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Delito de Opinião

Antigamente é que tudo isto era bom? Olhem que não, olhem que não

Pedro Correia, 10.01.26

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A RTP exibiu há poucos dias, no seu canal de notícias, o documentário A Duas Voltas, que recorda a mais emocionante campanha eleitoral da democracia portuguesa, ocorrida faz agora 40 anos.

Recorrendo ao valioso espólio documental da televisão pública, esta instrutiva série em cinco episódios devia ser exibida nas escolas secundárias. Por recordar um período de extrema polarização política, quando o regime já tinha dez anos e o País permanecia na cauda de vários indicadores económicos, apesar de termos ingressado pouco antes na Comunidade Económica Europeia. A inflação rondava os 20%, havia meio milhão de desempregados, a chaga dos salários em atraso instalara-se em muitas empresas.

Foi a primeira vez - e única, até agora - em que uma eleição presidencial se decidiu a duas voltas - disputadas a 26 de Janeiro e a 16 de Fevereiro de 1986. Na ronda inicial, venceu Freitas do Amaral com larga vantagem: 46,3%, muito acima de Mário Soares, que recolheu 25,4% dos boletins. Na ronda decisiva, as posições inverteram-se: Soares derrotou Freitas, com 51,2% contra 48,8%. Triunfo à tangente: menos de 140 mil votos de diferença num universo de quase 6 milhões de eleitores.

Para trás ficaram outros aspirantes a Belém: o ex-número 2 do PS, Francisco Salgado Zenha, teve 20,9%, e a antiga primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo ficou com 7,4%. 

 

Este documentário - que recomendo sem reservas - é muito interessante pela abundância de pormenores que fornece e pela ampla gama de depoimentos que recolhe, mas também por nos traçar um expressivo retrato do que era o Portugal político de 1986.

Eu vivi esse período histórico já como jornalista profissional e confirmo: o país aqui descrito estava muito longe do cenário idílico que alguns comentadores tocados pela nostalgia nos querem descrever hoje, sob o princípio "no meu tempo é que era bom". Insistindo na tese de que se registou séria degenerescência na democracia portuguesa ao longo destas quatro décadas. Excelente então, péssima agora.

Não é verdade. Basta recordar em traços largos o que sucedeu em 1985-1986. Pintasilgo atraiçoada por Ramalho Eanes, inquillino do Palácio de Belém que a incentivou a avançar na batalha da sucessão e depois lhe tirou o tapete, deixando-a sozinha em palco. Zenha e Soares rompendo em definitivo uma camaradagem de 30 anos, envolvendo-se numa luta fratricida. O Presidente da República mandando às malvas o dever de isenção, enviando a esposa para comícios em apoio expresso a Zenha enquanto formava um partido político a partir do palácio. O secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, tirando da cartola um candidato fictício, Ângelo Veloso - mera manobra para obter tempo de antena favorável a Zenha, que contaria com os votos comunistas na primeira volta.

Tacticismo, intriga, traição, populismo do mais rasteiro: nenhum destes ingredientes faltou.

 

Falta acrescentar, em pano de fundo: o Partido Comunista de férrea obediência soviética valia ainda 15,5% de votos neste país membro da NATO, em plena Guerra Fria. Quando toda a Europa de Leste permanecia amordaçada, no lado de lá da Cortina de Ferro. Com 38 deputados e 47 presidências de câmaras municipais, o PCP mantinha enorme influência nas ruas, nos sindicatos e nas redacções dos órgãos de informação, onde facilmente impunha a sua narrativa.

Era tão influente que bastava a vontade de um só homem, neste caso o próprio Cunhal, para decidir o desfecho de um escrutínio. Aconteceu a 2 de Fevereiro, com a convocação de um congresso extraordinário do PCP: o líder do partido, renegando tudo quanto dissera desde sempre contra Soares, recomendou aos militantes que votassem no socialista, mesmo tapando-lhe a cara e o nome no boletim de voto. E a multidão comunista obedeceu cegamente à ordem do "camarada Álvaro".

Soares deve a Cunhal - seu inimigo histórico - o primeiro mandato como presidente. Tudo a pretexto de travar o passo ao "reaccionário" Freitas do Amaral, que por ironia do destino viria a encerrar a carreira política como ministro dos Negócios Estrangeiros do governo Sócrates

 

Era este o país que alguns lembram agora com suspiros nostálgicos.

Um país em que o moderadíssimo Freitas não virava uma esquina sem ouvir alguém chamar-lhe "fascista". Um país em que milhares de militantes partidários obedeciam cegamente à voz de comando do dirigente máximo, seguindo-o sempre em rebanho após cada decisão contraditória. Um país em que o Presidente conspirava contra governos e a sua esposa surgia como réplica serôdia de Evita Perón, beijando criancinhas em comícios renovadores.

Um país em que toda a imprensa diária estava "nacionalizada" e a televisão livre do monopólio estatal ainda soava a utopia. 

 

Na corrida eleitoral nem faltava o candidato ungido por Belém com este discurso: «É necessária uma nova democracia e uma nova república. Uma nova democracia, porque a que temos é uma democracia achacada por vários vícios, como o clientelismo, a irresponsabilidade, a corrupção, o centralismo e a desigualdade perante a lei.»

Assim falou Zenha ao apresentar-se como concorrente à chefia do Estado. Soa-vos a algo familiar? Pois.

Não acreditem quando vos disserem que antigamente era tudo melhor.

 

A Duas Voltas, documentário de Ivan Nunes e Paulo Pena, pode ser visto ou revisto na RTP Play.

"Estupidez Artificial"

Pedro Correia, 16.12.25

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Sugestão às nossas televisões, que desataram a recorrer à "Estupidez Artificial" para traduzir línguas muito complicadas e quase desconhecidas, como o francês: desconfiem quando vos garantem que a máquina substitui com vantagem a inteligência humana. Não é verdade, como comprova a tradução desta peça jornalística com uma síntese da mais recente entrevista de Nicolas Sarkozy. A cela prisional passa a "célula" e a "Santé" (célebre prisão parisiense) torna-se "saúde".

Acontece a qualquer máquina, apta a traduzir com os pés. Sem uma pessoa competente, de carne e osso, a rever os textos.

A estupidez é assim: faz rir. Mesmo quando estão em causa temas sérios.

Chega, Chega, Chega, Chega, Chega, Chega, Chega, Chega, Chega, Chega

Pedro Correia, 14.10.25

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Ontem à tarde acompanhei, em dois canais de notícias, debates pós-eleitorais com vários comentadores a analisar as autárquicas. Em ambos o Chega "venceu" por maioria absoluta. Nenhum outro teve sequer um tempo de antena aproximado. 

O debate da SIC Notícias durou 26 minutos. Período em que o Chega foi mencionado 52 vezes (uma a cada 30 segundos), deixando todos os outros a larga distância. O segundo foi o PS (24 vezes) e o PSD fechou o "pódio" (12 vezes). Os restantes? Bloco de Esquerda seis vezes, AD cinco, CDS três, PCP uma.

O debate da CNN Portugal durou 19 minutos. Com domínio ainda mais esmagador do partido de André Ventura: mencionado 44 vezes. Aqui também o PS em segundo (18 vezes). Depois o BE com sete, o PSD com apenas três. A conta completou-se com singelas menções à AD e ao Livre: uma cada.

Nada mais.

 

Assisto, perplexo, a este frenesim comentadeiro em torno do Chega nos mesmos canais que passam o tempo a "denunciá-lo". Atracção e repulsa em simultâneo, com incompreensível desproporção face a outras forças políticas.

Ouvindo estes debates, dir-se-ia que Ventura foi o grande triunfador destas autárquicas em que afinal perdeu cerca de 800 mil votos na comparação com as legislativas de 18 de Maio e venceu em apenas três municípios, perdendo nos restantes 305. Dez vezes abaixo da marca que previu.

Em número de presidências de câmara, o Chega estacionou em sexto - atrás do PSD (135), do PS (128), dos movimentos independentes (20), da CDU (12) e do CDS (7). Contrariando em toda a linha o que Ventura anunciara poucos dias antes do escrutínio: seria «impensável» ficar abaixo de comunistas e centristas. Mas ficou. 

Não pode queixar-se, porém. Nos canais de notícias, os comentadores continuarão infatigavelmente a falar dele e do seu partido - dando-lhe palco, dando-lhe gás. Como se vencesse em toda a linha, mesmo quando perde. Como se os outros quase nem existissem, mesmo quando ganham. 

Nos intervalos, a tribo comentadeira queixa-se do "extremismo" e do "populismo". Que vão medrando precisamente com o prestimoso auxílio destes canais.

Desprezível

Pedro Correia, 02.09.25

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Ele, como sempre. Fiel à sua imagem de marca. A destilar ódio à União Europeia e à Ucrânia em geral e a Zelenski em especial. Como o soviético Lavrov, como Medvedev: na mesma linha. De uma fidelidade inabalável ao Kremlin.

Torcendo os factos, a todo o passo. Torturando a verdade. Com uma desfaçatez idêntica à do porta-voz de Putin e uma verborreia tão desprezível como a dele.

 

Anteontem, expeliu ele o seguinte na CNN Portugal:

ABUTRES E CHACAIS

«A Europa não tem dinheiro. Aquilo a que está a lançar a vista é aos activos russos, os 200 mil milhões que estão no Euroclear e que tanto a senhora Von Der Leyen como a senhora Kaja Kallas, como todo este grupo de abutres e chacais, estão à espera de cair em cima para saldar as contas de guerra com o argumento de que é para a reconstrução [da Ucrânia].»

XI E PUTIN «DEFENDEM A DEMOCRACIA»

«O que vejo no Ocidente é que um manda e os outros obedecem. No Ocidente defendemos a democracia intra-Estado (isto é, dentro de um Estado) e este grupo de países [da Organização de Cooperação de Xangai, incluindo China e Rússia] defende a democracia inter-Estados, entre os Estados.»

A RÚSSIA É QUEM MAIS ORDENA

«Ali, o projecto estratégico não é liderado pela China, é liderado pela Rússia. (...) Os factos demonstram. A Rússia tem quatro mil e muitas bombas atómicas, a China tem seiscentas. Xi dá a direita a Putin porque Putin assegura a capacidade estratégica da China.»

 

A 24 de Agosto - Dia da Independência ucraniana - o mesmo sujeito tinha surgido em antena, no mesmíssimo canal, para exalar isto:

PUTIN «QUER A PAZ»

«Zelenski está encostado às cordas.»

«Zelenski foi muito deselegante com o seu vizinho, a Hungria.»

«Zelenski devia seguir o conselho de Trump.»

«70% da população da Ucrânia quer a paz, neste momento os americanos querem a paz, os russos estão disponíveis para a paz. Quem parece que não quer a paz é Zelenski e os europeus.»

 

Leitura complementar:

Indignidade moral (6 de Junho de 2025)

"Populares", repórteres e teleteóricos

Pedro Correia, 22.08.25

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Meio Portugal continua a arder: cerca de 275 mil hectares calcinados, correspondentes a quase 3% do território nacional.

Vejo imagens do incêndio na Gardunha com um nó na garganta. Imagens que me são familiares desde a infância: Alpedrinha, Castelo Novo, Alcongosta, Souto da Casa, São Vicente da Beira. Dez aldeias do concelho do Fundão ameaçadas. A impotência das pessoas (que alguns repórteres improvisados designam "populares", com indisfarçável desdém classista) perante o macabro anel de fogo que a todo o momento ameaça destruir-lhes os parcos haveres reunidos em décadas de esforço ininterrupto.

No conforto dos estúdios climatizados, legiões de teleteóricos debitam soluções mágicas para este terror que nos assombra Verão após Verão: de repente, os tudólogos tornam-se também especialistas no combate aos incêndios agrícolas e florestais. Enquanto o vedetismo mais desbragado floresce graças ao drama: há os "enviados especiais aos fogos" com direito a apelido em caixa alta, ao encontro dos "populares" que falam português com cerrada pronúncia beirã, levando alguns editores televisivos a legendar o que dizem.

Sinal, entre tantos outros, de que existem dois países dentro do País.

 

Oiço com atenção os repórteres em diferentes canais. Há uma enorme diferença entre os que aterram lá de pára-quedas sem nada saberem e aqueles que têm ligação à terra, à província e à escassa gente que ainda lá mora. Os primeiros nunca ouviram falar num aceiro, numa cumeada, em corta-fogos, em máquinas de arrasto. Não distinguem giesta de tojo nem carvalho de castanheiro. Os segundos sabem tudo isto. E valorizam a intervenção dos aviões Fire Boss no combate ao inferno das chamas no mato deixado ao abandono - anfíbios e versáteis, aterram em pistas curtas, são mais úteis nestas operações do que os Canadairs de que tanto se fala a propósito ou despropósito.

Se há jornalistas que merecem Prémio Gazeta são estes profissionais da reportagem pura e dura que trabalham com conhecimento e sensibilidade, sem horários e quase sem descanso. Tantas vezes esquecidos nas promoções internas das empresas onde trabalham. Eles são a "malta da ferrugem", operários do ofício de relatar notícias.

Nenhum deles se imagina vedeta: vedetas são os que aproveitam estas tragédias para exibições de obsceno narcisismo defronte das câmaras. Nenhum deles se imagina herói: heróis são aqueles portugueses em desespero a quem eles dão nome e voz.

 

Leitura complementar:

O pesadelo (17 de Setembro de 2024)

"La culpa es del eucalipto". Bulos y medias verdades que avivan la tragedia de los incendios. (Maria Guerrero, El Confidencial)

Sujar as mãos e lavar a alma

Pedro Correia, 25.05.24

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É o melhor programa sobre gastronomia que tenho visto em televisão desde há muitos anos. Passa na SIC, às sextas-feiras, integrado no Jornal da Noite - seguindo a lógica corrente de integrar programas dentro do principal bloco informativo do dia, que padece de gigantismo incontrolável. Disso não tem culpa o Ricardo Dias Felner, autor deste espaço de divulgação que contrasta com as habituais rubricas sobre comidas, bebidas e dormidas - autênticas "publi-reportagens" camufladas de jornalismo a exaltar o magnífico e fenomenal e caríssimo hotel X ou restaurante Y, a preços obscenos para a carteira do cidadão comum.

Conheci o Ricardo das lides jornalísticas. Era um talentoso repórter político, com pena acutilante e óbvia qualidade de escrita. Estou à vontade para elogiá-lo, pois trabalhávamos em jornais concorrentes. Um dia ele cansou-se do jornalismo político - ou talvez essa incómoda modalidade de jornalismo se tenha cansado dele - e decidiu especializar-se em gastronomia. Mas não toca de ouvido, como aqueles que peroram sobre culinária sem saber estrelar um ovo. 

É preciso conhecer bem aquilo de que se fala para fazer um programa exigente como este seu O Homem que Comia Tudo. Fala-nos de uma Lisboa ainda oculta aos olhos de quase todos nós. A Lisboa globalista que atrai gente de todas as parcelas do planeta e as integra numa amálgama caótica mas harmoniosa. A velha capital portuguesa enriquece com estes novos contributos. Também no paladar. E é isto que o Ricardo partilha, com a abertura de espírito inscrita no próprio título do programa. Sem dogmas culinários, sem tabus, sem preconceitos. 

Vale a pena ir com ele a estes restaurantes fora dos circuitos em voga. Podem ser simples tascos onde é garantido que se come bem - até sem necessidade de talheres. Comida diferente, sim, mas sempre recomendável. Do Brasil, de Cabo Verde, de Angola, de Moçambique, da China, do Japão, do Nepal, de Goa. Muitas vezes comida crioula, arraçada, com aquele toque de mestiçagem herdado dos descobrimentos portugueses, notáveis também por isto: levaram sabores daqui, a bordo de cascas de noz, e trouxeram sabores de lá. Sendo  quase o mundo inteiro.

«Comida de festa, para sujar as mãos e lavar a alma.» Eis uma das definições do Ricardo, neste caso em louvor da comida mexicana - ela igualmente já com redutos gastronómicos em Lisboa que funcionam como genuínas legações diplomáticas. Porque nada aproxima tanto os povos como aquilo que comemos.

Também por isto, O Homem que Comia Tudo presta serviço público. Mesmo sem passar na RTP.

Inaceitável símbolo de submissão

Pedro Correia, 16.04.24

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No Irão, milhões de mulheres - sobretudo jovens - protestam contra a camarilha de clérigos que as forçam a sair à rua de cabeça tapada com o véu islâmico, o hijabe. É-lhes negado algo irrestrito entre nós: passear de cabelo descoberto.

Há sempre alguém que diz não. Mas aquelas que o fazem arriscam severas medidas punitivas, incluindo chibatadas e prisão até dois meses, segundo prevê o código penal decretado pela teocracia de Teerão. Várias têm sido assassinadas pelos esbirros da famigerada Polícia da Moralidade. Foi o que aconteceu em Setembro de 2022 à malograda curda iraniana Jina Amin, distinguida a título póstumo com o Prémio Sakharov, do Parlamento Europeu.

Por tudo isto, chocou-me ver ontem uma jornalista portuguesa, ao serviço de um canal televisivo, deslocar-se à legação diplomática do Irão em Lisboa de hijabe no cabelo para entrevistar o embaixador. Presumo que lhe tenha sido ditada essa condição para chegar à fala com o representante daquele regime totalitário. Se assim foi, devia ter recusado de imediato. Em solidariedade com as vítimas da brutal repressão imposta por uma clique de velhos fanáticos que odeiam as mulheres. Torturam-nas, violam-nas, matam-nas. Como se não fossem gente. Como se não fossem ninguém.

Anda tudo trocado. Elas, que são obrigadas a usar aquilo, rebelam-se dignamente contra tal dogma. As de cá, livres como o vento, aceitam envergar aquele inaceitável símbolo de submissão sem que nada as force a isso. Nas mesmas televisões que já nos falam até à exaustão do 25 de Abril mas se esquecem sempre de assinalar quais são os países onde nenhum 25 de Abril chegou ainda.

Emissão em directo

Pedro Correia, 10.04.24

Um "repórter no terreno" irrompe na pantalha debitando não-notícias em catadupa. Fala sem dizer nada até a voz lhe claudicar. Segue-se um mono em estúdio comentando interminavelmente a não-notícia. Quando este acusa os primeiros indícios de esgotamento vocabular, minutos infindáveis mais tarde, avança outro "repórter no terreno" especializado em encher chouriços, na desesperada tentativa de sobressaltar os escassos telespectadores com outra não-notícia. A mesma depois comentada por dois monos e meio que se atropelam com frases despidas de qualquer ideia. Perde-se o fio à meada, mas ninguém quer saber porque torna-se mentalmente impossível acompanhar tanto palavreado a propósito de coisa nenhuma.

Assim vai seguindo a emissão em directo, hora a hora, até tudo recomeçar no minuto inicial do dia seguinte.

Os pupilos do professor Marcelo

Legislativas 2024 (20)

Pedro Correia, 08.03.24

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A campanha eleitoral termina hoje com bastante especulação, muito compreensível, sobre quem vencerá as legislativas. Mas uma coisa é certa: o jornalismo sai derrotado. Houve cedências crescentes e até chocantes ao infotainment - promíscua amálgama de informação com entertenimento, transformando as redacções em sociedades recreativas. Sobretudo na televisão.

Dúzias de jornalistas recriam-se como figurantes da política enquanto reality show. Procurando a notícia na rua, durante o dia, e encerrando-se à noite nos estúdios, investidos em comentadores do que haviam descrito horas antes - com o bitaite típico da conversa de café a roubar cada vez mais tempo, espaço e protagonismo à reportagem. Vários deles imitando velhos mestres-escola, distribuindo notas. Como pupilos do professor Marcelo, que inaugurou esta frívola modalidade de avaliação política há mais de 30 anos na TSF.

Confesso que abri a boca de espanto ao ver um deles, que sempre considerei um dos melhores repórteres portugueses, também reduzido agora à condição de avaliador numérico. Enquanto uma excelente repórter, que já cobriu guerras e outras calamidades em paragens longínquas, desperdiçava o talento com questionários aos líderes partidários mais próprios das revistas cor-de-rosa. Eis uma das perguntas: «Quando foi a última vez que escreveu uma carta de amor?»

 

Sim, o jornalismo sai derrotado desta campanha. Por culpa própria: anda há anos a esforçar-se muito para se tornar irrelevante. Assim não admira que Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos tenham recusado dar entrevistas ao Expresso, considerado o mais influente jornal português. Preferiram exibir-se perante a Cristina Ferreira nas manhãs da TVI ou marcar presença no programa humorístico do Ricardo Araújo Pereira nos serões da SIC. Faz sentido: se a cobertura jornalística adopta a lógica do reality show, siga-se o original em vez da cópia.

Pior ainda quando o modelo dos debates decalca o dos programas de bola, cheios de palpiteiros de cachecol clubístico, imitando claques de futebol. Sem o menor esforço de isenção, rigor, equidistância, frieza analítica, argumento racional: o que importa é exibir o emblema partidário.

O apogeu do ridículo talvez tenha sido esta nota 8 (em dez) atribuída quarta-feira por Ana Gomes na SIC-N ao candidato que entusiasticamente apoia enquanto aplicava ao candidato rival um metafórico pontapé nos fundilhos, brindando-o com implacável nota zero. 

É salutar que as pessoas estejam cada vez mais distantes destes alegados espaços informativos que nada têm a ver com jornalismo. Estou com elas. Se as opções à escolha forem Ana Gomes e Cristina Ferreira, não hesito um segundo em votar nesta. 

«Atenta às questões dos trabalhadores»

Legislativas 2024 (12)

Pedro Correia, 28.02.24

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Nada mais conveniente, para os partidos com fraquíssima representação parlamentar, do que integrar manifestações alheias para aparecerem na fotografia, fingindo que os poucos afinal são muitos. Consultar a agenda diária de manifestações e colar-se a elas: eis uma forma fácil e expedita de fazer política.

Nestes dias iniciais de campanha eleitoral das legislativas de 2024 o campeão desta chico-espertice tem sido Rui Tavares. No sábado conseguiu aparecer um par de vezes nos telediários integrando-se em duas concentrações populares em Lisboa: uma no Rossio, de repúdio pelos dois anos de agressão da Rússia à Ucrânia; outra na marcha contra o racismo e a xenofobia, na Alameda D. Afonso Henriques. 

Exibiu-se em qualquer dos eventos, transmitindo assim a mensagem subliminar de que toda aquela gente apoia o Livre. 

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A mesma táctica tem vindo a ser seguida por dois outros partidos muito carentes de votos: o PCP e o Bloco de Esquerda.

Aproveitando um protesto dos trabalhadores da empresa multinacional Teleperfomance, também em Lisboa, Paulo Raimundo e Mariana Mortágua surgiram na primeira fila. Com a certeza de que picariam o ponto nos noticiários da noite.

O secretário-geral do PCP lá se ajeitou com o megafone para debitar banalidades, proclamando-se «solidário» com os trabalhadores. A porta-voz do Bloco nem necessitou de megafone, sem ficar atrás do comunista ali na caça ao voto. 

A diligente repórter da RTP deu uma ajudinha. Dizendo isto: «Porque é ao lado dos trabalhadores que o Bloco quer estar.» Enquanto mostrava a bloquista enxugando uma furtiva lágrima de comoção. E culminou a peça desta forma: «Atenta às questões dos trabalhadores, Mariana Mortágua promete que as condições dignas de trabalho vão estar num entendimento à esquerda pós-eleições.»

Linguagem carregada de tintas épicas: pedia sonorização a condizer. Pena não se terem escutado os acordes d' A Internacional. Até a mim daria vontade de chorar.

Rússia: opositor assassinado é "dissidente"

Pedro Correia, 18.02.24

Na chamada "estação pública de televisão" oiço alguém introduzir o tema do homicídio de Alexei Navalny, vítima de sentença de morte extrajudicial decretada pelo ditador de Moscovo, chamando «dissidente» ao assassinado num presídio da Sibéria.

Voltamos à questão de sempre. Se alguém contesta uma ditadura de um determinado quadrante ideológico é denominado opositor. Mas se o mesmo ocorre numa ditadura de outro quadrante ideológico, não é opositor, mas "dissidente". Isto equivale a dizer que, nestes casos, a normalidade é a ditadura - aliás nunca assumida como tal. "Dissidência" é fuga à norma - penalizada, portanto, no discurso jornalístico corrente. Pelo menos no discurso que ouvi na RTP.

 

Como escrevi aqui, um democrata é um democrata - nunca um dissidente. E um opositor é um opositor, ponto final. 

Chamar «dissidente» a Navalny é injuriar a memória deste mártir da liberdade asfixiada na Rússia. É contemporizar com a tirania putinista, que nem permite à mãe de Navalny ter acesso ao corpo do filho - algo impensável até noutros regimes ditatoriais. Certamente com receio do que uma autópsia independente pudesse confirmar: o mais corajoso opositor de Putin foi mesmo assassinado, aos 47 anos.

Às ordens do senhor absoluto do Kremlin, herdeiro espiritual de Estaline. 

Traidor, idiota útil, prostituta política

Legislativas 2024 (7)

Pedro Correia, 14.02.24

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Os debates, num registo frente-a-frente, têm sido entre líderes de partidos. Mas certos jornalistas que deviam moderá-los, em vez de se apagarem o mais possível, procuram concorrer com os políticos em fome de palco. Fazendo lembrar aqueles árbitros que roubam protagonismo aos jogadores em partidas de futebol exibindo cartões de várias cores a torto e a direito enquanto apitam a cada 30 segundos. Numa tentativa desesperada de serem o centro das atenções.

Infelizmente isto não acontece só nos estádios: passa-se o mesmo nos estúdios. Na segunda-feira de Carnaval, na RTP, o moderador do debate entre Luís Montenegro e André Ventura fez tudo para se evidenciar. E, de algum modo, concretizou o objectivo: naqueles 39 minutos conseguiu interromper 121 vezes os candidatos! Quase em partes iguais, com o presidente do PSD a ver as suas frases 61 vezes cortadas por João Adelino Faria, enquanto o mesmo sucedeu 60 vezes ao presidente do Chega.

«Quando estamos os três a falar, ninguém nos ouve», lamentou a certa altura o pivô da RTP. Num involuntário exercício de autocrítica, pois era incapaz de se calar enquanto os dois políticos se confrontavam.

«Temos muito pouco tempo», foi outra das suas frases, dignas de cronometrista. Além da bengala verbal «muito bem» que já se transformou numa espécie de senha no canal público de televisão. É raro o jornalista que ali não usa e abusa dela, mesmo totalmente fora de contexto. Já ouvi alguns dizerem «muito bem» até quando se fala de guerras, massacres, catástrofes climáticas ou epidemias. Vale para tudo.

 

Quanto ao debate em si, nos escassos momentos em que Faria deixou os participantes completarem três frases, a ideia dominante foi esta: o Chega funciona como aliado objectivo do PS. Daí ter sido eleito, durante toda a legislatura que agora termina, como interlocutor preferencial de António Costa nos confrontos parlamentares - imitando o precedente inaugurado em França, na década de 80, pelo socialista François Mitterrand com a ultra-direita de Jean Marie Le Pen.

Os socialistas, cá como lá, alimentaram o ovo da serpente. Na expectativa de assim neutralizarem a direita moderada, sua rival directa nas urnas. Em França, o tiro saiu-lhes pela culatra: o Reagrupamento Nacional, liderado pela filha de Le Pen, tem hoje 89 deputados na Assembleia Nacional enquanto o PSF não conseguiu eleger mais do que 24, entre 577 lugares, nas legislativas de 2022. Tornou-se um partido irrelevante.

 

Neste confronto na RTP, Montenegro fez o que lhe competia. Desmascarando a irresponsabilidade do Chega, que exige agora o direito à filiação partidária e o direito à greve aos elementos das forças de segurança sem avaliar as consequências do que propõe. E esclareceu que só as 13 medidas mais emblemáticas do pacote de promessas eleitorais do partido da direita populista custariam cerca de 25,5 mil milhões de euros se fossem postas em prática - o equivalente a 9% do PIB anual português.

Contas que aparentemente Ventura não fez: embatucou ao ouvir isto, ficando sem resposta. 

Argumentou como? À maneira dele: com insultos.

Acusou o PSD de «traição», de «espezinhar as forças de segurança», de «enganar os pensionistas há 50 anos», de ser «uma prostituta política». Montenegro, para ele, é «o idiota útil da esquerda» - representante «de um sistema que nos tem dado corrupção, tachos e bandidos à solta».

 

Eis o caudilho do Chega, uma vez mais, a funcionar como guarda avançada do PS. Nem lhe passaria pela cabeça chamar alguma vez «prostituta política» a António Costa...

Ventura berra tudo quanto for preciso para gerar títulos na imprensa e cliques nas redes sociais. Mesmo baixando cada vez mais o nível. Comparado com ele, o Tino de Rans faz figura de estadista.

Este debate confirmou que há sérios problemas de governabilidade à direita com o líder do Chega em cena. À esquerda, ninguém imagina uma peixeirada destas entre Mariana Mortágua, Paulo Raimundo e Pedro Nuno Santos.

Montenegro nunca governará com quem lhe chama idiota e traidor, nem se coligará com quem acusa o PSD de prostituição política. Há limites para tudo. De algum modo, beneficiou com a estridência insultuosa de Ventura: atraiu votos moderados, separando as águas. «Muito bem», como diria João Adelino Faria pela enésima vez, repetindo a bengala verbal tão em voga na RTP.

Comer (14)

Risoto de citrinos com coelho

Pedro Correia, 20.01.24

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Desta vez apeteceu-me coelho. Mas encontro cada vez menos esta carne, outrora abundante entre nós. Rica em proteínas, com baixo teor de gorduras, é nutritiva e fácil de digerir.

Mas nada fácil de encontrar cá na cidade.

Tive de encomendar no talho. Dizem-me: está a desaparecer devido às pressões animalistas. Vêem os coelhinhos como peluches, coisas fofas. Há mesmo quem considere que comer coelho equivale a comer cão. Em casos extremos, protestam por parecer «quase canibalismo».

Enfim, os chalupas ganham terreno em todas as frentes. Na frente alimentar também.

 

Pedi para me cortarem o coelho em pedaços. Usei metade, o resto rumou ao congelador. Para consumir noutro fim-de-semana.

Num tacho largo, preparei o refogado: fio de azeite, meia cebola picada, folha de louro, malagueta sem sementes. Adicionei o coelho. Depois, meio copo de vinho tinto. Enquanto noutro tacho a água fervia. 

Chega o momento de verter uma chávena do arroz apropriado para esta receita, de origem italiana. Segue-se uma colher de sopa de manteiga. Junto uma pitada de açafrão. Misturo. Rego com parte da água quente, em pequenas doses, e vou mexendo sempre para não colar ao fundo. Vai ficando numa textura cremosa.

Convém redobrar a paciência nesta fase: é por uma boa causa.

 

Daí a cerca de dez minutos apago o lume. Envolvendo tudo num generoso pedaço de queijo parmesão a que junto rodelas de lima e dois ou três gomos de laranja, já que estamos no tempo delas. Sem esquecer umas folhas de salsa - embora o manjericão seja mais recomendável.

Interessante, o contraste dos sabores.

Abro uma garrafa de Defesa (2021) - da Herdade do Esporão, castas Touriga Nacional e Syrah. Custou-me 4 euros numa loja cá do bairro.

Soube-me o melhor possível. Belo almoço de Inverno, enquanto a chuva teima em cair pelo terceiro mês consecutivo. Na televisão, o noticiário do costume menciona casos de "seca severa" e até "seca extrema". É em Portugal, mas sinto que me fala dum país distante.

Da ignorância galopante

Pedro Correia, 17.01.24

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Há umas semanas tropecei nesta legenda no canal televisivo AR, que exibe as sessões do hemiciclo de São Bento e preenche intervalos com pequenos documentários relacionados com a Assembleia da República. 

Quem a escreveu, quem a editou e quem a pôs no ar parece desconhecer em que faixa correcta deve circular a língua portuguesa. Comprovando que nem o órgão legislativo escapa ao analfabetismo funcional, algo de que eu já suspeitava.

Coitado do nosso Rei D. Luís, ali retratado - sem culpa nenhuma deste tuguês macarrónico, com timbre do parlamento. O presidente da AR, Augusto Santos Silva, devia reservar um pouco do tempo que gasta em «malhar na direita» para vergastar a ignorância galopante no Palácio de São Bento. Antes de abandonar de vez a função: já não falta muito.

O jornalismo dos "cenários"

Pedro Correia, 10.11.23

Cenários e mais cenários e mais cenários. Os canais informativos abdicam cada vez mais da informação enchendo os estúdios de jornalistas que preferem dedicar-se ao comentário. Quando não sabem, inventam. Quando não têm certezas, especulam. Quando lhes falta informação, debitam uma narrativa ficcional.

"Cenarizam", como agora se diz. 

É também telenovela, embora com outro nome. No fundo, há poucas diferenças. A principal é sentarem-se em cadeiras em vez de sofás. 

 

Parece que foi combinado...

Pedro Correia, 11.10.23

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... mas garanto que não foi. Isabel Moreira, insuspeita de ser hostil para Pedro Nuno Santos, seu companheiro de bancada parlamentar, também se espantava ontem numa rede social - tal como eu aqui - contra esta moda, inaugurada na SIC Notícias, de ter em estúdio comentadores encarregados de comentar outros comentadores da mesma estação. Dividindo-os assim entre comentadores de primeira (os que são comentados) e os de segunda ou quinta categoria (quem não usufrui desse insólito privilégio).

Muito endogâmico: a bolha dentro da bolha dentro da bolha. Tal como se comprova igualmente no facto de agora quase todos se tratarem por tu durante a palração televisiva: formam a selecta irmandade da pantalha. 

Quanto mais íntimos parecem, mais põem os telespectadores à distância. Depois não se queixem das fracas audiências. Nada disso acontece por acaso.

Arrancar - não sabem dizer outra coisa

Pedro Correia, 15.08.23

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De repente, palavras claras, genuínas e consagradas da nossa bela língua portuguesa parecem ter desaparecido do mapa.

 

Já mencionei noutro lado o ominipresente colocar, que por influência brasileira mandou borda fora o mais simples e directo verbo pôr. Como se estivesse amaldiçoado.

Uma praga também denunciada pelo escritor e linguista Manuel Monteiro no seu livro O Mundo Pelos Olhos da Língua (Objectiva, 2022), aqui recomendado. Em que reproduz várias frases que se tornaram ridículas desde que esta absurda tendência foi sendo imposta:

- «Não colocar os pés, obrigado.»

- «Colocaram as nossas vidas em perigo.»

- «As pessoas que comem peixe grelhado e depois colocam dois litros de azeite.»

- «Secretário-geral da ONU apela a Putin para colocar fim à invasão.»

- «Presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia coloca água na fervura.»

Enfim, um modismo que redundou num monumental disparate. Sucedem-se as frases abstrusas com este verbo em regime de monopólio. Debitadas até por forças políticas que se proclamam antimonopolistas.

 

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Outros verbos que parecem cada vez mais fora de uso são começar ou iniciar. Substituídos ambos pelo feio e ambíguo arrancar. Este, agora, serve para tudo.

Ainda ontem ouvi, num noticiário da SIC: «A equipa minhota somou 1-0 e arrancou o campeonato com três pontos.»

Dois erros nesta frase. O primeiro, a utilização do verbo somar numa vitória futebolística de um-a-zero. O segundo, mais grave: este descabelado abuso do arrancar (que, não esqueçamos, significa puxar, partir, fugir, sair, extrair, colher, extirpar, remover, desenraizar, guilhotinar) como sinónimo exclusivo de começar.

Será atracção pelo erre dobrado? 

Ignoro. Mas não tenho a menor dúvida em concluir que estamos perante mais um disparate generalizado.

Cada ignorante copia o outro - e o resultado é este.

Teme-se o pior

Pedro Correia, 28.06.23

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Todos os dias docentes universitários - quase sempre os mesmos - acampam durante horas nas pantalhas, perorando sobre a mais vasta gama de temas, da guerra soviética na Ucrânia às alterações climáticas, passando pela desflorestação da Amazónia e das pequenas peripécias da política doméstica. Tanto faz: qualquer coisa lhes serve de motivo para longa prelecção televisiva.

Ficamos mais sábios ao escutá-los? Não. Espantosamente, estes professores parecem pouco ou nada ter para ensinar. Alguns distinguem-se por falar português de forma deficiente, parecendo cópias de carne e osso do rudimentar Google tradutor.

Uma senhora com pergaminhos académicos proclamava há dias a intenção de se pronunciar com «accuracy» a propósito já não me lembro de que assunto. Confirmando que em certas universidades cá da terra o idioma dominante se tornou o crioulo luso-"amaricano". 

Outra, também com lugar cativo em estabelecimento de ensino alegadamente superior, dizia que «quaisqueres» garantias estariam a ser dadas por alguém, irrelevante para o caso. E um cavalheiro, igualmente docente universitário, assegurava que «vão haver» surpresas num futuro próximo.

Quando os professores falam assim, admira quase nada que os alunos passem o tempo a grunhir inanidades, sem conseguirem debitar três frases seguidas de modo inteligível. Oiço-os nos transportes públicos: em cada cinco palavras, dizem «bué»; em cada três, dizem «tipo». Quase sempre rematado com o onomatopaico «iá»

São as supostas elites do futuro. Estão a ser formadas por «quaisqueres» especialistas em ignorância de alto nível. Teme-se o pior.