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Delito de Opinião

Estraga tudo em que mexe

Pedro Correia, 17.07.21

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Já no terceiro mês após a comemoração do título de campeão nacional pelo Sporting, o ministro da Administração Interna - bem ao seu jeito - tenta sacudir a água do capote, em permanente fuga às responsabilidades próprias.

Tem sido assim em tudo, desde o assassínio de Ihor Homeniuk no aeroporto de Lisboa à questão das golas inflamáveis, dos atropelos à legalidade em Odemira ao recuo em toda a linha na intenção de "acolher" imigrantes na ala sul da prisão de Caixas.

Passando, obviamente, pelo atropelamento mortal do trabalhador Nuno Santos na A6 por uma viatura oficial em que o ministro seguia. Sem o menor pudor, o gabinete ministerial cuidou logo de sair de cena, atirando para cima do morto a responsabilidade pelo trágico atropelamento. Foi desmentido. E calou-se. A propósito, continuamos sem saber a que velocidade seguia a viatura e se foi feito o teste de alcoolemia ao motorista.

 

Não acerta uma.

 

Repete-se o procedimento. O ministro acusa sem fundamento e o Sporting responde à letra, chamando-lhe mentiroso.

Algo me diz que o visado vai comer e calar. Enquanto ensaia nova fuga para a frente. No caso do cobarde assassínio de Homeniuk, lembrou-se de extinguir o SEF - e até pretendia tomar esta decisão sem qualquer fiscalização da Assembleia da República.

Agora, a propósito das comemorações do título do Sporting, anuncia espantosamente que pretende rever o exercício do direito de reunião e manifestação, consagrado em diploma legal desde 1974, aliás elaborado por um ilustre socialista: Francisco Salgado Zenha, à época ministro da Justiça. Se há lei que nunca mereceu reparos foi esta. Até agora.

 

É uma iniciativa condenada ao fracasso: Eduardo Cabrita estraga tudo em que mexe. Entretanto, aquele que a 12 de Maio lhe chamou «excelente ministro» para o País ouvir faz o que é costume: empurra com a barriga.

Está em Luanda, a comemorar o aniversário. Nunca o apanhamos no olho do furacão.

Uma alegria imensa

Pedro Correia, 12.05.21

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O Sporting venceu o campeonato nacional de futebol a duas jornadas do fim, com a maior pontuação conseguida desde sempre à 32.ª jornada (82 pontos) e após 25 rondas consecutivas no comando da prova, em que se manteve sem qualquer derrota. Com uma equipa muito jovem: dez jogadores do plantel são sub-23. Quase todos formados no próprio clube.

Há 19 anos que nós, sportinguistas, não festejávamos um título destes. Que nos vale cerca de 23 milhões de euros - pelo ingresso automático na Liga dos Campeões. E tendo ao leme da equipa o segundo treinador campeão mais jovem da história do clube: Rúben Amorim, com 36 anos. Só antecedido por Juca, que conduziu o Sporting ao título na época 1961/1962. 

Proezas atrás de proezas. Eis outra: há 68 anos que não conquistávamos a prova máxima do futebol português num ano ímpar. O anterior foi o da época 1952/1953, ainda com alguns dos Cinco Violinos no plantel.

A melhor notícia desta noite inesquecível aconteceu no relvado, ao minuto 36 do jogo Sporting-Boavista, quando Paulinho marcou o golo da vitória leonina contra a equipa adversária. O golo que valeu acesso imediato ao título. 

A segunda melhor notícia veio da boca de Rúben Amorim. Ao garantir, na conferência de imprensa pós-jogo, que vai permanecer no Sporting na próxima temporada. Nem pensar em desviá-lo de Alvalade.

Sinto uma alegria imensa, por todos os motivos. Também por isto.

Malandrice, empatia e fair-play

João Campos, 11.05.21

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Em Agosto de 2019 tive a oportunidade de passar duas semanas a trabalhar na Malásia na companhia de colegas com os quais até aí só falara por telefone ou chat. Quis a sorte que os astros se alinhassem e que cá em casa pudéssemos tirar partido disto: a minha companheira conseguiu tirar férias, conseguimos comprar-lhe um bilhete, e lá fomos até ao Sudeste Asiático (em vôos separados, o que foi uma chatice, mas valeu a pena). Enquanto eu passei os dias a trabalhar, ela entreteve-se a passear por Kuala Lumpur - algo bastante conveniente também para mim, pois provavelmente não teria ido a metade dos sítios que visitei naqueles finais de tarde se não estivesse acompanhado (não sou grande turista, admito, enquanto a Ana planeou tudo, tratou de comprar bilhetes para os monumentos a visitar, etc).

No início da primeira semana calhou a visita à Torre de Kuala Lumpur. Saí do trabalho, meti-me num Grab (a versão local da Uber), e fui ter com a Ana à entrada da torre. Vista magnífica do topo, a dar a dimensão real da capital malaia. Naquele tempo ainda se viajava, pelo que não faltavam por ali turistas de inúmeras nacionalidades - percebíamos pelas palavras que íamos ouvindo, de idiomas europeus como o francês ou o italiano a idiomas asiáticos para nós incompreensíveis. E, como não podia deixar de ser, não éramos os únicos portugueses nas imediações - identificámos o casal como sendo português assim que saíram do elevandor, mesmo antes mesmo de os ouvirmos falar, pois o rapaz vestia uma camisola do Sporting.

Aqui talvez valha a pena explicar que dois dias antes (um dia e meio se considerarmos o fuso horário?) o Benfica tinha derrotado o Sporting por 5-0 na Supertaça.

Inevitavelmente, o primeiro pensamento que me ocorreu foi aproximar-se do meu compatriota, levantar a mão e dizer-lhe na língua de Camões "dá cá mais cinco". Ainda nos rimos a imaginar a cena, eu e a Ana, que como eu é também benfiquista. Já o segundo pensamento - não sou muito impulsivo - foi um pouco mais empático: a dezasseis mil quilómetros de casa, com ar de quem tinha discutido com a namorada no elevador, e ainda a ressacar pela derrota distante contra o eterno rival, decerto que a última coisa que aquele rapaz quereria encontrar no topo daquela torre naquele magnífico fim de tarde seria um sacana de um benfiquista a gozar o prato. Seria cruel, convenhamos. Com isso em mente (e com algum instinto de auto-preservação, confesso - não sou especialmente bem constituído, estava para aí a trezentos metros de altitude, e a ciência ainda não me deu um jetpack), optei por não dizer nada. E continuámos, eu e a Ana, a deliciar-nos com aquela vista espantosa de Kuala Lumpur, que com o cair da noite se assemelhava mais e mais às vastas metrópoles da ficção científica cyberpunk de que ambos somos fãs (a fotografia lá no topo não é grande coisa pois nem a câmara nem o fotógrafo eram grande coisa, mas fica o registo).

Recupero esta memória, que hoje parece tão distante, no dia em que o Sporting se sagra campeão nacional de futebol. A esta altura do campeonato já não tinha nenhum cavalo nesta corrida - do pouco que vi do Benfica em campo não me pareceu que merecessem ganhar o que quer que seja, e fora do campo a coisa dá asco - pelo que o resultado do jogo de hoje me era mais ou menos indiferente. Por norma, se tiver de escolher entre o Porto e o Sporting até prefiro ver os leões a vencer, se bem que nunca saia a perder dos confrontos - afinal, as derrotas leoninas são sempre um bom pretexto para provocações malandras aos meus amigos sportingistas.

Mas a verdade é que são justamente esses amigos quem importa hoje. Os anos têm-me tornado mais introvertido, mas tenho a sorte de manter muito bons amigos - e, entre eles, vários sportinguistas. Alguns já ouviram (leram) as inevitáveis provocações em privado, claro, e ainda terei mais algumas para os próximos dias. As piadas, admita-se, até se escrevem sozinhas (da última vez que isto tinha acontecido ainda andava eu na escola secundária, agora só em 2040, etc). Mas hoje esses amigos estão felizes, tão felizes como eu estava naquele entardecer há dois Verões, numa cidade espantosa que até então nunca tinha pensado visitar; e eu, pela parte que me toca, fico feliz pelos meus amigos. Por isso, e porque o desporto vale nada sem fair play, dedico esta memória, estas provocações bem intencionadas e este texto mal amanhado (começa a faltar-me prática, a Teresa Ribeiro bem me avisou há uns anos num jantar do Delito) aos meus amigos lagartos de tantos e tantos anos - ao João e ao Jorge, ao Miguel e ao Fernando, à Susana e ao Ricardo. E ao nosso Pedro Correia, claro, e aos leões e às leoas do Delito. Hoje a festa é vossa - aproveitem!

Livrem-se

Pedro Correia, 10.05.21

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O senhor J. Paulo Rebelo, alegado secretário de Estado do Desporto, andou a dizer por aí que o Governo está preocupado com as manifestações de júbilo dos sportinguistas na mais que previsível comemoração do título de campeão nacional de futebol.

«Será muito difícil conter em absoluto manifestações de adeptos que naturalmente surgirão», concedeu o suposto governante em declarações a um canal televisivo. Admitiu que será muito difícil «neutralizar as manifestações» de júbilo. E adiantou que «o melhor é enquadrá-las», resta ver de que maneira. 

Não sei, neste contexto, o que significa a salazarenta expressão «conter em absoluto», não havendo sequer estado de emergência que permita «neutralizar» manifestações. Querem suspender de vez a Constituição da República? Tudo é possível.

Pela minha parte, venho solicitar ao dito cavalheiro para transmitir quanto antes ao primeiro-ministro, assumido adepto do Benfica, que nós iremos celebrar o título como quisermos, quando quisermos e onde quisermos. Na varanda, à janela, no estádio, na rua, na praia, na praça ou no jardim. Sem esquecermos as normas sanitárias mais elementares, mas sem escondermos a alegria, perfeitamente compreensível.

Ninguém irá impedir-nos, ninguém conseguirá «neutralizar-nos». Muito menos um antigo membro da desonrosa Comissão de "Honra" da recandidatura do senhor Luís Filipe Vieira, cujo grupo económico figura em segundo lugar na lista dos 20 maiores devedores do Novo Banco - com prejuízos pagos pelos contribuintes portugueses - e arriscava um pedido de insolvência quando anunciou que seria recandidato às eleições "encarnadas" de há sete meses.

Livrem-se de tentar condicionar-nos. E que isto fique registado em acta desde já.

Taça Covid-19?

jpt, 02.05.20

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Acaba hoje o mês e meio de "estado de emergência" proclamado pelo presidente Sousa. O qual foi decidido sem pedido governamental e mesmo com o relativo desacordo do PM, que implicitou a sua desnecessidade. Convém recordar que Sousa tomou essa iniciativa para "recuperar terreno" na popularidade, depois da sua patética clausura, durante a qual se entreteve no "gozo fininho" da lida doméstica. Veio depois para o "gozo grosso" de exagerar a suspensão de direitos, num querer mostrar-se. E este inaceitável final, culminado ontem, mostra bem o vácuo que (des)anima esta presidência.

Belém, para adornar o seu percurso, gaba-se agora de um telefonema laudatório de Trump. E reina por aí uma saudável descompressão, pois "isto" não correu tão mal como o tememos. Até já se foi para a Alameda, ainda que sem patrocínio da Sagres. Mas convirá lembrar algo que acabo de ler: somos o 12º país com mais de meio milhão de habitantes com mais mortos; somos o 10º país da UE com mais mortos per capita. Ou seja, por meneios que queiram fazer convém lembrar: a taça Covid-19 que nos querem fazer crer ser nossa? Nada disso. Muito infelizmente.

É certo que muitos quererão gozar com o exemplo, por pobres razões clubísticas, por politiquice ou, aqui no DO, por lavourismo. Mas dou-vos um exemplo, para ilustrar o que realmente se passou: no dia 5 de Março o Sporting contratou o treinador do Braga pagando para isso uma quantia milionária, algo que foi motivo de grande polémica (ainda se falava em tais coisas, na imprensa e entre o público). A Itália estava já devastada, a Espanha começara o seu purgatório. Mas o Estado português calava-se, de tal maneira que os grandes agentes económicos seguiam como se nada fosse, a imprensa falava da "bola" e o povo assistia. Insisto, pode-se pegar neste exemplo e gozar com o clube, seus dirigentes, etc. Mas se se deixar esse rasteiro estatuto, se se ascender a cidadão? Então lembra-nos-emos que o Estado (e o seu palrador presidente) estava calado sobre a matéria, atarantado. Não foi capaz de sinalizar os cidadãos e os grandes grupos económicos do que se aproximava - e este exemplo, tão mediático, da excêntrica e polémica contratação de Amorim é grande mostrador disso mesmo. 

A memória é curta, e está a sê-lo. Estou confinado numa quinta, num grupo de famílias amigas. Eles encerraram-se a 6 de Março, no dia seguinte ao anúncio de Amorim no Sporting. Eu vim depois pois esperava a minha filha, que estuda em Inglaterra. Ou seja, estes meus amigos encerraram-se - apenas abrindo portas para nos acolher, o que nunca esquecerei, ainda para mais por ter sido naquela época tão angustiante - exactamente no dia em que Espanha fechou os lares de terceira idade e a nossa directora geral da saúde nos aconselhou a "ser solidários" e a visitar esses mesmos lares. Lembrai-vos disso? Se sim eu pergunto: quem morreu e onde vivia?

Assim, Taça Covid-19? Trump telefonou? Deixemo-nos de coisas, estes tipos estiveram a dormir na forma. Poupem-nos aos auto-elogios.

(E espero mesmo que a comentadora "Graça" aqui regresse para me chamar "energúmeno" de novo. E eu desta vez responder-lhe-ei. Num mero "quem morreu? onde?") 

 

Bruno de Carvalho

jpt, 06.07.19

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Ainda que apoiado pelo "institucional" jornal Expresso (a razão pela qual o jornal preferido da "classe média" Bloco Central político-económico apoia este homem é algo difícil de entender, se não se tiver uma interpretação economicista) Bruno de Carvalho acaba de ser definitivamente expulso do meu clube, na Assembleia-Geral do Sporting hoje decorrida. No último ano houve momentos em que o julguei personagem dramática. Mas afinal nem isso, tamanha a rábula que vem interpretando. Ainda assim esta perversa personagem - que a quase todos nós sportinguistas seduziu e exaltou -. ainda consegue, após todos estes desmandos e desvarios, receber apoio militante, e mesmo exasperado, de 30% dos associados.

É uma legião, sem calções, de gente disponível para quem a saiba arrebanhar. Esperem pouco, que alguém aparecerá. E não terá que ser do mundo da "bola". Nem sobre coisas da "bola".

 

A taça é nossa

jpt, 26.05.19

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É só futebol mas vivo-o (it's only rock 'n' roll, but I like it). Até demais ... E é, como disse, clarividente, o Francisco José Viegas, um antídoto contra a solidão.

Ontem, aqui na tasca vizinha, tamanha me foi a comoção final que a pressenti, à ceifeira, seu hálito e até seu afago: mais uma destas e ainda me dá o treco! E depois?, qual seria o problema? Que interessam os desconseguimentos, as interrupções, o desfeito e o infeito? Que mais será de pedir nisto do que o enfeite  do final feliz?

 

Já vai sendo tempo

Pedro Correia, 30.04.19

O Pedro Boucherie Mendes chama aqui a atenção para um facto que tem passado totalmente à margem dos titulares encartados do comentário jornalístico: vai agora fazer um ano, foram detidos cerca de 40 indivíduos ligados a claques do Sporting por terem invadido as instalações da academia leonina e agredido jogadores, funcionários e elementos da equipa técnica do clube. Repito: há quase um ano. Continuam em regime de prisão preventiva, ignorando ainda se serão deduzidas acusações contra eles, bem como a data em que poderão enfim submeter-se a julgamento.

Como adepto e sócio do Sporting, critiquei sem a menor reserva este inadmissível acto criminoso, que projectou pelos piores motivos o nome do meu clube além-fronteiras, com as imagens da invasão de Alcochete dando a volta ao mundo. Mas é inaceitável este abuso da prisão preventiva: sem acusação formal, todos estes indivíduos já cumprem pena. E cito o Pedro, justamente perplexo contra o tempo e o modo de funcionamento da justiça portuguesa: «Presos há quase um ano sem culpa formada, ninguém liga, ninguém quer saber. Podia ser uma série da Netflix, mas é aqui, em Portugal, com gente verdadeira. Fizeram mal em invadir Alcochete? Claro, mas digam-lhes quanto devem à sociedade. Um mês, um ano, 5 anos, 500 anos? O que for, mas digam-lhes. Já vai sendo tempo de a Amnistia, os partidos políticos e as mil e umas ONGs que vivem penduradas na indústria dos subsídios abrirem o bico.»

Sim, caramba, vai sendo tempo.

O esgoto estatal

jpt, 01.12.18

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Um antigo presidente de um clube desportivo é sujeito a um interrogatório, no âmbito de uma investigação ampla, ainda em curso. Depois o Estado (uma sua secção, chamada "ministério público") entrega as gravações desse interrogatório à televisão estatal e autoriza-a a transmiti-las: aqui, um programa da RTP com excertos das declarações de Bruno de Carvalho, anunciando a sua reprodução como autorizada pelo tal "ministério público".

Decerto que há um qualquer quadro legal que permite isto, safando os funcionários públicos e fazendo medrar esta mentalidade. Mas isto é inqualificável. O estado do Estado é um descalabro. Uma cloaca a céu aberto, onde engorda esta gente.

Mourinho

jpt, 08.11.18

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(Postal para o És a Nossa Fé

 

Juventus-Manchester United, no palco global da “Champions” o jogo entre as equipas dos dois portugueses mais conhecidos do mundo, pelos seus extraordinários méritos. Também por isso eles alvos de tanta raiva nacional, mostra desse traço cultural constante, a inveja dos patrícios com sucesso “lá fora”, tão paradoxal e desprezível num país que foi colonial (e abominou os seus colonos) e é de emigração (e menospreza os seus emigrantes). A abjecta reacção generalizada, isenta daquilo chamado “dúvida”, às acusações de uma acompanhante de luxo a Cristiano Ronaldo, é um caso extremo disso. Mas é algo continuado, há uns anos (2012, 2013?), num treino da selecção antes de um jogo particular em Guimarães o público gritava “Messi, Messi” para espanto do CR7. Pois porquê aquilo? Tal como a constante maledicência sobre Mourinho – há quantos anos, 10?, se lêem inúmeros comentários e opiniões na imprensa sobre o estar ele “ultrapassado”? – disso é prova.

Ontem o confronto (também) entre eles. Algo que connosco fala, sportinguistas, sobre o nosso clube. O CR7 orgulho máximo da nossa formação, encabeçando o trio maravilha de três décadas gloriosas, Futre-Figo-Cristiano. Talvez o melhor jogador do mundo, e cada vez mais isso se evidencia (Messi como o génio trabalhado, Ronaldo como o trabalho genial). E Mourinho, o técnico em actividade com mais vitórias relevantes, em tempos recusado pelo Sporting (um dos três erros históricos do clube, junto aos com Eusébio e Futre). Negado, julgo recordar (ou sonho a memória?), quando o actual director do futebol do Sporting, então capitão, se armou em Sérgio Ramos e torpedeou em público essa vinda, associando-se aos sábios espectadores, esses sempre armados de vigorosos lenços brancos, que clamaram inadmissível que um treinador transitasse do Benfica para o Sporting. Pois desde há décadas que os fungões espirram …

Enfim, vem isto a propósito do final do jogo de ontem. Mourinho, que em Manchester e Turim foi azucrinado pelos adeptos italianos, jogou bem e triunfou. A Juventus é melhor, ganhara soberbamente fora e em casa tinha o jogo na mão. CR7 fez um jogo magnífico, um golo espantoso e deu outros a marcar, desperdiçados por pés Quadrados. Mas Mourinho pensou bem, substituiu melhor, e teve a sorte (essa grande jogadora) por ele. E fez a reviravolta, mesmo no fim. Jogo épico.

Mas o que é mesmo magnífico é a sua reacção. Provocatória, deselegante, desnecessária, digam o que disserem. Mas é uma delícia. Porque é futebol. Mas ainda mais do que isso, porque é completamente portuguesa. Não exactamente o gesto da mão na orelha, algo mais comum. Mas é aquele trejeito da boca, “hâânnn?”, “dígam lá agóra!!”. Algo, ricto e óbvio som, tão nosso, tão português de rua, bairro, popular, tão “tuga”, tão treinador da bola, como se fosse ali aqueles técnicos dos tempos de antes, os do Aliados do Lordelo ou do Montijo a ganharem à Sanjoanense ou ao Amora, assim a fazer o mundo pequeno e igual quanto às mesuras que se lhe (não) deve, e nisso também tão eu, tão nós, os que não temos nem vergonha de ser portugueses nem abominamos os nossos que ganham alhures. Vejo-o ali na tv e rio-me, gargalho, “ah g’anda Mourinho, meu patrício”, meu e nosso orgulho amanhã. Saídos à rua, entre nós e com os outros, “hâânnn?”, “dígam lá agóra!!”. Nós povo, rindo, que hoje no fim do dia tragaremos o “petit verre”, escorropicharemos o bagaço branco, e irei eu até à rua, à porta da “petite restauration”, a tasca daqui, a fumar o cigarro e, se necessário, no choque com o frio, assoar-me-ei aos dedos, sacudindo o ranho para o chão, e se calhar ainda terei que cuspir, na azia do álcool. E, entre nós, riremos, com desprezo mas também mágoa, desses invejosos lá na terra. E ainda mais, com gargalhada mesmo, com alguma amarga piada sobre essa paneleirage, tão amaricada, sensíveis coitadinhos, a agitarem os lencinhos brancos, arrebitados em meneios no “olhem para mim”, que é para isso que lhes servem os trapos.

G’anda Zé Mourinho, g’anda patrício. E viva também o CR7, o melhor do mundo.

Presidente Varandas

Pedro Correia, 09.09.18

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Contados os votos num dia histórico no Sporting, confirma-se a vitória daquele que sempre me pareceu o candidato mais preparado. Aquele que conhece bem o desporto-rei, que serviu o clube como competente director clínico durante sete anos, que trabalhou no departamento de futebol leonino e foi ali o primeiro a avançar corajosamente contra o desvario carvalhista, rompendo sem ambiguidades com uma gestão caótica e danosa enquanto outros, cá fora, se resguardavam. Aquele que, com inegável desassombro, soube erguer a voz no momento certo proferindo a palavra "não".

Ganha por margem confortável, com cerca de 42,3% dos votos - superando em 5,5% o seu principal oponente nesta campanha, João Benedito, que se apressou a felicitá-lo com elegância e galhardia. Margem que lhe permitirá gerir este grande clube, concentrando todas as energias e todo o seu talento ao serviço da centenária instituição de utilidade pública que tanto amamos.

 

O mais difícil começa agora. Terá momentos muito complicados no percurso que vai seguir-se. Atravessará horas de extrema solidão. Conhecerá invejas e ingratidões, próprias da natureza humana. Com firmeza e tacto, deverá recompor os cacos a que o presidente destituído em 23 de Junho reduziu o Sporting.

Frederico Varandas conduzirá esta empreitada com sucesso, acredito. Para bem desta incomparável massa adepta que não desiste nem deserta mesmo com prolongados jejuns de títulos. Unir o Sporting - seu lema de campanha - é prioridade máxima do novo presidente. Do meu presidente.

Do presidente de nós todos.

Afinal nunca foi sportinguista

Pedro Correia, 24.06.18

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Sendo as evidências o que eram, e depois de tudo quanto se passou - todos os atropelos à legalidade, todas as aldrabices que se iam acumulando, todas as promessas violadas ao sabor das conveniências, todos os atentados grosseiros à identidade leonina - o que verdadeiramente me espanta é verificar que Bruno de Carvalho ainda conseguiu recolher ontem quase 30% dos votos dos associados leoninos.

Enganados até ao fim pelo homem que, já ia muito adiantada a madrugada de hoje, em nova insónia partilhada com o ecrã digital que lhe serve de mau conselheiro, assume enfim a verdadeira face: afinal nunca foi sportinguista. As expressóes de ódio, ranço e asco ao clube e aos associados que bolçou neste mais recente texto da rede social a que está agarrado revelam bem isso. Expressões indignas de um sportinguista, que só concebemos na boca e na pena de um inimigo do nosso clube.

 

Expressões que recordo aqui, para memória futura:

«Não consigo mais sentir este Clube... Não sou mais do Sporting Clube de Portugal.»

«Hoje deixei de ser para sempre sócio e adepto deste Clube.»

«Esqueçam os associados pois nunca vão mandar neste Clube... Vão ser sempre fantoches desta elite que só permite entrar quem se render aos seus interesses.»

«Vocês não contam para nada neste SCP que é de Viscondes....»

«Não quero fazer parte de um conjunto de cretinos que não valem o ar que respiram. Não me quero mais aproximar de uma elite bafienta e mal cheirosa que sempre dominou o Sporting Clube de Portugal!»

«A minha carta de suspensão vitalicia de sócio segue segunda-feira e nunca mais seguirei sequer os eventos desportivos do Clube.»

 

Mostrou enfim a verdadeira face. A de um desequiilbrado. A de um mitómano. A de um sociopata. Sai pela porta dos fundos, sem honra nem glória nem dignidade. Insultando o clube que devia ter servido e os sócios a quem jurou lealdade e competência.

Tudo menos Leão.

Só me espanta como é que podia haver ainda tanta gente convencida de que fizesse parte da solução alguém que era o maior dos problemas.

Muito para além do Sporting

jpt, 16.06.18

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(Texto que coloquei há dias, em versão algo diferente, no És a Nossa Fé. Deixo-o aqui por desafio de uma leitora/comentadora de ambos os blogs).

 

Por antipático que isto pareça aos sportinguistas, em especial neste período de exaltação clubística, não "é ao Sporting que devo lealdade e fidelidade", como tantos reclamarão, em registo algo “futebolês”, como factor de legitimidade opinativa e, acima de tudo como invectiva aos trabalhadores jogadores de futebol que estão a rescindir os seus contratos laborais. Devo "lealdade ..." indiscutível à Pátria (ao país, como prefiro dizer), à minha família, ao meu parentesco espiritual (os meus amigos). E devo lealdade a quem me rodeia, como ser humano, e de forma mais explícita no âmbito das relações laborais. [E junto, tipo nota de rodapé, que abomino o conceito de fidelidade, que entre pessoas é o refúgio dos medíocres - deixemos agora de fora a vida conjugal, que cada um a viva como quer].

 

O Sporting Clube de Portugal é um clube, uma associação desportiva, e estas grandes proclamações muito absolutas e grandiloquentes casam bem com a tal exaltação, nos eventos desportivos e nestes difíceis momentos. Mas não, nada mesmo, na normalidade do dia-a-dia. Pois, de facto, confundem valores, mostram até algum vazio de valores. Alguns contestarão isto, reclamarão a sua paixão imorredoira pelo clube. Mas se lhes aparecer um vizinho a dizer, com grande ênfase, jorrando perdigotos, como se falasse de um qualquer Padroado, "eu devo lealdade e fidelidade ao Olivais e Moscavide" ou a um outro qualquer "Santa Marta de Penaguião Futebol Clube" decerto que sorrirão, tal o descabido, até ridículo, da afirmação. Mas é exactamente a mesma coisa com qualquer associação desportiva. Que cada um exerça a paixão clubística à sua maneira, mas que se lhe exija um tino de cidadania, uma perspicácia sobre a relevância relativa daquilo que nos rodeia.

 

O que se passa no Sporting ultrapassa em muito a questão clubística - ainda que esta seja tão sonante e premente que nos monopolize a atenção. No clube, grande instituição nacional, de enorme influência formativa entre os seus adeptos e em toda a sociedade, predomina uma soez cultura anti-democrática.  Bruno de Carvalho despreza a liberdade e pluralidade de opiniões internas (veja-se o enviesado trabalho do sector informativo interno), a diversidade da sociedade ("bardamerda para os que não são do Sporting", clamou aquando reeleito), e o primado da lei (a rábula das assembleias e dos órgãos dirigentes que quer instaurar).

 

Mais repugnante do que isso, mas inserível no mesmo modo de "ver o mundo", é como olha as relações laborais. BdC entende-se patrão, numa concepção que atribui ao patronato o direito ao assédio ("assédio" não é apenas "assédio sexual", essa questão actual) aos trabalhadores, a sobre-pressão, a invectiva, entendendo-a como “motivadora”, o desrespeito, moral e profissional. Mostram-no, de forma radical, o conteúdo das mensagens que envia aos atletas do clube. E sublinha-o, agora, a divulgação de mensagens privadas que com eles troca, um desrespeito total (e ilegal, ao que me dizem, mas isso é matéria de outro âmbito).

 

O assédio laboral é um crime, ilegal e imoral. Indesculpável, em público e pior até se em privado. Quem o pratica é indigno, não merece respeito. Sabemos (“ouvimos dizer”) que é recorrente, sob plurais formas. E ainda que haja procedimentos legais, enquadramentos sindicais, judiciais e associativos, que protegem os trabalhadores, muitos têm constrangimentos que os levam a aceitar inaceitáveis comportamentos de patronato ou de hierarquias laborais. 

 

Alguns dirão que jogadores de futebol muito bem pagos não são credores da nossa simpatia e solidariedade num caso destes. Não é essa a questão. O que se passa é que BdC tem uma visão da realidade, do mundo laboral, do seu papel de administrador (que entende como de patrão "à antiga"), que é inadmissível. E, repito, ilegal e imoral. Retrógrada, contrária ao desenvolvimento do país nas últimas décadas, à sua democratização - com todos os defeitos e insucessos que se lhe queiram assacar. Adversa aos valores sociais, jurídicos, religiosos, políticos, dominantes. E, como tal, inadmissíveis na figura de um presidente de uma instituição com o peso do Sporting, com a sua dimensão formativa. Independentemente dos triunfos nas modalidades desportivas, futebol incluído. Independentemente dos hipotéticos sucessos económico-financeiros. Pois Bruno de Carvalho, com a visão de sociedade que tem, é uma persona non grata num país democrático e civilizado. 

 

Entre os comentadores deste nosso És a Nossa Fé vejo um pequeno excerto dos que têm apreço por aquele entendimento, alguns com grande iliteracia (talvez fingida no aspecto gramatical, mas óbvia na dimensão intelectual). Tal como noutros blogs e na imprensa se encontram os seus ecos. Muitos dos adeptos desta maneira de ver o mundo, do destratamento nas relações laborais, será gente que está fora das relações laborais institucionalizadas, geridas sob direitos e deveres regulamentados, com instâncias de recurso. Alguns deles, os tais "jovens" de que se falou aquando das prisões entre-claques, integrarão nichos de economia paralela, marginal até, subterrânea. Reforçada no desemprego que grassou no país. Que funciona(rá) com relações laborais, vínculos operacionais, estabelecidos sobre relações pessoalizadas, discricionárias, essas sim apelando à tal "fidelidade". E assim desconhecedores das culturas laborais institucionalizadas. Muito menos violentas, e saudavelmente protectoras dos trabalhadores. Também para obstar a esta pobre visão da sociedade, para compreensão dos direitos dos indivíduos, é importante que grandes clubes não reproduzam os pérfidos valores sociais que gente como Bruno de Carvalho assume.

 

Por tudo isto, por apreço ao país, ao seu desenvolvimento, a todos nós, às nossas liberdades individuais, tem que haver limites. Que são éticos. Questão que se me levanta diante da notícia das rescisões dos jogadores de futebol, trabalhadores do Sporting, na sequência do inadmissível, anti-democrático, repugnante e continuado assédio (bullying) praticado pelo presidente. Quando numa situação destas vejo chamar, com tudo de pejorativo que isso explicita, "refractários" a esse jogadores, isso cruza a linha do admissível. Mostra uma vil concepção de sociedade, de trabalho, de responsabilidade individual. Mostra o quão anti-democráticos são os locutores. O (Um) clube não une quem tem tão diferentes valores, tão diferentes ideias de sociedade, de "lealdade". E, estou certo, não é no meu lado que habita a abjecção moral. Mas no de quem, seja lá qual for o clube com que simpatiza, concorda com esse tipo de invectivas.

 

Não discuto se os jogadores têm “direito” jurídico para rescindirem contratos, isso é matéria para os tribunais. Mas o que discuto é se têm “direito” para o fazer. Muitos contestam esse “direito”, difuso, invectivando-os, clamando que eles traem o “amor à camisola”, aos “vínculos espirituais”. Leio-o e ouço-o entre gente com formação escolar e biográfica mais do que suficiente para uma outra densidade de reflexão. Demonstram, tantas vezes apesar deles próprios, duas dimensões: cegueira sobre a actualidade; adesão ao fascismo.

 

O “amor à camisola”, o “vínculo espiritual”, é essencial no fenómeno clubismo e parte crucial em vários desportos. Mas a sua realidade tem-se transformado, de múltiplas formas. Abordo apenas uma, relativa a esta situação: muitos sportinguistas afirmam que os jogadores da “formação” (as escolas do clube) são “devedores” morais do clube. Entenda-se, os jogadores jovens, das escolas, têm contratos laborais (diz-me um familiar de um jovem jogador do Benfica que aos 14 anos podem assinar contratos até 1500 euros por mês!!). Os clubes investem na formação no intuito de obterem resultados económicos – seja através do exercício quando seniores, seja na venda das licenças desportivas. A própria formação do clube (do Sporting e não só) é entendida como uma actividade produtiva, económica. Como o mostra o “franchising”, o estabelecimento de “academias” pelo mundo (na China, na África do Sul, etc.), que tanto apreço colhe entre os adeptos. É um “business” global, de obtenção de lucros com a “marca” do clube. Esperamos que os putos “sejam” do Sporting, que lhes germine o tal “vínculo espiritual”? Sim. Mas de facto tudo é uma actividade económica, desde a mais tenra idade dos jogadores (o que até levantará questões muito mais abrangentes, que não coloco aqui). E está no cerne da actividade do(s) clube(s). Os jogadores são formados nos clubes, ganham competências para uma profissão? Sim. Mas, repito, fazem-no no seio de uma actividade económica. Assim pensada pela instituição formadora. Assim entendida pelos formandos (e suas famílias). É uma candura, até desonesta, não compreender isso. E exigir uma assimetria no relacionamento. E vir insultar quem, inserido nesta realidade, actua estrategicamente em defesa dos seus interesses.

 

A outra dimensão, a implícita adesão fascista que este discurso mostra, é muito simples e nem me alongarei. O apreço pelo tempo do “amor à camisola”, em que os jogadores estavam longos anos no mesmo clube, dele se tornavam símbolos, a invocação desses “bons velhos tempos” é transversal aos adeptos do futebol, desde o mais empedernido salazarista ao mais pós-moderno pós-maoísta BE. Ou seja, todos eles têm uma nostalgia pelos tempos em que os jogadores de futebol estavam submetidos à “lei do passe” (desportivo): terminado o contrato não eram livres de escolher o seu próximo empregador, pois os clubes tinham a prerrogativa de os manter nos seus quadros. Um regulamento “servil”, “feudal” se se quiser. E por esse intermédio os jogadores ficavam anos a fio, mesmo que tivessem outros objectivos, no mesmo clube. Após o 25 de Abril isso terminou. Passados largos anos, Valentim Loureiro tentou, como presidente da Liga de Futebol, reinstaurar mecanismos legais relativamente similares (sim, um homem de um partido chamado social-democrata; sim, um homem que visitava Guterres em São Bento levando as criancinhas de Gondomar). Muitos, hoje, em nome do seu clubismo, continuam a trautear esse pérfido “ó tempo volta para trás”. Quando os jogadores de futebol não tinham liberdade de escolher o seu empregador. E chamam “amor” a esse seu desejo fascista. É nitidamente uma concepção sado-maso da vida afectiva e sexual. Ou então é pura patetice.

 

Enfim, que os jogadores do Sporting, que tantas alegrias e expectativas me deram (podiam ter sido mais ..., raiparta) sigam as suas carreiras com sucesso e saúde. Exercendo o seu livre-arbítrio. E que, se ainda for possível, regressem em muito breve ao Sporting. Se salvaguardadas as condições para o seu exercício profissional, respeitados, enquadrados pelo espírito da lei laboral e do bom viver democrático.

 

E que os meus caros co-adeptos (aqueles que sabem da dignidade humana, não os energúmenos fanatizados, que põem o clube acima da Pátria, da sociedade, do país)  não repitam a espantosa patetice de tantos benfiquistas, há alguns anos autênticas baratas-tontas porque um trabalhador legitimamente saído do seu clube decidiu, pelo "sagrado" (se há coisa que é sacralizável é isso mesmo) livre-arbítrio vir trabalhar para o rival. Tino, é o que nos tem faltado. A mim, e a pelo menos 86% dos votantes na maior eleição de sempre no Sporting. Recuperemos o tino. E apartemo-nos dos refractários à decência civilizada. No clube. E no país.

Apocalipse Já

jpt, 15.06.18

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(Texto escrito para o És a Nossa Fé. É longo, que me desculpem, mas é catarse da tristeza. E forma de suspender o blogar. Pelo menos por uns tempos. Não quero escrever em público neste meu "estado de alma" abalado, sempre propenso a exageros intimistas).

 

Eu era adolescente mas ainda me lembro, de modo algo vago. Há quase 40 anos surgiu uma das melhores campanhas políticas, o dístico “Eu não tenho culpa, não votei AD”. Pois, de repente, no meio daquela crise, ninguém assumia ter apoiado o governo maioritário. Certo, houve uma réplica, o “Eu sou AD, eu trabalho”, outro dístico – antes das redes sociais as pessoas afixavam nas roupas, usando-as como “murais” -, pujante mas com menos sucesso.

 

O que se passa no Sporting Clube de Portugal é um pouco o mesmo. A “crise” não o é mas sim um descalabro. Um Apocalipse, Já. E todos nós vamos organizando a nossa amnésia, numa espécie de “Je ne suis pas Bruno”. Mas a realidade é que Bruno de Carvalho foi reeleito o ano passado, nas eleições mais concorridas do centenário clube, com a maior percentagem de votos de sempre, se em eleições com listas concorrenciais. Foi sufragado pelos sócios, aclamado pelos adeptos. Alguns desgostosos com o seu estilo. Mas poucos, muito poucos, opondo-se ao conteúdo. Crentes, lúcidos, que “a forma é conteúdo” – e refiro o meu querido amigo Miguel Valle de Figueiredo, sportinguista profundo, meu co-bloguista, que desde o surgimento de BdC me causticou pelo meu estuporado apoio à personagem.

 

Explicações para a ascensão do “brunismo” serão várias. As internas ao agora dito “Universo Sporting” são óbvias: o apoucamento do clube nas últimas décadas, a míngua de títulos no desporto-rei, a redução das suas modalidades, e também o desbaratar do património fundiário e a profunda crise económica. E um dado sociológico: num clube popular (e pouco importa se o mais popular, como inventou Sousa Cintra, se o segundo ou o terceiro do país), o “único clube “de Portugal”” como tanto fazemos questão de dizer, notou-se que esta decadência fosse gerida (gerada?) por uma auto-reclamada elite social, os agora ditos “croquettes” (de preferência com os dois “tt”s), a panóplia de “notáveis”, uma espécie de plutocracia, transumante entre o clube e o eixo construção civil-banca. E os efeitos da crise económica, o estrondo na banca nacional e a aflição na construção, apontaram (e devidamente, na minha opinião) o quanto de espantalho tem essa aparente elite, a sua “solidez”, “competência” e “seriedade”. No país, e muito em particular no clube. Daí a ascensão de Godinho Lopes (que, de facto, não pertence a esse meio social). E logo de seguida, ruptura ainda mais radical, o “Bruno”, homem das massas. Ou seja, homem das claques, para falar em termos clubísticos.

 

Tudo isto catapultado pela vontade, até insana, de ganhar títulos. Os quais, o que tanto piora a coisa, tão habituais são nos “outros”, os vizinhos, benfiquistas e portistas, esses sempre “ferindo-nos” com a sua festa cíclica, a sua alegria esfuziante. Invejamo-los, o que nos apouca, amesquinha. Mesmo que não o confessemos.

 

Títulos que são o corpo do ideal de “sucesso”, tão difundido nos finais de XX. E que é desesperante, pois a esmagadora maioria de nós não consegue ter “sucesso”, palpável, festejável, “trofeuizável”, que seja reconhecível, saudado, até invejado pelos outros. Aguentamos a merda do dia-a-dia, uma ou outra alegria, uma festarola, uma pequena promoção, um bónus no salário, uma bela refeição, a praia na Tailândia ou um escaldão na Manta Rota. E, quanto muito, uns laivos de felicidade, um filho que cresce, um neto que encanta, uma mulher que sorri, no acto ou mais ao longe, um qualquer feito, naqueles que gostam do que trabalham ou vão com hóbi. Ou alguma placidez, talvez. Por isso este anseio de títulos da “bola”. Não para esconder algo. Mas para celebrarmos este algo, e que parece pouco, que nos coube.

 

E mais o são num país que se futebolizou, desde os “a geração de oiro” do prof. Queiroz, do Euro-04, tudo catapultado no frenesim da imprensa multiplicada (rádios privadas nos 80s, jornais desportivos diários, televisões privadas nos 90s) e agora histriónica pois moribunda. E a explosão da internet, e das redes sociais (como este blog). Quem vive ou viveu no estrangeiro perceberá bem melhor que tudo isto, todo este futebolismo, não é a regra nem o hábito generalizado.

 

Enfim, tudo isto e muito mais nos trouxe ao “Bruno”. Ao nosso apoio, ao meu apoio, de anos, até há alguns poucos meses. Cri que no clubismo (que não na política) este afrontar, em modo populista, da plutocracia seria positivo. E serviria até como exemplo, aviso, para essa tal política. Para um bem geral, do clube, e português. Engano total. Erro crasso, de avaliação, de reflexão. De cumplicidade, estratégica que tenha sido, com o mal. Pois Bruno de Carvalho é tudo aquilo que anunciava ser, personagem típica que é. Ainda mais ilógico do que será de esperar deste tipo de líderes, populistas abrasivos. Pois em formato incompetente, agora feito cinzas pelas chamas que ateou.

 

O resultado económico e desportivo deste desgraçado período será abissal. As perdas são (e serão) brutais, em cima das enormes dificuldades que o clube vivia. Pior ainda nesta nova era de futebol-negócio. Acabadas de mudar as regras de redistribuição de rendimentos na Liga dos Campeões, algo inserido nesta lenta marcha para uma Liga Europeia de clubes. O fosso entre participantes e não-participantes, entre elite e “pequenos”, cada vez será maior. Ao colapsar agora, ao perder terreno (e tanto) neste preciso momento, o clube compromete, talvez definitivamente, para sossego dos rivais, a entrada nesse universo clubístico. É a estocada final na decadência.

 

Mas ainda maiores serão as perdas morais. Os clubes, mais do que todos os outros grupos, são “comunidades imaginadas”*. Porque a nossa adesão, a dos simples milhões de adeptos, é desinteresseira, deles nada queremos para nós próprios, nem remissão de pecados, nem orientações para a vida, nem entreajudas, e muito menos benesses, remunerações. Queremos comungar, participar, “torcer” por um bem que imaginamos comum, “nosso”. E que é “etéreo”, nada palpável – para além de umas taças e umas medalhas, acumuláveis como mero arquivo -, feito de símbolos, heróis quase divinos (Peyroteo, Agostinho, Lopes, Chana, Theriaga) de que ouvimos os mais-velhos falar ou recordamos de um desvanecido passado.

 

E é essa comunhão imaginada que arde agora. Não só por causa de Bruno e seus sequazes. Mas ao ler os seus inúmeros apoiantes, no seu mural de FB (muito censurado) e em tantos outros locais. Imensa gente, com um português escrito muito básico (o que não é maldade mas é característica), vociferando, repetindo até à náusea teorias da conspiração, teses de campanhas urdidas por um feixe ilimitado de agentes maléficos contra o Sporting, e seu presidente (agora suspenso).

 

Vinte anos de África, e a minha profissão, fizeram-me conviver com ideias muito parecidas: o mal, a falha, a perda, se (a)parece imponderável, inescrutável, inopinado, é dito efeito de feitiço alheio, acção maldosa de algum “vizinho”. Entre nós, séculos e séculos de cristianismo queimaram (literalmente) as crenças no feitiço. Elas subsistem, mas não dominam o quotidiano. Mas esse modo de explicar o indesejável inesperado tem este formato, a crença não num vizinho feiticeiro mas numa panóplia, difusa, esconsa, de agentes coligados para fazerem(-nos) o mal. Não “Foi Deus”, muito menos “o Demo”, nem o “feiticeiro” ou “os espíritos antepassados”. Foram “Eles”, homens vivos, agindo na sombra.

 

E penso, que “comunhão imaginada” posso ter com esta gente? Que assim pensa? Como partilhar símbolos, valores, emoções, se os entendemos tão diferentemente? A estes e, decerto, que a tudo o mais que seja significante. Como manter a ficção, a imaginação? E como manter, ainda mais difícil o é, qualquer comunhão com os nazis, os claqueiros, os boçais holigões, que ululam “Sporting” durante as suas verdadeiras missas de adoração ao Demónio, fazendo do estádio o seu perverso templo. Para nosso gáudio, animados com a encenação e o apoio “à equipa”. Que comunhão ter? Como continuar a imaginá-la? Como crer, aceitar, naqueles que me dizem neste momento de crise, “somos todos sportinguistas”, “há que manter a união”. Em nome de quê?

 

Nestes dias tenho-me lembrado de um homem que conheci vagamente, amigo de amigos. Moçambicano luso-descendente, pertencente àquele núcleo de jovens portugueses que optaram por ficar no país após a independência, tantos deles cheios de esperanças voluntariosas, as próprias da juventude, dos homens e dos países. Há alguns anos, ele já sexagenário, doente e com alguns problemas económicos, segundo me disseram, há muito distante da família, recolheu-se em casa. Estendeu a bandeira na cama, não a moçambicana, não a portuguesa, nem a de algum partido político ou igreja, ou  algum estandarte militar, estes tão típicos daquela geração. Estendeu na sua cama a bandeira do Sporting, sobre ela se deitou, e fez-se adormecer para sempre.

 

É por isto, por este quase indizível, que há clubes, as tais comunidades imaginadas. Porque são imagináveis. E são-no porque existem, porque são reais. E por serem reais nelas nem todos cabem.

 

E é esta consciência que o “Bruno”, Bruno de Carvalho, me trouxe. E o não ter  percebido tão antes é-me um verdadeiro Apocalipse. Já!

 

O da minha razão, capacidade afinal tão incapaz, coisa para outros pouco importante. E o do clube. No molde que o conheci. O que imenso me entristece.

 

* "Comunidades Imaginadas" é o título de um livro de Benedict Anderson, sobre o nacionalismo. O livro é muito bom e a expressão generalizou-se.

Mais do mesmo

Pedro Correia, 15.06.18

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O costume: insultou jornalistas («vocês não são capazes de dizer a verdade»), destratou comentadores, enxovalhou os sócios («os associados do Sporting podem ter muitos defeitos mas já perceberam que as coisas não são assim como dizem»), fez autênticas piruetas verbais para quase considerar positiva a onda de rescisões de jogadores («se tiramos os jogadores, também há que tirar os salários, ora como os salários são elevados se calhar as coisas não são assim como dizem»), mostrou-se totalmente dissociado da realidade («estamos a negociar com jogadores belíssimos, sem problema nenhum»; «vou garantidamente ter uma equipa para lutar pelo título no futebol sénior masculino»).

Falou do seu assunto favorito: ele mesmo. Dizendo-se perseguido por todas as forças ocultas do universo. Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu...

 

Nesta conferência de imprensa, que se prolongou por setenta minutos, disparou em todas as direcções sem jamais assumir a menor parcela de responsabilidade neste inédito descalabro do Sporting.

Suavizou de forma quase obscena a inaudita violência de Alcochete, com frases de chocante insensibilidade e de evidente chacota, procurando desvalorizar tudo quanto ali se passou: «No meio dos tremores, [Ruben Ribeiro] ia-me mandando corações verdes e abraços»; «[Rafael Leão] está com tremores terríveis, tremendos.»

 

Nada disse de minimamente credível sobre a decisão do tribunal que  acaba de derrotá-lo em toda a linha - considerando sem fundamentação legal as duas "assembleias gerais" que ele tinha convocado, em flagrante violação dos estatutos leoninos, e ferida de nulidade jurídica a nomeação da putativa "comissão de transição" da irrelevante senhora Judas.

Por ironia do destino, disse tudo isto na sala do Conselho Directivo tendo atrás dele as fotografias dos chamados "presidentes croquetes" que ele tanto odeia e que as turbas mais fanáticas que ainda se deixam guiar por ele tanto abominam.

Vi esta fotografia e não pude deixar de associá-la ao final do célebre romance Animal Farm, de George Orwell. Tanta "revolução" tonitruante para tudo terminar, em termos simbólicos, no ponto de partida.

 

 

Adenda: Faz hoje um mês que o centro de estágio em Alcochete foi invadido por quase meia centena de criminosos, que bateram em quem quiseram e destruiram o que lhes apeteceu. Nunca esqueceremos. Foi a página mais negra da história do Sporting.