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Delito de Opinião

Inaceitável símbolo de submissão

Pedro Correia, 16.04.24

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No Irão, milhões de mulheres - sobretudo jovens - protestam contra a camarilha de clérigos que as forçam a sair à rua de cabeça tapada com o véu islâmico, o hijabe. É-lhes negado algo irrestrito entre nós: passear de cabelo descoberto.

Há sempre alguém que diz não. Mas aquelas que o fazem arriscam severas medidas punitivas, incluindo chibatadas e prisão até dois meses, segundo prevê o código penal decretado pela teocracia de Teerão. Várias têm sido assassinadas pelos esbirros da famigerada Polícia da Moralidade. Foi o que aconteceu em Setembro de 2022 à malograda curda iraniana Jina Amin, distinguida a título póstumo com o Prémio Sakharov, do Parlamento Europeu.

Por tudo isto, chocou-me ver ontem uma jornalista portuguesa, ao serviço de um canal televisivo, deslocar-se à legação diplomática do Irão em Lisboa de hijabe no cabelo para entrevistar o embaixador. Presumo que lhe tenha sido ditada essa condição para chegar à fala com o representante daquele regime totalitário. Se assim foi, devia ter recusado de imediato. Em solidariedade com as vítimas da brutal repressão imposta por uma clique de velhos fanáticos que odeiam as mulheres. Torturam-nas, violam-nas, matam-nas. Como se não fossem gente. Como se não fossem ninguém.

Anda tudo trocado. Elas, que são obrigadas a usar aquilo, rebelam-se dignamente contra tal dogma. As de cá, livres como o vento, aceitam envergar aquele inaceitável símbolo de submissão sem que nada as force a isso. Nas mesmas televisões que já nos falam até à exaustão do 25 de Abril mas se esquecem sempre de assinalar quais são os países onde nenhum 25 de Abril chegou ainda.

Emissão em directo

Pedro Correia, 10.04.24

Um "repórter no terreno" irrompe na pantalha debitando não-notícias em catadupa. Fala sem dizer nada até a voz lhe claudicar. Segue-se um mono em estúdio comentando interminavelmente a não-notícia. Quando este acusa os primeiros indícios de esgotamento vocabular, minutos infindáveis mais tarde, avança outro "repórter no terreno" especializado em encher chouriços, na desesperada tentativa de sobressaltar os escassos telespectadores com outra não-notícia. A mesma depois comentada por dois monos e meio que se atropelam com frases despidas de qualquer ideia. Perde-se o fio à meada, mas ninguém quer saber porque torna-se mentalmente impossível acompanhar tanto palavreado a propósito de coisa nenhuma.

Assim vai seguindo a emissão em directo, hora a hora, até tudo recomeçar no minuto inicial do dia seguinte.

Os pupilos do professor Marcelo

Legislativas 2024 (20)

Pedro Correia, 08.03.24

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A campanha eleitoral termina hoje com bastante especulação, muito compreensível, sobre quem vencerá as legislativas. Mas uma coisa é certa: o jornalismo sai derrotado. Houve cedências crescentes e até chocantes ao infotainment - promíscua amálgama de informação com entertenimento, transformando as redacções em sociedades recreativas. Sobretudo na televisão.

Dúzias de jornalistas recriam-se como figurantes da política enquanto reality show. Procurando a notícia na rua, durante o dia, e encerrando-se à noite nos estúdios, investidos em comentadores do que haviam descrito horas antes - com o bitaite típico da conversa de café a roubar cada vez mais tempo, espaço e protagonismo à reportagem. Vários deles imitando velhos mestres-escola, distribuindo notas. Como pupilos do professor Marcelo, que inaugurou esta frívola modalidade de avaliação política há mais de 30 anos na TSF.

Confesso que abri a boca de espanto ao ver um deles, que sempre considerei um dos melhores repórteres portugueses, também reduzido agora à condição de avaliador numérico. Enquanto uma excelente repórter, que já cobriu guerras e outras calamidades em paragens longínquas, desperdiçava o talento com questionários aos líderes partidários mais próprios das revistas cor-de-rosa. Eis uma das perguntas: «Quando foi a última vez que escreveu uma carta de amor?»

 

Sim, o jornalismo sai derrotado desta campanha. Por culpa própria: anda há anos a esforçar-se muito para se tornar irrelevante. Assim não admira que Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos tenham recusado dar entrevistas ao Expresso, considerado o mais influente jornal português. Preferiram exibir-se perante a Cristina Ferreira nas manhãs da TVI ou marcar presença no programa humorístico do Ricardo Araújo Pereira nos serões da SIC. Faz sentido: se a cobertura jornalística adopta a lógica do reality show, siga-se o original em vez da cópia.

Pior ainda quando o modelo dos debates decalca o dos programas de bola, cheios de palpiteiros de cachecol clubístico, imitando claques de futebol. Sem o menor esforço de isenção, rigor, equidistância, frieza analítica, argumento racional: o que importa é exibir o emblema partidário.

O apogeu do ridículo talvez tenha sido esta nota 8 (em dez) atribuída quarta-feira por Ana Gomes na SIC-N ao candidato que entusiasticamente apoia enquanto aplicava ao candidato rival um metafórico pontapé nos fundilhos, brindando-o com implacável nota zero. 

É salutar que as pessoas estejam cada vez mais distantes destes alegados espaços informativos que nada têm a ver com jornalismo. Estou com elas. Se as opções à escolha forem Ana Gomes e Cristina Ferreira, não hesito um segundo em votar nesta. 

«Atenta às questões dos trabalhadores»

Legislativas 2024 (12)

Pedro Correia, 28.02.24

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Nada mais conveniente, para os partidos com fraquíssima representação parlamentar, do que integrar manifestações alheias para aparecerem na fotografia, fingindo que os poucos afinal são muitos. Consultar a agenda diária de manifestações e colar-se a elas: eis uma forma fácil e expedita de fazer política.

Nestes dias iniciais de campanha eleitoral das legislativas de 2024 o campeão desta chico-espertice tem sido Rui Tavares. No sábado conseguiu aparecer um par de vezes nos telediários integrando-se em duas concentrações populares em Lisboa: uma no Rossio, de repúdio pelos dois anos de agressão da Rússia à Ucrânia; outra na marcha contra o racismo e a xenofobia, na Alameda D. Afonso Henriques. 

Exibiu-se em qualquer dos eventos, transmitindo assim a mensagem subliminar de que toda aquela gente apoia o Livre. 

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A mesma táctica tem vindo a ser seguida por dois outros partidos muito carentes de votos: o PCP e o Bloco de Esquerda.

Aproveitando um protesto dos trabalhadores da empresa multinacional Teleperfomance, também em Lisboa, Paulo Raimundo e Mariana Mortágua surgiram na primeira fila. Com a certeza de que picariam o ponto nos noticiários da noite.

O secretário-geral do PCP lá se ajeitou com o megafone para debitar banalidades, proclamando-se «solidário» com os trabalhadores. A porta-voz do Bloco nem necessitou de megafone, sem ficar atrás do comunista ali na caça ao voto. 

A diligente repórter da RTP deu uma ajudinha. Dizendo isto: «Porque é ao lado dos trabalhadores que o Bloco quer estar.» Enquanto mostrava a bloquista enxugando uma furtiva lágrima de comoção. E culminou a peça desta forma: «Atenta às questões dos trabalhadores, Mariana Mortágua promete que as condições dignas de trabalho vão estar num entendimento à esquerda pós-eleições.»

Linguagem carregada de tintas épicas: pedia sonorização a condizer. Pena não se terem escutado os acordes d' A Internacional. Até a mim daria vontade de chorar.

Rússia: opositor assassinado é "dissidente"

Pedro Correia, 18.02.24

Na chamada "estação pública de televisão" oiço alguém introduzir o tema do homicídio de Alexei Navalny, vítima de sentença de morte extrajudicial decretada pelo ditador de Moscovo, chamando «dissidente» ao assassinado num presídio da Sibéria.

Voltamos à questão de sempre. Se alguém contesta uma ditadura de um determinado quadrante ideológico é denominado opositor. Mas se o mesmo ocorre numa ditadura de outro quadrante ideológico, não é opositor, mas "dissidente". Isto equivale a dizer que, nestes casos, a normalidade é a ditadura - aliás nunca assumida como tal. "Dissidência" é fuga à norma - penalizada, portanto, no discurso jornalístico corrente. Pelo menos no discurso que ouvi na RTP.

 

Como escrevi aqui, um democrata é um democrata - nunca um dissidente. E um opositor é um opositor, ponto final. 

Chamar «dissidente» a Navalny é injuriar a memória deste mártir da liberdade asfixiada na Rússia. É contemporizar com a tirania putinista, que nem permite à mãe de Navalny ter acesso ao corpo do filho - algo impensável até noutros regimes ditatoriais. Certamente com receio do que uma autópsia independente pudesse confirmar: o mais corajoso opositor de Putin foi mesmo assassinado, aos 47 anos.

Às ordens do senhor absoluto do Kremlin, herdeiro espiritual de Estaline. 

Traidor, idiota útil, prostituta política

Legislativas 2024 (7)

Pedro Correia, 14.02.24

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Os debates, num registo frente-a-frente, têm sido entre líderes de partidos. Mas certos jornalistas que deviam moderá-los, em vez de se apagarem o mais possível, procuram concorrer com os políticos em fome de palco. Fazendo lembrar aqueles árbitros que roubam protagonismo aos jogadores em partidas de futebol exibindo cartões de várias cores a torto e a direito enquanto apitam a cada 30 segundos. Numa tentativa desesperada de serem o centro das atenções.

Infelizmente isto não acontece só nos estádios: passa-se o mesmo nos estúdios. Na segunda-feira de Carnaval, na RTP, o moderador do debate entre Luís Montenegro e André Ventura fez tudo para se evidenciar. E, de algum modo, concretizou o objectivo: naqueles 39 minutos conseguiu interromper 121 vezes os candidatos! Quase em partes iguais, com o presidente do PSD a ver as suas frases 61 vezes cortadas por João Adelino Faria, enquanto o mesmo sucedeu 60 vezes ao presidente do Chega.

«Quando estamos os três a falar, ninguém nos ouve», lamentou a certa altura o pivô da RTP. Num involuntário exercício de autocrítica, pois era incapaz de se calar enquanto os dois políticos se confrontavam.

«Temos muito pouco tempo», foi outra das suas frases, dignas de cronometrista. Além da bengala verbal «muito bem» que já se transformou numa espécie de senha no canal público de televisão. É raro o jornalista que ali não usa e abusa dela, mesmo totalmente fora de contexto. Já ouvi alguns dizerem «muito bem» até quando se fala de guerras, massacres, catástrofes climáticas ou epidemias. Vale para tudo.

 

Quanto ao debate em si, nos escassos momentos em que Faria deixou os participantes completarem três frases, a ideia dominante foi esta: o Chega funciona como aliado objectivo do PS. Daí ter sido eleito, durante toda a legislatura que agora termina, como interlocutor preferencial de António Costa nos confrontos parlamentares - imitando o precedente inaugurado em França, na década de 80, pelo socialista François Mitterrand com a ultra-direita de Jean Marie Le Pen.

Os socialistas, cá como lá, alimentaram o ovo da serpente. Na expectativa de assim neutralizarem a direita moderada, sua rival directa nas urnas. Em França, o tiro saiu-lhes pela culatra: o Reagrupamento Nacional, liderado pela filha de Le Pen, tem hoje 89 deputados na Assembleia Nacional enquanto o PSF não conseguiu eleger mais do que 24, entre 577 lugares, nas legislativas de 2022. Tornou-se um partido irrelevante.

 

Neste confronto na RTP, Montenegro fez o que lhe competia. Desmascarando a irresponsabilidade do Chega, que exige agora o direito à filiação partidária e o direito à greve aos elementos das forças de segurança sem avaliar as consequências do que propõe. E esclareceu que só as 13 medidas mais emblemáticas do pacote de promessas eleitorais do partido da direita populista custariam cerca de 25,5 mil milhões de euros se fossem postas em prática - o equivalente a 9% do PIB anual português.

Contas que aparentemente Ventura não fez: embatucou ao ouvir isto, ficando sem resposta. 

Argumentou como? À maneira dele: com insultos.

Acusou o PSD de «traição», de «espezinhar as forças de segurança», de «enganar os pensionistas há 50 anos», de ser «uma prostituta política». Montenegro, para ele, é «o idiota útil da esquerda» - representante «de um sistema que nos tem dado corrupção, tachos e bandidos à solta».

 

Eis o caudilho do Chega, uma vez mais, a funcionar como guarda avançada do PS. Nem lhe passaria pela cabeça chamar alguma vez «prostituta política» a António Costa...

Ventura berra tudo quanto for preciso para gerar títulos na imprensa e cliques nas redes sociais. Mesmo baixando cada vez mais o nível. Comparado com ele, o Tino de Rans faz figura de estadista.

Este debate confirmou que há sérios problemas de governabilidade à direita com o líder do Chega em cena. À esquerda, ninguém imagina uma peixeirada destas entre Mariana Mortágua, Paulo Raimundo e Pedro Nuno Santos.

Montenegro nunca governará com quem lhe chama idiota e traidor, nem se coligará com quem acusa o PSD de prostituição política. Há limites para tudo. De algum modo, beneficiou com a estridência insultuosa de Ventura: atraiu votos moderados, separando as águas. «Muito bem», como diria João Adelino Faria pela enésima vez, repetindo a bengala verbal tão em voga na RTP.

Comer (14)

Risoto de citrinos com coelho

Pedro Correia, 20.01.24

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Desta vez apeteceu-me coelho. Mas encontro cada vez menos esta carne, outrora abundante entre nós. Rica em proteínas, com baixo teor de gorduras, é nutritiva e fácil de digerir.

Mas nada fácil de encontrar cá na cidade.

Tive de encomendar no talho. Dizem-me: está a desaparecer devido às pressões animalistas. Vêem os coelhinhos como peluches, coisas fofas. Há mesmo quem considere que comer coelho equivale a comer cão. Em casos extremos, protestam por parecer «quase canibalismo».

Enfim, os chalupas ganham terreno em todas as frentes. Na frente alimentar também.

 

Pedi para me cortarem o coelho em pedaços. Usei metade, o resto rumou ao congelador. Para consumir noutro fim-de-semana.

Num tacho largo, preparei o refogado: fio de azeite, meia cebola picada, folha de louro, malagueta sem sementes. Adicionei o coelho. Depois, meio copo de vinho tinto. Enquanto noutro tacho a água fervia. 

Chega o momento de verter uma chávena do arroz apropriado para esta receita, de origem italiana. Segue-se uma colher de sopa de manteiga. Junto uma pitada de açafrão. Misturo. Rego com parte da água quente, em pequenas doses, e vou mexendo sempre para não colar ao fundo. Vai ficando numa textura cremosa.

Convém redobrar a paciência nesta fase: é por uma boa causa.

 

Daí a cerca de dez minutos apago o lume. Envolvendo tudo num generoso pedaço de queijo parmesão a que junto rodelas de lima e dois ou três gomos de laranja, já que estamos no tempo delas. Sem esquecer umas folhas de salsa - embora o manjericão seja mais recomendável.

Interessante, o contraste dos sabores.

Abro uma garrafa de Defesa (2021) - da Herdade do Esporão, castas Touriga Nacional e Syrah. Custou-me 4 euros numa loja cá do bairro.

Soube-me o melhor possível. Belo almoço de Inverno, enquanto a chuva teima em cair pelo terceiro mês consecutivo. Na televisão, o noticiário do costume menciona casos de "seca severa" e até "seca extrema". É em Portugal, mas sinto que me fala dum país distante.

Da ignorância galopante

Pedro Correia, 17.01.24

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Há umas semanas tropecei nesta legenda no canal televisivo AR, que exibe as sessões do hemiciclo de São Bento e preenche intervalos com pequenos documentários relacionados com a Assembleia da República. 

Quem a escreveu, quem a editou e quem a pôs no ar parece desconhecer em que faixa correcta deve circular a língua portuguesa. Comprovando que nem o órgão legislativo escapa ao analfabetismo funcional, algo de que eu já suspeitava.

Coitado do nosso Rei D. Luís, ali retratado - sem culpa nenhuma deste tuguês macarrónico, com timbre do parlamento. O presidente da AR, Augusto Santos Silva, devia reservar um pouco do tempo que gasta em «malhar na direita» para vergastar a ignorância galopante no Palácio de São Bento. Antes de abandonar de vez a função: já não falta muito.

O jornalismo dos "cenários"

Pedro Correia, 10.11.23

Cenários e mais cenários e mais cenários. Os canais informativos abdicam cada vez mais da informação enchendo os estúdios de jornalistas que preferem dedicar-se ao comentário. Quando não sabem, inventam. Quando não têm certezas, especulam. Quando lhes falta informação, debitam uma narrativa ficcional.

"Cenarizam", como agora se diz. 

É também telenovela, embora com outro nome. No fundo, há poucas diferenças. A principal é sentarem-se em cadeiras em vez de sofás. 

 

Parece que foi combinado...

Pedro Correia, 11.10.23

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... mas garanto que não foi. Isabel Moreira, insuspeita de ser hostil para Pedro Nuno Santos, seu companheiro de bancada parlamentar, também se espantava ontem numa rede social - tal como eu aqui - contra esta moda, inaugurada na SIC Notícias, de ter em estúdio comentadores encarregados de comentar outros comentadores da mesma estação. Dividindo-os assim entre comentadores de primeira (os que são comentados) e os de segunda ou quinta categoria (quem não usufrui desse insólito privilégio).

Muito endogâmico: a bolha dentro da bolha dentro da bolha. Tal como se comprova igualmente no facto de agora quase todos se tratarem por tu durante a palração televisiva: formam a selecta irmandade da pantalha. 

Quanto mais íntimos parecem, mais põem os telespectadores à distância. Depois não se queixem das fracas audiências. Nada disso acontece por acaso.

Arrancar - não sabem dizer outra coisa

Pedro Correia, 15.08.23

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De repente, palavras claras, genuínas e consagradas da nossa bela língua portuguesa parecem ter desaparecido do mapa.

 

Já mencionei noutro lado o ominipresente colocar, que por influência brasileira mandou borda fora o mais simples e directo verbo pôr. Como se estivesse amaldiçoado.

Uma praga também denunciada pelo escritor e linguista Manuel Monteiro no seu livro O Mundo Pelos Olhos da Língua (Objectiva, 2022), aqui recomendado. Em que reproduz várias frases que se tornaram ridículas desde que esta absurda tendência foi sendo imposta:

- «Não colocar os pés, obrigado.»

- «Colocaram as nossas vidas em perigo.»

- «As pessoas que comem peixe grelhado e depois colocam dois litros de azeite.»

- «Secretário-geral da ONU apela a Putin para colocar fim à invasão.»

- «Presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia coloca água na fervura.»

Enfim, um modismo que redundou num monumental disparate. Sucedem-se as frases abstrusas com este verbo em regime de monopólio. Debitadas até por forças políticas que se proclamam antimonopolistas.

 

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Outros verbos que parecem cada vez mais fora de uso são começar ou iniciar. Substituídos ambos pelo feio e ambíguo arrancar. Este, agora, serve para tudo.

Ainda ontem ouvi, num noticiário da SIC: «A equipa minhota somou 1-0 e arrancou o campeonato com três pontos.»

Dois erros nesta frase. O primeiro, a utilização do verbo somar numa vitória futebolística de um-a-zero. O segundo, mais grave: este descabelado abuso do arrancar (que, não esqueçamos, significa puxar, partir, fugir, sair, extrair, colher, extirpar, remover, desenraizar, guilhotinar) como sinónimo exclusivo de começar.

Será atracção pelo erre dobrado? 

Ignoro. Mas não tenho a menor dúvida em concluir que estamos perante mais um disparate generalizado.

Cada ignorante copia o outro - e o resultado é este.

Teme-se o pior

Pedro Correia, 28.06.23

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Todos os dias docentes universitários - quase sempre os mesmos - acampam durante horas nas pantalhas, perorando sobre a mais vasta gama de temas, da guerra soviética na Ucrânia às alterações climáticas, passando pela desflorestação da Amazónia e das pequenas peripécias da política doméstica. Tanto faz: qualquer coisa lhes serve de motivo para longa prelecção televisiva.

Ficamos mais sábios ao escutá-los? Não. Espantosamente, estes professores parecem pouco ou nada ter para ensinar. Alguns distinguem-se por falar português de forma deficiente, parecendo cópias de carne e osso do rudimentar Google tradutor.

Uma senhora com pergaminhos académicos proclamava há dias a intenção de se pronunciar com «accuracy» a propósito já não me lembro de que assunto. Confirmando que em certas universidades cá da terra o idioma dominante se tornou o crioulo luso-"amaricano". 

Outra, também com lugar cativo em estabelecimento de ensino alegadamente superior, dizia que «quaisqueres» garantias estariam a ser dadas por alguém, irrelevante para o caso. E um cavalheiro, igualmente docente universitário, assegurava que «vão haver» surpresas num futuro próximo.

Quando os professores falam assim, admira quase nada que os alunos passem o tempo a grunhir inanidades, sem conseguirem debitar três frases seguidas de modo inteligível. Oiço-os nos transportes públicos: em cada cinco palavras, dizem «bué»; em cada três, dizem «tipo». Quase sempre rematado com o onomatopaico «iá»

São as supostas elites do futuro. Estão a ser formadas por «quaisqueres» especialistas em ignorância de alto nível. Teme-se o pior.

Abjecto

Pedro Correia, 25.06.23

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Diálogo ontem à noite, na CNN Portugal:

Jornalista - Aqui neste mesmo estúdio, quando começaram os problemas entre o ministério russo da Defesa e o grupo Wagner, perguntei-lhe se havia ou não dissonâncias entre estes dois. E respondeu-me que não: «Isso são fantasias.» Enganou-se nesta análise?

Major-general Agostinho Costa - Não. Uma coisa é o que parece. Outra coisa é o que é. (...) Temos de analisar e não nos iludirmos pelas aparências. Então temos um golpe de Estado e o cabecilha do golpe de Estado vai passar férias para a Bielorrússia? 

Jornalista - Mas também referiu que o grupo Wagner «é uma concepção de Gerassimov [comandante das forças armadas russas], é preciso ler a doutrina de guerra híbrida, e está a funcionar muito bem.» Está?

Major-general Agostinho Costa - Está.

Jornalista - Isto tem aparência de normal funcionamento?

Major-general Agostinho Costa - Reitero tudo quanto disse. Reitero tudo quanto disse. 

Jornalista - Também referiu aqui que «o grupo Wagner corresponde, na Rússia, às forças especiais norte-americanas, é mais ou menos a mesma coisa». Foi isso que referiu neste estúdio. Arrepende-se de comparar o grupo Wagner a exércitos regulares?

Major-general Agostinho Costa - De maneira nenhuma!

Jornalista - O Wagner não é uma força regular. 

Major-general Agostinho Costa - É uma força de assalto. É uma força especial de assalto. As forças de assalto têm várias missões. O Wagner, quando é enviado para o exterior, combate ao lado dos países para onde vai. Por isso é que tem tido este sucesso.

Jornalista - Há ou não, nestas últimas 24 horas, um dano reputacional para Vladimir Putin, bastante visível à própria opinião pública russa?

Major-general Agostinho Costa - Não o acompanho, não o acompanho. 

Momento patético de televisão

Pedro Correia, 18.06.23

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Pacheco Pereira, dizem, é historiador. Presume-se que um historiador seja rigoroso. Tudo ao contrário - lamento dizê-lo - do que foi a intervenção dele faz hoje oito dias, no programa de comentário político O Princípio da Incerteza, na CNN Portugal.

Falava-se nos cartazes exibidos na manifestação de protesto dos professores, no 10 de Junho, que visavam o primeiro-ministro e o ministro da Educação. Pacheco, cada vez mais próximo do Governo, considerou tratar-se de algo «praticamente obsceno», num acto de protesto «sem ponta por onde se pegue». E concluiu, severo e categórico: «Aquilo é de facto racista!» Ignoro se dizia o mesmo quando Passos Coelho, então primeiro-ministro, era recebido em sessões públicas com coelhos enforcados.

Sobre a autoria, que considerou anónima, também não vacilou: «Isto não é a Fenprof, isto é STOP. E Chega! Porque o Chega tem também um papel nas manifestações dos professores. No meio desta onda de radicalização, por estranho que pareça, as estruturas sindicais [da CGTP] e o PCP são dos menos imunes a essa radicalização completamente perigosa para a nossa democracia.»

É assim que se lançam os boatos. É assim que se espalha desinformação.

 

Sucede que os cartazes que mostravam uma caricatura grosseira e de mau gosto do primeiro-ministro não surgiram só no 10 de Junho: há muito que eram exibidos em manifestações de professores promovidas pela Fenprof.

Sucede também que não têm autor anónimo. Está identificado, deu entrevistas a vários órgãos de informação. Pertence não ao STOP, certamente não ao Chega. É um docente filiado - imagine-se - no Sindicato dos Professores da Zona Sul, da Fenprof. Contrariando em toda a linha a tese conspirativa desenvolvida na CNNP por Pacheco Pereira. Que devia pedir desculpa pelos vários erros, involuntários ou deliberados, que levou à antena no domingo passado.

Mas quem tiver essa ilusão é melhor aguardar sentado.

 

No mesmo programa, espantosamente, o presumível historiador fez o seguinte apelo após dizer o pior possível das tais caricaturas que ele considera racistas: «Eu gostava de ter um cartaz para a colecção da Ephemera. Agora não vão queimá-los e deitá-los todos fora! Guardem pelo menos um.»

Momento patético de televisão. 

Aqui não há transgénero

Pedro Correia, 02.02.23

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Chantal Goya no filme Masculin Féminin, de Jean-Luc Godard (1966)

 

Oiço muitas vezes por aí chamar "o" Iniciativa Liberal ao quarto maior partido parlamentar português. No seu programa de domingo à noite, Ricardo Araújo Pereira pôs a ridículo este absurdo desnorte gramatical exibindo excertos de noticiários televisivos (incluindo da própria SIC) que mencionavam a IL, alternadamente, como pertencente aos géneros feminino e masculino. Chegando-se ao ponto de ouvir jornalistas diferentes, no mesmo telediário, usarem as duas fórmulas. Questiono-me se não haverá livros de estilo e editores que assegurem o controlo de qualidade nestes canais para impedir esta algaraviada sem senso algum.

A norma gramatical é clara: artigo e substantivo concordam em género e número. Aqui não há transgénero: masculino é masculino, feminino é feminino. Nem há transnúmero: singular é singular, plural é plural.

Assim, dizemos os Verdes ao aludirmos a um partido que integra a actual coligação governamental na Alemanha - no plural. E a UNITA ou a FRELIMO quando mencionamos estes partidos políticos, um em Angola (União para a Independência Total de Angola), outro em Moçambique (Frente de Libertação de Moçambique). 

A sigla IL só deve ser lida com artigo feminino - por a primeira letra ser abreviatura de Iniciativa. Ninguém diz "o FRELIMO" ou "o UNITA". Diferente é se disserem "o partido Iniciativa Liberal" - só aí o artigo é masculino. Mas faz pouco sentido usar 24 letras para aquilo que pode ser dito só com duas.

Enfim, regras que deviam ser fixadas desde as aulas da instrução primária, mas que jornalistas supostamente com formação universitária são incapazes de aplicar. O que diz muito sobre a qualidade do nosso ensino. E sobre a qualidade do nosso jornalismo.

Da «seca extrema» ao «mau tempo»

Pedro Correia, 20.10.22

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Os canais de televisão que passam meses a fio soltando angustiados sinais de alarme sobre a «seca severa» ou a «seca extrema» em Portugal são os mesmos que, ao fim de um banal dia de chuva, desatam a aludir ao «mau tempo» - precisamente como sinónimo de clima chuvoso.

Voltou a acontecer ontem. Sem qualquer surpresa minha, devo confessar. Devia haver limites à hipocrisia, nem que fosse no plano atmosférico e em nome da mais elementar coerência jornalística. Mas pelos vistos não há.

O que diz Rentes de Carvalho

«Sou tão português que até dói»

Pedro Correia, 04.08.22

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Esta semana, um pouco ao acaso, dei ordem ao comando para ir saltitando de canal em canal. Por sorte, fixou-se na RTP 3, quando começava uma entrevista a José Rentes de Carvalho conduzida por Fátima Campos Ferreira, jornalista que consegue ser mais que entrevistadora: é uma verdadeira conversadora. 

Foi talvez o melhor trabalho jornalístico que vi até hoje sobre o inspirado autor de obras que tanto me cativaram, como Montedor e Ernestina. Tendo em pano de fundo a aldeia ancestral do escritor - Estevais, no concelho de Mogadouro, emoldurada pelas milenares fragas transmontanas.

Com a sabedoria dos seus 92 anos, e sem necessidade de fazer vénia seja a quem for, Rentes de Carvalho fala livremente do que pensa sobre os mais diversos assuntos. E desenrola o fio da memória, recordando os dias remotos da infância, quando a viagem entre o Porto e a aldeia exigia doze penosas horas de comboio. Hoje não é possível: o edifício da estação ainda lá se encontra mas os carris desapareceram e o transporte ferroviário há muito abandonou aquelas paragens descuradas pelos sucessivos titulares do poder político. Na última década, Mogadouro perdeu cerca de 20% da sua população.

 

Anotei algumas frases deste homem que foi guitarrista de Hermínia Silva, exerceu jornalismo no Brasil, deu aulas e publicou livros na Holanda, conheceu celebridades como Luis Buñuel e Vittorio de Sica em Paris, e se tornou um verdadeiro cidadão do mundo. Sem esquecer a voz do sangue nem as raízes onde forjou a identidade.

Aqui as reproduzo, com o devido aplauso a este nosso prezado confrade da blogosfera, fundador e prolífico autor do Tempo Contado:

 

«No escritor, o talento está em ter muitas pepitas de ouro, que são as palavras da língua portuguesa, e aproveitar uma ou outra com jeitinho.»

«O jornalismo ensina a ser rápido e breve, a simplificar, a não fazer farfalhas.»

«Eu vivi da língua portuguesa, nasci com a língua portuguesa, alimentei-me da língua portuguesa, ensinei a língua portuguesa. A língua portuguesa deu-me tudo aquilo que tenho.»

«O que mais me prende ao meu país é a língua. As pessoas em segundo lugar, mas a língua em primeiro.»

«Sou português portuguesíssimo, até à medula. Sou tão português que até dói.»

 

Para quem não viu, fica a sugestão. Esta entrevista, inserida na rubrica Primeira Pessoa, pode ser revisitada na página digital da RTP. Bem merece.

 

ADENDA: Acabo de saber, visitando o seu blogue, que Rentes de Carvalho está hospitalizado com covid-19. Daqui lhe envio votos de boas e rápidas melhoras.

O respeitinho é muito bonito

Pedro Correia, 06.07.22

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"Há que reflectir sobre o paradigma deste futebol."

"A boa colocação das linhas virtuais permite-nos fazer a avaliação certa dos lances."

"O clube não conseguiu traduzir a intensidade do seu jogo."

"Há jogos com outra intensidade competitiva."

"Essa resignação pode ser uma projecção da falta de exigência mais acima e de uma liderança mais efectiva em termos de balneário."

"A equipa não tem níveis de coesão suficientes para introduzir um jogador tão jovem."

"Caiu numa zona de bloqueio da qual vai ter de sair."

"Tem de integrar-se na filosofia colectiva da equipa que representa."

"As grandes equipas da Europa conseguem atingir níveis exibicionais significativos."

"O conceito do treinador baseia-se numa marcação mais subida."

"Do ponto de vista do esqueleto táctico, a disposição no terreno faz sentido."

"São dois jogadores verticais que dão mais profundidade à equipa."

"O jogador X mostrou um ritmo baixo, mostrou alguns pormenores."

"Queremos contribuir para um futebol menos macrocéfalo."

"O futebol é uma lógica de conjunturas."

 

Perceberam?

Eu também não. É uma espécie de dialecto autónomo, só praticado por alguma gente da bola e que tem como principal cultor um jornalista televisivo capaz de rivalizar em fôlego com Fidel Castro, que em 1998 falou sete horas e um quarto sem parar na Assembleia Nacional cubana.

Quem não seja iniciado neste jargão muito particular dos "níveis exibicionais", do "esqueleto táctico" e da "intensidade competitiva" mantém-se totalmente à distância. Porque o dialecto acima transcrito, ao contrário da esmagadora maioria dos restantes, não foi criado para comunicar: existe para cavar um fosso deliberado entre o seu inventor e o comum dos mortais. A razão? Incutir respeito. Ou respeitinho, mais à portuguesa.

É uma receita infalível. Porque, em regra, os portugueses só respeitam o que não entendem. E aqui entre nós: quem é que entende minimamente o que significa "filosofia colectiva", "zona de bloqueio", "jogadores verticais" e "marcação subida"?

O respeitinho é muito bonito.