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22 de Dezembro de 1975
«Portugal transformado num paradoxo ou assombrado por aldeias mortas, as silvas a apertar num abraço maninho paredes encardidas que cercaram calor humano, ou embandeirado de moradias exóticas que parecem alucinações do arco-íris. A avalanche emigratória, transplantada brutalmente para as grandes metrópoles europeias populações inteiras que nunca tinham saído do seu agro, foi catastrófica para o equilíbrio corográfico do país. Enquanto vivíamos isolados ou frequentávamos terras virgens onde construíamos à nossa imagem e semelhança, a própria paisagem nos comandava o sentido estético, a feição urbana. Havia uma exigência do natural que não permitia desmandos ao critério. E, sem termos uma arte rural surpreendente, tínhamos a graça do simples, do ingénuo, do autêntico. De repente, começámos a invadir maciçamente o mundo citadino. E, como nos faltava casticismo, segurança anímica, imunidade cultural, não resistimos ao embate. Ficámos baralhados nos sentimentos, no gosto, na sensibilidade. Degradados na própria inocência, somos hoje um mostruário de tintas e a vergonha dos olhos.»
Diário XII, de Miguel Torga