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Jornalismo "agit-prop"

por Pedro Correia, em 02.12.18

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Ontem, como de costume, em quase todos os canais "informativos" portugueses só havia bola. Com "notícias" como esta: «Benfica supera a crise goleando o Feirense.»

Deslizei para os raros recantos onde ainda não chegara o futebol - que entre nós é considerado sinónimo de desporto, vá lá entender-se por quê.

Num desses poisos alternativos, logo na frase de abertura, evocava-se o agora falecido presidente norte-americano George Herbert Walker Bush dizendo logo na frase de abertura que tinha "liderado durante oito anos" o poder em Washington: bastaria uma rápida consulta à Wikipédia para perceber que Bush pai esteve apenas quatro anos na Casa Branca, entre 1989 e 1993.

Mas este "jornalismo" que nos entra em casa não peca apenas pela falta de memória: peca também por excesso de activismo político. Noutro canal, a propósito dos distúrbios em Paris, provocados por extremistas de vários matizes, Fulano aludia à Revolução Francesa, Beltrano invocava o espírito da "revolução de 1848" e Sicrano dava por praticamente consumada a demissão de Emmanuel Macron, por pressão "do povo que se revolta nas ruas". Todos contactados por telefone, todos arengando contra a democracia representativa, todos fazendo tábua rasa da genuína vontade popular expressa no voto. Agit-prop em directo e ao vivo.

Voltei a zapar, de comando na mão. Despedindo-me dos cúmplices morais da anarquia parisiense, regressei ao reino da bola. Mal por mal, antes a crise do Benfica, "superada" pela vitória caseira contra o Feirense.

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A guerra que Thatcher "inventou"

por Pedro Correia, em 29.03.18

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Estamos sempre a aprender. Acabo de escutar um historiador, em tom categórico e professoral, proclamar em horário nobre da televisão: "A senhora Thatcher, quando estava a braços com uma crise de agitação social na Inglaterra, inventou uma guerra, a guerra das Malvinas."

Extraordinário doutor Fernando Rosas: folheando sabe-se lá quantos canhenhos empoeirados, só ele conseguiu descobrir que foi afinal a primeira-ministra Margaret Thatcher quem ordenou aos odiosos déspotas do regime militar de Buenos Aires - apoiados pelo ditador cubano Fidel Castro - para  invadirem o arquipélago das Malvinas no dia das mentiras de 1982.

A maquiavélica senhora precisava dessa invasão para "inventar uma guerra" que só poderia culminar com a vitória britânica, emulando o triunfo da Royal Navy sobre Bonaparte em Trafalgar, enquanto as massas ignaras entoavam o God Save the Queen.

Fiquei esmagado com tão eloquente demonstração de sapiência do reputado académico. E aqui venho inclinar-me em respeitosa vénia à sua luminosa e profícua erudição.

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Confesso: é penoso assistir a “noites eleitorais” dominadas por tudólogos que nada percebem sobre coisa nenhuma mas são capazes de perorar horas a fio sobre não importa o quê. Voltou a acontecer nesta longa emissão televisiva em que se sucediam as mais assombrosas declarações de ignorância sobre a vida real dos Estados Unidos proferidas por gente que observa o mundo pelo buraco da fechadura do eixo Chiado-Príncipe Real.

Com honrosas excepções (das quais destaco Miguel Monjardino e Nuno Rogeiro), nesta longa noite americana, que foi a do naufrágio eleitoral do Partido Democrata, assistimos ao triunfo da ignorância, incapaz de perceber as causas políticas e sociológicas da vitória de Donald Trump e do esmagador domínio do Partido Republicano – que venceu as eleições para a Casa Branca, para o Senado, para a Câmara dos Representantes, para a maioria dos parlamentos estaduais e para a maioria dos governadores que foram a votos.

Sucediam-se banalidades na pantalha. “Os Estados Unidos são um país muito grande”, balbuciava Fulano, preenchendo tempo de antena antes da contagem dos votos. “Normalmente as sondagens nos EUA não falham”, alvitrava Beltrano enquanto os boletins eram contabilizados. “O partido que neste momento tem mais problemas é o Republicano", asseverava Magano, recém-aterrado de Marte. "Ninguém estava à espera que uma coisa destas acontecesse”, escandalizava-se Sicrano após o apuramento dos resultados, passando um atestado de incompetência a si próprio.

Para cúmulo, foram buscar um "especialista em sondagens” que, incapaz de acertar na maioria das pesquisas de opinião que tem feito em Portugal, surgiu nos ecrãs como putativo connaisseur da sociologia eleitoral norte-americana. Tinha o currículo adequado para falhar. E falhou mesmo: pouco depois da meia-noite apresentava ao País um mapa com os Estados do  Michigan, da  Pensilvânia e do  Wisconsin pintados de azul – a cor do Partido Democrata. Infelizmente para ele, a realidade encarregou-se de o desmentir.

Nada a que não esteja habituado.

Do mal o menos: sobre a Virgínia esta sumidade não se pronunciou. “Só conhecendo a Virgínia bem, que eu sinceramente não conheço”, justificou-se. Como se conhecesse algum dos outros 49 Estados norte-americanos.

Hillary Clinton, claro, foi a grande derrotada da noite eleitoral. Mas não está só: tem a companhia destes tudólogos. São em número cada vez maior: mal cabem na bolha do Chiado onde se imaginam a recriar o mundo.

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Inculta e infantil

por Pedro Correia, em 13.10.16

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Câmara Municipal de Montreal: "hotel de cidade", como lhe chama a RTP

 

O canal 2 da RTP autodefine-se, desde há uns tempos, como uma alternativa "culta e adulta" aos raros telespectadores que a frequentam. Não faço a menor ideia de onde partiu este slogan, mas quem o concebeu acertou ao lado: não conheço ninguém verdadeiramente culto que proclame ter tal qualidade e, como é sabido, só os adolescentes insistem em considerar-se adultos.

Faria bem melhor a RTP 2 em não se presumir tão culta. Para não tornar demasiado evidentes os atentados de lesa-cultura que vai cometendo. Ainda há dias abri a boca de espanto com um deles, durante a exibição de um documentário francês de promoção turística sobre o Quebeque, inserido numa série denominada (vá-se lá saber porquê) Flavors.

O referido programa mostrava edifícios históricos da cidade de Montreal. Às tantas ouvimos a seguinte frase, proferida na locução portuguesa: "A arquitectura do seu hotel de cidade reflecte todas as influências da sua história movimentada."

Câmara municipal ou prefeitura - hôtel de ville, em francês - foi assim traduzida à letra pela absurda expressão "hotel de cidade" por quem ignora os rudimentos da língua francesa. Só podia dar asneira.

Procurei a ficha técnica portuguesa, na expectativa de ver quem assinava a tradução e a locução deste documentário. Em vão: a coisa é anónima. Não pode haver maior incentivo para a asneira.

Nada culto, portanto. E nada adulto num canal de televisão capaz de cometer erros tão infantis. Com o dinheiro de todos nós.

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A marcha da desinformação na TV

por Pedro Correia, em 27.06.16

Ontem à noite todos os telediários portugueses - mesmo com correspondentes e enviados a Madrid - caíram na esparrela das sondagens, que em Espanha falham por sistema. Confundindo projecções com números reais, sem um sobressalto de dúvida, foram desinformando os portugueses sobre o resultado da eleição para o novo Parlamento espanhol.

Foi preciso que um par de comentadores, sem carteira de jornalista, repusesse a verdade dos factos. O que, reconheçamos, não abona nada a favor dos profissionais da informação.

Eis o filme dos acontecimentos:

 

RTP, 19.02: «Deu-se o sorpasso, essa expressão italiana que dominou esta campanha. Esta coligação de Pablo Iglesias, unido aos comunistas, consegue ultrapassar o Partido Socialista.»

RTP, 19.03: «O PP de Mariano Rajoy desce pelo menos dois lugares no Congresso em termos de deputados. Este é um terramoto político. É um abalo sem precedentes em Espanha.»

TVI, 19.57: «A principal mudança no sufrágio de hoje foi a passagem do Podemos para segundo lugar, ultrapassando o PSOE.»

SIC, 19.59: «O Unidos Podemos acaba por ser o grande vencedor da noite e é nesta coligação que pode estar a chave para o futuro governo espanhol.»

TVI, 21.02: «O Podemos deve ultrapassar o PSOE como segunda força política. Em termos de deputados, há a possibilidade de uma maioria de esquerda.»

SIC, 21.13: «A grande surpresa aqui é o segundo lugar do Unidos Podemos.»

 

Este, repito, foi o discurso jornalístico. Que se prolongou por mais de duas horas nas pantalhas lusas.

Felizmente havia comentadores - um em estúdio, outro em Madrid - a recomendar moderação, mais atentos aos factos do que à espuma.

O primeiro foi Paulo Portas, recém-contratado como comentador de temas internacionais da TVI. Eram 21.03 quando ele alertou, falando em directo da capital espanhola: «O resultado dos votos contados aponta para um sentido completamente diferente das sondagens.»

Dez minutos mais tarde, na SIC, Luís Marques Mendes também deitava água na fervura: «Aquilo que foram as sondagens à boca das urnas não está a confirmar-se na contagem dos votos.»

Tinham ambos razão. Os jornalistas é que andavam distraídos: foram os últimos a saber.

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De vez em quando, sigo de relance uma telenovela portuguesa - daquelas que me garantem ter "imenso sucesso" e serem acompanhadas devotamente, noite após noite, por audiências dos mais diversos segmentos sociais.

Tendo sido espectador regular das primeiras telenovelas que se produziram em Portugal (Vila Faia, Origens, Chuva na Areia) e de algumas posteriores, como A Banqueira do Povo, sinto curiosidade em perceber a evolução do fenómeno. Mas facilmente me decepciono, por motivos que adiante explicarei. E volto a passar meses sem espreitar nenhuma.

 

Em primeiro lugar, há muito mais glamour do que havia nos tempos pioneiros da Vila Faia. Agora elas são quase todas muito novas, muito giras e muito produzidas. Não há caras feias, quase não se vislumbra ninguém com rugas e as variações geracionais dos protagonistas são mínimas. Não estamos perante um simulacro da realidade: estamos perante a sua distorção.

 

Em segundo lugar, vejo pouquíssimos actores - daqueles calejados em anos de trabalho nos palcos ou na tela. Os papéis parecem exigir apenas intérpretes muito jovens, de carinhas larocas, gente 'formada' nas passarelas da moda e não no Conservatório, numa espécie de Morangos com Açúcar em versão perpétua.

 

Em terceiro lugar, todas as personagens falam com sotaque de Lisboa - muito 'tá em vez de está, muito te'fone em vez de telefone, indo muito p'à praia em vez de seguirem para a praia. A direcção de actores que tão bem fez trabalhar sotaques e pronúncias na primeira telenovela da SIC, A Viúva do Enforcado, andou para trás de então para cá e hoje é possível escutarmos uma pretensa açoriana ou uma suposta portuense dizerem 'chtamoch em vez de estamos ou mêmo em vez de mesmo, como se fossem transplantadas do eixo Lisboa-Cascais.

Disparate? Pois é. Mas ninguém parece reparar. E dirigir actores dá trabalho, leva tempo e custa dinheiro: o melhor é não se pensar nisso.

 

 

Em quarto lugar, reparo que o verdadeiro protagonista é o sofá da sala. Vivem quase todos em casas com salas enormes, mobiladas com sofás a perder de vista, onde 80 por cento dos diálogos se desenrolam. Curiosamente, parecem morar todos em vivendas ou duplexes: se repararem com atenção, encontram sempre uma escadaria interna no décor. Outra curiosidade: não existem átrios, antecâmaras ou corredores: por mais luxuosa que seja a residência, entra-se directamente da porta da rua para a sala de estar. E ninguém parece reparar em tal incongruência.

 

Em quinto lugar, e apesar de quase todas as cenas ocorrerem dentro de portas, o guarda-roupa é sempre próprio de quem está fora. Nada de roupões, de T-shirts de alças, de pijamas, de calções, de pantufas ou chinelos. Elas estão sempre em casa de vestido e salto alto, eles jamais despem o casaco ou afrouxam sequer o nó da gravata. Todos são incapazes desse gesto tão comum (e para mim obrigatório) que é descalçar os sapatos da rua assim que entram em casa.

 

Em sexto lugar, abundam padres de sotaina e cabeção, à moda antiga, sopeiras fardadas e até mordomos de libré, como nos filmes ingleses dos anos 30. Nada mais démodé, em perfeito contraste com o tom pretensamente modernaço da maior parte das telenovelas.

 

Em sétimo lugar, é frequente ouvirmos os patrões tratar os empregados por tu, como se fossem todos antigos latifundiários alentejanos antes do 25 de Abril. Nada mais anacrónico.

 

Em oitavo lugar, é impressionante o número dos que não trabalham. Aliás, o mundo do trabalho está praticamente ausente das telenovelas. À luz do dia, as personagens passam o tempo a entrar e a sair das respectivas casas. Raras vezes o local de trabalho é ponto de encontro e são escassos os protagonistas que desenvolvem alguma actividade profissional credível. Há dias vi até um "jornalista" estendido no inevitável sofá a dizer à mulher ou namorada que acabara de escrever uma "crónica" que lhe dera imenso trabalho e estava já a pensar na "crónica" do dia seguinte embora estivesse com uma aflitiva falta de tema. É tocante esta forma como o quotidiano dos jornalistas surge nas novelas da TV - qualquer semelhança com a realidade não passa de coincidência.

 

 

Em nono lugar, os diálogos. Têm todos a espessura de uma banal troca de mensagens de telemóvel. Recentemente, ouvi numa telenovela da Globo a expressão "custar os olhos da cara" e achei quase insólito que surgisse num diálogo de ficção televisiva. Porque as telenovelas portuguesas só raras vezes - quase por descuido - recorrem às saborosíssimas e tão genuínas expressões idiomáticas da nossa língua, sedimentadas através das gerações: preferem os diálogos sincopados, cheios de termos monossilábicos, na concisa fraseologia lisboeta contemporânea, incapaz de ultrapassar uma centena de vocábulos.

Daí proliferarem diálogos do género:

- Como 'tás?

- 'Tou bem. E tu?

- Tudo OK. 'Bora lá?

- Fixe. 'Tou nessa.

Já para não falar no clássico dos clássicos do género: entra Beltrana na casa de Sicrano e diz: "Temos de falar". Como se vivêssemos num tempo anterior à invenção dos telefones.

 

Em décimo lugar, os nomes. Elas falam com eles e eles falam com elas debitando a todo o momento os nomes uns dos outros. Talvez para não se esquecerem como cada um se chama no meio de tanta personagem.

Mesmo que a interlocutora seja a melhor amiga:

- Tu gostas do Eduardo, Rita?

- Não tenho a certeza se o Eduardo é homem p'ra mim, Leonor.

Mesmo que se trate de um par de namorados já maduros:

- Podemos jantar amanhã, João? Vou buscar-te ao escritório.

- Não posso, Filipa. Amanhã é dia de eu estar com o meu filho Gonçalo.

Pormenor: o Gonçalo é filho único, o que torna absurda a invocação do nome. Se falássemos assim na vida quotidiana parecíamos uns tontinhos. Mas nestes diálogos telenovelescos ninguém parece estranhar.

 

Em décimo primeiro lugar, os pequenos-almoços. Só nas novelas televisivas há tempo, oportunidade, sincronia e paciência para todos os ocupantes da mesma casa tomarem a primeira refeição do dia pausadamente sentados em lautas mesas onde nunca faltam grandes jarros com sumos de frutas tropicais, como se estivessem hospedados em hotéis de luxo.

Ah, estas inesquecíveis cenas de pequeno-almoço: são um must divertidíssimo, embora absurdo, destas ficções que pretendem 'copiar' a realidade e afinal estão irremediavelmente longe dela.

Texto reeditado e ampliado

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Nem o São Google ajuda

por Pedro Correia, em 09.05.16

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Nono episódio da terceira temporada de Mad Men, que vejo com imperdoável atraso: é uma das melhores séries televisivas de sempre. Conrad Hilton, o magnata dos hotéis cuja figura é aqui recriada num registo ficcional muito próximo da realidade, e Dan Draper - o protagonista da série - conversam madrugada adiante, ambos já bem bebidos. Às tantas o magnata pergunta: «Depois de tudo quanto atácamos o Krutchov, você sabe o que o fez cair?» E apressa-se a fornecer a resposta: "O facto de ele não ter podido ir à Disneylândia

O problema é que esta conversa travava-se em Setembro de 1963. O líder soviético só caiu mais de um ano depois, derrubado por um golpe interno no Kremlin desencadeado pelos camaradas que até ao último momento lhe garantiam apoio formal. Fica a prova de que até nas mais excelentes séries, como esta é, pode cair a nódoa. E nem o São Google ajuda quando a cultura de base não dá para mais.

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Os mesmos de sempre

por Pedro Correia, em 03.04.16

São sempre os mesmos comentadores, ano após ano, década após década. Desfilam nos canais de sempre debitando as mais esforçadas banalidades de que são capazes. Nos últimos dois dias, ouvi sete (não exagero) sublinharem, com ênfase de La Palice, que "o futuro de Passos Coelho está dependente da boa ou má prestação do governo de António Costa".

Cada um que comparece no ecrã copia sem pudor o que o anterior disse. Falam longos minutos, horas, dias, meses. Dizendo coisas profundíssimas, como a frase que mencionei acima. Antes de começarem a falar já adivinho tudo quanto vão dizer - às vezes palavra por palavra.

Falam de política reclamando "reformas", "inovação", "golpes de asa". Sem perceberem que a verdadeira reforma, a maior inovação, o mais genuíno golpe de asa dos canais que os acolhem com aparente carácter vitalício seria removê-los e pôr outros no lugar deles. Outros que dissessem coisas que talvez nos surpreendessem, que talvez nos dessem pistas interessantes, que talvez nos pusessem a pensar.

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A televisão feita cinema

por Pedro Correia, em 05.03.16

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Ao longo dos anos tenho visto excelentes séries na televisão. Mas poucas tão boas como House of Cards, uma impressionante e quase hipnótica digressão pelos bastidores da política. Centrada na teia de interesses que se vai tecendo em torno da Casa Branca, e com naturais particularidades da vida pública norte-americana, mas com pistas de reflexão sobre o implacável exercício do poder que podem funcionar para qualquer tempo e qualquer lugar.

 

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 Ray Donovan

 

Com a viragem do século o cinema foi-se infantilizando e comercializando. Ganhou ainda maior dimensão industrial à medida que perdia fulgor criativo. Cada vez mais passou a privilegiar o embrulho pirotécnico, destinado ao consumo alucinante de pipocas. E a dimensão lúdica daquilo a que noutros tempos se chamava Sétima Arte deixou de ser um meio para se declarar um fim.

A crítica cinematográfica transformou-se num veículo de difusão publicitária, confundindo qualidade com receitas de bilheteira. E a forma de contar uma história com impacto visual, diálogos credíveis e sólida construção de personagens foi-se desvalorizando até à caricatura. O pensamento deu lugar ao divertimento acéfalo. E a mediania acabou promovida a patamares de excelência pela absoluta falta de critério dominante – como aliás ficou bem visível na recente distribuição de estatuetas douradas ocorrida em Hollywood.

 

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 Um Crime, Um Castigo (Engrenages, no original)

 

Felizmente a televisão tem caminhado em sentido contrário. Enquanto nas décadas anteriores os realizadores faziam o percurso dos plateaux televisivos para os estúdios cinematográficos como modo de progressão artística, hoje assistimos ao fenómeno inverso: as produtoras televisivas contam com o talento comprovado dos maiores cineastas - incluindo Steven Spielberg, Martin Scorsese e Woody Allen, para nos quedarmos só nos EUA.

A televisão tornou-se mais exigente, mais criteriosa, mais adulta. E foi lá que passámos a encontrar o melhor sucedâneo do bom cinema. Em séries americanas como Os Sopranos, 24, Mad Men, Segurança Nacional, Boss, Ray Donovan, Fargo, Wayward Pines, True Detective, The Affair, Odisseia, American Crime, Olive Kitteridge. Ou nas dinamarquesas ForbrydelsenBron, Arvingerne e Borgen. Ou nas francesas Os Influentes e Um Crime, um Castigo (esta agora em reposição na RTP 2: espreitem a quarta temporada, talvez a melhor de todas). Ou nas britânicas The Honourable WomanThe Fall, esta com Gillian Anderson no melhor papel da sua carreira.

 

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The Fall

 

Serei o último a propor a definitiva troca da sala escura de cinema pela resignada mansidão do sofá. Mas confesso-me espectador assíduo e entusiasta de todas aquelas séries, já exibidas ou em exibição. E cada vez mais me rendo à escrita, às interpretações e aos enredos que irrompem da televisão. Já não apenas com o fito de nos distrair, mas com a intenção deliberada de nos fazer pensar.

E termino como comecei. A dar as boas-vindas ao maior aprendiz vivo de Maquiavel: o Presidente dos Estados Unidos da América, Francis J. Underwood – soberba criação de Kevin Spacey, que ultrapassou todos os seus memoráveis papéis no cinema, incluindo o Roger Kint d’Os Suspeitos do Costume e o Lester Burnham de Beleza Americana, que lhe valeram Óscares. Sem esquecer a bela, perversa e trágica Claire Underwood, tão bem interpretada por Robin Wright, belle toujours.

 

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House of Cards

 

Estenda-se a passadeira vermelha à quarta temporada de House of Cards. Estreia logo à noite, a partir das 23 horas, no canal TV Séries. A televisão feita cinema. Cada vez mais arrebatadora, cada vez mais perturbante. Cada vez melhor.

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Tropeçar na mesma pedra

por Pedro Correia, em 04.10.15

Alguns "analistas políticos" debitam os chavões do costume em piloto automático após terem falhado prognósticos em toda a linha. Esquecem tudo quanto dizem e, portanto, nada aprendem com os erros cometidos.

O homem é o único animal capaz de tropeçar duas vezes na mesma pedra. As televisões insistem em demonstrar-nos isso, serão após serão.

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Até o microfone treme

por Pedro Correia, em 17.09.15

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Não vi o jogo, mas conservei a música de fundo. Não era Mozart, nem a Callas, nem sequer Ella Fitzgerald

Era o que se arranjava: Luís Freitas Lobo.

Enquanto trabalhava, mantive ontem o som da partida Dínamo de Kiev-Futebol Clube do Porto, transmitida pela Sport TV: forneceu a atmosfera ideal para me me concentrar naquilo que fazia.

Freitas Lobo é muito mais do que um comentador do esférico: é um verdadeiro poeta da pantalha, artífice da metáfora, ourives do rendilhado oral.

Fala de futebol como se discorresse sobre física quântica. Ficamos a perceber o mesmo: nada. Mas não deixamos de admirar aquela catarata de palavras com o seu cunho inconfundível.

 

Aqui estão algumas das suas pérolas, que fui escrevinhando enquanto o escutava de costas para a televisão: 

«O Porto neste início de encontro define uma zona de pressão média-baixa.»

«Lopetegui não pediu largura a André André, pede-lhe que apareça por dentro a pegar na bola.»

«O jogador russo já lhe tinha ganho a frente.»

«O Porto baixou a zona de pressão.»

«Embora jogando com dois pivôs, há sempre a possibilidade de um deles bascular um pouco para fazer essa cobertura.» 

«André André procura sempre associar-se a outras linhas, juntando as pontas do meio-campo.»

«É uma transição individual, feita apenas por um jogador em posse, sem a ligação colectiva que a equipa deve ter nessa construção mais apoiada.»

«Ruben Neves tem que esticar o jogo mais rapidamente no flanco.»

«André André adapta-se a tudo isto com a sua intensidade e qualidade de interpretação dos espaços.»

 

Outros diriam: por qué no te callas? Mas eu não. Considero aliás que Lobo está para a bola como algumas divas estão para a ópera: com ele ao leme, até o microfone treme. De reconhecimento e emoção.

Só lamento que actue em transição individual, feita apenas por um jogador em posse, sem a ligação colectiva que a equipa deve ter nessa construção mais apoiada.

Signifique isto o que significar.

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Oliveira: o ruído e o silêncio

por Pedro Correia, em 04.04.15

Apreciei a atitude austera de John Malkovich no funeral de Manoel de Oliveira. Os "directos" televisivos, inimigos da contenção verbal, buscavam declarações dele sobre o cineasta, mas o consagrado actor norte-americano optou por um lacónico recolhimento - o que constitui quase sempre a melhor forma de respeitar alguém nos momentos de luto e dor. E mais ainda um realizador que trabalhava desde os dias do cinema mudo.

Vivemos infelizmente numa época nada propícia ao silêncio. E até na hora da morte irrompem as palmas que noutros tempos eram reservadas nestas ocasiões aos artistas de palco - eles sim, habituados desde sempre ao sonoro fragor dos aplausos. Desta vez não faltou sequer o ruído político, bem expresso nas insensatas declarações do secretário de Estado da Cultura ao reclamar sem demora os restos mortais do cineasta do Porto para o Panteão em Lisboa - frase típica de quem só ambiciona 15 segundos de relevo momentâneo nos telediários.

 

Mas houve também palavras inteligentes e sentidas que merecem ser valorizadas. Apontamentos de repórteres em directo - destaco o trabalho de Pedro Cruz, da SIC - informando sem estridências nem frases em excesso, relatando com sobriedade, como o bom senso e o bom gosto impõem. Houve declarações doridas e dignas, como a de Luís Miguel Cintra, lembrando que a melhor forma de homenagearmos o cineasta é ver e rever a sua obra - projectada em sala, não no televisor doméstico. Houve frases de pura emoção, como a do neto Ricardo Trêpa: «Agradeço a quem olha por nós, a essa entidade omnipotente, por me ter dado um avô como o meu avô Manuel.» Houve a oportuna ironia de João Botelho, estabelecendo a indispensável distinção entre cinema e filmes - o cinema eleva o espírito, os filmes mastigam-se como as pipocas: «Levou o cinema com ele para o céu. Porque os filmes estão hoje no inferno dos centros comerciais.»

 

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Mas o pormenor televisivo que mais me tocou nesta Sexta-Feira Santa em que Manoel de Oliveira ficou sepultado no jazigo de família no cemitério de Agramonte foi um plano que devemos ao operador de imagem da SIC apontado ao interior da viatura onde se sentava a viúva do realizador, Maria Isabel, à saída da igreja do Cristo-Rei. Plano longo e mudo, da senhora de mãos postas como em prece, prolongando para além das contingências da morte física o elo com o marido após um casamento que durava desde 1940.

Um momento extraordinário de televisão. Extraordinário também, em todos os sentidos, por não necessitar de ruído algum. A imagem dizia tudo.

E que melhor homenagem para celebrar Oliveira senão esta da sua companheira de toda a vida continuando a dialogar com ele agora que o cineasta já cá não está?

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Penso rápido (3)

por Pedro Correia, em 16.06.14

Judite Sousa, que tem Marcelo Rebelo de Sousa à sua frente e não precisa portanto de chamar por ele, fez-lhe ontem vinte e duas vénias em forma de título académico: Marcelo - profere ela, num ritual sincopado - é o "Professor". Isto acentua a aura do visado: podia ser violinista ou ourives, mas não seria a mesma coisa. Prestamos tributo às formas de tratamento com ancestral desvelo: o verniz de modernidade não resiste a dois minutos de televisão.

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Sempre mais do mesmo

por Pedro Correia, em 11.02.14

Pluralismo? Qual pluralismo? Os canais televisivos portugueses especializados em informação contínua vão-se plagiando mutuamente, concedendo cada vez mais espaço e cada vez mais tempo a um só tema. O desporto. Melhor dizendo, a uma só modalidade desportiva. O futebol. Melhor dizendo, apenas a três clubes de futebol. Benfica, Porto e Sporting.

Tudo gira em função disto. Nada sabemos do que se passa no mundo vendo estes canais. Mas sabemos tudo - mesmo tudo - do que decorre em redor de três estádios de futebol. Haja ou não haja jogo.

Não adianta mudar de canal. Porque todos mostram o mesmo. Mais do mesmo, sempre mais do mesmo, sempre mais do mesmo.

 

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Sobre o comentário político

por Pedro Correia, em 13.12.13

Há, de maneira geral, três géneros de comentários políticos na televisão.

Os que são feitos por políticos.

Os que são feitos por politólogos.

Os que são feitos por jornalistas.

 

Destes, lamento concluir, os melhores são feitos por políticos.

 

Os politólogos produzem, em regra, comentários irrelevantes. Há louváveis excepções, mas apenas confirmam a regra.

 

Os comentários mais fracos são produzidos pelos jornalistas da imprensa que têm assento quase permanente nos estúdios televisivos. Há excepções notórias também. Que não desmentem a regra.

 

Interrogo-me por que motivo as televisões não produzem, genericamente, os seus próprios comentadores. Preferem ter comentários proferidos por jornalistas da imprensa do que por jornalistas oriundos dos seus próprios quadros redactoriais. Custa-me entender o que ganham com a troca.

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Talvez a pergunta da semana

por Pedro Correia, em 03.11.13

«O professor também é daqueles que acha[m] que há uma relação potencialmente explosiva entre as pessoas da televisão e as pessoas do mundo da política?»

Judite Sousa, há pouco, em diálogo com Marcelo Rebelo de Sousa na TVI

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Notícia sem contraditório

por Pedro Correia, em 18.08.13

Hoje houve uma tourada em Viana do Castelo. Praça cheia, com mais de três mil pessoas. Alguns manifestantes - vários dos quais oriundos de outras zonas do País, como a presidente da associação Animal, que há dias decidiu chamar Mandela a um cão responsável pela morte de uma criança - protestaram contra a realização do espectáculo, devidamente autorizado pelo Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga.

Tudo normal: uns a favor, pagando bilhete para a tourada; outros contra, do lado de fora. Pormenor a assinalar: havia muito mais gente dentro da praça do que fora.

A RTP fez uma peça equilibrada no seu Telejornal, a partir das 20.25. Ouvindo, como se impunha, cidadãos a favor e contra as touradas. Durante dois minutos - tempo razoável para o assunto em causa. A SIC antecipou-se ao canal público, pondo no ar uma peça de três minutos logo às 20.03 no seu Jornal da Noite, mas ouviu também as duas partes, o que é perfeitamente normal: esta é a regra número um do jornalismo.

Para meu espanto, nada disto foi seguido pela TVI, que entendeu dar destaque máximo no Jornal das 8 precisamente à notícia da tourada em Viana. Auscultando as duas partes? Nada disso: recolhendo apenas três depoimentos dos opositores do espectáculo. Nem um só aficionado mereceu ouvir a sua versão reproduzida em antena. Com a agravante de esta ter sido a notícia de abertura do principal bloco noticioso da estação de Queluz de Baixo, que lhe dedicou cerca de dois minutos.

Jornalismo sem contraditório não é jornalismo. Lamento muito, mas isto tem de ser repetido as vezes que foram necessárias. Seja a propósito de que assunto for.

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Falar claro... ou talvez não

por Pedro Correia, em 25.07.13

«A demissão de Paulo Portas vem acabar de uma vez por todas com a possibilidade de este Governo prosseguir.»

«Pedro Passos Coelho deve demitir-se de presidente do PSD pois não tem condições de liderar o partido nas próximas legislativas [que devem ser marcadas para o dia das autárquicas].»

António Capucho, TVI 24, 2 de Julho

 

«O Governo já estava moribundo. A demissão de Paulo Portas é a estocada final. O Presidente da República deve convocar eleições para a mesma data das autárquicas.»

António Capucho, SIC Notícias, 2 de Julho

 

«O Governo já estava moribundo. Agora está ferido de morte, com a estocada final. Ou o primeiro-ministro é completamente irresponsável ou não percebe, de facto, que não tem condições para governar.»

«Passos Coelho não pode permanecer na liderança do PSD: deve demitir-se e convocar um congresso eleitoral.»

António Capucho, RTP i, 2 de Julho

 

«O Governo está neste momento muito coeso e unido, e a respirar fundo com esta nova dinâmica, porque o PSD tem no Parlamento um conjunto de deputados escolhidos a dedo por Passos Coelho e que se comportam muito bem e disciplinadamente.»

António Capucho, SIC Notícias, 24 de Julho

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salve-se quem puder

por Pedro Correia, em 22.07.13

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Análise política (parte 1)

a política portuguesa está transformada num conjunto de declarações hipócritas e carregada de promessas vãs. os deputados dão diariamente um espectáculo deplorável ao país com divergências e incompatibilidades que não conduzem a lado nenhum. o governo está morto só falta fazerem-lhe o funeral e é bom que isso aconteça rapidamente porque já não se aguenta o mau cheiro. as sucessivas trapalhadas condenaram o executivo ao fracasso ao ponto de todos sentirmos muitas saudades do santana lopes. ninguém percebe por que motivo o primeiro-ministro ainda não se demitiu. os políticos não conseguem apresentar uma solução coerente aos cidadãos. o presidente da república é um incapaz. enterrou o governo mas já se percebeu que não tem nada para dizer. ninguém percebe por que motivo o presidente da república ainda não se demitiu. ele e os outros todos só são capazes de fazer jogos florais. todos os partidos chegaram a um estado de degradação lamentável. a oposição também é péssima. a política falhou. a classe política enlouqueceu. ninguém percebe por que motivo os líderes dos partidos da oposição ainda não se demitiram. não há soluções boas nem más. agora só há soluções péssimas. o país já foi ao fundo.

salve-se quem puder.

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Análise política (parte 2)

os políticos não conseguem apresentar uma solução coerente aos cidadãos. o presidente da república é um incapaz. enterrou o governo mas já se percebeu que não tem nada para dizer. ninguém percebe por que motivo o presidente da república ainda não se demitiu. ele e os outros todos só são capazes de fazer jogos florais. todos os partidos chegaram a um estado de degradação lamentável. a oposição também é péssima. a política falhou. a classe política enlouqueceu. ninguém percebe por que motivo os líderes dos partidos da oposição ainda não se demitiram. não há soluções boas nem más. agora só há soluções péssimas. o país já foi ao fundo. a política portuguesa está transformada num conjunto de declarações hipócritas e carregada de promessas vãs. os deputados dão diariamente um espectáculo deplorável ao país com divergências e incompatibilidades que não conduzem a lado nenhum. o governo está morto só falta fazerem-lhe o funeral e é bom que isso aconteça rapidamente porque já não se aguenta o mau cheiro. ninguém percebe por que motivo o primeiro-ministro ainda não se demitiu. as sucessivas trapalhadas condenaram o executivo ao fracasso ao ponto de todos sentirmos muitas saudades do santana lopes.

salve-se quem puder.

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Análise política (parte 3)

ninguém percebe por que motivo o primeiro-ministro ainda não se demitiu. as sucessivas trapalhadas condenaram o executivo ao fracasso ao ponto de todos sentirmos muitas saudades do santana lopes. os políticos não conseguem apresentar uma solução coerente aos cidadãos. o presidente da república é um incapaz. enterrou o governo mas já se percebeu que não tem nada para dizer. ninguém percebe por que motivo o presidente da república ainda não se demitiu. ele e os outros todos só são capazes de fazer jogos florais. todos os partidos chegaram a um estado de degradação lamentável. a oposição também é péssima. a política falhou. a classe política enlouqueceu. ninguém percebe por que motivo os líderes dos partidos da oposição ainda não se demitiram. não há soluções boas nem más. agora só há soluções péssimas. o país já foi ao fundo. a política portuguesa está transformada num conjunto de declarações hipócritas e carregada de promessas vãs. os deputados dão diariamente um espectáculo deplorável ao país com divergências e incompatibilidades que não conduzem a lado nenhum. o governo está morto só falta fazerem-lhe o funeral e é bom que isso aconteça rapidamente porque já não se aguenta o mau cheiro.

salve-se quem puder.

 

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Logo à noite estarei em El Paso

por Pedro Correia, em 20.07.13

 

Há uma ponte a dividir dois mundos. De um lado, território dos Estados Unidos - estamos em El Paso, cidade aparentemente pacífica, com apenas meia dúzia de homicídios por ano. Do outro, o inferno na terra: Ciudad Juárez, já no México - a povoação mais perigosa do planeta, onde as malhas do crime ditam a lei. Em 2009, cerca de 2600 foram aqui assassinadas.

Há uma ponte. E, nessa ponte, um cadáver. Precisamente a meio da ponte. Há pontes que unem, mas esta separa. E até o cadáver, ao contrário do que se julgava, vem separado.

O assassínio da juíza cometeu-se de que lado da fronteira? Esta é uma das incógnitas que ficam a pairar desde os instantes iniciais, numa atmosfera nocturna (The Bridge, com reminiscências óbvias do film noir, é uma série inseparável da noite, ameaçadora e viscosa). Outra incógnita relaciona-se com a vida dupla do passageiro da ambulância que fura o bloqueio policial: que mistérios se ocultavam sob a sua verdadeira identidade?

É um policial, claro. Mas parece muito mais que isso: basta olharmos pela primeira vez o rosto magoado da detective Sonya Cross (Diane Kruger), que já viu demasiados corpos vitimados pela violência gratuita ao longo do seu percurso profissional. Entender-se-á ela com Marco Ruiz (Demian Bichir), o seu inesperado parceiro mexicano na investigação do crime, um homem de quem aparentemente tudo a separa?

The Bridge conquistou-me à primeira vista: raras séries o conseguem. Tornei-me espectador fiel. Mais logo, na Fox, são transmitidos, em dose dupla, o primeiro (em repetição) e o segundo episódios.

Não quero saber da crise política nem dos comentadores encartados que falham todos os prognósticos, serão após serão: logo à noite estarei em El Paso.

 

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