Para lá do Marão... (6)

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Texto de autoria de Rui Rendeiro Sousa, partilhado (assim como a imagem) no grupo Memórias e outras coisas... BRAGANÇA:
Vou partilhando por aqui, com todo o prazer, umas “tchabaz’quices’e” com os meus conterrâneos (...) as quais, naturalmente, uns apreciam mais do que outros. Recebi, ontem, dois contactos. No primeiro, não fiquei surpreendido pelo entusiasmo, do outro lado transbordando uma alegria contagiante pelo tão diferentes que somos. Já quanto ao segundo… A «coisa» não correu tão bem, acusado tendo sido, inclusive, de «separatista», como se fosse um «terrorista» qualquer. Obviamente, as observações que me foram feitas, basearam-se na «cartilha» da historiografia «vendida» pelo Estado Novo, na qual entravam conceitos como «pátria» ou «heróis», período durante o qual só poderia ler-se ou escrever-se aquilo a que a «doutrina oficial» permissão dava. Entretanto, “dize” que aconteceu “ua cousa a que tchamarum R’buluçãu dus Crabus’e”, parecendo ter aí terminado a formatação do pensamento, das leituras e da escrita…

* As Terras de Bragança eram uma zona de fronteira indefinida, não se pode dizer que pertencessem ao Condado Portucalense. No Nordeste transmontano, não há o mínimo vestígio de permanência de "mouros" (embora haja lendas de "mouros" e "mouras"). Por isso, nunca lá houve Reconquista. Também não foi terra de Lusitanos.


Nota: O Rui Rendeiro Sousa deseja "bom feriado" porque publicou este post no passado dia 31 de Outubro. Resolvi assim deixar por igualmente estar escrito em "língua tcharra".


Fotografia de 1914
Deparei, há dias, com um vídeo do Professor Marco Neves sobre o Mirandês, reconhecido como língua, pela Assembleia da República, há vinte e cinco anos. Infelizmente, tenho apenas este link do Instagram, não sei se há acesso ao vídeo por outro meio.
Costumo seguir os vídeos do linguista Marco Neves e este chamou-me particularmente a atenção, porque a língua mirandesa é algo que me tem ocupado, nos últimos anos, não tivesse eu uma boa costela transmontana – de “Trás-os-Montes Oriental”, acrescente-se, pois há grandes diferenças entre os distritos de Vila Real e de Bragança, incluindo os dialectos que se falavam nas aldeias.
O Professor Marco Neves vem clarificar um equívoco: muita gente pensa que o Mirandês começou por ser um dialecto do Português. Nada mais errado! Sabemos que o Português e o Galego têm a mesma origem. O Mirandês, no entanto, pertence a um outro grupo linguístico, o Asturo-Leonês, uma variante situada, geograficamente, entre o Galaico-Português e o Castelhano.
Acrescento (isto não vem no vídeo) que, à altura da formação de Portugal, Castela ainda não era o grande reino no qual se tornou mais tarde. O reino mais poderoso da Península Ibérica era Leão (ao qual pertencia o condado Portucalense). E, nesse reino, como é óbvio, não se falava Castelhano, mas Asturo-Leonês. Esta língua acabou por desaparecer. Falava-se na região que, das Astúrias, descia para Zamora e Salamanca e espalhou-se ainda mais para Sul, enquanto o rei de Leão deu cartas na Reconquista. Leão acabou, porém, por ser engolido por Castela, com uma (grande) ajuda de Portugal. A independência da nossa nação foi-lhe fatal. Enquanto, a Leste, Castela se tornava cada vez mais poderosa, a expansão de Afonso Henriques para Sul impediu a progressão do malogrado reino para Ocidente. Enfim, o nome ficou eternizado na grande região espanhola de “Castilla-León”.
Tudo isto para dizer que, no Portugal dos primeiros séculos, em vastas regiões das terras de Bragança, não se falava o Galego-Português, mas o Asturo-Leonês. Tenho seguido com muito interesse este estudo, através de Rui Rendeiro Sousa. Natural de Macedo de Cavaleiros, dedica-se, há mais de trinta anos, à História do seu concelho, tendo já publicado livros sobre muitas freguesias.

Carrapatas, anos 1960 (desconheço o autor da fotografia)
Rui Rendeiro Sousa afirma que a língua, hoje conhecida como Mirandês, se falaria numa vasta região do actual distrito de Bragança. Esse idioma foi, ao longo dos séculos, sendo empurrado, pelo Português, cada vez mais para Leste, até se limitar a uma pequena zona circunscrita (a de Miranda do Douro).
Uma coisa é certa: quando eu era criança, não entendia as pessoas da aldeia-natal do meu pai, com o curioso nome de Lombo. Quase nem entendia a minha própria avó. Falavam Português, mas de uma maneira, digamos, estranha. Hoje, já quase ninguém fala assim. O sotaque transmontano continua a ser especial (não o confundam com o da faixa litoral Minho/Porto, não tem nada a ver), mas já nenhum português de outras paragens tem dificuldade em entender os naturais da região.

Freguesia do Lombo, concelho de Macedo de Cavaleiros (fonte: página da freguesia no Facebook)
Acrescento palavras do próprio Rui Rendeiro Sousa, até porque ele consegue muito bem demonstrar uma maneira de falar única e que começou a desaparecer nos anos 70/80 do século passado. Estas palavras são excertos de textos que vai publicando no Facebook, na sua luta pela verdadeira identidade do que ele denomina de “Trás-os-Montes Oriental”. O primeiro vem a propósito de um artigo sobre a mania de os nortenhos trocarem os “vês” pelos “bês”, acrescentando-se: «No passado, o Norte de Portugal e a Galiza partilhavam a mesma língua, o galaico-português»:

Fotografia de Artur Pastor (desconheço a data)
E a propósito da passagem, em 1884, do linguista Leite de Vasconcellos por Macedo de Cavaleiros:
Porque falavam os nossos “abós d’ua forma ztranha” e temos Pauliteiros em Salselas? [Salselas é uma outra freguesia do concelho de Macedo de Cavaleiros]
É por isso que (ainda) temos por cá Pauliteiros (os magníficos de Salselas!), e outros já tivemos…
Havia outras coisas, que ele [Leite de Vasconcellos] deixou magnificamente registadas. Nomeadamente a soberba essência dos nossos “abós”, os tais que falavam de uma forma “ztranha”. E é delicioso ver os apontamentos desse «básico» Homem que incluiu as Terras Macedenses no seu périplo, por cá andando “d’a cabalu’e n’ua burra”… E descansando numa hospedaria, que na altura era chamada de “stalaige”, porque os seus donos eram os “stalajadeirus’e” (e as “stalajadeiras’e”). E “habia deis im Macedu’e, pur’u menus’e”, não sabendo a qual dos dois terá solicitado repouso… Mas sei que, nessa época, pediu batatas para acompanhar o jantar e os convivas riram-se… Porque, a contrariar a realidade actual, na qual a “balula” é indissociável da nossa riquíssima gastronomia, nesse tempo dos nossos “abós/bisabós”, o digno tubérculo era produzido, quase exclusivamente, para “butare na bianda”… A dos “cutchinus’e”…

Desconheço autor e data
Passadiços em Vila Real, com vista para o rio Cabril e a ponte da A4, mais um casal de turistas de nacionalidades diferentes.
Quando se pensa em Maio, pode pensar-se em flores, primavera e um clima excelente, diz-nos a Maria Dulce Fernandes ali mais abaixo.
Por acaso, fiz ontem um vídeo de flores silvestres transmontanas. Foi em Macedo de Cavaleiros, não em Miranda do Douro, como a canção pode fazer pensar. Mas eu fiz questão de uma banda sonora com gaitas de foles. Adoro este instrumento, tão típico desta região, mas tão pouco divulgado em Portugal. E adoro Pauliteiros, que aliás não existem apenas em Miranda do Douro.
Espero que gostem, neste 1º de Maio:
Como parece que o Inverno ainda não acabou, ao contrário do que os optimistas pensavam em meados de Fevereiro, mesmo que estejamos no mês do seu fim, deixo aqui algumas recordações dos momentos mais frios, a 18 de Janeiro. As imagens foram tiradas na serra do Alvão, provando que não é só na serra da Estela que há neve.


Freguesia de Jerusalém do Romeu, concelho de Mirandela (6 de Maio de 2022)

As pequenas colectividades contam muitas vezes a história dos locais que representam. Como a do Bairro Latino, clube desportivo do bairro dos Ferreiros, que desce abruptamente desde a imponente ponte metálica até à velha ponte de Santa Margarida, de pedra, ambas sobre o Corgo. Diz-se que um conjunto de estudantes de liceu locais encontrou algumas semelhanças entre o Quartier Latin de Paris e o seu bairro dos Ferreiros, zona de artesãos e, dizia-se, de casas de má fama, e impulsionados pelo Dr. Otílio de Figueiredo, Pai do Professor Eurico de Figueiredo (sim, o líder mais radical da greve estudantil de 1962 e mais tarde deputado do PS antes de passar a outros partidos, como o PDR e o MPT), resolveu criar um clube com o nome de Bairro Latino, dando conta que a rua principal e as ruelas que a ladeavam eram tantas como as línguas latinas. Apesar de muito eclético e de ter várias modalidades de salão e exteriores nunca teve um campo de jogos próprio nem nunca conseguiu ombrear com o vizinho maior, o SC Vila Real, que não lhe permitia jogar no mítico campo do Calvário. O Bairro Latino quase desapareceu, mas voltou a conseguir sede própria, próxima da antiga (onde ao que parece as francesinhas estavam ao nível das do Cardoso, lá em cima na "bila"), onde hoje funciona a Agência de Ecologia Urbana, mesmo à entrada da velha ponte sobre o Corgo (e por baixo da metálica), símbolo maior do velho bairro que representa.
O SC Vila Real, pelo contrário, além de campo próprio (agora até tem dois, ambos com nomes curiosos, Calvário e Monte da Forca), possui o seu próprio bar/loja no espaço nobre do centro da cidade (última foto) e continua a ser a principal agremiação desportiva da cidade.
Seja em aldeias, lugares, vilas ou bairros de cidades, as pequenas colectividades, constituídas em associações, grupos, agremiações e uniões acrescentados dos inevitáveis "desportiva", "recreativo", cultural", etc, constituem um elo de ligação das comunidades, uma oportunidade para a prática desportiva, para difusão cultural ou de informação ou o simples convívio, que no fundo é o que mais importa. São absolutamente essenciais em qualquer sociedade e para todas as idades. Quando desaparecem, extinguem-se também com elas ligações, amizades, práticas rotineiras, exemplos de vida e sobretudo muitas histórias. Quando isso acontece, é a antevisão do declínio das sociedades locais que representam, a não ser quando outras as substituam com sucesso.
As duas pontes: a de Santa Margarida e, lá em cima, a ponte metálica