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Delito de Opinião

Até parecia o Dia D nas praias da Normandia

Pedro Correia, 12.10.21

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É fácil imaginar uma agência de comunicação, das várias que trabalham para o Governo, conceber uma frase forte, daquelas que produzem efeito bombástico. Numa reunião de criativos, agora por videoconferência como é de regra, saiu a ideia luminosa: «Vamos chamar-lhe Dia da Libertação.» António Costa foi informado, deve ter sorrido e levantado o polegar. O slogan transformava-se em verdade oficial.

Coisas destas acontecem em todos os governos de todos os países civilizados. Menos normal é que os órgãos de informação acolham a propaganda e a reproduzam de modo acrítico. Mas foi isso que aconteceu. De repente passámos a ver o slogan impresso como se tivesse sido ditado por Deus a Moisés no Monte Sinai. «Dia da Libertação», a propósito do fim das medidas mais restritivas relacionadas com o coronavírus.

Não faltou quem tivesse visões de Costa numa lancha de desembarque nas praias da Normandia ou liderando uma fileira de blindados prontos a livrar Paris do jugo nazi. O primeiro-ministro de camuflado, imitando não apenas Gouveia e Melo, mas Patton ou Eisenhower. Como se viajássemos na máquina do tempo.

Nenhum criativo se atreveu a tanto. Nem era necessário: a mensagem “positiva” já tinha passado. Mesmo que muitas medidas restritivas subsistam – algumas incompreensíveis, como os jovens serem dispensados de máscaras nas discotecas mas não nas salas de aula. Mesmo que continuem a morrer portugueses com covid-19. Mesmo que os especialistas alertem para uma quinta ou sexta vaga. “Libertação” nenhuma, excepto na propaganda com tonalidades épicas e sem o menor sentido do ridículo.

Sensação reforçada de liberdade terá existido – isso sim – em diversos municípios do país, demasiado tempo submetidos à mesma sigla partidária ou até ao mesmo autarca, daqueles que vão e regressam como as ondas da praia. Um deles foi o de Coimbra, Manuel Machado, que permaneceu duas décadas na presidência da câmara. E sai sem concretizar várias promessas. O seu sucessor eleito, José Manuel Silva, já apontou o dedo ao primeiro-ministro, que andou por Coimbra sem gravata, durante a campanha, anunciando o início da maternidade para um prazo máximo de três semanas subsequentes ao dia 27 de Setembro. A promessa vai ser cobrada, adverte o novo alcaide.

Mas afinal a que se deveu o recuo eleitoral do PS nas autárquicas?

O diagnóstico mais lúcido veio de um deputado socialista: Sérgio Sousa Pinto, no programa A Lei da Bolha, da TVI24.

«A classe média continua a ser profundamente flagelada, desde logo fiscalmente. O tempo passa sem ver os seus rendimentos sofrerem um incremento digno de nota, a economia doméstica continua a ser constrangida, com salários baixos e tributação muito elevada. As famílias vivem neste aperto, com dificuldade em constituir poupanças, esmagadas por uma carrada de taxas, taxinhas, impostos, multas - tudo serve para aspirar recursos à classe média.»

Quem fala assim não é gago. E coloca a honestidade intelectual acima da fidelidade partidária.

 

Texto publicado no semanário Novo

A noite política mais longa do ano

Pedro Correia, 05.10.21

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O presidente do PSD, que vira mais vezes baterias contra os comentadores do que contra o primeiro-ministro, não resistiu à tentação: no discurso de vitória da coligação anti-PS em Lisboa disparou contra esse alvo de estimação, acentuando que a reviravolta na capital do país ocorreu «contra as sondagens e alguns comentadores». Não mencionou nomes, nem era necessário: naquelas entrelinhas o nome de Marques Mendes quase parecia iluminado com luzinhas de néon.

Mendes foi um dos protagonistas do comentário político na noite eleitoral autárquica da SIC. Em estúdio, havia dois conselheiros de Estado – evidenciando que o canal do senador Balsemão joga cada vez mais forte no terreno institucional. Ambos, reconheça-se, habitualmente nada simpáticos para Rui Rio. Cada qual por seu motivo.

Fiel ao seu estilo, Marques Mendes antecipou «uma surpresa» quando todos os canais noticiosos estavam ainda impedidos por lei de divulgarem as sondagens à boca das urnas que já conheciam muito antes das 21 horas. Mensagem cifrada, que os espectadores mais atentos logo descodificaram: havia ali uma derrocada em perspectiva.

De facto, o maior derrotado da noite era Fernando Medina, o alcaide de Lisboa, que todos os canais sempre trataram com extrema complacência nos meses precedentes. Ao ponto de figurar entre os comentadores fixos da TVI24 até data bem recente. Como se fosse ele também já conselheiro de Estado.

Rei morto, rei posto: o protagonismo pela positiva coube desta vez a outros autarcas. Um sorridente José Manuel Silva, antigo bastonário dos Médicos, proclamando: «Já recolocámos Coimbra no mapa.» Um eufórico Santana Lopes, na Figueira, falando como se resumisse um lema do seu percurso de décadas: «Cair, levantar.» Um ainda aturdido Carlos Moedas, com Medina vencido, antecipando outros combates: «Este novo ciclo começa em Lisboa mas não vai acabar em Lisboa.»

As noites eleitorais nas televisões têm os seus momentos dignos de antologia. A do passado domingo, por exemplo, trouxe à tona um dos candidatos que andaram mais ausentes em toda a campanha: Basílio Horta, em Sintra. Ninguém deu por ele em debate algum apesar de liderar o segundo concelho mais populoso do país. Teimosia dele ou omissão escandalosa dos canais? A verdade é que na noite política mais longa do ano tivemos Sérgio Sousa Pinto na TVI24 a enviar-lhe um abraço amistoso em directo e uma ansiosa Ana Gomes na SIC Notícias exprimindo muita vontade de que o camarada Basílio vencesse (sim, venceu, embora perdendo a maioria absoluta).

Na vertente informativa, o apontamento de antologia ocorreu quando fomos informados por uma repórter no terreno: «A abstenção aqui foi de 48%, o que quer dizer que a taxa de participação chegou aos 52%.»  Quem disse que somos fracos a fazer contas?

E por falar em aritmética: como é que num país apenas com 8,4 milhões de habitantes maiores de 18 anos “mais de 9 milhões de portugueses foram chamados a votar?” Mistério que nem um conselheiro de Estado é capaz de esclarecer.

 

Texto publicado no semanário Novo

Como dar xeque-mate ao lugar-comum

Pedro Correia, 26.09.21

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O lugar-comum é um dos maiores inimigos do jornalismo. Infelizmente, as campanhas eleitorais costumam ser férteis nisto: por estes dias, multiplicam-se os chavões semânticos, com valor jornalístico nulo. E que apenas revelam preguiça mental e um olhar desatento à realidade.

Uma dessas bengalas verbais de que se usa e abusa é “campanha morna”. Eufemismo para evitar dizer-se que quase ninguém acorreu ao encontro do candidato. Ou candidata, como a líder do PAN, que optou por visitar esquilos e cegonhas no Parque Biológico de Gaia. Mesmo sabendo que ali não recolhia votos.

As eleições são autárquicas, mas a cobertura televisiva é feita por jornalistas que andam atrás dos líderes nacionais dos partidos. Que aqui parecem protagonistas do filme errado.

 

A verdade é que muitas acções de campanha não teriam ninguém nas ruas sem a presença tentacular dos repórteres de imagem. De eleição para eleição, os planos vão ficando cada vez mais apertados, evidenciando que arruadas ou comícios pertencem ao passado. Em tempos, um ilustre pensador confessou ter o sonho de ver Portugal transformado na Suíça, onde o desinteresse pela política chega ao ponto de poucos ali saberem quem exerce a função presidencial – sinal inequívoco de que as coisas funcionam, sejam quem forem os protagonistas. Aos poucos, vamo-nos aproximando do cenário suíço. Infelizmente, apenas nisto.

Nenhum repórter que cubra uma campanha eleitoral precisa de dizer que anda morna. Basta exibir as imagens. Foi o que fez a RTP, limitando-se a alargar o plano numa acção promovida pelo PSD no Alto Minho: Rui Rio prometia comparecer mas nem isso parece ter atraído os militantes. Era possível contá-los pelos dedos.

Jornalismo? Claro. Com poucas ou nenhumas palavras. Em televisão, sobretudo, menos é mais.

 

Por vezes não basta mostrar: é preciso interpretar. A SIC soube fazê-lo seguindo António Costa em campanha eleitoral. O secretário-geral socialista deslocou-se a Celorico de Basto, terra adoptiva de Marcelo Rebelo de Sousa. «Temos, mesmo aqui, de entrar num novo ciclo de mudança», disse Costa. Parecia uma declaração banal, mas fazia toda a diferença por estar em território marcelista, onde o PS nunca ganhou. E de não haver memória de por ali ter passado um secretário-geral do partido da rosa.

Despique Belém-São Bento transferido para terras de Basto: eis um confronto nada morno em perspectiva.

 

A história interessante está sempre lá: basta ter olho para vislumbrá-la e arte para narrá-la. Além da indispensável vontade de pôr em prática tais virtudes. Por vezes detecto-a mais nos repórteres veteranos do que em alguns recém-chegados à profissão, que já exibem um ar muito enfastiado.

Um dos veteranos que fazem a diferença para melhor é José Manuel Mestre, da SIC. Acompanhando a caravana socialista, teve este apontamento de reportagem: «António Costa é uma espécie de primo rico que vem de Lisboa com os bolsos cheios.»

Tudo dito numa frase. Sem rodriguinhos nem eufemismos. Dando xeque-mate ao lugar-comum.

 

Texto publicado no semanário Novo

«Não na distância. Aqui, no meio de nós. Brilha»

Pedro Correia, 21.09.21

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É preciso morrer um Presidente da República para ouvirmos Mozart e recitação da melhor poesia nos nossos canais de notícias. Aconteceu domingo passado, no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, perante os restos mortais de Jorge Sampaio. Cerimónia sóbria e digna, que enobrece o Estado português: mal vai o país que seja incapaz de honrar aqueles que bem o servem.

Foi um momento admirável, a vários títulos. E as televisões estavam lá para mostrar. Por instantes alheadas das doses infindáveis de música pimba e das intermináveis tricas em torno da equipa do Benfica que preenchem horas e horas e horas de emissão.

Vera e André Sampaio, que muitos de nós recordamos adolescentes, quando o pai desempenhava funções como secretário-geral do PS e presidente da Câmara de Lisboa antes de ser eleito Chefe do Estado, tiveram intervenções comovidas e comoventes. Agradecendo a presença das personalidades ali reunidas, com destaque para o Rei de Espanha, e as expressivas mensagens de Timor-Leste recebidas em vídeo.

Sampaio, que em vida dividiu águas no seu próprio partido, ergueu-se post mortem como traço de união entre portugueses de diversos matizes. Foi o seu último serviço prestado à República que jurou servir.

Lá estava, a confirmá-lo, o actual inquilino do Palácio de Belém. Marcelo Rebelo de Sousa – que teve o primeiro grande combate político da sua vida numa corrida autárquica em Lisboa em que foi derrotado por Sampaio, já lá vão 32 anos – mostrou-se à altura da circunstância com outra notável peça oratória. Na linha da que já pronunciara no 25 de Abril.

«Para Jorge Sampaio, Portugal nunca foi uma abstracção. Nunca foi uma fortaleza fechada, egoísta e distante. Para Jorge Sampaio, foram – um a um – os milhões de portugueses», declarou o católico Marcelo neste vibrante elogio fúnebre ao ateu Sampaio, enterradas as contendas do passado.

É nestas ocasiões que os melhores repórteres, atentos e cultos, fazem a diferença. «Atrevo-me a destacar, nesta cerimónia, as intervenções dos filhos, porque herdaram claramente do pai a eloquência e a capacidade de, num dos dias mais difíceis das suas vidas, falarem ao coração do país», observou Débora Henriques, destacada pela SIC para a cobertura das exéquias nos Jerónimos. Com palavras precisas e sentidas, bem pronunciadas e que fogem à vulgaridade.

Palavras adequadas naquela manhã de luto marcada por outros momentos carregados de simbolismo. A recente viúva Maria José Ritta já no cemitério do Alto de São João, beijando a bandeira nacional que o Estado português lhe entregou das mãos de Marcelo. A maestrina Joana Carneiro dirigindo a Orquestra Sinfónica Portuguesa em trechos que certamente emocionariam o melómano Sampaio. Maria do Céu Guerra recitando tão bem o magnífico poema de Jorge de Sena, autêntico hino à transcendência perante a fragilidade humana: «Uma pequenina luz bruxuleante e muda / Como a exactidão, como a firmeza, como a justiça, / Apenas como elas, / Mas brilha. / Não na distância. Aqui, / No meio de nós. / Brilha.»

 

Texto publicado no semanário Novo

Do IMI em Braga à batalha de Waterloo

Pedro Correia, 15.09.21

Alguém que acompanhe com atenção os debates políticos que vão preenchendo os serões de Setembro só pode sentir pena do ministro com a tutela da habitação. De Viana do Castelo a Beja, de Bragança a Faro, este é considerado o problema principal do país. O preço do metro quadrado dispara, o mercado de arrendamento é inexistente, o custo de qualquer banal apartamento afugenta os jovens dos centros das cidades, cada vez mais despovoadas.

A isto chama-se serviço público. Aqui distingue-se a RTP3, que tem promovido debates entre todos os candidatos às capitais distritais, sem deixar nenhum partido de fora. Enquanto outros canais exibem profunda indiferença em relação às eleições autárquicas, preferindo dedicar sessões contínuas àquilo a que chamam desporto, eufemismo para designar o futebol.

Graças a estes debates – os autárquicos, não os da bola – ficamos a conhecer melhor Portugal. O passe social para transportes públicos, por exemplo, é inexistente em Viseu. Braga pode orgulhar-se de ser a capital distrital que mais aumentou a sua população entre 2011 e 2021, contrariando a tendência nacional. Vila Real, Bragança e Viseu são as três sedes de distrito que continuam sem serviço de linha férrea. Acima de 15% dos actuais residentes em Faro têm nacionalidade estrangeira, o que talvez explique o facto de aqui existir, em termos médios, o segundo arrendamento para habitação mais caro do país.

Tudo isto é informação – e esclarece muito mais do que as incessantes discussões em estúdio sobre os reforços do Benfica.

Mas não ficamos só a conhecer aspectos habitualmente desconhecidos de Portugal: ficamos também a conhecer alguns protagonistas partidários à escala autárquica. Uma dirigente comunista em Braga, por exemplo, defende a redução da carga fiscal, propondo que o IMI baixe 5%. Um dos candidatos do PAN utiliza sem complexos expressões que ferem algumas sensibilidades animalistas, como «a raposa a guardar o galinheiro». O representante do Chega na Guarda propõe uma «greve de fome» junto da Assembleia da República para solucionar os problemas da cidade mais alta do país.

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A SIC Notícias também tem organizado debates, embora em número mais reduzido. O primeiro juntou alguns dos candidatos a Lisboa e foi rotulado de «decisivo», com manifesto exagero. Teve o mérito de sair do estúdio e o inconveniente de ficar sujeito aos caprichos do vento nocturno em espaço exterior, mas na difícil moderação deste bate-boca Clara de Sousa comportou-se com o profissionalismo de sempre. Não esboçou sequer um sorriso ao ouvir a candidata do PAN defender que o novo aeroporto de Lisboa deve situar-se em Beja para evitar «custos ambientais». Nem exibiu um esgar de surpresa quando o cabeça-de-lista da Iniciativa Liberal, demonstrando erudição, pronunciou a palavra «merda».

Juram-me que terá sido ele «o vencedor» pois o que dissera estava «a bombar nas redes sociais». Não deixa de ser irónico: a palavra surge historicamente associada a Pierre Cambronne, o último dos generais de Napoleão, feito prisioneiro na batalha de Waterloo.

 

Texto publicado no semanário Novo

Das vacinas aos vinhos passando pelos golos

Pedro Correia, 08.09.21

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Neste mês de Agosto que chegou ao fim, três temas dominaram as atenções dos telediários. Desde logo, a pandemia. Mas com alusões mínimas ao que se passa lá fora: é uma pandemia especial, muito nossa, muito portuguesa. O mundo andará melhor? Abrem-se luzes de esperança nos cinco continentes? Difícil saber espreitando as janelas representadas pelos principais blocos noticiosos da SIC, da TVI e da RTP: o que ocorre para além de Valença ou de Vila Real de Santo António interessa quase nada às televisões portuguesas.

Na última semana do mês, o Jornal da Noite, da SIC, dedicou em média 11 minutos ao tema covid-19. Foi o campeão nesta área, derrotando a concorrência: a RTP, à mesma hora, reservou 8 minutos à questão enquanto a TVI lhe atribuiu 6,5 minutos igualmente em termos médios.

Ao longo destes sete dias, observados e cronometrados com atenção, o destaque individual vai também para a SIC: chegou a ocupar 19 minutos e 10 segundos com isto. Indiferente à crescente aversão dos telespectadores às imagens de agulhas espetadas em braços à hora do jantar. Quase sempre as mesmas, aliás, extraídas dos arquivos.

 

Segue-se um clássico dos nossos telediários: o desporto. Ou antes, o futebol.

Portugal é um dos raros países que em matéria desportiva tomam a parte pelo todo: quase não sobra espaço nem tempo para mais nada. Aqui o primeiro lugar do pódio coube ao Jornal das 8, da TVI: 12 minutos, em termos médios, consagrados à bola nesta semana em que Agosto se despediu. Seguiu-se a RTP, com 6,5 minutos. E aqui a SIC só conseguiu ser terceira: 5,5 minutos, em média, por cada bloco noticioso em sinal aberto no horário nobre.

 

Mas o canal que já teve sede em Carnaxide recuperou vantagem noutra área temática privilegiada neste Verão semi-desconfinado: a do lazer. Com roteiros de festarolas e romarias, sugestões de pernoitas e lautas mesas, vistas desafogadas a contemplar prados verdejantes ou a imensidão oceânica, esbeltos tornozelos mergulhados à borda da piscina. Nada menos do que 18 minutos do Jornal da Noite, em termos médios, foram preenchidos em louvores à boa vida nessa última semana completa de Agosto. Esmagando a concorrência: a TVI ficou-se pelos 9,5 minutos e a RTP não ultrapassou os 4,5 minutos.

No último sábado do mês, superando-se a si própria, a SIC ocupou 33 minutos e 24 segundos com este bloco. Noutros telejornais, de outros países, este é o tempo que habitualmente se reserva ao conjunto das notícias do dia.

Verdadeiras notícias, não roteiros gastronómicos e recreativos.

 

Valha a verdade que, nesses sete dias, os três canais concederam atenção a outras matérias: o drama do Afeganistão, o congresso do PS, o estado de saúde do antigo presidente Jorge Sampaio. Mas nada tão constante, tão reiterado, tão obsessivo como esta insólita trilogia: coronavírus, futebol e boa mesa.

Do espectáculo das agulhas a penetrar na pele ao da bola a entrar na baliza. Com um copo de vinho a rematar. A televisão, como a vida, é feita de estranhas parcerias.

 

Texto publicado no semanário Novo

Luzes, câmaras, acção: há um novo herói na política

Pedro Correia, 01.09.21

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Salazar, quando alguém do seu círculo íntimo lhe sugeria determinado académico como hipotético candidato a uma pasta ministerial, respondia à sua maneira lacónica, com manha de camponês: «Primeiro passem-mo na televisão.»

Eram outros tempos, claro. Mas o essencial mantém-se: prestar boas provas no rectângulo televisivo continua a ser o supremo teste de avaliação para quem queira desempenhar funções políticas.

O Presidente da República sabe isto melhor que ninguém: durante anos foi comentador televisivo. Usando os trunfos todos: aparecia em horário nobre, em sinal aberto, à hora do jantar. Como se fosse muito lá de casa, quase como um membro da família.

Sem partido disposto a dar-lhe projecção, sem cargo institucional que lhe concedesse notoriedade, o actual inquilino de Belém fez o tirocínio da candidatura a partir de um estúdio televisivo. Com o êxito que sabemos.

As próximas presidenciais ainda estão distantes, mas os longos percursos são feitos de pequenos passos. Esqueçam as redes sociais: as aparições televisivas continuam a ser a chave do sucesso na política. Daí a futura fornada de presumíveis candidatos à chefia do Estado ter começado já a marcar presença nos ecrãs. Alguns decalcam o modelo que Marcelo instituiu há duas décadas. Mesmo que digam o contrário, isto funciona como a prova do algodão: não engana.

Mas permanecer sentado a comentar o que outros fizeram ou disseram pode não bastar para novos patamares de exigência. Sobretudo em tempo de crescentes dificuldades, quando os portugueses esperam menos palavras e mais acção de quem se dispõe a dirigir o Estado.

É um contexto que favorece o aparecimento de novos protagonistas. E nem há que inventá-los: eles já andam aí. Aconteceu sábado passado em Alcabideche, no concelho de Cascais: o vice-almirante Gouveia e Melo recebeu vibrantes aplausos no pavilhão onde estavam a ser vacinados adolescentes. Foi um tributo público, aparentemente espontâneo, de pessoas comuns. Gratas pelo êxito no processo de vacinação. E também por verem gente competente em postos de comando.

Gouveia e Melo a quem o Expresso – jornal insuspeito de alimentar populismos – chamava em Junho “O almirante salva-vidas”, agradeceu a ovação, como se impunha. À noite, os telediários abriram com estas imagens. «Passem-mo na televisão», diria Salazar.

Marcelo, que domina os códigos televisivos como poucos, intuiu que havia ali alguém capaz de rivalizar com ele em protagonismo e apressou-se a reagir. Não por ciúme, mas pelo contrário: até lhe agradará incentivá-lo. No dia seguinte, pela manhã, acorreu ao mesmo local. Garantindo assim presença em nova ronda de telediários – desta vez à hora do almoço de domingo. A seu lado, o vice-almirante. Aliás recém-condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis. Onde? No Palácio de Belém.

Em política, nada acontece por acaso. Nada melhor do que a televisão para nos transmitir sinais. Só há que saber interpretá-los.

 

Texto publicado no semanário Novo

Omnipresente, embora ainda não omnipotente

Pedro Correia, 25.08.21

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António Costa não é omnipotente, como desejariam alguns dos seus apaniguados, mas tornou-se omnipresente. Por obra e graça da televisão, entre nós ainda o principal veículo de informação que uns quantos anseiam transformar em instrumento de propaganda.

Nos últimos trinta dias antes de rumar a férias, o primeiro-ministro apareceu 26 vezes nas pantalhas. Falou sempre em contexto positivo – pôr o país a crescer, estimular a economia, dar combate com sucesso à pandemia, «libertar a sociedade». Não precisa de uma agência de comunicação para lhe recomendar isto: experiente profissional da política, calejado em quatro décadas contínuas de exercício desta actividade, Costa sabe muito bem que o contexto é tão importante como a mensagem. Se os portugueses se habituam a associá-lo a mensagens insufladas de esperança e optimismo, isto tem inevitáveis reflexos nas sondagens.

Ao longo desse mês que ficou para trás, as más notícias – quando as havia no alinhamento dos telediários – ficavam confiadas a outros membros do Governo. À ministra da Presidência, coitada, coube a ingrata tarefa de anunciar aos portugueses que era necessário apresentarem certificados de vacinação «ou fazerem um autoteste» ao novo coronavírus antes de entrarem em restaurantes aos fins-de-semana. Ao ministro da Economia ficou reservado o nada invejável ónus de confirmar a insolvência da empresa de vestuário Dielmar, uma das maiores empregadoras do distrito de Castelo Branco.

A Costa – com fato de primeiro-ministro ou na pele de secretário-geral do PS – coube o reverso da medalha. Usou como quis o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) aprovado em Bruxelas e os milhares de milhões de euros que lhe estão associados para fazer política à sua maneira. Só lhe faltou a canção do Sinatra a servir-lhe de banda sonora.

A 9 de Julho, antecipou que 16% das verbas daquele plano serão destinadas à habitação. No dia seguinte, congratulou-se porque 70% dos portugueses já haviam recebido pelo menos uma dose da vacina. A 19 de Julho, na Pampilhosa da Serra, presidiu à cerimónia de assinatura de contratos para a criação de áreas integradas de gestão da paisagem florestal no âmbito do PRR. A 20, proclamou: «Temos um conjunto de investimentos que assegurarão o crescimento sustentado da economia portuguesa nos próximos anos.» A 21 de Julho, no debate do estado da nação, nova mensagem com choruda verba explícita: «Onze mil milhões de euros [do PRR] são dirigidos em encomendas às empresas.»

E por aí adiante. Vimo-lo na apresentação de três novas carruagens da CP compradas a Espanha, a anunciar fundos europeus para construir a barragem do Pisão, a comentar os dados favoráveis da economia portuguesa no segundo trimestre, a tuitar sobre o ouro de Pedro Pichardo no triplo salto olímpico. A 29 de Julho foi ele a dar a boa nova aos compatriotas, no Palácio da Ajuda: terminariam as limitações horárias impostas pela pandemia.

Merece umas férias bem repousadas. E nós também.

 

Texto publicado no semanário Novo

Tira a máscara, Soraia, tira a máscara

Pedro Correia, 18.08.21

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A televisão, espelho da sociedade, permite-nos antecipar tendências. Observamos isso se estivermos bem atentos. E às vezes nem é nas notícias: é na publicidade.

Reparem num anúncio a uma rede de supermercados que costuma anteceder alguns telediários. À primeira vista, parece desenrolar-se num cenário irreal: um jovem casal com uma filha fez as compras e prepara-se para o pagamento junto à caixa. Estão com ar de manhã de Natal, como se o acto de pagar nos inundasse de felicidade.

Mas talvez o semblante feliz que exibem se deva apenas ao facto de nenhum deles usar máscara.

 

Reparamos neste anúncio como se estivéssemos a contemplar um futuro cada vez mais próximo – golpe de génio dos criativos que o conceberam. Acontece que a hora da “libertação”, que no nada inocente calendário político do primeiro-ministro deve anteceder em escassos dias o momento de votarmos nas eleições autárquicas, não aguardará por 26 de Setembro: é cada vez mais evidente que os portugueses já estão a dizer adeus à máscara ao ar livre. Com o mesmo grau de autonomia face às imposições estatais que revelaram no final do Inverno de 2020, quando começaram a usá-las enquanto no Governo ainda se hesitava sobre o rumo a trilhar e a zelosa directora-geral da Saúde advertia o país contra a “falsa sensação de segurança” das máscaras.

Foi essa mesma rapidez de reflexos – muito superior às indecisões oficiais – que levou tantos de nós a optar pelo teletrabalho e a retirar os filhos das escolas antes de haver qualquer determinação governamental nesse sentido.

 

Agora procede-se da mesma forma, mas em sentido inverso. Mesmo com coimas pesadas e absurdas, como há dias as televisões noticiavam: mais de 20 pessoas, certamente com ar menos feliz do que o casal do tal anúncio, já tiveram de largar 50 euros «por não usarem máscara nos acessos às praias». Agentes da Polícia Marítima na caça à multa: eis a versão contemporânea dos heróis do mar.

É curioso que o mesmo Estado que há um ano e meio nos alertava contra a «falsa sensação de segurança» das coberturas faciais estimule agora o seu uso fetichista mesmo nas situações mais inconcebíveis, induzindo assim comportamentos fóbicos.

Alguns canais televisivos levam isto ao extremo, impondo a jornalistas e apresentadores a utilização permanente de tal coisa. Talvez a situação mais insólita tenha ocorrido com uma jovem do Porto Canal forçada a usar máscara no alto de uma montanha enquanto entrevistava um senhor obviamente desmascarado.

Pobre moça: a cena quebrava o coração do telespectador mais sensível.

 

Em momentos destes, a máscara transforma-se em cruel instrumento de humilhação. Sem necessidade alguma. Daí o meu aplauso a Soraia Ramos, jornalista da RTP, que em recente reportagem na Hungria, vendo toda a gente sem máscara em torno dela, tirou-a em directo, fiel ao velho adágio: «Em Roma, sê romano.»

É outra forma de fazer reportagem. E de antecipar tendências – desta vez no espaço informativo, sem necessidade de aguardarmos pelo intervalo publicitário.

 

Texto publicado no semanário Novo

Combater o esquecimento é serviço público

Pedro Correia, 09.08.21

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Uma das missões fundamentais do jornalismo é resgatar do esquecimento factos relevantes da nossa vida colectiva. Alguns destes factos, como no célebre filme de John Ford, vão dando lugar a mitos. Sucedeu isto a propósito das auto-designadas Forças Populares 25 de Abril, organização terrorista que esteve activa já no Portugal democrático. O recente desaparecimento de Otelo Saraiva de Carvalho funcionou como pretexto para avivar a memória já muito difusa daqueles sete anos em que o Estado de Direito permaneceu sob ameaça constante de um grupo armado que assaltava, destruía, feria e matava. Sob a liderança de Otelo, que ao obter apenas 1,5% nas presidenciais de 1980 viu definitivamente derrotado nas urnas o seu projecto de implantar uma “democracia popular”. Na certeira síntese de Ramalho Eanes, coube-lhe então a «autoria de desvios políticos perversos, de nefastas consequências». Como autor moral ou cúmplice de actos de violência extrema, incluindo quase duas dezenas de homicídios comprovados em tribunal.

A RTP destacou-se neste combate contra a desmemória num documentário intitulado Palavra de Otelo. Da jornalista Márcia Rodrigues, com imagem de Hélder Oliveira e edição de Paulo Nunes. Com recurso ao seu rico acervo de imagens, e a uma entrevista feita a Otelo em 1996, a estação pública desvenda-nos aqui fragmentos do complexo retrato do homem que quis implantar em Portugal o “verdadeiro socialismo” com recurso às baionetas. Muito antes de haver FP-25.

No Verão quente de 1975, por exemplo, Saraiva de Carvalho fez esta declaração textual aos jornalistas: «As forças armadas nesta altura estão dispostas a entrar num caminho muito duro, de repressão, que temos evitado até agora. Aqui há uns tempos, disse algumas palavras muito candidamente através da Rádio Renascença dizendo que oxalá não tenhamos de pôr no Campo Pequeno os contra-revolucionários, mas estou convencido de que a curto prazo temos de [os] pôr mesmo. A coisa parece que se está a encaminhar nesse sentido, infelizmente. Vai-se tornando impossível ter uma revolução socialista, na totalidade, por via pacífica.»

Nas últimas décadas de vida, este homem que durante o PREC comandava a mais destacada força de intervenção militar e ordenou centenas de prisões políticas sem mandado judicial, sempre negou ter proferido a frase que Márcia Rodrigues resgatou da poeira dos arquivos. Prestando verdadeiro serviço público.

Notável também, o documentário intitulado FP-25 – Terrorismo Português, que passou numa destas noites na CMTV. Da jornalista Mónica Palma, com edição de Francisco Mata. Aqui dá-se voz às vítimas – às que sobreviveram aos actos de terrorismo naquele Portugal da década de 80, às que sofreram feridas jamais cicatrizadas. Fala-se do filho que aos 17 anos viu o pai baleado na nuca à porta de casa, fala-se de um jovem agente da PJ que deixou viúva grávida, fala-se daquele bebé “contra-revolucionário” que dormia no berço quando foi morto à bomba. Avivam-se memórias anestesiadas pelo esquecimento. Serviço público também.

 

Texto publicado no semanário Novo

 

Retrato do País em sete dias de telejornal

Pedro Correia, 03.08.21

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Que retrato “do país e do mundo” – como diz um conhecido apresentador de notícias na televisão, colocando Portugal fora do globo – nos fica ao ouvirmos as frases de abertura dos principais blocos informativos de três canais durante uma semana?

Fica-nos um retrato em que a pandemia impera, um ano e meio depois. Na política, só o primeiro-ministro existe, apesar de chefiar um Governo minoritário. As notícias internacionais são escassas, como se do estrangeiro só nos interessassem os milhões que vão chegar da tal bazuca europeia que tanto ajudam António Costa na sua propaganda interna.

Fica-nos a imagem de um país resignado, abúlico, sem iniciativa, sempre à espera daquilo que os “lá de cima” e os lá de fora decidirem. Como quase sempre.

 

Domingo

RTP: “Milhares de passageiros em terra: a greve dos trabalhadores da Groundforce cancelou mais de 370 voos.”

SIC: “Está dominado o incêndio de grandes dimensões que deflagrou ontem em Monchique.”

TVI: “Só no aeroporto de Lisboa foram cancelados hoje mais de 300 voos.”

 

Segunda

RTP: “72% dos portugueses querem que a vacina Covid-19 seja obrigatória.”

SIC: “Inglaterra avançou para a última fase do desconfinamento.”

TVI: “Imagens das últimas horas na Áustria e de novo na Alemanha revelam a ferocidade das inundações.”

 

Terça

RTP: “O Parlamento rejeitou por maioria a audição ao ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, que devia ser questionado sobre os festejos do Sporting.”

SIC: “O primeiro-ministro prevê o que chama "libertação total da sociedade" no final do Verão.”

 TVI: “O homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, concretizou o lançamento da sua cápsula espacial.”

 

Quarta

RTP: “A DGS ainda não decidiu, mas o primeiro-ministro já avançou com as datas de vacinação para os jovens entre os 12 e os 17 anos.”

SIC: “Com um ano e meio de pandemia, o primeiro-ministro quer virar a página e perspectivar o futuro.”

TVI: “Começamos com o plano do Governo para vacinar crianças e jovens a partir dos 12 anos.”

 

Quinta

RTP: “A pandemia parou de crescer na região de Lisboa e Vale do Tejo, garantia deixada pelo Governo.”

SIC: “A situação de calamidade em Portugal continental vai prolongar-se até 8 de Agosto, a resolução foi aprovada hoje em resolução do Conselho de Ministros.”

TVI: “O Vaticano está a investigar uma organização católica em Portugal: são os Arautos do Evangelho, um grupo considerado conservador.”

 

Sexta

RTP: “Arrancaram os Jogos Olímpicos em tempo de pandemia.”

SIC: “Portugal vai receber apenas um terço das vacinas da Johnson que estavam previstas para Agosto.”

TVI: “Começamos pelas palavras do homem que quer comprar o Benfica: o norte-americano John Textor não desistiu do negócio.”

              

Sábado

RTP: “Os cuidados intensivos Covid atingiram 60% da capacidade.”

SIC: “Portugal foi um dos vários países europeus que sofreu (sic) hoje um corte de energia.”

TVI: “Inédita perturbação na rede eléctrica de vários países, incluindo Portugal, registada nas últimas horas.”

 

Texto publicado no semanário Novo

Antes pôr as mãos na água do que no fogo

Pedro Correia, 27.07.21

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Há verdadeiros mistérios nos canais informativos. Um deles acontece todas as semanas, na SIC Notícias. Nuno Rogeiro apresenta um excelente espaço de notícia e análise de temas internacionais em condições quase clandestinas: é remetido para o princípio da tarde de domingo, algures no Jornal das 2, numa rubrica de duração incerta intitulada “Leste Oeste”. Com direito a separador próprio, mas tratada como se a quisessem esconder.

Dia impróprio, horário impróprio. Merecia outro tempo e outro espaço. Porque este comentador fala do que mais ninguém diz, não apenas na SIC mas noutros canais de produção doméstica. A sua rubrica é uma genuína janela sobre o mundo num contexto televisivo que reduz o noticiário internacional a fenómenos climáticos, catástrofes naturais e acidentes em larga escala. Rogeiro rema contra esta maré tablóide, alargando-nos horizontes. E não raras vezes destaca o que os outros ignoram. Foi assim, por exemplo, no drama do terrorismo de matriz islâmica em Cabo Delgado: andou meses a mencionar este tema, a que mais ninguém ligava. Calculo o que terão dito vários editores nas mais diversas redacções: milhares de mortos sem ser por fogos ou cheias em Moçambique “não é notícia”. 

Quem tem lugar cativo nos alinhamentos televisivos é Marcelo Rebelo de Sousa – o “Tio Celito”, como muitos o conhecem em Angola. Consegue estar em foco precisamente quando não há notícia, fomentando corridas entre canais na tentativa de captar as imagens mais irrelevantes. O prémio, na recente deslocação de Marcelo a Luanda, coube a Tiago Contreiras, um dos enviados especiais da RTP: conseguiu imagens exclusivas do engravatado Presidente a molhar os dedos no oceano interdito a banhos e a dizer: “Está quente!”

Pensando bem, mais vale um político pôr as mãos na água do que no fogo. O “tio Celito” esteve em Luanda, tal como António Costa, para participar na cimeira comemorativa dos 25 anos da CPLP. Apesar das bodas de prata, quatro dos nove chefes do Estado faltaram: Jair Bolsonaro (Brasil), Filipe Nyusi (Moçambique), Francisco Guterres (Timor-Leste) e o controverso ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang. O Presidente da Guiné-Bissau, Umaro Embaló, deu lá um pulo mas saiu mais cedo. E o de São Tomé e Príncipe, Evaristo Carvalho, só pensa na despedida: o seu mandato chegou ao fim.

O aparente imobilismo da CPLP face ao drama de Cabo Delgado diz muito sobre a ineficácia desta organização, que devia “deixar de ser um clube de países amigos para descer aos cidadãos”, como acentuou Cândida Pinto, outra enviada especial da RTP a Luanda. Eis um tema que Nuno Rogeiro várias vezes tem abordado na sua rubrica. Faria muito bem a SIC Notícias em tirá-lo da clandestinidade, colocando o seu “Leste Oeste” em horário de maior audiência em vez de surgir como tapa-buracos das tardes de domingo. Fica a sugestão. O público-alvo do canal, cada vez mais exigente, certamente agradeceria.

 

Texto publicado no semanário Novo

Parem as máquinas: há calor no Verão

Pedro Correia, 21.07.21

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Está cientificamente demonstrado: o medo é dos ingredientes que colam mais as pessoas aos ecrãs. E nada suscita tanto medo como as catástrofes naturais. Isto reflecte-se nos telediários portugueses, quase despojados de notícias fora do perímetro nacional. O que sucede no resto do mundo só nos aparece à frente quando ocorrem cheias, ciclones, sismos, maremotos, avalanches, erupções, tufões, trovoadas, secas extremas. Sobretudo se ocorrer nos EUA. Nos últimos dias, algumas horas de chuva intensa em Nova Iorque mereceram mais destaque nos noticiários cá do burgo do que o assassínio do Presidente do Haiti.

O alarmismo fomenta audiências. E nada melhor – ou pior – para ampliar o alarmismo do que falar do clima. Vivemos apavorados pelas condições atmosféricas. É um medo irracional, fomentado pelo pensamento mágico de pseudo-cientistas com lugar cativo nos meios de comunicação. O tema recebe prioridade absoluta na hierarquia informativa, chegando a inverter o paradigma da notícia: em vez de ser o homem a morder o cão, aqui é mesmo o cão a morder o homem. Destaca-se o mais banal, conferindo-lhe aura de sensação.

Há frio no Inverno e calor no Verão? Isso acontece nos Estados Unidos, pátria suprema das teorias da conspiração? É garantido que terá destaque, o Presidente assassinado no Haiti pode ser empurrado para o fim da linha. Noutros tempos, mais serenos e com menos histeria à solta, só seria novidade se fosse ao contrário: Inverno tórrido e Verão gelado.

 

À nossa escala, com o tépido estio que nos vai calhando, para desespero dos alarmistas de turno, não há notícia climática digna desse nome. Mas se for preciso dá-se um jeito: é preciso manter os espectadores grudados ao rectângulo televisivo.

Aconteceu quarta-feira da semana passada, à hora do almoço, na RTP. Às 13.23, surgiu o aviso, proclamado em voz solene: “Prepare-se para o calor. O Verão chega em força esta semana. Em algumas regiões do país as temperaturas podem chegar aos 40 graus.” Se o Artur Albarran ainda pontificasse em antena acrescentaria: “O drama, a tragédia, o horror!”

Era apenas um teaser – como agora se diz na gíria mediática, sempre pronta a acolher qualquer americanismo linguístico. Dezasseis minutos depois, o que parecia escaldante tornou-se temperado: “As temperaturas começam a subir hoje e podem chegar aos 40 graus no fim de semana em Évora e Beja. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera diz que não está prevista uma onda de calor, mas o tempo quente vai manter-se em todo o território continental. (…) Alguns sites de meteorologia falam de uma onda de calor, mas o IPMA garante que não.”

 

Reparem: bastou que os tais sites não especificados aludissem a uma putativa “onda de calor” para a expressão vingar, mesmo com desmentido formal da autoridade científica. E logo uma jovem repórter compareceu numa aldeia alentejana, interrogando uma senhora sobre tão magna questão. Ouviu esta resposta: “Toda a vida apanhei calor, apanhei sol. Na hora dos 30 graus, estou eu em casa.”

Não havia notícia, mas havia sabedoria antiga. A repórter ficou a ganhar. E nós também.

 

Texto publicado no semanário Novo

Quem não sai à rua faz a festa em casa

Pedro Correia, 10.07.21

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Tudo quanto há de relevante na vida pública portuguesa passa pela televisão. Para o bem e para o mal. Nos últimos dias assistimos a uma deriva autoritária raras vezes vista desde a implantação da democracia no nosso país. A propósito da pandemia, que vai servindo de pretexto para inéditas restrições aos direitos e liberdades.

Na quinta-feira da semana passada, a titular da pasta da Presidência revelou: «Nos concelhos de risco elevado ou muito elevado passará a existir limitação da circulação na via pública.» Em momento algum aludiu a interdição ou proibição.

A resolução do Conselho de Ministros publicada nesse dia – e que mereceu ampla repercussão nos telediários – optou também pelo tom suave. «Entre as 23 horas e as 5 horas os cidadãos devem abster-se de circular em espaços e vias públicas e permanecer no respectivo domicílio.»

Tudo claro? Não, tudo obscuro. A tal ponto que o Governo sentiu a necessidade de fazer a interpretação autêntica desta resolução. Para o efeito, no serão de sábado, avançou o secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro. À RTP 3, Tiago Antunes comunicou que vivemos na prática em estado de emergência, embora sem decreto presidencial nem escrutínio parlamentar: «É um dever jurídico, o que significa obrigação. Em linguagem jurídica, dever e obrigação são sinónimos.» Falou em multas e detenções.

Em 48 horas, passou-se do menos a mais, sempre num crescendo autoritário. Invertendo o salutar princípio básico das democracias liberais: tudo quanto não é expressamente proibido é permitido.

Coube assim a um elemento de segunda linha do Governo – numa simples entrevista – especificar que quase quatro milhões de portugueses, residentes em 45 concelhos considerados de alto risco, regressavam ao sistema de confinamento compulsivo, seis horas por dia, além de sofrerem restrições à circulação entre o princípio da tarde de sexta-feira e a manhã de segunda. Ignorando-se o que determina a Constituição, no artigo 44.º: «A todos os cidadãos é garantido o direito de se deslocarem e fixarem livremente em qualquer parte do território nacional.»

De tudo isto nos falou a televisão por estes dias. E nos foi mostrando também simbólicos actos de resistência a normas que vários juristas consideram desproporcionadas e até inconstitucionais. Vimos, por exemplo, jovens enchendo praias algarvias, não apenas de dia mas também à noite, em desafio às autoridades. Muitos são estrangeiros: fazem parte do contingente de turistas que há escassas semanas o Governo queria atrair para Portugal.

A imagem mais emblemática que pudemos vislumbrar sobre este assunto durou breves segundos mas foi muito reveladora ao ser exibida na RTP: uma varanda cheia de jovens num domicílio privado no Porto, bem depois das 23 horas.

Tem vindo a ser assim em todo o país: quem não pode sair à rua faz a festa em casa. Não há polícia nem brigadas dos bons costumes que cheguem para tanta gente. Diga Tiago o que disser.

 

Texto publicado no semanário Novo

«Cristiano podia ter metido naquele livre»

Pedro Correia, 07.07.21

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Nasceu uma nova estrela no comentário futebolístico em Portugal: chama-se Marcelo Rebelo de Sousa e parece ter jeito para mandar bitaites sobre bola. Mostrando assim estar em sintonia com a esmagadora maioria dos compatriotas.

Talvez saudoso dos tempos em que dominava os serões televisivos de domingo, o Presidente da República não resistiu a debitar opiniões sobre o Portugal-Bélgica que já se tornou desafio de má memória para todos nós. Conseguiu até pôr fora de jogo dois comentadores titulares: Marques Mendes, na SIC, e Paulo Portas, na TVI, abdicaram no passado dia 27 de comparecer nas suas tribunas televisivas dominicais. Não há como o futebol para destronar a política.

Se não podes vencê-lo, junta-te a ele. Assim terá pensado o inquilino de Belém, que trocou a cansativa deslocação a Sevilha por um jantarinho mesmo ao pé de casa, no seu bairro de Cascais. Foi aí que uma chusma de repórteres o encontrou, certamente não por casualidade. Gerou-se uma competição de microfones, por vezes mais emocionante do que o embate entre portugueses e belgas na Andaluzia.

Marcelo até parecia António Costa cruzado com o saudoso Zandinga: surgiu em registo de “optimista irritante”, falando no intervalo do jogo e emitindo vaticínios para o desfecho da partida. “A Bélgica domina 15 minutos, nós estamos melhor 20 minutos. O Cristiano podia ter metido naquele livre. Jogámos melhor do que a Bélgica, surpreendemos a Bélgica, mas depois a Bélgica, muito eficaz, em três tentativas de remate à baliza acerta uma. Apanha-nos em contrapé, avançados, num contra-ataque muito rápido. Era praticamente imparável, aquele remate. Acho que temos jogado primorosamente bem. Agora só falta entrar a bola, ter golo.”

O Presidente podia ter ficado por aí, mas quis ir mais longe: arriscou que Portugal daria a volta e venceria 2-1. Confidenciando que trouxera uma garrafa de espumante para a celebração. Faltou-lhe a prudência de João Pinto, antigo campeão europeu do FC Porto: o melhor é fazer prognósticos só no fim.

Mais valia não ter falado, resmungam agora os supersticiosos, inconformados com a vitória belga. Mas fica-lhe este consolo: no confronto com as anteriores declarações de Ferro Rodrigues, levou a melhor. O que pouco surpreende, dada a insistente tendência do presidente da Assembleia da República em propiciar títulos de jornais e telejornais pouco abonatórios para a dignidade institucional do cargo. A novela da sua controversa deslocação a Sevilha – anunciada em Budapeste, reiterada no hemiciclo parlamentar e afinal transformada numa prosaica ida ao Algarve – parecia uma rábula do Ricardo Araújo Pereira, talvez para compensar o súbito desaparecimento do programa deste humorista na SIC.

Em linguagem futebolística, dir-se-ia que Marcelo venceu Ferro por margem tangencial. É certo que o segundo protagonizou mais tentativas de remate, mas nenhuma se concretizou. E acabou derrotado com autogolo.

 

Texto publicado no semanário Novo

Já abriu a época da caça ao voto

Pedro Correia, 29.06.21

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É oficial: abriu a época da caça ao voto. O que não admira: faltam apenas três meses para as eleições autárquicas. A partir de agora vai valer tudo.

Espelho do mundo, espelho da vida, espelho do melhor e do pior da política, a televisão antecipa desde já o que nos espera nestas 12 cruciais semanas que antecedem o escrutínio. Ainda mais cruciais por ocorrerem num momento em que, segundo uma sondagem há dias revelada, o partido do Governo sofre o mais sério abalo nas pesquisas de opinião desde Março de 2020.

Há que contrariar esta tendência, terá pensado o estado-maior socialista. E se assim pensou melhor o fez. Cada pretexto pode gerar notícia. E cada notícia funciona como chamariz ao exercício do voto nos mais diversos concelhos. Não esqueçamos que estas são umas eleições muito especiais: estão em jogo 308 presidências de câmaras municipais e 3091 presidências de juntas de freguesia no continente e nas regiões autónomas. Ninguém tenha ilusões: a soma de todas estas parcelas condicionará o próximo ciclo político a nível nacional.

Neste contexto, está especialmente em foco o ministro da Educação. É pelo menos a segunda vez, em poucos dias, que surge acompanhado de autarcas socialistas para lhes dar alento.

A 7 de Junho, deslocou-se a Vila Nova de Gaia – fazendo-se filmar ao lado do presidente da Câmara local, o socialista Eduardo Vítor Rodrigues, recandidato a um terceiro e último mandato. Visitou ali três escolas que “fazem parte dos 500 estabelecimentos de ensino que estão a remover o amianto” a nível nacional. “Vamos fazer uma reabilitação de eficiência energética”, declarou o autarca, aproveitando aquele tempo de antena nos telediários à boleia de Tiago Brandão Rodrigues. O ministro esteve à altura das circunstâncias: Gaia, sublinhou, é um município “que mostra que é possível fazer a diferença”.

A 19 de Junho, Brandão Rodrigues voltou ao Norte, desta vez para promover o concelho de Paredes de Coura. Elogiando a Escola Profissional do Alto Minho Interior, ali inaugurada em 1993. “O ensino profissional tem sido uma aposta muito forte do nosso país e esta escola tem sido um exemplo”, elogiou o membro do Governo – ao lado do presidente da Câmara local, o socialista Vitor Paulo Pereira, recandidato a um terceiro e último mandato.

Não havia pressa. Portanto, sobrou tempo para o autarca sublinhar que esta escola “está ligada ao mundo do trabalho”, enquanto o ministro mostrava satisfação por Paredes de Coura acolher em breve a fábrica de vacinas da Zendal. É investimento privado, de um grupo farmacêutico espanhol, mas o espectador menos sagaz pode supor que é obra do Governo. Com as televisões a registar. “Vai criar mais de 30 postos de trabalho”, garantia uma delas. Focando o ministro e o presidente da câmara, ambos com ar de orgulho. Dava para perceber, mesmo com máscaras.

Quem não fizesse a menor ideia de que vivemos já em período pré-eleitoral, ficava esclarecido. Em Portugal há coisas que nunca mudam.

 

Texto publicado no semanário Novo

Censura, desinformação e falta de pudor

Pedro Correia, 19.06.21

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Ao quarto desafio do Europeu de futebol que venho acompanhando pela televisão, pude finalmente ver uma cara bonita em destaque numa bancada por corajosa decisão do realizador de turno. Era uma adepta russa no confronto caseiro com a Bélgica: o jogo correu mal à selecção anfitriã mas a moçoila exibia um contagiante sorriso optimista. Eis a festa do desporto-rei em todo o seu esplendor, bem espelhada neste rosto.

Infelizmente, ao que me garantem vozes autorizadas, estas imagens tornaram-se quase clandestinas nas transmissões televisivas por exigência dos manda-chuvas da bola: a UEFA quer evitar a todo o custo acusações de sexismo e exploração da beleza feminina por parte das madres superioras das redes sociais, cada vez mais vigilantes contra o mais leve indício de fuga à norma. E a norma agora é mostrar uns mecos barrigudos ou espadaúdos, nada de graciosos rostos de jovens aficionadas. O severo olhar das microcensuras actuais chega tão fundo ou mais ainda do que o lápis azul dos majores de antanho.

 

Por estes dias disputa-se portanto o Euro-2021. Maquilhado de Euro-2020, num dos mais chocantes atentados ao rigor informativo de que há memória. Em 2020, como ninguém ignora, o desporto foi posto à margem. Não houve Europeu nem Jogos Olímpicos, tudo ficou adiado para este ano. Mandaria o amor à verdade que este dado factual não fosse varrido para debaixo do tapete. Estranhamente, porém, ouvimos a todo o momento alusões a um “Euro-2020” que jamais existiu. Nos mesmos órgãos de informação que se proclamam paladinos da luta contra a desinformação.

Faz algum sentido? Não. Tal como englobar o Azerbaijão, país da Ásia Menor, entre as nações europeias para efeitos de futebol. Transformando a geografia em ciência nada exacta e mandando às malvas o tal rigor que tanto se invoca mas tão pouco se pratica.

 

E por falar em futebol: uma das cenas mais divertidas da última semana foi ver a profusão de repórteres portugueses em Budapeste insistindo em manter ali máscaras, como se estivessem em Lisboa, apesar de na Hungria quase ninguém circular na rua com elas. Pareciam mais funcionários da DGS do que jornalistas, procurando impor aos húngaros os padrões sanitários portugueses.

Menos divertido foi o que aconteceu em dois espaços dedicados ao comentário desportivo, escassos dias atrás: enquanto na SIC Notícias se garantia que Rui Pedro Braz seria o novo director-geral do futebol do Benfica, na TVI 24 o próprio Braz surgia à mesma hora, enquanto comentador da casa, dando novidades sobre o seu clube do coração. Com manifesta falta de pudor, como se fosse parte desinteressada.

 

Nisto de máscaras, existem as reais e as metafóricas. Naquele preciso momento, ao comentador em trânsito da TVI para o posto de comando do SLB, sem o mais leve período de nojo nem intervalo para respirar fundo, caía em definitivo o que lhe restaria da máscara da isenção.

Há quem chame jornalismo a isto. Não acreditem. Nada tem a ver.

 

Texto publicado no semanário Novo

O que a pandemia separou, o futebol uniu

Pedro Correia, 09.06.21

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Sabemos de certeza absoluta que o desconfinamento se tornou mesmo realidade quando revemos uma popular figura que há muito andava arredada dos ecrãs. Refiro-me àquele cidadão a quem costumam chamar “Emplastro”: parece imitar um papagaio de pirata, salvo seja, por ter aquele estranho hábito de aparecer empoleirado no ombro de um repórter.

Após longa ausência, lá irrompeu ele de novo nas pantalhas. Fiel às directivas iniciais da doutora Graça Freitas: a máscara transmite uma “falsa sensação de segurança”. Daí surgir de cara ao sol, desprotegido, em sintonia com os milhares de súbditos da Rainha Isabel II que desembarcaram em força na Baixa portuense a pretexto da realização da final da Liga dos Campeões.

Vendo-o assim, desmascarado, quase o confundíamos com um turista do Reino Unido: faltava-lhe apenas a garrafa de cerveja para lhe conferir certificado de origem britânica.

Também não manteve distância física, fiel à sua imagem de marca. Nisto poderia igualmente passar por um inglês em férias bem regadas no nobre burgo tripeiro. Os planos que os canais televisivos iam exibindo, sobretudo na zona da Ribeira, eram elucidativos: muito abracinho, muita beijoca, bastante afago, imenso calor humano. Nem um vislumbre da “bolha de segurança” a que a ministra Mariana Vieira da Silva havia aludido dias antes, no solene cenário da Presidência do Conselho de Ministros.

Apetece entoar um hino ao deus da bola: aquilo que a pandemia separou, o futebol uniu. Mas só o futebol que fala estrangeiro, porque nós, portugueses, continuamos impedidos de frequentar recintos desportivos cá no rectângulo. Espécie de xenofobia invertida promovida por este Governo que é farol do progresso, Costa seja louvado.

 

Talvez para compensar a fobia dos britânicos às máscaras, as enviadas especiais da RTP e da SIC a zonas balneares iam remando na direcção oposta: ao ar livre, sem quase ninguém por perto, a tão escassa distância do mar, apareceram ambas de rosto coberto – revelando assim o dress code daqueles dois canais, sempre atentos às tendências da moda Primavera/Verão.

As praias podem estar desconfinadas, mas estas simpáticas repórteres permanecem desconfiadas. Fazem bem, não vá a estirpe inglesa ou sul-africana pregar-lhes uma partida, já sem falar das variantes indiana ou brasileira deste vírus apátrida que empacou o mundo.

Será incómodo, mas pior ficariam se o Emplastro pululasse por ali, qual papoila saltitante. Houve um tempo em que ele parecia ter o dom da ubiquidade, multiplicando aparições de canal em canal.

Hoje esse é um privilégio reservado ao doutor Costa, que teima em transmitir-nos uma falsa sensação de segurança, chova ou faça sol. Como as saudosas máscaras iniciais da directora-geral da Saúde. Só passaram 15 meses mas parece ter sido há uma eternidade.

 

Texto publicado no semanário Novo

O ministro apareceu quatro vezes

Pedro Correia, 26.05.21

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Com o fim dos sucessivos estados de emergência e o adeus ao desconfinamento em quase todo o território nacional, temos assistido ao regresso dos engarrafamentos nos acessos às cidades e nas ruas dos grandes centros urbanos.

Já se esperava isto. Menos previsível é que alguns membros do Governo também provocassem engarrafamentos nos telejornais. Ora isso tem acontecido, a um ritmo que acompanha o do novo fluxo rodoviário.

Neste capítulo, o primeiro lugar do pódio cabe sem margem para dúvida ao titular da pasta dos Negócios Estrangeiros. O portuense Augusto Santos Silva, talvez por jogar em casa, foi o astro de serviço no último Jornal da Tarde de sábado [8 de Maio] da RTP. A pretexto da cimeira social que no passado fim de semana congregou na Cidade Invicta os principais líderes da União Europeia.

 

Mal abrira o serviço noticioso, eram 13.01, quando o chefe da nossa diplomacia surgiu pela primeira vez no ecrã. Em pose institucional, como convém ao exercício do cargo. «O processo de decisão institucional na UE implica concertação entre os 27 Estados. (…) Nós devemos ter sempre em conta que os direitos de propriedade intelectual existem para proteger a inovação. É uma discussão que se faz há muito tempo», declarou, a propósito da mais recente controvérsia em torno das vacinas.

Não tardou a voltar ao ecrã. Eram 13.03 quando o vimos num cenário diferente, desta vez para emitir opinião sobre a importância dos consensos em Bruxelas. Excerto do que disse nos três minutos em que ocupou a antena: «As políticas sociais são típicas dos Estados nacionais, mas esta convergência para metas comuns, cada uma pelo seu caminho, é muito importante para reforçarmos o modelo social europeu.»

Não havia decorrido uma hora e lá irrompia de novo na pantalha, eram duas da tarde em ponto. Congratulando-se pelo anunciado regresso dos visitantes britânicos às praias lusitanas: «É muito bom chegar a esta altura e saber que o Reino Unido, que é o primeiro mercado de origem dos turistas em Portugal, reconheceu que a situação pandémica em Portugal é muito razoável.»

 

Três vezes no mesmo telediário: nem o próprio Marcelo Rebelo de Sousa consegue tamanha proeza com tanta facilidade. Mas ainda teríamos direito a outra intervenção do mesmo ministro, noutro enquadramento, um pouco mais descontraído. Eram 14.15: o inquilino do Palácio das Necessidades visitava as instalações onde trabalhavam os jornalistas que cobriam a cimeira e lá voltou o microfone da RTP a ser apontado na sua direcção. Para registar estas palavras: «Eu vim aqui ver se o espaço era suficiente, se havia boas condições de trabalho, se estava bom ambiente, e verifico que sim. E sei que esta galeria tem todas as condições para o vosso trabalho.»

O Jornal da Tarde é produzido no Porto: haverá compreensíveis afinidades bairristas com o ministro natural da cidade. Mas talvez isto não baste para explicar tanta insistência. Será que Augusto Santos Silva começa a ser lançado como eventual sucessor de António Costa num futuro próximo? As grandes caminhadas começam com pequenos passos.

 

Texto publicado no semanário Novo

Os Óscares já não são o que eram

Pedro Correia, 21.05.21

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Os Óscares já não são o que eram. De ano para ano, cresce o desinteresse em torno das estatuetas. Não apenas nos EUA, mas um pouco por todo o mundo.

Desta vez registou-se a maior queda de audiências de que há memória. Uma tendência em que os galardões da Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood acompanham o que sucedera na cobertura dos prémios Emmy, em Setembro: 5,1 milhões de espectadores (menos 14%) e dos Grammy, em Março: 9,2 milhões (menos 51% em comparação com os 18,7 milhões que seguiram a cerimónia em 2020).

Em termos sentimentais, para muitos cinéfilos, um Óscar será sempre um Óscar. Mas grande parte do fascínio que envolvia a distribuição dos mais cobiçados prémios da Sétima Arte parece ter-se perdido para sempre. Os números confirmam: a mobilização dos espectadores caiu a pique. A 93.ª edição, recentemente realizada, atraiu 9,8 milhões de espectadores – 58% menos do que os 23,6 milhões que tinham assistido à transmissão no ano passado. E muito abaixo dos 41,6 milhões que em Março de 2010 acompanharam o intenso duelo entre dois filmes: Avatar, de James Cameron, e Estado de Guerra, de Kathryn Bigelow.

Passaram apenas onze anos, mas parece ter sido há uma eternidade. De então para cá, Hollywood tornou-se capital da correcção política, substituindo a consagração artística pelo catecismo ideológico. E as sessões de distribuição de prémios, em vez de enaltecerem a magia do cinema, tornaram-se maçadoras maratonas de evangelização em via única, sem qualquer sopro contraditório. Receita segura para afugentar o público. Ninguém tem paciência para ouvir quatro horas de pregações e ladainhas a pretexto da celebração de filmes.

 

Parafraseando o juiz Ivo Rosa, é pouco recomendável mercadejar política a pretexto da indústria do entretenimento. Esta entrou em decadência no momento em que se deixou contaminar por quotas étnicas e sexuais tornadas já obrigatórias para cada elenco. À luz deste critério, filmes como O Padrinho, Casablanca ou Citizen Kane nunca teriam visto a luz do dia.

Em 2018, Javier Marías – o melhor romancista espanhol contemporâneo – confessou o seu imenso tédio ao ver na TV uma versão actualizada do western Os Sete Magníficos, surgido em 1960. Na versão homónima de 2016, os sete integravam um mosaico multirracial – havia um negro, um índio, um hispânico, um asiático. Como se a assembleia-geral da ONU tivesse sido transposta para o velho Oeste selvagem. «Desinteressei-me, por ser tão inverosímil»,  observou o escritor numa crónica.

Somos muitos a pensar como ele. Péssima notícia para a RTP, que em 2021 – vinte anos depois – voltou a garantir o exclusivo da emissão dos Óscares para Portugal. Com manifesto insucesso: atraiu pouco mais de 150 mil espectadores, enquanto a SIC captava mais de 440 mil e a TVI ultrapassava os 340 mil. Sermão por sermão, antes a missa dominical.

 

Texto publicado no semanário Novo