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O Inverno anunciado

por João Pedro Pimenta, em 27.02.18

Considera-se (isto é, eu considero) que o Inverno começa a moderar-se ou a ser "menos Inverno" a partir de vinte, vinte e tal de Fevereiro. Os dias são maiores, o frio glacial já passou, e a época das tempestades que caracteriza meados de Fevereiro começa também a dissipar-se.

 

Este ano, aparentemente, este fim de mês e início do próximo prometem ser verdadeiramente invernosos, apesar de já termos tido uns dias de frio. A Senhora das Candeias e o Phil de Punsxsutawney é que tinham razão: o Inverno estava mesmo para durar.

 

Já agora, quando é que os noticiários páram de falar no "mau tempo" que está a chegar? Com a seca gravíssima que o país atravessa, a chuva e a neve que caem por todo o país são tudo menos mau tempo.

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Chegar ao fim

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.12.17

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Chegar ao fim.

Pode parecer duro, talvez mesmo cruel, assim dito desta forma seca, áspera, que por vezes soa tão violenta. Nunca me foi tão fácil dizê-lo. E ao mesmo tempo é tudo tão profundamente tormentoso.

Será difícil esquecer um ano sentido entre o pico do Evereste e a escuridão da fossa de Mindanau, em que de tudo um pouco e até o nada que aconteceu conseguiu ser tão perturbante.

O sucesso académico, e os termos de que o seu reconhecimento veio acompanhado na pátria que ficou para trás, mas também nas muitas que me foram acolhendo fora de portas, culminando anos de intenso trabalho, distribuindo o tempo — essa miragem que nos foge segundo a segundo e a que por vezes, estupidamente, damos a liberdade de se escoar ainda mais depressa — entre conferências, seminários, palestras, gabinetes, escritórios, bibliotecas, livros e revistas sem fim, jornais, até rádio e televisão, imagine-se, eu, aspirando a que os olhos não se cansassem, temendo que a luz lhes faltasse e as letras começassem a turvar-lhes o caminho, quando por momentos pensava em Borges e no meu Padrinho, cegos para a eternidade com tanto para fazerem, alternando o seu brilho, o dos meus, que me dizem ser intenso, com a mais profunda e desconsolada tristeza, assistindo impotente à partida daqueles a quem ficarei para sempre ligado por laços indestrutíveis de camaradagem, tornados eternos por essa mesma partida precipitada, comprometidos por amizades sem cedências, recebendo o exemplo de um combate incapaz de vacilar, imune a constrangimentos e dificuldades. Tão lento quanto feroz, mas capaz de fazer estremecer as portas do Céu.

E depois ver, e olhar com aqueles mesmos olhos, a tristeza dos outros olhos que me são mais queridos, sentindo-os envelhecer longe, desprotegidos do conforto a que sempre se habituaram, ali esperando, também eles, que os dias fossem mais curtos, menos penosos, ansiando desesperadamente pelo escoar do tempo enclausurado entre as paredes daquele mundo distante e rude que se tornou o deles, tornando mais amargos os seus próprios queixumes, as recriminações contra um ramerrão estranhamente atribulado, sem que percebessem o porquê tão intenso de tal destino, lavrando impropérios, frases soltas de revolta contra o tempo que eu queria controlar.

Como se alguma vez fosse possível amenizar a dor, aquela que é de facto sentida em cada hora, encurtando-lhe o tempo, penteando-a, escanhoando-a, enfiando-lhe uns rolos, mudando-lhe os pijamas e os lençóis, as fraldas, as camisolas coçadas que passaram a ser as de todos os dias em que o tempo parou.

E depois eu voltava a sair para o mundo, para o outro, em que o tempo é contado, tão longe deles e ali mesmo ao lado, comigo sentado na cadeira colocada ao seu lado, ou na borda da cama, enquanto via o seu esforço para comer, para que a couve não lhes caísse na mesa ou no tabuleiro, para que a manga já mergulhada no molho não se sujasse.

E depois não poder partilhar as minhas pequenas vitórias lá de fora, do outro mundo, do mundo de onde eu vinha e para onde iria logo a seguir, tornando ainda mais curto o seu tempo e mais prolongada e distante a minha ausência, dor sempre embarcada e a cheirar a combustíveis, tantos que se tornou indiferente saber se entre tantas estradas, portos e aeroportos se tratava de gasolina, de gasóleo ou de querosene, e onde a única certeza era a de que jamais teria a felicidade de me cruzar com eles, de poder abraçá-los, assim na rua, no meio das outras pessoas, numa estação, numa sala de embarque, no quiosque dos jornais, dar-lhes um beijo terno, como se fossemos ainda as pessoas normais que éramos antes desse sacana do tempo resolver tomar conta de nós e deles, castrando-nos outros sonhos e maiores prazeres definitivamente irreconciliados por força dele. E das chagas que os trouxeram até aqui.

Chegar ao fim sentindo que tudo o que foi feito ainda está por concluir, que o meu tempo se está a apartar cada vez mais do deles e que ambos e tornaram gelatinosos, fugidios, como aquele resto de pudim que se lhes escapa da colher, ali, às voltas pelo prato, até soltarem novo impropério, exaustos, abandonando essa luta sem sentido até que alguém lhes dê uma ajuda.

Ah, como estão longes e distantes aqueles dias em que caminhávamos junto ao mar, ouvíamos Rachmaninov e Brel, tomávamos juntos um copo de vinho, falávamos de futebol, de livros e de política. Para a Mãe o futebol ainda faz sentido, mas agora só se lembra do Eusébio e dos remates dele naquele jogo que nunca soube qual foi porque já se esqueceu. Aquele memória já não sabe de que era é, nem como se sobe o som do telemóvel.

Chegar ao fim tornou-se numa preocupação. Agora tudo se tornou em chegar ao fim. Para todos nós. Chegar ao fim do livro, chegar ao fim do jogo, chegar ao fim da corrida, chegar ao fim da rua, chegar ao fim da fila do supermercado, da farmácia, do estacionamento, das consultas, da urgência hospitalar, das finanças, para depois se chegar ao fim do dia, ao fim da noite, ao fim do mês, até se chegar ao fim do ano.

Esperando sempre que esse fim não chegue ao fim sem eu chegar. Sem que eu possa ver então o tempo partir ficando eu no mesmo lugar. Como tantas vezes fiquei este ano, sentindo a injustiça que há nisto tudo. No tempo deste tempo, que não tarda vai outra vez chegar ao fim. Para que amanhã as nuvens voltem a passar, o chão a sorrir, a correr, a saltar, a nadar, como se o tempo não existisse, como se não houvesse horas nem relógios, que ainda há alguns que também dão o tempo. O nosso e o deles. Vingativos, cobardes, acintosos, com a amargura estampada nos ponteiros, no tiquetaque rançoso do despertador, nos números encarnados do digital da mesinha, piscando quando a outra tipa vem e desata a bater com o tubo do aspirador em tudo o que é sítio com medo que o tempo não lhe chegue para se despachar mais cedo sem escaqueirar a mobília e as suas mossas, mais as tomadas, antes de acabar com as franjas dos velhos tapetes de um qualquer desses buracos terminados em “ão” onde o tempo parou no tempo e nas mãos de quem os teceu.

E é assim que se chega ao fim. Sem ruído. Tão perto e aqui tão longe. Onde ele está sempre presente, sem tom nas cores dos dias, perdido no cinzento dos séculos, para sempre imerso no tempo, num tempo que eu ainda espero, no meu íntimo, que não seja o último.

E que eu veja, e os veja, mesmo assim, quando ainda me podem abraçar, dar um beijo, um abraço na lonjura deste tempo que não me perdoa. Nem eu a ele. Até chegar ao fim. Porque ninguém merece um tempo assim.

 

Bom Ano Novo para todos vós. Que sejam felizes. Com saúde.

 

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Enfim, uma boa notícia

por Pedro Correia, em 23.11.17

 

Chove.

 

("A partir de amanhã a situação vai melhorar", diz com alívio o jornalista da SIC, que parece preferir a seca extrema e prolongada)

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Toda as mortes são prematuras

por Pedro Correia, em 26.12.16

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 Montgomery Clift e Marilyn Monroe em 'The Misfits'

 

Há frases que fixamos para sempre. Lembro-me de, em miúdo, ter ouvido o meu avô materno dizer que todas as mortes antes dos 75 anos eram "prematuras". Tomei nota da palavra, que não esqueci. E daquela espécie de desejo implícito contido naquela frase. Desejo cumprido, pois o meu avô morreu com 76 anos.

Muito mais tarde, Jorge de Sena ensinou-me, seu modesto leitor, que "todas as mortes são prematuras". O ser humano é vocacionado para a vida eterna - e saber de antemão que não cumprirá este anseio do seu corpo e este desígnio do seu espírito constitui a chave para sempre indecifrável de todo o pensamento filosófico, que procura responder às mais simples e mais complexas questões.

Quem sou? Que faço aqui? Em que medida se cumpre um destino humano?

 

Por estes dias em que Mário Soares trava uma luta tenaz contra a morte ouço dizer que teve "uma vida bem vivida". Face ao critério do meu avô, há muito que o ex-Presidente superou a perspectiva de uma morte prematura. Mas deverei dizer que os seus 92 anos foram "bem vividos" se no mesmo dia em que ele se encontra em estado muito crítico num hospital me cruzo num dos estabelecimentos comerciais mais conhecidos de Lisboa com a actriz Carmen Dolores - igualmente com 92 anos, mas nascida sete meses antes de Soares - caminhando com sacos de compras, elegante, grácil, quase etérea, sem sequer o apoio de uma bengala?

Filmou com António Lopes Ribeiro, Leitão de Barros e Jorge Brum do Canto, contracenou com António Silva, Vasco Santana, Ribeirinho, João Villaret, figuras há muito inscritas no panteão do nosso teatro e do nosso cinema, e ei-la aqui, tal como nós, na idade do skype e do instagram. Teve um admirável percurso artístico, iniciado na remota década de 40. Mas por mais anos que permaneça connosco serão sempre escassos.

 

"Todos, homens e mulheres, estamos a morrer a cada momento que passa", dizia Marilyn Monroe no apogeu do seu talento e da sua beleza, interpretando-se de algum modo a si própria na última longa-metragem que acabou por rodar: The Misfits. Filme trágico e triste e assombrosamente belo, um dos filmes da minha vida

Cada existência é irrepetível e nuclear. Cada vida é um micrograma na poeira cósmica. Um sobressalto na nossa fisiologia, frágil como espiga ao vento, basta para sepultar toneladas de "certezas inabaláveis" que nos iludem na fatal transição entre os dois pontos extremos da nossa biografia - sempre imperfeita e fugaz, sempre situada aquém da insaciável espiral de todos os sonhos.

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Cavaco, Cavaco...

por Pedro Correia, em 04.10.15

Em vez do Conselho de Estado, devias ter consultado o Instituto de Meteorologia antes de marcares a data das eleições.

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Passos, o meteorologista

por Rui Rocha, em 29.12.14

O senhor primeiro-ministro não perdeu tempo a anunciar o fim das nuvens negras. O que o senhor-primeiro ministro não disse aos portugueses foi que vinha aí um frio do caraças! Cambada.

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Nem tudo é mau

por Pedro Correia, em 21.12.14

A partir de agora os dias começam a ser maiores.

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Mudança da hora

por Rui Rocha, em 24.10.14

Passos Coelho recua e garante que cidadãos prejudicados poderão recorrer a uma cláusula de salvaguarda que lhes permitirá manterem-se pela hora de Verão. Entretanto, o primeiro-ministro garantiu ainda que a hora agora perdida poderá ser recuperada já em Abril de 2015 se a arrecadação fiscal for superior ao esperado.

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Os que já cá não estão

por Pedro Correia, em 17.07.14

 

Um dos efeitos da passagem dos anos é verificarmos como coexistimos com gente que apenas nos perdura na memória. Confesso não estar ainda vacinado contra o espanto que isto me causa. Há dias, na saída do metro, cruzou-se comigo alguém que me fez lembrar muito uma antiga colega de trabalho. "Será ela?", questionei-me. E só daí a momentos caí na real, como dizem os brasileiros. Essa colega morreu há vários anos, num trágico acidente de aviação.

Há uns tempos, de férias em Cabanas, descobri a Rua Dr. João Amaral. Fiquei a olhar para a placa toponímica ainda meio incrédulo: conheci muito bem este ex-deputado e dirigente comunista, fiz-lhe uma das últimas entrevistas que ele concedeu a um jornal e por vezes ainda me custa acreditar que já morreu. Há dias, folheando uma agenda telefónica com números anotados em 1999, quase fiquei chocado ao verificar como são tantos os nomes daqueles que partiram de vez.

Sentir o tempo passar por nós é também isto: verificar a soma crescente das ausências. Uma voz familiar ao telefone que se apagou de súbito e jamais voltaremos a escutar.

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Máquina do tempo

por João André, em 14.04.14
 
Imagine-se que um dia se inventava uma máquina do tempo. De um momento para o outro seria possível avançar ou recuar no tempo (e recuar é precisamente a ideia, claro está). Seria possível revisitar aquele dia fantástico de há 7 anos, ir ao concerto que se perdeu, passar mais um bocadinho de tempo com o avô, etc. Tudo óptimo? Nem por isso.

 

Imagine-se: seria também possível voltar três dias atrás e fazer aquele trabalho que nos foi pedido com urgência mas que, por falta de tempo, acabámos por entregar atrasado. Como sabemos, toda a gente quer tudo com urgência e, de preferência, para ontem. Com uma máquina do tempo isso seria possível. Seria possível entregar ontem o trabalho que nos foi pedido hoje para ontem. Seria até possível entregá-lo antes de ser pedido. Com máquinas no tempo o trabalho seria avançado a limites inimagináveis. Claro que o problema seria que as exigências mudariam. O trabalho deixaria de ser pedido para ontem e seria pedido para anteontem. Ou para o ano passado, é irrelevante. Os dias passariam a ter muito mais de 24 horas e seria necessário fazer tudo nesse espaço de tempo. A certa altura o dia seria preenchido na máquina do tempo para poder terminar o trabalho antes de ser pedido, passar tempo com a família, etc.

 

Como o manifestante na imagem acima indica, é irrelevante quando chegaria uma máquina do tempo. A ciência indica que seria ou pouco prática ou impossível. Não o sei. O que sei é que, pelo simples facto de ainda não termos visto qualquer visitante do futuro, parece-me certo que mesmo que a máquina do tempo venha a existir (ou já exista/tenha existido), o seu inventor provavelmente usa-a para fins puramente individuais. Para evitar ter mais trabalho e para, quem sabe, simplesmente ler.

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chove

por Patrícia Reis, em 09.04.14

Temo que não tenhamos Primavera ou Verão. Podemos pensar que é uma espécie de castigo que os deuses decidiram enviar aos todos poderosos, é pena que nos prejudique também.

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Mudança de hora (2)

por Luís Menezes Leitão, em 04.04.14

 

 

Fui muito criticado por ter defendido neste post os enormes malefícios e riscos para as pessoas da mudança da hora. Agora vejam aqui se eu não tinha razão.

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Mudança de hora.

por Luís Menezes Leitão, em 30.03.14

 

Se há algo que eu detesto é esta disparatada mudança de hora, que não tem qualquer utilidade e é altamente prejudicial à saúde das pessoas, como esta notícia demonstra. Felizes os países que não alinham neste disparate de inventar uma hora de Verão no início da Primavera para depois voltar à hora de Inverno em pleno Outono. Até quando continuaremos a insistir numa coisa tão absurda?

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Banda sonora para a madrugada de hoje

por José Navarro de Andrade, em 09.02.14

 Rameau (séc. XVIII) e John Luther Adamas (séc. XXI)

 

 

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Quando o diabo assobia

por Fernando Sousa, em 06.02.14

Às vezes são os acontecimentos que vêm ter connosco. É raro. Foi assim esta manhã quando fui espreitar o dia, na Praia do Magoito. Na linha dos olhos, o vento tinha arrancado o telhado da esplanada em frente e espetado madeiras, plásticos e telhas em três postes, deixando a casa perto dos intestinos. Isto depois de o diabo ter passado a madrugada a assobiar. O resultado está à vista. Se a arte dispensasse a intenção, diria que é arte. Aproveitem, pois nenhum media chegou a tempo. 

 

 

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O Lisboeta à Chuva

por Bandeira, em 17.01.14

O lisboeta acorda, espreita pela janela, tira uma fotografia à coisa branca no asfalto (neva na rua dele!); não é neve, é granizo, faço ideia o quanto se ririam disso a norte mas no fundo é tudo igual, tudo coisa branca, conheço quem a odeie porque tem que lhe aturar as inconveniências metade do ano. O lisboeta lava-se, agasalha-se um pouco mais do que o costume e sai para a rua. A medo pisa a coisa branca, confirma que escorrega muito, troca duas palavras de espanto com a empregada da boutique do rés-do-chão e lá vai, adaptado, para o seu emprego, ou para o seu desemprego, ou para o que calhe, como se este clima parisiense lhe fosse a coisa mais natural do mundo. Estou a vê-lo ao fundo da rua, já corre, é para não perder o autocarro.

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E ainda falam dos economistas...

por Pedro Correia, em 06.07.13

Verão de 2013 será o mais frio dos últimos 200 anos

 

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A temperatura vai subir nos próximos dias:

 

 

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Até Madre Teresa teve momentos de dúvida

por Rui Rocha, em 04.04.13

Estamos todos muito agradecidos a Assunção Cristas pelo contributo decisivo do seu fervor místico para acabar com a seca. Mas, agora que as barragens estão cheias, umas semanas de crise de fé da Ministra viriam muito a propósito. Antes que vá tudo por água abaixo.

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Pontas de nariz

por José António Abreu, em 04.02.13

O frio é mais democrático do que o calor. No Verão, os corpos adquirem todos os seus factores diferenciadores. Mulheres e homens comparam-se e, dependendo do resultado obtido, sentem vontade de sorrir em triunfo ou de se esconderem no ralo do passeio mais próximo. Uma mulher atraente conhece o efeito que as suas (dela, caro leitor do sexo masculino, dela) pernas tonificadas saindo de uma mini mini-saia exercem em homens heterossexuais e em mulheres com pernas menos tonificadas (oh, se conhece) e sente-se muito bem com isso (oh, se sente). O Verão faz-nos atingir os píncaros da vaidade e do egoísmo. (Disclaimer: as frases anteriores não significam que o autor destas linhas, doravante designado por autor destas linhas, seja incapaz de apreciar os meses de Verão, em especial quando mulheres atraentes com pernas tonificadas saindo de mini mini-saias andam nas suas redondezas, por doloroso que tal circunstância às vezes seja; o autor destas linhas está até disponível para admitir ser este o único tipo de masoquismo que aprecia.) Já durante o Inverno, enterradas em dezassete camadas de roupa grossa, as diferenças esbatem-se: existem muito menos factores diferenciadores entre pontas de nariz enregeladas, espreitando de golas, garruços, cachecóis e protectores de orelhas, do que entre pernas tonificadas saindo de mini mini-saias. No Inverno, encontramo-nos também disponíveis para um maior grau de empatia: sabemos o que as outras pessoas estão a sentir e sabemos que é exactamente o mesmo que nós próprios estamos a sentir. Acredito que algumas mulheres atraentes (e homens, que hoje em dia os há preocupados com cada coisa) encarem como um desperdício trazerem um corpo tão bem torneado por baixo de tanta roupa, não podendo assim esfregá-lo na cara das outras pessoas (imagem não-literal, embora passível de gerar efeitos literais). Poderá até ser por isso que muitas afirmam detestar o Inverno (aproveito para confessar que, levando em conta as demonstrações de sangue quente que as caracterizam, nunca percebi por que motivo as mulheres sofrem mais com o frio do que os homens) e que algumas procuram contrariar o poder do termómetro e manter bem visíveis as pernas tonificadas e todos (enfim, quase todos) os restantes argumentos que a genética e/ou dezenas de horas de ginásio lhes concederam, quanto mais não seja através de uma curiosa moda actual que consiste em usar uma espécie de collants grossos sem saia ou calças por cima (como, para mais, são usados com botas de cano alto, uns calçõezinhos tufados e, voilá, estaríamos perante a moda masculina do século XVI). Seja como for, mais leggings, menos leggings (é o nome certo, certo?), quase todos os assomos de vaidade são levados pela primeira rajada de vento cortante que obrigue a meter as mãos debaixo dos braços e bater com os pés no chão. (Fica difícil manter a altivez enquanto, mãos enfiadas debaixo dos braços, se bate com os pés no chão; quem não acreditar, que experimente em frente a um espelho.) O que nos traz de volta à questão da igualdade entre pontas de nariz. Colocando a coisa de modo tão directo e politicamente incorrecto quanto, com os dedos enregelados como estão (é segunda-feira de manhã e o aquecimento ainda não está ligado), consigo pôr: há por aí uma enorme quantidade de atraentes pontas de nariz femininas para cujas possuidoras – silly me, tão facilmente passível de ser distraído por pernas tonificadas saindo de mini mini-saias  – eu não olharia duas vezes no Verão.

 

(Reescrito a partir de uma versão anterior para espicaçar a Ana Vidal.)

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tudo passa

por Patrícia Reis, em 13.01.13

Os dias correm. O tempo corre. Isto depois tudo junto dizem são anos. E que, como as crianças, é uma inevitabilidade biológica: passa, cresce e depois mingua. A minha bisavó dizia que eu crescia e ela minguava. Eu tinha quatro, cinco, seis. Não sei. Ela morreu a dormir, foi o que me disseram, não sei se é verdade, porque se mente às crianças sobre a morte, porque todos mentimos, num momento ou outro. Às crianças e aos adultos e à imagem que o espelho nos devolve. O que importa é o cliché que resume a coisa: tudo passa, os dias correm, nada que foi pode voltar a ser e o que será é imprevisível até certo ponto ou mesmo na totalidade e não há super homem algum. E eu vou sempre a jogo. Mesmo quando não me convidam, por isso sigo no carril, teimosa, no mesmo carril, sabendo que está gasto e que não me leva a lado algum, mas faz com que o tempo passe e se o tempo passar, os dias passam a semanas, as semanas a meses e os meses a anos e, a seguir, logo se vê. Logo se vê é uma expressão que eu uso com o meu filho mais novo. Logo se vê. E ele acata. Não por ser um menino muito certinho, mas para não levantar ondas, prefere fazê-las de outra forma e faz por estar na idade de as fazer e ainda bem. Até o invejo. O que não invejo é este carril que tenho e que é meu, não posso descartar-me e ninguém o leva daqui. Podia aparecer uma alma gentil que tivesse o condão de me fazer mudar de linha mas dizem que está tudo na minha cabeça e, se for o caso, estou tramada, porque tudo passa e, daqui a nada, já não me lembro. Como aquelas palavras que sei dizer e que não sei pronunciar ou que não me saem, ficam só a boiar na cabeça. Há quem teime nas más notícias e em ver bruxas e nuvens cerradas, o meu carril já passou as bruxas, as traições e as nuvens cerradas, há uma clareira e mesmo que depois seja o mesmo, sinceramente, quem é que se importa?

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Parar para ler, parar para pensar

por Pedro Correia, em 02.01.13

 

Em 2012 consegui ler ou reler Eça, Camilo, Jorge Amado, Virginia Woolf, William Faulkner, Ford Madox Ford, Dylan Thomas, Graham Greene, Julio Cortázar, Joseph Roth, Nelson Rodrigues, Pérez-Reverte e Erich Maria Remarque, entre alguns outros. Li muito menos do que gostaria, mas muito mais do que eu próprio antevi ao iniciar-se o ano num tempo em que tudo nos afugenta da leitura - do ruído circundante às contínuas invasões do nosso reduto íntimo através desses instrumentos omnipresentes no quotidiano do homem contemporâneo que são os computadores e os telemóveis, cada vez mais sofisticados, cada vez mais intromissivos.

A capacidade de concentração de cada de um de nós vai-se diluindo, por obra e graça destes aparelhos que nos põem em contacto com o mundo e com um sem-fim de amigos "virtuais" que nunca vimos mais gordos. A reflexão é inimiga desta constante fragmentação em que vivemos: é raro o filme que se vê até ao fim - mesmo numa sala de cinema - sem o contínuo piscar da luz do telefone portátil, adereço hoje obrigatório, espécie de prolongamento da mão de cada um.

E, no entanto, continuamos a ter direito ao silêncio. Continuamos a sentir necessidade de alguma solidão que nos permita o indispensável reencontro connosco próprios por detrás da espuma dos dias - tão ilusória, tão fugaz, tão enganadora. Continuamos a sentir necessidade daquelas horas de recolhimento a sós com um livro, com um filme, com aquele disco que há muito pretendíamos escutar sem a inevitável gritaria dos anúncios da TV em fundo ou o insistente apito das inúteis mensagens de telemóvel apregoando mais uma campanha de descontos daquele perfume que nunca iremos comprar ou daquela peça de roupa que jamais usaremos.

De tudo quanto pedimos que nos traga o Ano Novo, peçamos-lhe também alguns períodos de paz interior que nos permitam algo tão elementar como ir ao encontro de um livro adormecido numa estante. Talvez aquele que há anos queremos ler sem o conseguir por algum motivo fortuito. Ou revisitar aquele de que gostámos muito há uma dúzia de anos.

E não abdiquemos também do direito de pensar - arranjemos também algum tempo para reflectir. Para nos interrogarmos. Para não nos deixarmos levar pelos pregoeiros de serviço ou pelos vendedores de ilusões. "O mais grave no nosso tempo não é não termos respostas para o que perguntamos - é não termos já mesmo perguntas", escreveu Vergílio Ferreira na sua Conta Corrente, cheio de razão.

Tentemos que o nosso 2013 não seja assim. 

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Perguntas de Algibeira, #2

por Ana Cláudia Vicente, em 31.10.12

 

 [Foto: Túnel de Carey, Nova Iorque (Andrew Burton, Getty Images)]

 

Está vista a força da Técnica contra a técnica da Força*, neste caso, claro, a da Natureza: a Técnica quebra ou verga, a Natureza não. E manda, mesmo naquele que ainda é um centro do mundo. A Gawker, como tantos outros grupos, ficou apeada um dia inteiro, e regressou há pouco em modo de gerador-ligado-na-garagem, para dar conta das novidades do costume, mas também informar os que lá estão sobre como e quanto tempo vão ficar sem as coisas de primeiro mundo. Passam amanhã 257 anos sobre o dia em que nos calhou coisa assim. Daí que me esteja a roer a seguinte questão: assim de repente, quantos de vocês têm um plano mais ou menos desenhado no caso de se dar uma situação destas? Vá, dedos no ar: quem tem em casa um rádio a pilhas, uma lanterna a funcionar e pelo menos um garrafão de água potavel?  

 

* copyright Gabriel Alves.

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Para hoje prevejo sol aberto

por Rui Rocha, em 24.06.12

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24 vezes 4

por Patrícia Reis, em 08.06.12

A mulher não sabe fazer contas mas sabe que tem estas horas todas à sua frente: 24 vezes quatro, ou seja, um tempo não previsto para ficar no seu canto, escrever, ler, dormir, não fazer nada. Por isso, fecha-se, como as obras embargadas, coberta de tapumes e vai para dentro. O marido dá-lhe iogurte com comida de pássaro. Ela sabe o que isso é: passas e nozes, coisas dessas. Deixa-se estar. Não pensa na segunda-feira. Não pensa. Vinte e quatro vezes a multiplicar por quatro.

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O efeito Hollande foi sol de pouca dura

por Rui Rocha, em 14.05.12

Tal como se esperava, logo depois da tomada de posse (que terá lugar amanhã), as temperaturas começarão a baixar, estando previstos, inclusivamente, alguns aguaceiros mais lá para o final da semana:

 

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Royal weather

por Ana Vidal, em 11.05.12

 

Numa experiência inédita para aproximar a monarquia inglesa do povo, o príncipe Carlos de Inglaterra apresentou a meteorologia na BBC. Seguiu-se-lhe Camila, com mais nervos e menos graça.

Nada de novo para nós, afinal. Sir Passos Coelho e master Gaspar passam a vida a anunciar-nos raios e coriscos, e lady Cristas até vai mais longe: não só nos fala do tempo como tenta dominá-lo com orações.

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República 3, Monarquia 0

por Rui Rocha, em 11.05.12

 

Enquanto o Príncipe herdeiro do trono do Reino Unido apresenta o boletim meteorológico, limitando-se a explicar as consequências da Low Pressure situada sobre as ilhas britânicas,  a  Ministra da Agricultura da República Portuguesa, também conhecida por "Cristas de Baixas Pressões", manda chover. Penso que estamos conversados quanto à eficácia de uns e de outros.

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