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Delito de Opinião

Como dar xeque-mate ao lugar-comum

Pedro Correia, 26.09.21

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O lugar-comum é um dos maiores inimigos do jornalismo. Infelizmente, as campanhas eleitorais costumam ser férteis nisto: por estes dias, multiplicam-se os chavões semânticos, com valor jornalístico nulo. E que apenas revelam preguiça mental e um olhar desatento à realidade.

Uma dessas bengalas verbais de que se usa e abusa é “campanha morna”. Eufemismo para evitar dizer-se que quase ninguém acorreu ao encontro do candidato. Ou candidata, como a líder do PAN, que optou por visitar esquilos e cegonhas no Parque Biológico de Gaia. Mesmo sabendo que ali não recolhia votos.

As eleições são autárquicas, mas a cobertura televisiva é feita por jornalistas que andam atrás dos líderes nacionais dos partidos. Que aqui parecem protagonistas do filme errado.

 

A verdade é que muitas acções de campanha não teriam ninguém nas ruas sem a presença tentacular dos repórteres de imagem. De eleição para eleição, os planos vão ficando cada vez mais apertados, evidenciando que arruadas ou comícios pertencem ao passado. Em tempos, um ilustre pensador confessou ter o sonho de ver Portugal transformado na Suíça, onde o desinteresse pela política chega ao ponto de poucos ali saberem quem exerce a função presidencial – sinal inequívoco de que as coisas funcionam, sejam quem forem os protagonistas. Aos poucos, vamo-nos aproximando do cenário suíço. Infelizmente, apenas nisto.

Nenhum repórter que cubra uma campanha eleitoral precisa de dizer que anda morna. Basta exibir as imagens. Foi o que fez a RTP, limitando-se a alargar o plano numa acção promovida pelo PSD no Alto Minho: Rui Rio prometia comparecer mas nem isso parece ter atraído os militantes. Era possível contá-los pelos dedos.

Jornalismo? Claro. Com poucas ou nenhumas palavras. Em televisão, sobretudo, menos é mais.

 

Por vezes não basta mostrar: é preciso interpretar. A SIC soube fazê-lo seguindo António Costa em campanha eleitoral. O secretário-geral socialista deslocou-se a Celorico de Basto, terra adoptiva de Marcelo Rebelo de Sousa. «Temos, mesmo aqui, de entrar num novo ciclo de mudança», disse Costa. Parecia uma declaração banal, mas fazia toda a diferença por estar em território marcelista, onde o PS nunca ganhou. E de não haver memória de por ali ter passado um secretário-geral do partido da rosa.

Despique Belém-São Bento transferido para terras de Basto: eis um confronto nada morno em perspectiva.

 

A história interessante está sempre lá: basta ter olho para vislumbrá-la e arte para narrá-la. Além da indispensável vontade de pôr em prática tais virtudes. Por vezes detecto-a mais nos repórteres veteranos do que em alguns recém-chegados à profissão, que já exibem um ar muito enfastiado.

Um dos veteranos que fazem a diferença para melhor é José Manuel Mestre, da SIC. Acompanhando a caravana socialista, teve este apontamento de reportagem: «António Costa é uma espécie de primo rico que vem de Lisboa com os bolsos cheios.»

Tudo dito numa frase. Sem rodriguinhos nem eufemismos. Dando xeque-mate ao lugar-comum.

 

Texto publicado no semanário Novo

Retrato do País em sete dias de telejornal

Pedro Correia, 03.08.21

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Que retrato “do país e do mundo” – como diz um conhecido apresentador de notícias na televisão, colocando Portugal fora do globo – nos fica ao ouvirmos as frases de abertura dos principais blocos informativos de três canais durante uma semana?

Fica-nos um retrato em que a pandemia impera, um ano e meio depois. Na política, só o primeiro-ministro existe, apesar de chefiar um Governo minoritário. As notícias internacionais são escassas, como se do estrangeiro só nos interessassem os milhões que vão chegar da tal bazuca europeia que tanto ajudam António Costa na sua propaganda interna.

Fica-nos a imagem de um país resignado, abúlico, sem iniciativa, sempre à espera daquilo que os “lá de cima” e os lá de fora decidirem. Como quase sempre.

 

Domingo

RTP: “Milhares de passageiros em terra: a greve dos trabalhadores da Groundforce cancelou mais de 370 voos.”

SIC: “Está dominado o incêndio de grandes dimensões que deflagrou ontem em Monchique.”

TVI: “Só no aeroporto de Lisboa foram cancelados hoje mais de 300 voos.”

 

Segunda

RTP: “72% dos portugueses querem que a vacina Covid-19 seja obrigatória.”

SIC: “Inglaterra avançou para a última fase do desconfinamento.”

TVI: “Imagens das últimas horas na Áustria e de novo na Alemanha revelam a ferocidade das inundações.”

 

Terça

RTP: “O Parlamento rejeitou por maioria a audição ao ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, que devia ser questionado sobre os festejos do Sporting.”

SIC: “O primeiro-ministro prevê o que chama "libertação total da sociedade" no final do Verão.”

 TVI: “O homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, concretizou o lançamento da sua cápsula espacial.”

 

Quarta

RTP: “A DGS ainda não decidiu, mas o primeiro-ministro já avançou com as datas de vacinação para os jovens entre os 12 e os 17 anos.”

SIC: “Com um ano e meio de pandemia, o primeiro-ministro quer virar a página e perspectivar o futuro.”

TVI: “Começamos com o plano do Governo para vacinar crianças e jovens a partir dos 12 anos.”

 

Quinta

RTP: “A pandemia parou de crescer na região de Lisboa e Vale do Tejo, garantia deixada pelo Governo.”

SIC: “A situação de calamidade em Portugal continental vai prolongar-se até 8 de Agosto, a resolução foi aprovada hoje em resolução do Conselho de Ministros.”

TVI: “O Vaticano está a investigar uma organização católica em Portugal: são os Arautos do Evangelho, um grupo considerado conservador.”

 

Sexta

RTP: “Arrancaram os Jogos Olímpicos em tempo de pandemia.”

SIC: “Portugal vai receber apenas um terço das vacinas da Johnson que estavam previstas para Agosto.”

TVI: “Começamos pelas palavras do homem que quer comprar o Benfica: o norte-americano John Textor não desistiu do negócio.”

              

Sábado

RTP: “Os cuidados intensivos Covid atingiram 60% da capacidade.”

SIC: “Portugal foi um dos vários países europeus que sofreu (sic) hoje um corte de energia.”

TVI: “Inédita perturbação na rede eléctrica de vários países, incluindo Portugal, registada nas últimas horas.”

 

Texto publicado no semanário Novo

Os palavrões do costume

Pedro Correia, 09.07.21

Vejo um debate na RTP. E lá surgem, em catadupa, os palavrões do costume: "janela de oportunidade", "novo paradigma", "sustentabilidade", "rating", "despesismo", "alavancagem", "efectivamente".

Chego cansado ao fim do programa. E não é por causa da crise: é por causa deste palavreado tecnocrático que a toda a hora nos invade o domicílio, através da televisão, transformando o nosso belo idioma num linguajar insuportável.

Interrogo-me: serei só eu a pensar assim?

Censura, desinformação e falta de pudor

Pedro Correia, 19.06.21

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Ao quarto desafio do Europeu de futebol que venho acompanhando pela televisão, pude finalmente ver uma cara bonita em destaque numa bancada por corajosa decisão do realizador de turno. Era uma adepta russa no confronto caseiro com a Bélgica: o jogo correu mal à selecção anfitriã mas a moçoila exibia um contagiante sorriso optimista. Eis a festa do desporto-rei em todo o seu esplendor, bem espelhada neste rosto.

Infelizmente, ao que me garantem vozes autorizadas, estas imagens tornaram-se quase clandestinas nas transmissões televisivas por exigência dos manda-chuvas da bola: a UEFA quer evitar a todo o custo acusações de sexismo e exploração da beleza feminina por parte das madres superioras das redes sociais, cada vez mais vigilantes contra o mais leve indício de fuga à norma. E a norma agora é mostrar uns mecos barrigudos ou espadaúdos, nada de graciosos rostos de jovens aficionadas. O severo olhar das microcensuras actuais chega tão fundo ou mais ainda do que o lápis azul dos majores de antanho.

 

Por estes dias disputa-se portanto o Euro-2021. Maquilhado de Euro-2020, num dos mais chocantes atentados ao rigor informativo de que há memória. Em 2020, como ninguém ignora, o desporto foi posto à margem. Não houve Europeu nem Jogos Olímpicos, tudo ficou adiado para este ano. Mandaria o amor à verdade que este dado factual não fosse varrido para debaixo do tapete. Estranhamente, porém, ouvimos a todo o momento alusões a um “Euro-2020” que jamais existiu. Nos mesmos órgãos de informação que se proclamam paladinos da luta contra a desinformação.

Faz algum sentido? Não. Tal como englobar o Azerbaijão, país da Ásia Menor, entre as nações europeias para efeitos de futebol. Transformando a geografia em ciência nada exacta e mandando às malvas o tal rigor que tanto se invoca mas tão pouco se pratica.

 

E por falar em futebol: uma das cenas mais divertidas da última semana foi ver a profusão de repórteres portugueses em Budapeste insistindo em manter ali máscaras, como se estivessem em Lisboa, apesar de na Hungria quase ninguém circular na rua com elas. Pareciam mais funcionários da DGS do que jornalistas, procurando impor aos húngaros os padrões sanitários portugueses.

Menos divertido foi o que aconteceu em dois espaços dedicados ao comentário desportivo, escassos dias atrás: enquanto na SIC Notícias se garantia que Rui Pedro Braz seria o novo director-geral do futebol do Benfica, na TVI 24 o próprio Braz surgia à mesma hora, enquanto comentador da casa, dando novidades sobre o seu clube do coração. Com manifesta falta de pudor, como se fosse parte desinteressada.

 

Nisto de máscaras, existem as reais e as metafóricas. Naquele preciso momento, ao comentador em trânsito da TVI para o posto de comando do SLB, sem o mais leve período de nojo nem intervalo para respirar fundo, caía em definitivo o que lhe restaria da máscara da isenção.

Há quem chame jornalismo a isto. Não acreditem. Nada tem a ver.

 

Texto publicado no semanário Novo

Achismo

Pedro Correia, 15.12.20

Não sei se convosco se passa o mesmo. Deixei de ter paciência para ouvir qualquer frase que comece pela muleta verbal «eu acho que». Não há outra tão estafada e repetida até à náusea nos ecrãs televisivos.

Esta gente que está sempre a "achar" seja o que for errou a vocação. Em vez de exercer o comentário, devia dedicar-se à resolução de enigmas policiais. Se alguém se tornou especialista em achar alguma coisa, foram os detectives. Sherlock, Poirot, Maigret e Columbo: eis quatro célebres cultores do achismo em versão literal. Mas estes não se limitaram a mandar bitaites: encontraram mesmo o que tinha sido furtado ou estava oculto.

A América de Archie Bunker

Pedro Correia, 17.10.20

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Bastavam os primeiros acordes do genérico para me porem colados ao ecrã. Um genérico fabuloso, com um casal de meia-idade entoando uma cançoneta ao piano no recato doméstico. Os versos da cançoneta diziam tudo sobre a intenção satírica desta série da CBS. Nunca os esquecerei.

 

Boy the Way Glenn Miller played

Songs that made the hit parade.

Guys like us we had it made,

Those were the days.

 

E logo um zoom nos introduzia na residência de Archie Bunker. O irascível, antipático, furibundo Archie Bunker - uma das mais perenes personagens da ficção televisiva de todos os tempos. O típico americano médio, cheio de preconceitos sociais, culturais e raciais. Reaccionário até à medula, apoiante cego de Richard Nixon e da guerra do Vietname, inimigo figadal dos ventos da História que nesses idos de setenta prometiam uma revolução cultural no país mais poderoso do planeta.

 

And you knew who you were then,

Girls were girls and men were men,

Mister we could use a man

Like Herbert Hoover again.

 

Um dos mais deliciosos ingredientes da série era o modo como subvertia o dogma então vigente sobre a classe operária como vanguarda social. Archie era operário - «explorado pelo capital», um remediado sem horizontes -, o que não o impedia de destilar ódio contra os imigrantes que vinham «roubar-nos os postos de trabalho». Contra os negros, «delinquentes por natureza». Ou contra os judeus, que «assassinaram Cristo». Conservador empedernido, rogava pragas ao desconserto de um mundo onde todas as peças lhe pareciam subitamente fora do lugar. Daí nasciam as homéricas discussões que mantinha com o genro, Mike Stivic, um intelectual de esquerda que lhe servia de contraponto ao exibir uma fé inquebrantável no progresso.

 

Didn't need no welfare state,

Everybody pulled his weight.

gee our old LaSalle ran great.

Those were the days.

 

All in the Family (que uma feliz tradução portuguesa baptizou de Uma Família às Direitas ao ser exibida na RTP) tinha diálogos de cinco estrelas, que nos faziam rir até às lágrimas, tornando Archie num ícone popular, malgré lui e as ideias que propagava. Algumas das suas expressões incorporaram-se no vocabulário comum, como «fecha a matraca» (a ordem da praxe para mandar calar a incomparável Edith, a mulher que lhe aturava todos os caprichos) ou «cabeça de abóbora» (o feroz qualificativo que reservava ao genro).

Era uma série de texto, mas também de actores, servida por um quarteto de intérpretes de luxo. Carroll O'Connor (Archie), Jean Stapleton (Edith), Sally Struthers (a filha, Gloria) e Rob Reiner (o genro, que na vida real se tornaria realizador de filmes inesquecíveis, como Misery ou When Harry Met Sally). Num tempo em que nos podíamos rir de todos os tiques e todos os dogmas. Antes da televisão padronizada, liofilizada, industrial e politicamente correcta.

«A "seriedade" não costuma ser um sinal inequívoco de sabedoria, como julgam os pasmados: a inteligência deve saber rir», como nos ensinou Fernando Savater. É nisso que penso ao rever hoje cada episódio desta extraordinária série que psicanalizava a classe média americana e se mantém actual, superando as barreiras da moda, do gosto e do tempo. Porque a América de Archie Bunker não morreu: apenas se alterou o suficiente à superfície para continuar tão tacanha como dantes.

 
 
Texto reeditado, a propósito da reposição integral da série, agora na RTP Memória

Dois magníficos documentários

Pedro Correia, 27.09.20

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O documentarismo televisivo português atravessa uma das melhores fases de sempre. Comprovei isso nos últimos dias, vendo dois magníficos documentários - um no segundo canal da RTP, outro na SIC. Nenhum deles alvo de promoção especial pelas respectivas estações, algo que já não estranho: o espectador atento tem de descobrir pela sua própria intuição o que de melhor ali se oferece.

O da SIC, exibido faz hoje oito dias no âmbito da rubrica "Vida Selvagem", intitula-se Mar da Minha Terra - Almada Atlântica. Pede meças aos melhores filmes sobre fauna e flora do planeta exibidos há décadas em estações de referência no género, como a BBC. 

Com realização de Luís Quinta, credenciado fotógrafo da natureza, e competente locução de Augusto Seabra, este documentário mostra-nos o que muitos desconhecíamos: «Entre a Costa da Caparica e o Cabo Espichel existe um imenso mar de segredos onde criaturas belas e raras nadam, voam e encontram refúgio. Aqui, gigantes marinhos coexistem com seres minúsculos de micromundos. À fauna local juntam-se viajantes oceânicos.»

É, para muitos de nós, uma revelação: a escassos quilómetros do areal que tanta gente frequenta, com a arriba fóssil bem à vista, nadam tartarugas, golfinhos, roazes, tubarões azuis, baleias anãs e orcas. Filmados neste habitat que, em muitos casos, constitui já sua morada permanente. Comprovando assim a qualidade destas águas e destas praias, não por acaso distinguidas anos a fio com a bandeira azul. A natureza segue aqui o seu curso: toda uma revelação para quem só costuma ver as águas oceânicas portuguesas associadas a deprimentes notícias que dão conta da sua degradação com carácter irreversível. 

 

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O outro documentário, exibido a 16 de Setembro no canal estatal, intitula-se Exílio no Atlântico e revela-nos um episódio ignorado, dos muitos em que Portugal funcionou como refúgio nos dias sangrentos da II Guerra Mundial: cerca de dois mil habitantes de Gibraltar, evacuados do enclave-rochedo por decisão do comando militar britânico, encontraram asilo na Ilha da Madeira e ali permaneceram cinco anos, entre 1940 e 1945. Resguardados do conflito mais dilacerante que a História já conheceu.

É um filme assinado por Pedro Mesquita, que nos narra a história dessas famílias, amputadas do local de nascimento, da residência, da ligação umbilical a Londres e, em muitos casos, até de alguns parentes muito próximos, mobilizados em acções bélicas a centenas ou milhares de quilómetros de distância. Ao mesmo tempo ficamos a saber um pouco mais sobre as virtudes hospitaleiras dos portugueses e a vocação do nosso país - que tantas vezes menosprezamos sem motivo válido - para funcionar como porto de abrigo.

«Nós, na Madeira, pudemos considerar-nos muito afortunados. Porque vivemos uma vida normal, sem nenhuma preocupação com a guerra», lembra um desses refugiados - então menino, hoje um ancião grato à inesperada dádiva que recebeu na roleta da existência. É comovente ver como a marca da infância experimentada na Pérola do Atlântico, território neutral num mundo em chamas, ficou impressa para sempre naquelas crianças e adolescentes ainda capazes de falar e cantar em português. Uma lição de vida. E uma demonstração prática de como as circunstâncias fortuitas podem mudar-nos o destino. Dependemos sempre do acaso, o outro nome que atribuímos ao desconhecido.

Higiene visual e auditiva

Pedro Correia, 29.07.20

 

Durante anos recebemos no sossego do lar o entulho verbal de cartilheiros, muitas vezes ligados ao cordão umbilical de clubes desportivos e agindo como marionetas destes, poluindo as pantalhas com os seus gritos histéricos, o seu sectarismo patológico e a sua desonestidade intelectual. E a coisa, pelos vistos, até rende para além do reduto da bola: um desses pantomineiros, por sinal um dos mais sabujos, é hoje deputado da nação e lidera um putativo partido político.

Numa decisão que só peca por tardia, o director de informação da SIC acaba de pôr cobro a esta desbunda anunciando que deixará de dar tempo de antena aos chamados comentadores de cachecol, convocados para as diatribes em estúdio apenas por revelarem total falta de isenção. Esta medida de elementar higiene visual e auditiva não tardou a ser secundada pela direcção de informação da TVI, agora em início de funções.

 

Tudo bem. Questiono-me apenas se este gesto profiláctico não deveria ter sido assumido em primeiro lugar pela RTP, empresa estatal de televisão e rádio - e, portanto, com especiais responsabilidades, nomeadamente na não-discriminação de emblemas clubísticos nos seus painéis de comentário sobre futebol. Recordo-me que entre os bitaiteiros de cachecol com lugar cativo na RTP já figurou o actual presidente da Câmara do Porto, aliás protagonista de um contundente "abandono em directo" entre gritaria que terá congregado grande audiência.

Motivo acrescido para a minha interrogação: ao privilegiar os chamados "três grandes", ignorando todos os outros emblemas desportivos, a vetusta empresa de comunicação televisiva paga com o dinheiro dos nossos impostos entra em colisão com os princípios de serviço público. O mesmo se passa com a Antena 1 no plano radiofónico.

Mais vale tarde que nunca. Eis chegado o momento de perguntar se a Direcção de Informação da RTP tenciona seguir o bom exemplo agora posto em prática por dois canais privados ou se vai manter tudo na mesma, fingindo que nada tem a ver com este filme.

Uma aritmética muito peculiar

Pedro Correia, 31.05.20

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Informa-me o Primeiro Jornal da SIC que a Direcção-Geral de Saúde «aprovou 17 estádios» para o recomeço (ou "novo começo", sejamos rigorosos) do campeonato nacional de futebol. Ora havendo 18 equipas neste campeonato e duas deles «não jogarem em casa», como revela o mesmo telediário à mesmíssima hora (13.54 de hoje), causa-me alguma perplexidade esta aritmética tão peculiar.

 

Assim intrigado, deixo algumas questões:

- Qual terá sido o único estádio, em 18 possíveis, que não mereceu o visto prévio da DGS?

- Se 17 em 18 obtiveram luz verde, qual foi o clube que, vendo o seu estádio apto para a competição, recusou usá-lo?

- Como reagirão os adeptos a tal opção, que desconsidera as instalações do próprio clube?

- Dezoito menos dois ainda serão dezasseis ou poderão tornar-se dezassete na aritmética "pós-moderna"?

- Será falha de memória minha ou o "código de conduta" elaborado pela DGS e tornado público a 19 de Maio (apenas há 12 dias) estipulava, em termos categóricos, que «deve ser utilizado o menor número possível de estádios» neste regresso às competições desportivas?

- Dezassete em dezoito será mesmo «o menor número possível»?

 

Responda quem souber. O meu ábaco não dá para mais.

Em suas importantes saúdes

Pedro Correia, 25.05.20

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«O primeiro-ministro está na toalha com a mulher aqui na praia da Princesa, na Costa da Caparica. Decidiu vir apanhar banhos de sol, tal como o Presidente Marcelo fez hoje de manhã e ontem à hora de almoço, e dirigiu-se aqui à margem sul do Tejo, na praia da Princesa, na Costa da Caparica, para aproveitar a manhã de praia até porque o tempo convida a que as pessoas venham. Também numa forma de dar o exemplo aos portugueses. Isto depois de o Governo ter autorizado os portugueses a irem à praia e também a mergulhar, mesmo que a época balnear só comece no próximo dia 6 de Junho.»

Reportagem da TVI, ontem, à hora do almoço

 

«O Presidente da República voltou aqui, à baía de Cascais, por volta do meio-dia e meia. Ele veio de máscara, sozinho, à semelhança do que tinha feito ontem. Marcelo Rebelo de Sousa colocou-se no areal, deixou as suas coisas e dirigiu-se para a linha de água com a toalha e sempre com a máscara posta. O Presidente referiu que é importante que as pessoas estão a manter o distanciamento social na praia. Marcelo Rebelo de Sousa só tirou a máscara no momento imediatamente antes de entrar na água, depois aproveitou para nadar.»

Reportagem da TVI, ontem, à hora do almoço

 

«Pelo segundo dia consecutivo, o Presidente da República veio até aqui, à praia da Conceição, em Cascais, a praia onde habitualmente costuma dar aqueles mergulhos ao fim de semana, e este fim de semana de calor em Portugal não foi excepção. Para o Presidente da República, é preciso também retomar um pouco esta normalidade, agora com redobrados cuidados. E assim fez também Marcelo Rebelo de Sousa: depois de ter estado alguns minutos a dar as suas braçadas no mar, ele saiu e imediatamente, no momento em que saiu, pôs a máscara.»

Reportagem da SIC, ontem, à hora do almoço

 

«Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes.»

Diário de Notícias, na primeira edição (29 de Dezembro de 1864)

Tábuas em vez de livros

Pedro Correia, 16.04.20

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Uns preferem rodear-se de livros: parece bem e confere um toque acrescido de autoridade intelectual, verdadeira ou postiça.

Mas há quem opte, também nisto, por vias fracturantes. É o caso desta deputada do Bloco de Esquerda, que mandou os livros às malvas e se fez filmar no interior de uma choupana, sem adereços burgueses nem elementos decorativos indignos da "verdadeira esquerda" - a que tresanda a realismo socialista vintage, o último grito da moda dos loucos anos 30 do século passado.

Assenta-lhe bem este visual: em vez de lombadas, tábuas carcomidas pelo caruncho. Sinal inequívoco de que a revolução está para chegar.

Portas de regresso ao jornalismo

Pedro Correia, 07.04.20

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Detesto perder tempo com tudólogos que nada percebem sobre coisa alguma e começam cada frase por «eu acho que»: abundam nas televisões e fujo deles a sete pés. Abomino os trombeteiros do apocalipse que não perdem uma oportunidade para atemorizar e deprimir os compatriotas, reproduzindo em antena os piores rumores que circulam sobre o nosso futuro colectivo: trocam factos por "cenários", pintados em cores bem negras, convictos de que isto lhes garante gordas "audiências".

O paleio é imenso, mas as alternativas são mais escassas do que parecem: muitos destes palpiteiros limitam-se a copiar o que outros dizem, numa espécie de confraria do plágio mútuo consentido. Devemos ser criteriosos nas escolhas para nos mantermos realmente bem informados, preservarmos o quociente de inteligência que nos coube em sorte e ampliarmos o prazo de validade da nossa sanidade mental. Isto leva-me, por estes dias, a reservar o direito de admissão em termos ainda mais severos: não é qualquer um que me entra em casa a impingir mercadoria contrafeita.

Daí valorizar tanto as excepções à regra. Destacando, desde logo, as intervenções de Paulo Portas no Jornal das 8 da TVI, agora com uma rubrica intitulada "Estado da Emergência", que costuma funcionar como remate dos telediários. Vale a pena ouvi-lo: ficamos sempre a aprender alguma coisa com ele a propósito desta pandemia sanitária à escala global que ameaça ter efeitos económicos e sociais devastadores. Com base factual, argumentos serenos e a atitude didáctica de quem procura persuadir pela razão em vez de procurar "transmitir emoções", como está hoje em voga. 

Percebe-se que há ali investigação séria e pesquisa junto de fontes credíveis a caucionar o que debita em dez minutos diários. No fundo, é um Paulo Portas de regresso ao jornalismo. Mostrando a muitos jornalistas como devem proceder para difundir informação fundamentada e rigorosa.

Parece fácil, mas não é. Fácil é espalhar boatos e semear o alarmismo nas redes sociais, aterrorizando os incautos. A isto temos que dizer basta. E aprender, em definitivo, a separar o trigo do joio, distinguindo informação de lixo. É um acto de elementar higiene cívica.

Tema único [actualizado]

Pedro Correia, 11.03.20

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Coronavírus, hoje, nos telediários da hora do almoço:

 

SIC, Primeiro Jornal: 1 hora e 8 minutos

TVI, Jornal da Uma: 58 minutos

RTP, Jornal da Tarde: 48 minutos

 

...............................................................................

 

Coronavírus, hoje, nos telediários da hora do jantar:

 

SIC, Jornal da Noite: 1 hora e 15 minutos

TVI, Jornal das 8: 1 hora e 14 minutos

RTP, Telejornal: 54 minutos

A chuva e o bom tempo

Pedro Correia, 25.01.20

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Lembram-se do "risco de seca severa e extrema" que ainda há pouco nos gritavam ao domicílio de telediário em telediário? Lembram-se dos desesperados alertas para as "barragens em mínimos históricos de água", entre outras mensagens de igual teor apocalíptico?

Foi há pouco tempo. Trombeteado pelos mesmos órgãos de informação que agora lançam uivos de advertência contra o "mau tempo". E o que é afinal o "mau tempo"? Simplesmente a boa e velha chuva invernal, acompanhada do inevitável e velho frio e por vezes da pura, alva e velha neve. Tudo próprio da estação. A mesma chuva pela qual as tais trombetas do Apocalipse imploravam para encher barragens e pôr fim à seca.

Um final feliz é uma chatice quando se desespera por cliques em tempo de escassez. Não de chuva, mas de leitores e audiência.

Fora da caixa (13)

Pedro Correia, 21.09.19

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«Tenho um gosto especial por resolver problemas.»

António Costa, em entrevista à RTP 3 (exibida a 18 de Setembro) 

 

A RTP 3 inaugurou uma série com perguntas "fora da caixa" aos dirigentes dos seis partidos com representação parlamentar. Um formato interessante, que nos permite olhar para estes políticos fora do enquadramento pré-formatado em que quase sempre surgem nas televisões.

Dois políticos nascidos em Lisboa (António Costa e André Silva), outros dois naturais do Porto (Rui Rio e Catarina Martins), um vindo ao mundo em Pirescoxe-Santa Iria da Azóia (Jerónimo de Sousa) e uma fora do continente europeu (Assunção Cristas, que teve berço em Luanda). O mais velho, com 72 anos, é o secretário-geral do PCP. O mais jovem, com 43 anos, é André Silva, porta-voz do PAN.

Todas estas entrevistas conduzidas pela jornalista Cândida Pinto e registadas ainda em Agosto ou no início de Setembro, decorrem em cenários naturais, escolhidos pelo entrevistados. Louvor à opção de Jerónimo de Sousa, junto ao castelo da sua aldeia natal, que ficou muito bem na fotografia, e sobretudo à escolha de António Costa, que se fez filmar na praia fluvial da Peneda, concelho de Góis, onde apetece dar uns mergulhos só de a ver na televisão.

A sessão inaugural, exibida inicialmente na quarta-feira e repetida ontem, recolheu respostas às perguntas que passo a enumerar.

Por que razão procurou uma carreira política e o que o fez querer liderar um partido? É fácil ou difícil fazê-lo mudar de ideias? Qual foi a pessoa que teve mais impacto na sua vida? Qual foi a melhor refeição da sua vida? Dá ou não dá esmola? Quais são as suas maiores preocupações em relação ao futuro dos seus filhos e dos seus netos? O que tem mais medo de perder, para além da família?

 

Confesso: as respostas que mais me interessaram foram as da refeição inesquecível. Respostas que nos dizem muito sobre eles.

António Costa: «Recordo sempre muito uma que tive na Jordânia, a seguir ao funeral do rei Hassan II. O nosso cônsul honorário convidou-me para um jantar de experiência de comida árabe, que foi para mim a primeira vez.»

Rui Rio: «Quando eu fazia anos, a minha mãe cozinhava sempre aquilo de que eu mais gostava, uns escalopes au riz, e fazia uma tarte de limão para sobremesa.»

Catarina Martins: «Uma vez atravessei os Estados Unidos de carro. Lembro-me de tomar o pequeno-almoço a ver nascer o sol, no meio do deserto, e o pequeno-almoço era o da máquina do hotel: um capuccino e um donut

Assunção Cristas: «Em São Tomé, na roça de São João dos Angulares. Já não sei o que comi, mas estava tudo tão bom...»

Jerónimo de Sousa: «Não sou capaz de me fixar numa. Vai-se ao Norte e prova-se uma carne única no mundo, vai-se a Setúbal e prova-se um peixe magnífico, vai-se ao Alentejo e vê-se a criatividade a partir de quase nada. Em todos os sítios é possível comer bem - incluindo em Lisboa.»

André Silva: «Gosto muito de comer frugal. Uma das coisas que mais prazer me dão é comer feijão maduro cozido com um fio de azeite.»

 

O prémio para a resposta de cartilha pronta-a-servir cabe a António Costa, ao responder sobre a maior preocupação sobre o futuro dos descendentes: «Tem a ver com a espécie humana. Tem a ver com as alterações climáticas.»

O prémio para a fidelidade partidária só pode ser para Jerónimo de Sousa, na resposta à pergunta sobre a pessoa que mais lhe marcou a vida: «Incontornavelmente, a figura de Álvaro Cunhal.»

O prémio para a sinceridade socialmente incorrecta é ganho por Rui Rio: «Eu sou contra dar a esmola na rua porque isso amarra a pessoa à rua. Se eu notar que o dinheiro é para vinho ou para droga, não dou.»

O prémio para a coerência com as ideias que defende cabe por inteiro a André Silva. A dado momento, uma mosca pousa-lhe na cara: o líder do PAN não tentou matá-la nem sequer enxotá-la. Ela, persistente e confiante, lá ficou.

Há vida para além da bola

Pedro Correia, 17.09.19

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Debate Costa-Rio foi ontem acompanhado por 2,7 milhões de telespectadores. Demonstração clara de que as pessoas se interessam por política. E só não acompanham mais porque os canais de televisão pouco mais têm para oferecer do que telenovelas e futebol. Aliás, à hora do debate, um dos putativos canais de "notícias" dava destaque... à bola.

 

Foram estes os outros debates com maior audiência:

Costa-Sousa (SIC) - 1,1 milhões de espectadores

Costa-Silva (SIC) - 1,065 milhões de espectadores

Costa-Cristas (TVI) - 935 mil espectadores

 

Costa lidera, portanto - não só nas sondagens, mas também nos debates.

O menos visto? Martins-Silva, na SIC Notícias, apenas com 68.100 espectadores.

O novo ópio do povo

Pedro Correia, 28.08.19

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A TVI, no seu canal informativo, prometia ontem conceder destaque a Assunção Cristas, entrevistada por um jornalista da casa e alguns especialistas em diversas áreas incluídos entre os participantes nesta emissão, transmitida em directo. Sob o título genérico «Tenho uma pergunta para si» (o abuso do redundante pronome "si", que me soa sempre a nota de música, reflecte o empobrecimento da nossa linguagem comunicacional).

Tentei fixar a atenção nesta entrevista, mas desisti a meio. Porque me pareceu desde o início que se destinava apenas a despachar agenda e aliviar um fardo. Decorria tudo num tom tão impaciente, como se houvesse urgência máxima em retirar a presidente do CDS do ar, que obrigou uns e outros a falar em ritmo anormalmente acelerado.

Assunção, pressionada pelo ponteiro dos segundos, parecia uma picareta falante, para usar a expressão que Vasco Pulido Valente colou noutros tempos a António Guterres. Os interrogadores de turno, quando demoravam um pouco mais a formular a pergunta, eram de imediato interrompidos pelo profissional da casa. O próprio Pedro Pinto, ao comando desta emissão tão frenética, parecia mais confinado à função de cronometrista do que de jornalista.

E afinal tanta pressa para quê? Para que o mesmo canal informativo da TVI desse lugar a três cavalheiros de calças de ganga a discorrer tranquilamente sobre os mais recentes rumores do chamado "mercado de transferências" da bola. Preopinavam em modo pausado, de perna traçada, como se estivessem no café e tivessem todo o tempo do mundo para perorarem sobre coisa nenhuma.

Foi a minha vez de recorrer ao cronómetro: cavaquearam das 22.36 às 23.57. Um dos membros deste trio já estivera em antena durante a tarde, entre as 17.58 e as 18.48, tagarelando sobre o mesmíssimo assunto.

Estranho critério jornalístico, estranho critério informativo - cada vez mais monotemático. Como se nada mais houvesse de relevante do que as tricas do futebol.

Alguém aí falou em ópio do povo? Se o fez, acertou em cheio.