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José César

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.01.18

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Quando eu era miúdo, a minha Mãe metia-me no comboio, no final de cada ano lectivo, e ele esperava por mim em Faro, para me levar para uns dias de férias junto ao mar. Isso foi no tempo em que a Ilha de Tavira não tinha campistas, nem parques de campismo, não havia rádios aos altos berros, nem restaurantes de hambúrgueres. Os pais dele tinham uma casa na ilha. Como marinheiro que fora, embarcado e com várias voltas ao mundo na "Sagres", levou-me a velejar e à pesca. Foi com ele que apanhei salmonetes à noite, burriés, e mergulhei pela primeira vez no azul profundo do Algarve. Deu-me a conhecer a Meia Praia, Santa Luzia, as Quatro Águas, Sagres. Tantos locais, tantos mares que para mim eram novidade. Foi logo no primeiro Verão a seguir ao 25 de Abril. Depois continuou nos anos seguintes. Uma vez, à noite, enquanto os adultos jantavam, fui mordido por um cão pastor dos Pirenéus. Quis fazer do bicho cavalo e ele não gostou. Levou-me de chata pela ria, até Tavira, para uma freira me coser. Dessa vez passei o resto das férias de castigo, de perna e braço entrapados. Via-me jogar futebol na praia, todos os dias, com os mais velhos, achava-me graça, e por causa disso passou a tratar-me por "Beckenbauer", em homenagem à grande estrela da selecção alemã e do Bayern de Munique. Eu sempre achei que seria mais o velho Müller, ou o Eusébio, pois gostava de marcar golos. Para mim, no início da minha adolescência, ele era uma espécie de Jacques Cousteau com sotaque algarvio, com a pele muito tisnada. Conhecia toda a gente, miúdas giras, todos o conheciam. "Agora vamos ali tomar um café, vou apresentar-te um borrachinho!". O "borrachinho" tinha mais vinte anos do que eu. Elas riam-se e ele gozava com a minha timidez. Foi ele que me apresentou o Dentinho e o Brito da Mana. Eram parceiros no mergulho. Eu era o primo. Tomava conta do barco e das garrafas de mergulho. Nesse tempo, ele fazia de tudo um pouco, um verdadeiro artista. Cozinhava, decorava cafés, pintava painéis, quadros, fazia barcos em miniatura. Ainda era casado com uma prima minha, que entretanto partiu e de quem, por força de circunstâncias várias, viria a divorciar-se. Já  a viver com outra pessoa disse-me que fora casado com uma senhora. Gostava muito dela. E tinha um Giannini 1000, de cor roxa, com uma risca branca a meio, carro que comprara ao Cônsul do Reino Unido no Algarve. E também um MG branco, descapotável, com o qual os dois fazíamos a EN125 entre Faro e Tavira. Às vezes, já adulto e a viver fora de Portugal, encontrava-o em casa da minha Mãe. Aparecia nos aniversários dela. Estive muitos anos sem ir ao Algarve, décadas, deixei de o ver, de com ele conviver. Um dia regressei ao Algarve. Acabei por ir viver para Faro, reencontrei-o. Tratou de me fazer o papel e os novos cartões de visita na tipografia onde estava a trabalhar. Ainda estivemos juntos algumas vezes, mas já então era um homem triste, muito diferente daquele que conheci. E tínhamos vidas e interesses diferentes. A vida tinha-lhe pregado algumas partidas. Só vestia de preto e branco, usava um brinco de ouro, como os piratas, e a aliança no polegar. Um excêntrico bem educado, simpático, com um incrível sentido de humor, que pintava, decorava e também gostava de poesia, chegando inclusivamente a publicar alguns livros, na esteira da senhora sua Mãe, poetisa algarvia. Ainda me ofereceu dois com dedicatória. Nos últimos anos andava adoentado, mal dos olhos, e ia de quando em vez a Coimbra. Para "fazer a revisão", como ele me dizia sempre com algum humor quando me encontrava junto à Pontinha. Nos últimos anos perdemos o contacto. Víamo-nos de quando em vez, sempre ali para os lados da Rua de Santo António. Perguntava-me pelo Alfa e pelos tios. Tínhamos vidas diferentes. Também ele foi, à sua maneira, um homem livre. Nunca lhe pagarei os dias e noites de liberdade que me proporcionou, nem a forma como me deu a conhecer o mar do Algarve e a Ria Formosa. Soube há pouco que a vida voltou a pregar-lhe mais uma partida. Foi a última. O José César faleceu ontem a caminho de Coimbra. Tiveram de parar o comboio. Em Santiago do Cacém. Já não chegou a tempo de mais uma revisão. Oxalá que tenham para ele, lá em cima, um lugar com vista para o areal da praia de Faro. E para a ria. Para que ele possa continuar a ver o Sol esconder-se todas as tardes, vermelho fogo, para os lados do Ancão. Ele merece-o.

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Postais de Portugal

por Pedro Correia, em 04.07.14

 

Tavira, há pouco, ao pôr-do-sol

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Postais de Portugal

por Pedro Correia, em 01.07.14

Erupção de patriotismo em Tavira

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Postais de Portugal

por Pedro Correia, em 23.06.14

Tavira, ao cair desta noite de São João

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Tavira, Verão de 2013

por Pedro Correia, em 07.07.13

 

Rolas, andorinhas e pardais, à vez, vêm beber à borda da piscina. O calor é tanto que, mesmo antes de a manhã chegar a meio, só conseguimos estar à sombra: à falta de guarda-sóis, servem as palmeiras, substituindo-as com vantagem. Miúdos de várias nacionalidades, esquecidos por momentos dos gadgets electrónicos, brincam como sempre as crianças brincaram: correm, saltam, riam, jogam à bola, ensaiam movimentos ritmados de natação. "Agarra-te aos pelos do peito do pai", diz alguém. E todos riem.

 

Duas senhoras exercitam a antiquíssima arte da conversa, ao recato da sombra: "Então a sua menina como está?"; "Muito bem, por enquanto muito bem." Tão português, tão cauto e previdente, este "por enquanto"...

Mais adiante, uma jovem abre-se em confidências a uma amiga em tom suficientemente elevado para ser escutada nas proximidades: "Ficou chateado por eu estar na boa com ele..."

Eles e elas aparecem cada vez mais tatuados. Não tatuagens discretas, mas tão espampanantes quanto possível, em tentativas de imitação do jogador Raul Meireles e da sua mulher Ivone, presenças constantes nas páginas da imprensa tablóide. Um dia, não muito distante, haveremos de lembrar esta absurda moda como hoje lembramos os longos cabelos frisados e os bigodes à Obélix dos anos 70, paradigmas da breguice tuga.

 

O calor tudo dissolve: obrigações inadiáveis, ponteiros do relógio, preocupações que sobraram dos meses precedentes. Aguardamos por ele todos os anos - mas desta vez já o ansiávamos com alguma impaciência após a maratona de um Inverno que parecia não ter fim.

Como os primeiros figos do ano - as saudades que eu já tinha deles. Logo à noite, na Noélia, virá para a mesa um arroz de limão com corvina e amêijoas: carne não entra nestes menus algarvios.

Muitos franceses, alguns ingleses e alemães, mas desta vez quase não vejo espanhóis: na vizinha Andaluzia o desemprego já se situa nos 37% e há dois terços de jovens sem trabalho.

Apesar da crise - ou por causa dela - a Olá lançou cinco novos sabores do seu Magnum para este Verão. Falta-me só experimentar um. Até ao momento, o meu favorito é o de merengue e frutos silvestres.

 

 

Basta dar uma olhada em redor para se perceber que o livro electrónico vai ganhando terreno acelerado ao formato tradicional - serve, desde logo, para ocupar menos lugar na mala. Conservador, prefiro a leitura em papel: acabo de ler Amantes e Inimigos, um delicioso volume de contos de Rosa Montero.

Quatro estrangeiros em redor de uma mesa no bar junto à piscina: todos em silêncio, cada qual mergulhado no seu iPad. Dizia o resmungão Nelson Rodrigues, numa das mais saborosas frases que conheço em língua portuguesa: "A televisão matou a janela." Parafraseando o mestre, concluo que a vida virtual vai matando a vida real.

Um brinde desta fresquíssima sangria branca às senhoras que vão praticando a arte da conversa. Elas não sabem, mas são já uma espécie em vias de extinção.

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De regresso a Tavira

por Pedro Correia, em 06.06.12

 

O Vela 2 - um dos raros restaurantes realmente capazes de transformar o peixe grelhado em genuína arte culinária - transferiu-se para uma aldeia das redondezas. A livraria Quinito - onde comprei tantas obras que me proporcionaram excelentes leituras de Verão - fechou as portas e é hoje um espaço dolorosamente vazio, com placas assinalando que está para arrendar. Há mais de 20 igrejas mas continuam misteriosamente fechadas quase todo o tempo, ao que me dizem não só por falta de fiéis mas também por falta de padres: só uma vez consegui entrar na de São Paulo, na praça Dr. António Padinha, e gostei muito da visita.

Além disso o tempo tem estado nublado. Mas mesmo assim Tavira continua a ser um dos meus destinos de eleição. E nesta época mais ainda, longe das aglomerações turísticas. Há espaço para todos, há tempo para tudo. Para subir ao castelo e de lá desfrutar um panorama incomparável. Para apreciar o restauro do antigo convento das Bernardas. Para comer uma excelente corvina de cebolada no mesmo restaurante de bairro onde faço sempre questão de regressar. Para saborear os melhores sorvetes que conheço, na geladaria do jardim. Para beber um sumo de laranja no Mercado da Ribeira. Para dar um pulo a Cabanas (na foto) e regressar a bordo de um barco-táxi, sulcando a deslumbrante Ria Formosa até às Quatro Águas num velho barco de pesca reconfigurado nestas novas funções.

Há muito cessaram as campanhas do atum - das quais é hoje testemunha viva o arraial Ferreira Neto, agora reconvertido num excelente hotel. Impressiona ver os esqueletos ainda dignos das antigas fábricas conserveiras irremediavelmente encerradas. Restam as salinas. E vai-se fazendo alguma extracção de areia para a construção civil, que neste momento se limita a cumprir serviços mínimos. Cruzamo-nos com uma embarcação que transporta pequenos contentores. "Está ao serviço da câmara, que não deixou abater todos os barcos de pesca", informa o mestre, antigo pescador que também largou a faina.

À nossa esquerda estende-se a ilha de Tavira, onde se situam as mais deslumbrantes praias de areia da Europa - tesouro bem preservado, ao menos este.

Gosto deste refúgio. Necessito dele. Todos temos os nossos portos de abrigo. Eu, afortunado, tenho vários. Este é um dos melhores. Será meu para sempre.

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Tavira

por João Campos, em 17.08.11

 

Há três coisas que me ocorrem sempre que venho de férias a Tavira: 1) não sei porque estive tanto tempo sem cá vir; 2) podia perfeitamente viver aqui; 3) para a próxima, trago uma máquina fotográfica (não, a fotografia não é minha).

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Noite de São João

por Pedro Correia, em 23.06.10

 

Fabulosa noite de São João. Tavira inteira parece estar na rua: largas centenas de pessoas concentram-se na Praça da República vendo desfilar as marchas. Habitantes locais, algarvios de outras paragens e turistas das mais diversas proveniências cruzam-se nas rotas amenas destas ruas. Há arraiais, uns mais organizados outros mais espontâneos. Assam-se sardinhas. As esplanadas abarrotam de gente que há meses ansiava por jantar ao ar livre.

Como uns saborosos camarões grelhados num restaurante junto ao rio. Do som da televisão chega-me a voz do primeiro-ministro, que vem agora defender a instalação de portagens nas sete auto-estradas "sem custo para o utilizador" (SCUT). Mas ressalvando que os "residentes" (residentes onde?) e os "utilizadores regulares" (com que regularidade?) ficarão isentos do pagamento, o que tresanda a monumental trapalhada. Trocando por miúdos: mais uma bandeira eleitoral que deu maioria absoluta ao Partido Socialista em 2005 acaba de ser rasgada com a mesma ligeireza e a mesma irresponsabilidade com que foi lançada. A sigla terá forçosamente de mudar: passará a ser CCUT (com custos para o utilizador).

Desinteresso-me rapidamente do telediário, concentrando-me na paisagem que tenho à minha frente. Por mais vezes que aqui venha, não me canso de contemplar este rio, hoje iluminado por uma lua quase cheia. Chega-me ao longe o som dos arraiais que não tarda a sobrepor-se ao da televisão. Os camarões estão óptimos. O Governo é péssimo, mas isso agora não me interessa nada.

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