Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O regresso da censura

por Paulo Sousa, em 02.07.20

A liberdade de expressão é um tema maior da nossa sociedade.

Por achar que este blog é, além de outras coisas, um pequeno nicho virtual no altar da liberdade de expressão, o tema que aqui trago não poderia passar em claro.

O recente anúncio por parte do governo de que vai monitorizar o discurso de ódio na internet, não é mais do que o pisar de uma linha que nunca tinha sido assumida pelos governantes do Portugal europeu.

Podíamos começar por lhes pedir uma definição do que é um discurso de ódio.

Estará o discurso de ódio contra o nazismo incluído no critério dos censores? E contra os pedófilos? E contra os traficantes de pessoas? E como ficamos em relação aos violadores?

Será que esta ferramenta de defesa da opinião pública também se poderá aplicar ao mundo do futebol?

E porquê apenas na internet? O discurso de ódio nos cafés não agride também a mesma opinião pública que o governo pretende defender e acha incapaz de avaliar por si o que vê e ouve?

O ódio é um capricho que, pela diminuição da capacidade de análise e pela perda de enfoque que causa, enfraquece quem o sente. Também por isso não é ódio que sinto pelos aspirantes a censores do governo do socialista António Costa, mas sim e apenas desprezo. Será que o discurso de desprezo ainda passa nas malhas dos autopromovidos avaliadores dos discursos de sentimentos dos outros?

 

Há depois ainda um outro detalhe que me faz rir desses bananas.

Hoje a plataforma das matrículas escolares bloqueou pelo excesso de tráfego, tal e qual como acontece com os servidores da AT nos dias de “entrega” das declarações de IRS, e tal e qual como aconteceu com o SIRESP no fatídico dia do incêndio do Pedrogão.

O aumento de capacidade de resposta para todos estes casos estava previsto nos planos do governo, mas certamente devido a alguma cativação, por esquecimento ou então porque não calhou, acabou por não ser feito.

Será esse exímio e frio rigor que os odiosos propagadores do ódio cá do burgo terão de enfrentar. No dia em que o programa de censura arrancar, o servidor vai estar empacado porque há um conflito no sistema operativo, no dia seguinte serão as licenças, e depois disso será uma placa gráfica que vai queimar e alguém vai ter de telefonar a um primo que, tipo, percebe bué disso. O técnico vai ter que usar o seu telemóvel pessoal porque ainda estão a começar e as comunicações ainda não estão a 100%. O tipo que sabe fazer ligações de fibra óptica está com febre e telefonou ao patrão que, depois de o mandar para casa, desinfectou o telemóvel e lavou as mãos.

E enquanto esta novela segue, os odiosos propagadores do ódio continuam a pulverizar ódio nas contas das redes sociais dos frágeis e indefesos portugueses, incapazes que são de avaliar a informação a que têm acesso.

Se a ministra conhecesse Portugal saberia bem que não nos levamos a sério e que por isso os contratempos serão muitos maiores do que estes - não fosse a ficção sempre ultrapassada pela realidade. Os resultados serão apenas mais uns empregos para uns voyeuristas encartados que, incapazes de purgar o ódio da natureza humana, ficarão para a história como a serôdia censura socialista do início do sec XXI.

"Holy fuck!"

por Paulo Sousa, em 21.06.20

Em primeiro lugar tenho de explicar que usei para o título deste post as palavras com que no passado dia 16 o JN iniciou um artigo, no qual um doente nos EUA com 70 anos foi tratado durante 62 dias contra a doença do coronavírus e cuja conta do hospital ultrapassou os 1,1 milhões de dólares.

insolito.png

Antes de dizer que este valor foi coberto pelo sistema Medicare o “jornalista” deu largas à sua interpretação da realidade dizendo que o paciente e os seus amigos “reflectem perplexos e banzados sobre o bizarro sistema de saúde dos Estados Unidos da América que, ao contrário da Europa e da maioria do mundo civilizado, não possui um Serviço Nacional de Saúde, como existe há décadas em Portugal, que proteja os seus contribuintes, mas está antes orientado em sistemas de seguros privados que não existem para tratar da saúde como um bem universal e um direito primordial, mas para dar lucros abissais numa lógica puramente capitalista que rende milhões às grandes corporações.

Ainda acrescenta que o sistema Medicare foi “criado na presidência de Barack Obama e que o actual presidente republicano Donald Trump ainda não conseguiu aniquilar.

O facto de o referido sistema Medicare ter sido fundado em 1966 é um detalhe que estragaria a narrativa e talvez por isso não é referido na “notícia”.

Estamos perante uma desonestidade que confirma o grau da lacaização de alguns jornalistas ao poder que, numa atitude bem socialista, preferem o lado confortável da actualidade ao lado certo da história.

 

Este assunto foi pescado no Insurgente.

Tá tudo bem

por Paulo Sousa, em 22.05.20

A indiferença com que o país lidou com a recente atribuição de subsídios à comunicação social é uma das características do povo do nosso país. Foi exactamente essa indiferença que explica os 48 anos de ditadura passados sem grandes sobressaltos públicos, assim como a falta de comoção gerada por muitos outros acontecimentos bem mais recentes. Cá é assim, mas podia ser bem pior. Vamos andando, como é vulgar responder a quem nos pergunta se está tudo bem. Como se alguma vez fosse possível estar tudo bem. Claro que nunca está tudo bem, mas por automatismo anuímos dizendo que cá vamos andando, devagarinho, com a cabeça entre as orelhas. Ser português é também ir andando, mesmo sem saber bem para onde.

São estas águas mornas que propiciam os equilíbrios mornos, aqueles em que mais facilmente se limam as esquinas do que se vergam hábitos. Mesmo que as esquinas sejam as dos princípios nobres da república e das democracias liberais. Não há impossíveis, como bem resumiu António Costa. Tudo é negociável, e por isso tudo tem um preço, até a imprensa.

Pouco a pouco, orçamento após orçamento, ano após ano, pagamento de favor após pagamento de favor, vamos baixando a fasquia da já débil decência do nosso regime.

A forma como estes pagamentos de favores foram apresentados, a sua falta de clareza e de critério assumido, representa apenas mais um degrau que se desceu. Sem qualquer sobressalto ou comoção pública. E isto, embora triste, é normal.

Generosidade com o dinheiro dos outros

por Paulo Sousa, em 16.04.20

Era uma vez uma superfície comercial que vendia gás. Vamos simplificar a história e por isso só vendia uma das várias marcas que operam no mercado.

Comprava cada bilha de gás butano a 21€, valor sobre o qual ainda pagava o respectivo IVA de 23%, pagando assim por cada bilha de gás 25,83€.

Essa superfície comercial adoptou há vários anos uma política de preços em que estabelece como margem comercial bruta o valor de 2,50€ por cada garrafa. Em resultado disso o preço pago pelo cliente é de 28,33€, arredondando por defeito o valor final para 28€, de forma a facilitar os trocos.

Sempre que a marca de gás com que trabalha entende que deve ajustar os preços de forma a acompanhar os respectivos custos ou concorrência, esta superfície comercial simplesmente repete a fórmula habitual dos 2,50€ de margem comercial, e depois disso arredonda o preço por defeito.

Entretanto surgiu um vírus chinês que quase faz parar o mundo. O governo entendeu que devia fazer caridade e, como não tinha nada para dar, lembrou-se de oferecer o que era dos outros. Vai daí lembrou-se de estabelecer como preço máximo o valor de 22€ por garrafa. Como a clareza na comunicação elimina a hipótese de ajustes de discurso futuros, não informou se esse valor incluía o IVA ou não. Mas perante tal imposição de preço, com ou sem IVA incluído, o referido estabelecimento sabe que se encaixar a caridade que o governo definiu, estará a violar as leis europeias da concorrência que punem a venda abaixo do preço de custo. Por isso, até que a situação seja clarificada, o mais seguro será deixar de vender gás.

Assim, os clientes que acreditarem na caridade do governo terão de ir procurar gás a outro lado. Se todos os distribuidores de gás decidirem o mesmo, deixará da haver gás no mercado e assim, sem conseguirem comprar gás, os cerca de três milhões de famílias em causa irão efectivamente beneficiar de uma redução das suas despesas fixas.

Uma "revolução" falhada e falida

por Pedro Correia, em 09.03.20

ORTEGA-Y-MADURO.jpg

Maduro com Ortega: "socialismo do século XXI" gera opressão e pobreza

 

Até ao início do século XXI, o metropolitano de Caracas era apontado como símbolo de qualidade nos sistemas de transportes públicos da América Latina. Hoje está decrépito, por absoluta falta de manutenção, como quase todos os equipamentos públicos na Venezuela, excepto os que se relacionam com as forças armadas. Como ontem salientava o El País, «toda a gente entra sem pagar porque não há bilhetes, pois o papel em que se imprimem custa mais caro do que o dinheiro com que se pagam».

O metro da capital é um perfeito símbolo de um regime à beira do colapso: o do chamado "socialismo do século XXI", instaurado em 1999 pelo falecido coronel Hugo Chávez e prosseguido desde 2013 pelo seu "filho dilecto", um antigo motorista de autocarros que governa encerrado numa cave blindada do Palácio de Miraflores, apoiado em guardas pretorianos armados até aos dentes, postos à sua disposição pela tirania cubana. 

Tirando o PCP, por obediência cega ao quadro mental herdado da Guerra Fria, hoje quase não se detecta em Portugal um apoiante da proto-ditadura venezuelana. Mas há poucos anos não faltava por aí - nos meios políticos e académicos - quem entoasse hossanas ao "socialismo bolivariano", apontando-o como modelo a seguir. Como noutros tempos fizeram com a ditadura líbia de Muamar Kadafi, o "socialismo" argelino ou os regimes despóticos implantados nas antigas colónias portuguesas em África. Para estas luminárias, tudo servia de meio para denegrir a democracia representativa de matriz liberal. O exemplo da Venezuela foi apenas o mais recente e talvez o mais trágico.

 

O que geraram Chávez e Maduro? Fome endémica, desabastecimento, desnutrição, falta de assistência sanitária, a redução da esperança de vida, a paralisia permanente de estruturas essenciais do país, a repressão das liberdades, a perseguição de opositores, o silenciamento de jornalistas incómodos, a depreciação total da moeda corrente, a maior taxa de inflação do mundo. 

É uma "revolução" falhada e falida no país mais rico em recursos da América Latina. A produção de petróleo caiu para metade nestas duas décadas devido à absoluta carência de técnicos especializados e de renovação das estruturas industriais. Nos últimos cinco anos, o PIB venezuelano caiu 65%. O bolívar perdeu todo o valor e o dólar americano circula como moeda extra-oficial de emergência. 

Em Caracas, a capital mais violenta do planeta, ninguém pode andar em segurança assim que cai a noite. A água e a luz faltam a todo o momento. Não há medicamentos em 88% dos hospitais. O absentismo escolar dispara: tanto alunos como professores passam grande parte do dia em busca de comida. Em 2017, cada venezuelano perdeu, em média, 11 quilos de peso. 

O êxodo da população é impressionante: mais de cinco milhões de habitantes já abandonaram o país e a ONU prevê que a cifra dos seis milhões seja ultrapassada este ano - superando assim o número dos que fogem da guerra civil na Síria. 

 

Está cheio de razão o ex-presidente do Governo espanhol Felipe González, em recente entrevista à agência EFE: a "revolução" em países como a Venezuela ou a Nicarágua (do ditador Daniel Ortega, outrora saudado como libertador em Manágua) conduziu à "roubolução", com esquemas de corrupção impune, o desvio fraudulento de milhares de milhões de dólares, a destruição imparável do tecido económico e o alastramento da pobreza endémica.

Para González, o proclamado "socialismo do século XXI" - que reproduz experiências falhadas ao longo de todo o século XX - mais não é do que uma «utopia regressiva» que condena as respectivas populações à miséria. Para combater estes regimes, o antigo líder da social-democracia espanhola preconiza uma «revolução de pequenos passos», sempre destinada a fomentar a igualdade de oportunidades e gerar desenvolvimento económico, sem complacência de qualquer espécie perante novas tiranias. «Sem democracia, estaremos à mercê de tentações despóticas - e tanto me faz que sejam da direita como da esquerda. Porque um ditador é um ditador.»

Esta clareza de pensamento é fundamental para separar águas. Antes que novos charlatães apareçam por aí a apregoar modelos falhados de revoluções falidas. 

Antes falidos que competitivos

por Paulo Sousa, em 27.01.20

Segundo dados das Finanças, cerca de 30.000 residentes beneficiam do regime de Residentes Não Habituais o que na prática equivale a estarem isentos de IRS. Incluem-se neste regime principalmente reformados de Estados Membros da UE, nomeadamente Finlândia, Suécia e França, assim como emigrantes portugueses que regressaram à pátria.

Esta situação tem causado algum incómodo aos países de origem pelo facto deste regime ser fiscalmente compensador para quem decide passar a reforma em Portugal, verificando-se assim uma perda de receita fiscal considerável por parte dos seus países de origem.

Podemos dizer que o clima ameno e a amabilidade dos portugueses ajuda neste processo, mas no fim de contas estamos a falar apenas do que será o único aspecto em que se pode dizer que o nosso enquadramento fiscal é competitivo. É como se estivessemos para os reformados estrangeiros como a Irlanda e a Holanda estão para as empresas.

Tudo isto tornou-se novamente assunto porque o governo pretende agora passar a cobrar 10% de IRS nestes casos. Não faltará quem aplauda tal medida. Se um português ganhasse o que ganha a classe média baixa na Escandinávia teria de pagar 40% de IRS, porque é que raio eles deverão estar isentos?

Há no entanto algo que convém não esquecer. A isenção fiscal destes reformados restringe-se ao IRS. Como têm casa - pagam IMI – almoçam, jantam, consomem electricidade e fazem compras - pagam IVA - têm veículo(s) próprio(s) - pagam IA e IVA sobre o IA, e IUC - deslocam-se pelo país - pagam IPP – e por aí a fora.

Isentos desta imensidão de impostos, taxas e taxinhas estão apenas os reformados escandinavos que não vivem em Portugal.

O governo podia apostar na divulgação noutros países onde a nossa fiscalidade é competitiva – esta verdadeira avis rara fiscal – mas os socialistas preferem descobrir, por tentativas, qual o ponto de equilíbrio destes contribuintes. Como sempre acontece nestas coisas, após os 10% iniciais outros aumentos se seguirão até chegaremos ao ponto em que haverá quem perca a paciência e mude para outras paragens, ficando então efectivamente isento de impostos portugueses.

O debate em curso no PS

por Pedro Correia, em 16.07.18

800[1].jpg

  

O maior debate ideológico neste momento na política portuguesa ocorre no interior do PS, já a apontar para um período posterior à actual liderança. Com uma clivagem cada vez mais evidente entre a sua ala maioritária, europeísta e firme defensora dos compromissos de Portugal enquanto membro das instituições comunitárias, e uma ala que anda seduzida por um certo populismo eurocéptico, de braço dado com forças partidárias que nunca advogaram a construção europeia e não escondem a aversão à união monetária.

Isto ocorre num período histórico de clara regressão da social-democracia clássica à escala continental. Socialistas e sociais-democratas estão em recuo acelerado em quase toda a Europa - Alemanha, Holanda, Dinamarca, Finlândia, Áustria, Bélgica. Na Itália, em França e na Grécia os partidos socialistas eclipsaram-se. Tiveram de mudar de nome e de configuração para não desaparecerem de vez.

Na Alemanha, a última eleição federal ganha pelo SPD foi em 2002.

No Reino Unido, as últimas legislativas com triunfo eleitoral do Partido Trabalhista datam de 2005.

Em Espanha, o PSOE não vence uma eleição parlamentar desde 2008.

Este pano de fundo torna ainda mais interessante o debate em curso entre os socialistas cá do burgo. Enquanto uns sonham com a formação de um vasto bloco europeísta liderado pelo PS a partir do centro, que inclua os despojos futuros do cada vez mais fragmentado PSD, outros imaginam um partido federador e congregador das esquerdas eurocépticas, capaz de pescar em águas populistas e liderado a prazo por um candidato a Corbyn português. Como observa Vasco Pulido Valente, «a nova geração do PS é indistinguível da geração do Bloco de Esquerda: têm a mesma educação, o mesmo percurso social, vestem-se da mesma maneira, gostam das mesmas coisas».

Tempos interessantes, a que convém dar atenção.

"Um mar de ruínas"

por Pedro Correia, em 12.06.17

cover-r4x3w1000-589080e3dfcf2-Hollande%20et%20Hamo

 François Hollande e Benoit Hamon

 

 

«Nada grandioso será alguma vez conseguido sem grandes homens.»

Charles de Gaulle

 

Lembram-se de François Hollande, o indivíduo que segundo alguns arautos lusos proclamavam ruidosamente há cinco anos, iria  revitalizar a débil esquerda europeia?

Hollande, bem avisado, decidiu não se recandidatar ao Eliseu: à beira do fim do mandato inaugurado em 2012, a sua taxa de popularidade entre os franceses era de longe a mais baixa da V República, fundada em 1958 pelo general De Gaulle. O delfinato possível do chefe do Estado cessante foi assegurado pelo medíocre Benoit Hamon, sufragado pelas "primárias" - o último grito da moda Outono-Inverno da saison política parisiense - mas arrasado nas urnas quando deixou de se jogar a feijões e houve eleições a sério: recolheu apenas 6,3% dos votos, ficando na quinta posição entre os candidados à corrida presidencial.

A primeira volta das legislativas francesas acaba de traçar um retrato fidedigno do Partido Socialista Francês, avaliando-se assim o verdadeiro legado político de Hollande: entre 7% e 10%. "Um mar de ruínas", na justa definição do Libération. Com o Presidente Emmanuel Macron a vencer, como se esperava, por intermédio do seu novo partido pós-ideológico, República em Marcha - criado só há 14 meses. Numa prova de que em democracia tudo pode transformar-se.

Há umas semanas, o ex-primeiro-ministro Manuel Valls causou imenso escândalo ao anunciar que o PSF estava morto. Tinha razão, como esta catástrofe eleitoral confirma. Resta aos socialistas franceses encerrar para balanço, imitando o que François Mitterrand fez em 1969, na ressaca do Maio de 68, ao mandar sepultar a defunta SFIO [Secção Francesa da Internacional Operária] num congresso do qual emergiu o Partido Socialista, agora falecido aos 48 anos. Paix à son âme.

O aparatoso declínio do PSOE

por Pedro Correia, em 25.10.16

1082696[1].jpg

 Um partido em sério risco de desmembramento

 

«Quando Marx pode mais que as hormonas, não há nada a fazer»

Julián Marías

 

1

O Partido Socialista Operário Espanhol, reunindo de emergência o seu órgão máximo entre congressos, decidiu no sábado viabilizar um novo Executivo do Partido Popular, liderado por Mariano Rajoy, com um “mandato imperativo” aos seus deputados, que deverão abster-se na votação de investidura.

Com esta decisão do seu Comité Federal – assumida por 139 votos favoráveis e 96 contra – o PSOE demonstrou uma responsabilidade institucional que há muito tardava, rompendo enfim um bloqueio de 300 dias sem formação de governo após duas eleições legislativas em que o PP conseguiu triunfar, embora sem maioria absoluta - a 20 de Dezembro de 2015 e a 26 de Junho deste ano.

Um bloqueio que se devia à intransigência do ex-líder socialista, Pedro Sánchez, apesar de o seu partido contar com apenas 85 deputados no Parlamento espanhol – menos 52 do que os 137 do Partido Popular. Uma diferença inultrapassável, fosse qual fosse a aritmética política. E que transformou em utopia o cenário de umas terceiras legislativas, que deviam ocorrer em vésperas do Natal.

 

2

Desde que perdeu a eleição parlamentar de 2011, após a fracassada governação de Rodríguez Zapatero que quase conduziu Espanha a um resgate financeiro de emergência idêntico ao ocorrido em Portugal, o PSOE foi resvalando até ao limiar da luta pela sobrevivência política em que se encontra agora.

A viabilização de um novo Governo de centro-direita, mais do que um tardio gesto de responsabilidade, aliás avalizado pela maioria dos eleitores socialistas, constitui portanto uma reacção instintiva à hecatombe que se avizinhava: uma sondagem muito recente divulgada pelo jornal El País, historicamente afim aos socialistas, atribuía uma votação quase irrisória ao PSOE, ultrapassado largamente à direita pelo PP e à esquerda pelo Podemos – amálgama de organizações da esquerda radical, que em diversas zonas do país mantém estreitos vínculos às forças nacionalistas e separatistas.

 

image[1].jpg

 Pedro Sánchez: pura incompetência política

 

3

Fundado pelo sindicalista Pablo Iglesias em 1879, o PSOE é um dos mais antigos partidos europeus. E o único que resta dos que firmaram os pactos de transição em 1977 e 1978 que permitiram a refundação da democracia espanhola após quatro décadas de ditadura. A UCD de Adolfo Suárez dissolveu-se há 30 anos, a Aliança Popular de Fraga Iribarne transfigurou-se no final da década de 80 no actual PP e o Partido Comunista de Santiago Carrillo tornou-se uma curiosidade microscópica, sem qualquer relevância na Espanha contemporânea.

Os socialistas assumiram-se nestes 40 anos como uma força pendular na sociedade espanhola, tendo exercido funções governativas durante mais tempo do que os restantes partidos somados (UCD e PP). O seu líder mais carismático, Felipe González, rompeu com a orientação marxista num congresso extraordinário em 1979 e já enquanto primeiro-ministro, em 1986, desafiou a ala esquerdista do partido ao fazer ingressar o país na NATO.

A moderação de González fez alargar a base sociológica do PSOE, tornando-o um partido com verdadeira implantação nacional, que chegou a ocupar a presidência da maioria dos executivos autonómicos - incluindo a Catalunha, com José Montilla, entre 2006 e 2010, e o País Basco, com Patxi López, de 2009 a 2012.

Tudo isso mudou. Hoje está reduzido a dois feudos regionais: Andaluzia e Extremadura.

Em Madrid tornou-se a quarta força política. Em Barcelona, a quinta.

 

4

Sánchez é um caso clamoroso de incompetência política que apenas pôde manter-se ao leme da Calle Ferraz devido à manifesta cobardia da maior parte dos quadros socialistas – incluindo o que resta do seu baronato regional – que só despertaram ao ver o partido quase reduzido a escombros. Incapazes de fazer frente ao líder, preferiram desgastá-lo ao longo destes meses com relatos de "fontes anónimas" impressos nos jornais.

Em apenas dois anos, o medíocre Sánchez perdeu todas as eleições, por esta ordem cronológica: municipais, regionais, autonómicas na Catalunha, legislativas de 2015 e 2016.

As duas derrotas mais recentes ocorreram a 25 de Setembro nas autonómicas da Galiza e do País Basco. No primeiro caso, o PSOE perdeu quase 45 mil votos, baixando de 18 para 14 deputados no parlamento regional, dominado por uma inequívoca maioria absoluta do PP; no segundo, viu fugir-lhe cerca de 86 mil votos, e desceu de 16 para nove deputados, com o Partido Nacionalista Basco saindo triunfador das urnas.

Nem assim renunciou ao cargo. De desastre em desastre, preparava-se para levar o partido ao naufrágio maior: a terceira eleição legislativa em doze meses, que tornaria ainda mais irrelevante o PSOE na sua estonteada fuga para a frente.

As bases, representadas no Comité Federal, acabam de dizer-lhe: basta. Aconteceu aquilo que previ aqui, há quase três meses: “Sánchez sairá da pior maneira, empurrado pelos barões regionais do partido, com Susana Díaz à cabeça. Já recebeu um solene aviso dos seus pares, mais sintonizados do que ele com a vox populi: não haverá terceiras legislativas. Tal cenário seria catastrófico para os socialistas espanhóis, que vão recuando a cada novo teste eleitoral.”

 

juan-negrin[1].jpg

Juan Negrín e Indalecio Prieto nos anos 30: as lições da história 

 

5

É triste verificar que alguns líderes políticos só abandonam a cena ao serem empurrados, quando a ética da responsabilidade lhes impunha a demissão ao fim de duas ou três derrotas. No caso de Sánchez foi preciso esperar por sete para o empurrão surgir.

Empurrado, mas não convencido. Alguns dos seus apaniguados garantem que violará a disciplina de voto no Congresso dos Deputados, onde mantém assento: incapaz de aceitar a regra da maioria, ameaça votar não. E não tardou a tuitar esta mensagem: “Rapidamente chegará o momento em que a militância recuperará e reconstruirá o seu PSOE.”

Já afastado, continua a comportar-se como se ainda aspirasse disputar o poder a Rajoy num escrutínio do qual sairia inevitavelmente um PSOE ainda mais enfraquecido, transformado em parceiro menor da extrema-esquerda. No fundo, o sonho da direita espanhola.

 

6

Instala-se agora o fantasma do fraccionismo no partido, com a facção moderada a enfrentar aqueles que defendem uma aproximação dos socialistas ao Podemos. Nada de novo na história do partido, que durante a guerra civil (1936-39) assistiu ao choque das tendências internas – nomeadamente entre os reformistas como Indalecio Prieto e os ultra-radicais como Largo Caballero, auto-intitulado “Lenine espanhol”, contando estes com aliados como o titubeante Juan Negrín, apanhado entre dois fogos.

Hoje novamente fragmentado em inúmeros feudos internos, sem uma liderança firme, dividido entre o constitucionalismo que lhe serviu de bandeira nos anos em que foi mais forte e a pulsão populista proporcionada pelo ar dos tempos, com ocasionais flirts separatistas na Catalunha, o PSOE luta por sobreviver enquanto grande partido nacional. Com González, chegou aos 202 parlamentares. No período pós-Zapatero foi baixando sucessivamente: 110 deputados em 2011, 90 em 2015, 85 este ano.

A nível europeu, só o quase desaparecido PASOK grego se afundou tanto em tão pouco tempo.

A incapacidade de aprender as lições da história origina erros trágicos na política, algo que o aparatoso declínio dos socialistas espanhóis bem demonstra. Como se estivesse escrito nas estrelas: os prenúncios eram evidentes e nenhuma advertência foi escutada em tempo útil.

As 35 horas são apenas o primeiro passo...

por José António Abreu, em 27.04.16

Venezuela à espera da chuva põe função pública a trabalhar dois dias por semana.

Ou a prova de como, sem as grilhetas da União Europeia, do euro ou da inexistência de petróleo, um dos paraísos do socialismo está cada vez melhor.

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 08.10.15

«O parco resultado alcançado pelo PS nas eleições do passado domingo constitui mais uma manifestação da crise que percorre a família social-democrata europeia.»

Francisco Assis, no Público

Consumo

por José António Abreu, em 16.12.14

Em França, o plano de reformas do ministro da Economia está debaixo de fogo. Como seria de esperar, entre os mais críticos contam-se inúmeros socialistas. Martine Aubry, presidente da Câmara de Lille, escreveu um artigo no Le Monde atacando a ideia de permitir a abertura do comércio durante 12 domingos por ano, em vez dos actuais 5. Pergunta ela: Queremos fazer do consumo - ainda mais do que hoje - o alfa e ómega da nossa sociedade? A esquerda não tem mais a propor como organização da vida do que o passeio dominical ao centro comercial e a acumulação de bens de grande consumo? (Tradução minha.)

É sempre enternecedor ver gente defendendo a imposição de comportamentos saudáveis, protegendo as massas da irresistível pulsão para a mediocridade que, sem regras definidas por espíritos mais elevados, as tende a dominar. Aubry talvez devesse perguntar aos 10% de desempregados franceses se preferem continuar nessa condição ou obter uma hipótese extra de arranjar emprego, ainda que correndo o risco de ele abranger alguns domingos por ano, mas, para paladinos do mundo como ele devia ser, esta é uma questão que nem se coloca. Para estas pessoas, o desemprego não se combate criando empregos imperfeitos. (Que eu não conheça outro género só pode constituir uma falha na minha experiência de vida.) E se é verdade que um aumento de 7 domingos por ano não diminuiria significativamente a taxa de desemprego, suponho que permitir o trabalho em 22, 32, 42 ou - gasp - 52 seria ainda mais inaceitável.

Seja como for, a presunção nem é o aspecto mais curioso de tudo isto (já se sabe: os socialistas adoram tomar decisões pelos outros). O mais curioso é haver gente (quase invariavelmente de esquerda, quase invariavelmente com capacidade de consumo muito acima da média) que contesta esta terrível sociedade consumista mas também exige o estímulo da economia através de políticas de incentivo ao consumo. Decididamente, a lógica é uma batata. Subsidiada pela PAC.

Pós-eleitoral (6)

por Pedro Correia, em 29.05.14

 

Olhar para os 31,5% do PS contra a direita unida (PSD+CDS) no escrutínio para o Parlamento Europeu e ver neles um sinal imperioso para fazer rolar cabeças no partido vencedor é passar ao lado do essencial. Além de injusto para António José Seguro: ele foi um dos dirigentes socialistas que mais se aguentaram em toda a Europa, obtendo o terceiro melhor resultado para a sua família política nos Estados da eurozona.

Encaremos os factos: a esquerda socialista venceu eleições em apenas sete dos 28 países que integram a União Europeia: Eslováquia, Itália, Lituânia, Malta, Portugal, Roménia e Suécia.

Só em Malta, Itália e Roménia a votação nos socialistas foi superior à do PS.

 

Vejamos os resultados:

Alemanha - Partido Social Democrata: 27,3%

Áustria - Partido Socialista Austríaco: 24%

Bélgica - Dois partidos socialistas (francófono e flamengo): 19%

Bulgária - Partido socialista KB: 18,5%

Chipre - Partido Democrático: 10,8%

Croácia - Partido Social Democrata: 30%

Dinamarca - Partido Social Democrata: 19,1%

Eslováquia - Partido social-democrata SMER: 24%

Eslovénia - Partido Social Democrata: 8%

Espanha - Partido Socialista Operário Espanhol: 23%

Estónia - Partido Social-Democrata: 13,6%

Finlândia - Partido Social Democrata: 12,5%

França - Partido Socialista: 14%

Grécia - Oliveira (coligação de PASOK e aliados): 8%

Holanda - Partido Trabalhista: 9,4%

Hungria - Partido Socialista Húngaro (MSZP): 10,9%

Irlanda - Partido Trabalhista: 5,3%

Itália - Partido Democrático: 40,8%

Letónia - Partido Social Democrata: 13%

Lituânia - Partido Social Democrático da Lituânia: 17,3%

Luxemburgo - Partido Operário Socialista Luxemburguês: 21,6%

Malta - Partido Trabalhista: 53%

Polónia - Aliança Democrática de Esquerda: 9,4%

Portugal - Partido Socialista: 31,5%

Reino Unido - Partido Trabalhista: 25,4%

República Checa - Partido Social Democrata Checo: 14,2%

Roménia - Partido Social Democrata: 37,6%

Suécia - Partido Social Democrata: 24,5%

 

 

Em pano de fundo, bem expresso nestes números, está um modelo político em profunda crise: a social-democracia europeia. O PS de François Hollande fica reduzido a quase metade da percentagem da Frente Nacional. Milleband, o wonder boy do trabalhismo pós-Blair, queda-se pelos 25% no Reino Unido. O outrora poderoso PSOE afunda-se no pior resultado de sempre em Espanha, sem nada capitalizar de dois anos de feroz oposição ao Governo conservador de Rajoy. Até o SPD alemão não ultrapassa uns exíguos 27%.

Como escreveu Ana Sá Lopes no jornal i, numa excelente análise às europeias, "a social-democracia não serviu para nada durante a grande recessão, não se constituiu como alternativa a nada e o falhanço de Hollande é só o mais espectacular de todos".

 

Poderia a lista encabeçada por Francisco Assis ter feito melhor num cenário de dispersão de votos, potenciador das candidaturas que se esgotam no protesto?

Dificilmente.
É certo que Ferro Rodrigues alcançou 44% nas europeias de 2004. Mas os tempos eram outros, à esquerda e à direita. Alguém imagina um Marinho Pinto emergir então com a força que agora obteve? Alguém supunha que um grupo inorgânico como o Podemos, fenómeno emanado das redes sociais, surgisse como quarta força mais votada em Espanha e terceira em Madrid, como agora aconteceu? E em qualquer outro contexto Beppe Grillo chegaria a obter um quarto dos votos em Itália?


Somos sebastianistas: pensamos sempre que um indivíduo faz a diferença. Mas neste caso não faz. O problema é mais grave e mais fundo: as duas principais famílias políticas europeias estão gravemente feridas, talvez de forma irremediável, enquanto os egoísmos nacionais regressam em força com a sua oratória guerreira.

As forças extremistas e eurófobas ganham passo à medida que as áreas políticas centrais vêem o seu espaço diminuir drasticamente. Em Espanha, pela primeira vez, os dois principais partidos somados já totalizam menos de 50% dos votos expressos.

A cura, se existir, não virá de nenhum homem providencial e "carismático", de toga messiânica, dançando um De Profundis em valsa lenta.

Merkel utilizava esquis da Alemanha de Leste quando teve o acidente.

A Venezuela enfrenta um problema de escassez severa de papel higiénico. Lida assim, sem o necessário enquadramento, a notícia cheira mal. Felizmente, o poder instalado em Caracas, com a legitimidade reforçada de ter sido democraticamente eleito nas urnas e de Nicolas Maduro ter sido declarado vencedor, ainda antes do acto eleitoral, pelo defunto Hugo Chávez que apareceu sob a forma de um passarinho para lhe anunciar a vitória, já apresentou uma explicação para a situação. Note-se, entretanto, que estas aparições de pássaros, passarinhos, cucos e outras aves de arribação são muito frequentes em países socialistas. Não há muito tempo, creio recordar, um grou voou três vezes em redor da estátua de Kim-Jong-il durante as cerimónias fúnebres do querido líder. E, ainda a propósito, será oportuno notar que a relação do comunismo/socialismo com o papel higiénico é, por assim dizer, algo enrolada, circunstância que também os cubanos têm tido oportunidade de constatar. De qualquer forma, o que importa é que o governo de Nicolas Maduro tem, como já referi,  uma explicação para esta situação incómoda.  Pelo visto, tudo está relacionado com o facto de os venezuelanos comerem agora muito mais, graças aos benefícios da revolução socialista. E como, em princípio, tudo o que entra sai, não é difícil perceber a origem do problema. Digo que temos neste caso, quando menos, fortes indícios de currelação entre as variáveis. É claro que a oposição venezuelana foi lesta a pôr em causa o argumento mas ocorre-me que isso se possa dever..., enfim, a guerras intestinas. Em todo o caso, a situação não deixa de ter a sua ironia. Marx identificou o problema capitalista do excesso de produção. É curioso notar que nos sistemas comunistas/socialistas esse problema também parece existir. O output é que é diferente. Para além disso, no caso do capitalismo, o excesso de produção provoca uma crise. No do comunismo/socialismo o que temos é um desarranjo.  Aqui chegados, creio que existem condições para identificarmos alguns traços comuns dos países comunistas/socialistas. Desde logo, temos sinais evidentes de recorrência de aparições de passarada. Depois, constata-se que o comunismo/socialismo acaba, mais cedo ou mais tarde, por dar...hmmm... o tal output. E que essa circunstância afecta muito o stock de papel higiénico disponível. Por último, mesmo que tomemos por boa a garantia de Jerónimo de Sousa de que os comunistas não comem criancinhas ao pequeno almoço, é justo reconhecer que continuam a ser muito dados a histórias infantis e a argumentos de...hmmm... output.

Menos um socialista a governar

por Pedro Correia, em 03.02.11

A queda de Mubarak é inevitável. E nem é preciso consultar os astros. Basta recorrer a um barómetro ainda mais infalível: a Internacional Socialista acaba de expulsar das suas fileiras o partido do ditador egípcio.

Desempregados, rumo ao socialismo

por Pedro Correia, em 15.12.10

 

Nós, portugueses, contentamo-nos com a retórica. Ouvimos um candidato presidencial que há mais de 30 anos é funcionário de um partido político falar em nome dos trabalhadores e achamos que alguém com um discurso destes só pode ser um profundo conhecedor do mundo do trabalho. Escutamos um primeiro-ministro que se diz socialista acusar a oposição à direita de pretender facilitar os despedimentos e tomamos estas declarações pelo seu valor facial, absolvendo o referido governante de todo o pecado contra o mundo laboral. Aplaudimos uma Constituição que desde 1976 nos proclama a "caminho de uma sociedade socialista" e convencemo-nos de que isto funciona como uma espécie de varinha mágica capaz de nos pôr na rota do progresso.

Pois o mesmo primeiro-ministro que ainda há três meses clamava contra a fúria "liberalizadora" da oposição, intitulando-se protector dos trabalhadores, é o mesmo que agora quer estabelecer um tecto máximo para o valor das indemnizações e compensações pagas aos trabalhadores em caso de despedimento", utilizando o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa como seu porta-voz.

Mas podemos estar descansados. O preâmbulo da Constituição da República vai permanecer como está. Continuamos - com 700 mil desempregados actuais e indemnizações mais baixas aos desempregados futuros - a "caminho de uma sociedade socialista". Seja lá o que isso for.

Caracas: muito crime e pouca luz

por Pedro Correia, em 04.12.09

Caracas, a capital do "socialismo do século XXI" que Hugo Chávez pretende exportar para todo o planeta, sob o cognome de 'V Internacional', ostenta o duvidoso título de segunda cidade mais perigosa do mundo, com uma taxa de 96 homicídios por cada cem mil habitantes - cinco vezes mais do que em São Paulo, no Brasil. Pior só mesmo a tenebrosa Ciudad Juárez, no México, que tem sido palco de sangrentas guerras entre bandos de narcotraficantes com a ambição de monopolizar o tráfico de cocaína para os Estados Unidos. O coronel que não consegue pacificar Caracas faz apelos públicos à guerra contra a vizinha Colômbia, institui "milícias populares" segundo o modelo cubano e impõe um nova Lei de Incorporação Militar que estabelece o dever de cumprir 12 meses de serviço militar a todos os cidadãos do seu país entre os 18 e os 60 anos. Um estado militarizado, armado até aos dentes nas zonas fronteiriças que não consegue impor patamares mínimos de segurança dentro das suas próprias fronteiras. Um estado que não consegue abastecer devidamente os seus cidadãos de bens essenciais, como luz e água, apesar de ser o sexto maior produtor mundial de petróleo.

Indiferente à crise social, indiferente à crise económica, Chávez sonha ser um novo Simón Bolívar. Com uma considerável diferença de escala: enquanto Bolívar libertou a América espanhola no início do século XIX, ele quer "libertar" o mundo neste início do século XXI, mobilizando a "esquerda verdadeira" contra o "capitalismo" e o "imperalismo", que lhe compram o petróleo. Segundo as previsões, 2009 deverá chegar ao fim com um número superior a três mil homicídios na capital venezuelana - só num fim de semana de Outubro registaram-se ali 65 mortes violentas.

"Andar pela bela cidade de Caracas dá medo", escreveu Pablo López Guelli, em reportagem publicada no portal de notícias da Globo. Um retrato fidedigno do "socialismo do século XXI", prestes a alastrar aos cinco continentes sob os alvores da V Internacional. A História repete-se, como ensinava Marx: primeiro como tragédia, depois como farsa. Com Chávez, chegámos à fase da farsa em todo o seu universal esplendor.

Socialismo nupcial

por Pedro Correia, em 03.08.09

 

O PS bem podia ter pedido ao Presidente da Bolívia, aliado indissolúvel de Hugo Chávez,  uma ajudinha para a elaboração do seu programa eleitoral. Em vez do cheque mixuruco de duzentos euros para "incentivar a natalidade", é bem preferível a medida já anunciada por Evo Morales: "A todo o casal que se casa o Estado tem que dar uma casa." Isto sim, é o verdadeiro socialismo. Mal soam os primeiros acordes da marcha nupcial, ganha-se o acesso à chave da residência. É fácil (para quem promete), é barato (para quem recebe) e dá milhões (aos fabricantes de tijolos e às empresas de construção civil). Desde que no fim não apareça um daqueles chatos neoliberais a perguntar quem é que paga a factura.


O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D