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Coisas realmente importantes

por Pedro Correia, em 11.10.19

«Uma mulher foi obrigada a chamar a polícia depois de ter sido atacada por uma gata. Este caso aconteceu na Amadora. Maria Almeida foi atacada na noite desta segunda-feira pela gata, chamada Clarinha, e com quem vive há mais de seis anos. Segundo a vítima, foi há um mês que o animal mudou de comportamento.»

Notícia da CMTV, hoje, às 7.20

Fora da caixa (13)

por Pedro Correia, em 21.09.19

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«Tenho um gosto especial por resolver problemas.»

António Costa, em entrevista à RTP 3 (exibida a 18 de Setembro) 

 

A RTP 3 inaugurou uma série com perguntas "fora da caixa" aos dirigentes dos seis partidos com representação parlamentar. Um formato interessante, que nos permite olhar para estes políticos fora do enquadramento pré-formatado em que quase sempre surgem nas televisões.

Dois políticos nascidos em Lisboa (António Costa e André Silva), outros dois naturais do Porto (Rui Rio e Catarina Martins), um vindo ao mundo em Pirescoxe-Santa Iria da Azóia (Jerónimo de Sousa) e uma fora do continente europeu (Assunção Cristas, que teve berço em Luanda). O mais velho, com 72 anos, é o secretário-geral do PCP. O mais jovem, com 43 anos, é André Silva, porta-voz do PAN.

Todas estas entrevistas conduzidas pela jornalista Cândida Pinto e registadas ainda em Agosto ou no início de Setembro, decorrem em cenários naturais, escolhidos pelo entrevistados. Louvor à opção de Jerónimo de Sousa, junto ao castelo da sua aldeia natal, que ficou muito bem na fotografia, e sobretudo à escolha de António Costa, que se fez filmar na praia fluvial da Peneda, concelho de Góis, onde apetece dar uns mergulhos só de a ver na televisão.

A sessão inaugural, exibida inicialmente na quarta-feira e repetida ontem, recolheu respostas às perguntas que passo a enumerar.

Por que razão procurou uma carreira política e o que o fez querer liderar um partido? É fácil ou difícil fazê-lo mudar de ideias? Qual foi a pessoa que teve mais impacto na sua vida? Qual foi a melhor refeição da sua vida? Dá ou não dá esmola? Quais são as suas maiores preocupações em relação ao futuro dos seus filhos e dos seus netos? O que tem mais medo de perder, para além da família?

 

Confesso: as respostas que mais me interessaram foram as da refeição inesquecível. Respostas que nos dizem muito sobre eles.

António Costa: «Recordo sempre muito uma que tive na Jordânia, a seguir ao funeral do rei Hassan II. O nosso cônsul honorário convidou-me para um jantar de experiência de comida árabe, que foi para mim a primeira vez.»

Rui Rio: «Quando eu fazia anos, a minha mãe cozinhava sempre aquilo de que eu mais gostava, uns escalopes au riz, e fazia uma tarte de limão para sobremesa.»

Catarina Martins: «Uma vez atravessei os Estados Unidos de carro. Lembro-me de tomar o pequeno-almoço a ver nascer o sol, no meio do deserto, e o pequeno-almoço era o da máquina do hotel: um capuccino e um donut

Assunção Cristas: «Em São Tomé, na roça de São João dos Angulares. Já não sei o que comi, mas estava tudo tão bom...»

Jerónimo de Sousa: «Não sou capaz de me fixar numa. Vai-se ao Norte e prova-se uma carne única no mundo, vai-se a Setúbal e prova-se um peixe magnífico, vai-se ao Alentejo e vê-se a criatividade a partir de quase nada. Em todos os sítios é possível comer bem - incluindo em Lisboa.»

André Silva: «Gosto muito de comer frugal. Uma das coisas que mais prazer me dão é comer feijão maduro cozido com um fio de azeite.»

 

O prémio para a resposta de cartilha pronta-a-servir cabe a António Costa, ao responder sobre a maior preocupação sobre o futuro dos descendentes: «Tem a ver com a espécie humana. Tem a ver com as alterações climáticas.»

O prémio para a fidelidade partidária só pode ser para Jerónimo de Sousa, na resposta à pergunta sobre a pessoa que mais lhe marcou a vida: «Incontornavelmente, a figura de Álvaro Cunhal.»

O prémio para a sinceridade socialmente incorrecta é ganho por Rui Rio: «Eu sou contra dar a esmola na rua porque isso amarra a pessoa à rua. Se eu notar que o dinheiro é para vinho ou para droga, não dou.»

O prémio para a coerência com as ideias que defende cabe por inteiro a André Silva. A dado momento, uma mosca pousa-lhe na cara: o líder do PAN não tentou matá-la nem sequer enxotá-la. Ela, persistente e confiante, lá ficou.

Há vida para além da bola

por Pedro Correia, em 17.09.19

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Debate Costa-Rio foi ontem acompanhado por 2,7 milhões de telespectadores. Demonstração clara de que as pessoas se interessam por política. E só não acompanham mais porque os canais de televisão pouco mais têm para oferecer do que telenovelas e futebol. Aliás, à hora do debate, um dos putativos canais de "notícias" dava destaque... à bola.

 

Foram estes os outros debates com maior audiência:

Costa-Sousa (SIC) - 1,1 milhões de espectadores

Costa-Silva (SIC) - 1,065 milhões de espectadores

Costa-Cristas (TVI) - 935 mil espectadores

 

Costa lidera, portanto - não só nas sondagens, mas também nos debates.

O menos visto? Martins-Silva, na SIC Notícias, apenas com 68.100 espectadores.

Sem palavras

por Pedro Correia, em 28.08.19

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SIC Notícias, hoje, às 15.15

O novo ópio do povo

por Pedro Correia, em 28.08.19

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A TVI, no seu canal informativo, prometia ontem conceder destaque a Assunção Cristas, entrevistada por um jornalista da casa e alguns especialistas em diversas áreas incluídos entre os participantes nesta emissão, transmitida em directo. Sob o título genérico «Tenho uma pergunta para si» (o abuso do redundante pronome "si", que me soa sempre a nota de música, reflecte o empobrecimento da nossa linguagem comunicacional).

Tentei fixar a atenção nesta entrevista, mas desisti a meio. Porque me pareceu desde o início que se destinava apenas a despachar agenda e aliviar um fardo. Decorria tudo num tom tão impaciente, como se houvesse urgência máxima em retirar a presidente do CDS do ar, que obrigou uns e outros a falar em ritmo anormalmente acelerado.

Assunção, pressionada pelo ponteiro dos segundos, parecia uma picareta falante, para usar a expressão que Vasco Pulido Valente colou noutros tempos a António Guterres. Os interrogadores de turno, quando demoravam um pouco mais a formular a pergunta, eram de imediato interrompidos pelo profissional da casa. O próprio Pedro Pinto, ao comando desta emissão tão frenética, parecia mais confinado à função de cronometrista do que de jornalista.

E afinal tanta pressa para quê? Para que o mesmo canal informativo da TVI desse lugar a três cavalheiros de calças de ganga a discorrer tranquilamente sobre os mais recentes rumores do chamado "mercado de transferências" da bola. Preopinavam em modo pausado, de perna traçada, como se estivessem no café e tivessem todo o tempo do mundo para perorarem sobre coisa nenhuma.

Foi a minha vez de recorrer ao cronómetro: cavaquearam das 22.36 às 23.57. Um dos membros deste trio já estivera em antena durante a tarde, entre as 17.58 e as 18.48, tagarelando sobre o mesmíssimo assunto.

Estranho critério jornalístico, estranho critério informativo - cada vez mais monotemático. Como se nada mais houvesse de relevante do que as tricas do futebol.

Alguém aí falou em ópio do povo? Se o fez, acertou em cheio.

Jornalismo sem notícia

por Pedro Correia, em 18.08.19

 

Já havia os directos de horas intermináveis sobre autocarros a caminho dos estádios.

Agora regista-se uma inovação nos noticiários televisivos: directos, dia após dia, sobre estações de abastecimento de combustível onde não se vê ninguém, excepto a desgraçada da jornalista (são quase sempre mulheres) a preencher tempo de antena sem novidade alguma: «Aqui regista-se perfeita normalidade»; «Todos os postos que visitámos tinham muito poucas viaturas»; «A tarde tem estado muito tranquila»; «Não há filas em lugar nenhum»; «Encontrámos muitos postos vazios não por falta de combustível mas por falta de clientes.»

Um imenso bocejo. Em perfeito contraste com o alarmismo dos ministros que andaram uma semana inteira a entrar-nos em casa a falar como se o País estivesse em estado de sítio e fosse necessário mobilizar as tropas especiais para travar uma agressão de um país estrangeiro ou uma invasão de marcianos.

Com momentos que me fizeram lembrar a guerra do Solnado. Deixo-a ali mais em cima para quem não sabe ou já não se lembra.

Notícias sobre coisa nenhuma

por Pedro Correia, em 11.08.19

Terceiro dia consecutivo a ver "directos" atrás de "directos" nos telediários cá do terrunho, com repórteres perorando sobre coisa nenhuma junto a postos de abastecimento de combustível literalmente às moscas. Enchendo chouriços, como se diz na gíria jornalística.

Esta manhã ouvi duas repórteres dizendo que lá onde estão «há hoje até menos gente do que é habitual». Azar para quem previa grande movimentação: as tão ansiadas corridas às gasolineiras não aconteceram.

Alguns pivôs televisivos - com ordenados superiores a um ministro - querem criar um clima de alarmismo nacional responsabilizando os motoristas de matérias perigosas,  em greve para conseguirem melhorar o miserável salário-base de 630 euros, que na melhor das hipóteses subirá apenas para 700 euros a partir de Janeiro de 2020. Mas - lamento muito - não estão a conseguir. E talvez ainda sejam forçados a pagar direitos autorais ao aposentado Artur Albarran, celebrizado pela trilogia «O drama, a tragédia, o horror».

Podem, no entanto, continuar a tentar. Assim, ao menos, acabam por encher o depósito noticioso. De chouriços.

Um assunto de porteiras

por Pedro Correia, em 16.07.19

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A reprodução descarada e obsessiva da lógica das redes sociais pelos órgãos de informação está a contribuir para o descrédito acentuado do jornalismo que vai restando.

Há dezenas de jornalistas, em quase todas as redacções, que nada mais fazem durante dias inteiros senão escrutinar o que se cochicha e bichana nas redes, acabando por dissociar-se por completo do mundo concreto e do país real. Nas suas prédicas em papel ou no digital, recorrem aos temas e à semântica que pupulam nessas «vias alternativas à informação», como há já quem lhes chame no meio jornalístico, disparando assim contra o próprio pé.

 

Reparem no que acontece naquilo a que ainda é costume chamar «canais de notícias» na televisão. Num curioso fenómeno de mimetismo, generalizou-se o modelo CMTV, absorvido inicialmente pela TVI 24 e agora já vampirizado também pela SIC Notícias: fecham três ou quatro mecos num estúdio durante horas a discutir coisa nenhuma sobre a bola que agora nem rola nos relvados e assim supõem cumprir a missão jornalística.

Mas não cumprem: essas tertúlias de bitaiteiros são meras correntes transmissoras de boatos e rumores. Basta comparar as imagens que reproduzo acima: foram propaladas com escassas horas de intervalo no mesmo canal - a primeira às 18.17, a segunda às 22.32. Sujeitas a esta lógica editorial mais que duvidosa: primeiro imprime-se a lenda, depois (se não chover) imprime-se o facto. Assim duplica-se a audiência (o que não parece ser o caso, longe disso, no canal em causa, a avaliar pelos mais recentes números tornados públicos).

 

Isto já se pratica hoje sem sofisticação nenhuma, como é patente no exemplo que deixo aqui em baixo. Talvez farto de publicar notícias, essa coisa anacrónica e maçadora, um jornal de difusão nacional acaba de instituir uma secção intitulada "Negócios e Rumores". Como se fosse um assunto de porteiras em vez de jornalistas, sem desprimor para as porteiras.

Assim ao menos não ilude ninguém: o leitor, à partida, já sabe que irá mesmo ser enganado. 

 

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A história da carochinha

por Pedro Correia, em 08.07.19

Lembram-se do Syriza que ia «libertar a Europa da austeridade» a partir do seu posto de comando instalado em Atenas?

Esta exemplar história da carochinha andou-nos a ser contada em dezenas de reportagens, centenas de artigos de opinião e milhares de proclamações avulsas de "figuras públicas" portuguesas que apontavam um fogoso mancebo de apelido Tsipras como o desengravatado reverso do sinistro Passos Coelhou. Meses a fio andaram elas, eufóricas, a bailar o fandango do "verdadeiro socialismo" livre de amarras austeritárias.

Sucediam-se na imprensa caricaturas "heróicas" como a que reproduzo aqui por baixo.

 

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Manuela Ferreira Leite e José Manuel Pureza irmanavam-se no louvor à «devolução da dignidade» do povo grego. «Pela Grécia passa a salvação da Europa», garantia Ana Gomes, insuflada de júbilo. «O Governo grego conseguiu dobrar a Alemanha», entusiasmou-se Diogo Freitas do Amaral. «A Alemanha teve de ceder», sorria Nicolau Santos. «A Grécia teve a coragem de resistir às pressões das potências europeias», celebrou André Freire. «Hoje vira-se uma página na Europa. Hoje começa-se a colocar a austeridade no caixote do lixo», proclamou a eufórica Catarina Martins.

«Viva a Grécia!», gritou a escritora  Hélia Correia ao receber o Prémio Camões. Enquanto o pintor Leonel Moura constatava que «uma parte do sucesso do Syriza deve-se à boa imagem de Tsipras» e do seu ministro das Finanças, por quem «muitas mulheres da Europa» andariam «perdidas de amores». Isabel Moreira, bem ao seu jeito, corroborava.

Boaventura de Sousa Santos, confirmando que de Coimbra também se observa o mundo, vislumbrou ali rasgos de odisseia homérica: «A vitória do Syriza teve o sabor de uma segunda libertação da Europa.»

 

O que aconteceu no rescaldo desta histeria colectiva? Um elementar, expectável e gelado banho de realidade. Somado a uma imensa desonestidade política - à dimensão da península helénica. O moço "socialista revolucionário" chegou ao poder nas legislativas de Janeiro de 2015, convocou de imediato um plebiscito que o mandatou para pôr fim às normas orçamentais impostas pelos credores de Bruxelas e, munido dessa duplo mandato popular, fez o contrário do prometido. Vergou-se à disciplina orçamental e fez mergulhar a Grécia em quatro anos de duríssima contenção financeira, rasgando todas as promessas eleitorais. Coerente apenas na indumentária: resistiu estoicamente a usar gravata.

Ontem, foi inapelavelmente derrotado nas urnas. O partido Nova Democracia venceu de forma concludente as legislativas gregas. «A primeira maioria absoluta de um partido grego desde 2009», como correctamente assinala El País. Para a qual contribuíram milhares de jovens eleitores, com mais de 17 anos, que puderam votar pela primeira vez.

 

Onde andam, agora que se apagou a luz do "farol" revolucionário, todos aqueles que em 2015 propagaram por cá as tretas de apologia e louvor ao Syriza?

Onde foram parar aqueles "enviados especiais" que testemunharam em directo, nas ruas gregas, o «imenso júbilo» da população em intermináveis hossanas ao messias revolucionário?

Folheio a imprensa, espreito os telediários: quase como se nada tivesse acontecido. Nem parece que houve eleições na Grécia, muita gente por cá nem se terá apercebido que Tsipras foi varrido do poder. Nem aberturas de serviços noticiosos, nem repórteres deslocados a Atenas.

Nada de manchetes jubilatórias. Nem vestígios de reedição daquele título garrafal do Jornal de Notícias, em 26 de Janeiro de 2015: «Grécia - o princípio do fim da austeridade». Nem o equivalente, sequer aproximado, das palavras impressas a toda a largura da capa do Público, no mesmo dia: «Grécia vira a página da austeridade e deixa Europa a fazer contas». O contraste com a capa de hoje, onde mal se detecta uma notícia envergonhada em rodapé, não podia ser maior.

 

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26 de Janeiro de 2015

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Hoje

 

No Jornal da Noite de ontem a SIC despachou o tema num apressado minuto, ia decorrida meia hora de noticiário: na peça, o partido vencedor recebe o rótulo correspondente à "direita conservadora", enquanto o derrotado nunca é identificado em termos políticos ou ideológicos. Nem há qualquer alusão aos factores económicos e sociais que explicam o fracasso eleitoral do Syriza.

No Jornal das 8, da TVI, a notícia surgiu mais cedo, às 20.17, e durou três minutos: não houve reportagem no local, mas o primeiro-ministro derrotado foi correctamente inserido entre os representantes da "esquerda radical" e é expressamente mencionada a existência de 18,5% de desempregados na Grécia - a mais elevada taxa entre os países da zona euro.

No Telejornal da RTP, houve que esperar pelas 21.08. Mas só aqui surgiu a frase essencial de leitura política deste escrutínio: «A esquerda dá lugar à direita». Por ironia, na apresentação deste serviço noticioso estava José Rodrigues dos Santos, que foi crivado de críticas em 2015, quando acompanhou as eleições gregas como repórter em Atenas.

Entre aqueles que então o criticaram, aposto que hoje não sobra um que ainda teça louvores à defunta "esquerda radical" corporizada por Tsipras, apenas exemplar pela negativa. Na Grécia, sepultados os "amanhãs que cantam", a história da carochinha chegou ao fim.

Europeias (24)

por Pedro Correia, em 28.05.19

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SANTA HIPOCRISIA

 

Nas últimas 24 horas, ouvi lamúrias de diversos bonzos do comentário político nas pantalhas. O que lamuriam eles? Que os portugueses andem tão desinformados e tão alheados das magnas questões europeias. 

O curioso é que este caudal lamuriento ocorre nos mesmos canais televisivos que passam dias e noites a transmitir intermináveis debates sobre bola. E mais bola. E sempre mais bola. Os tais bonzos, coitados, nem reparam.

As flores de estufa

por Pedro Correia, em 09.04.19

«Frio em Abril... Neve na Primavera...»

Às vezes questiono-me em que país - e em que planeta - vivem estes editores e difusores de informação, que nos telediários lisboetas apregoam como flores de estufa as frases que citei acima, todas proferidas em tom dramático.

Como se fossem notícia. Neste mês de Abril ou no de outro ano qualquer.

A culpa foi do Bill Clinton

por Pedro Correia, em 06.02.19

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Alan Arkin e Michael Douglas em O Método Kominsky

 

É o regresso em grande estilo de Michael Douglas à televisão – o meio que o tornou célebre junto do grande público, na década de 70, com uma série de âmbito policial que deixou rasto: As Ruas de São Francisco, contracenando com o grande Karl Malden, intérprete de Um Eléctrico Chamado Desejo no palco e na tela.

O filho de Kirk Douglas – lenda viva do cinema, com 102 anos – surge agora como produtor executivo e principal intéprete da novidade mais original desta temporada televisiva: O Método Kominsky, mini-série de oito episódios, cada qual com cerca de meia hora de duração, em exibição exclusiva para os assinantes da Netflix.

Aqui não há perseguições de automóveis, cenas de tiros ou piadas escatológicas: estamos precisamente na margem oposta à que conduz ao consumo de pipocas em larga escala. O Método Kominsky vive de inteligentes e subtis modulações de texto em torno da velhice e da decadência física a ela associada, numa linha de fronteira ténue entre o drama e a comédia sem nunca excluir a ironia – incluindo a depreciação auto-irónica do protagonista, que alude a todo o momento aos achaques da idade.

 

Douglas (74 anos) e o veteraníssimo Alan Arkin (84 anos), galardoado com um Óscar em 2007 pelo seu desempenho na irresistível comédia Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos, compõem um fabuloso par de resistentes à nova vaga das produções em série de Hollywood, bem espelhada na letra e no espírito da série. O primeiro, Sandy Kominsky, já foi actor renomado, agora ganha a vida como professor de teatro; o segundo, Norman Newlander, é um produtor à moda antiga, inadaptado às tendências actuais – incluindo a febre tecnológica. São os melhores amigos um do outro, embora com feitios e hábitos muito diferentes e a convicção de que os melhores tempos da arte de representar nos EUA e da própria sociedade norte-americana já ficaram há muito para trás.

«A culpa é do Bill Clinton. Quando o sexo oral deixou de ser sexo, a nossa civilização acabou», conclui um deles. O outro concorda.

 

Estreada em Novembro e polvilhada de divertidas aparições de vedetas convidadas (Jay Leno, Patti LaBelle, Danny de Vito, Ann-Margret, Elliott Gould), esta série concebida pelo conceituado produtor e argumentista Chuck Lorre vive sobretudo de excelentes diálogos. Segue um exemplo.

Norman, viúvo recente, conversa ao telefone com o amigo.

«- Já está. Almocei com outra mulher.

- Seu sacana! De que falaram?

- Do costume. Mulheres mortas, maridos mortos, amigos mortos. Foi muito agradável.»

Fala-se de coisas frívolas com ar sério, fala-se de coisas sérias com um sorriso nostálgico naqueles rostos que já viram quase tudo. Mas a vontade de passar o testemunho às gerações mais jovens não se extinguiu. Como ensina o professor Kominsky nas suas aulas, «devem sempre prestar atenção ao que se passa na vossa vida para viverem os sentimentos que surgirem, por mais dolorosos que sejam, pois esse desgosto, essa dor impiedosa, é matéria em bruto, é o ouro que o actor explora para criar os melhores desempenhos.»

A representação é uma extensão da vida – em qualquer idade. Não é segredo para Michael Douglas: seria difícil dizer melhor.

 

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O Método Kominsky, primeira temporada (2018). Com Michael Douglas, Alan Arkin, Nancy Travis, Sarah Baker. Na Netflix.

Cada temporada tem oito episódios.

Sem catecismos nem sermões

por Pedro Correia, em 28.01.19

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O título desta série da NBC é um achado: This is Us. Porque associa o pronome colectivo à sigla que costuma definir os Estados Unidos. Pondo em foco, numa família de classe média, o complexo mosaico social da América contemporânea - que não cabe em etiquetas nem estribilhos. Sem clichês, sem caricatura, com personagens que retratam gente de carne e osso. Gente que, à sua escala, incorporou o "sonho americano" e acredita numa sociedade em que o mérito e o esforço valem mais do que o berço ou o estigma.

É difícil catalogar This is Us: tem condimentos de tragédia e de comédia e de melodrama, tudo em doses moderadas, para não desvirtuar o efeito de verosimilhança pretendido. A acção inicia-se em 1980, numa maternidade de Pittsburgh, na Pensilvânia, quando nascem três bebés prematuros ao casal Rebecca e Jack Pearson. Um dos gémeos não sobrevive, levando Jack a adoptar outro recém-nascido, sem pais identificados, deixado à porta de um quartel de bombeiros. Esta criança tem a pele mais escura do que os seus filhos de sangue, o que não o dissuade de dar tal passo.

Os Pearson – que vamos conhecendo em registos cronológicos alternados, anteriores e posteriores à trágica morte de Jack - formam um clã familiar atípico, imune ao veneno do racismo no país que em 2016 elegeu Donald Trump como sucessor de Barack Obama na Casa Branca. De algum modo é também de política que nos fala esta série, que pelo segundo ano consecutivo acaba de receber o prémio para melhor elenco distribuído pelo Sindicato dos Actores de Hollywood.

Sem catecismos nem sermões - o que contribui para o seu peculiar fascínio.

 

This is Us, terceira temporada – iniciada em Outubro. Com Milo Ventimiglia, Mandy Moore, Sterling K. Brown, Chrissy Metz, Justin Hartley. No canal Fox Life. Cada temporada tem 18 episódios.

O programa preferido do António

por Pedro Correia, em 25.01.19

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«A ameaça do fim da Quadratura do Círculo é uma ameaça à qualidade da nossa vida democrática.»

António Costa, criticando uma decisão do irmão Ricardo, director de informação da SIC, que agora pôs fim ao programa, iniciado há 15 anos na SIC Notícias

Crime e castigo

por Pedro Correia, em 21.01.19

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Temos desde o início a sensação de que ele prefere não estar lá, naquele cenário de luxuosa degradação humana em que se movimenta para solucionar casos difíceis envolvendo ricos e famosos, espécie de detective às avessas, conhecedor dos meandros do crime nas suas mil facetas e do castigo que lhe vem associado.

Temos desde o início a sensação de que ele preferia ter permanecido na Boston natal, católica e conservadora, homem de família que é, apesar de tudo. Mas as circunstâncias encaminharam-no para a pista errada: o padre molestador que o afastou da fé, o pai transviado que o fez descrente nos laços humanos, a podridão dos poderosos na sua duplicidade moral, que o tornou irremediavelmente convicto de que toda a bondade é sinónimo de fraqueza, emergindo como o maior dos pecados.

Esta foi uma excelente notícia da temporada televisiva em curso: Ray Donovan prossegue a sua saga iniciada em 2013 - cada vez menos solar, já distante da Califórnia, onde decorreram os capítulos iniciais da série, agora desenrolada em Nova Iorque, quase sempre em cenários reais, numa toada nocturna, lunar, onde toda a esperança parece perdida. A mulher morreu, os filhos (Bridget e Conor) entraram na idade adulta, ele sonha com uma vida onde o crime não tenha lugar. Mas pressentimos que é um combate condenado ao fracasso. Ele e os irmãos, Terry e Bunchy, parecem tocados por uma estrela funesta que os faz caminhar por pontes cada vez mais estreitas entre as margens da vida.

Eis-nos perante uma das melhores séries norte-americanas desta década, criada pela escritora e guionista Ann Biderman para o canal por cabo Showtime. Uma série amarga e tensa e desencantada, servida por um notável elenco onde se distingue o veterano Jon Voight (já premiado com um Globo de Ouro pelo seu extraordinário desempenho no papel de Mickey Donovan, o patriarca da família) e por diálogos que nos reforçam a convicção de que o melhor cinema, nos tempos que correm, se transferiu para os ecrãs televisivos. Ao ritmo de 50 minutos por episódio.

 

Ray Donovan, sexta temporada – iniciada em Outubro. Com Liev Schreiber, Jon Voight, Susan Sarandon, Dash Minok, Eddie Marsan. Na TV Séries. Os 60 episódios das temporadas anteriores estão disponíveis na Netflix.

Jornalismo "agit-prop"

por Pedro Correia, em 02.12.18

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Ontem, como de costume, em quase todos os canais "informativos" portugueses só havia bola. Com "notícias" como esta: «Benfica supera a crise goleando o Feirense.»

Deslizei para os raros recantos onde ainda não chegara o futebol - que entre nós é considerado sinónimo de desporto, vá lá entender-se por quê.

Num desses poisos alternativos, logo na frase de abertura, evocava-se o agora falecido presidente norte-americano George Herbert Walker Bush dizendo logo na frase de abertura que tinha "liderado durante oito anos" o poder em Washington: bastaria uma rápida consulta à Wikipédia para perceber que Bush pai esteve apenas quatro anos na Casa Branca, entre 1989 e 1993.

Mas este "jornalismo" que nos entra em casa não peca apenas pela falta de memória: peca também por excesso de activismo político. Noutro canal, a propósito dos distúrbios em Paris, provocados por extremistas de vários matizes, Fulano aludia à Revolução Francesa, Beltrano invocava o espírito da "revolução de 1848" e Sicrano dava por praticamente consumada a demissão de Emmanuel Macron, por pressão "do povo que se revolta nas ruas". Todos contactados por telefone, todos arengando contra a democracia representativa, todos fazendo tábua rasa da genuína vontade popular expressa no voto. Agit-prop em directo e ao vivo.

Voltei a zapar, de comando na mão. Despedindo-me dos cúmplices morais da anarquia parisiense, regressei ao reino da bola. Mal por mal, antes a crise do Benfica, "superada" pela vitória caseira contra o Feirense.

A guerra que Thatcher "inventou"

por Pedro Correia, em 29.03.18

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Estamos sempre a aprender. Acabo de escutar um historiador, em tom categórico e professoral, proclamar em horário nobre da televisão: "A senhora Thatcher, quando estava a braços com uma crise de agitação social na Inglaterra, inventou uma guerra, a guerra das Malvinas."

Extraordinário doutor Fernando Rosas: folheando sabe-se lá quantos canhenhos empoeirados, só ele conseguiu descobrir que foi afinal a primeira-ministra Margaret Thatcher quem ordenou aos odiosos déspotas do regime militar de Buenos Aires - apoiados pelo ditador cubano Fidel Castro - para  invadirem o arquipélago das Malvinas no dia das mentiras de 1982.

A maquiavélica senhora precisava dessa invasão para "inventar uma guerra" que só poderia culminar com a vitória britânica, emulando o triunfo da Royal Navy sobre Bonaparte em Trafalgar, enquanto as massas ignaras entoavam o God Save the Queen.

Fiquei esmagado com tão eloquente demonstração de sapiência do reputado académico. E aqui venho inclinar-me em respeitosa vénia à sua luminosa e profícua erudição.

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Confesso: é penoso assistir a “noites eleitorais” dominadas por tudólogos que nada percebem sobre coisa nenhuma mas são capazes de perorar horas a fio sobre não importa o quê. Voltou a acontecer nesta longa emissão televisiva em que se sucediam as mais assombrosas declarações de ignorância sobre a vida real dos Estados Unidos proferidas por gente que observa o mundo pelo buraco da fechadura do eixo Chiado-Príncipe Real.

Com honrosas excepções (das quais destaco Miguel Monjardino e Nuno Rogeiro), nesta longa noite americana, que foi a do naufrágio eleitoral do Partido Democrata, assistimos ao triunfo da ignorância, incapaz de perceber as causas políticas e sociológicas da vitória de Donald Trump e do esmagador domínio do Partido Republicano – que venceu as eleições para a Casa Branca, para o Senado, para a Câmara dos Representantes, para a maioria dos parlamentos estaduais e para a maioria dos governadores que foram a votos.

Sucediam-se banalidades na pantalha. “Os Estados Unidos são um país muito grande”, balbuciava Fulano, preenchendo tempo de antena antes da contagem dos votos. “Normalmente as sondagens nos EUA não falham”, alvitrava Beltrano enquanto os boletins eram contabilizados. “O partido que neste momento tem mais problemas é o Republicano", asseverava Magano, recém-aterrado de Marte. "Ninguém estava à espera que uma coisa destas acontecesse”, escandalizava-se Sicrano após o apuramento dos resultados, passando um atestado de incompetência a si próprio.

Para cúmulo, foram buscar um "especialista em sondagens” que, incapaz de acertar na maioria das pesquisas de opinião que tem feito em Portugal, surgiu nos ecrãs como putativo connaisseur da sociologia eleitoral norte-americana. Tinha o currículo adequado para falhar. E falhou mesmo: pouco depois da meia-noite apresentava ao País um mapa com os Estados do  Michigan, da  Pensilvânia e do  Wisconsin pintados de azul – a cor do Partido Democrata. Infelizmente para ele, a realidade encarregou-se de o desmentir.

Nada a que não esteja habituado.

Do mal o menos: sobre a Virgínia esta sumidade não se pronunciou. “Só conhecendo a Virgínia bem, que eu sinceramente não conheço”, justificou-se. Como se conhecesse algum dos outros 49 Estados norte-americanos.

Hillary Clinton, claro, foi a grande derrotada da noite eleitoral. Mas não está só: tem a companhia destes tudólogos. São em número cada vez maior: mal cabem na bolha do Chiado onde se imaginam a recriar o mundo.

Inculta e infantil

por Pedro Correia, em 13.10.16

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Câmara Municipal de Montreal: "hotel de cidade", como lhe chama a RTP

 

O canal 2 da RTP autodefine-se, desde há uns tempos, como uma alternativa "culta e adulta" aos raros telespectadores que a frequentam. Não faço a menor ideia de onde partiu este slogan, mas quem o concebeu acertou ao lado: não conheço ninguém verdadeiramente culto que proclame ter tal qualidade e, como é sabido, só os adolescentes insistem em considerar-se adultos.

Faria bem melhor a RTP 2 em não se presumir tão culta. Para não tornar demasiado evidentes os atentados de lesa-cultura que vai cometendo. Ainda há dias abri a boca de espanto com um deles, durante a exibição de um documentário francês de promoção turística sobre o Quebeque, inserido numa série denominada (vá-se lá saber porquê) Flavors.

O referido programa mostrava edifícios históricos da cidade de Montreal. Às tantas ouvimos a seguinte frase, proferida na locução portuguesa: "A arquitectura do seu hotel de cidade reflecte todas as influências da sua história movimentada."

Câmara municipal ou prefeitura - hôtel de ville, em francês - foi assim traduzida à letra pela absurda expressão "hotel de cidade" por quem ignora os rudimentos da língua francesa. Só podia dar asneira.

Procurei a ficha técnica portuguesa, na expectativa de ver quem assinava a tradução e a locução deste documentário. Em vão: a coisa é anónima. Não pode haver maior incentivo para a asneira.

Nada culto, portanto. E nada adulto num canal de televisão capaz de cometer erros tão infantis. Com o dinheiro de todos nós.

A marcha da desinformação na TV

por Pedro Correia, em 27.06.16

Ontem à noite todos os telediários portugueses - mesmo com correspondentes e enviados a Madrid - caíram na esparrela das sondagens, que em Espanha falham por sistema. Confundindo projecções com números reais, sem um sobressalto de dúvida, foram desinformando os portugueses sobre o resultado da eleição para o novo Parlamento espanhol.

Foi preciso que um par de comentadores, sem carteira de jornalista, repusesse a verdade dos factos. O que, reconheçamos, não abona nada a favor dos profissionais da informação.

Eis o filme dos acontecimentos:

 

RTP, 19.02: «Deu-se o sorpasso, essa expressão italiana que dominou esta campanha. Esta coligação de Pablo Iglesias, unido aos comunistas, consegue ultrapassar o Partido Socialista.»

RTP, 19.03: «O PP de Mariano Rajoy desce pelo menos dois lugares no Congresso em termos de deputados. Este é um terramoto político. É um abalo sem precedentes em Espanha.»

TVI, 19.57: «A principal mudança no sufrágio de hoje foi a passagem do Podemos para segundo lugar, ultrapassando o PSOE.»

SIC, 19.59: «O Unidos Podemos acaba por ser o grande vencedor da noite e é nesta coligação que pode estar a chave para o futuro governo espanhol.»

TVI, 21.02: «O Podemos deve ultrapassar o PSOE como segunda força política. Em termos de deputados, há a possibilidade de uma maioria de esquerda.»

SIC, 21.13: «A grande surpresa aqui é o segundo lugar do Unidos Podemos.»

 

Este, repito, foi o discurso jornalístico. Que se prolongou por mais de duas horas nas pantalhas lusas.

Felizmente havia comentadores - um em estúdio, outro em Madrid - a recomendar moderação, mais atentos aos factos do que à espuma.

O primeiro foi Paulo Portas, recém-contratado como comentador de temas internacionais da TVI. Eram 21.03 quando ele alertou, falando em directo da capital espanhola: «O resultado dos votos contados aponta para um sentido completamente diferente das sondagens.»

Dez minutos mais tarde, na SIC, Luís Marques Mendes também deitava água na fervura: «Aquilo que foram as sondagens à boca das urnas não está a confirmar-se na contagem dos votos.»

Tinham ambos razão. Os jornalistas é que andavam distraídos: foram os últimos a saber.


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