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De gás

por José Meireles Graça, em 29.02.20

Nos EUA, uma terra de excessos, há um desporto ilegal e pouco conhecido: trata-se de fazer o percurso entre Nova Iorque e Los Angeles, de carro, no menor tempo possível. O recorde foi batido por três moços, há umas semanas, com  27,5 horas, o que dá uma média superior a 160 km/h. Suponho que não ficará por aqui: o carro tinha 75.000 km, salvo erro, era um carro de produção e, excepto pela electrónica embarcada e gadgets diversos, não se distinguia de outros topos-de-gama (para usar a expressão que jornalistas invejosos consagraram) com um cunho desportivo.

Tudo contra a lei e arriscando multas astronómicas e penas draconianas: naquelas paragens trancafiam as pessoas por pecadilhos, os juízes tomam-se por deuses, os polícias por juízes, e os cidadãos law-abiding por polícias, nunca ninguém tendo podido demonstrar se o sistema de justiça é assim porque a sociedade é violenta, ou se a violência das instituições explica uma parte da violência da sociedade. Coisas lá deles, em todo o caso.

Por cá, que eu saiba, ainda ninguém se deu ao trabalho de fazer a mesma coisa entre o Porto e Lisboa, ou entre o Porto e Faro. Se bem que, tanto num como noutro destes percursos, tivesse umas histórias para contar, sem electrónicas nem recordes, que não conto por receio de causar danos ao mesmo tempo à minha reputação de pessoa amante da lei e da ordem e à minha credibilidade.

Há uns dias, três moços morreram em Lisboa numa brincadeira a 300 km/h. O detalhe da velocidade foi glosado abundantemente pela imprensa, mas no troço em que morreram, à hora a que morreram, na marca do automóvel em que morreram (o preço, senhores, o preço do carro, foi pacificamente considerado como circunstância agravante – num Renault Clio sempre era uma morte mais socialmente tolerável), semelhante velocidade é inverosímil.

Que o diabo os leve: a testosterona incita os jovens a fazerem loucuras; não se percebe o que fazem no mercado automóveis que excedem amplamente as velocidades permitidas; é impossível, mas seria desejável, controlar de alguma forma as velocidades acima do permitido de todos os veículos; e estas mortes são a demonstração de que há ainda muito caminho a percorrer pelas autoridades de modo a que se adoptem atitudes civicamente responsáveis, a mal porque a bem há sempre quem fure.

Certo? Errado. Porquanto:

  1. As diferenças de segurança activa entre automóveis são tão grandes, consoante a marca, a idade, o preço, o estado de conservação, as características, que a imposição de um limite igual para todos não pode senão ser, e de facto é, um nivelamento por baixo, que os que podem e sabem com frequência ultrapassam, mesmo inadvertidamente;
  2. Não há limites de velocidade diferentes para bom e mau tempo. E todavia as diferenças de condições de aderência com chuva e tempo seco são enormes. As polícias, porém, têm tendência a, com chuva, não fazerem operações, possivelmente porque os autos de notícia ficam esborratados;
  3. Todos os condutores aprendem a estacionar entre duas árvores, o Código e a controlarem a embraiagem sem solavancos. O que fazer em situações de perigo não aprendem. Ou seja, a formação consiste na escola primária – ensino secundário nunca, que para ir daqui ali o primário chega perfeitamente e somos todos iguais, mesmo que na ignorância;
  4. Todos os automóveis são hoje mais seguros do que alguma vez foram, para velocidades iguais, e todos incorporam mecanismos de segurança activa (travões de disco, suspensões inteligentes, direcções assistidas, ABS e um imenso etc.) que fazem com que, às velocidades legais, e salvo distracções, os acidentes sejam improváveis. Minorados também nas suas consequências, no que intervêm dispositivos de segurança passiva, como airbags, cintos de segurança ou habitáculos indeformáveis, do que aqui não curo;
  5. A maior parte das inovações em matéria de segurança activa não resulta de intervenções dos poderes públicos: vem da competição automóvel, da competição entre as marcas, da inovação, da criatividade e do mercado para infractores.

Atentemos nisto: mercado para infractores. Não faz nenhum sentido produzir automóveis que nunca, mas nunca, possam ser utilizados em situações de velocidade fora dos limites legais, hoje generalizados em todo o mundo. Continuam porém a produzir-se para satisfazer vaidades, por um lado; mas também porque os fabricantes sabem que os condutores jogam ao gato e ao rato com as autoridades rodoviárias.

Jogam cada vez menos porque os meios de controle e repressão têm vindo a acentuar-se. E disto já vemos consequências: há cada vez mais SUVs – não são verdadeiramente desportivos, apesar do nome, proporcionam maior sensação de velocidade sem que ela seja verdadeiramente elevada, e, apesar da configuração de tanques, são menos seguros do que as limousines equivalentes.

Se as autoridades insistirem, a seu tempo os fabricantes competirão pelo luxo, as linhas, as comodidades, a segurança passiva – mas pela segurança activa não porque não será um factor diferenciador.

Quer dizer que os infractores, até agora, têm protegido os cumpridores – estes conduzem carros muito seguros porque não foram feitos para eles.

Pode ser que nada disto interesse no futuro: talvez a evolução tecnológica venha a impor que circulemos sem condutor, a alta velocidade porque a tecnologia permitirá que o façamos em segurança.

No passado ficarão os que morreram porque eram chanfrados, e cuja morte não foi inútil porque garantiu que muitos outros nunca tivessem acidentes.

Jardim Lisboa

por jpt, em 02.02.20

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Jardim Lisboa: vamos ter uma cidade mais ecológica, mais ajardinada, mais bilhete-postal. Como contestar?

Leio que haverá ciclovia na Almirante Reis. Já vejo os lisboetas pedalando avenida acima, uns virando à Graça, outros do Areeiro descendo (e subindo) a Moscavide e por aí ... Acho muito bem. Muito saudável. Muito moderno. Muito Medina, digamos assim.

Entretanto: anteontem, sexta-feira, eram 19.57 quando entrei na estação de metro dos Anjos. 6 minutos para comprar bilhete, pois apenas duas máquinas e meia dúzia de pessoas na habitual atrapalhação de quem não as conhece. Depois 9 minutos para o comboio. Saí na Baixa-Chiado. Aguardei 7 minutos pelo comboio. Chegou, entrei. E aguardei que arrancasse. 2/3 minutos. Na estação seguinte idem, estancado. Na estação seguinte idem. Saí no Marquês. Esperei 7 minutos pelo comboio. Lá aportei ao Rato. Entrei no restaurante, passando já do "um quarto para as nove" e os amigos a protestarem, risonhos, com o meu atraso. Ansiosos por me verem? Ou, como eu, a resmungarem: a pé tinha(s) chegado mais depressa? Pois dos Anjos ao Rato de metro levei mais de três quartos de hora ...

Jardim Lisboa, como contestar o iluminismo do dr. Medina, a cidade-bilhete-postal? As ciclovias avenidas acima e abaixo? Os eixos pedonais? Os etc. e tal?

Sem receio da mudança

por Cristina Torrão, em 22.08.19

Horst Wochenblatt (2).jpg

Imagem Wochenblatt

Estou muito orgulhosa do "meu" Horst. Atreveu-se a mudar de emprego aos 56 anos e até teve direito a reportagem no jornal diário local. Trabalha, desde 1 de Agosto, na Câmara de Stade, a sua cidade-natal e onde vivemos há 20 anos, como planeador de tráfego, fazendo parte de uma equipa que pretende criar um novo conceito para a cidade, dando mais espaço aos peões e aos ciclistas (não, a Greta Thunberg não vai resolver os problemas ambientais do planeta, mas o movimento por ela iniciado está a ter reflexos e é isso que importa; quem, de nós, conseguiria tal proeza?).

Esta decisão do Horst exigiu coragem, pois, apesar de continuar funcionário público, está à experiência por seis meses. Se algo correr mal, pode ser despedido ao fim desse tempo. Para isso, rescindiu um contrato de trabalho vitalício, que tinha com a Câmara de Hamburgo, onde trabalhava há 26 anos. Como sabem, a Alemanha é uma federação de estados. Hamburgo é uma cidade-estado; Stade, apesar de estar a apenas 50 km, pertence ao estado da Baixa Saxónia. Um funcionário público não pode mudar de estado, mantendo o mesmo contrato, pois a entidade empregadora é diferente. Mas há-de tudo correr bem, estamos confiantes.

O emprego em Stade, além de lhe proporcionar fazer um trabalho para o qual está muito motivado, fica pertinho de casa. É só agarrar na bicicleta e, em dez minutos, chega ao emprego. Um verdadeiro sonho para quem, durante 20 anos, viajou de comboio todos os dias para Hamburgo, uma hora para cada lado.

O Horst merece.

Obs: a bicicleta dele não é eléctrica.

Punição e prevenção

por João André, em 28.01.14

Li estes textos do Paulo Pinto e concordo especialmente com um aspecto fundamental: aumentar as coimas de pouco serve. Como ele escreve, torna-se tudo um jogo de roleta: se as probabilidades de não se ser apanhado forem baixas, o aumento das coimas é pouco útil. Se forem elevadas, então até um valor baixo já serve.

 

Perante isto olho para o exemplo holandês. Os holandeses são dos condutores mais enervantes que conheço. Fazer sinal com o "pisca" é contra a religião de metade deles. Nas autoestradas têm como noção de distância de segurança em relação ao condutor da frente, o espaço onde caiba, no máximo, uma bicicleta (qualquer distância de segurança normal é apenas um espaço para se meterem). Em cruzamentos gostam de cortar curvas; etc, etc, etc.

 

Há um aspecto curioso, no entanto: há relativamente poucos acidentes. As razões para isso (a meu ver) prendem-se com 4 aspectos:

 

1. Velocidade. Os holandeses não ultrapassam os limites de velocidade. Quando vão na autoestrada e compressa talvez sigam a 10 km/h mais que o limite. São raros os aceleras.

2. Álcool. Não conduzem embriagados. Se estiverem sozinhos, não bebem. Se em grupo, seleccionam o BoB (aquele que não bebe) e esse fica abstémio.

3. Estradas. Os impostos de circulação são pesados (um Opel Corsa 1.3 a diesel custa cerca de 220 €/trimestre em imposto) e são usados para ter estradas impecáveis.

4. Automóveis. A inspecção é implacável e quando chega o período dela começam a chegar os e-mails e as cartas da garagem onde a fazemos e da DGV cá do sítio. Carros em mau estado são despachados.

 

E, voltando ao início, a probabilidade de se ser apanhado é relativamente elevada. Os radares são conhecidos, mas há tantos que se torna difícil escapar. Além disso, quando toda a gente conduz dentro dos limites e com a densidade automobilística do país, torna-se muito difícil ultrapassar os limites. Assim sendo, bastam coimas que começam nos 10 € (sim, dez euros) para excessos de velocidade relativamente baixos (até 10 km/h a mais, creio).

 

Claro que nada disto é simples. Exige investimento (não só em equipamento) e exige educação (as crianças são bombardeadas desde cedo). Portugal, apesar de tudo, tem vindo a melhorar dramaticamente desde há décadas. O caminho que falta fazer, no ntanto, não deveria ser pela via da punição. Antes pela da prevenção.

Uma questão de prioridades (3)

por José Gomes André, em 15.02.09

O Rui Pedro Nascimento trouxe um interessante contributo para a discussão sobre o trânsito na Baixa, neste post (escrevi sobre o assunto aqui e a Fernanda Câncio aqui). Do texto do Rui destaco um trecho bastante sugestivo: "[...] defendo o fecho do trânsito na Baixa [...] para transformar essa zona da cidade numa zona de vida cultural e de lazer de excelência. [...] Organizando teatros de rua, permitindo aos artistas da(s) escola(s) de circo que ali actuem (só dois exemplos), juntando a isso a oferta já existente na área, promovida pelo Coliseu, o Politeama e o Teatro Nacional. Isto, claro, combinado com um policiamento capaz e com os restaurantes e lojas abertos até mais tarde."

Discordo contudo da parte final do texto, quando o Rui escreve: "[...] e quanto aos utilizadores das vias adjacentes, acontecia-lhes o mesmo que aconteceu quando deixou de ser permitido aos veículos pesados no Terreiro do Paço, junto ao rio: encontraram outros caminhos!". Feliz ou infelizmente, a Baixa tem uma extensão e uma importância nas linhas viárias de Lisboa muito superior à do Terreiro do Paço, pelo que a supressão absoluta do tráfego na Baixa não se resolveria com um simples "desvio" para outras zonas. A menos que queiramos bloquear de vez o Marquês de Pombal e as Amoreiras!

Uma questão de prioridades (2)

por José Gomes André, em 13.02.09

Procuremos responder a este texto de Fernanda Câncio sobre o meu post. Passemos por cima da sua estratégia habitual para menosprezar os seus interlocutores (como a de me chamar "cara pessoa") e falemos da substância do problema. É evidente que o tema do trânsito da Baixa é polémico, mas que existem bons argumentos para o defender. Contudo, "poder apanhar um táxi e sair à porta das lojas" quando a zona está cheia de transportes públicos não é seguramente um deles. Tal como não é sério referir-se na mesma frase ao “bem comum” e ao direito dos habitantes da Rua do Ouro e da Prata em abrirem as janelas e não “sentirem a casa a tremer na hora de ponta”.

O debate sobre o bem público tem que ir para além destes sentimentos egoístas e desta lógica bairrista (não por acaso Fernanda Câncio mora na Baixa), porque senão amanhã os habitantes do Saldanha, de Benfica e do Campo Grande também vão querer fechar as estradas para respirarem melhor e não ouvir carros nem ambulâncias. A questão, como sempre, é pesar as vantagens e inconvenientes de uma medida tendo em conta quem dela usufrui directa ou indirectamente. E embora me pareça uma boa ideia limitar o trânsito numa zona histórica (para habitantes, turistas e frequentadores), é igualmente verdade que a Baixa corresponde a um vector fulcral no tráfego da capital.
Sem se remodelar o sistema de transportes públicos gerais e sem se projectarem vias alternativas para o trânsito, o fecho do tráfego na Baixa conduzirá a um entupimento de zonas limítrofes como a Avenida da Liberdade, o Marquês e a zona das Amoreiras, já de si francamente congestionadas. Imagino que para quem pretenda fazer compras na Baixa, isto tenha pouca importância. Mas para os muitos lisboetas que necessitam de viatura própria para chegar ao trabalho, pode ser a diferença entre um dia normal e uma visita ao Inferno.

Descoberta...

por João Carvalho, em 07.01.09

No Telejornal, a notícia é sobre a neve em França. «Faz parte das regras» - explica a repórter da RTP. «Nas autoestradas não se pode parar, mas a regra foi hoje quebrada» por causa da neve, blá-blá-blá.

Não era preciso ir tão longe: por cá também não se pode parar, nem estacionar, nem circular a menos de 50 quilómetros por hora. E, no entanto, nas autoestradas de acesso a Lisboa e Porto há diariamente milhares de veículos parados...


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