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Delito de Opinião

Ambiente de trabalho VII

Teresa Ribeiro, 29.07.21

As novas elites não dão ponto sem nó. Traçam o seu percurso, começando cedo a identificar que pessoas devem conhecer e em que circunstâncias. Preparam-se cuidando dos mais ínfimos detalhes, porque hoje o  que parece, é. Há soft skills que devem constar num currículo, porque são muito valorizadas nos tempos que correm, daí ser conveniente exercer atividades a partir das quais se possa tirar ilações sobre a qualidade do seu carácter ou capacidade de trabalho. 

Como bailarinas em pontas aprendem, depois, a andar em bicos de pés para serem notados por quem tem poder. E o que é, para esta nova geração, ter poder? Ter poder é ter influência. Ser conhecido e reconhecido. Mas este reconhecimento não tem necessariamente a ver com competência, conhecimento e muito menos experiência. Três atributos que a nova cultura do trabalho esvaziou ao introduzir no discurso um novo mantra: proactividade, competitividade e "gosto pelo desafio". Três magníficos eufemismos cuja elasticidade permite cobrir um vasto leque de perfis, desde os jovens com ambição que desejam legitimamente subir na vida, àqueles que antes se designavam por arrivistas: tractores que não olham a meios para "chegar lá". Não importa como, pois já ninguém quer saber.

"Estar lá" quer dizer que se ganhou a medalha olímpica da notoriedade, o novo oiro. Não por acaso chegou-se ao ponto de criar uma nova "profissão", a dos influencers. Ter poder é conhecer e ser conhecido por "toda a gente", sendo que "toda a gente" é a gente que tem uma importante rede de contactos. Trata-se de uma pescadinha de rabo na boca, círculo onde até se vende a mãe para entrar, pois os que ficam de fora são nada. Pertencem à massa indistinta dos que não "chegaram lá". Engenheiros, arquitectos, artistas, limpa chaminés, jornalistas, rapariguinhas do shopping, é indiferente. A todos é dispensado um tratamento indiferenciado que se verte, de resto, em salários absurdamente semelhantes.

As novas elites lideram, sem complexos, áreas que desconhecem, apoiadas na expertise dos profissionais que este novo sistema proletarizou. Mas formadas que foram na cultura narcísica do autoelogio e do elogio mútuo sustentada pelas redes, não resistem a deixar a sua marca de génio na gestão de pessoas e coisas, tomando por capricho decisões absurdas e irresponsáveis, ignorando os conselhos de quem sabe, só pelo prazer de mandar. É nisto que estamos, nas mais diversas áreas de actividade. Até dói.

Trabalho juvenil

Paulo Sousa, 18.06.21

O aumento da escolaridade obrigatória, que na essência e na intenção é uma medida positiva, acabou por inviabilizar o trabalho juvenil durante as férias escolares.

Este tipo de trabalho foi durante muitos anos, e noutras paragens continua a ser, a forma de fazer um pé-de-meia para uma compra acima dos limites da mesada ou até como recurso de apoio às finanças familiares.

O benefício desta prática legalmente extinta, alargava-se também às empresas, que conseguiam assim colmatar os normais transtornos que as férias de empregados causam às  suas rotinas.

Mas para além deste efeito positivo para as finanças pessoais e para a rotina das empresas existia um outro, que se prendia com a familiarização dos jovens com o mundo do trabalho, com as suas rotinas e horários, aborrecimentos, relações laborais, conquistas e desilusões. De acordo com o sector da actividade podia existir atendimento ao público, a repetição de uma linha de montagem, o enfoque de um processo ou até dor/satisfação pela (in)justiça da decisão de um patrão ou da reacção de um cliente. Além de que um trabalho aborrecido e repetitivo, que não exija qualificações, pode ser um excelente estímulo para motivar quem anda a estudar. Esse será outro benefício intangível de uma experiência desta natureza.

Lembro-me de um primo mais velho, que se formou em gestão e que hoje trabalha numa empresa financeira, pregar paletes à mão nos tempos livres. Os miúdos da mesma idade invejavam-lhe a sorte a que só tinha acesso pelo facto do seu avô ter sido encarregado da fábrica que lhe encomendava esse serviço. Outro destino habitual por aqui eram as cerâmicas de construção (telha e tijolo) assim como as faianças de loiça. Os mais afortunados chegavam a conduzir empilhadores. Algumas famílias vizinhas tinham em casa uma máquina manual de armar as molas da roupa que eram distribuídas dentro do detergente Juá. Eu atendi ao público na loja de onde a minha família tirava o sustento.

Nos dias de hoje, qualquer coisa desta natureza incorreria numa infinidade de multas por violações de regras e de obrigações fiscais.

Os jovens de hoje ficam assim privados de uma perspectiva do que é exigido aos adultos, do esforço que os seus pais fazem para governar a casa e sobra-lhes por isso mais tempo para, em linha, se isolarem dentro de um mundo virtual, desligando-se dos estímulos que afectam diariamente os mais velhos.

Termino sublinhando a ideia transmitida pelo título, pelo que não me estou a referir a trabalho adolescente e muito menos infantil.

Mandar vir

Maria Dulce Fernandes, 17.06.21

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Levar a vida a correr ou pertencer ao culto do menor esforço?

Antigamente… bem, sejamos realistas, antigamente era um massacre!

Alvorada às cinco e meia, prepararmo-nos, preparar as crianças, preparar papas, engolir um café, mala à tiracolo, saco ao ombro, marsúpio ao peito.

Apresentar… filhos!!! E toca a correr avenida abaixo para o comboio, ansiando pelas folgas semanais. Ansiando? Porquê? Ou eram compras no super, ou cozinhados, ou manobrando aquele instrumento de tortura, criado para escravizar o belo sexo, chamado ferro de engomar.

Um massacre diário. Uma tortura semanal.

Chegadas em casa, pelas oito da noite, cozinhar era a última vontade, aquela que passamos em testamento para quem vier depois. Ah pois! Depois, não vem seja quem for, por isso se queres comer, olha… cozinha!

Está claro que todas estas arestas se vão limando com o tempo e passa muito por cultivar no cara-metade o gosto pelo malabarismo dos tachos e panelas, mesmo sabendo que não sabe fritar, ou cozer, ou mexer um simples ovo.

Mandar vir significava chegar a casa e ter tudo por fazer porque, por exemplo, estava a dar o Sporting na TV, e não conseguir ficar calada sentida que era a injustiça.

Mandar vir tem  presentemente todo um novo significado.

O que é o jantar? Não sei! O que te apetece? Olha… Mandamos vir!!

A oferta e a procura são muito equiparadas e há preços que compensam o tempo e o trabalho.

Se a qualidade e a quantidade não são importantes  porque não mandar vir?

É comida? É sim. É variada? É sim. É boa? Meh… no máximo escapatória.

E cozinhar? A arte da culinária, a 12.ª arte?

Muito provavelmente entrará em desuso, sendo apenas praticada na clandestinidade por um punhado de resistentes que se recusam a mandar vir.

O Livro Verde*

José Meireles Graça, 11.06.21

Já em Junho de 2014 defendia a extinção da Câmara Corporativa, perdão, do Conselho Económico e Social, ao tempo dirigido pelo simpático e inútil Silva Peneda, um prócere do PSD, e hoje pelo inútil e simpático Francisco Assis, um prócere do PS. E de então para cá inúmeras vezes tropecei neste organismo daninho, presumível coio de traficantes de influências e de ideias irrelevantes umas, deletérias outras, e todas supranumerárias.

Como é normal, expele regularmente pareceres. E há dias ejaculou um Livro Verde sobre o futuro do trabalho. O verde do título ou vem da bandeira terceiro-mundista que é a nossa desde 1910, tendo portanto um carácter nacional, ou do vomitado que é típico destes organismos, tendo portanto um carácter ideológico. Vejamos o que dizem as ponderadas cabeças que, de cenho franzido em concentração meditabunda, engenheiraram para o futuro as soluções para os problemas que julgam virão a existir, com base no asneirol que defendem hoje para os problemas que existem. Por partes:

O trabalho digno para todos deve ser colocado no centro das políticas para o crescimento e o desenvolvimento sustentáveis e inclusivos.

O mercado do trabalho está, como qualquer outro, sujeito às leis da oferta e da procura e as políticas públicas não devem provocar distorções, excepto na medida em que os desempregados devam ser apoiados por razões de solidariedade social. O paleio do desenvolvimento sustentável é uma das bandeiras do movimento terroristo-ecológico e quer dizer basicamente isto: ó pra nós que defendemos a terra, e morte aos capitalistas que a assassinam. A inclusividade, ela, é simplesmente o palavrão que recobre uma panóplia de intervenções no mercado do trabalho destinadas a garantir a sobrevivência de empregos condenados e o poder dos sindicatos.

A globalização, o envelhecimento da população, a transição energética, a descarbonização e a economia circular, as relações e os laços sociais, as formas de comunicação e o uso crescente das tecnologias nas diferentes esferas da vida no quotidiano são disso exemplo.

A globalização, por si, se provoca desemprego nuns sítios, provoca emprego noutros; a transição energética ou vem da evolução tecnológica ou de normas imperativas dos poderes públicos à boleia de teorias fajutas; as relações e os laços sociais, as formas de comunicação e o uso crescente de pérépépé são exemplo não de realidades que importe corrigir mas de evolução imprevisível que importa acompanhar. Em todos os casos, os produtores e as sociedades ajustar-se-ão e, a julgar pelo passado, a intervenção dos poderes públicos produzirá no melhor algum bem e com certeza muito mal.

A resposta aos desafios colocados por esta nova realidade exige uma abordagem sistémica, integrada, dinâmica e estratégica, articulando diferentes áreas das políticas públicas e procurando mobilizar os diferentes instrumentos, envolvendo os parceiros sociais, as empresas e a sociedade civil.

O futuro não contém, salvo para organizações desportivas, desafios, mas sim oportunidades e circunstâncias, umas negativas e outras positivas, quase todas imprevisíveis. Não se pode prever o futuro senão projectando tendências do presente que nada garante não virão a ser influenciadas por invenções, adaptações e inovações que ainda não existem. É aliás por causa das incógnitas que o fraseado é deliberadamente treteiro (“articulando”, “mobilizar”, “envolvendo”), significando nada.

O atual Programa conjunto do Trio de Presidências do Conselho da UE, ao definir como uma das principais prioridades a construção de uma Europa com impacto neutro no clima, verde, justa e social, deixa também evidente a necessidade de dar resposta a estas transformações.

Este parágrafo é antecedido de uma extensa lista de piedades dirigistas da UE, todas padecendo da ideia singular de que a vasta camada de burocratas inimputáveis que constituem a superestrutura da URSE pode garantir que a Europa vai liderar o mundo com um acelerar do desenvolvimento num clima de grande verdura e felicidade social. Coisa que não tem sabido fazer: A UE não cessa de perder posições no mundo e, incidentalmente, Portugal dentro da União Europeia.

Na resposta à crise provocada pela pandemia, o Programa de Estabilização Económica e Social e o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) inclui, igualmente, uma forte presença das questões do digital, do futuro do trabalho e da adaptação das pessoas e das empresas a esta realidade. E isto em duas dimensões de tempo, ou seja, naquelas que são as respostas às necessidades de curto prazo a uma crise económica imprevisível e causada por uma pandemia, mas também a preparação das pessoas e das empresas para os próximos anos e para que estejamos coletivamente bem posicionados numa economia global cada vez mais competitiva e em rápida transformação.

Esclareçamos um ponto prévio: A pandemia não provocou qualquer crise, o que a provocou foram as respostas públicas, o que não cabe demonstrar aqui. A ideia de que os poderes públicos (isto é, políticos e funcionários) podem preparar “as pessoas e as empresas” para uma “economia global” é uma fantasia: quem nunca deu provas de ser capaz de dirigir um minimercado só por acaso pode produzir mais do que tretas – curiosas, eventualmente úteis se postas em monografias, e perigosas se transformadas em directivas.

Este palavreado aparece até à pág. 11. E das restantes até à 145, com excepção da caracterização da situação actual com recurso a vários indicadores úteis, continua o enjoativo lero-lero a granel, destinado a preparar toda a casta de intervencionismos sortidos. Não vale por isso a pena comentar, ficaria um pastelão ainda mais intragável que o comentado. Saltemos para aquela 145:

… combate à precariedade, promoção da negociação colectiva, aprofundamento das políticas ativas de emprego, formação e qualificação, defesa dos rendimentos, protecção social inclusiva e respostas específicas para os segmentos mais desfavorecidos e afastados do mercado de trabalho, incluindo neste âmbito uma estratégia nacional para o futuro do trabalho;

Serviço de tradução: Promover o desemprego através de obstáculos ao despedimento; reforçar o poder dos sindicatos através do amalgamento da situação e recursos das empresas de um mesmo sector; obrigar à formação subsidiada em competências inúteis para alimentar corrupção, concorrência desleal e escolas de faz-de-conta que fingem ensinar quem finge que quer aprender coisas que de todo o modo não servem para nada; imposição legal de aumentos salariais, quer as empresas possam quer não possam suportá-los; cuspo.

Regular as novas formas de trabalho associadas às transformações no trabalho e à economia digital, nomeadamente o trabalho desenvolvido nas plataformas digitais, teletrabalho e nomadismo digital (ver capítulos próprios);

Serviço de tradução: Meter o bedelho no que ainda não esteja regulamentado, a fim de estrangular uma parte da flexibilidade pelo efeito de a regulamentar.

Apostar em áreas estratégicas e com potencial de crescimento do emprego, em particular nos sectores e competências fortemente ligados à digitalização e à tecnologia, à transição climática e energética e à internacionalização da economia portuguesa, entre outros, decisivos para o posicionamento do país nas transformações em curso;

Serviço de tradução: Financiar com dinheiros públicos empresas amigas do Poder do dia, frequentemente criadas para o efeito por apparatchiks.

Lançar um programa nacional de mercado social de emprego, direcionado para os territórios e grupos mais desfavorecidos, numa estratégia de aproximação ao emprego e de promoção da qualificação das pessoas para prevenir bolsas de exclusão e de afastamento prolongado do mercado de trabalho;

Serviço de tradução: Diminuir artificialmente as taxas de desemprego através de programas de formação subsidiados e premiar as empresas que empreguem pessoas que, sem apoios públicos, nunca empregariam, e que serão despedidas logo que os apoios cessem ou as empresas imprudentes estourem.

Promover o envelhecimento ativo no quadro do mercado de trabalho, de modo a responder às profundas transformações demográficas das últimas décadas, reforçando os instrumentos de inclusão dos trabalhadores mais velhos, por exemplo na formação ao longo da vida e requalificação profissional, e por via de instrumentos de adequação dos tempos de trabalho às fases do ciclo de vida, nomeadamente, apostando em mecanismos de reforma parcial nos últimos anos de carreira contributiva, numa lógica de prolongamento da vida ativa e faseamento da saída do mercado de trabalho;

Serviço de interpretação: Quanto à formação, imaginar que resulta com velhos o que não resultou com novos é ternurento. E estúpido. Quanto ao resto, já deveria estar em vigor há muito. O CES nunca o defendeu porquê?

Reforçar os instrumentos de apoio à manutenção de emprego em períodos de crise e de choques agudos, numa dupla óptica de viabilidade das empresas e de proteção dos trabalhadores, de modo a preservar a base de potencial de crescimento do emprego e a diminuir os impactos de curto e médio prazo de situações de forte deterioração no mercado de trabalho;

Serviço de tradução: Agora que a população já está preparada para a destruição do tecido económico quando haja ameaça de pandemias, tornar permanente o delírio intervencionista, no pressuposto de que as dívidas daí decorrentes nunca terão de ser pagas.

Admitir figuras como o redeployment ou a recolocação de trabalhadores no âmbito da promoção do trabalho em rede entre organizações e empresas e da chamada economia partilhada, através da qual os trabalhadores de empresas que estão em situação de crise económica e eventualmente em situação de lay-off podem, querendo, ser temporariamente colocados em empresas que têm carência de mão-de-obra, mediante acordos de colaboração e de cedência, de forma a permitir que os trabalhadores em causa possam manter atividade profissional e adquirir novas experiências de trabalho.

Serviço de tradução: Tomar providências para que, na inexistência de hábitos de flexibilidade que a legislação não permite, passar a macaquear as práticas que existiriam naturalmente se fossem possíveis, agora desde que com intervenção e discricionariedade das autoridades.

Basta. O mais fere o mesmo diapasão: interferir, regular com minúcia, proibir, subsidiar e (o Livro não fala nisso, decerto por elegância) multar.

Em suma: mais do mesmo, garantindo que o futuro será completamente diferente nas suas circunstâncias, e perfeitamente igual nos resultados.

 

Publicado aqui.

 

Em Portugal, ao primeiro dia do mês de Maio

Zélia Parreira, 01.05.21

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Portugal descobriu, esta semana, os trabalhadores ilegais. Camaratas com dezenas de pessoas, sem condições mínimas de higiene, sem distanciamento social, alimentação inenarrável, horários de trabalho esticados até ao limite da resistência física. Indigno, desumano, cruel.

É irónico que este assunto seja discutido quando se assinala mais um Dia do Trabalhador, essa “festa” da “esquerdalha”, que os críticos do sofá afirmam servir apenas para passeios, piqueniques e compras, com a desculpa das manifestações. Esse dia anacrónico, fossilizado, de uma luta que, dizem, já não se justifica e que é só uma desculpa para não trabalhar.

Mas não é, pois não? Se dúvidas havia, os trabalhadores ilegais do sudoeste alentejano aí estão, evidentes, impossíveis de ignorar, a demonstrar que há ainda tanto por fazer, tanto por que lutar.

A crueldade maior – e a hipocrisia de tudo isto – é que se não fosse a Covid, permaneceriam “arrumados” nas suas camaratas, invisíveis de segunda a sábado, fugazes na carrinha que os leva a fazer as compras ao domingo e os traz de volta ao alojamento. Em Odemira, no cultivo dos frutos vermelhos, mas também nas estufas entre Pegões e o Montijo, ou no Alentejo interior, no tempo da azeitona. Fazem o que os portugueses não querem fazer. Ou melhor, corrijo: fazem o que os portugueses fariam, se recebessem salários compatíveis com a dureza do trabalho, em horários decentes e com condições de alojamento minimamente dignas.

A Covid, que não distingue ricos e pobres, trouxe-os para a ribalta, exibiu-os aos olhos de todos. Eis a podridão do sistema. Eis o que todos sabiam, mas sobre o qual nunca falavam. Eis o que se permitiu que acontecesse, com a conivência do silêncio, dos suspiros ligeiros para o lado, enquanto se murmura “coitados!”.

Este “coitados” não são mais do que os portugueses que nas décadas de 60, 70 e 80 limparam prédios e escritórios, trabalharam na construção civil e nas fábricas de França, Suíça ou Alemanha. Mas a esses, aos nossos, não os víamos, estavam longe dos olhos. Só lhes conhecemos os carros, os modos estrangeirados e o português transfigurado, com os quais rapidamente fizemos piadas de mau gosto.

A estes, aos que nos produzem os frutos que saboreamos, não os podemos ignorar. Estão aqui e são um problema que se alimentou de um silêncio insuportável. Do nosso silêncio insuportável.

 

(imagem retirada daqui.)

Ambiente de trabalho VI

Teresa Ribeiro, 15.02.21

Tudo começou com a democratização do ensino. Algo que urgia, mas que esbarrou num mercado de trabalho impreparado. Num país sem investigação nem iniciativa empresarial nas mais diversas áreas, não havia lugar para muitos licenciados. Por isso no fim da linha tantos passaram a desembocar no desemprego, na emigração, ou na precariedade. A desvalorização do trabalho intelectual inicia-se assim, em meados dos anos 80, rumo à proletarização das mais diversas profissões, sobretudo na área de humanidades, mas não só.

Hoje é comum um empresário pagar mais à empregada que lhe limpa a casa do que aos licenciados que emprega no seu escritório. Isto porque as empregadas domésticas, ao contrário  destes novos proletários, beneficiam da lei da oferta e da procura. 

Com a crise pandémica esta vulnerabilidade aumentou. Sei de gente que esteve seriamente doente e que nunca parou de trabalhar. Isto de o trabalho intelectual poder ser feito à distância tem sido - para muitos doentes COVID e não só - uma dificuldade acrescida. Porque a entidade empregadora presume que em casa, mesmo doente, dá para ir trabalhando.

Esta pressão verifica-se sobretudo junto dos que trabalham em PME's. Como estas constituem, como se sabe, a esmagadora maioria do tecido empresarial português, estamos a falar de muita gente. De profissionais cujas equipas se resumem, tantas vezes, a eles próprios. Em cujas funções sabem ser insubstituíveis. Circunstância que não os beneficia, pelo contrário. Pois se não podem parar, se porventura um dia o fizerem, pode significar o fim de um contrato de trabalho.

Mas entre os profissionais que não podem trabalhar à distância também vejo muitos a arriscar todos os dias um possível contágio, porque aceitam trabalhar sem condições de segurança e o motivo é sempre o mesmo: a precariedade endémica que os faz ceder a cumplicidades que lhes são impostas, de forma abusiva, a bem dos interesses da empresa. E cedem porque estão na base da cadeia alimentar que há muito vive da exploração impudica do talento. Esse bem que tantos agora gostam de louvar mas que hipocritamente, no segredo dos seus escritórios, tratam como lixo.

A violência católica

jpt, 11.10.20

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(São Tiago, o Matamouros, por José María Casado del Alisal )

Li há dias que um funcionário farmacêutico lisboeta, por ter defendido uma colega - acto que denota sentir cavalheiresco a indiciar algum machismo -, foi severamente espancado no seu local de trabalho por dezenas de membros de uma família - as parcas notícias do facto são díspares quanto ao número dos agressores, variando entre 20 e 50 ...

A imprensa pouco mais adianta, nem sobre os detalhes do acontecido nem sobre as investigações subsequentes. Não há qualquer proclamação das autoridades policiais ou dos orgãos camarários. Há silêncio governamental e até presidencial - e é particularmente surpreendente que o Presidente Sousa, que elabora sobre quase tudo, agora elida o assunto. Mais extraordinário, nada se ouve de sindicato, ordem, associação ou outro qualquer órgão da classe dos farmacêuticos. E as redes sociais não fervilham em ecos indignados. Não grassa a ira popular nem a preocupação oficial diante disto de um trabalhador ser espancado no seu local de trabalho, ainda por cima por motivos tão espúrios, pois, ao que consta, tudo foi originado por um pequeno incidente de trânsito no qual o agredido nem esteve envolvido.

Julgo que este silêncio social tem uma evidente causa: o receio, de respeito disfarçado, diante da Igreja Católica. Pois afrontar estes radicais católicos, tantos deles congregados na poderosa Associação das Famílias Numerosas, é ainda um risco. Pelos vistos, andam agora a espancar o cidadão comum. Tal como há séculos atrás fizeram ...

Adenda: sobre o nome próprio do santo representado no quadro que encima o postal surgiram comentários discordantes. Correndo o risco de acicatar a fúria das temidas Famílias Numerosas, não modificarei a versão que apresentei do nome do Santo Genocida (que é assim que deverá ser conhecido no pensamento actual).

O "desvio de direita" do PCP

Pedro Correia, 20.08.19

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1

Esta é, de um ponto de vista do que se convencionou chamar "esquerda", a pior herança da Geringonça: a rendição dos comunistas aos socialistas.

Aquilo a que Álvaro Cunhal sempre denominou "desvio de direita". Chegando ao ponto de fazer expulsar dos órgãos dirigentes do partido - o Secretariado e a Comissão Política - honestos e valorosos militantes que defendiam teses menos aproximadas ao PS do que as hoje vigentes.

Nunca tive uma sensação tão forte de que o PCP está em derrocada - agora no campo sindical, após ter sido derrubado nos seus principais bastiões autárquicos - como no passado dia 15, quando ouvi Jerónimo de Sousa apontar o dedo acusador aos camionistas em greve por melhores salários e maiores direitos.

Disse ele:

«[Esta é] uma greve decretada por tempo indeterminado, com uma argumentação que instrumentaliza reais problemas e o descontentamento dos motoristas, cujos promotores não se importam de dar pretexto à limitação do direito à greve, como se está a verificar.»

 

2

O secretário-geral do PCP assume-se assim como fiel aliado do Governo no ataque a sindicalistas que reivindicam salários reais decentes, menos tempo de laboração fora do quadro legal previsto para o horário de trabalho e a justa adequação das remunerações que recebem aos descontos para a Autoridade Tributária e a Segurança Social.

Funcionando, na prática, como ponta-de-lança do Governo PS já na corrida rumo à tão ansiada maioria absoluta.

 

3

O líder comunista chegou ao ponto de insinuar que a culpa da inaceitável instrumentalização das forças armadas e das forças policiais contra os grevistas era... dos próprios grevistas

Chegou ao ponto de insinuar que a culpa do desvirtuamento do enquadramento legal dos "serviços mínimos", transformados neste caso afinal em serviços máximos, era... dos grevistas.

Chegou ao ponto de insinuar que o descarado abuso da lei que regulamenta os mecanismos da requisição civil era... dos camionistas em greve.

Que diferença em relação ao comportamento do PCP quando os socialistas estiveram anteriormente no Governo. Num documento que aprovou a 12 de Fevereiro de 2011 definindo as principais linhas de intervenção política do partido nessa recta final do Executivo Sócrates, o Comité Central comunista sublinhava: «As acções de luta realizadas recentemente, como são exemplo as greves e paralisações num conjunto de empresas no sector dos transportes e comunicações (Metro, Carris, Transtejo, Soflusa, CP, EMEF, CP-Carga, REFER, STCP, RBL), nos CTT, INCM, Município de Loures (...) constituem uma importante resposta à ofensiva desencadeada pelo Governo do PS.»

 

4

Nunca imaginei ver o PCP alinhado de forma tão despudorada com uma entidade patronal - neste caso, a ANTRAM - para defender o Governo que vem patrocinando há quatro legislaturas e o sindicalismo que lhe está subordinado.

Nunca imaginei ver em sucessivos debates televisivos o representante da CGTP para os transportes alinhado com os patrões contra os seus camaradas no exacto momento em que estes desenvolviam uma «acção de luta».

Nem supus alguma vez que a Fectrans - braço da CGTP para os transportes - assinasse acordos de capitulação com os patrões no preciso momento em que outros sindicatos do sector se encontravam em greve. Assumindo-se assim como uma central sindical "amarela" e "colaboracionista" - acusações que noutros tempos a própria CGTP fazia à UGT.

Não por acaso, todos os comentadores da chamada "direita" se apressaram a enaltecer a «atitude respnsável» do sindicalismo orgânico ligado umbilicalmente aos comunistas. Diz-me quem te elogia, dir-te-ei quem és.

Nestes dias ficou evidente, aos olhos dos portugueses, que o PCP é hoje um partido anti-revolucionário, reformista e conformista. Que não hesita em contemporizar com quem paga salários de miséria para favorecer os lucros milionários das petrolíferas, que não hesita em demarcar-se daqueles que reivindicam melhores condições de vida recorrendo a um instrumento legal e constitucional.

 

5

Conheço Jerónimo de Sousa e respeito o seu percurso.

Mas não consigo acompanhá-lo neste "desvio de direita" que ameaça descaracterizar de vez o PCP como partido que se afirma representante dos trabalhadores por conta de outrem.

Pelo contrário: a cúpula comunista tornou-se, por estes dias, cúmplice do maior atentado ao direito à greve ocorrido em Portugal desde a instauração do regime constitucional de 1976.

Há vinte anos, isto geraria um intenso debate interno no PCP - sei bem do que falo, pois acompanhei em pormenor a vida interna do partido enquanto jornalista. Que neste momento isto só ocorra em franjas marginais da estrutura partidária, com pequenos reflexos nas redes sociais, revela bem até que ponto o partido de Bento Gonçalves e Cunhal se tornou irrelevante. Não apenas no conjunto da sociedade portuguesa mas os olhos dos próprios militantes.

 

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Adenda: É inaceitável que o PCP continue a não ser escrutinado, como se impunha, pelo jornalismo político português. O mesmo que se intromete até na cama dos restantes partidos, se for preciso, mas se mantém respeitosamente do lado de fora da porta da sede central dos comunistas.

O País do trabalho sem direitos

Pedro Correia, 17.07.19

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Férias no Algarve. São 18.30 quando chego a um dos meus restaurantes favoritos, sem marcação prévia. Em busca do peixe bem grelhado de que tanto gosto. 

Atende-me um empregado que bem conheço. Hoje [ontem] parece-me pouco satisfeito.

- Que se passa? - pergunto.

- Falta de folgas. Cansaço. Dias após dias sem folgar.

- Mas ontem [segunda-feira] estiveram fechados, aliás como é costume...

- Sim, mas foi o último dia. O patrão acaba de avisar-nos que durante os próximos dois meses não teremos folgas. Até 15 de Setembro estaremos sempre a funcionar.

- E vão ter alguma compensação financeira por isso?

- Nem mais um cêntimo. É pegar ou largar, disse ele.

- E ele nega-vos mesmo a folga semanal?

- Sim. Ainda tentámos que no desse meia folga, ao menos isso. Mas recusou.

 

Eis um quadro que se vai multiplicando por esse Algarve fora. Acumulam-se os clientes, acumula-se a receita, acumulam-se os lucros - e diminuem os direitos dos trabalhadores, a começar pelo mais básico: o direito ao descanso.

Até Deus, que é omnipotente, descansou ao sétimo dia. Estas entidades patronais, julgando-se num mundo em que são elas a ditar as leis, arrogam-se no direito de explorar até ao tutano quem lhes presta serviço. É o caso deste restaurante, que tem um número fixo de empregados: em vez de reforçar os quadros nos meses de maior afluência de público, adequando a oferta à procura com o recrutamento de trabalhadores temporários, estica ao máximo os recursos de que dispõe, insuficientes nesta quadra, negando-lhes contrapartidas remuneratórias ou as mais que justas folgas de compensação.

Às sete da tarde, as duas salas estão cheias e começa a formar-se fila à porta para jantar. Os empregados correm de mesa em mesa: já ao almoço ocorreu algo semelhante e terão pelo menos mais três horas seguidas neste ritmo frenético.

 

Não é difícil fazer uma estimativa perante tal afluência, multiplicando comensais diários por custo médio de refeição: a meio da semana, neste estabelecimento, já a despesa estará coberta. A partir daí, tudo é lucro. O problema é que estes patrões - que adoram intitular-se "empresários" - mostram pressa em matar a galinha dos ovos de ouro. São cada vez mais frequentes os casos de cozinheiros e empregados de mesa que, cansados de tanta exigência a tão baixo preço, procuram vias profissionais alternativas. 

Tenho um amigo, proprietário de três restaurantes em Lisboa sempre cheios, que se queixa disto mesmo:

- Eles deixam de aparecer, muitas vezes nem avisam. Temos de improvisar tudo, transferindo pessoal de um estabelecimento para outro às vezes em cima da hora de abertura.

- Porque é que vocês não lhes pagam mais? - indago.

- Eh pá, sabes, a vida está difícil para todos...

 

Segue-se o habitual rosário de queixumes da parte de quem prospera a olhos vistos mas só pretende dividir escassas migalhas desses dividendos. Em Lisboa como no Algarve.

Mesmo em férias, vou pensando: eis o País que não mora nas estatísticas nem na propaganda do "Portugal positivo". O País do lucro máximo de alguns à custa dos direitos mínimos de muitos. O País onde é possível trabalhar dois meses sem sequer meio dia de folga diária, quase em regime de servidão feudal. O País do trabalho sem direitos a que partidos que tanto invocam a "classe trabalhadora", como o BE e o PCP, fecham os olhos neste quarto ano contínuo de "geringonça".

Foi para subsidiar patrões como estes que o Governo Costa/Centeno decretou logo no início uma das medidas mais demagógicas de que há memória em anos recentes: a redução da taxa do IVA na restauração. Os restaurantes não baixaram preços nem recrutaram gente: limitaram-se a ampliar as margens de lucro. Enquanto o Estado via diminuir quase 400 milhões de euros a receita fiscal neste sector, que logo tratou de compensar por outras vias, esmifrando os do costume - nós, os contribuintes - com a maior carga tributária de sempre: 35,4% do produto interno bruto.

 

Pela primeira vez, confesso, não apreciei o peixe grelhado que comi aqui.

Ambiente de trabalho V

Teresa Ribeiro, 14.03.19

Não sei quando e porque se inventou a norma  de etiqueta que estabelece que nunca, em caso algum, se deve declinar propostas ou convites com um rotundo e inequívoco "não". A verdade é que se tornou uma escola. E no entanto para quem fica suspenso de uma resposta não existe nada mais desgastante. Espero, ou não espero? Mudo de planos? Procuro novos interlocutores?

Tudo o que se obtém é silêncio ou um discurso reticente feito de promessas vagas. Em vez de fumo branco, sai nevoeiro cerrado. Névoa que nos faz perder tempo e isso em ambiente de trabalho tem impacto na  eficiência, o que é grave. 

A quem aproveita esta atitude? Não consigo entender. De um lado espera-se e desespera-se, do outro empata-se. Evitar um "não", em primeira análise, pode parecer simpático e até educado mas em termos práticos resulta muito pior. Leva o outro a impacientar-se, a ter de insistir, a levar com desculpas standard e por fim a perguntar-se se o gesto é deliberado, não passando, nesse caso, de uma grosseira manifestação de arrogância. 

Aonde é que isto conduz? Seguramente, a nada que interesse.

Ambiente de trabalho IV

Teresa Ribeiro, 22.01.19

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Fala-se muito dos millenials, a nova geração que está a dar dores de cabeça aos empregadores por ser muito exigente, independente, e difícil de reter. Dizem que mudam de emprego como quem muda de camisa, que preferem não trabalhar a ser mal pagos e que valorizam o work-life-balance, ou seja, não estão dispostos a deixar-se consumir por cargas horárias excessivas. Desenvolver carreira numa determinada área já não é, para muitos deles, um objectivo. Quais camaleões, estão preparados para mudar de rumo a todo o momento, desde que tal resulte em maior qualidade de vida.

Ressentidos, muitos empregadores chamam-lhes egoístas e mimados. Acusam-nos de terem sido educados por pais que lhes deram tudo, algo que os transformou em seres desprovidos do mais leve espírito de sacrifício. 

A perspectiva dos monstrinhos egoístas é diferente. Queixam-se de serem alvo, por sistema, de propostas miseráveis, que fazem tábua rasa dos anos de formação académica que consumiram a preparar-se para ter uma boa vida. Dizem também que os salários que lhes propõem não asseguram autonomia. Olham para o mercado de trabalho e percebem que é o salve-se quem puder. Conforme o seu contexto e características pessoais, uns aprendem a competir sem ética, outros desistem e enveredam por uma adolescência sem termo (são os tão comentados nem/nem, que não trabalham nem estudam), outros ainda apostam num modo de vida alternativo, baseado no improviso, trabalho intermitente e estilo de vida frugal.

O que não se diz é que estes meninos relapsos não nasceram de geração espontânea. Na verdade millenials e empregadores são faces da mesma moeda. A cara e a coroa, o verso e o reverso desta nova cultura do trabalho.

Uns não existiriam sem os outros. 

 

Ambiente de trabalho III

Teresa Ribeiro, 02.11.18

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As estatísticas sobre a quebra de rendimentos em Portugal, mesmo dos profissionais que têm elevados níveis de formação, são devastadoras. Segundo dados do INE, os licenciados ganham hoje menos 17,7% de salário médio mensal líquido do que há uma década. Anabela Carneiro, uma docente da Faculdade de Economia do Porto, citada há duas semanas pelo Expresso, revelou num estudo que em 2000 tínhamos 8% de trabalhadores a receber o salário mínimo; em 2015 já eram 21% e em 2016, 23,3%.

A comparação com o que se passa nos países da UE, deprime: Segundo os dados mais recentes da consultora Adecco, um português tem de trabalhar quatro meses para ganhar o salário médio de um dinamarquês. Apesar de a economia estar a crescer, a verdade é que os salários não descolam. Para um trabalho que fiz sobre este assunto há poucas semanas, tanto a Experis, empresa de recrutamento do grupo Manpower, como a Randstad, sua concorrente, assumiram que nem mesmo nas áreas altamente especializadas, em que há falta de mão-de-obra em Portugal, os empregadores estão dispostos a abrir os cordões à bolsa. Ou seja, entre nós, a lei da oferta e da procura não funciona. E essa, informaram-me, "é uma originalidade portuguesa".

Mas se há coisa que o empresariado indígena aprecia é mostrar que acompanha as novas tendências. Ultimamente tem revelado muito entusiasmo com uma das ideias que aparece vinculada à nova cultura do trabalho que nasceu com a tecnologia e os millenials: a de que a felicidade no emprego, algo reconhecido como fundamental para aumentar a produtividade, não depende apenas do salário. Entrevistas, artigos de opinião, seminários, andam a enxamear os media com esta ideia que de nova não tem nada, mas que parece que só agora calou fundo no espírito dos empregadores de todo o mundo civilizado. É claro que bom ambiente, reconhecimento, flexibilidade de horários e uma série de pequenas regalias são factores importantes para "reter talento", como agora se usa dizer, mas só fazem sentido se estivermos a discutir a situação de profissionais que auferem um salário que lhes permite pagar as contas e ter uma vida autónoma. Ver gente que prefere prescindir de trabalhadores que fazem falta a aumentar-lhes o salário salivar com esta estratégia é, simplesmente, patético. Excitados com a ideia de poupar mais umas coroas e enganar uns quantos tolos cultivando a imagem de empresários modernaças, não querem perceber o óbvio: que a receber uma miséria ao fim do mês, ninguém é feliz. 

Ambiente de trabalho II

Teresa Ribeiro, 22.10.18

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Creio que tudo começou com a glorificação das chamadas soft skills. Em teoria, um profissional vale mais se, além de conhecimento técnico, revelar qualidades como empatia, iniciativa e dedicação, entre outras tantas características fofinhas. O pior é quando, cientes dessa sobrevalorização, emergem no mercado de trabalho pessoas cujo maior talento é o da capacidade de autopromoção. Conheço gente que faz voluntariado não porque tenha qualquer vocação para tal, mas porque pode fazer a diferença num currículo. Fazer MBAs e pós-graduações tornou-se, por este motivo, um desporto de alta competição, em que a suposta sede de conhecimento não passa de um engodo para potenciais empregadores.

A indústria do "parecer" está pujante, as fake skills em alta. É por isso que a pouco e pouco, em todos os sectores, encontramos os melhores performers em lugares de topo. Há pessoas destas, com funções executivas, que saltam de área em área de actividade, sem possuir os mais elementares conhecimentos relativos às matérias sobre as quais tomam decisões. Por mais hábeis e inteligentes que muitas sejam, é claro que nestas circunstâncias os erros tornam-se inevitáveis.

Há uma incompetência larvar que tem a ver com isto e está a minar todos os sectores e a destruir os mais vulneráveis. 

 

Ambiente de trabalho

Teresa Ribeiro, 29.08.18

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Lembro-me que demorei séculos a escrever a primeira notícia da minha vida. Tensa, insegura, ensaiei várias versões para começar o texto e não havia meio de me decidir qual a melhor. O meu chefe, numa secretária perto de mim, trabalhava com um ar imperturbável, mas eu percebia que me tinha debaixo de olho. Quase imperceptível descortinava-lhe uma expressão divertida, benevolente.

Parece um quadro de há cem anos, mas não foi assim há tanto tempo que tudo se passava a uma escala humana. Com tempo para aprender e possibilidade de se ser aquilo que se era: alguém a dar os primeiros passos, a quem não se podia exigir tudo, nem sequer muito. Sem pressões, a evolução dos estagiários era um processo natural, que dispensava exibições de carácter, currículos carregados de "skills" e a linguagem performativa que hoje todos os miúdos carrregam na mochila junto com a marmita do almoço.

A avaliação fazia-se, e chumbava quem tinha de chumbar. De entre os que ficavam havia quem se revelasse em pouco tempo e também os que precisavam de amadurecer. Como acontece com os frutos, os vinhos, as couves, enfim tudo o que cresce e se desenvolve na Natureza. E isto - sabia-se - era assim em todas as profissões.

Fomos, na minha geração, os últimos profissionais de cultura biológica.

Ganhar projectos na compra

Teresa Ribeiro, 30.05.18

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“Os projectos ganham-se na compra, não na venda” – em poucos dias ouvi esta frase, que pelos vistos se tornou chavão, duas vezes. Foi proferida por pessoas distintas. No primeiro caso tratava-se do gestor de uma grande empresa e no segundo de um empresário por conta própria relativamente bem-sucedido. A frase não me era destinada. Na primeira ocasião foi dirigida na minha presença a um jovem empreendedor e num segundo momento ouvi-a a ser debitada numa conversa entre amigos. A expressão é eufemística e significa que o dinheiro ganha-se na fase de concepção do projecto que se quer vender, embaratecendo-o o mais possível, por forma a poder assegurar uma margem de lucro interessante quando se proceder à sua venda. Esmiuçando ainda mais, o que isto quer dizer é que havendo gente implicada na concepção de projectos, para que um empresário ganhe dinheiro é necessário que não tenha escrúpulos em pagar o menos possível à sua equipa.

Usando uma expressão da moda para comentar um pensamento da moda, este é agora o “paradigma” do sucesso empresarial: aproveitar o estado do mercado de trabalho como uma oportunidade para pagar o mínimo aos seus “colaboradores”. É uma regra que está a ser seguida por todos, do pequeno empresário, aos gestores de topo. Se no primeiro caso se percebe a necessidade de contenção financeira, no segundo revela simplesmente um oportunismo do mais rasteiro para nivelar salários por baixo.

Dir-me-ão que é a lei da oferta e da procura a funcionar, mas o argumento cai por terra facilmente. Recentemente um dos responsáveis do Grupo Manpower Portugal disse-me em entrevista que mesmo para contratar profissionais que escasseiam no mercado, os seus clientes procuram baixar a fasquia salarial até ao limite do aceitável e quando recebem negas dos candidatos ainda se ofendem.

A verdade é que a crise criou uma casta de predadores que está a ser responsável pela crescente amoralidade das relações de trabalho, em que se exige tudo (habilitações elevadas, conhecimento de línguas, disponibilidade total) a troco de quase nada.

Soube agora que os enfermeiros de um dos maiores grupos de saúde em Portugal receberam por carta a informação de que vão deixar de receber horas extraordinárias relativas a serviço nocturno e de fins-de-semana. É ilegal, mas faz-se. Também sei, de fonte segura, que em medicina veterinária o pagamento de horas extraordinárias é uma miragem e que há casos em que até as folgas são negadas (nas semanas em que existem feriados). Ilegal, mas faz-se. A lista de casos, em quase todas as áreas, é infindável.

Estamos no clube dos ricos por um capricho da geografia, porque às nossas elites sempre lhes fugiu o pé para esta mediocridade, que vive da exploração mais mesquinha. Portugal apresenta uma das maiores diferenças entre ricos e pobres à escala europeia. Esta típica marca de subdesenvolvimento diz tudo sobre nós.

É um mistério!

Teresa Ribeiro, 19.09.17

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Não é de agora, nos últimos anos observo o mesmo, nos mais variados sectores de actividade. As pessoas com mais de 50 anos parecem ter desaparecido do mapa. Muitas estarão desempregadas, ou com pré-reformas, mas por mais elevada que seja a percentagem dos que se encontram fora do mercado de trabalho, não explica esta ausência de cabelos brancos nas empresas. Aos 50 anos está-se ainda longe da idade da reforma, além de que o país está a envelhecer, portanto a percentagem de população activa dentro desta faixa etária só pode ser elevada.

Quando não havia tanto desequilíbrio populacional entre velhos e novos não se observava isto. É estranho. Onde estão eles? No front office é que não, claro está, mas mesmo nas fileiras mais discretas onde pára esta geração, porventura a mais invisível de sempre?!

A greve boa e as greves más

Pedro Correia, 11.09.17

 

Ministro da Saúde avisa enfermeiros:

«Greve terá consequências disciplinares.»

 

Ministra da Justiça avisa magistrados:

«Não se começa uma negociação apontando para a bomba atómica.»

 

Secretária-geral adjunta do PS critica greve na Autoeuropa:

«Choca-me que não seja possível que os sindicatos possam dialogar com a comissão de trabalhadores e com a administração.»

 

Ministro dos Negócios Estrangeiros incentiva greve na PT:

«Se fosse trabalhador da PT também estava a fazer greve.»