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Frases de 2019 (16)

por Pedro Correia, em 04.06.19

«Portugal não pode dizer que é um país civilizado enquanto tiver touradas.»

André Silva, porta-voz do PAN, em entrevista ao jornal Sol (1 de Junho)

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Touradas: "Vitória ou Morte"?

por jpt, em 25.11.18

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Sobre isto de touradas bloguei em 2012 (um texto um pouco mais longo que recoloquei aqui). Resmungando que a) numa sociedade que trata fauna e flora desta forma omnívora e voraz, e que tem estas práticas de produção alimentar, o centramento das preocupações com o episódico sofrimento taurino mostra uma enorme inconsciência e mediocridade intelectual (e moral); b) a oposição à tauromaquia é, fundamentalmente, a raiva ideológica face à socioeconomia rural, em particular a de "lezíria"; e que c) estas preocupações ("civilizatórias" nas palavras da actual ministra da Civilização) mostram o primado uma política de cabotagem, encerrando a questão ecológica numa redoma de "petização" (no duplo sentido de "pet", animal doméstico, e "petiz", infantilização dos cidadãos) - consagrada na recente legislação sobre o acesso de animais domésticos a cafés e restaurantes. Esta política centra-se na domesticidade, pois as relações da sociedade com a sua natureza são olhadas e criticadas através das preocupações mais quotidianas das famílias elementares (e do crescente isolamento individual) em palco urbano e suburbano.  Ou seja, obedece à irreflexão típica do quotidiano do eleitorado, e é nesse sentido que é política de cabotagem (e também muito cabotina, e não só por tendencial homofonia).

Nunca fui a uma tourada, e o que vi na tv não me criou qualquer afeição. Por mais que os seus defensores clamem é óbvio que a festa sanguinolenta tem os dias contados, deixou de corresponder às sensibilidades e valores predominantes, tanto no país urbano como no contexto cultural mais amplo em que nos inserimos. Tal e qual outras actividades festivas e económicas que fazem actuar animais, como a luta de galos ou de cães. Ou algumas formas de caça (ainda se caça com armadilhas?). No mesmo âmbito de mudança que instituiu novas formas de controlo sobre as corridas de cães e de cavalos, evitando a sua exaustão, ou os circos. Ou foi transformando o tétrico paradigma dos horrorosos "jardins zoológicos" com animais enjaulados. Os adeptos da tauromaquia podem então continuar a clamar mas não há nada a fazer, o tempo desta tourada passou. E, mais uma década ou menos uns anos, ela será terminada. Ou então evolui.

Não sou nada especialista, e um conhecedor porventura ficará escandalizado com o que digo. Mas julgo que o toureio português tem duas especificidades preciosas: o equestre, uma dressage peculiar que possibilita e até histrioniza a encenação do conúbio homem-animal (a cultura) enfrentando a besta (a natureza); a pega, a encenação do colectivo humano, armado apenas de força e destreza, enfrentando a natureza.

Ora estas encenações são algo anacrónicas: por um lado, e ainda que a estética tauromáquica muito se cruze com as estéticas dos movimentos políticos homossexuais actuais, a pega apela a uma rusticidade máscula que afronta a presente homofilia, que àquela diz "tóxica". E esse é um grande inimigo ideológico, indito, subterrâneo das touradas. Talvez mesmo o mais importante neste curto prazo. Por outro lado, mais estrutural, a encenação ritual do conflito homem(/animal)-natureza perdeu estes referentes: a natureza está domada (escavacada até), fauna desaparecida ou domesticada, flora recondicionada, e até vírus e bactérias recuam face à indústria química. A natureza agressiva é hoje a climatérica, muito menos (ou até nada) simbolizável numa arena.

Como preservar a tourada? Seus valores, e em particular a criação equídea e taurina, e um precioso ambiente de diversidade ecológica? "Mudar ou morrer" é o que lhes resta. Mas a proposta socialista de introduzir protecções para touros é recebida com apupos pelos imobilistas aficionados ("Vitória ou morte!", urram, na antevéspera de ulularem "Viva a Morte"). E com gozo pelos adversários das touradas - pois a estes, de facto, não preocupam os touros mas sim o meio social, e seus valores, ligado às touradas, que abominam. 

Deixemo-nos de rodeios. Por mais que seja obrigação (intelectual, patriótica, até moral) pontapear tudo o que advém do partido do vice do miserável José Sócrates, esta proposta tem toda a pertinência. Permitirá, para desespero dos puristas, preservar mas também disseminar a tourada, potenciar o seu carácter simbólico, a festa. Tornará a tourada uma encenação? Não. Pois ela já é uma encenação. Transformará a cenografia, potenciará a representação. Será um pouco circense? Será. Mas, de facto, não o é já?

Olhe-se para o wrestling (esse sobre o qual Roland Barthes escreveu, iluminadamente, há mais de 60 anos). Veja-se como essa encenação, ridícula que seja aos olhos mais secos, se tornou num espectáculo global e milionário. Sem precisar de ser efectivamente um combate físico, mas sendo a ritualização (até exasperadamente) histriónica do combate. A tourada, "mudando sem morrer", pode ser isso, e assim um monumental filão de recursos. Com criatividade e inovação, com coreógrafos e dançarinos (perdão, cavaleiros e forcados). Entre os quais haverá "forcados pobres" (qual a personagem do magnífico Mickey Rourke) e "cavaleiros ricos". Fazendo assim continuar, e até bem mais rica, a lezíria. Os seus magníficos cavalos, os touros livres. E a gente. Essa, felizmente, nada suburbana.

Ou então não. Aquilo acaba e far-se-ão campos de golfe. E uns condomínios para reformados com "vistos doirados". 

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De luz e de sombra

por Rui Rocha, em 19.11.18

Vamos lá ver. Sempre gostei de touradas. Gostei da 1ª vez que vi ao vivo, com 5 anos, até porque a minha mãe me garantia que aquilo que saía do touro quando lhe espetavam as bandarilhas era vinho tinto. E, nesse dia, quem lhas espetava era o Chibanga. Gostava de ver touradas na televisão, com a minha avó, num tempo em que na televisão não se passava nada, ou o que se passava eram o TV Rural, o Tom e o Jerry, os desenhos animados desencantados na Checoslováquia pelo Vasco Granja e os Jogos Sem Fronteiras. E gostava de ver ainda que, até certa altura, a minha mãe tivesse de me tapar os olhos para não ver as pegas porque nas pegas eu tinha um bocadinho de medo. Depois, já em Braga, onde víamos mais a televisão espanhola do que a portuguesa (eu já conhecia o Piranha e o Chanquete uns bons anos antes de a RTP os trazer para Portugal), descobri a tourada à espanhola. Com os Miuras e os Victorinos. Com picadores, morte do touro na arena e, nos dias perfeitos, corte de rabo e orelhas. E sim, a tourada portuguesa perdeu um bocadinho de interesse, com excepção da parte dos forcados. E sim, houve tardes em que corri para casa para ver as transmissões da TVE da Feria de Las Ventas, ou da Maestranza de Sevilla ou de Ronda. Sim, vi o Antoñete, o Ruiz Miguel, o Espartaco, o Paco Ojeda, o El Niño de la Capea, o José Luis Manzanares e o El Yiyo e o Curro Romero. Adorava aquilo, cheguei a perceber um bocadinho daquilo. Do "temple", dos "espacios", das "querencias", das "tablas". Por isso, não me venham falar das touradas do ponto de vista de gostar. Gostava de touradas e acho, para ser sincero, que ainda gosto. Do frisson, da valentia, do perigo, da violência, eu sei lá. Não me interpretem mal, mas gostava das touradas como gostava dos filmes de cowboys em que os índios eram sempre os maus e perdiam sempre. Morriam como tordos à pistola do John Wayne e dos tipos do Bonanza e nós ficávamos contentes. Ou não ficávamos? Ou como gostava do wrestling até perceber que aquilo não era pancada a sério, que estava tudo feito. Da mesma maneira, imagino, que alguns gostam de ver quando há acidentes. Ou que outros gostam de insultar árbitros todos os fins-de-semana. Somos herança genética e somos cultura e uma e outra influenciam-se. Nesse gostar de tourada, de filmes de cowboys, havia uma questão de empatia direccionada que resolvia o problema. Os índios eram todos maus, não eram? E os touros, na verdade, eram praticamente um objecto. E se estavam lá, era porque queriam. Essa é a história perfeita da tourada. O touro está lá porque é da sua natureza ser bravo, investir, ser toureado. Se não for toureado, extingue-se e, como todas as espécies, o touro orienta-se para a sua sobrevivência. E o toureiro está lá, com todos os que estão, porque essa a é a sua cultura, a sua tradição. Está tudo bem, então. Somos genética, química e cultura e a violência está presente no resultado. Está tudo bem, não está? Do ponto de vista dos instintos básicos, está, Desse traço fundamental da humanidade está, claro. Mas e depois? Não há na tourada uma violência gratuita que merece reflexão para lá disso? Pergunto porque continuo a gostar de tourada e, ao mesmo tempo, sinto que as touradas já não são deste tempo, que chegou a hora de pensarmos nisso.

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A tourada.

por Luís Menezes Leitão, em 15.11.18

Em 1973 mandámos ao festival da eurovisão esta canção, demonstrando bem como o governo de então estava a ser visto pelo país. Se olharmos bem para a letra, apesar de terem passado 45 anos, acho que a actual situação não é muito diferente. Neste dia, em que o governo e o grupo parlamentar do partido que o apoia se envolveram numa verdadeira tourada, acho que é adequado recordar esta canção.

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Tradições

por Teresa Ribeiro, em 09.11.18

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Na China havia, como é sabido, a tradição de enfaixar os pés das meninas desde a mais tenra idade para que não crescessem mais que uns ideais dez centímetros. O sofrimento atroz que resultava da compressão dos ossos e das unhas por forma a impedir o normal crescimento do pé era justificado por motivos estéticos: um pé minúsculo era considerado mais atraente e os passinhos doridos das donzelas, a sublinhar a sua fragilidade, algo de muito erótico. Na  Índia, o costume de queimar vivas as viúvas junto à pira funerária do seu falecido marido (o sati), embora proibido, parece que chegou ao século XXI (há registos de sacrifícios realizados em 2006) nalgumas comunidades hindus. A excisão genital feminina, outra prática bárbara que impende sobre as mulheres, essa está longe de ser erradicada. 

As "tradições" são assim: difíceis de combater. Nem todas refletem o lado mais pérfido dos seres humanos, mas as que o fazem felizmente têm sido pouco a pouco desacreditadas pela civilização, embora - e esse é um traço comum - sob os mais vivos protestos das camadas conservadoras.

Os elos mais fracos - mulheres, crianças, idosos, pessoas doentes - têm sido ao longo dos tempos as vítimas preferenciais de muitos rituais, que sob falsos pretextos mais não fazem do que dar largas à agressividade larvar que faz parte da natureza humana. Mas se no mundo civilizado a que pertencemos a censura social já está perfeitamente estabelecida relativamente a maus tratos infligidos a outros seres humanos, quando se fala de animais, o consenso desaparece. Defender seres que estão abaixo da condição humana é subir mais um patamar civilizacional e isso demora tempo. 

Pessoas e animais não estão no mesmo plano, nem têm os mesmos direitos, mas a discussão não é essa. O que está em causa quando se fala de maus tratos a animais mais do que o sofrimento da vítima é a atitude do flagelador e a complacência que deve ou não existir face à crueldade que manifesta. No fundo é a tolerância relativa ao prazer da carnificina, ao gozo de provocar sofrimento num ser capaz de sentir com todas as fibras do seu corpo a atrocidade a que está a ser sujeito, que se discute. E essa é a questão de fundo da tourada. Algo que os aficcionados pretendem iludir quando falam da "arte do toureio". Mas de eufemismo em eufemismo a que se referem eles, quando elogiam a "festa brava"? À estética. Às chiquelinas, aos pasos dobles, ao confronto estilizado entre homem e besta. A visão crua da realidade, a de que no fundo gozam com a tortura de um bicho, não lhes interessa.

Fossem os toiros robots, as praças ficariam vazias. Porque a festa brava precisa de sangue. Sem sofrimento, sem aquela luta desesperada e inglória do bicho pela sua vida, não seria a mesma coisa.

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Post-it

por Fernando Sousa, em 08.11.18

Uma pergunta: se durante uma lide o touro der uma cornada num desses moços apertadinhos em sedas, adornos, luces, fru-frus, aos gritos de hei, hei, o animal tem direito a palmas, ou fica mal? Só para saber. 

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Não sei, digo eu

por Rui Rocha, em 20.08.14

Se é verdade que a "festa brava" é fundamental para evitar a extinção do "touro de lide", já começávamos a  tourear linces da malcata.

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