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Delito de Opinião

Como baixar o risco de pobreza em Portugal

Paulo Sousa, 23.10.23

"Durante a semana soubemos que a taxa de risco de pobreza baixou em Portugal. Mas desta vez Portugal foi o único país da União Europeia que baixou o rendimento mediano de 2021 para 2022. Sendo a taxa de risco de pobreza igual à percentagem de pessoas que estão abaixo de 60% do valor da mediana do rendimento, então, se baixarmos a mediana mantendo o nível dos mais pobres, isto é, num movimento absolutamente inédito, baixamos o número relativo de pobres porque somos homogeneamente mais pobres. Que orgulho."

João Duque, Expresso

O João e o Orçamento do Estado para 2024

Paulo Sousa, 18.10.23

O João tem 19 anos e vive nos arredores de Tomar. Como muitos seus conterrâneos, depois de ter concluído o ensino secundário, não encontrou emprego ali perto. Um primo mais velho, que trabalha na indústria de moldes na Marinha Grande, disse-lhe que conhecia uma empresa que andava a contratar aprendizes para fresador de moldes. Podia ser uma oportunidade porque nos moldes pagam-se salários acima da média e um fresador com experiência é bastante bem pago. Além disso a empresa estava localizada na Área de Localização Empresarial de Porto de Mós, que fica logo junto a uma saída do IC9 que liga Tomar ao litoral. Era uma viagem sem trânsito nem portagens.

Ele fez as contas às deslocações diárias e apesar de ainda serem perto de 50 km para cada lado, conseguia ir e vir em pouco mais de uma hora. Se arrendasse um quarto, acabaria por gastar na renda aquilo que pouparia nas deslocações, fora as demais despesas da estadia.

Os dois irmãos mais velhos emigraram para França há uns anos e insistiram com ele para que fazer o mesmo. Ele, o mais novo da família, custa-lhe partir e deixar os pais, que já não vão para novos. Por isso, preferiu aceitar o desafio do primo. Comprou um Renault Clio 1.9 RT de 1991 para as suas deslocações. O carro já não é novo, mas disseram-lhe que faz uns consumos porreiros e aquele motor atmosférico dura vidas. Além disso, custou-lhe apenas 1275 euros. Por impossibilidade dos pais, que têm reformas magras e contas gordas na farmácia, o irmão mais velho emprestou-lhe 2000 euros, que ajudaram também a pagar o registo do carro e uma parte do seguro. Como tem carta há pouco tempo, teve de registar o carro em nome do irmão para não fazer disparar o respectivo prémio, pois as companhias de seguro não se compadecem com os jovens condutores. O pai não tem carta, pois nunca aprendeu a ler. A mãe, idem aspas.

No ano passado, quando começou a trabalhar, o irmão telefonou-lhe a dizer que tinha recebido um email pela Via CTT a avisar que tinha deixado passar o prazo de pagamento do IUC, imposto de circulação automóvel. O atraso ia custar-lhe o pagamento de uma multa de 25 euros, o que, olhando para um valor do imposto de 25,37€, lhe pareceu um excesso de abuso por parte das Finanças. São tão rigorosos a cobrar e tão serôdios a cumprir, pensou. Disse também uns palavrões, daqueles que não resolvem, mas aliviam.

Já lhe tinham falado de quanto é que o estado arrecadava de imposto por cada litro de gasóleo e tinha-se posto a fazer contas. O carro gastava 6 litros aos 100 e como essa a sua deslocação mínima em dias de trabalho, fazia com que ele pagasse diariamente 4,74€ de imposto sobre produtos petrolíferos. No seu primeiro ano de trabalho tinha trabalhado 220 dias, o que perfazia mais de 1000 euros. Pouco menos que o valor do seu carro, que felizmente não lhe tinha dado problemas mecânicos.

Esta semana, pelo WhatsApp recebeu um link que o convidava a assinar uma petição. Ele não sabia que um Tesla e outros carros eléctricos, que podem custar 100 mil euros, ou mais, não pagavam IUC. Nem IUC nem multas pelo atraso do pagamento do IUC. Sentiu-se indignado.

Depois de ler aquilo tudo foi procurar um simulador para calcular quanto é que teria de pagar de IUC no próximo ano. Para saber ao certo precisava de saber o nível de emissões de CO2 do seu Clio. Andou por ali às voltas, mas como o modelo já era antigo não encontrou informação sobre isso. Procurou na internet, no livrete do carro, no site da Renault e não consegiu saber. Mesmo assim, carregou no simulador o valor de emissões mais baixo possível e não podia acreditar no que estava a ver. O seu IUC, em 2004, seria no mínimo 187€. No nível de emissões seguinte, e lembrou-se de que o seu carro não tem nem catalisador, passaria para 218€. Como é que alguém se lembraria de lhe aumentar um imposto de 25,37€ para 187€?

Nas notícias ouvira dizer que isto permitiria baixar as portagens, que esta medida queria incentivar o uso de transportes públicos e a renovação da frota automóvel. Quais transportes públicos? Qual portagem? Qual renovação? Tomara ele que o carro não lhe avariasse. Era ele que teria de pagar a compensação pela redução às portagens pagas pelos donos dos Teslas?

O primeiro-ministro, que vive dentro de uma bolha, que nunca saiu do eixo Restelo/Avenidas Novas, que tem uma frota de carros e de choferes, é que se lembrou que só infernizando a vida dos pobres, dos que querem trabalhar, dos que não têm dinheiro para comprar Teslas, nem têm transportes públicos, é que seria possível fazer avançar o país. Só se fosse o país dele, o país imaginário em que ele vive.

O irmão dele é que tinha razão. Aqui nunca se ia safar. E foi naquele momento que tomou a decisão.

Nesse dia à noite telefonou ao Rafael, um amigo de infância, e colega de carteira até ao 12.º ano, que trabalha no McDonald’s, para o convidar para ir beber uma cerveja a Tomar.

O Rafael não queria acreditar.

- Mas como é que justificas sair daqui por causa de cento e qualquer coisa euros? Ganhas isso em menos de numa semana!

- Pois é, mas sabes que não são só cento e qualquer coisa euros. O que é que aqui ainda funciona? Queres um médico, vais onde? A escola, foi a bandalheira que viste. O meu patrão diz que gosta do meu serviço, aumentou-me cem euros, mas teve de gastar duzentos euros. Disse que preferia dar-me esses duzentos a mim, mas não tem forma de me pagar por fora. Mas sabes o que é pior? É ver o Francisco, que toda a vida foi um graxista, um merdas, um cábula, que foi para a JS e já está a bombar num cargo de confiança política na Câmara. Esses estão sempre safos.

- Epá, mas a gente fomos sempre pobres, o que é que queres?

- O que é que eu quero? Quero mudar. Quero sair daqui para fora. Estou farto desta merda. – E terminou a frase ao mesmo tempo que deu um sonoro murro na mesa do café. - Sabes aquela anedota do burro carregado de sardinhas? Com quantas sardinhas é que ele aguenta sem cair? Aguenta sempre mais uma, não é? Afinal uma sardinha é levezinha. Mas sabes que há uma sardinha, pequenina, que consegue mandar o burro abaixo. Quando estamos a beber imperiais, acontece o mesmo. E estes cento e poucos euros, para mim, foi a sardinha que mandou o burro abaixo. Puta que os pariu.

O João deu um segundo murro na mesa e limpou as lágrimas à manga da camisola.

O que sobra do "socialismo real"

Pedro Correia, 30.08.23

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O chamado socialismo real não era uma ideologia, mas uma teologia alternativa que teve em Karl Marx o seu principal profeta: assim nos ensinaram pensadores como Raymond Aron e George Steiner.

Noutros tempos, dizia-se comunismo. Acontece que hoje ninguém fala em comunismo: eclipsou-se de vez. Começando pelos próprios comunistas que restam, cada vez menos. Estes só aludem ao «socialismo».

Nunca mais regressarão as ilusões do passado, quando multidões de fanáticos se proclamavam dispostas a dar a vida por Estaline, jurando-lhe fidelidade com devoção inquebrantável. Tempos de idolatria à solta, com a razão entorpecida, que desembocaram no pesadelo totalitário e nas vítimas do Arquipélago Gulag, dos campos da morte no Camboja, do "Grande Salto em Frente" e da pseudo-revolução cultural maoísta. Simon Leys contabiliza, só na China, 50 milhões de mortos.

Religião despótica, como a definiu Bertrand Russell. Irremediavelmente condenada ao caixote do lixo da História.

O socialismo nominal é o que resta deste catecismo doutrinário que se manchou de sangue sempre que passou da teoria à prática. Como teologia de substituição, fracassou. Por ter ambicionado não apenas refundar a sociedade, mas reconstruir a própria natureza humana - quimera condenada ao insucesso desde o primeiro instante. 

De Marx quase já não restam vestígios nos dirigentes socialistas do nosso tempo, tornados meros gestores do sistema capitalista, que não pretendem derrubar nem desfigurar. Proclamam-se interclassistas, sem a menor alusão ao velho dogma da luta de classes. Nenhuma sociedade alternativa têm para propor: só ligeiros retoques à que já existe. Sobram-lhes tautologias como esta, expressa por Felipe González: «O socialismo pode ser definido como o aprofundamento do conceito de democracia.»

A utopia sumiu-se pelo caminho. 

Lamentável recorde histórico

Pedro Correia, 14.04.23

É uma das notícias da semana em Portugal: sabe-se agora que em 2022 sofremos a maior carga fiscal de sempre - equivalente a 36,4% do PIB nacional, superando os 35,3% do ano anterior. Um lamentável recorde histórico.

Segudo noticia hoje o Expresso, o peso dos impostos entre nós aumentou 14,9% em termos nominais, atingindo 87,1 mil milhões de euros.

Triste ironia: isto aconteceu no ano em que os serviços públicos funcionaram pior que nunca.

O muro não caiu, apenas se deslocou para dentro do PS

Paulo Sousa, 20.02.23

Na passada quinta-feira, António Costa apresentou o 4.º pacote de medidas para a habitação desde que é Primeiro-Ministro. Desde 2016 que, de dois em dois anos, apresenta o que será a solução definitiva e que afinal nunca resulta. Olhando para a frequência dos anúncios, que terá sido alterada apenas pela pandemia, podemos dizer que dois anos é o tempo médio de amadurecimento de cada um destes fracassos.

Em cada uma destes grandes anúncios, as regras, as soluções, os impostos, os apoios, os culpados vão sendo alterados. Estranhamente, como se ninguém soubesse que a confiança se acumula gota-a-gota e se perde aos alguidares, muitos proprietários receiam colocar casas no marcado de arrendamento. Num dos anteriores pacotes de medidas até se criou o conceito de contratos de renda vitalícios. Como é que querem atrair moscas com vinagre?

Todo este ziguezague governativo comprova que, também na habitação, as boas práticas que funcionam noutros países não são para aqui chamadas. Nós governamo-nos, que é como quem diz, não de acordo uma linha de raciocínio, mas de acordo com preconceitos ideológicos.

Nas redes sociais, os apoiantes da narrativa vigente insultam os senhorios, fingindo não reparar que estas medidas pretendem transformar proprietários em senhorios à força.

De tão “visionário” que é este 4.º pacote, arrisco dizer que o PS não se teria atrevido a apresentá-lo durante a vigência de geringonça, pois seria logo acusado de estar a ser arrastado pelos radicais.

Depois existe aquela maravilha que consiste no estado se propor a pagar rendas ao preço de mercado (por exemplo 1700€/mês) para as colocar no mercado a valores acessíveis (por exemplo 1300€/mês), tendo até sido dito que poderia pagar as rendas vincendas. Quem irá avaliar cada um destes casos? Estou certo que alguns amigos do PS já estarão a pensar em como podem fazer pela vida a partir desta ideia.

Ao mesmo tempo, o estado propõe-se a reabilitar cada imóvel de forma a que este esteja em condições para ser colocado no mercado e ainda a verificar o enquadramento de cada um dos agregados familiares candidatos. Tudo isto vezes dezenas de milhares de habitações. Olhando para a excelência dos serviços públicos, podemos mesmo perguntar o que é que pode correr mal?

Recomendo a audição deste Conta-Corrente em que o convidado do programa, Vítor Reis, antigo presidente da IHRU (Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana), pessoa muito experiente nesta área, que aborda estes e outros aspectos deste 4.º pacote de medidas, esclarecendo até o ínfimo peso marginal dos Alojamentos Locais no mercado da habitação, assim como o enviesamento em que consiste anunciar o fim dos Vistos Gold neste contexto.

A questão da constitucionalidade das medidas será tratada em devido tempo, mas esta imposição coerciva sobre o património dos contribuintes, esta declarada ilegitimidade em ter casas vazias (António Costa dixit) cheira a geringonça requentada, cheira a PREC da habitação e cheira a neo-gonçalvismo. Por uma questão de coerência e de revivalismo, este 4.º pacote devia ficar mais uns dias na gaveta e ser apenas apresentado no próximo dia 11 de Março.

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PS: Acabei de saber que a jotinha que chegou a ministra, e que além de assessora nunca faz mais nada na vida, também se chama Gonçalves. Há coisas que nem contadas.

Nos ciclos longos

Paulo Sousa, 02.01.23

Todas as baterias mediáticas estão hoje, e neste instante, a reagir aos impulsos do momento. Nenhum desses estímulos é realmente novo, nenhum representa nada que leve a uma mudança da trajectória assumida há já bastante tempo.

Roubando a piada ao nosso colega Rui Rocha, a única novidade da mui citada remodelação governamental, terá como consequência a mudança do projectado aeroporto para Abrantes. Tirando isso tudo ficou na mesma.

Li algures, e é inegável, que o governo que saiu da última maioria absoluta do PS não foi constituído de acordo com as necessidades do país, mas apenas de acordo com as necessidades do PS, das suas intrigas internas, facções, obediências maçónicas e possíveis sucessões. O país não foi para ali chamado. Ninguém informado, independente e desligado da cascata de camarão em que isto se tornou, o poderá desmentir.

Por tudo isso, a notícia de hoje que guardarei para a minha colecção dos ciclos longos não se prende com nada desta trocas de cadeiras, mas com a confirmação de algo que no futuro poderá ajudar a caracterizar a época que vivemos. Os argumentistas de Hollywood que gostam de inventar histórias sobre crimes perfeitos têm muito a aprender com os nossos governantes.

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Uns tontinhos em passo afogueado

Paulo Sousa, 29.12.22

Precisamos de olhar para a Primeira República para entender a longevidade do Estado Novo, da mesma forma que precisamos de olhar para a longevidade do Estado Novo para entender a predominância do PS à frente dos destinos do país.

Os tempos são outros, o zeitgeist, na Europa e no Mundo, estreita as margens do que é politicamente possível, mas não podemos deixar de observar que a sujeição popular ao abuso resulta da comparação feita com os abusos anteriores. Não queremos saber das boas práticas para nada. Soubemos, ou simplesmente tivemos a sorte, de ter conseguido reunir condições que nos teriam permitido estar muito melhor? O que é que isso interessa? Quem não aplaude é fascista. Quando nos recordamos do Estado Novo, aceitamos o abuso, tal e qual como se se aceitou o Estado Novo recordando a Primeira República.

Então e as boas práticas, e os países que repetidamente nos ultrapassam? Isso não importa, porque engrenamos a lenga-lenga de que estamos melhor do que no tempo da outra senhora e isso é suficiente.

Soube há uns tempos de um tontinho que não morava longe daqui e que um dia, cheio de pressa, em passo apertado e quase a correr, ia à Batalha dar um recado, ou resolver qualquer urgência. Alguém que passava de carro reconheceu-o, abrandou e ofereceu-lhe boleia. Ele, o tontinho, afogueado e convicto, recusou a boleia porque… estava com pressa.

Quando olhamos para as boas práticas dos países que nos ultrapassam, e aceitamos todos os abusos socialistas, só porque não nos conseguimos desligar da narrativa da situação, estamos a ser como este tontinho. Com as condições que temos, poderíamos estar muito melhor? Podíamos sim, mas mergulhamos nesta anestesia, nesta vertigem que, sem tirar os olhos dos retrovisores, finge avançar. E quem quiser mais do isto, que emigre.

Apenas mais um caso no país governando pelo PS

Paulo Sousa, 09.11.22

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Talvez para tentar fazer esquecer o caso do Secretário de Estado Miguel Alves, que entretanto já desencadeou um novo desafio da alface, o caso do momento foi revelado por Sandra Felgueiras, na TVI. Tiago Cunha, um nome que é toda uma metáfora, foi contratado pela Ministra Mariana Vieira da Silva com assessor com o salário de 4000€.

O caso, que é apenas mais um, é triste, mas a reacções acabaram por se tornar engraçadas. Enquanto que alguns apoiantes do governo tentam desvalorizar o caso dizendo, que depois dos impostos (socialistas) não sobra quase nada... a Ministra já veio justificar o caso, garantindo que a filiação no PS "nunca foi critério de recrutamento". Palavra de filha de ex-ministro, que sempre trabalhou em gabinetes ministeriais.

Enquanto isso, importa lembrar como corre a vida a quem não é filiado no PS.

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Então agora não faço mais nada?

Paulo Sousa, 07.10.22

Só pode ser uma manobra de diversão relativa ao episódio do Ministro bizarro. Ainda o caso anterior não tinha arrefecido e já o governo está a braços de mais uma violação da lei das incompatibilidades.


Foto O Setubalense 

Desta vez é a empresa da família de Pedro Nuno Santos, e que ele próprio detém 1% do capital, que beneficiou de um contrato de ajuste directo. A história está aqui bem explicada no Observador. Não faltarão devotos socialistas a, do nada, arrancarem explicações que nunca serão mais do que explicações para si próprios. A ilegalidade é óbvia e inabalável e a sanção prevista pela lei é a demissão.

Ficamos a aguardar por mais reacções.

Fezes ralas

Paulo Sousa, 07.10.22

Há uns dias, neste postal, quando me referia aos repetidos abusos do governantes socialistas que nos apascentam, usei como metáfora a escatológica expressão com que título o corrente texto. No momento da publicação até achei que poderia assim lançar uma rubrica que fizesse ecoar aqui no DO cada um dos frequentes atropelos do PS às nossas instituições, à nossa legislação e também à nossa vontade de pertencer a algo que poucas vezes se concretiza, e que é uma democracia razoavelmente decente. De forma a poder classificar o grau de desfaçatez de cada episódio, fazia sentido criar uma escala de dureza. Estou certo que esta existirá no mundo da medicina e que até seria fácil de obter num recanto da Internet, mas os compromissos assustam-me e por isso não prometo fazê-lo.

Prometo sim, e irei tratar disso em seguida, que no dia em que o PS deixar de nos governar, contarei aqui uma estória passada num bar em Kotor, no Montenegro, e de que deixo uma pista. O tipo do bar revelou-nos o equipamento para deixar de ser governado por esta elite serôdia.

Toda esta prosa para aqui trazer mais um caso. Desta vez é o recente Ministro Pizarro, que não consigo deixar de achar que se trata de um tipo bizarro. O dito cujo tomou posse como Ministro da Saúde, sendo ao mesmo tempo sócio-gerente de uma empresa de consultoria na área da saúde. Perante isto, não posso trazer aquela velha memória de Pina Moura, de que aqui falei também, e que segundo o qual a ética é a lei. Além da afirmação ser falsa, o caso do ministro bizarro constitui uma ilegalidade objectiva e em que a ética já foi atropelada há muitos quilómetros atrás. É o próprio que o assume.

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Foto DN

Os membros do governo têm de exercer as suas funções em regime de exclusividade. Tudo o que se possa elaborar à volta disto, não é mais do que areia para os olhos. É certo que muitos dos transferêncio-dependentes gostam de os ter bem areados, tal e qual como as panelas de alumínio de outros tempos exigiam às pessoas asseadas, mas por mais contorcionismos que consigam fazer com a respectiva coluna vertebral, isto é apenas mais um episódio de fezes ralas do governo PS.

A tristeza

Paulo Sousa, 11.08.22

A Emigração foi o assunto do Contra-Corrente da segunda-feira passada na Rádio Observador. Não apenas a emigração dos anos 60 e 70, mas também a emigração da chamada “geração mais bem preparada de sempre”. Além do enquadramento do tema feito pela sempre acutilante Helena Matos, ouviram-se vários relatos contados na primeira pessoa. É muito diferente a situação de quem pretende ter uma experiência internacional para valorização pessoal e aqueles que a certa altura no programa são descritos como sendo refugiados económicos. Nestes casos, ninguém emigra de ânimo leve e foram vários os participantes que assumem a perda, o corte e o desenraizamento, mas esse é o custo para os que ambicionam sair de casa dos seus pais e a ter um plano de vida.

Foram diversos os pensamentos que me cruzaram o espírito enquanto ouvia este programa, mas o que se sobrepôs foi a tristeza pela incapacidade do país em se governar, em zelar pelos seus.

E se nos media nacionais a silly season costuma coincidir com os meses de Verão, a realidade continua a pairar e a dar sinal de si. Ao contrário do que aconteceu durante o período em que fomos intervencionados pela Troika (continuo à espera de uma explicação sobre o motivo que levou o governo socialista de então a ter pedido ajuda), os partos nas ambulâncias já não abrem os telejornais. Agora, só lá pelo minuto 20 ou 28 dos noticiários são abordados os bebés que morrem por falta da normal assistência médica e hospitalar. A mortalidade materna aumentou significativamente, mas isso passou a ter apenas uma importância relativa. A abundância das queixas desta natureza poderia resultar de um grande aumento da natalidade, mas infelizmente além de o país ter bebés insuficientes, ainda se dá ao luxo de não os estimar.

Os media mais gelatinosos sabem bem que quem se mete com o PS leva. Confirmando a teoria evolucionista de Darwin, segundo a qual só quem se adapta pode sobreviver, já passaram a noticiar os serviços médicos que ainda funcionam. Como tudo é muito Simplex e Modernex, o SNS até disponibiliza esta informação on-line. Grande pinta.

O Expresso noticiou no passado fim-de-semana o disparo da mortalidade em Portugal. As estimativas relativas ao primeiro semestre de 2022 foram ultrapassadas em mais de 5.000 óbitos. Os especialistas ouvidos afirmam que o envelhecimento da população já estava considerado nessas mesmas estimativas e as mortes por Covid justificam apenas uma pequena parcela do total. Algo que importa entender está a escapar ao escrutínio político.

Também sobre este tema, João Miguel Tavares no Público acrescenta ainda que as bases de dados públicas, que permitiriam estudar a evolução da mortalidade, estão a ser alvo de um meticuloso tratamento pelos seus responsáveis que impede que se cheguem a conclusões claras.

Entretanto, soubemos que Sérgio Figueiredo, ex-director da TVI, foi contratado por ajuste directo pelo Ministério das Finanças. Podemos desligar esta contratação do facto de o actual ministro das Finanças ter sido remunerado até há pouco tempo como comentador nesse mesmo canal, mas para isso temos de fazer muita força. Sabemos também que Sérgio Figueiredo é amigo da maior referência ética do PS e isso é apenas mais uma coincidência.

Os empresários portugueses são acusados de serem atrasados e incultos, mas a realidade mostra-nos que a mais elevada taxa de IRC dos países europeus da OCDE é afinal um custo que eles têm de suportar para estarem livres de concorrência. Assim, sem investimento estrangeiro e sem a entrada de novos operadores, não têm de progredir, não têm de melhorar os seus métodos nem a qualidade da sua gestão. Também não têm de competir pela mão-de-obra pois enquanto os seus trabalhadores não decidirem emigrar, não terão mais ninguém que venha do exterior para lhe oferecer um salário mais alto.

Um em cada cinco de nós vive na pobreza e ao mesmo tempo sabemos que os patrícios que estão bem estacionados na pirâmide do estado, que vivem de rendas e não da riqueza que não produzem, não toleram qualquer reforma ou mudança. Perante a evidência gritante dos factos que aqui muito resumidamente enumero, todos eles transportam consigo, bem memorizadas e na ponta da língua, uma lista de ditos e esconjuros a que recorrem amiúde. Isto está mal por causa do Passos, da direita, das gasolineiras, da pandemia, dos privados, dos liberais, da guerra, tudo serve. Mas a falência evidente dos serviços do estado faz com que apenas os lunáticos fervorosos e os que confundem a realidade com aquilo que observam a partir do seu umbigo, ainda acreditem que está tudo óptimo.

Quem quiser desligar tudo isto dos números referentes ao consumo de psicofármacos, que o faça, mas para mim esse é apenas mais um indicador do nosso tremendo insucesso social deste início de século.

É tudo demasiado triste.

A face do falhanço

Paulo Sousa, 12.07.22

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Segundo publicação do próprio PS, António Costa anunciou a mensagem acima indicada. Após milhares de milhões de donativos europeus e de o PS estar à frente do governo da nação durante 19 dos últimos 25 anos, se vergonha fosse alguma coisa do que tivessem, nunca se atreveriam a anunciar o que não passa da confirmação de um redondo falanço, ainda por cima seguido de um Cumprimos!

Desde que o PS está à frente do país fomos ultrapassados por 11 países europeus, 43% dos portugeses são pobres antes das transferências sociais e 20% após estes.

É demasiado triste.

As taxa de juros irão regressar aos telediários

Paulo Sousa, 14.06.22

Os juros da dívida contratada a 30 anos da República Portuguesa, que estavam no início do ano pouco acima de 1%, chegaram ontem aos 3,413%.

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No passado, o governo socialista pressionou com sucesso toda a banca nacional a adquirir dívida publica portuguesa até a um nível que ultrapassou o que seria razoável. Quando já ninguém lhe queria pegar, foi a banca que ajudou a adiar o inadiável. Perderam os bancos, perderam os acionistas, perderam os contribuintes e perdeu o país. Vamos ver se alguém aprendeu a lição.

Já algum tempo que não se fala em rating da República, mas para quem já não se recorda continuamos no BBB, que é o nível imediatamente acima do nível especulativo.

Para quem gosta de antecipar tendências, e de estar na crista dos acontecimentos, recomendo o site World Governament Bonds onde pode acompanhar a evolução da frequência com que as taxa de juros da nossa dívida irão regressar aos telediários.

Felizmente António Costa tem maioria absoluta e pode tomar as medidas que entender necessárias sem necessitar de negociar PEC a PEC com a oposição.

Vão-se os dedos, mas fiquem os anéis

Paulo Sousa, 12.06.22

Nos últimos dias foram vários os casos em que as consequências do estado degradante do SNS chegaram às notícias. Desde a grávida que perante a falta de obstetras perdeu o seu bebé, ao passeio de grávidas de hospital em hospital até poderem serem assistidas, ao aumento dos números da mortalidade materna, até ao “ultrapassar os limites do imaginável” assumido pela Administração do Hospital de Almada. Mesmo com todas as notícias dos exemplos do estado a que o SNS chegou, a realidade é infelizmente pior do que aquela que chega às notícias.

Apesar disso, apesar da frustração, da insegurança e da perda de vidas causadas pela lenta agonia do SNS, o governo e a ministra da saúde não têm sido alvos de uma fracção dos protestos que casos de bem menor gravidade causaram noutros tempos.

Muitos dos apoiantes do governo, parte significativa dos quais beneficiários da ADSE, acharão que mesmo com todos estes “contratempos”, mesmo com os “constrangimentos impossíveis de suprir”, podemos respirar de alívio pois pelo menos não somos governados por liberais, nem o acesso aos serviços de saúde serve para engordar os lucros do operadores privados da saúde. Para quem tem ADSE, se o resto dos portugueses tivesse acesso a um sistema de saúde sistema idêntico ao alemão ou ao inglês, seria como regressarmos aos tempos do Estado Novo. Isso é que não. SNS para as doenças outros, para quem tem ADSE é refresco.

Procura-se alguém em quem descarregar as culpas

Paulo Sousa, 10.06.22

Mesmo com o significativo aumento das receitas fiscais em resultado da inflação, com especial relevo para as que são geradas pelo IVA, o governo maioritário de António Costa vai ter de lidar com uma reviravolta no limbo inventado por Mario Dragi que tem congelado as consequências da estratosférica dimensão da dívida pública do nosso país.

Segundo o Expresso, o BCE irá terminar as compras de dívida a cada país, enquanto que ao mesmo tempo a trajectória de subida das taxas de juro irá acentuar-se. Os juros devidos ao credores passarão a ocupar cada vez mais espaço, e a ter a voz cada vez mais forte, na mesa do Orçamento de Estado.

E o que é que o país fez para aproveitar as facilidades concedidas pelo BCE nos últimos anos? No número de funcionários públicos conseguiu ultrapassar os 740 mil, o que é o recorde da década. No SNS, em vez de o reformar, o governo regou-o com dinheiro. Já aqui deixei umas notas sobre isso.

Segundo as promessas do PS, em 2020 deixaria de haver de portugueses sem Médico de Família, mas a realidade é que são cada vez mais os que estão nessa situação e o cenário vai piorar. O que noutros tempos abriria Telejornais é hoje normal e vulgar.

Depois de muito tempo em que a falta de médicos nas urgências era uma maleita distante dos raros hospitais do interior, o surto já está a chegar aos “grandes centros”.

Entretanto soubemos que ”PRR já posso ir ao banco?”, que durante várias semanas foi a grande conquista do país publicado, vai derrapar. E o Banco de Fomento, que seria um pilar fundamental para a nossa economia e para o salvador “PRR já posso ir ao banco?”, está com problemas.

Ainda faltam dois anos, mas já sabemos que em 2024 todos os portugueses terão uma casa condigna. Mentir não custa nada. Quase toda a imprensa faz o que lhe mandam e por isso temos de estar alerta é com as ciclovias de Lisboa.

O nosso afundamento nos rankings europeus continua sólido e, apenas por casualidade, o afastamento no nosso PIB per capita da média europeia começou com o primeiro governo de Guterres.

Esta pequena lista de mentiras, falhas e factos não é exaustiva nem completa, mas apenas tenta mostrar como foi desperdiçado o tempo e a oportunidade que nos permitiria chegar à actualidade numa situação menos frágil.

O governo teve maioria absoluta simplesmente porque quem votou PS achou que com os socialistas à frente do governo tudo iria ficar na mesma. Mas, como sempre, a realidade vai impor as suas regras e até no “ficar na mesma” os socialistas irão falhar.

A alienação

Paulo Sousa, 03.06.22

Ouvimos diariamente os auto-elogios vomitados pelos nossos governantes sobre as maravilhas do estado do SNS, seguidos dos hossanas em pagamento pela comunicação social. Ao mesmo tempo todos os dias tropeçamos na evidência da sua incapacidade em acudir às necessidades dos portugueses. São os atrasos nas consultas, nas cirurgias, nos diagnósticos e nos tratamentos. A mortalidade não-Covid tem sido estoicamente ignorada por todos os que defendem a situação.

À minha volta, são vários os casos que confirmam a miséria a que nos deixamos chegar. Estados oncológicos tardiamente diagnosticados, radioterapias consecutivamente adiadas ao longo de vários meses, falta de médicos e de consultas que acabam por alimentar idas recorrentes à medicina privada, e cada vez mais, a contratação de seguros de saúde.

Soube ontem também que pela primeira vez em 40 anos morreram mais de 10.000 portugueses durante o mês de Maio.

Também ontem foi o Hospital de S. João que suspendeu as ecografias do segundo trimestre a grávidas, devido à diminuição do número de médicos. Os exemplos nunca mais acabam.

Na educação, ouvi há dias um aluno do 12º que teve a classificação de 4,5 em 20, em dois testes consecutivos a Física, a garantir que irá ter 10 no final do ano. Aqui perto há uma escola pública com 17 funcionários administrativos, vizinha de uma outra, de contrato de associação, que para um universo escolar quase idêntico, consegue funcionar com 3. A mais que avisada falta de professores em curso já está a acontecer e irá agravar-se.

Entretanto o Ministro da Educação anuncia, feliz, que o número de alunos que chumbaram de ano, que na novilíngua se diz “foram retidos”, foi dos mais baixos de sempre, assumindo na entrelinhas que a redução de conhecimentos adquiridos na escola é uma das consequências das políticas da governação socialista.

A dívida pública em 2015, ano em que António se tornou PM, era de 235 mil milhões e em 2022, mesmo com todos os sucessos que a Comunicação Social replica dos spins socialistas, esse valor ultrapassará os 270 mil milhões.

Nada de bom pode resultar desta combinação de factos.

O país vive desligado da realidade. A vitória do PS nas últimas legislativas, e por maioria absoluta, foi mais uma manifestação dessa alienação. Votou-se no PS com a convicção de quem quer calar os alertas, as recomendações e os críticos. Isto podia estar bem pior e o que temos, mesmo não sendo nosso, chega-nos bem. Quem vier depois que feche a porta.

Um dia, no futuro, os nossos descendentes irão ficar incrédulos como é que o país se deixou enredar nesta armadilha.

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Um buraco na ideologia

Paulo Sousa, 02.05.22

Um dia no futuro, estas duas primeiras décadas do sec. XXI serão olhadas, não rigorosamente pelos mesmos motivos, mas com a mesma incredulidade com que hoje olhamos para o que se passou no início do século sec. XX.

Como é que foi possível deixar que o caos se instalasse e progredisse ao ponto de uma ditadura ser vista com simpatia?

Como é que foi possível anestesiar o país ao ponto de chegarmos aos dias de hoje com uma maioria absoluta do partido responsável por duas décadas de estagnação, por uma falência, com uma mais que duplicação do peso da dívida em relação à riqueza do país e com um primeiro-ministro que mercadejou em funções?

Por mais que se tente explicar, os nossos descendentes não irão entender nem aceitar.

Haverá vários motivos que explicam esse mistério, que se prendem com algo sobre o qual já aqui escrevi e que resulta da crise de ambição dos portugueses. Todos já ouvimos, até usamos, expressões, como Antes assim que pior, Cá vamos andando devagarinho, Uma perna partida? Tiveste sorte que a outra ainda mexe, e em todas elas encontramos o conformismo e o encolher de ombros que explica o voto naqueles que garantidamente não querem fazer reformas, sendo exactamente esse o seu factor crítico de sucesso.

O estado absorve mais de metade da riqueza criada e, como se fosse dona dela, distribui-a pela rede clientelar que se foi acomodando à procura de uma beirinha que pingue. Enquanto pingar, não há que levantar ondas e toca a torcer para que isto continue.

Para que o estado reduzisse o seu peso na sociedade e na economia seria necessário que abrisse mão desse poder discricionário que alimenta os seus mais convictos clientes e dependentes.

Baixar impostos? Nunca! Só se for a estrangeiros que queiram cá fixar residência. Esses já estavam isentos antes de vir para cá e se comprarem uma casa então irão pagar IMI, IMT, imposto de selo, e depois irão pagar IVA, ISP, IA, IVA sobre o IA e a restante lista que nunca conseguiria aqui transpor.

Se os impostos baixos são bons para estrangeiros, porque é que não são bons para os portugueses?

Este ponto constitui uma negação quase consentida no alinhamento ideológico do socialismo. É consentida desde que não faça a abertura dos telejornais. É como um arredondar de esquinas nos pilares da fé socialista. É uma forma criativa de alcançar um objectivo fingindo que não se está a cometer uma heresia. Eles não se atrevem a negar a fé na cartilha dos impostos altos, mas é como se tivessem descoberto um pequeno orifício nos compromissos assumidos, um orifício escondido, ou quase, por onde conseguem aumentar a receita fiscal sem ter de cometer a blasfémia que seria assumir que impostos baixos atraem riqueza.

É exactamente nesta altura da análise que faz sentido introduzir um tema musical, que mais não é do que uma metáfora da redução socialista de IRS destinada exclusivamente a estrangeiros que se mudem para cá.