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Delito de Opinião

Para lá do Marão... (6)

Cristina Torrão, 06.12.25
 
“Inda tem pacência p’ra mais um tantinhu’e? Astrebe-se a querere sabere a bredade que num nus contum nus librus da scola? Peis atãu’e, butemus-mus a zcubrire c’mu as cousas se passarum e pur’u q’é que falemus d’ua forma ztranha? Fica um home spritadu’e… E ua mulhere tamém’e...”
 
Toda a gente já ouviu falar de Mouros e de tantas lendas associadas aos mesmos. Porém, por estas terras, não restam vestígios da sua passagem, nem nas suas próprias crónicas. E, “bredade, bredadinha”, se por aqui andaram, como dizia recentemente numa exposição, “quaije que num tiberum tempu’e pra butare ua mijinha nu Sábôre ou nu Azibu’e”… A verdade é que, constituído o Reino das Astúrias, e no que respeita a Trás-os-Montes, já no século IX surgem as primeiras notícias acerca da presúria de Chaves, ordenada por Afonso III... das Astúrias!
 
E aqui trago Chaves, fora do âmbito territorial bragançano, porque por lá aparece, como governador, o primeiro antecessor dos Bragançãos efectivamente documentado. Por mandato de Afonso VI de Leão, surge-nos como «princeps» designado, no século XI, Fernão Mendes «o Velho», avô do neto homónimo, este sim, o primeiro detentor do apelido «de Bragança», Fernão Mendes «o Bravo».
 
Época essa na qual as «Terras de Bragança» faziam parte da Diocese de… Astorga, a antiga «Asturica Augusta» que já tinha sido a nossa capital no tempo dos Romanos! Num processo rocambolesco, “cousas” de poderes episcopais, no início do século XII as «Terras de Bragança» voltariam ao poder eclesiástico de Braga. Mas sem nunca perderem o seu vínculo a Leonesas terras. Vínculo esse que já vinha, como assinalado, desde Fernão Mendes «o Velho», não apenas pelas ligações próximas ao «Imperador» Afonso VI, ou às suas filhas, D. Urraca de um lado, e a «nossa» D. Teresa, mais o seu marido, D. Henrique, do outro, mas também porque, para lá de Chaves, também era governador de terras em «Espanha», como Toro ou Zamora! Ligação que permaneceria com os filhos, o mais velho ao serviço do «Imperador», em nome do qual exerceu a tenência de Bragança; o mais novo casado com uma filha do «Imperador», irmã da «nossa» D. Teresa, em simultâneo próximo do «nosso» Conde D. Henrique, mas também de D. Urraca. As coisas que não nos contam nos manuais escolares! Como, por exemplo…
 
Que, à custa desse contexto, nunca fizemos parte do Condado Portucalense! Condado esse que se situava na região de «Entre Tejo e Minho», daí estando excluído o nosso actual distrito. Que estas terras eram (mesmo!) um universo à parte! Porém, através de conceitos provindos da balofa historiografia do Estado Novo, mais a sua noção de «pátria una e indivisível», lá “amanharum forma d’amarfanhare” estas terras para um Condado ao qual nunca pertenceram! Para os que dúvidas tiverem, aconselho a consulta a toda a documentação saída da «corte condal» de D. Henrique e D. Teresa… Ou à proveniente das «chancelarias» de Afonso VI e da filha D. Urraca… “Dá trabalhinhu ó’j’ólhus’e”, mas vale bem a pena! Por isso, o referido Fernão Mendes de Bragança permaneceu com a tenência de Bragança e como efectivo Senhor destas terras, com extensão até Chaves e Montenegro, de um lado, ou até às terras de Riba-Côa, do outro. Terras nas quais era um verdadeiro «conde», atribuindo forais, fazendo doações, nomeadamente as que fez aos Templários, que nos dizem nos manuais que foi D. Afonso Henriques que as “fezu”. “Ma nãu’e”! O tal de primeiro «Rei de Portugal», que o foi, destas terras não o era! “Querim bêre”?…
 
Apenas para citar uns exemplos, quando D. Afonso Henriques outorgou o Foral a Freixo de Espada à Cinta, foi com autorização de Fernão Mendes de Bragança! Ou quando quis doar um couto à Sé de Braga, na região de Chaves, só o fez com autorização... do dito Braganção! Ou, ainda, quando se deu a célebre Batalha de S. Mamede, o Braganção alheou-se completamente do que respeito não lhe dizia, ou seja, as terras do Condado Portucalense. Mas já esteve, com os seus irmãos, na Batalha de Ourique… As «Terras de Bragança» eram um universo à parte, um universo Leonês! Por isso o «nosso» primeiro rei, “guitchu’e”, tratou de convencer o Braganção a casar-se com a irmã, a infanta Sancha Henriques. “P’ra bêre si u cumbencia a birar-se pr’ó ladu dus «portugalenses»”. E também chamaria o filho do Braganção para seu «primeiro-ministro», elevando-o ao cargo de Mordomo-mor. Todavia, os Bragançãos, “s’nhôs du sou narize”, e destas terras, não estavam para brincadeiras, e “se le tchigab’á muz’tard’ó ditu narize”, rapidamente viravam as agulhas para o outro reino, assim tendo acontecido com o filho do Braganção, colocando-se ao serviço de Afonso IX de Leão. Mas há mais, muito mais, para explicar a autonomia destas terras nos primeiros tempos da «nacionalidade»! E para explicar a tal de «terra das duas línguas»…
 
“Peis, lá tânhu de bire cá outra bêze, pr’ós que quijerim sabere pur’u q’é que nunca deixemus de butare ua faladura ztranha”...
 
(Foto: Valter Cavaleiro)

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Para lá do Marão... (5)

Cristina Torrão, 29.11.25
 
Uma das coisas que sempre me causou imensa confusão, relaciona-se com a quase omissão destas terras nos manuais de História. Como se aqui nunca nada se tivesse passado, ou ninguém daqui originário tivesse contribuído para os grandes acontecimentos que... sempre aconteceram muito longe daqui! Isto é, estudam-se conceitos com nomes raros, como Paleolítico ou Neolítico, Idades dos Metais ou Romanização, «Invasões Germânicas» e outros que tal, «Reconquista» e afins… Mas desenrolou-se tudo muito longe!
 
Desconheço se a responsabilidade é nossa, ou dos nossos sucessivos governantes locais e regionais, que, talvez por desconhecimento, nunca parecem ter estado vocacionados para essa vertente. Ou se será, mesmo, de um qualquer conluio que centralizou toda a nossa história no eixo litoral. Com um qualquer paralelo objectivo de nos remeter a uma insignificância baseada no estigma do «falam mal Português, por isso estejam lá caladinhos»…
 
Porém, também temos Paleolítico. E Neolítico... E todas as outras “cousas ztranhas’e”. E até temos uma genética distinta (mas isso é um “catchicu’e” complicado demais para trazer aqui)… Estranhamente, os tais de Romanos, que parecem só ter andado por Conímbriga, por Bracara Augusta, ou por Olissipo, também andaram por aqui. E deixaram-nos imensos registos da sua passagem. Um dos mais importantes, para o caso em apreço, é que «descobriram» que não tínhamos “bentas de Lusitanus’e”… Esses, ficavam, maioritariamente, abaixo do Douro. E nós estávamos acima, e da Lusitânia nunca fizemos parte. Os Romanos eram uns grandes «descobridores»! Por isso, também «descobriram» que, maioritariamente, éramos Ástures! “Bai daí’e, butarum-mus n’ua prubíncia que se tchamaba”… «Conventus Asturicensis»! Ou seja, em “língua fidalga”, Convento Asturicense, uma das três entidades administrativas da «Gallaecia» (as restantes eram a Bracarense e a Lucense). E a nossa capital não era a «Emerita Augusta» da Lusitânia; era a «Asturica Augusta» dos… Ástures! “Impecemus bem, or sim’e?”…
 
Tudo isto porque, dizem os entendidos da época, éramos «Zoelae», os célebres Zelas, uma das 22 tribos dos Ástures. Não dos Lusitanos que nos tentam impingir, mas dos Ástures! “Stãu a bêre c’mu impeçou a cousa e c’mós aldrúbias nus indrominum co a stória dus Lusitanus’e”? De facto, para quem se dedique a entender quem eram esses nossos antepassados, percebe claramente que eram diferentes… Muito diferentes! Mas não vou aqui atazanar ninguém com as características que distinguiam os tais de Zelas. “Ó depeis’e, dixu-m’u Ti Zé Moucu’e, bierum uas cousas a que tchamum Imbasões Bárbaras’e”. As quais foram mais um tácito acordo, do que invasões…
 
Toda a gente já deve ter ouvido falar de Suevos e de Visigodos. Os quais, à semelhança de tudo o resto, também andaram muito longe daqui… Mesmo que já constássemos na primeira divisão administrativo-eclesiástica que se conhece, de época Sueva. Ou os posteriores «donos» destas terras, os Visigodos, por aqui tenham tido centros de cunhagem da sua moeda. Todavia, antes de os Visigodos terem «arrumado» com o Reino Suevo, tiveram, anteriormente, de «arrumar» com um outro reino, um enclave que por aqui existia, a que os documentos designam por «Sabaria», onde vivia um povo ao qual chamavam «Sappos». Dizem os entendidos que poderão ter tomado o seu nome a partir do nosso rio Sabor. Rio esse que já muitos se terão questionado por que motivo se pronuncia “Sábor”, ou “Sábôre”, se “faxabôre”. Hum?… Porque, em tempos antigos, que superam a nossa vivência, era o «Salavor». Designação original que, por um processo fonológico de supressão, designado como síncope, perderia a consoante intervocálica [l], ficando «Saavor». Posteriormente, haveria de perder o [a] que lhe dá a sílaba tónica e, por efeito do betacismo, o [v] mudaria para [b]. “Bô”, onde isto já nos levou...
 
Com «Conventus Asturicensis», «Asturica Augusta», «Zoelae», «Sabaria», «Sappos» e demais evidências, estarão, seguramente, os caros leitores a vislumbrar os motivos para sermos tão diferentes e «falarmos mal Português»… O resto, que já mete «presúrias», feitas por Ásturo-Leoneses, mosteiros Leoneses, arquitectura mudéjar Leonesa, ordens religioso-militares Leonesas, uma Diocese Leonesa, e até Bragançãos Leoneses, já cá virá na «Parte III»… “Q’ez’tas cousas têim de sere um catchicu de cada bêze. P’ra bêre se fiquemus intchadus de proa, e intendêmus pur’u q’é que nunca ninguém nus dixu q’a nh’ábó Maria num falaba male u… «Pertués»”...
 
[Fotos: Capela de Nª Sra. do Campo (Lamas - Macedo de Cavaleiros), o mais ocidental exemplar de arquitectura mudéjar... Leonesa! Localiza-se num sítio soberbo, num Geossítio do Geopark Terras de Cavaleiros. “Adonde já butei uas faladuras’e, tchêinhu de proa”!
Porque Lamas também é a «Minha» terra, por ser a terra da… “nh’Ábó Maria”!… E da “nha Mãe, e adonde nacerum us mous Tius e às nhas Tias’e”, com os quais aprendi um idioma a que os eruditos chamam de «falar mal Português».]
 

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Para lá do Marão... (4)

Cristina Torrão, 22.11.25

Texto de autoria de Rui Rendeiro Sousa, partilhado (assim como a imagem) no grupo Memórias e outras coisas... BRAGANÇA:

 

As efectivas razões para sermos «a terra das duas línguas», ou para dizerem que «falamos mal Português» (Parte I)

Vou partilhando por aqui, com todo o prazer, umas “tchabaz’quices’e” com os meus conterrâneos (...) as quais, naturalmente, uns apreciam mais do que outros. Recebi, ontem, dois contactos. No primeiro, não fiquei surpreendido pelo entusiasmo, do outro lado transbordando uma alegria contagiante pelo tão diferentes que somos. Já quanto ao segundo… A «coisa» não correu tão bem, acusado tendo sido, inclusive, de «separatista», como se fosse um «terrorista» qualquer. Obviamente, as observações que me foram feitas, basearam-se na «cartilha» da historiografia «vendida» pelo Estado Novo, na qual entravam conceitos como «pátria» ou «heróis», período durante o qual só poderia ler-se ou escrever-se aquilo a que a «doutrina oficial» permissão dava. Entretanto, “dize” que aconteceu “ua cousa a que tchamarum R’buluçãu dus Crabus’e”, parecendo ter aí terminado a formatação do pensamento, das leituras e da escrita…

Essa «doutrina oficial» foi-nos vendendo, a propósito dos tais conceitos de «pátria» e «heróis», um chorrilho de inverdades, no qual se incluem «Lusitanos», «Mouros», «Reconquista», «Condado Portucalense»*, entre muitos outros, os quais representavam, subrepticiamente, e particularmente para a região de Bragança, um «comei e calai-vos». Nesse «comei e calai-vos», à semelhança do que aconteceu com o Franquismo em Espanha, tudo o que pudesse representar uma ameaça à «unidade nacional», nomeadamente no que respeitava à exclusiva Língua Oficial, toda a gente sabe como era tratado… E assim recrudesceu o conceito, nascido com os neo-clássicos do século XVI, de que «falávamos mal Português». “E bota lá á’mandar’u Mirandês’e e ó dialectu pr’ó poulu’e”...
 
Dessa forma, à semelhança do que quase ia acontecendo em Espanha com os idiomas regionais ou minoritários, os ancestrais dialectos que por aqui se falavam, quase iam morrendo. Todavia, nestes últimos 50 anos têm surgido novas abordagens à compreensão das realidades histórica, etnográfica, linguística, etnológica, destas magníficas terras. As quais, ainda assim, permanecem muito pouco estudadas. Todavia, o que já se avançou, permite construir uma visão completamente distinta da emanada pela «cartilha» em cujos resquícios ainda fiz a Escola Primária… E ai de mim que exclamasse “bô”, ou dissesse que precisava do “tchuço”, porque estava a “tchubere”. Logo vinha a reprimenda da minha excelsa e saudosa Professora, que «tínhamos de aprender a falar Português de forma escorreita».
 
Hoje, tem-se outra noção, já conseguindo justificar-se porque “esta ye a tierra de las dues lhénguas”, em Mirandés escrito; ou “esta ye la tierra de les dos llingües”, noutro idioma Ásturo-Leonês, o Asturianu, nosso familiar directo. Ou ainda, transcrevendo a genuína forma como a Avó Maria o pronunciaria: “ez’ta ié a terra daz’ duas línguas’e”. Não conseguindo retratar, fielmente, o sistema de sibilantes que ela utilizava, no que respeita à perfeita distinção fonológica entre [s], [z], [ç] ou, inclusive, [x]. Ou seja, tomando como exemplo a forma verbal «trouxeste», que em Português se pronuncia «trousseste», a Avó Maria pronunciava como “trou xeste”, mantendo o som [x]. Ou a clara distinção entre «massa» e «maça», que, em Português, são homófonas, ou seja, se pronunciam da mesma forma. Porém, a Avó Maria, distinguia-as perfeitamente. E se «maça» era pronunciado como em Português, a «massa» saía com um som aproximado a ”maxa”… E a pronúncia de «coser» era completamente distinta da de «cozer»…
 
Já cá virei, numa próxima oportunidade, e “pr’ós q’intresse tiberim”, para tentar expor as razões históricas que bem fundamentam o facto de sermos essa tal de «terra das duas línguas»… Sem «separatista» ser, que muito gosto de ser Português, muito respeitando a também minha Língua Portuguesa.
 
Porém, poderia ter nascido noutro local qualquer, mas, “azare du caralhitchas’e, habia de ter nacidu’e n’ua terra adonde se falaba male. E boto-le miúda proa nissu’e!”…
 

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* As Terras de Bragança eram uma zona de fronteira indefinida, não se pode dizer que pertencessem ao Condado Portucalense. No Nordeste transmontano, não há o mínimo vestígio de permanência de "mouros" (embora haja lendas de "mouros" e "mouras"). Por isso, nunca lá houve Reconquista. Também não foi terra de Lusitanos.

Para lá do Marão... (3)

Cristina Torrão, 15.11.25
 
(mais um texto de Rui Rendeiro Sousa, partilhado no grupo Memórias...e outras coisas - BRAGANÇA)

 

A minha Avó Maria nasceu em 1913. Nunca frequentou a escola, por isso constando do imenso número de analfabetos que foram imagem de marca de Portugal. Como tal, e de facto, NUNCA aprendeu Português. A língua que ela falava tinha-a aprendido através da transmissão oral dos seus pais, os meus bisavós que não conheci. Suponho que esses meus bisavós também nunca tenham frequentado a escola. Especialmente no século XIX, no qual as taxas de analfabetismo, no Portugal rural trasmontano, rondavam os 80% no sexo masculino, subindo essa percentagem acima dos 90% para o sexo feminino.
 
Presumo, portanto, que esses meus bisavós se incluíssem no vasto grupo populacional que Leite de Vasconcellos identificou como falando «Mirandês», ou uma sua variante dialectal. Ou seja, a minha Avó Maria falava uma variante do Ásturo-Leonês que tinha aprendido, oralmente, com os seus pais. Por isso, os meus colegas «alfacinhas», que apenas se comunicavam na “língua fidalga”, a norma-padrão, o Português, me perguntaram que língua falava a minha Avó...
 
Subitamente, recuei aos meus tempos de «estudantezeco» em Lisboa. E recordei-me que tinha por lá um grande amigo, de Macedo, tal como eu. Embora estudantes na mesma universidade, éramos de cursos diferentes. Mas raro era o fim-de-semana no qual não nos encontrássemos, ou indo eu para as «tainadas» com os colegas dele, ou o inverso, vinha ele para a «copofonia» com os meus. Naquilo que julgávamos ser uma mera brincadeira, quando pretendíamos que ninguém nos entendesse, ou queríamos troçar com os restantes, malvadez de jovens, falávamos “à Macedu’e”, como lhe chamávamos.
 
Vulgar sendo, no meio de um jantar, sair, com pronúncia carregada, um “abonda d’i um carólu’e”, ou um “bota lá mais um catchu de pinga”, ou um “tchega aí u caçoulu da tchitcha”. Ou passávamos a utilizar os pronomes “ou, mou, tou”, ou os derivados de «ele» no plural, “eis, deis, aqueis, daqueis”, entre tantas outras coisas, onde também entravam “tchítcharus’e”, “érbançus’e” ou ”coubes-trontchas’e”. Recorrentemente fazíamos uso do “bô”, do “bem m’ou fintu’e”, do “c’mu quera”, sem “sequera” ponderarmos que, de facto, estávamos a comunicar-nos num idioma distinto do Português. Por isso não nos entendiam...
 
Mais nos divertíamos a fazer contas em “me’ réis”. Bem ao género de, dividida a conta, dar “binte deis me’ réis” a cada um. Atónitos ficavam os comensais perante a moeda que utilizávamos. Hoje, enquanto pensava sobre esses episódios, fui assolado pela expressão que tantas vezes usámos, o “bota a bubere uas cerbeijas”. Inevitavelmente, lembrei-me do «Mirandés»… E pensei para com os meus botões: “Rais’parta! Pois, em Mirandés, «beber umas cervejas», escreve-se «buber uas cerbeijas»!”… Estão a entender?… Nessas paródias, nós não falávamos deturpando o Português! Nós falávamos, mesmo (!), noutro idioma!!!
 
E, creiam, só hoje me apercebi, com clarividência, desse facto. Em simultâneo me apercebendo por que entendia, ao mesmo tempo, a minha Avó Maria, que NÃO falava Português, e os meus colegas «alfacinhas», que Português falavam. Reparado tendo que a “nh’ábó” não intervinha muito quando a conversa decorria em “língua fidalga”, agindo de forma semelhante àquela que acontecia quando alguns dos membros da família, também filhos e netos da emigração, desatavam a «parler en français», demonstrando um alheamento que só os “belhotes’e” sabem fazer. “Ele hai cousas du catantchu’e”!…
 
E, de facto, as minhas conversas com a Avó Maria só eram consequentes e profícuas, quando falávamos em “língua tcharra”, a variante do Ásturo-Leonês que era a sua língua materna! Variante essa que, sem consciência ter, também eu tinha aprendido, quer nos contactos com ela, quer naqueles que mantinha quando fazia as minhas incursões à aldeia. E deixava de dizer «a minha avó», passando para “a nh’ábó”, ou «o meu tio», transformando-o em “u mou tiu’e”. Ou a «chuva» passava a “tchuba”, a «água» a “auga”, o «descer» para “decere”, as «escadas» para “scaleiras’e”, o «descalço» para “zcalçu’e”, ou o «nu» para “couratchu’e”…
 

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Para lá do Marão... (2)

Cristina Torrão, 11.11.25
Continuando a saga da "língua tcharra", transcrevo aqui um esplêndido diálogo, criado por Rui Rendeiro Sousa. Esta série também serve para mostrar aos portugueses sem raízes transmontanas que não há apenas uma "pronúncia do Norte". O falar do Nordeste transmontano nada tem a ver com o do litoral, nomeadamente, do Porto e da província do Minho.
 
Uma dica: ler alto ajuda a perceber.
 
 
(Advertência: O diálogo que a seguir será apresentado, é ficcional, porém baseado em memórias guardadas. É um retrato, o mais fiel possível, da forma de falar da minha Avó Maria, oriunda de uma aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros. Forma de falar que, quando à aldeia ia, absorvia e procurava imitar. Trata-se, apenas, de uma transcrição respeitando a original pronúncia, com todos os fenómenos fonológicos à mesma associada, onde entram paragoges, africadas, betacismos, apócopes, e demais designações estranhas. Em simultâneo respeitando a quase inexistência de vogais átonas, o que conduz, p.e., à recorrente substituição de [o] por [u]... Não se trata de nenhuma forma «científica», sempre tendo em conta que há variações regionais, quer no léxico, quer na pronúncia. Apenas para precaver eventuais protestos...)
 
- Ó mou filhu’e, já tchigaste?
- Ó bó, bote cá um beiju’e! E um tchi-curaçãu dus sous, mim arrotchadinhu’e!
- Fizeste boa biaige? Já te fiz’u café nu pote, q’és ua malga dele? Já te bou pur um cibu de persuntu’e. Abonda di um pão da arca, que já te cort’um carólu’e. Assenta-te aí, mou filhu’e, trai u môtchu’e.
- Ó bó, deixe stare. Só bim pr’á bere.
- Ai u diatchu du raparigu’e! Daqui num sais sim m’rendares, bô! Q’inda te tchegu a roup’ó pêlu’e, pur’i, q’inda sou capaze! Bá, sabes q’stou a mangare, que da tu’ábó nunca alombaste. Stás um home, mas tens d’aparare essas repas’e. Bá, bota lá, q’és ua nabalha, ou trou’xeste a tua?
- Um home que bai pr’ó mare, prupara-s’im terra, num é assim que dize?
- Ó depeis fais um fabore à tu’ábó? Bais ó s’queiru’e, e trais ua gabela de guiçus’e, e de caminhu’e, trai um tóru p’ró depeis serbire de strafugueiru’e. Q’habemus de fazere um magostu’e, que já apanhei ua man’tchêa de caz’tanhas’e. Bá, trai um manhuçu de bides, mas das que já stão amanhadas co baraçu’e, oubiste!
 
A minha avó, naquele seu peculiar estilo de viúva sozinha, de muitos anos, que o meu avô já não conheci, gostava de emitir ordens. Não me incomodavam, afinal era a “nh’ábó Maria”, a única que conheci. E lá fui ao sequeiro, não sem antes passar a cumprimentar a “Marela e á Ruça”, companheiras de aventuras tantas. Um dia, que por vezes também era “atraganadu’e”, para que uma delas andasse, “tchiz’quei-le” num qualquer local que não apreciou, e levei com um “pinote”. Mas ficámos sempre amigos.
 
- Inda stibeste a talhar’us guiçus’e? Bem tempu te lubou’e. Bai à’dega, e trai u assadore, que stá lá imbarradu’e. E si’u q’és, trai binhu’e, mas inda num é du nóbu’e.
...
- Trai daí us lumes’s, ou assopra-le co fole. Num le botes as caz’tanhas sim le fazer um corte, olha que stourum, c’um catanu’e! Bá, rebir-ás, q’és um rudilhu’e, pra num te queimares, pur’i? Ó caralhitchas’e, aban’ó assadore, assim’e, p’ra tráse e p’ra diante. Bai ali pur’ua saca, pr’ás abafare! Ó depeis inda lebas uns bilhós’e.
 
É com alguma emoção de permeio, porém com imenso orgulho, que me recordo dos longos diálogos com a “nh’ábó”. À custa deles e de, um dia, dois colegas «alfacinhas» me terem perguntado que idioma falava a minha avó, questionando-me, por exemplo, o que era “butare as carabunhas pr’ó lume”, hoje me aturam aqueles que paciência têm para ler estas “tchabaz’quices”. É, também, uma forma de honrar e prestar uma sentida homenagem a todas as “Abós Maria” destas magníficas terras.
 
“C’ua lágrima nu cantu du ólhu’e”... “Bá, bou-me lá, c’os deseijus d’um bô f’riadu’e!”… Assim o diria a minha Avó Maria…
 

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Nota: O Rui Rendeiro Sousa deseja "bom feriado" porque publicou este post no passado dia 31 de Outubro. Resolvi assim deixar por igualmente estar escrito em "língua tcharra".

Para lá do Marão... (1)

... mandam os que lá estão. E durante muito tempo, foi mesmo assim.

Cristina Torrão, 08.11.25
Na verdade, no Nordeste transmontano, terras de Bragança, até há cerca de cem anos, não se falava Português, no dia-a-dia das aldeias. E, ainda nos anos 1970, os dialectos transmontanos eram de muito difícil compreensão para os compatriotas de outras paragens. Eu própria só comecei a entender a minha avó transmontana, a partir dos sete anos. Antes disso, não lhe entendia palavra, embora ela insistisse em me contar histórias e lengalengas. Também a minha mãe tinha sérias dificuldades em compreender os parentes e restantes habitantes da aldeia-natal do homem com quem casou. Hoje, já se tornou raridade encontrar alguém que fale "à moda antiga".
 
Todos nós sabemos que existe uma outra língua, em Portugal: o Mirandês. O que quase ninguém sabe, pois muitos estudiosos só actualmente têm chegado a essa conclusão, é que, em tempos, esse Mirandês não se confinava à região de Miranda do Douro, pois seria falado em quase todo o distrito de Bragança.
 
Um desses estudiosos é o Rui Rendeiro Sousa, natural de Macedo de Cavaleiros (o concelho onde nasceu o meu pai). No grupo Memórias e outras coisas... Bragança, do Facebook, ele tem publicado textos sobre essa "língua tcharra", que me enchem de nostalgia. E de pena. De nunca ter gravado esse falar, enquanto era quotidiano, na freguesia do Lombo, onde ia visitar a minha avó Ludovina Amélia Rodrigues. E, com a devida autorização do autor, decidi trazer alguns desses textos para aqui.
 
Não sei se os leitores e comentadores do Delito irão apreciar. Mas não posso deixar de o fazer. Não só porque estes textos me dizem muito. Também por fazerem parte de uma realidade portuguesa praticamente desconhecida em Portugal, nomeadamente, para quem não tem raízes transmontanas.
 
 
Ou um comentário que me “spritou’e”… E, outra “bêze”, a “língua tcharra e á proa”
 
Surpreendido vou ficando por, ao optar por escrever em modo “parolo”, assim bem ao género de “ua galdrumada”, parecer despertar um orgulho que supunha adormecido. Confesso que fico de olhos arregalados, boquiaberto, os meus genes trasmontanos ficando “spritadus’e” com tais inexpectáveis reacções.
 
Por entre todos os valiosos e gratificantes comentários, um houve que me “arrascanhou’e” este profundo orgulho, vaidade até, que sinto nestas terras, que não são melhores nem piores do que outras, todavia sendo MUITO diferentes. Já tive a oportunidade de deixar uma resposta no referido comentário, não apenas o agradecendo, mas informando que já me tinha dado o mote para “butare mais uas palabras’e”.
 
Para os curiosos, tratou-se do seguinte: «De quando em vez aparece um "visconde" que se diz transmontano que diz que em Trás-os-Montes não se fala/nunca se falou assim». “Ah peis é, tamém já nus apanhei’e, ós biz’condes e às biz’condessas’e”… Um apreço especial tendo por apanhá-los. Apenas e tão só porque, em simultâneo, com eles consigo falar na sua “língua fidalga” e na minha/nossa “língua tcharra”. O que representa “ua bantaige”…
 
Por “bantaige” ter mencionado, por vezes é preciso ter “curaige” para escrever assim, fazendo estas literárias “biaiges” por uma terra onde se “debagum nas baiges”. Terra essa onde parece não ter chegado, entre muitas outras coisas, o sufixo [-agem]. Por “bias” disso, ouvia dizer que éramos uns “selbaiges” que corrompíamos e falávamos mal a Língua Portuguesa. Acrescia, a essa observação, que essa forma de falar era de pessoas analfabetas, e que era muito semelhante ao Galego. O que a paradoxal me soava, porque fui, orgulhosamente, “paridu e criadu’e” nestas terras, e não era analfabeto. Mas também gostava de falar a “língua tcharra”…
 
Um dia, contingências da vida, resolvi aprender o tal de Galego. E até descobri que havia duas versões, o Galego-Português, seguido pelos mais puristas, e o Galego-Castelhano, adoptado pelos aculturados. Confusão me tendo feito que, essencialmente o Galego-Português, tivesse muito mais semelhanças com o Português propriamente dito, do que com a tal de “língua tcharra”. Mais tarde, tive o raro privilégio de, nestas andanças linguísticas, conhecer e privar com o meu saudoso amigo Amadeu Ferreira, um dos grandes instigadores e defensores da Língua Mirandesa. E lá me convenceu a aprender «Mirandés». Espanto meu, a “língua tcharra” da minha Avó Maria era “quaije” que igual ao tal de «Mirandés»! Até na ausência e transformação do [-agem] era «igualzinha»...
 
Idioma esse que também tem mais [u] que a Língua Portuguesa, como são bons exemplos «cumprar, cumbersa, frunteira, buber». Ou no qual sucede um processo fonológico de apócope, «comendo-se» a letra final em, por exemplo, «home» ou «onte», tal qual como a Avó Maria dizia. Tal como dizia “trasdonte”, por «anteontem», como consta do «Mirandés». Idioma no qual «depois de amanhã» é «passado manhana», expressão que a Avó Maria dizia «passado manhã». Coincidências… Mais havendo, como o «disse», que em «Mirandés» é «dixe», e a Avó Maria «dixu» pronunciava. Ou «fez», «fizo» em «Mirandés», «fezu» na pronúncia da Avó Maria. Senhora minha que não utilizava os [v], letra que, viria a saber, nem sequer consta do Alfabeto Mirandês. São incontáveis os exemplos das afinidades…
 
Nesta insanidade por perceber que não falávamos mal Português, «cada maluco com a sua panca», passei a estudar os mais eminentes Linguistas, portugueses, espanhóis e de nacionalidades outras. Entre os quais, o inevitável e insuspeito Leite de Vasconcellos. Personalidade que, instigado pelo seu grande amigo, o «nosso» Mogadourense Trindade Coelho, por estas terras andou, há sensivelmente 140 anos, para entender uma tal de «língua estranha» que por aqui se falava. Esclarecedores sendo os valiosos testemunhos que nos deixou, seguidos que seriam por outros eminentes Linguistas. E imaginem lá que idiomas falavam, na esmagadora maioria das terras do distrito, essencialmente nas da chamada Terra Fria, os nossos bisavós/trisavós? “Peis é!”… Ou aquilo a que ele designou por «Mirandês», que seria incluído no ramo das línguas Ásturo-Leonesas, ou dialectos daí derivados, alguns que até ganhariam nome específico, como o Riodonorês, o Guadramilês ou o Sendinês.
 
Posteriormente, outros desenvolvimentos surgiriam, que concluiriam que o tal de «Mirandés» já tinha tido uma extensão muito maior do que aquela a que hoje está confinado. Conclusões que advieram, não apenas do aturado estudo de processos fonológicos, mas também da permanência, na toponímia, de vocábulos de filiação «Mirandesa», sendo o exemplo maior as «Urretas» ou «Orretas» que abundam no cadastro toponímico das nossas freguesias. Ou palavras como «cochino» ou «cachico», tipicamente «Mirandesas».
 
Conclusão: NUNCA falámos mal Português! Falávamos, sim, idiomas de um ramo distinto do Galego-Português, idiomas que até o antecederam, do ramo do Ásturo-Leonês. O que me conduziu a aprender «Asturianu», e com isso melhor ainda percebendo que… NUNCA FALÁMOS MAL PORTUGUÊS! Como tal, para os “biz’condes e pr’ás biz’condessas’e”, cujos bisavós/trisavós até falavam em “língua tcharra”, este “rapaze ou raparigu’e, c’mu le quijerim tchamare”, como muitos outros iguais a ele, “paridus e criadus’e” nestas terras “selbaiges”, tem “ua bantaige” em relação aos “fidalgus’e”: é poliglota! E tão rapidamente fala e escreve, escorreitamente, em Português, a “língua fidalga”, como o faz em versões “língua tcharra”, as derivadas do Ásturo-Leonês.
 
Alguém me perguntava, recentemente, qual a minha nacionalidade. Respondi-lhe, a sorrir, que tinha dupla nacionalidade: Galego-Português por adopção, Ásturo-Leonês por essência.
 

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A origem do Mirandês

Cristina Torrão, 27.10.24

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Fotografia de 1914

Deparei, há dias, com um vídeo do Professor Marco Neves sobre o Mirandês, reconhecido como língua, pela Assembleia da República, há vinte e cinco anos. Infelizmente, tenho apenas este link do Instagram, não sei se há acesso ao vídeo por outro meio.

Costumo seguir os vídeos do linguista Marco Neves e este chamou-me particularmente a atenção, porque a língua mirandesa é algo que me tem ocupado, nos últimos anos, não tivesse eu uma boa costela transmontana – de “Trás-os-Montes Oriental”, acrescente-se, pois há grandes diferenças entre os distritos de Vila Real e de Bragança, incluindo os dialectos que se falavam nas aldeias.

O Professor Marco Neves vem clarificar um equívoco: muita gente pensa que o Mirandês começou por ser um dialecto do Português. Nada mais errado! Sabemos que o Português e o Galego têm a mesma origem. O Mirandês, no entanto, pertence a um outro grupo linguístico, o Asturo-Leonês, uma variante situada, geograficamente, entre o Galaico-Português e o Castelhano.

Acrescento (isto não vem no vídeo) que, à altura da formação de Portugal, Castela ainda não era o grande reino no qual se tornou mais tarde. O reino mais poderoso da Península Ibérica era Leão (ao qual pertencia o condado Portucalense). E, nesse reino, como é óbvio, não se falava Castelhano, mas Asturo-Leonês. Esta língua acabou por desaparecer. Falava-se na região que, das Astúrias, descia para Zamora e Salamanca e espalhou-se ainda mais para Sul, enquanto o rei de Leão deu cartas na Reconquista. Leão acabou, porém, por ser engolido por Castela, com uma (grande) ajuda de Portugal. A independência da nossa nação foi-lhe fatal. Enquanto, a Leste, Castela se tornava cada vez mais poderosa, a expansão de Afonso Henriques para Sul impediu a progressão do malogrado reino para Ocidente. Enfim, o nome ficou eternizado na grande região espanhola de “Castilla-León”.

Tudo isto para dizer que, no Portugal dos primeiros séculos, em vastas regiões das terras de Bragança, não se falava o Galego-Português, mas o Asturo-Leonês. Tenho seguido com muito interesse este estudo, através de Rui Rendeiro Sousa. Natural de Macedo de Cavaleiros, dedica-se, há mais de trinta anos, à História do seu concelho, tendo já publicado livros sobre muitas freguesias.

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Carrapatas, anos 1960 (desconheço o autor da fotografia)

Rui Rendeiro Sousa afirma que a língua, hoje conhecida como Mirandês, se falaria numa vasta região do actual distrito de Bragança. Esse idioma foi, ao longo dos séculos, sendo empurrado, pelo Português, cada vez mais para Leste, até se limitar a uma pequena zona circunscrita (a de Miranda do Douro).

Uma coisa é certa: quando eu era criança, não entendia as pessoas da aldeia-natal do meu pai, com o curioso nome de Lombo. Quase nem entendia a minha própria avó. Falavam Português, mas de uma maneira, digamos, estranha. Hoje, já quase ninguém fala assim. O sotaque transmontano continua a ser especial (não o confundam com o da faixa litoral Minho/Porto, não tem nada a ver), mas já nenhum português de outras paragens tem dificuldade em entender os naturais da região.

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Freguesia do Lombo, concelho de Macedo de Cavaleiros (fonte: página da freguesia no Facebook)

Acrescento palavras do próprio Rui Rendeiro Sousa, até porque ele consegue muito bem demonstrar uma maneira de falar única e que começou a desaparecer nos anos 70/80 do século passado. Estas palavras são excertos de textos que vai publicando no Facebook, na sua luta pela verdadeira identidade do que ele denomina de “Trás-os-Montes Oriental”. O primeiro vem a propósito de um artigo sobre a mania de os nortenhos trocarem os “vês” pelos “bês”, acrescentando-se: «No passado, o Norte de Portugal e a Galiza partilhavam a mesma língua, o galaico-português»:

Um Norte ao qual também tenho imenso orgulho em pertencer! Todavia, há dois «Nortes», geográfica, histórica, linguística, etnológica e etnograficamente. Por isso não dançamos por aqui o Vira Minhoto, nem Pauliteiros ou Caretos há pelo Norte Litoral… Mais orgulho ainda tenho em pertencer ao segundo dos «Nortes», o Interior, que nada tem a ver com o Litoral! E ainda mais orgulho tenho em pertencer a «Trás-os-Montes Oriental» denominação que se vem tornando tradição, no universo da historiografia, para designar, grosso modo, o território que corresponde ao actual distrito de Bragança!

No que respeita à publicação em causa, desconhecerá (naturalmente) a autora (e todos aqueles que a partilham), que pelas bandas do tal de «Trás-os-Montes Oriental», especificamente na tal de Terra Fria, não havia Galego-Português para ninguém (à excepção dos letrados da corte que para aqui vinham em públicos cargos). Havia, sim, um outro ramo, o Asturo-Leonês, do qual derivam os dialectos Riodonorês e Guadramilês, e a oficial Língua Mirandesa. Idioma este que até era o por aqui falado pelos nossos bisavós/trisavós… E no qual não há nenhuma troca de «vês» por «bês», ou o inverso, porque o alfabeto Mirandês nem sequer contempla a letra «v»! Dito de outra forma, enquanto a «Língua Fidalga», a norma-padrão Português, é uma evolução a partir do Galego-Português, a «Língua Charra», na qual se inclui o Mirandês e os dialectos com raízes aí, é uma evolução com origem no Asturo-Leonês.

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Fotografia de Artur Pastor (desconheço a data)

E a propósito da passagem, em 1884, do linguista Leite de Vasconcellos por Macedo de Cavaleiros:

Porque falavam os nossos “abós d’ua forma ztranha” e temos Pauliteiros em Salselas? [Salselas é uma outra freguesia do concelho de Macedo de Cavaleiros]

As “belhinhas” e medievais «Terras de Miranda» abrangiam, histórica e geograficamente, uma vasta extensão, que incluía, não só os concelhos de Miranda do Douro, Vimioso e Mogadouro, mas também uma grande parte dos concelhos de Bragança, Freixo, Moncorvo e… Macedo de Cavaleiros!!!

É por isso que (ainda) temos por cá Pauliteiros (os magníficos de Salselas!), e outros já tivemos…

Havia outras coisas, que ele [Leite de Vasconcellos] deixou magnificamente registadas. Nomeadamente a soberba essência dos nossos “abós”, os tais que falavam de uma forma “ztranha”. E é delicioso ver os apontamentos desse «básico» Homem que incluiu as Terras Macedenses no seu périplo, por cá andando “d’a cabalu’e n’ua burra”… E descansando numa hospedaria, que na altura era chamada de “stalaige”, porque os seus donos eram os “stalajadeirus’e” (e as “stalajadeiras’e”). E “habia deis im Macedu’e, pur’u menus’e”, não sabendo a qual dos dois terá solicitado repouso… Mas sei que, nessa época, pediu batatas para acompanhar o jantar e os convivas riram-se… Porque, a contrariar a realidade actual, na qual a “balula” é indissociável da nossa riquíssima gastronomia, nesse tempo dos nossos “abós/bisabós”, o digno tubérculo era produzido, quase exclusivamente, para “butare na bianda”… A dos “cutchinus’e”…

E “prontus’e”… Lá vou “intentandu’e” partilhar o tanto que “fêzu” o que “sêmus’e”, trazendo por aqui o muito que guarda uma terra que até já foi “mim piquerrutcha”…

Dizem, por «Terras de Miranda», no seu fantástico idioma, que também já foi o nosso, que têm imensa «proua an ser Mirandés». Deturpo-lhes a expressão, alterando-a para algo que melhor se me adapta, não a escrevendo em «Pertués», mas no original «Mirandés»: «proua an ser de Macedo de Cabalheiros»! Porque «ye a tierra adonde naci, a mie tierra»…

 

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Desconheço autor e data

Flores

Cristina Torrão, 01.05.24

Quando se pensa em Maio, pode pensar-se em flores, primavera e um clima excelente, diz-nos a Maria Dulce Fernandes ali mais abaixo.

Por acaso, fiz ontem um vídeo de flores silvestres transmontanas. Foi em Macedo de Cavaleiros, não em Miranda do Douro, como a canção pode fazer pensar. Mas eu fiz questão de uma banda sonora com gaitas de foles. Adoro este instrumento, tão típico desta região, mas tão pouco divulgado em Portugal. E adoro Pauliteiros, que aliás não existem apenas em Miranda do Douro.

Espero que gostem, neste 1º de Maio:

O primeiro nevão do ano

João Pedro Pimenta, 03.03.23

Como parece que o Inverno ainda não acabou, ao contrário do que os optimistas pensavam em meados de Fevereiro, mesmo que estejamos no mês do seu fim, deixo aqui algumas recordações dos momentos mais frios, a 18 de Janeiro. As imagens foram tiradas na serra do Alvão, provando que não é só na serra da Estela que há neve.

 
 
Ao longe o monte Farinha, encimado pela Senhora da Graça, paragem obrigatória da Volta a Portugal, como uma ilha no meio de um oceano branco.
 
 
 
 


Ceder energia, arder por indiferença

João Pedro Pimenta, 22.07.22
Felizmente já estão em fase de resolução (espero, porque em dois casos voltaram), mas os grandes incêndios da última semana, tirando o da Guarda e o do Fundão, foram todos em Trás os Montes. E à parte de um perto de Bragança, todos no distrito de Vila Real - Chaves, Vila Pouca, Murça, até o de Baião invadiu o Marão. Entre aldeias habitadas por idosos, que por isso mesmo têm mais dificuldade em limpar as suas propriedades, fragas difíceis de alcançar e pinhais dispersos, arderam milhares de hectares, inúmeras árvores que eram o sustento das populações, algumas casas e morreram inúmeros animais e três pessoas (apesar de tudo muito menos do que em 2017).
 
Tudo isso poderia levar-nos para a discussão do abandono, desertificação e envelhecimento do interior, mas houve um pormenor em que poucos notaram: a não muitos quilómetros dos incêndios, em Ribeira de Pena, António Costa inaugurava esta semana a nova central hidroeléctrica do Tâmega, três albufeiras que se destinam à produção de electricidade. Ou seja, um empreendimento que sacrificando parte das terras em redor, por norma do interior, pretende fornecer energia a parte do país, mas aparentemente sem grandes contrapartidas às populações da região. Vimos o mesmo com as barragens no Planalto Mirandês, vendidas sem que os municípios recebessem o que quer que fosse. Ou com as enormes albufeiras no Barroso, que poucos benefícios palpáveis vieram trazer à região. Os tais "empregos" e "oportunidades" não passaram de ilusões e a população decresceu a olhos vistos.
 
Este é o drama permanente do interior, particularmente de Trás os Montes: continuamente desbastado para fornecer energia ao resto do país, mas esquecido em tudo o resto e notícia apenas quando há tragédias como os fogos, consequência do abandono e do desinteresse por parte de sucessivas administrações que sempre olharam para a região apenas como reserva de energia. E vamos lá a ver se não abrem umas crateras para explorar lítio a mando do secretário de estado Galamba, o perfeito exemplo do governante que se está nas tintas para o território desde que tire de lá benefícios (nem contrapartidas se lhes pode chamar). Suprema e cruel ironia, a da zona que usa a água para o fornecimento de energia necessitar tanto dela para salvar o seu território.
 
Fogo em Murça possui uma frente ativa e lavra em zona sem acessos

Colectividades de bairro numa cidade transmontana

João Pedro Pimenta, 29.12.21

As pequenas colectividades contam muitas vezes a história dos locais que representam. Como a do Bairro Latino, clube desportivo do bairro dos Ferreiros, que desce abruptamente desde a imponente ponte metálica até à velha ponte de Santa Margarida, de pedra, ambas sobre o Corgo. Diz-se que um conjunto de estudantes de liceu locais encontrou algumas semelhanças entre o Quartier Latin de Paris e o seu bairro dos Ferreiros, zona de artesãos e, dizia-se, de casas de má fama, e impulsionados pelo Dr. Otílio de Figueiredo, Pai do Professor Eurico de Figueiredo (sim, o líder mais radical da greve estudantil de 1962 e mais tarde deputado do PS antes de passar a outros partidos, como o PDR e o MPT), resolveu criar um clube com o nome de Bairro Latino, dando conta que a rua principal e as ruelas que a ladeavam eram tantas como as línguas latinas. Apesar de muito eclético e de ter várias modalidades de salão e exteriores nunca teve um campo de jogos próprio nem nunca conseguiu ombrear com o vizinho maior, o SC Vila Real, que não lhe permitia jogar no mítico campo do Calvário. O Bairro Latino quase desapareceu, mas voltou a conseguir sede própria, próxima da antiga (onde ao que parece as francesinhas estavam ao nível das do Cardoso, lá em cima na "bila"), onde hoje funciona a Agência de Ecologia Urbana, mesmo à entrada da velha ponte sobre o Corgo (e por baixo da metálica), símbolo maior do velho bairro que representa.

O SC Vila Real, pelo contrário, além de campo próprio (agora até tem dois, ambos com nomes curiosos, Calvário e Monte da Forca), possui o seu próprio bar/loja no espaço nobre do centro da cidade (última foto) e continua a ser a principal agremiação desportiva da cidade.

Seja em aldeias, lugares, vilas ou bairros de cidades, as pequenas colectividades, constituídas em associações, grupos, agremiações e uniões acrescentados dos inevitáveis "desportiva", "recreativo", cultural", etc, constituem um elo de ligação das comunidades, uma oportunidade para a prática desportiva, para difusão cultural ou de informação ou o simples convívio, que no fundo é o que mais importa. São absolutamente essenciais em qualquer sociedade e para todas as idades. Quando desaparecem, extinguem-se também com elas ligações, amizades, práticas rotineiras, exemplos de vida e sobretudo muitas histórias. Quando isso acontece, é a antevisão do declínio das sociedades locais que representam, a não ser quando outras as substituam com sucesso.

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 As duas pontes: a de Santa Margarida e, lá em cima, a ponte metálica

 
A sede do Bairro Latino, entre duas pontes

Vista do bairro, do rio  e da velha ponte desde a ponte metálica

O bar/loja do SC Vila Real
 
O mítico campo do Calvário, há meia dúzia de anos, depois de ser relvado