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O debate em curso no PS

por Pedro Correia, em 16.07.18

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O maior debate ideológico neste momento na política portuguesa ocorre no interior do PS, já a apontar para um período posterior à actual liderança. Com uma clivagem cada vez mais evidente entre a sua ala maioritária, europeísta e firme defensora dos compromissos de Portugal enquanto membro das instituições comunitárias, e uma ala que anda seduzida por um certo populismo eurocéptico, de braço dado com forças partidárias que nunca advogaram a construção europeia e não escondem a aversão à união monetária.

Isto ocorre num período histórico de clara regressão da social-democracia clássica à escala continental. Socialistas e sociais-democratas estão em recuo acelerado em quase toda a Europa - Alemanha, Holanda, Dinamarca, Finlândia, Áustria, Bélgica. Na Itália, em França e na Grécia os partidos socialistas eclipsaram-se. Tiveram de mudar de nome e de configuração para não desaparecerem de vez.

Na Alemanha, a última eleição federal ganha pelo SPD foi em 2002.

No Reino Unido, as últimas legislativas com triunfo eleitoral do Partido Trabalhista datam de 2005.

Em Espanha, o PSOE não vence uma eleição parlamentar desde 2008.

Este pano de fundo torna ainda mais interessante o debate em curso entre os socialistas cá do burgo. Enquanto uns sonham com a formação de um vasto bloco europeísta liderado pelo PS a partir do centro, que inclua os despojos futuros do cada vez mais fragmentado PSD, outros imaginam um partido federador e congregador das esquerdas eurocépticas, capaz de pescar em águas populistas e liderado a prazo por um candidato a Corbyn português. Como observa Vasco Pulido Valente, «a nova geração do PS é indistinguível da geração do Bloco de Esquerda: têm a mesma educação, o mesmo percurso social, vestem-se da mesma maneira, gostam das mesmas coisas».

Tempos interessantes, a que convém dar atenção.

"Um mar de ruínas"

por Pedro Correia, em 12.06.17

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 François Hollande e Benoit Hamon

 

 

«Nada grandioso será alguma vez conseguido sem grandes homens.»

Charles de Gaulle

 

Lembram-se de François Hollande, o indivíduo que segundo alguns arautos lusos proclamavam ruidosamente há cinco anos, iria  revitalizar a débil esquerda europeia?

Hollande, bem avisado, decidiu não se recandidatar ao Eliseu: à beira do fim do mandato inaugurado em 2012, a sua taxa de popularidade entre os franceses era de longe a mais baixa da V República, fundada em 1958 pelo general De Gaulle. O delfinato possível do chefe do Estado cessante foi assegurado pelo medíocre Benoit Hamon, sufragado pelas "primárias" - o último grito da moda Outono-Inverno da saison política parisiense - mas arrasado nas urnas quando deixou de se jogar a feijões e houve eleições a sério: recolheu apenas 6,3% dos votos, ficando na quinta posição entre os candidados à corrida presidencial.

A primeira volta das legislativas francesas acaba de traçar um retrato fidedigno do Partido Socialista Francês, avaliando-se assim o verdadeiro legado político de Hollande: entre 7% e 10%. "Um mar de ruínas", na justa definição do Libération. Com o Presidente Emmanuel Macron a vencer, como se esperava, por intermédio do seu novo partido pós-ideológico, República em Marcha - criado só há 14 meses. Numa prova de que em democracia tudo pode transformar-se.

Há umas semanas, o ex-primeiro-ministro Manuel Valls causou imenso escândalo ao anunciar que o PSF estava morto. Tinha razão, como esta catástrofe eleitoral confirma. Resta aos socialistas franceses encerrar para balanço, imitando o que François Mitterrand fez em 1969, na ressaca do Maio de 68, ao mandar sepultar a defunta SFIO [Secção Francesa da Internacional Operária] num congresso do qual emergiu o Partido Socialista, agora falecido aos 48 anos. Paix à son âme.

O aparatoso declínio do PSOE

por Pedro Correia, em 25.10.16

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 Um partido em sério risco de desmembramento

 

«Quando Marx pode mais que as hormonas, não há nada a fazer»

Julián Marías

 

1

O Partido Socialista Operário Espanhol, reunindo de emergência o seu órgão máximo entre congressos, decidiu no sábado viabilizar um novo Executivo do Partido Popular, liderado por Mariano Rajoy, com um “mandato imperativo” aos seus deputados, que deverão abster-se na votação de investidura.

Com esta decisão do seu Comité Federal – assumida por 139 votos favoráveis e 96 contra – o PSOE demonstrou uma responsabilidade institucional que há muito tardava, rompendo enfim um bloqueio de 300 dias sem formação de governo após duas eleições legislativas em que o PP conseguiu triunfar, embora sem maioria absoluta - a 20 de Dezembro de 2015 e a 26 de Junho deste ano.

Um bloqueio que se devia à intransigência do ex-líder socialista, Pedro Sánchez, apesar de o seu partido contar com apenas 85 deputados no Parlamento espanhol – menos 52 do que os 137 do Partido Popular. Uma diferença inultrapassável, fosse qual fosse a aritmética política. E que transformou em utopia o cenário de umas terceiras legislativas, que deviam ocorrer em vésperas do Natal.

 

2

Desde que perdeu a eleição parlamentar de 2011, após a fracassada governação de Rodríguez Zapatero que quase conduziu Espanha a um resgate financeiro de emergência idêntico ao ocorrido em Portugal, o PSOE foi resvalando até ao limiar da luta pela sobrevivência política em que se encontra agora.

A viabilização de um novo Governo de centro-direita, mais do que um tardio gesto de responsabilidade, aliás avalizado pela maioria dos eleitores socialistas, constitui portanto uma reacção instintiva à hecatombe que se avizinhava: uma sondagem muito recente divulgada pelo jornal El País, historicamente afim aos socialistas, atribuía uma votação quase irrisória ao PSOE, ultrapassado largamente à direita pelo PP e à esquerda pelo Podemos – amálgama de organizações da esquerda radical, que em diversas zonas do país mantém estreitos vínculos às forças nacionalistas e separatistas.

 

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 Pedro Sánchez: pura incompetência política

 

3

Fundado pelo sindicalista Pablo Iglesias em 1879, o PSOE é um dos mais antigos partidos europeus. E o único que resta dos que firmaram os pactos de transição em 1977 e 1978 que permitiram a refundação da democracia espanhola após quatro décadas de ditadura. A UCD de Adolfo Suárez dissolveu-se há 30 anos, a Aliança Popular de Fraga Iribarne transfigurou-se no final da década de 80 no actual PP e o Partido Comunista de Santiago Carrillo tornou-se uma curiosidade microscópica, sem qualquer relevância na Espanha contemporânea.

Os socialistas assumiram-se nestes 40 anos como uma força pendular na sociedade espanhola, tendo exercido funções governativas durante mais tempo do que os restantes partidos somados (UCD e PP). O seu líder mais carismático, Felipe González, rompeu com a orientação marxista num congresso extraordinário em 1979 e já enquanto primeiro-ministro, em 1986, desafiou a ala esquerdista do partido ao fazer ingressar o país na NATO.

A moderação de González fez alargar a base sociológica do PSOE, tornando-o um partido com verdadeira implantação nacional, que chegou a ocupar a presidência da maioria dos executivos autonómicos - incluindo a Catalunha, com José Montilla, entre 2006 e 2010, e o País Basco, com Patxi López, de 2009 a 2012.

Tudo isso mudou. Hoje está reduzido a dois feudos regionais: Andaluzia e Extremadura.

Em Madrid tornou-se a quarta força política. Em Barcelona, a quinta.

 

4

Sánchez é um caso clamoroso de incompetência política que apenas pôde manter-se ao leme da Calle Ferraz devido à manifesta cobardia da maior parte dos quadros socialistas – incluindo o que resta do seu baronato regional – que só despertaram ao ver o partido quase reduzido a escombros. Incapazes de fazer frente ao líder, preferiram desgastá-lo ao longo destes meses com relatos de "fontes anónimas" impressos nos jornais.

Em apenas dois anos, o medíocre Sánchez perdeu todas as eleições, por esta ordem cronológica: municipais, regionais, autonómicas na Catalunha, legislativas de 2015 e 2016.

As duas derrotas mais recentes ocorreram a 25 de Setembro nas autonómicas da Galiza e do País Basco. No primeiro caso, o PSOE perdeu quase 45 mil votos, baixando de 18 para 14 deputados no parlamento regional, dominado por uma inequívoca maioria absoluta do PP; no segundo, viu fugir-lhe cerca de 86 mil votos, e desceu de 16 para nove deputados, com o Partido Nacionalista Basco saindo triunfador das urnas.

Nem assim renunciou ao cargo. De desastre em desastre, preparava-se para levar o partido ao naufrágio maior: a terceira eleição legislativa em doze meses, que tornaria ainda mais irrelevante o PSOE na sua estonteada fuga para a frente.

As bases, representadas no Comité Federal, acabam de dizer-lhe: basta. Aconteceu aquilo que previ aqui, há quase três meses: “Sánchez sairá da pior maneira, empurrado pelos barões regionais do partido, com Susana Díaz à cabeça. Já recebeu um solene aviso dos seus pares, mais sintonizados do que ele com a vox populi: não haverá terceiras legislativas. Tal cenário seria catastrófico para os socialistas espanhóis, que vão recuando a cada novo teste eleitoral.”

 

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Juan Negrín e Indalecio Prieto nos anos 30: as lições da história 

 

5

É triste verificar que alguns líderes políticos só abandonam a cena ao serem empurrados, quando a ética da responsabilidade lhes impunha a demissão ao fim de duas ou três derrotas. No caso de Sánchez foi preciso esperar por sete para o empurrão surgir.

Empurrado, mas não convencido. Alguns dos seus apaniguados garantem que violará a disciplina de voto no Congresso dos Deputados, onde mantém assento: incapaz de aceitar a regra da maioria, ameaça votar não. E não tardou a tuitar esta mensagem: “Rapidamente chegará o momento em que a militância recuperará e reconstruirá o seu PSOE.”

Já afastado, continua a comportar-se como se ainda aspirasse disputar o poder a Rajoy num escrutínio do qual sairia inevitavelmente um PSOE ainda mais enfraquecido, transformado em parceiro menor da extrema-esquerda. No fundo, o sonho da direita espanhola.

 

6

Instala-se agora o fantasma do fraccionismo no partido, com a facção moderada a enfrentar aqueles que defendem uma aproximação dos socialistas ao Podemos. Nada de novo na história do partido, que durante a guerra civil (1936-39) assistiu ao choque das tendências internas – nomeadamente entre os reformistas como Indalecio Prieto e os ultra-radicais como Largo Caballero, auto-intitulado “Lenine espanhol”, contando estes com aliados como o titubeante Juan Negrín, apanhado entre dois fogos.

Hoje novamente fragmentado em inúmeros feudos internos, sem uma liderança firme, dividido entre o constitucionalismo que lhe serviu de bandeira nos anos em que foi mais forte e a pulsão populista proporcionada pelo ar dos tempos, com ocasionais flirts separatistas na Catalunha, o PSOE luta por sobreviver enquanto grande partido nacional. Com González, chegou aos 202 parlamentares. No período pós-Zapatero foi baixando sucessivamente: 110 deputados em 2011, 90 em 2015, 85 este ano.

A nível europeu, só o quase desaparecido PASOK grego se afundou tanto em tão pouco tempo.

A incapacidade de aprender as lições da história origina erros trágicos na política, algo que o aparatoso declínio dos socialistas espanhóis bem demonstra. Como se estivesse escrito nas estrelas: os prenúncios eram evidentes e nenhuma advertência foi escutada em tempo útil.

As 35 horas são apenas o primeiro passo...

por José António Abreu, em 27.04.16

Venezuela à espera da chuva põe função pública a trabalhar dois dias por semana.

Ou a prova de como, sem as grilhetas da União Europeia, do euro ou da inexistência de petróleo, um dos paraísos do socialismo está cada vez melhor.

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 08.10.15

«O parco resultado alcançado pelo PS nas eleições do passado domingo constitui mais uma manifestação da crise que percorre a família social-democrata europeia.»

Francisco Assis, no Público

Consumo

por José António Abreu, em 16.12.14

Em França, o plano de reformas do ministro da Economia está debaixo de fogo. Como seria de esperar, entre os mais críticos contam-se inúmeros socialistas. Martine Aubry, presidente da Câmara de Lille, escreveu um artigo no Le Monde atacando a ideia de permitir a abertura do comércio durante 12 domingos por ano, em vez dos actuais 5. Pergunta ela: Queremos fazer do consumo - ainda mais do que hoje - o alfa e ómega da nossa sociedade? A esquerda não tem mais a propor como organização da vida do que o passeio dominical ao centro comercial e a acumulação de bens de grande consumo? (Tradução minha.)

É sempre enternecedor ver gente defendendo a imposição de comportamentos saudáveis, protegendo as massas da irresistível pulsão para a mediocridade que, sem regras definidas por espíritos mais elevados, as tende a dominar. Aubry talvez devesse perguntar aos 10% de desempregados franceses se preferem continuar nessa condição ou obter uma hipótese extra de arranjar emprego, ainda que correndo o risco de ele abranger alguns domingos por ano, mas, para paladinos do mundo como ele devia ser, esta é uma questão que nem se coloca. Para estas pessoas, o desemprego não se combate criando empregos imperfeitos. (Que eu não conheça outro género só pode constituir uma falha na minha experiência de vida.) E se é verdade que um aumento de 7 domingos por ano não diminuiria significativamente a taxa de desemprego, suponho que permitir o trabalho em 22, 32, 42 ou - gasp - 52 seria ainda mais inaceitável.

Seja como for, a presunção nem é o aspecto mais curioso de tudo isto (já se sabe: os socialistas adoram tomar decisões pelos outros). O mais curioso é haver gente (quase invariavelmente de esquerda, quase invariavelmente com capacidade de consumo muito acima da média) que contesta esta terrível sociedade consumista mas também exige o estímulo da economia através de políticas de incentivo ao consumo. Decididamente, a lógica é uma batata. Subsidiada pela PAC.

Pós-eleitoral (6)

por Pedro Correia, em 29.05.14

 

Olhar para os 31,5% do PS contra a direita unida (PSD+CDS) no escrutínio para o Parlamento Europeu e ver neles um sinal imperioso para fazer rolar cabeças no partido vencedor é passar ao lado do essencial. Além de injusto para António José Seguro: ele foi um dos dirigentes socialistas que mais se aguentaram em toda a Europa, obtendo o terceiro melhor resultado para a sua família política nos Estados da eurozona.

Encaremos os factos: a esquerda socialista venceu eleições em apenas sete dos 28 países que integram a União Europeia: Eslováquia, Itália, Lituânia, Malta, Portugal, Roménia e Suécia.

Só em Malta, Itália e Roménia a votação nos socialistas foi superior à do PS.

 

Vejamos os resultados:

Alemanha - Partido Social Democrata: 27,3%

Áustria - Partido Socialista Austríaco: 24%

Bélgica - Dois partidos socialistas (francófono e flamengo): 19%

Bulgária - Partido socialista KB: 18,5%

Chipre - Partido Democrático: 10,8%

Croácia - Partido Social Democrata: 30%

Dinamarca - Partido Social Democrata: 19,1%

Eslováquia - Partido social-democrata SMER: 24%

Eslovénia - Partido Social Democrata: 8%

Espanha - Partido Socialista Operário Espanhol: 23%

Estónia - Partido Social-Democrata: 13,6%

Finlândia - Partido Social Democrata: 12,5%

França - Partido Socialista: 14%

Grécia - Oliveira (coligação de PASOK e aliados): 8%

Holanda - Partido Trabalhista: 9,4%

Hungria - Partido Socialista Húngaro (MSZP): 10,9%

Irlanda - Partido Trabalhista: 5,3%

Itália - Partido Democrático: 40,8%

Letónia - Partido Social Democrata: 13%

Lituânia - Partido Social Democrático da Lituânia: 17,3%

Luxemburgo - Partido Operário Socialista Luxemburguês: 21,6%

Malta - Partido Trabalhista: 53%

Polónia - Aliança Democrática de Esquerda: 9,4%

Portugal - Partido Socialista: 31,5%

Reino Unido - Partido Trabalhista: 25,4%

República Checa - Partido Social Democrata Checo: 14,2%

Roménia - Partido Social Democrata: 37,6%

Suécia - Partido Social Democrata: 24,5%

 

 

Em pano de fundo, bem expresso nestes números, está um modelo político em profunda crise: a social-democracia europeia. O PS de François Hollande fica reduzido a quase metade da percentagem da Frente Nacional. Milleband, o wonder boy do trabalhismo pós-Blair, queda-se pelos 25% no Reino Unido. O outrora poderoso PSOE afunda-se no pior resultado de sempre em Espanha, sem nada capitalizar de dois anos de feroz oposição ao Governo conservador de Rajoy. Até o SPD alemão não ultrapassa uns exíguos 27%.

Como escreveu Ana Sá Lopes no jornal i, numa excelente análise às europeias, "a social-democracia não serviu para nada durante a grande recessão, não se constituiu como alternativa a nada e o falhanço de Hollande é só o mais espectacular de todos".

 

Poderia a lista encabeçada por Francisco Assis ter feito melhor num cenário de dispersão de votos, potenciador das candidaturas que se esgotam no protesto?

Dificilmente.
É certo que Ferro Rodrigues alcançou 44% nas europeias de 2004. Mas os tempos eram outros, à esquerda e à direita. Alguém imagina um Marinho Pinto emergir então com a força que agora obteve? Alguém supunha que um grupo inorgânico como o Podemos, fenómeno emanado das redes sociais, surgisse como quarta força mais votada em Espanha e terceira em Madrid, como agora aconteceu? E em qualquer outro contexto Beppe Grillo chegaria a obter um quarto dos votos em Itália?


Somos sebastianistas: pensamos sempre que um indivíduo faz a diferença. Mas neste caso não faz. O problema é mais grave e mais fundo: as duas principais famílias políticas europeias estão gravemente feridas, talvez de forma irremediável, enquanto os egoísmos nacionais regressam em força com a sua oratória guerreira.

As forças extremistas e eurófobas ganham passo à medida que as áreas políticas centrais vêem o seu espaço diminuir drasticamente. Em Espanha, pela primeira vez, os dois principais partidos somados já totalizam menos de 50% dos votos expressos.

A cura, se existir, não virá de nenhum homem providencial e "carismático", de toga messiânica, dançando um De Profundis em valsa lenta.

Merkel utilizava esquis da Alemanha de Leste quando teve o acidente.

A Venezuela enfrenta um problema de escassez severa de papel higiénico. Lida assim, sem o necessário enquadramento, a notícia cheira mal. Felizmente, o poder instalado em Caracas, com a legitimidade reforçada de ter sido democraticamente eleito nas urnas e de Nicolas Maduro ter sido declarado vencedor, ainda antes do acto eleitoral, pelo defunto Hugo Chávez que apareceu sob a forma de um passarinho para lhe anunciar a vitória, já apresentou uma explicação para a situação. Note-se, entretanto, que estas aparições de pássaros, passarinhos, cucos e outras aves de arribação são muito frequentes em países socialistas. Não há muito tempo, creio recordar, um grou voou três vezes em redor da estátua de Kim-Jong-il durante as cerimónias fúnebres do querido líder. E, ainda a propósito, será oportuno notar que a relação do comunismo/socialismo com o papel higiénico é, por assim dizer, algo enrolada, circunstância que também os cubanos têm tido oportunidade de constatar. De qualquer forma, o que importa é que o governo de Nicolas Maduro tem, como já referi,  uma explicação para esta situação incómoda.  Pelo visto, tudo está relacionado com o facto de os venezuelanos comerem agora muito mais, graças aos benefícios da revolução socialista. E como, em princípio, tudo o que entra sai, não é difícil perceber a origem do problema. Digo que temos neste caso, quando menos, fortes indícios de currelação entre as variáveis. É claro que a oposição venezuelana foi lesta a pôr em causa o argumento mas ocorre-me que isso se possa dever..., enfim, a guerras intestinas. Em todo o caso, a situação não deixa de ter a sua ironia. Marx identificou o problema capitalista do excesso de produção. É curioso notar que nos sistemas comunistas/socialistas esse problema também parece existir. O output é que é diferente. Para além disso, no caso do capitalismo, o excesso de produção provoca uma crise. No do comunismo/socialismo o que temos é um desarranjo.  Aqui chegados, creio que existem condições para identificarmos alguns traços comuns dos países comunistas/socialistas. Desde logo, temos sinais evidentes de recorrência de aparições de passarada. Depois, constata-se que o comunismo/socialismo acaba, mais cedo ou mais tarde, por dar...hmmm... o tal output. E que essa circunstância afecta muito o stock de papel higiénico disponível. Por último, mesmo que tomemos por boa a garantia de Jerónimo de Sousa de que os comunistas não comem criancinhas ao pequeno almoço, é justo reconhecer que continuam a ser muito dados a histórias infantis e a argumentos de...hmmm... output.

Menos um socialista a governar

por Pedro Correia, em 03.02.11

A queda de Mubarak é inevitável. E nem é preciso consultar os astros. Basta recorrer a um barómetro ainda mais infalível: a Internacional Socialista acaba de expulsar das suas fileiras o partido do ditador egípcio.

Desempregados, rumo ao socialismo

por Pedro Correia, em 15.12.10

 

Nós, portugueses, contentamo-nos com a retórica. Ouvimos um candidato presidencial que há mais de 30 anos é funcionário de um partido político falar em nome dos trabalhadores e achamos que alguém com um discurso destes só pode ser um profundo conhecedor do mundo do trabalho. Escutamos um primeiro-ministro que se diz socialista acusar a oposição à direita de pretender facilitar os despedimentos e tomamos estas declarações pelo seu valor facial, absolvendo o referido governante de todo o pecado contra o mundo laboral. Aplaudimos uma Constituição que desde 1976 nos proclama a "caminho de uma sociedade socialista" e convencemo-nos de que isto funciona como uma espécie de varinha mágica capaz de nos pôr na rota do progresso.

Pois o mesmo primeiro-ministro que ainda há três meses clamava contra a fúria "liberalizadora" da oposição, intitulando-se protector dos trabalhadores, é o mesmo que agora quer estabelecer um tecto máximo para o valor das indemnizações e compensações pagas aos trabalhadores em caso de despedimento", utilizando o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa como seu porta-voz.

Mas podemos estar descansados. O preâmbulo da Constituição da República vai permanecer como está. Continuamos - com 700 mil desempregados actuais e indemnizações mais baixas aos desempregados futuros - a "caminho de uma sociedade socialista". Seja lá o que isso for.

Caracas: muito crime e pouca luz

por Pedro Correia, em 04.12.09

Caracas, a capital do "socialismo do século XXI" que Hugo Chávez pretende exportar para todo o planeta, sob o cognome de 'V Internacional', ostenta o duvidoso título de segunda cidade mais perigosa do mundo, com uma taxa de 96 homicídios por cada cem mil habitantes - cinco vezes mais do que em São Paulo, no Brasil. Pior só mesmo a tenebrosa Ciudad Juárez, no México, que tem sido palco de sangrentas guerras entre bandos de narcotraficantes com a ambição de monopolizar o tráfico de cocaína para os Estados Unidos. O coronel que não consegue pacificar Caracas faz apelos públicos à guerra contra a vizinha Colômbia, institui "milícias populares" segundo o modelo cubano e impõe um nova Lei de Incorporação Militar que estabelece o dever de cumprir 12 meses de serviço militar a todos os cidadãos do seu país entre os 18 e os 60 anos. Um estado militarizado, armado até aos dentes nas zonas fronteiriças que não consegue impor patamares mínimos de segurança dentro das suas próprias fronteiras. Um estado que não consegue abastecer devidamente os seus cidadãos de bens essenciais, como luz e água, apesar de ser o sexto maior produtor mundial de petróleo.

Indiferente à crise social, indiferente à crise económica, Chávez sonha ser um novo Simón Bolívar. Com uma considerável diferença de escala: enquanto Bolívar libertou a América espanhola no início do século XIX, ele quer "libertar" o mundo neste início do século XXI, mobilizando a "esquerda verdadeira" contra o "capitalismo" e o "imperalismo", que lhe compram o petróleo. Segundo as previsões, 2009 deverá chegar ao fim com um número superior a três mil homicídios na capital venezuelana - só num fim de semana de Outubro registaram-se ali 65 mortes violentas.

"Andar pela bela cidade de Caracas dá medo", escreveu Pablo López Guelli, em reportagem publicada no portal de notícias da Globo. Um retrato fidedigno do "socialismo do século XXI", prestes a alastrar aos cinco continentes sob os alvores da V Internacional. A História repete-se, como ensinava Marx: primeiro como tragédia, depois como farsa. Com Chávez, chegámos à fase da farsa em todo o seu universal esplendor.

Socialismo nupcial

por Pedro Correia, em 03.08.09

 

O PS bem podia ter pedido ao Presidente da Bolívia, aliado indissolúvel de Hugo Chávez,  uma ajudinha para a elaboração do seu programa eleitoral. Em vez do cheque mixuruco de duzentos euros para "incentivar a natalidade", é bem preferível a medida já anunciada por Evo Morales: "A todo o casal que se casa o Estado tem que dar uma casa." Isto sim, é o verdadeiro socialismo. Mal soam os primeiros acordes da marcha nupcial, ganha-se o acesso à chave da residência. É fácil (para quem promete), é barato (para quem recebe) e dá milhões (aos fabricantes de tijolos e às empresas de construção civil). Desde que no fim não apareça um daqueles chatos neoliberais a perguntar quem é que paga a factura.


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    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D