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Fumo nos olhos

por João André, em 20.11.17

Falar nos casos do cinema francês (ou mundial) onde as personagens surgem de cigarro na mão ou na boca duplicaria o número de palavras usadas historicamente neste blogue. Explicar que nalguns casos não faria sentido não mostrar o cigarro (como com biografias) seria extenuante. Apontar que em certas situações o cigarro faz parte da caracterização da personagem seria uma perda de tempo.

 

Note-se que não sou um fumador, nunca fui um fumador e nunca dei sequer uma passa que fosse em toda a minha vida. Obrigava os meus pais a abrir as janelas do carro ou da sala sempre que começavam a fumar, estivesse sol ou chuva, calor ou frio. Fui também um entusiástico apoiante das medidas que restringiam o uso do tabaco em espaços públicos. Sou da opinião que se o tabaco desaparecesse da face do planeta, só haveria benefícios e nenhum prejuízo (embora saiba que isso é impossível).

 

Banir o tabaco dos filmes no futuro faz pouco sentido. Limitar a exposição de filmes antigos que exibem tabaco é ridículo e colocar uma classificação etária superior num filme que mostre personagens a fumar é simplesmente idiótico. Alguns dos comentários  neste artigo do The Guardian explicam tudo, mas gosto particularmente da comparação com a violência. Se filmes com violência (mesmo que muito "leve") não levam com tais excomunhões, por que razão cair sobre o tabaco? Levar a campanhas para remoção do tabaco em filmes futuros onde tal não seja necessário (tratando-o como a nudez: se não oferece nada, não faz sentido) já faria algum sentido.

 

O fumo do tabaco é irritante e - para mim - detestável. Mas pertence à história da humanidade e é parte da cultura. Tentar bani-lo dos nossos filmes teria tanto sentido como lançar fumo para os olhos...

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A Vida Clandestina

por Bandeira, em 16.06.14

Eu à época fumava; e às vezes fumava em lugares estranhos. Em Grenoble era num gabinete de paredes encardidas no piso térreo de uma empresa de tecnologia de ponta. Tinha janelinhas de guilhotina sempre abertas para o Dezembro dos Alpes e por única peça de mobília um cinzeiro de pé, ao centro, embaraçoso de tão cheio. Acredito que não o esvaziaram nunca, e que hoje o cone de beatas há-de ter ultrapassado em proeminência o pico do Chamechaude (digo o do Chamechaude para que não pensem que estou a exagerar). Uma bancada na parede era tornada inacessível por um aviso descortês de proibido sentar. Os fumadores (os outros, por nojo, nunca entravam) sentiam ali um desconforto tão intenso – do frio, do cheiro, do enxovalho – que não tiravam do cigarro consolo e saíam acanhados e tristes, de uma tristeza um pouco amarela.

Em São Paulo era numa divisão de um dos últimos andares de um arranha-céus, frequentada do lado de dentro por executivos em escapadinha de reuniões decisivas e do lado de fora por negros urubus. Talvez por causa do vento, talvez por motivos mais funestos, as grandes janelas não podiam ser abertas e a exaustão de ar era feita através de cilindros ciclópicos. Fausto para os olhos e para os pulmões que eu, veterano do buraco de Grenoble, humilde agradecia. De vez em quando passavam libelinhas ruidosas transportando homens de fato escuro, poderosos como heróis da Ilíada nos seus carros de combate. Eles saíam num terraço, desciam dois andares, davam as suas ordens, talvez até despedissem alguém; depois partiam para repetir o ritual noutro poiso qualquer, no entretanto elogiando a vista da cidade que às vezes parecia tão Nova Iorque assim vista do ar, mas era num relance só e a luz tinha de ser a de certa hora da manhã.

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Fumarmata

por José Navarro de Andrade, em 11.06.12
Não sei o que têm os cigarros de hoje, que os de antigamente até faziam bem à saúde, eram os próprios médicos que diziam. Vou dando umas passas até que voltem a dizer que afinal não são maus.


 

 

 

 

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Tabaqueando o assunto (2)

por João Campos, em 11.04.12

No Público: Fumar no carro com crianças vai ser proibido.

 

Por este andar, faltará decerto pouco tempo para que também seja proibido fumar em residências familiares onde vivam crianças. Ou onde viva alguém que não seja fumador. E como vai o Estado controlar isto? Simples: com denúncias anónimas, claro, e, certamente, com tecnologia apropriada. A propósito, alguém quer formar uma sociedade de fabrico e instalação de telecrãs*? É que a distopia parece estar já ao virar da esquina, e já que não a conseguimos evitar, ao menos que ganhemos uns cobres no processo.

 

*Ler Nineteen Eighty-Four, de George Orwell. Há - ou havia - uma tradução portuguesa muito boa da Antígona.

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Tabaqueando o assunto

por João Campos, em 10.04.12

Eduardo Pitta diz que "ninguém vai piar" quanto às novas medidas contra o tabaco que este Governo vai tomar. O post, claro, é aparentemente dirigido a "jornalistas e bloggers que hoje são secretários de Estado, adjuntos e assessores de gabinetes ministeriais e dos grupos parlamentares do PSD e CDS-PP". Uma vez que o assunto me interessa especialmente, vou piar um bocadinho sobre o assunto (e não será a última vez), ainda que não encaixe nas categorias acima descritas.

 

A avançarem as medidas mencionadas, este Governo estará de facto - e tal como o anterior - a avançar por um caminho arbitrário, totalitário, de intromissão intolerável na liberdade dos cidadãos - tal como o anterior o foi. Por partes:

 

1. Acabar com as máquinas automáticas de venda de tabaco. Disparate - se nos cafés e nos restaurantes o tabaco se voltar a vender "em mão", nem por isso deixa de ser mais difícil para os miúdos arranjarem tabaco (se o objectivo for esse). De resto, quem quiser realmente fumar continua a procurar tabaco - e, em último caso, há sempre o contrabando (que tem a vantagem de provavelmente ser mais barato). Se é possível comprar haxixe em plena Rua Augusta durante a tarde, não há-de ser muito difícil comprar um volume de Marlboro algures.

 

2. Estabelecer a proibição de fumar à porta de restaurantes, bares e cafés. Esta medida é hilariante, pois parte do pressuposto que o espaço em frente a um restaurante, bar ou café - um passeio, ou mesmo uma estrada - é propriedade do respectivo restaurante, bar ou café. Então não é permitido estar parado à porta e fumar? OK. E passar à porta a fumar, pode-se? Ou tem de mudar de passeio? E se eu sair do restaurante e, enquanto fumo, fizer repetidamente um percurso pendular de 50 metros para cada lado da porta, posso?

 

3. Acabar com o regime misto actualmente em vigor (o proprietário decide). Esta parece-me ser a medida mais grave destas três (a primeira é quase irrelevante, a segunda é anedota). Quando a nova lei do tabaco entrou em vigor em 2008, vários foram os estabelecimentos que investiram quantias avultadas na instalação de sistemas de extracção de fumo que lhes permitissem manter os seus espaços para fumadores - apesar de, na altura, o Governo ter dado poucas ou nenhumas especificações sobre a qualidade do ar, o que resultou numa bela confusão, como aliás acontece em tudo onde o Estado enfia o nariz. Não estamos aqui a falar dos cafés da moda, das discotecas mais badaladas, ou dos restaurantes que aparecem semanalmente na TimeOut. Na minha rua, para dar um exemplo, existe uma tasquinha de bairro completamente equipada com sistemas de extracção de fumo - é o único sítio nas redondezas onde se pode ver o Benfica e fumar um cigarro. O proprietário fez um grande investimento há apenas quatro anos para ajustar o seu negócio ao seu interesse. Agora, vem o Estado dizer-lhe que os vários milhares de euros que gastou ficam sem efeito. Isto é mais do que vergonhoso - é merecedor de bengaladas no lombo. Para entrar no espírito da lei de Godwin, é uma medida absolutamente nazi, bem dentro do espírito nazi-higienista que anima os cinzentos burocratas do presente. Em bom português, puta que os pariu a todos.

 

Enfim, mas é o tabaco - a desculpa (esfarrapada) da saúde pública perdoa muita coisa a muita gente (que não vai gostar nada quando a ofensiva chegar ao vinho, ao café, à carne vermelha). Quem vai perder com isto vai ser, justamente a tasquinha lá do bairro. Não vale a pena frequentá-la com a mesma regularidade quando for proibido fumar naquele espaço - o Benfica posso ver em casa, e, de resto, sai mais barato fazer café em casa, tal como comprar minis ou whisky no supermercado. E sempre se pode fumar à vontade (pelo menos por enquanto - há-de chegar o dia).

 

Sobre o mesmo tema, leituras recomendadas: o José Meireles Graça e o Ricardo Lima.

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Vícios...

por Helena Sacadura Cabral, em 25.01.12

Especialistas querem que seja proibido fumar dentro dos carros

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Pastilhas de Mordor

por João Campos, em 15.06.11

Encontro-me neste momento a (reler) O Hobbit, de Tolkien. Reparo, uma vez mais, nos hábitos tabagistas de Bilbo, Gandalf e Thorin. À luz deste exemplo que aqui apontei há tempos, é de esperar, mais dia menos dia, uma edição revista, moderna e muito politicamente correcta na qual os longos cachimbos dos personagens são substituídos por saudáveis pastilhas elásticas, e os belos anéis de fumo que fazem trocados por grandes e inchados balões. 

 

(Mas enquanto esse dia não chega, a leitura continua a ser excelente)

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Subsidiodependente

por J.M. Coutinho Ribeiro, em 04.01.10

Será que, pela primeira vez na vida, vou ter direito a um subsídio? Com tantos cigarros que já fumei e com o que isso deu de impostos ao Estado, parece-me justo. Ainda que eu saiba que o Estado não está preocupado comigo, nem com os outros fumadores - está preocupado é com os não fumadores, essas pobres vítimas que sofrem amargamente com o fumo dos outros, com o preço do ginásio, com o casamento gay e com o aquecimento global. Entretanto, talvez não fosse mau pedir, desde já, o reembolso dos cerca de 70 euros que me custou um cigarro electrónico que me impingiram por estes dias - a partir das oito da noite vendem-me qualquer coisa, porque ando normalmente distraído - e que, honestamente, ainda não tive coragem de usar em público, porque um fumador, queiram ou não, também tem o seu orgulho.

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Contas de cabeça

por J.M. Coutinho Ribeiro, em 10.01.09

Depois de 48 anos sem dor, comecei a visitar os hospitais nos últimos tempos. Coisa que, não tendo a ver só com os cigarros, também tem a ver com os cigarros. Por junto, paguei por aí 80 euros em taxas moderadoras. Um destes dias, perdendo de vista o essencial, pensei no preço real das consultas e exames. Não consigo imaginar, sequer. Deve ser muito o que ando a gastar ao Estado. Depois, tentei calcular quantos cigarros fumei até hoje para, daí, tentar calcular quanto de impostos paguei ao Estado. Esforço inglório. Não consigo chegar lá. Mas, ainda assim, tenho a certeza de que o que já dei ao Estado através dos cigarros comprados deve bastar para cobrir as minhas despesas de saúde no SNS. Sinto-me um pouco melhor.

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