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Delito de Opinião

Uma crise de ambição

Paulo Sousa, 19.11.21

Fazendo referência a José Mourinho, a imprensa britânica já retratou António Horta Osório como o "Special One" das finanças. O seu percurso profissional coloca este português numa restrita elite dos gestores de nível mundial.

Em declarações recentes faz uma análise da situação económica do nosso país dizendo que "temos um problema claro de crescimento e ambição da sociedade portuguesa, estamos satisfeitos com o nível de riqueza que temos e satisfeitos com um País que não cresce".

Vivemos inundados em análises que repetidamente nos lembram que não alcançaremos resultados diferentes com as formulas habituais, e ainda assim tudo indica que os portugueses preferem seguir alienados numa luta intestina pela disputa de migalhas.

No futuro, estas duas décadas iniciadas com a vitória eleitoral de António Guterres serão lembradas como uma época desperdiçada, profundamente marcante para uma geração que assim foi impedida de melhorar de vida.

Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe. Um dia isto mudará.

A mudança política em curso

Paulo Sousa, 09.11.21

A percentagem da população que passou a auferir de transferências directas do Estado aumentou significativamente nos últimos 20 anos, e parte significativa destes beneficiários têm nestas transferências o seu principal meio de subsistência. Este mesmo período de tempo foi inegavelmente marcado por uma hegemonia do PS, hegemonia essa que tem neste aumento do números de dependentes do estado a sua principal marca. Poderão dizer que não, que a principal marca deste período da nossa história é a estagnação económica, mas essa é apenas outra face da mesma moeda.

É eleitoralmente difícil sair desta armadilha, pois como sabemos é possível ter uma maioria absoluta com pouco mais de 40% dos votos, e a percentagem dos que não querem mudar a actual situação é bem maior.

Aquando da mais recente falência do estado português, os nossos credores exigiram que mudássemos de rumo. Nesse período de tempo foram-nos impostas diversas reformas que acabaram por permitir uma recuperação. A chegada da geringonça apelidou de “reposições” ao recuar deste processo e assim regressamos ao imobilismo e à estagnação. A actual crise política foi desencadeada pelo esgotar das “reposições”, sendo que durante esse processo lá nos continuamos a afundar nas comparações com outros países europeus.

Nestas duas décadas a dívida pública aumentou de 70 mil milhões para 270 mil milhões. Não estivessem as taxas de juro a ser distorcidas pelo BCE e a ilusão da sustentabilidade desta dívida seria impossível de manter. No dia em que as taxas de juro subam 1 ou 2 pontos percentuais entraremos numa nova bancarrota.

Perante uma conjuntura como a actual, em que os aumentos das matérias-primas e da energia provocam uma subida consistente de preços, seria normal contar com um aumento das taxas de juro. As pressões políticas para que o BCE não o faça são significativas, mas não sabemos até quando o ADN do Bundesbank, que corre nas veias do BCE, adiará a tomada das medidas recomendadas pelos livros de economia para travar a inflação.

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Sendo este o cenário de fundo, António Costa afirmou na entrevista de ontem que em 2022 pretende aumentar a função pública, o salário mínimo e as pensões. Essas são as variáveis que considera adequadas para atingir os objectivos do PS, que se resume e continuar no poder.

Num cenário pós-eleitoral em que António Costa não consiga reunir apoio parlamentar que lhe permita governar, já sabemos que sairá de cena. É aí que poderá entrar Pedro Nuno Santos, a quem será mais fácil novos entendimentos à esquerda. Esta possibilidade colocar-nos-á a caminho de mais uma ruptura financeira, embrulhada nas lamechices habituais. E sim, podemos sair destas eleições tendo Pedro Nuno Santos como PM. Votar PS pode ter essa consequência.

António Costa diz que agora, e se tal for necessário, até se poderá entender com o PSD, mas nada diz sobre outra coisa que não seja manter o PS no poder. Certamente seguindo as notas dos seus assessores de comunicação, e para contrapor com Medina, ontem mostrou-se humilde batendo várias vezes com a mão no coração. Mesmo recorrendo a estas mensagens subliminares, nada diz como pretende inverter a estagnação das últimas duas décadas e sobre o que deve ser feito para que se possam aliviar as gerações futuras da dívida que nestes 20 anos quase quadruplicou.

É por isso que as próximas eleições serão uma oportunidade única para invertermos o triste caminho que o país tem trilhado. Para isso, será necessário levar as gerações mais novas às urnas de voto. Só com a entrada dos eleitores que votam pela primeira vez, e dos que normalmente se abstêm, será possível reduzir o peso relativo dos que não querem saber do futuro do país e votam apenas olhando para o respectivo umbigo.

Após 20 anos de socialismo

Paulo Sousa, 19.07.21

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Há dias, a SIC comparou o preço da gasolina em Portugal com o de outros do países europeus, onde ela é mais cara. Estamos no terceiro lugar nesse ranking. O que seria de nós se a austeridade não tivesse já terminado?

Se a SIC cruzasse estes dados com a remuneração por hora de trabalho em cada um dos países, com quem dividimos o pódio, obteria os seguintes detalhes:


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Eurostat

Os valores apresentados respeitarão à remuneração média. Se em vez disso, considerarmos o SMN português, pago 14 vezes durante 12 meses, com 22 dias trabalho mensais e oito horas diárias, o valor obtido seria de (775€ x 14 / 12 / 22 / 8) = 5,13€.

Assim, para quem aufira do SMN português e para encher o mesmo depósito com 40 litros de gasolina, será necessário trabalhar 12h51.

Quem está satisfeito com isto, deve aproveitar as próximas eleições para o mostrar. E quem não está, também. Chama-se democracia.

Os infantes fidalgos

Paulo Sousa, 30.04.21

No dia que assinei o meu primeiro contrato de trabalho, num gabinete da Direcção dos Recursos Humanos do Banco Nacional Ultramarino na Av. 5 de Outubro, tinha por companhia dois jovens igualmente iniciados.

Não os tinha conhecido nos chamados testes psicotécnicos, nem nas simulações de venda a que tinha sido sujeito, mas na primeira oportunidade sorrimos uns para os outros. Íamos todos para o mesmo e se os novos ciclos se iniciam em breves momentos, aquele era um desses breves momentos. Algo de novo e de positivo se iria iniciar. Lembro-me da roupa que levava, e do que fiz depois de ter saído daquele edifício em jeito de guitarra. Lembro-me também que quando alguém entrou na sala com os contratos, nos ter explicado que apesar de termos sido admitidos para a mesma função, eles tinham entrado em vagas para filhos de funcionários, e eu não. Tinham-me feito passar por aqueles quase jogos-sem-fronteiras, de discussões simuladas, de páginas e páginas de cruzinhas e ainda de uma bateria de perguntas feitas por uma psicóloga de decote arreganhado, tudo isso, enquanto aqueles sujeitos tinham avançado num curro especial. Estava sorridente e senti que a maior parte do meu sorriso era interior.

Importa dizer que naquele tempo um balcão de um banco como o BNU podia ter doze, treze ou mais funcionários, as máquinas de escrever eram omnipresentes e, no nosso caso, existiam três terminais informáticos. Estes equipamentos não tinham disco rígido e por isso precisavam de duas drives para floppy disc, uma para um disco de arranque e outra de trabalho. Um dos terminais nunca se podia desligar, pois estava sempre ligado ao mostruário da taxas de câmbio visíveis no exterior. O telex tinha sido retirado há pouco tempo e era o fax que encantava os proto-gigs da tecnologia.

A banca privada estava em franca expansão e todos os anos apresentava lucros obscenos, ao ponto do então embrionário BE (talvez ainda fosse apenas o PSR) espumar de cada vez que os resultados eram divulgados. Mais recentemente continuam a espumar mas sempre que se comentam os seus prejuízos. Lembrando as muito conhecidas experiências de Pavlov, acho que essa malta espuma sempre que ouve falar na banca em geral.

Poucos dias depois de assinar o referido contrato, comecei a trabalhar num balcão lisboeta da referida instituição. Na primeira pausa de almoço do primeiro dia de trabalho, tive a companhia de três colegas. Tínhamos todos mais ou menos a mesma idade e éramos os mais novos do balcão. A meio da refeição, e depois de entender que apontar defeitos ao nosso empregador era um tema querido a todos, contei que quando tinha assinado o contrato estavam lá mais dois maçaricos como eu, que tinham, imaginem só, entrado no banco em vagas para filhos de funcionários. Normalmente ao contar isto arrancava uma gargalhada na mesa, mas desta vez apenas deixei uma colega com as sobrancelhas muito levantadas e com um ar divertido, enquanto que os restantes dois comensais baixaram os olhos e transferiram o empenho da conversa para a limpeza do prato.

No regresso ao trabalho, depois de uma cotovelada acompanhada por uma gargalhada sussurrada, fiquei a saber que metade dos elementos que tinham almoçado naquela mesa tinham sido contratados no contingente dos infantes fidalgos.

O detalhe de existirem no banco vagas para filhos de funcionários andou comigo no bolso durante algum tempo. Sempre que havia oportunidade ou necessidade disso, libertava aquela história e a risada era garantida.

Estávamos no início dos anos 90. O crescimento económico parecia algo natural e isso levar-nos-ia a uma vida bem melhor do que aquela em que tínhamos crescido. Tropeçar em práticas assumidamente nepotistas daquele nível era comparável a encontrar uma pintura rupestre no vale do Côa e também um indicador de quão serôdias eram as práticas de gestão do Banco Nacional Ultramarino, banco que já lá está.

Lembrei-me de tudo isto ontem quando soube que o nosso governo irá abrir uma residência de estudantes exclusiva para filhos de funcionários públicos. A ministra da chamada modernização, antecipando as perguntas difíceis, avançou dizendo que se trata de uma medida que obedece a princípios da acção social e que se destina a alunos que tenham de estar deslocados da sua área de residência.

Eu olho para tudo isto e acho que estamos cada vez mais na mesma. Fico sem vontade, nem energia, para ir à procura de dados rigorosos que permitam a comparação dos rendimentos médios dos funcionários públicos e dos privados em funções comparáveis. Nem procuro saber quanto foi ou será investido neste espaço, nem em comparar esse valor com o das bolsas de acção escolar atribuídas em diferentes regiões do país. Nem quero lembrar o exemplo dado ao país pelos seus deputados no que respeita ao rigor da morada declarada. Nem que daquele tempo, foi-se o crescimento económico, mas o nepotismo ficou. E que as risadas causadas pela história dos infantes fidalgos de então, foram agora substituídas por um simples encolher de ombros. E tudo isto com o rótulo de Modernização.

Fé e ideologia

Paulo Sousa, 20.01.21

Gostei de ouvir, e recomendo que oiçam o José Manuel Fernandes no Contra Corrente de hoje no Observador.

Destaco as seguintes notas.

O Director do NHS inglês é um técnico superior que responde ao Parlamento e não ao Governo. Está em funções desde 2014, o que significa que já trabalhou com vários PM.

Tem ao seu dispor a rede hospitalar do país, pública e privada, e é com base nela que planeia a evolução das necessidades, sem a pressão de ir embora quando houver eleições, nem a desculpa do governo anterior.

A pandemia chegou a todos, mas nem todos têm a mesma proporção de mortos não-covid.

O apego à ideologia na actualidade, o ódio ao privado, a demonização do lucro e o desprezo pelas consequências, só será comparável ao apego à fé cristã noutros tempos da nossa história. Os ingleses eram uns merceeiros que não entendiam nada de tradição, nem de honra e muito menos de fé. Só queriam fazer comércio e ganhar dinheiro, mas nós é que iríamos converter o mundo na verdadeira fé. No fim de contas, bem sabemos o resultado.

Hoje, embora com uma crença diferente, agimos rigorosamente da mesma forma. É a sina da grandeza a que aspiramos mas que nunca conseguimos concretizar.

Os relatos que aqui tivemos no texto do João Sousa e nos comentários do nosso leitor Carlos Sousa e da nossa leitora Susana V, lembram-nos como as rupturas do nosso SNS são frequentes nesta época. As queixas dos utentes que são assistidos pelo mesmo médico de manhã nas urgências e à tarde no privado, e que empurram assistências de um lado para o outro, só existem por não haver coragem nem condições políticas para fazer reformas, para fixar médicos e enfermeiros e a mantê-los motivados.

A maravilha da geringonça bloqueou qualquer hipótese de reformas e nós (alguns) insistem em ficar encantados a apreciar as habilidades do nosso PM. É ele a fazer habilidades e malabarismos, e nós a ficarmos para trás nos rankings europeus que interessam e à frente nos que nos envergonham e entristecem.

Até quantos mortos estamos dispostos a sofrer, sem exigir reformas efectivas?

Recompensa pela desilusão

Paulo Sousa, 16.01.21

A voz rouca do motor bicilíndrico quase que gritou quando enrolei o punho do acelerador. Em poucos metros já rolava velozmente numa sequência de curvas pela Estrada da Beira a fora. O sol estava esplendoroso, incidia de viés, sem perturbar a visibilidade, afinando quase ao máximo a intensidade das cores. O efeito pendular invertido da chamada força centrífuga, mudando de direção em cada curva, combinado com a velocidade e contrariado pela resistência aerodinâmica, era inebriante. Seria difícil melhorar aqueles instantes.

De repente tive a sensação que estava a conduzir na Capadócia, onde nunca estive.

Na primeira paragem, quando me apercebi, alguém tinha levado a mota. Como é que era possível? Adiei anos a aquisição daquela máquina. O acordo comigo próprio era que só o faria depois de ter os filhos criados. Pelo mesmo valor poderia adquirir um todo-terreno usado, talvez até um daqueles ingleses com uma personalidade vincada, e quando conseguisse inventar meia dúzia de horas livres, punha a malta toda lá dentro, subiríamos montes e atravessaríamos vaus com água até as rodas desaparecerem. Esse era o plano.

Como é que, depois de a ter, eu tinha deixado que alguém me levasse a mota?

 

Alguns instantes depois tomei consciência que estava apenas a sonhar.

Fonix! Ainda não foi desta que comprei a bike!

Que desespero! Que desapontamento!

 

E agora quem é que me compensa deste prejuízo?

Guardo esta frase de uma reportagem televisiva feita num inverno em que o repórter informava o país que em Dezembro estava frio. Serviço público, portanto.

Ao entrevistar uma senhora que se tinha espetado contra uma árvore depois de ter travado no alcatrão gelado, ela, indignadíssima, quase gritou aquela frase: “E agora quem é que me compensa deste prejuízo?” Aquilo soou-me como sendo um apelo a um subsídio qualquer, na senda do que é habitual ouvirmos após cada cheia ou vendaval.

Se achamos que cabe ao estado compensar-nos destes infortúnios, é porque frequentemente "eles" acabam por garantir que sim, que nos irão compensar. Se de facto o prometem e o fazem ou não, isso agora não interessa, mas na lógica aceite criou-se uma espécie de jurisprudência que obriga o estado a compensar-nos por azelhices, infortúnios e outras desgraças.

Na mesma lógica, quem é que me compensaria pela mota que me tinham roubado durante o meu sonho? É que não fazem ideia do meu desespero! Ficar apeado depois daquelas maravilhosas curvas era coisa para me fazer lembrar o Hulk quando começa a ficar verde, a dar murros no chão e a rasgar as vestes.

 

Isto é tudo um bocado ridículo. Os sonhos obedecem a regras que não entendemos. Relatar sonhos é enfadonho e por isso espero que me desculpem o abuso.

 

Antes de voltar a adormecer, dei por mim a reparar que o Estado já assume, e há muito, o dever de compensação pelos sonhos destruídos. O que é o Rendimento Social de Inserção senão uma compensação pela incapacidade do país em criar condições para que as pessoas se possam realizar, serem autónomas e felizes? Se a escola de quem pode pagar por um bom colégio é bem melhor que aquela destinada às classes médias e baixas, se a chamada escola pública não permite que os filhos dos pobres possam aspirar a coisa diferente, se a nossa titânica carga fiscal e o armagedão de regulamentos afasta os investidores internacionais para outras paragens, o que sobra para os pobres é viverem dependentes do RSI.

E o Estado, talvez sem dar por isso, o que faz mesmo é compensar esses cidadãos pela desilusão e esvaziamento que, com tanta regra, impediu que fossem evitados.

Sem rumo

Paulo Sousa, 08.01.21

Quinze dias após a consoada (qual é mesmo o período de encubação da covid?), o número dos infectados disparou a ponto de que teremos de regressar a um confinamento geral.

Aí vamos nós novamente, encosta e abaixo sem travões, derreter os farrapos que restam da nossa frágil economia. Mas há uma coisa que nos alegra, salvámos o Natal!

Exaurimos os serviços públicos, mas conseguimos maquilhar o défice!

Temos a electricidade mais cara da Europa, mas somos os campeões nas ventoinhas fora da paisagem lisboeta!

Até novembro foram contabilizadas 1.186.110 horas extraordinárias no Hospital de Santa Maria, tendo superado as de 2019, mas reduzimos o horário de trabalho dos servidores públicos para as 35 horas!

A mortalidade não covid disparou, mas a culpa é do calor, é do frio, é do sector privado, é de tudo e mais um par de botas, desde que não se fale nas decisões políticas que levaram a que entrássemos nesta pandemia com um SNS já doente.

Esta é a nossa sina na mão dos socialistas.

Este é o tipo de escolhas a que estamos habituados. Benefício enganador no curto prazo, e depois lá para a frente logo se vê!

Temos um PR que em público assume que transmitiu ao PM que uma ministra do seu governo deveria deixar de o ser, e este, ignorando a sua opinião, garante-lhe apoio na sua recandidatura. Pudera, ele quer lá alguém a quem possa ignorar e que não se importe de ficar a falar para o boneco. Faz sentido.

Os idiotas dos americanos arranjaram um sarilho com a votação por correspondência, nós que somos muito mais evoluídos iremos resolver isso quando faltarem duas semanas para as eleições. Ainda dá tempo.

O grunho do Trump colocou os americanos uns contra os outros, preferindo arriscar a estabilidade do país desde que assegurasse o seu poder. Deu-se mal, prestou um péssimo serviço e fez do seu país motivo de chacota global. O nosso governo limita a ADSE para os seus, os outros que engrossem as listas de espera. Hoje celebraram o decreto-lei que alarga este SNS Premium a 100.000 contratados pela Administração Pública, e são os operadores privados de saúde que maioritariamente prestam estes serviço. No privado esta possibilidade está reservada a quem possa pagar por ela. Fico impressionado com tanto humanismo.

O país está sem rumo. É incapaz de se reformar e, tal como um sabonete numa pia molhada, vai deslizando sem oposição, numa velocidade crescente em direcção ao próximo sobressalto. A questão de fundo não é se vamos voltar a ser sacudidos pela realidade, mas apenas quando é que isso irá acontecer. A culpa desta vez será da pandemia.

No final do ano, lembremos os ciclos que se repetem

Paulo Sousa, 31.12.20

A generosa injecção de fundos público nos decrépitos órgãos de comunicação social já começa a ter frutos.

Eis a capa de ontem do DN, dia em que este histórico jornal voltou a ter versão impressa:

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E eis também a reacção do nosso Exmo PM:

Ficheiro_001.png

Em época de final de ano, é interessante verificar como a vida é feita de ciclos que se repetem.

Neste documentário da RTP sobre a Reforma Agrária, ao minuto 25, podemos ouvir duas quadras laudatórias dedicadas em 1973 ao Presidente do Conselho Dr. Marcelo Caetano, aquando à sua visita a uma herdade modelo, e que bem podiam estar no editorial da edição do dia 30 de Dezembro do 2020 do DN. Aqui vai:

Somos humildes trabalhadores
Dizemos isto sinceramente
Hoje vivemos mais à vontade
Graças ao nosso Presidente

Presidente como este
No mundo não há igual
Melhorou a vida a todos
Salvando assim Portugal (o jornal)

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Aproveito para desejar um Feliz Ano Novo aos co-autores do Delito de Opinião, assim como a todos os leitores que diariamente nos presenteiam com a sua atenção e disponibilidade.

Muito obrigado.

O legado da geringonça

Paulo Sousa, 21.12.20

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Excerto da capa do Correio da Manhã de 21 de Dezembro de 2020

aqui escrevi sobre como a ausência de cautela é imagem dos governos de Costa. A geringonça foi uma invenção para distribuir riqueza que afinal não existe. Se alguém lhes perguntasse a que critérios recorreram para todas a medidas que tomaram no passado, diriam que estavam certos de que o diabo nunca se atreveria a estragar-lhes os planos.

Recorrendo à comparação da moda, na Suécia por exemplo, e para fazer face às consequencias económicas pandemia, foi instituído um regime de trabalho a tempo parcial, que pode reduzir as horas de trabalho em 20%, 40% ou 60% — com o governo a assegurar 75% da remuneração, ficando os restantes 25% a cargo dos empregadores e empregados. Logo em Março o governo anunciou medidas com impacto financeiro superior a 29 mil milhões de euros, onde se incluía o adiamento de um ano dos pagamentos à Segurança Social e de IVA.

Por cá a salvação será o donativo extraordinário a que chamaram Bazuka, e para que este não se atrase até fingimos que não reparamos que na Hungria se encerram universidades por criticarem o governo, se perseguem jornalistas e se mandam para a reforma juízes por se atreveram a ser independentes do poder político. Os princípios são uma coisa muito bonita, mas os fins são bem mais apelativos.

Entretanto o PIB per capita português (em paridade de poder de compra) desliza ano após ano para o fundo da tabela da UE. Ainda temos a Bulgária como guarda-costas mas veremos por quanto tempo. 

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Considerando que fomos governados pelo PS em 19 dos últimos 25 anos, importa perguntar até que ponto teremos de chegar para que os portugueses sintam necessidade de tentar algo diferente?

Em dia de São Martinho

Paulo Sousa, 11.11.20

Hoje queria escrever sobre tanta coisa.

É dia de São Martinho e diz o proverbio que se vai à adega e prova-se o vinho.

O vinho que bebi hoje foi de uma vinha plantada pelo meu pai, que nos deixou, fez dois anos em Maio. Essa vinha é hoje cultivada por alguém com que eu poderia ter alimentado um conflito, mas que afinal consegui transformar todos os motivos, que no fundo nada valiam, num acordo. A vinha em causa está voltada para sul, é pequena, é estimada e foi nela que o actual cuidador ensinou os seus filhos a podar. Fui presenteado com um dos primeiros garrafões PET de 5 litros da época, que me chegou à mão dentro de um saco de plástico preto. Já aqui vos falei da importância que as castas teimosas têm, e esta é uma casta teimosa premium.

Recebi também uma excelente notícia. Soube que uma amiga ultrapassou uma etapa efectiva e sólida na sua luta contra o cancro. Só isso seria sempre motivo de celebração, mas em tempos de pandemia, essa excelente notícia é também um solene levantar do dedo do meio às doenças da moda, ao Covid e ao cancro em particular. Vai buscar, tinhoso.

Num ápice li este texto do Carlos M. Fernandes. Mesmo sem ter conseguido enxergar as suas interpretações na leitura recente da Peste de Albert Camus, achei que deviamos inventar uma manifestação simbólica e achincalhante para com os nossos governantes. Mas tinha de ser algo fácil e cómodo, pois se não o for, todos preferirão enfiar o cabresto dos mansos.

Após o pico da preia-mar acontece o chamado estofo da maré. Demora algum tempo e durante o qual o ciclo seguinte é quase imperceptível. Até mesmo ao início da vazante, tudo está aparentemente na mesma. E num repente tudo muda. O pico anterior é apenas passado e depois disso o momento, e o momentum, tornam-se vorazes e totalmente inversos ao passado. Acho que o estofo deste governo, e da geração de Sócrates (passo a redundância) está a terminar.

Onde está José Gomes Ferreira? - O rumor foi desmentido

Paulo Sousa, 16.10.20

Não irei eleminar o post, mas começo-o agora dizendo que este rumor já foi desmentido com credibilidade que considero suficiente.

"O programa da SIC Negócios da Semana já tem vários anos e o jornalista José Gomes Ferreira é já bem conhecido pela sua frontalidade e acutilância perante a governação socialista. É frequente que que vídeos das suas intervenções sejam partilhados em cadeia pelas redes sociais. É fácil calcular que alguém assim, descomprometido e bem articulado, incomode quem não lhe consegue responder com factos.

O Negócios da Semana é normalmente transmitido todas as quartas-feiras às 23:00, mas nesta semana que agora termina, e sem aviso prévio, deixou de ser transmitido. No site da SIC deixou de existir qualquer referência a este programa.

Pelo silêncio que rodeia este facto, pela ausência de explicações, todas as especulações são possíveis. Eu estou em querer que este será mais um degrau que se desceu. Estamos cada vez mais próximos do socialismo."

Isto é um assalto

Paulo Sousa, 08.10.20

Desde o início da pandemia que a chamada “elite” socialista que nos governa, alterou o seu padrão de comportamento.

Já nos tínhamos habituado a que todas as esquinas e cruzamentos da cada vez maior e mais pesada máquina do estado, tivessem controlados pelos boys e girls que desde o tirocínio na jota nunca mais nada fizeram na vida. Até aqui sem novidade.

Mas a sacudidela nas frágeis contas pública causada pelo COVID deixou os postiços todos à mostra. A pandega socialista acaba sempre com mais um pedido de assistência financeira e eles, que são os mesmo da última vez, já viram este filme. Vivemos uma sequela de mau gosto de uma crónica de uma morte anunciada.

Já sabemos que eles vão apontar em todas as direções à procura de culpados e nos vão garantir que, tal como acontece com a diarreia dos leitões, cinco segundos antes de começar estava tudo impecável. Mas não estava.

O cheiro a fim de festa, e a antecipação do cheiro que se segue, levou a uma mudança de padrão de comportamento. Eles deixaram de disfarçar.

Começou com o relaxamento das regras para a distribuição da esmola aditivada a que chamam bazuca. Seguiram-se os alertas do Tribunal de Contas sobre o facilitismo à corrupção que essa mudança acarretava. O Presidente TdC foi oportunamente trocado por outro, já com saber de experiência feita (em ajudar os amigos do PS entenda-se) e hoje soubemos que a lei que impedia os familiares de governantes de poderem negociar com o Estado, foi alterada.

Eles sabem que correm contra o tempo e que depois da próxima falência nem o “melhor povo do mundo” (o actual PR faz parte da clique) lhes voltará a deixar pôr as mãos na gamela. O tempo urge, eles andam frenéticos e agora vale tudo.

Pela restauração da Freguesia de Matacães

Paulo Sousa, 07.10.20

A possibilidade de repor 600 freguesias, levantada há dias pela Ministra Leitão, cria um cenário capaz de me fazer repensar nas minhas irrefletidas críticas.

Em 2013 a Freguesia de Matacães, no concelho de Torres Vedras, foi integrada com as Freguesias de São Pedro e Santiago, Santa Maria do Castelo e São Miguel, dando origem à Freguesia de Santa Maria, São Pedro e Matacães.

Será que Matacães faz parte da lista das 600 Freguesias a serem restauradas? Quem diria que não ao desafio de ser candidato pelo PAN, a Presidente da Junta de Freguesia de Matacães? O cargo é já um slogan vencedor.

Continuo a não concordar com as restantes 599, mas Matacães merece ter uma Junta de Freguesia eleita pelo PAN.

Plano de Recuperação e Resiliência do Regime

Paulo Sousa, 04.10.20
Compacto de notícias que se seguiram à confirmação de que a “bazuca” financeira de Bruxelas vinha a caminho.

1) A procuradora que ficou em primeiro lugar para o Gabinete da Procuradoria Europeia, órgão que vai supervisionar a fraude nos fundos, foi preterida pelo governo. A ministra portuguesa da Justiça, Francisca Van Dunem, vetou Ana Almeida e optou por José Guerra, que já integrou o Eurojust e trabalhou diretamente com Van Dunem no DIAP de Lisboa.

2) As CCDR, responsáveis pela distribuição de fundos europeus, foram partilhadas por PS e PSD, ao ponto de terem provocado uma mini-remodelação no governo para que Secretários de Estado fossem lá colocados.

3) Vitor Escária, figura opaca, consultor do governo para os fundos europeus enquanto se mantinha na administração de uma empresa grande beneficiária desses fundos, é agora chefe de gabinete do PM

4) O governo apresenta uma proposta de revisão das regras de contratação pública aplicável aos fundos europeus, que como muitos alertam, abre a porta à corrupção.

5) O presidente do Tribunal de Contas é uma das vozes que se levantam contra esta reforma das regras de contratação pública e é “despedido” pelo PM.

6) Será anterior a tudo isto mas é relevente o silêncio absoluto do PS, incluindo do seu secretário geral, sobre a rocambolesca história da deputada Hortense Martins e os fundos europeus.

É fácil de concluir que o regime esta a mostrar uma enorme resiliência perante todos os desafios da iminente falência deste governo socialista. Será apenas a quarta vez que isso acontece.

 

PS: Parte do post foi copiado da Susana Coroado.

O regresso da ideologia

Paulo Sousa, 24.09.20

A chegada da IL ao hemiciclo permitiu o regresso do saudável e saudoso debate ideológico ao espaço público.

Durante demasiado tempo, sempre que dois políticos se encontravam à frente das câmaras de uma televisão discutiam apenas a espuma do dia. Fora disso, o melhor que conseguiam era garantir que conseguiriam vedar as sempre incontinentes contas públicas, o que nunca foi mais de que uma redonda mentira.

Como já foi aqui referido pelo nosso colega José Meireles Graça, há poucos dias na SIC Notícias debateu-se a proposta da IL para a adopção de uma taxa única de IRS. Além da proposta em si havia como pano de fundo as declarações proferidas pelo Dr. Anacleto no seu programa da SIC. O deputado da IL, João Cotrim Figueiredo, acusou-o nas redes sociais de ter mentido e deturpado o conteúdo da proposta de flat rate. Esse foi o tema de arranque do debate. No decorrer da troca de argumentos o deputado bloquista enredou-se nas suas fintas semânticas e, provavelmente sem dar por isso, confirmou a mentira do seu chefe. Nada de novo para um conselheiro do Estado Português.

Olhando com atenção, dá para apreciar ainda a forma como o jovem delfim de Louçã afirma que esta proposta não é esta proposta, porque 'eu é que sei bem o que lhe vai na alma'. Esta é uma técnica que consiste na recusa do debate e avança para o julgamento moral. É populismo mas do bom. Se fosse usado pela direita seria asqueroso.

Eu, que gosto de enquadramentos históricos, gostaria de lembrar ao mano mais novo do Daniel Oliveira (aquele que faz rir) que nesta conversa ele assumiu a defesa da situação, ou seja, a defesa de um sistema fiscal que lhe permita (sem óculos escuros ele não consegue esconder a chispa) acabar com os ricos, mas que na prática nos empobrece a todos.

Já aqui referi que os partidos da esquerda unidos à volta do OE, constituem as forças conservadoras da actualidade. O BE e o PCP, os acólitos do PS, são tão coerentes como um apenas um revolucionário conservador poderá ser. Admito que tenham consciência do ridiculo, mas não conseguem resistir a uns biscoitos de reforço positivo.

Os irrecuperáveis vinte anos de estagnação económica, que marcarão estes anos da nossa vida, estão ligados a este modo de esmifrar a riqueza produzida pelos portugueses.

Li não sei onde que o debate político deverá trazer sempre à liça o passado, o presente e o futuro. Estes três diferentes tempos não deverão ter sempre o mesmo peso nas decisões, mas nenhum deverá ser humilhado. Os socialistas que há décadas nos governam são uns amantes obsessivos do presente. Eles desprezam o passado e odeiam o futuro. De facto, eles são os inimigos do futuro. Para os socialistas, em troca do poder imediato não existe nenhuma questão de princípio que não seja negociável. Manter o poder é a sua ideologia. É o seu alfa e o omega. Por ele, tudo.

A frescura de quem ignora que os pobres não são livres

Paulo Sousa, 23.09.20

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Os habitantes dos bairros sociais abdicariam facilmente da sua "vista maravilhosa" para poderem ambicionar a que os seus filhos pudessem ter uma vida melhor que a deles.

Também podia dizer-lhes que não tem médico de família, nem a dentição completa, nem aquecimento, nem férias, mas não se queixem pois têm uma "vista maravilhosa".

O esbulho fiscal dos salários (2)

Paulo Sousa, 20.08.20

Na sequência deste post de há dias, importa referir os seguintes detalhes:

1 - Como foi bem lembrado pelo leitor JgMenos se nos quisermos aproximar do custo real do empregador temos ainda de considerar o facto de que os valores apresentados para salário base serem pagos 14 vezes para 11 meses de trabalho. Como os subsídios de férias e de Natal não incluem o subsídio de refeição não podemos fazer uma proporção directa que nos levaria ao seguinte quadro.

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Em qualquer dos casos os valores rondam os 50% com a excepção do caso 4 referente ao SMN. Mas mesmo nesse caso o empregado recebe apenas 60% do custo total do seu empregador.
Importa acrescentar que o factor que tem maior peso nestes cálculos respeita à Segurança Social.

2 – Claro que existem diversas formas que remunerar o trabalhador sem que o estado se aproprie de tamanha proporção de riqueza. O estado sabe disso, e isso acontece de baixo do nariz de todos os Ministros das Finanças. O pagamento de despesas de representação, de quilómetros feitos em viatura própria ao serviço da empresa, assim como o recurso a prémios de desempenho são algumas das formas de reduzir o valor da segurança social. Atalhos idênticos são utilizados para remunerar horas extraordinárias.
Há quase um ano o país quase parou com a greve dos camionistas das matérias perigosas. Algumas das suas reivindicações prendiam-se exactamente com o impacto negativo que essas formas de remuneração têm na sua reforma. O Estado sabe disto e finge que não vê porque teme asfixiar ainda mais a economia. O Estado finge também que não sabe, porque precisa de fingir que alinha nas exigências ideológicas dos seus parceiros. No fundo é um jogo de fingimentos vários e com diferentes direções. Esta não é A causa da estagnação da nossa economia, mas é apenas mais uma das causas.

3 – A remuneração líquida que cada trabalhador recebe será direcionada principalmente para o consumo. Por isso será novamente taxada em IVA, Imposto sobre produtos petrolíferos, Imposto sobre Veículos, Imposto Único de Circulação, Imposto de Selo, Imposto Verde (s/ sacos de plástico), Imposto sobre álcool e bebidas alcoólicas e Imposto sobre o Tabaco. Se depois desta cascata de impostos sobrar algum valor e alguém conseguir adquirir a prestações um imóvel, será ainda devedor do Imposto Municipal sobre Transações e Imposto Municipal sobre Imóveis. Vou aqui saltar outras taxas e taxinhas.

4 - Se as taxas de IRS que explicam parte do fenómeno fiscal indicado no post anterior fossem menores, os trabalhadores veriam os seu rendimento disponível aumentado e assim poderiam consumir e poupar mais. Naturalmente que iriam pagar mais imposto sobre o consumo, o que de ponto de vista fiscal equilibraria a perda de receita de IRS.

Os impostos em geral, pela legitimação da apropriação dos bens dos outros, são a quinta essência da esquerda. Os indirectos, sobre o consumo, por serem muito castigadores de quem mais consome, que são os ricos. Mas mais adorados ainda são os impostos directos, como é o caso do IRS. Estes têm o fascínio irresistível de legitimarem a castração em absoluto das possibilidades de escolha do contribuinte .
A retenção na fonte do IRS baseia-se numa perversa lógica de anestesia fiscal. Depois de sacar dois ou três ou ainda mais milhares de euros por ano a um casal, o Estado “devolve-lhe” com uns meses de atraso três ou quatro centenas deixando-os assim satisfeitos com a safra fiscal desse ano.

5 – A minha proposta que sem a rede de cretinisse do Plano Estratégico do António Costa e Silva poderia parecer idiota:

Tudo isto se passa num “suponhamos”.

Se as duas parcelas de IRS e de Seg. Social (cerca de 50% dos custo suportados pelo empregador) pudessem ser redistribuídas em partes iguais pelo trabalhador e por quem lhe dá emprego, os ganhos sociais e de competitividade seriam imensos. Em primeiro lugar pelo aumento do rendimento disponível que seria especialmente mais significativo nos ordenados mais baixos. Em segundo pela folga de tesouraria que permitiria às empresas reduzir o seu endividamento, investir no crescimento do seu negócio ou então simplesmente sobreviver no cenário de pandemia que vivemos.

Mas, dirão: "Para isso seriam vários milhares de milhões de euros para equilibrar o OE". E é verdade.

Mas faria mais sentido oxigenar a tesouraria das famílias e das empresas, numa medida desta natureza, consumindo parte da ajuda europeia que nos é destinada, ou será melhor torrar esses fundos europeus no megalómano projecto do hidrógenio, exactamente no início da sua curva tecnológica, quando tudo é muito mais experimental, mais caro, menos produtivo e menos rentável?

O esbulho fiscal dos salários

Paulo Sousa, 13.08.20

É vulgar e fácil de concluir que os salários em Portugal são demasiado baixos.

Não me quero meter na lavra dos economistas e começar para aqui debitar tiradas sobre rendimento real ou nominal e sobre ganhos de produtividade. Propus-me apenas a observar, de forma muito simplista, alguns dados que sendo públicos quis o governo que fossem ocultados. Para isso recorri ao simulador de salários líquidos para o ano de 2020 do site doutorfinancas.pt.

Como é práctica corrente, e fazendo tábua rasa do significado da expressão “subsidio de refeição”, considerei que o valor creditado no cartão refeição é também um rendimento. Não considerei o subsídio de férias nem de natal.

Tendo em mente os jovens da geração mais bem preparada de sempre e a sua capacidade em se tornarem financeiramente independentes escolhi os dados que lhe fossem adequados e por isso os cenários que simulei referem-se a um sujeito não casado e sem dependentes.

O primeiro cenário respeita a um jovem recém-formado que tenha negociado com a sua entidade patronal um salário de 1.000€ líquidos.

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O valor do salário base indicado foi definido por tentativas de forma a encontrar o salário liquido pretendido. Neste caso 1, em que o empregado recebe 1.000€ líquidos, o seu patrão tem um custo de 1.531€ e por isso podemos afirmar que este jovem apenas recebe uma parcela de 65%  do custo suportado pela empresa.

Consideremos agora que o empregador está muito satisfeito com o desempenho deste jovem ao ponto de o querer aumentar. Nesse caso (cenário 2) para um aumento líquido de 100€ o empregador terá de gastar mais 208€. O valor final auferido é assim reduzido para 63% da totalidade do custo salarial da empresa.

Se imaginarmos que este jovem é um engenheiro informático que foi contratado por uma startup criativa de capitais irlandeses que por cá assentou arraiais na vaga do Web Summit, então as suas referências salariais são outras. Considerando que o SMN Irlandês é de 1.656€, a empresa oferece a este jovem engenheiro 2.000€ líquidos. Assim teremos:

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Neste caso o jovem engenheiro irá receber apenas 52% do custo suportado pela empresa que quis investir no nosso mercado. O Estado retém 48% do valor que a startup desembolsa.

Para quem possa pensar que esta dimensão do valor retido pelo estado respeita apenas a altos (?) ordenados veja então o casos do nosso SMN.

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Este caso 4 respeita ao SMN e o caso 5 a um salário líquido de SMN+100€. Mesmo nestes casos de salários baixos o estado retém no mínimo 23% para logo imediatamente a seguir, pela fartura de mais 100€ passar a reter 31%.

A segurança social paga pelo empregador, não consta no recibo de ordenado por opção política. O discurso anti-capitalista é uma marca cultural do regime fundado pela constituição socialista de 1976. Ora, se o empregado não tiver conhecimento de quanto efectivamente custa à empresa onde trabalha será mais fácil alinhar numa atitude anti-patronato, e isso agrada ao mainstreem socialista. A IL propôs em novembro do ano passado que esta informação passasse a ser dada ao empregado, mas essa proposta não passou no Parlamento.

Acrescento ainda que estes valores aqui apresentados não incluem a totalidade dos custos obrigatórios e igualmente suportados pela empresa empregadora, como sendo formação, seguros de acidentes de trabalho, segurança e higiene no trabalho e equipamento de segurança. E haverão outros, que me escaparam.

Perante estes dados, uma infinidade de diferentes interpretações podem ser feitas. Cada um de nós terá a sua que aqui pode partilhar. Eu, em breve aqui regressarei com a minha.

A saúde dos portugueses vs o grande capital

Paulo Sousa, 17.07.20

Como acontece com todas as utopias, o liberalismo utópico equivaleria a um retrocesso civilizacional.

Depois de salvaguardado este ponto prévio, tenho de salientar que apesar da fama de defender sempre o grande capital, o liberalismo representado no nosso país pela IL mostra um lado humano defendendo que o dinheiro gasto para salvar a TAP seria mais bem gasto na saúde dos portugueses.

A quem não sofra de frémitos de autocensura recomendo a leitura desta entrevista, onde Carlos Guimarães Pinto desmonta o discurso de Pedro Nuno Santos, e demonstra com clareza a dimensão de mais este erro do governo.

"O dinheiro que será injectado na TAP, apenas nesta primeira fase, daria para pagar ao sector privado as consultas e cirurgias em atraso, evitando parte deste desastre. Infelizmente para o governo a saúde dos portugueses não é estratégica, ao contrário da TAP. Talvez fosse boa altura para mudar as prioridades."

É curioso como são os socialistas, os sempre autodenominados donos dos valores do humanismo, a pôr em práctica exactamente o contrário.

São vários os analistas que defendem que António Costa entregou o Ministério das Infraestruturas a Pedro Nuno Santos para o queimar. Quanto pior lhe corra a vida política e mais desastrosas forem as consequências das suas decisões, mais distante ele ficará da liderança do PS. Este é o tipo de decisões que mostram que entre as lutas internas no seu partido e o interesse do país, o PM coloca as nossas algibeiras e o nosso futuro último lugar.