegam, revoltado e impotente por nada poder fazer.

As imagens das tragédias mais recentes, na qual abarcaria toda a última década, e sendo certo que o ano passado o número de vidas perdidas e as circunstâncias em que ocorreram ultrapassaram todos os limites, têm-me feito pensar no assunto, havendo um ponto que me parece inegável: não há uma única vez que não apareçam, não uma mas várias vozes a criticarem o modo como se combatem os fogos, as estratégias de abordagem, a utilização de alguns meios aéreos e as decisões de evacuar ou não evacuar, de encerrar estradas ou de mantê-las abertas. Como se o combate a esse pesadelo, de cada vez que surge, fosse uma espécie de jogo de futebol em que todos são comentadores de bancada enquanto se perdem vidas e bens.

Não percebo nada de incêndios ou de florestas. Nada sei sobre as melhores técnicas para se combaterem os fogos quando deflagram. Guio-me apenas pelo senso comum e pelo que vou lendo e ouvindo por parte de quem sabe (julgo eu). Não posso, por isso mesmo, deixar de me sentir confuso, como certamente qualquer cidadão ficará, com a facilidade com que alguns políticos abordam o assunto, tudo servindo como pretexto para obtenção de dividendos numa matéria que a todos diz respeito e que pelas suas consequências deixa marcas indeléveis nas vidas de quem impotente vive os braseiros por dentro.

Não sou, evidentemente, cego ao que se passa noutros lados. Este ano os incêndios chegaram ao norte da Europa, não se circunscrevendo à Europa do Sul (Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia). Na Austrália repetem-se todos os anos com consequências cada vez mais devastadoras, tanto para os seres humanos como para a fauna e a flora. O mesmo acontece nos Estados Unidos, onde ainda este Verão arderam, e continuam a arder, milhares de hectares de floresta, uma vez mais com a perda de vidas humanas e de imensas habitações. O que se discute não é muito diferente do que em Portugal também se esgrime. E até os Estados Unidos precisam da ajuda de terceiros países para combaterem os fogos no seu território.

Recuso-me por isso a acreditar que incompetentes sejam só os nossos, os políticos, os técnicos, a nossa protecção civil, os bombeiros voluntários e todos os outros. As imagens que há algumas semanas ando a ver de incêndios por esse mundo fora, como as que vi em Março, não são muito diferentes das de Monchique ou das que todos nos recordamos do ano passado.

Parece-me, por isso, uma excelente ideia que seja criada uma comissão permanente destinada a acompanhar esta desgraça que ciclicamente nos assola, que seja capaz de reunir informação, gente conhecedora e interessada sobre o assunto, que consiga fazer uma monitorização do que se vai passando e acontecendo dentro e fora de portas. Todos os meios que conseguirmos mobilizar para combater esta fonte de dor e sofrimento serão poucos. O que só será possível quando se  acabar com alguns protagonismos e se tratar estes assuntos com outra objectividade. Com outra racionalidade, com outra seriedade. 

As ruínas do interior

Pedro Correia, 17.06.18

image[2].jpg

 Foto: Global Imagens

 

Faz hoje um ano. Vamos lembrar-nos para sempre desta data trágica: 17 de Junho de 2017. O mais mortífero conjunto de fogos florestais ocorridos em simultâneo em Portugal, a 11.ª mais devastadora tragédia do género de que há registo desde 1900 a nível mundial.

Houve 66 mortos oficialmente contabilizados nos incêndios que devastaram 53 mil hectares de território, abrangendo 11 concelhos*, durante uma semana -  47 dos quais apanhados pelas chamas, naquele dia fatídico, em plena Estrada Nacional 236. E 254 feridos, pelo menos sete deles em estado muito grave.

Cerca de meio milhar de casas (169 de primeira habitação) e quase 50 empresas foram destruídas, perdendo-se 372 empregos directos. Mais de um milhar de animais mortos - no caso dos mamíferos, sendo incalculável o número de aves e outras espécies dizimadas pelas chamas.

Quase 200 milhões de euros em prejuízos globais - floresta, agricultura, habitações, actividade industrial e turística, rede viária.

Um ano depois, muitas cinzas já estão cobertas por mantos verdes - neste ciclo incessante da natureza que sempre se renova. Mas o luto persiste, irrevogável, no calcinado Portugal do interior. O mais velho, o mais pobre, o mais frágil. O que sempre mais sofre.

 

* Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Góis, Penela, Pampilhosa da Serra, Sertã, Alvaiázere, Ansião, Arganil e Oleiros

Contornar a censura

Pedro Correia, 25.11.17

Pedro Alvim (1935-1997), também poeta, foi um dos mais brilhantes jornalistas portugueses. Na última década do salazarismo, distinguiu-se entre os profissionais da escrita que souberam contornar com talento e profundo conhecimento da língua portuguesa as severas malhas da censura.

Um dos melhores textos deste autor, hoje infelizmente tão esquecido, foi publicado há meio século, a 26 de Novembro de 1967, no Diário de Lisboa. A propósito das trágicas inundações ocorridas nas horas anteriores em Lisboa, Loures, Odivelas, Alenquer, Arruda dos Vinhos e Vila Franca de Xira que provocaram largas centenas de mortos e um número incalculável de desalojados, sobretudo nos amontoados de barracas que então circundavam a capital. Uma tragédia que nem o regime ditatorial conseguiu esconder, embora os censores de turno tenham tentado tudo para limar arestas, proibindo a difusão das imagens mais chocantes e feito várias emendas a prosas e títulos.

Alvim deu a volta ao texto com inegável mestria, fintando a censura da forma que passou a reproduzir numa das mais belas e pungentes crónicas desde sempre publicadas na imprensa portuguesa. Com a devida vénia à sua memória. E o meu agradecimento à Alice Vieira, também grande escritora e jornalista, que o recordou aqui.

 

jornal-0-735x1024[1].jpg

 

Os mortos e os fósforos

 

Era ao cair da tarde – e havia mortos.

Todos muito juntos, enlameados, compridos.

Alinhados, distanciados para sempre, ali aguardando o arrumo definitivo. Ali, ali no cimento frio de um quartel de bombeiros, no fim de um domingo de Inverno.

Eu estava ao telefone, um telefone de moedas de cinco tostões, a dar para o jornal o número de mortos, os seus nomes, as suas idades.

Ia escurecendo, escurecendo, e eu já não via os nomes escritos à pressa, abreviados, secos.

Um bombeiro, uma pilha nas mãos, tentava auxiliar a minha leitura, uma leitura triste, sincopada, hesitante de quando em quando. Eu sabia que tinha os mortos todos atrás de mim, indiferentes, quietos, não se importando absolutamente nada que lhes trocasse os nomes. Mas eu não queria cometer o mínimo erro, o mais pequeno deslize.

“Se tu és João” – dizia para mim – “és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília.”

E teimava, teimava em ser exacto, pedia, pedia ao bombeiro que mantivesse o foco da pilha sobre o papel em que tinha escrito os nomes dos mortos. E carregava nas moedas de cinco tostões, mantinha a ligação telefónica, identificava-os um a um.

O tempo passava, o tempo passava sem luz eléctrica, e eu estava sempre ali ao telefone, e os familiares dos mortos iam entrando, (que longa bicha!), identificavam os mortos, os nomes dos mortos eram-me dados, e eu dava os nomes dos mortos ao jornal.

Ouvia o choro dos vivos, ouvia o silêncio dos cadáveres, ouvia a noite lá fora – Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!

Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos.

E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível.

Como um preito de homenagem.

Como um choro.

Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama.

Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.

Escuridão total.

– Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.

O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos.

E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer, que fazer?

– Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!

E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.

“Se tu és João” – dizia para mim – “és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília“.

Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.

Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.

 

Pedro Alvim

Reflexão do dia

Pedro Correia, 19.10.17

«Ninguém pode assistir sem dor e sem revolta ao colapso do sistema nacional de protecção civil. Quando as pessoas desamparadas, um pouco por todo o Norte e Centro do País, tentavam apagar as chamas com baldes e enxadas e acabavam a chorar os seus mortos, não se pode dizer-lhes que sejam resilientes. Nem falar em férias sacrificadas. Nem voltar a remeter para relatórios. Não se pode. O Estado falhou e o Governo não foi capaz de perceber a dimensão da tragédia.»

Helena Roseta, no Público

O preço da obsessão

Sérgio de Almeida Correia, 18.10.17

Foi caro, muito caro, estupidamente caro.

É difícil governar sem distância em relação ao aparelho, afastado do país, respondendo-se às questões colocadas como se o respondente fosse algum dos antecessores de muito má memória, daqueles que primaram pela pesporrência e teimosia, reincidindo naquilo em que não se podia reincidir e que foi objecto de severa crítica no passado.

O resultado é que depois se gere politicamente tarde, contabilisticamente, mal e num momento em que as falhas são duplamente censuradas. Assim se deixa arder um importante capital de confiança nas pessoas e no partido que governa.

Porém, o pior de tudo não foi isso. Com ou sem moção de censura, qualquer que seja o resultado da votação, que importa pouco face à ausência de alternativas políticas credíveis, pior é quando se deixa arder a esperança na regeneração das instituições. 

Quem é que quer saber do défice, da imagem do primeiro-ministro, do desemprego ou dos números do crescimento perante a tragédia? Perante a perda estúpida de vidas humanas? Quem é que quer saber do resto quando tudo ardeu, quando a responsabilidade política surge in extremis e sacada a ferros, quando se fica à espera que chova?

 

Num país desamparado

Pedro Correia, 17.10.17

4120a29bbc757b65a7a9a049a1b4e57b[1].jpg

 Foto: Paulo Novais/Lusa

 

Sentimo-nos por estes dias habitantes de um país sofrido, magoado, desamparado, órfão da protecção do Estado. Um país revoltado com tanta impreparação, tanto desleixo, tanta incúria, tanta incompetência.

Um país enlutado por duas tragédias ocorridas num intervalo de quatro meses que provocaram mais de uma centena de mortos e largas dezenas de feridos, muitos em estado grave.

Na sua excelente comunicação de há pouco ao País - o melhor discurso do seu mandato - Marcelo Rebelo de Sousa falou de tudo isto. Também ele sofrido, também ele magoado, também ele profundamente enlutado. Dando expressão contida mas iniludível a estes sentimentos. Mostrando assim, uma vez mais, como sabe estar em sintonia com os portugueses.

Cento e três

Pedro Correia, 17.10.17

 

Trinta e sete mortos confirmados até ao momento nos fogos que devastaram o País este domingo. O mesmo número das vítimas do atentado terrorista em Ancara, em Março de 2016. O mesmo número dos falecidos no violento sismo em Amatrice, em Itália, em Agosto de 2016. O mesmo número dos assassinados no morticínio num hotel de Manila, em Junho de 2017.

Trinta e sete, somados aos  65 mortos de Pedrógão. E ao  piloto que morreu a combater o fogo em Castro Daire.

Cento e três vidas ceifadas de forma inaceitável num país europeu do século XXI. O país da Web Summit, o país que exporta "modernidade". O país político que se entretém a legislar sobre a abertura de restaurantes a  animais de companhia mas é incapaz de zelar pela segurança e pela integridade física dos seus habitantes, tratados sempre como contribuintes pelo mesmo Estado que os ignora enquanto cidadãos.

 

ADENDA, às 17.25: O número de vítimas mortais de domingo, agora actualizado, eleva-se a 41. Superando portanto o dos mortos no atentado em Ancara, do sismo em Itália ou da chacina em Manila. Os incêndios em Portugal já provocaram este ano pelo menos 107 mortos.

De D. Dinis a Capoulas Santos

Pedro Correia, 16.10.17

A tragédia de Pedrógão fez aumentar o caudal de disparates proferidos por certos governantes. Entre eles destacou-se o ministro da Agricultura, que a 13 de Agosto se apressou a proclamar ao País que o Executivo tinha acabado de aprovar a "maior revolução na floresta desde o reinado de D. Dinis".

Estava equivocado. D. Dinis destacou-se por mandar plantar árvores, não por vê-las arder. Com destaque para uma das maiores manchas de pinheiro bravo da Europa, reunida no vasto pinhal de Leiria, com cerca de 15 milhões de árvores. Acabo de saber que 80% desta mata nacional foi consumida pelas chamas - no dia em que no País inteiro ardeu uma extensão equivalente a seis cidades de Lisboa. Presumo que não se tratava de "floresta desorganizada", na medida em que é propriedade do Estado. A menos que cheguemos à conclusão que afinal o Estado imita os piores procedimentos dos privados.

Capoulas Santos, o revolucionário da treta, desta vez tem-nos poupado à sua ridícula verborreia. Resta ver por quanto tempo conseguirá permanecer calado.