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Delito de Opinião

Torga, 50 anos depois (22)

Pedro Correia, 22.12.25

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22 de Dezembro de 1975

«Portugal transformado num paradoxo ou assombrado por aldeias mortas, as silvas a apertar num abraço maninho paredes encardidas que cercaram calor humano, ou embandeirado de moradias exóticas que parecem alucinações do arco-íris. A avalanche emigratória, transplantada brutalmente para as grandes metrópoles europeias populações inteiras que nunca tinham saído do seu agro, foi catastrófica para o equilíbrio corográfico do país. Enquanto vivíamos isolados ou frequentávamos terras virgens onde construíamos à nossa imagem e semelhança, a própria paisagem nos comandava o sentido estético, a feição urbana. Havia uma exigência do natural que não permitia desmandos ao critério. E, sem termos uma arte rural surpreendente, tínhamos a graça do simples, do ingénuo, do autêntico. De repente, começámos a invadir maciçamente o mundo citadino. E, como nos faltava casticismo, segurança anímica, imunidade cultural, não resistimos ao embate. Ficámos baralhados nos sentimentos, no gosto, na sensibilidade. Degradados na própria inocência, somos hoje um mostruário de tintas e a vergonha dos olhos.»

 

Diário XII, de Miguel Torga

Torga, 50 anos depois (21)

Pedro Correia, 29.09.25

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29 de Setembro de 1975

«Retorno maciço dos portugueses do ultramar. Na aflição da fuga, até de barco de pesca vieram muitos, a ponto de alguém dizer que fomos descobrir o mundo em caravelas e regressámos dele em traineiras. A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a irresponsabilidade de todos deu este resultado: o fim sem grandeza de uma grande aventura. Metade de Portugal a ser o remorso da outra metade. Os judeus da diáspora ansiavam por voltar a Canaã. Povo messiânico também, mas de sentido exógeno, para nós o regresso é o exílio. A nossa Terra Prometida estava fora de Portugal.»

 

Diário XII, de Miguel Torga

Torga, 50 anos depois (20)

Pedro Correia, 28.09.25

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28 de Setembro de 1975

«É uma pena que a barca de Caronte regresse sempre vazia ao cais da partida e Ruben A. não possa voltar por momentos ao reino dos vivos para comentar a sua própria morte, anunciada hoje em tipo miúdo na vala necrológica dos jornais. É que ninguém melhor do que ele, a propósito dessa ausência de si mesmo no palco da existência, saberia transmitir-nos o que há de absurdo, de estúpido e de pungente no desaparecimento de certas criaturas que trazem à indiferença dos dias a singularidade de um estilo desabusado, emblematicamente vivido. Por ser precisamente uma delas, um desses entes raros e insólitos que nunca deveriam deixar-nos desamparados na pobreza da nossa vulgaridade, e porque tinha o humor negro, a lucidez e a fantasia que os imortais às vezes outorgam distraidamente aos mortais, era numa das suas Páginas que ficavam bem estas lágrimas, que só ali correriam eternamente salgadas e bufas, de uns olhos ao mesmo tempo irónicos e cordiais, bárbaros e civilizados, cândidos e demoníacos, sonâmbulos e acordados. Juiz póstumo da personagem que foi, sem lhe poder corrigir um gesto sequer, mal se imagina a que profundidades desceria a sua análise implacável, e que sibilina e justa sentença lavraria no fim.»

 

Diário XII, de Miguel Torga

Torga, 50 anos depois (18)

Pedro Correia, 14.09.25

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14 de Setembro de 1975

«O Barroso coberto de gado. Os mais diversos bichos a granel nos mesmos pastos, nos mesmos eidos, nos mesmos currais. Bois, ovelhas, cães, cabras, burros, porcos e galinhas no mais cordial convívio. E pus-me a pensar na fácil comunhão da condição viva, em contraste com a difícil harmonia da condição social. A fraternidade de que não somos capazes nós os homens, simples como o bom-dia entre seres sem cromossomas permutáveis.»

 

Diário XII, de Miguel Torga

Torga, 50 anos depois (17)

Pedro Correia, 11.09.25

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11 de Setembro de 1975

 

«LAMENTO

Pátria sem rumo, minha voz parada 

Diante do futuro!

Em que rosa-dos-ventos há um caminho

Português?

Um brumoso caminho

De inédita aventura,

Que o poeta, adivinho,

Veja com nitidez

Da gávea da loucura?

 

Ah, Camões, que não sou, afortunado!

Também desiludido,

Mas ainda lembrado da epopeia...

Ah, meu povo traído,

Mansa colmeia 

A que ninguém colhe o mel!...

Ah, meu pobre corcel

Impaciente,

Alado

E condenado

A choutar nesta praia do Ocidente...»

 

Diário XII, de Miguel Torga

Torga, 50 anos depois (13)

Pedro Correia, 09.08.25

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9 de Agosto de 1975

«Não queremos saber se a política passa ou não passa menos pela inteligência do que pelo bom senso, se é muito mais útil a um país um governante prático do que um governante virtuoso, se um bom homem é preferível a um homem bom. É da nossa imagem que se trata, e cada qual quer impor a sua, mesmo se para isso tem de sacrificar a colectividade inteira.»

 

Diário XII, de Miguel Torga

Torga, 50 anos depois (9)

Pedro Correia, 17.07.25

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17 de Julho de 1975

«Reduzido à pura condição política, o homem é um desertor do mundo primordial. Doente desse morbo, a mais pequena notícia basta para lhe desfazer o equilíbrio anímico e transformá-lo num ser desnaturado - escravo de uma fixação mental que não deixa espaço para mais nada.»

 

Diário XII, de Miguel Torga

Torga, 50 anos depois (7)

Pedro Correia, 15.07.25

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15 de Julho de 1975

«Horas seguidas a presenciar pelo caminho a crispação nacional ao volante, frenética, agressiva, criminosa. De quilómetro em quilómetro, um carro espatifado. Latas amolgadas, estilhaços de vidro, sangue - o espólio catastrófico de uma irresponsabilidade colectiva que só no fundo do abismo pode encontrar paz. Não a de a ter procurado e achado, mas a de a ter achado a fugir-lhe.»

 

Diário XII, de Miguel Torga

Torga, 50 anos depois (6)

Pedro Correia, 11.07.25

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11 de Julho de 1975

«Da sua França cartesiana, em cartas sucessivas, pede-me notícias desta revolução que o nosso provincianismo hipertrofia ao nível do universo e cada vez mais se processa ao nível de freguesia. E respondo-lhe laconicamente, a cortar a conversa. Em face da incongruência do presente contexto nacional, tudo convidaria, senão à reflexão, pelo menos à discrição. Mas sabemos o que acontece. Quanto mais expostos à atenção gulosa e desconcertada do mundo, mais fazemos gala das nossas inépcias e mais nos excedemos no desbragamento exibicionista. E só eu sei o que sofro. É condição fatal de uma pátria que o desatino dos seus governantes recaia como uma nódoa sobre todo o corpo moral da nação. Portanto, é de cada um de nós que se trata nesta hora, quer queiramos quer não. Qualquer desabafo, comentário ou crítica fora de portas seria imperdoável. Não teve perdão aquele mau filho de Noé que, perante o espectáculo nu do pai bêbado, em vez de pudicamente o cobrir, correu alvoroçado a propalar a vergonha...»

 

Diário XII, de Miguel Torga

Torga, 50 anos depois (5)

Pedro Correia, 10.07.25

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10 de Julho de 1975

«Como o homem seria desgraçado se não tivesse o dom maravilhoso de imaginar, de fantasiar, de sonhar! O que teria sido de mim se todo eu estivesse amarrado a este quotidiano doméstico e social! Mas não. Desde criança que sei que há um reduto inexpugnável: a clandestinidade do espírito.»

 

Diário XII, de Miguel Torga

Torga, 50 anos depois (4)

Pedro Correia, 03.07.25

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3 de Julho de 1975

«Nunca li tantos jornais juntos na minha vida. Nem no tempo da Guerra Civil de Espanha e no da Mundial. Embora profundamente empenhado em cada lance dessas duas grandes tragédias, uma só gazeta da época punha-me ao corrente da situação. A carcaça dos factos era sempre a mesma, qualquer que fosse a agência noticiosa. Teruel conquistada ou um porta-aviões afundado não tinham duas versões. Além de que, por maior que fosse o meu interesse pelos acontecimentos, nem Teruel ficava em Portugal, nem o navio era português. Mas agora trata-se da pátria, da carne colectiva a que pertenço. E devoro carros de prosa diariamente, a mais contraditória e parcial, a vomitar as tripas quase sempre, mas sem arredar pé do tronco de tortura. E o pior é que não corro a maratona noticiosa à procura de vislumbrar qualquer milagre de salvação. Dou cabo dos olhos apenas na ânsia de encontrar uma desculpa que torne a vergonha menos dolorosa. Sou como aqueles doentes do coração que fazem electrocardiogramas sucessivos, a ver se num deles não existem sinais de enfarte.»

 

Diário XII, de Miguel Torga